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11.9.23

Agora todos querem saber o que pensam os enfermeiros!

Ana Rita Cavaco, opinião,  in Público


Portugal sabe hoje, graças ao trabalho da Ordem, que quase dois terços dos enfermeiros já pensaram em mudar de profissão, que são dos mais mal pagos da OCDE e que a emigração bate recordes.


Quem é que quer saber o que pensam os enfermeiros? A pergunta pode parecer patética vista com os olhos de hoje, mas a verdade é que enchia os corredores do poder quando fui eleita bastonária há oito anos. Ninguém queria saber o que pensavam os enfermeiros, se tinham contributos para as políticas públicas de saúde, se pensavam a organização dos serviços de outra forma ou, ainda mais simples, se tinham alguma coisa a dizer sobre as suas condições de trabalho.

Das chefias diretas ao poder político, passando pelos conselhos de administração, reinava o culto do desprezo face à nossa classe profissional. Isso acabou. Muitos foram aqueles que se incomodaram com o jeito, o estilo, o tom, a voz, as denúncias e os confrontos. Para muitos, fui quase sempre excessiva, demasiado acutilante, pouco institucional. Não fui a bastonária que os poderes queriam, mas tentei ser sempre a mulher que os enfermeiros precisavam neste tempo. Acredito que as pessoas são elas e as suas circunstâncias, assim como os cargos que ocupam.


A casa que encontrei precisava de um vendaval. Estava fechada há muitos anos, cinzenta, cheia de pó e refém de certas lógicas partidárias que colocavam interesses particulares à frente das reais necessidades da enfermagem. Foi preciso abrir a janela para provocar uma tempestade útil. Foi preciso perder o medo de ir à varanda gritar, agitar, incomodar, mas não só. Ao mesmo tempo, foi necessário construir, acrescentar, mostrar ao país que somos um dos pilares do sistema de saúde e, na mesa do poder, deixar propostas claras para as mudanças que queríamos ver concretizadas na profissão.



O trabalho está à vista, até para aqueles que continuam a falar do estilo sem perceberem que foi a fatura que decidimos pagar para que os enfermeiros tivessem voz. Estou certa de que se tivéssemos escolhido o caminho que queriam, mais tranquilo e institucional, a enfermagem continuaria hoje subjugada, submissa e remetida ao desprezo. A verdade é que para a história fica uma autêntica revolução na Ordem e na forma como a sociedade se relaciona com os enfermeiros.

Hoje, sem hesitações, toda a gente consegue identificar o enfermeiro da sua vida, compreender a centralidade das suas funções, reconhecer o seu esforço, solidarizar-se com as difíceis condições de trabalho e apoiar, como não acontecia no passado, as suas formas de luta. A enfermagem deixou a escuridão e o reino do silêncio. Tem luz, voz, palco, visibilidade. As opiniões dos enfermeiros contam, basta ver todos os contributos que a Ordem deu para alterações legislativas e a forma como foram valorizados.


Hoje, como seria difícil de imaginar há oito anos, ninguém discute possíveis reformas ou alterações particulares no destino das políticas de Saúde sem querer saber o que pensam os enfermeiros. Para aqueles que nos acusaram de “popularizar” o cargo, aqui está a maior prova de credibilidade. Alguma vez imaginaram que “enfermeiro” seria Palavra do Ano? Mas foi, em 2018.


O país conhece melhor os seus enfermeiros e as suas vidas. Portugal sabe hoje, graças ao trabalho da Ordem, que quase dois terços dos enfermeiros já pensaram em mudar de profissão, que são dos mais mal pagos da OCDE e que os números da emigração bateram todos os recordes. Mas a sociedade sabe também, graças ao trabalho da Ordem no terreno, que faltam enfermeiros nos serviços, que as dotações seguras não são cumpridas, que há portugueses a morrer sem dignidade em lugares escuros a que chamam lares.


Estes oito anos foram feitos de trabalho para fora, mas também para dentro da profissão. Os enfermeiros sabem bem o que significa termos sido capazes de criar mais seis novas áreas de especialidade e dezenas de competências acrescidas. Não é apenas sinónimo de muito trabalho, mas significa, sobretudo, colocar a enfermagem no patamar de excelência que merece. Encontrámos uma Ordem profissional onde a formação era praticamente inexistente, um vazio incompreensível, mas hoje multiplicam-se as formações, a grande maioria gratuitas e geridas com uma plataforma própria.


Encontrámos uma Ordem repleta de burocracias, pesada e que não conseguia dar resposta às solicitações dos enfermeiros, mas deixamos uma casa com um balcão único onde é possível resolver todos os problemas à distância de um click ou de um telefonema para um call center que funciona.


Encontrámos uma Ordem onde os enfermeiros quase que pagavam por existir, mas deixamos uma casa onde os membros passaram a pagar menos uma quota por ano e onde as declarações e fotocópias de documentos passaram a ser gratuitas, assim como os congressos e as convenções. A isto junta-se a criação do programa Mais Enfermeiro, Mais Benefício, que disponibiliza mais de mil descontos e vantagens numa rede de serviços, um novo site que permite localizar ao minuto os enfermeiros portugueses no mundo (através de um mapa interativo).

Encontrámos uma Ordem de costas voltadas para o dia-a-dia dos enfermeiros, mas deixamos uma casa onde foi criado o gabinete de mediação de conflitos, o portal das denúncias, o repositório científico, vários prémios de investigação, os orçamentos participativos, as assembleias gerais descentralizadas, enfim, coisas que o tempo vai ensinar a valorizar.


E com isto passaram oito anos. Deixo o lugar de bastonária com a noção de dever cumprido. Prometemos devolver a Ordem aos seus membros e dar voz aos enfermeiros. Cumprimos. O caminho agora só pode ser para a frente, até porque o regresso ao passado significaria despertar aquela pergunta que enterrámos todos: “Quem é que quer saber o que pensam os enfermeiros?”


Bastonária da Ordem dos Enfermeiros


[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes ]

15.6.23

Mais salário e horário flexível: a receita da OCDE para reter médicos e enfermeiros no SNS

Ana Maia, in Público online

Envelhecimento da população e aumento das doenças crónicas vão elevar pressão sobre o sistema de saúde e o acesso aos cuidados não é igual em todo o país, aponta a organização.

A saúde em Portugal “melhorou substancialmente nas últimas quatro décadas”, mas há desafios que têm de ser ultrapassados. O envelhecimento da população e o aumento das doenças crónicas vai elevar a pressão sobre o sistema de saúde e o acesso aos cuidados de saúde não é igual em todo o país, aponta a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Um dos motivos é a falta de recursos humanos, nomeadamente médicos de várias especialidades e enfermeiros. Aumentar salários e condições de trabalho que permitam conciliar a vida profissional com a pessoal são duas das sugestões dadas para atrair e reter profissionais no SNS.

De acordo com o relatório da OCDE Economic Survey of Portugal, divulgado nesta quinta-feira, “nos próximos anos o sistema de saúde irá enfrentar um aumento dos encargos relacionados com cuidados de saúde e pressão financeira” com o continuado envelhecimento da população. Uma situação que terá reflexo na “já crescente carga de doenças crónicas e degenerativas e em multimorbidades”, refere o documento, que aponta a existência de disparidades no acesso à saúde relacionadas com questões socioeconómicas e geográficas.

“A distribuição dos recursos da saúde, incluindo estabelecimentos e profissionais, é desigual entre as regiões e resulta na falta de especialistas em algumas áreas”, salienta o relatório, que dá como um dos exemplos a falta de médicos de família que é mais pronunciada nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Algarve. Mas estas diferenças de acesso também estão relacionadas com a capacidade financeira das famílias, que lhes permite recorrer ou não a serviços privados de saúde.

A questão dos recursos humanos no SNS é um dos pontos abordados no relatório, que refere as alterações legislativas promovidas pelo Governo, com a criação da Direcção Executiva do SNS, e os investimentos previstos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para melhorar o acesso e o investimento na área da saúde. O documento salienta que o investimento previsto no PRR em equipamentos, instalações e ferramentas informáticas “ajudará a lidar com o baixo investimento anterior” no SNS.

Menos rendimento disponível

O relatório da OCDE salienta que a escassez de médicos afecta especialmente a área de medicina geral e familiar e que nos próximos anos haverá uma “onda” de aposentações. Apesar de o número de vagas para formação pós-graduada ter aumentado nos últimos anos e de o Governo ter aberto mais vagas para contratar recém-especialistas do que o número de médicos que terminou a especialidade em cada época, as reformas e a dificuldade do SNS em reter profissionais de saúde leva a que não exista um equilíbrio entre saídas e entradas, lê-se no documento.

“Condições de trabalho desvantajosas no SNS, incluindo baixos salários e poucas oportunidades de formação”, estão a tornar o sector privado e a emigração mais atraentes para os médicos, diz a OCDE, que refere que “entre 2010 e 2021, a remuneração real em euros caiu 21% para especialistas e 28% para médicos de família”. “Aumentar a remuneração para a média da OCDE e oferecer oportunidades de aumentos regulares, de acordo com o desempenho e a progressão das competências, daria maiores incentivos financeiros para trabalhar no SNS e recompensaria melhor o alto desempenho.”

Reduzir o número de horas extraordinárias e aumentar a flexibilidade de horários também podem ajudar a atrair e reter médicos, permitindo uma maior conciliação entre a vida profissional e a pessoal, aponta o relatório, que admite que esta solução poderia no imediato agravar a escassez de profissionais.

O relatório refere ainda que “há também uma margem significativa para aumentar o uso de enfermeiros”. “A formação e as qualificações dos enfermeiros abrangem actualmente um conhecimento vasto e substancial”, diz o documento, referindo que, apesar disso, o sistema de saúde “continua centrado nos médicos”. E acrescenta que as responsabilidades atribuídas aos enfermeiros em Portugal “também ficam aquém de alguns outros países da OCDE, apesar da sua rigorosa formação universitária de quatro anos”.

O relatório recorda uma recomendação de 2016 do Tribunal de Contas, que considerava que um maior relevo dos enfermeiros de família ajudaria a libertar os médicos de algumas funções. “A implementação desta recomendação pode ajudar a resolver a escassez de profissionais de saúde de maneira económica. De uma forma geral, a realocação de tarefas para aproveitar melhor as competências de farmacêuticos, nutricionistas e enfermeiros, ao mesmo tempo em que remunera essas profissões, pode ajudar a melhorar os resultados dos pacientes e o uso eficiente da força de trabalho em saúde.”

Mas o “sistema de saúde português conta com menos enfermeiros do que a média da OCDE”, aponta o relatório, salientando que 19% dos enfermeiros portugueses emigram à procura de melhores salários e condições de trabalho. Percebe-se o porquê. “Quando ajustado ao poder de compra, os enfermeiros portugueses recebem apenas cerca de 60% da remuneração média da OCDE”, lê-se no documento, que deixa recomendações para atrair mais enfermeiros para o sistema.

“Tal como para os médicos, o aumento da flexibilidade nos horários, o trabalho a tempo parcial e a gestão do trabalho em conciliação com a vida pessoal e familiar podem ajudar a aumentar a atractividade da profissão de enfermagem, especialmente para as mulheres, que representavam mais de 80% dos enfermeiros em 2021”, refere o relatório.

22.5.23

Obrigado à Joana Marques, e desculpas aos enfermeiros

Gustavo Carona, opinião, in Público



Estar do lado certo da história implica lutar pelo que está certo, mas também lutar contra o que está errado, e a Joana Marques, com a sua equipa de investigação de patetas, fá-lo como ninguém.


Eu acho que ainda não ouvi a Joana Marques a ser elogiada por aquilo que eu mais valorizo no Extremamente desagradável: a curadoria da imbecilidade e da estupidez da sociedade que insiste em proliferar, e que faz mal às pessoas e quase sempre também à sua carteira.

Claro que o facto de nos fazer rir é por si só serviço público quando se tem o brilhantismo da Joana Marques e se é tão “desagradavelmente” bem acompanhada pela Inês Gonçalves e pela Ana Galvão. Mas temos que dissecar a importância dos conteúdos desta paródia de patetices. Se por um lado há conteúdos maravilhosos sobre temas que são simplesmente algo ridículos, como a cobertura da TVI do casamento da Lili e do Bruno Carvalho, por outro há conteúdos que deviam ser “patrocinados” pelas tutelas da saúde e da educação pelo bem que trazem a Portugal e ao mundo.

Não é por acaso que a Joana Marques recolhe inimigos premium, como p.e. os negacionistas da pandemia, porque o humor consegue ser mais eficaz do que todos os consensos científicos quando se trata de explicar a leigos o quão ridículo é acreditar no ridículo. Pegando em apenas alguns exemplos mais recentes, porque a paródia é infinita como a estupidez humana, ela foi extremamente pedagógica ao apresentar-nos: os youtubers que foram ao Parlamento e confundem visualizações com credibilidade; a entrevista num programa principal da TV a uma taróloga clínica; ou uma ex-advogada a quem a pandemia serviu para mudar de rumo profissional e agora vende reiki online, em vídeos, a grupos, inclusive crianças e adolescentes que são divinamente tratados por esta “terapeuta holística” que vê luzes nas pessoas e recebe a informação no cérebro antes de as coisas acontecerem.


Estar do lado certo da história implica lutar pelo que está certo, mas também lutar contra o que está errado, e a Joana Marques, com a sua equipa de investigação de patetas, fá-lo como ninguém. Parabéns e obrigado. Serviço público.

A semana passada cometi um erro, e como tal devo um pedido de desculpas aos enfermeiros e a quem o quiser aceitar. Podia dizer que me compreenderam mal, mas prefiro assumir com humildade o erro de me ter explicado mal, ao não ter sido claro na separação dos meus dois pontos da crítica com níveis de substância incomparáveis. 1) Sou contra a retirada do médico obstetra do parto “normal, sem complicações”, e isto em nada abala a minha enorme admiração e respeito pelas competências teóricas, técnicas e humanas dos enfermeiros, em particular dos enfermeiros especialistas em obstetrícia (ESMO).

Os argumentos a favor da retirada do médico obstetra são organizacionais e economicistas, e não são argumentos de somenos importância, no entanto, eu pauto as minhas opiniões principalmente por argumentos clínicos. Argumentos estes que são no essencial obstétricos, mas não só, pois no bloco de partos há que pelo menos acrescentar o posicionamento dos anestesistas e pediatras (neonatologistas) e a forma como funcionarão, ou não, as alas com médicos e as alas sem médicos (foi com esta designação que recebi vários relatos de mulheres portuguesas muito insatisfeitas com o atendimento que tiveram durante o parto no Reino Unido). Podem discordar ou acusar-me de várias coisas, mas nunca de corporativismo, pois nunca o fui, já recusei sê-lo, já muito mais vezes fui vocal pela causa dos enfermeiros do que qualquer outra, e é bem provável que nunca mais volte a ser médico. Logo, eu não defendo os médicos, eu defendo, mal ou bem, os cuidados de saúde e as pessoas.


Quanto ao ponto 2) da minha crítica, na crónica anterior, prende-se com a negação da ciência, negação dos cuidados de saúde, e esta recente campanha de desinformação concertada que advoga de uma forma fanática o parto “natural”. Todas as áreas da saúde estão a ser atacados pelas terapias que ou não fazem nada ou fazem mal, mas foi na obstetrícia que esta ignorância muito atrevida ganhou o seu maior cavalo de batalha: o parto “natural” que faz dos médicos obstetras uns carniceiros maquiavélicos que estudaram 13 ou 14 anos apenas para maltratar mulheres e bebés.

Foi na obstetrícia que esta ignorância muito atrevida ganhou o seu maior cavalo de batalha: o parto 'natural', que faz dos médicos obstetras uns carniceiros maquiavélicos que estudaram 13 ou 14 anos apenas para maltratar mulheres e bebés

A medicina e os cuidados de saúde, dos quais a enfermagem é uma parte muito importante, foram sendo concebidos e os saberes acrescentados para contrariar a natureza que nos leva à morte cedo demais, ou ao sofrimento evitável. Se há mulheres que querem ter filhos no meio do mato, elas têm essa liberdade e esse direito, mas que o façam a saber que a probabilidade de morrerem aumenta em flecha, e a probabilidade de o bebé sair sem vida aumenta mais ainda.


E esta luta pela boa informação, pela literacia na saúde, tem de ser feita por todos os profissionais de saúde e, na minha opinião, todos estes profissionais, sejam médicos, enfermeiros ou outros, que sejam coniventes com este retrocesso de mandar de volta os partos para as cavernas desde que tenham música a gosto são cúmplices das mortes que estas teorias patéticas causam à nossa volta, e não são poucas.

O meu sincero pedido de desculpas por não ter sido claro no ponto 1) e na sua diferenciação da minha crítica reiterada e frontal a todas as pessoas que contribuem para o ponto 2), crítica para a qual temos também o incrível trabalho da Joana Marques e da sua equipa, mas não chega. Temos todos de remar com força contra a maré da estupidificação das massas.

Eu não escrevo em benefício próprio, nem escrevo preocupado se vou fazer amigos ou evitar inimigos. Eu escrevo na luta pela ciência, pela medicina, pela humanidade, e se pelo meio conseguir fazer crescer a vontade necessária para que nos sintamos cidadãos do mundo, eu fico contente por apresentar dados e emoções sobre seres humanos que ninguém quer ver.

Aqui fica mais um: “4,5 milhões de mulheres e recém-nascidos morrem todos os anos durante a gravidez, o parto, e as primeiras semanas pós-parto, o equivalente a uma morte a cada 7 segundos, de causas maioritariamente preveníveis ou tratáveis, se existissem cuidados de saúde adequados.” (relatório da ONU de 9 de Maio de 2023).

Obrigado Joana Marques, e as minhas sinceras desculpas aos enfermeiros que leram nas minhas palavras uma crítica à sua competência.

As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel da Mota a favor dos Médicos sem Fronteiras

20.5.20

Ordem quer lares de idosos dirigidos por enfermeiros

Milene Marques, in JN

A Ordem dos Enfermeiros quer que as direções técnicas dos lares de idosos sejam entregues aos enfermeiros e está a preparar uma proposta nesse sentido para a alteração da lei.
O anúncio foi feito pela bastonária Ana Rita Cavaco, na tarde desta terça-feira, durante o webinar que assinalou o Dia Internacional do Enfermeiro, sob o tema "Os enfermeiros e os desafios para a saúde".
Morreram 450 idosos infetados em lares desde o início do surto

Nesta pandemia, "ficou a nu a situação dos nossos idosos em Portugal. As pessoas preferem não ir para lares, mas sobretudo para estes lares como os temos hoje organizados. A lei e as estruturas estão completamente desadequadas. As direções técnicas dos lares têm que estar entregues aos enfermeiros", defendeu Ana Rita Cavaco. "Queremos ter lares diferentes de há 30 anos. Hoje as pessoas estão mais dependentes, têm muito mais doenças e precisam de muitos mais cuidados", disse.

Em 2017 em Portugal, mais de dois terços das pessoas com 65 anos ou mais de idade, que recebiam cuidados de longa duração, estavam institucionalizadas, segundo dados apresentados por Abel Paiva, professor da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Numa investigação sobre "o melhor cuidado para si, se um dia experimentar dependência no autocuidado", 48,6% dos inquiridos responderam que preferiam ficar em casa se houvesse condições e 11,4% optavam por ficar em casa independentemente de estarem ou não reunidas as condições.
Visitas a lares de idosos podem ser retomadas a partir de dia 18

Para a bastonária dos Enfermeiros não se pode desperdiçar a "oportunidade de mudança", nesta altura de pandemia, para se investir também nos cuidados de saúde primários, que "precisam de equipas disponíveis 24 horas por dia". Para isso diz que é necessário "mudar mentalidades" no país e priorizar o financiamento dos cuidados de saúde primários, com mais dinheiro, "em vez dos bancos".

16.4.20

Vizinhos pedem a enfermeiros que mudem de casa ou se mantenham longe

in Notícias ao Minuto

Em França, o confinamento social e o medo causado pela propagação da Covid-19, fez com que se difundissem mensagens de solidariedade... e de discriminação.

Em França, apesar de todos os dias, pelas 20h, as pessoas se encontrarem às janelas e varandas para aplaudirem os profissionais de saúde, há também quem tenha uma mensagem menos encorajadora para estes profissionais.

"Conhecendo a tua profissão, seria possível, para garantir a nossa segurança, que não toques nas portas das zonas comuns ou que, nos próximos dias, fiques alojada num outro sítio? Não leves a mal, mas eu e os outros vizinhos iríamos sentir-nos mais seguros". Esta é uma mensagem de 22 de março, que Sophie, uma auxiliar de enfermagem, encontrou quando chegou ao prédio onde vive, em Toulouse.

E este não é caso único. Em Paris, no mesmo dia, um grupo de moradores mostrou-se indignado por uma enfermeira ter mudado de casa. O proprietário da casa chegou a receber mensagens de vizinhos que diziam que "não queriam correr riscos", reporta a France Inter.

Já em declarações à estação de rádio RMC, a mãe de uma enfermeira contou, entre lágrimas, que um dia a filha encontrou presa no vidro do carro a seguinte mensagem: "Agradecemos que não estacione o seu carro junto dos nossos".

Posto isto, parece que aqueles que para muitos são os heróis desta luta, para outros se transformaram nos seus inimigos.

Recorde-se que também a região de Múrcia, em Espanha, ficou chocada com uma situação semelhante, referente a uma empregada de supermercado.

"Somos os teus vizinhos e queremos pedir-te, pelo bem de todos, que procures outra casa. (...) Aqui vivem muitas pessoas e não queremos mais riscos", podia ler-se num bilhete deixado no prédio, pelos vizinhos, a uma empregada de supermercado, que, em tempos de pandemia, continua a trabalhar para que as pessoas possam ter onde comprar comida.

21.3.14

Violência na saúde aumentou no início do ano e corresponde já a metade do ano anterior

Catarina Gomes, in Público on-line

Situações reportadas à Direcção-Geral de Saúde ocorrem mais em hospitais do quem em centros de saúde.

Em Janeiro e Fevereiro deste ano a Direcção-Geral de Saúde (DGS) recebeu 97 notificações de episódios de violência contra profissionais de saúde, acumulando em apenas dois meses quase metade dos registos verificados em todo o ano de 2013, revelam os dados disponibilizados no site da instituição. No último relatório sobre este tema (de 2011), os enfermeiros surgiam como principais vítimas e estavam sobretudo em causa situações de discriminação/ameaça, injúria e a pressão moral.

Desde 2007 que o Observatório Nacional da Violência Contra os Profissionais de Saúde, que funciona na DGS, contabiliza registos deste fenómeno online, considerando que “a violência contra profissionais de saúde no local de trabalho se manifesta como um problema generalizado e frequente em Portugal, bem como em todo o mundo, sendo, inclusivamente, considerada um problema de saúde pública, a nível internacional, pela Organização Mundial da Saúde.”

O registo começa nesse ano apenas com 35 queixas, atingindo o número mais alto no ano passado com 202 casos. Mas o aumento pode não corresponder a uma subida efectiva de violência no sector e sim a uma maior sensibilização para o problema por parte dos profissionais que o reportarão com mais frequência. O PÚBLICO aguarda esclarecimentos por parte da DGS.

O último relatório que faz o balanço da situação e está online é de 2011, quando houve 154 registos. Aí se diz que o maior número de episódios de violência ocorre nos hospitais e, com menos frequência nos centros de saúde, “possivelmente por neles existirem maior número de profissionais de saúde e por se encontrarem nas urgências hospitalares maior percentagem de situação agudas”, escreve-se.

As vítimas predominantes são os enfermeiros e os médicos, são geralmente do sexo feminino com idades compreendidas entre os 30 a 49 anos. O sexo do agressor tinha sido ao longo de quatro anos predominantemente masculino mas em 2011 passou a ser feminino, representando 56% dos agressores.

Os tipos de violência com maior expressão nesse ano foram a discriminação/ameaça (21,2%), injúria (20,6%), seguidas da pressão moral e da calúnia, que representavam 17,1% e 16,5% dos registos. A agressão por assédio sexual é a menos registada com uma frequência absoluta de apenas dois casos, representando 0,6% do total de registos.

A maioria das vítimas revelou-se muito insatisfeita perante a forma como a instituição geriu os episódios de violência, considerando em 50% dos casos que esses episódios poderiam ter sido prevenidos e reconhecendo, em igual proporção, que os actos de violência contra os profissionais de saúde na instituição em causa são habituais. Apenas 20% (31) dos episódios notificados foram participados à autoridade, gerando autos.