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5.7.23

Não são imigrantes, são franceses

Teresa de Sousa, opinião, in Público

Os temas da actualidade global, pelo olhar de Teresa de Sousa.


Caro leitor, cara leitora,

Começo por confessar que Paris é, para mim, uma espécie de segunda pátria. Foi lá que vivi o meu exílio; pouco tempo, é verdade, mas o suficiente para ter experimentado pela primeira vez a maravilhosa sensação de viver em liberdade.

Nessa altura, os imigrantes portugueses (centenas de milhares) ainda viviam em condições precárias, mas os "argelinos" ou "magrebinos" serviam-lhes de "pára-raios" – ouvi esta expressão num comentário de um autarca português em França durante a rebelião dos jovens dos banlieues parisienses e das cidades que rodeiam a capital francesa. Nessa altura, se houvesse um distúrbio, um crime, um roubo, uma bagarre, a culpa só podia ser deles. Os tempos eram outros. Tinha passado relativamente pouco tempo sobre a independência da Argélia – um acontecimento profundamente traumático para a França.


Hoje a realidade é totalmente diferente. Há, no entanto, alguns problemas que persistem. Foi em 2002 que o professor francês George Bensoussan coordenou um livro com depoimentos de alguns dos seus colegas das escolas das periferias, que é repetidamente recordado sempre que os banlieues se incendeiam. Chama-se Les Territoires Perdus de la Republique – antisémitisme, racisme et sexisme en milieu scolaire, e invoca uma certa degeneração geral, "um mal-estar, ao mesmo tempo social, cultural e identitário".

[...]2005
Em 2005, ainda com Jaques Chirac, os banlieues abandonados de Paris incendiaram-se por causa da morte de dois jovens, electrocutados quando se esconderam numa caixa de electricidade para fugir à polícia. Ainda quase não havia redes sociais, mas existiam os mesmos problemas de comunidades que se sentiam excluídas e discriminadas pela sociedade, que viviam fechadas em territórios onde até a polícia tinha dificuldade em entrar, segundo leis que não eram, muitas vezes, as da República, mas que a retórica republicana preferia ignorar.


[...]2019
Depois, muito depois, em 2018-2019, houve o movimento dos "gilets jaunes", que nasceu entre as classes médias baixas das cidades de província, confrontadas com a subida do custo da gasolina e do gasóleo, graças a uma taxa aplicada pelo Governo em nome do combate às alterações climáticas.
[...]2023
Desta vez, foi a morte de um jovem de 17 anos, de origem argelina, que resultou de uma operação stop da polícia em ­Nanterre. Um dos polícias que o mandou parar baleou-o no peito, provocando-lhe a morte imediata. Já foi acusado de homicídio voluntário. As circunstâncias exactas ainda não são conhecidas, embora um dos outros jovens que viajava no mesmo carro (um Mercedes) tenha filmado quase tudo e o vídeo se tenha tornado, obviamente, viral.
[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

8.7.21

Pobreza, pandemia e solidariedade na comunidade portuguesa em França

 Daniel Bastos, in TVEuropa

A pandemia agravou a vida a muitos portugueses por cá e por lá na situação de emigrantes. Daniel Bastos dá-nos, neste seu artigo, uma visão das muitas dificuldades dos emigrantes portugueses em França mas também de atos de solidariedade.

O impacto da pandemia que assola o mundo tem agravado e desvendado várias situações de emigrantes portugueses envoltos nas dificuldades do isolamento, das malhas da pobreza, do flagelo do desemprego e da precariedade.

Nos últimos tempos, têm sido conhecidos, por exemplo, no seio da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, vários casos de emigrantes que viram a pandemia reduzir os seus salários ou ficarem mesmo sem trabalho, não conseguindo por via disso pagar a renda da casa e consequentemente soçobrar perante o espectro da pobreza.

Ainda no final do mês de junho, o Presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia de Paris, Manuel Antunes da Cunha, revelou no decurso das XI Jornadas Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Paris, que seis portugueses, entre os 38 e 82 anos, encontram-se entre as 535 pessoas que morreram nas ruas de França em 2020. Segundo o dirigente da instituição de assistência social lusa em Paris, região onde pereceram cinco mendigos portugueses no ano passado, muitas das vezes olvidamos os compatriotas “cujos percursos de vida não foram os desejáveis para eles e, portanto, em situações de pandemia, aqueles que estão no limiar da pobreza ou têm uma vida remediada rapidamente se encontram em situações de precariedade”. No entendimento do mesmo, a “pandemia põe à vista as dificuldades de uma população que está na fronteira do limiar da pobreza. Há um conjunto de pessoas da nova migração para França que vieram em condições difíceis e não têm retaguarda familiar”.

Este cenário de intrincadas dificuldades decorrentes do cenário pandémico tem sido essencialmente mitigado no seio da comunidade portuguesa em França através de um enorme espírito entreajuda e solidariedade, que tem inclusivamente contribuído decisivamente para a prossecução da missão da instituição de assistência social lusa em Paris. Ainda no ocaso do mês de junho, o coletivo “Todos Juntos”, voltou a mobilizar-se para ajudar a Santa Casa da Misericórdia de Paris numa campanha de recolha de géneros alimentícios, produtos de higiene e outros bens essenciais destinados a apoiar famílias portuguesas carenciadas

Este espírito de entreajuda e solidariedade tem sido igualmente profusamente dinamizado ao longo dos últimos anos pela ação benemérita do empresário luso-francês João Pina, instituidor da Fundação “Nova Era Jean Pina”, e que tem sido responsável pela promoção de projetos de cariz sociocultural em prol das pessoas mais desfavorecidas ou vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados. Ainda recentemente, a Fundação Nova Era, assinou um contrato de aluguer de um apartamento que albergou um lusodescendente, residente em França, que se encontrava há vários meses a residir num espaço sem as condições mínimas de habitabilidade.

Estes exemplos inspiradores de entreajuda e solidariedade, e muitos outros que estão a ser dinamizados no seio da comunidade portuguesa em França, assim como um pouco toda a diáspora lusa, têm sido fundamentais para mitigar os efeitos adversos da pandemia, e dão sentido à citação do afamado advogado Clarence Darrow: “O homem que luta por outro é melhor do que aquele que luta por si próprio”.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor.

21.1.21

Sem-abrigo sujeito a mudança de imagem. O resultado... é incrível

Por Notícias ao Minuto

Mudança prova que, às vezes, as aparências iludem.

"Não devemos julgar as pessoas pela aparência". Quantas vezes não ouvimos este conselho, sabendo contudo que nem sempre esta corresponde à realidade?

Este sem-abrigo pode ser a prova de que uma boa imagem, pode mudar a forma como as pessoas o vão julgar.

O cabeleireiro francês David Kodat decidiu conceder ao homem a oportunidade de lhe cortar o cabelo e a barba e mudar a sua imagem.

O resultado, partilhado na conta de TikTok do barbeiro, mostra como atrás de um cabelo emaranhado estava, afinal, um homem bem apresentado.

Em reação à mudança de visual, muitos foram os que teceram elogios. Um internauta chega mesmo a afirmar que "já se via bondade" nos olhos do homem, mas agora essa estava ainda mais "patente".


12.1.21

Covid-19: escolas abertas ou escolas fechadas? Na Europa não há uma receita única

Maria João Guimarães, in Público on-line

França, que recomeçou as aulas presenciais na semana passada, é a maior excepção.

Muitos países europeus estão a adiar o regresso às aulas depois de estudos apontarem para um maior papel das crianças e adolescentes na transmissão do vírus que provoca a covid-19. França é a maior excepção e aposta nos testes rápidos para detectar casos antecipadamente.

Espanha

Muitas regiões mantêm as escolas sem aulas, algumas por causa das taxas de incidência do coronavírus, outras por causa dos nevões e do frio. A Catalunha é uma das excepções e depois de três dias extra nas férias de Natal, as aulas presenciais recomeçaram esta segunda-feira.

As autoridades espanholas defendem que as escolas não são locais de grande contágio, apoiados pelos dados do primeiro trimestre do ano lectivo.

No geral, o aumento da taxa de incidência no país (quase 300 casos por cem mil habitantes) levou a mais restrições em várias regiões, incluindo encerrar mais cedo restaurantes ou mesmo permitir apenas que funcionem com refeições para fora. Há restrições adicionais para a circulação que afectam mais de um milhão de residentes.

Alemanha

As escolas continuam fechadas desde que foi decretado o segundo confinamento no país (de 16 de Dezembro) e vão manter-se assim na maior parte dos estados federados. A partir desta segunda-feira, cada estado poderia decidir reabrir as escolas, se a média de novos casos a sete dias descesse (para 50 novas infecções por cem mil habitantes).

O maior problema na Alemanha é que as aulas à distância nem sempre funcionam – as plataformas de ensino à distância caem e os alunos ficam sem aulas, conta uma reportagem da emissora Deutsche Welle.

Noutras restrições no país, está encerrado o comércio não essencial, lazer e cultura, restaurantes funcionam apenas em take-away e é fomentado o teletrabalho. Moradores de regiões com alta incidência de casos (mais de 200 novos casos por 100 mil habitantes nos últimos sete dias) não se podem afastar mais de 15 km sem motivo válido.

França

As aulas recomeçaram a 4 de Janeiro, e o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, diz que o encerramento apenas se justifica “em países com vagas epidémicas particulares” e sublinhando que em França “há um protocolo já com provas dadas” e que será “reforçado” se for necessário. Antes das férias de Natal, a taxa de infecções nas escolas não era mais do que 0,3%, justificou, e vão ser feitos um milhão de testes rápidos nas escolas durante o mês de Janeiro.

Em caso de endurecimento de medidas, as escolas serão as últimas a fechar, disse o ministro. O director-geral da Saúde, Jérôme Salomon, declarou que é preciso estar “muito atento ao meio escolar e universitário” também pela possibilidade de regresso de jovens a viagens ao Reino Unido onde circula uma variante com maior transmissibilidade. Os professores deverão ser vacinados em Abril, logo que termine a actual fase de vacinação de grupos prioritários.

Entre as restrições em vigor neste momento estão o recolher obrigatório (das 20h às 6h, em algumas regiões das 18h às 6h), e os restaurantes mantém-se fechados apenas com serviço de take-away até meados de Fevereiro.

Itália

A grande maioria das regiões italianas optaram por manter as escolas (excepto as primárias) fechadas e as aulas em regime virtual, e apenas três regiões permitiram o regresso de alguns alunos às escolas (Toscânia, Abruzzo, Valle D’Aosta).

Houve uma série de protestos de alunos e pais pedindo o regresso às aulas presenciais – que o Executivo nacional defendia (para 50% dos alunos), mas a decisão foi deixada às regiões e a maioria preferiu não ter aulas presenciais, o que segundo o jornal Il Sole 24 Ore causou “uma confusão geral e disparidade entre alunos” pelo país.

As regiões prevêem recomeçar as aulas presenciais até 1 de Fevereiro, mas o país deverá reforçar medidas restritivas na sexta-feira.

Quanto a outras medidas, de momento está em vigor uma restrição de movimento entre regiões, e restaurantes operam (até às 18h, ou apenas com take-away) conforme a taxa de transmissão em cada região.

Reino Unido

Escolas e universidades estão em regime de ensino à distância até pelo menos meados de Fevereiro, e os exames de final do ano já não vão ser feitos como estava previsto. O Governo de Boris Johnson diz que as medidas são necessárias por causa da nova variante que se transmite com maior facilidade, e pede um esforço adicional na “última fase da luta”, quando as restrições acontecem ao mesmo tempo que a vacinação e as autoridades de saúde avisam que a situação “ainda vai piorar antes de ficar melhor”.

As escolas continuam, como no primeiro confinamento, a receber alunos em situação vulnerável ou de trabalhadores essenciais. Mas responsáveis de várias escolas em Inglaterra estão a queixar-se, segundo o Guardian, de receber muito mais pedidos de pais para que os filhos tenham aulas presenciais do que no primeiro confinamento, levando a medo de que esgotem a sua capacidade.

O país está no seu terceiro confinamento, com restrições como encorajamento do teletrabalho e restaurantes apenas com take-away.

Áustria

Na Áustria, as escolas estão em ensino à distância pelo menos até ao final desta semana. O ministro da Educação, Heinz Fassmann, diz que não é possível ainda dizer quando recomeçará o ensino presencial, algo que admite que gostaria que acontecesse o mais rapidamente possível. O Governo vai ter, a partir de 18 de Janeiro, 5 milhões de testes rápidos que esperam que sejam feitos antes de os alunos regressarem às salas de aula.

Além disso, os professores deverão começar a ser vacinados em Fevereiro. Antes, duas medidas para combater a transmissão do vírus nas escolas foram declaradas ilegais pelo Tribunal Constitucional: os juízes disseram que o Governo não deu razões suficientes para decretar o uso obrigatório de máscara e a divisão de turmas em dois turnos alternados (alguns alunos à 2ª e 3ª feira, outros à 4ª, 5ª e 6ª, tendo de ficar em casa nos outros dias).

A Áustria está no seu terceiro confinamento nacional, mantendo abertas apenas lojas essenciais.


30.10.20

PIB da zona euro aumenta 12,7% no terceiro trimestre

Isabel Aveiro, in Público on-line

Economia recuperou no terceiro trimestre face ao período de Abril a Junho, em que o continente esteve na sua maioria com medidas de confinamento mais ou menos severas. Face ao terceiro trimestre de 2019, as quedas são de 4,3% na zona euro e de 3,9% na União Europeia

O Produto Interno Bruto (PIB) da zona euro subiu 12,7% no terceiro trimestre deste ano, face ao trimestre imediatamente anterior, de acordo com a estimativa rápida do Eurostat, divulgada esta sexta-feira. Na União Europeia a 27 Estado-membros, o crescimento trimestral em cadeia foi de 12,1%.

O gabinete estatístico da União Europeia avança, no comunicado emitido esta manhã, que as tuas subidas trimestrais em cadeia, na zona euro e na UE, “foram, de longe, a maiores observadas desde que a série teve início, em 1995”.

São também uma recuperação das quedas verificadas no PIB do segundo trimestre (de Abril a Junho de 2020), quando a economia sofreu uma contracção de 11,8% na zona euro e de 11,4% na União a 27 Estados.

Ao comparar com o mesmo trimestre, mas de 2019, a evolução permanece, contudo, negativa, de 4,3% para a zonae euro e de 3,9% para o conjunto da União Europeia.

Portugal, já o Instituto Nacional de Estatística (INE) tinha divulgado minutos antes, registou uma recuperação de 13,2% em cadeia no terceiro trimestre, face aos três meses imediatamente anteriores (quando o PIB teve uma queda abrupta de 13,9%). Todavia, face a igual período de 2019, o PIB português registou uma queda de 5,8%.

O desempenho português é pior que a queda homóloga média já referida para a zona euro e para a UE, face ao terceiro trimestre de 2019, mas melhor do que a Espanha (cujo PIB caiu 8,7% face a igual período do ano passado).

Espanha foi, contudo, o segundo país da UE com a maior recuperação trimestral em cadeia, de 16,7% (recuperando parcialmente da queda do PIB de 17,8% no segundo trimestre, em cadeia), só superada pela França, cuja economia cresceu 18,2% entre Julho e Setembro, face aos três meses anteriores (e após uma queda de 13,7% do PIB no segundo trimestre).

A Alemanha, maior economia da zona euro, registou uma subida de 8,2% do PIB no terceiro trimestre, face ao segundo (quando a economia tinha contraído 9,8%). Face a igual trimestre de 2019, o PIB germânico recuou 4,2% entre Julho e Setembro.

31.8.20

Como vai ser o regresso às aulas na Europa

Maria João Guimarães, in Público on-line

Arejar os espaços, limitar os os contactos físicos e, nalguns casos, oferecer testes, fazem parte do leque de medidas pensado pelos vários países. O uso de máscara não faz unanimidade.

Com máscara ou sem ela, com turmas mais pequenas ou iguais, com janelas abertas ou verificação de ares condicionados, o regresso às aulas vai ter regras diferentes por toda a Europa.

França

Aulas recomeçam a 1 de Setembro e são de frequência obrigatória
Alunos com mais de 11 anos têm de usar máscara, excepto quando forem comer ou fazer exercício
Professores e funcionários têm de usar máscara sempre, e não apenas quando não for possível cumprir a distância mínima de um metro
Todas as salas de aula têm de ser arejadas “tão frequentemente quanto possível e pelo menos 15 minutos de cada vez”
Corredores da escola serão de sentido único
Em caso de surtos, é equacionado o encerramento das escolas afectadas

Espanha 

Aulas começam em datas diferentes conforme as regiões, as primeiras a 7 de Setembro
Divisão de turmas na primária em “bolhas” de 15 a 20 alunos que não terão contactos com outros
Alunos com mais de seis anos têm de usar máscara nas aulas, com excepção de alunos nas “bolhas”
Contratação de 11 mil professores para ter turmas mais pequenas
Uso de bibliotecas e cantinas como sala de aula, para ter mais espaço
Prioridade a actividades ao ar livre
(O Governo catalão disponibiliza espaços em 74 locais como museus ou bibliotecas e 159 em praças ou parques para aulas ou recreio se for necessário reduzir o número de alunos por “bolha”)

Alemanha

Ano lectivo já recomeçou em vários estados (o início faseado do ano escolar acontece sempre, não tem a ver com a pandemia)
Uso de máscara fora das aulas, mas não durante, porque prejudicaria a capacidade de aprender dos alunos (a excepção era o estado federado da Renânia do Norte-Vestfália, onde deixará de ser obrigatória 2ª. feira)
Regras decididas pelos estados federados
Testes oferecidos a professores antes do recomeço das aulas
Turmas mais pequenas, com menor interacção, para evitar encerrar uma escola inteira caso haja casos de infecção
Indicação para arejar salas sempre que possível

Itália
Aulas recomeçam a 14 de Setembro
Dois milhões de testes disponíveis para professores que os queiram fazer
Máscaras obrigatórias para professores, funcionários, e para alunos dos seis aos 18 anos, quando não for possível manter distância
Viseira obrigatória para professores
Aulas dadas em espaços exteriores quando for possível
Semana lectiva estende-se até sábado para permitir menor concentração de alunos
Alunos do secundário com familiares em grupos de risco poderão optar por ensino à distância
Pais encarregados de medir a temperatura e não levar os filhos à escola se tiverem mais que 37º. Na Campânia, a temperatura será medida na escola

Reino Unido
 
Recomeço do ano escolar a 4 de Setembro
Locais para lavar as mãos à entrada das escolas
Remoção de bebedouros
Início e fim de aulas e pausa para almoço em horários desencontrados para evitar concentração de pessoas
Janelas das salas de aula vão estar abertas
Possível sistema misto de aulas presenciais e online, com objectivo a ser a maior percentagem ser presencial

Bélgica

Recomeço das aulas a 1 de Setembro
Regras decididas pelas regiões
Professores e alunos com mais de 12 anos têm de usar máscara
Se os números de infecção subirem mais em alguma localidade, alunos do secundário serão divididos em dois grupos e vão ter aulas em semanas alternadas

Grécia 

Início do ano lectivo marcado para 7 de Setembro, mas Governo avisa que poderá ter de adiar
Limite de 17 alunos por turma
Uso obrigatório de máscaras nos espaços interiores
Vão ser oferecidas máscaras de tecido, reutilizáveis, a alunos e professores
Alunos da primária vão receber garrafa reutilizável para não usarem bebedouros públicos

Países Baixos 

Início do lectivo: 17 de Agosto (Norte), 24 de Agosto (Sul) e 31 de Agosto (Centro), o início é sempre em datas diferentes (não se deve à pandemia)
Não estão previstas alterações ao número de alunos por turma
Alunos que estejam dentro de grupos de risco, ou que vivam com familiares nessas condições, podem optar por não ter aulas presenciais
Uso de máscaras não é obrigatório, mas há escolas que estão a pedir a sua utilização
Recomendação às escolas para que verifiquem os sistemas de ar condicionado para assegurar que não facilita transmissão do vírus

28.4.20

Com menos covid-19 e mais desemprego, Velha Europa começa desconfinamento

Susana Salvador, in DN

À medida que as taxas de infeção vão caindo e aumentam as dificuldades económicas e a pressão das populações para o fim do confinamento, Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido dão passos para a nova normalidade.

Com os resultados do confinamento a que grande parte da população foi sujeita nas últimas semanas a começarem a sentir-se nos números divulgados diariamente de infetados e de mortes por novo coronavírus, ao mesmo tempo que os números da economia vão acentuando a ideia de crise, os governos começam a planear a seguinte fase: o desconfinamento. Mas se mandar toda a gente para casa foi fácil, permitir que saiam revela-se um processo muito mais complicado.

Na Velha Europa, Espanha e França apresentam nesta terça-feira as suas estratégias. Itália já o fez neste domingo, enquanto a Alemanha já começou na semana passada a tomar algumas medidas de abertura. O Reino Unido, que demorou mais tempo a optar pelo confinamento, está também mais atrasado.

De volta ao trabalho depois de ele próprio ter sido infetado, o primeiro-ministro Boris Johnson pede paciência e avisa que ainda é cedo para começar a levantar as restrições, admitindo sempre ter consciência do impacto que tal decisão tem para a economia.

Todos os planos vêm sempre acompanhados de alertas para eventuais segundas vagas de covid-19, que poderiam levar a novo confinamento. E uma das coisas que têm em comum é o facto de preverem todos o uso obrigatório de máscaras, nem que seja nos espaços públicos fechados e nos transportes.

A Organização Mundial de Saúde alertou para o risco de um desconfinamento precipitado poder ter um "impacto maior" a nível económico. "Os governos têm que pôr na balança as vidas e a economia. Mas sem dar passos demasiado rápidos, arriscam-se a sofrer um impacto maior na economia", disse o diretor executivo Mike Ryan.

Espanha

É o segundo país do mundo com mais casos de covid-19 confirmados, depois dos EUA, tendo o primeiro caso positivo sido detetado a 31 de janeiro. No balanço divulgado já esta terça-feira voltou a registar-se uma quebra no número de mortos - mais 301 em 24 horas, para um total de 23 822 desde o início da epidemia. Foram ainda registados mais 1308 casos, num total de 210 773. Destes, 102 548 estão curados. Na prática, isso significa pouco mais de 85 mil casos ativos. A taxa de infeção (R) é atualmente de 1.

O momento mais visível do início do desconfinamento foi a saída à rua, este domingo e pela primeira vez desde que foi decretado o estado de alarme a 14 de março, das crianças com menos de 14 anos. Segundo as regras, estas podem agora sair uma vez por dia, entre as 9.00 e as 21.00, mas num raio de um quilómetro das suas casas e sempre acompanhadas por um adulto.

MUNDO
Espanha. Um mês e meio depois, as crianças voltaram à rua (veja as fotos)
O desconfinamento começará contudo apenas a partir de 2 de maio, devendo ser aprovado esta terça-feira pelo governo espanhol. Uma coisa é certa, a aplicação não será igual em todo o território espanhol e, ao contrário do que queriam as diferentes comunidades autónomas, será coordenado pelo executivo.

Há comunidades autónomas que já têm os seus planos próprios, mas tudo vai depender do que o governo disser esta terça-feira, depois do conselho de ministros. O plano, disse Sánchez no fim de semana, está a ser preparado há três semanas, sendo que os líderes autonómicos foram ouvidos esta segunda, para darem as suas sugestões.

A ideia é a partir deste 2 de maio ser possível sair à rua para fazer desporto, sozinho ou com as pessoas com quem vive. Até agora, os adultos só podiam sair para ir trabalhar (se não o pudessem fazer através de teletrabalho), comprar comida, ir à farmácia ou ao médico, passear o cão ou ajudar familiares com necessidades.

Mas o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reitera que é preciso ir com calma, aplicando medidas de prevenção e dando atenção especial à higiene. "Convém não subestimar o inimigo", referiu. O estado de alarme declarado a 14 de março, tendo a 28 de março sido proibidas todas as atividades não essenciais no país (que só levantou a 13 de abril). O estado de alarme já foi prorrogado em três ocasiões e tudo indica que será uma quarta vez, até 24 de maio.


ESPANHA
"Como é possível Portugal ter 700 mortos e nós mais de 20.000"? A pergunta da oposição a Pedro Sánchez
A nível económico, as previsões mais otimistas são para uma queda de 7% do PIB este ano, mas as mais pessimistas apontam para uma queda de 12,5%. Em Espanha, cerca de quatro milhões de trabalhadores em lay-off e mais de um milhão de trabalhadores por conta própria pediram ajuda por terem sido obrigados a suspender a atividade. A 20 de abril, havia ainda registo de 3,7 milhões de desempregados.

França

As autoridades francesas anunciaram mais 437 mortes por covid-19 esta segunda-feira, elevando para 23 293 o número de mortes desde o início da pandemia no país. Há 128 339 casos, dos quais 28 055 hospitalizados (menos 162 que na véspera).

O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, vai apresentar esta terça-feira às 15.00 (14.00 em Lisboa) o plano de desconfinamento, que deverá começar a ser implementando a partir de 11 de maio. Os franceses estão confinados desde 17 de março e, segundo uma sondagem da semana passada, já só 43% apoiam as medidas de confinamento -- menos oito pontos percentuais que na semana anterior.

A ideia é que o plano, apresentado por Philippe aos deputados, seja discutido e votado de seguida, apesar das queixas da oposição, por ter pouco tempo para o estudar. "Vou apresentar a estratégia nacional de desconfinamento esta terça-feira à tarde, na Assembleia Nacional, em volta de seis temas: a saúde (máscaras, testes, isolamento...), escola, trabalho, comércio, transportes e reuniões de pessoas", escreveu o primeiro-ministro no Twitter.

O plano será nacional, com o Palácio do Eliseu a ter rejeitado a ideia de um desconfinamento por região. Para proteção, o uso de máscaras será obrigatório, sendo que desde esta segunda-feira que as farmácias podem voltar a vendê-las (tinham sido todas confiscadas no início de março e estavam indisponíveis). A ideia é haver 26 milhões de máscaras disponíveis para o público em geral todas as semanas.

O objetivo do governo é que as crianças possam regressar progressivamente às creches e às escolas a partir de 11 de maio, indo contra o defendido pelo conselho científico, que queria um regresso apenas em setembro. Os pais que não queiram que os filhos voltem à escola estão obrigados a seguir com o ensino à distância, mas a medida enfrenta também a oposição de alguns professores.

Crianças transmitem o vírus? Novo estudo sobre caso em França levanta dúvidas
A nível do regresso ao trabalho e da abertura dos comércios, ainda não são conhecidos pormenores. A abertura progressiva da economia permitirá começar a lidar com a crise que o coronavírus trouxe. O governo prevê que o PIB caia 8% este ano.

França registou, esta segunda-feira, um aumento histórico no número de desempregados da categoria A (a maioritária, que inclui aqueles que são obrigados a uma procura ativa de emprego) em março: foram mais 246 100, isto é, 7,1%, para um total de 3,7 milhões de pessoas sem emprego nesta categoria no país. No total, nas categorias A a C (que inclui aqueles que fizeram trabalho temporário no último mês) o número dos sem emprego ascende a 5,7 milhões.

Itália

É o país europeu com maior número de mortos, ficando a nível global apenas atrás dos EUA. A Itália registou na segunda-feira mais 333 mortes, elevando para 26 977 o total desde o início da pandemia. Há ainda a registar mais 1739 casos, para os 199 414. Há ainda 66 624 recuperados. Os casos ativos são assim cerca de 105 mil.

As restrições impostas em Itália a 9 de março vão começar a ser levantadas a 4 de maio, mas o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, já avisou que todos vão ter que usar máscaras em locais públicos e continuar com as medidas de distanciamento social. A Itália vai entrar numa era de "responsabilidade e coexistência com o vírus", disse o chefe de governo numa declaração à nação, no domingo.

Nessa mesma intervenção, Conte anunciou o cronograma de retoma da atividade económica. Já esta segunda-feira, as empresas consideradas "estratégicas", nomeadamente aquelas com atividades produtivas e industriais mais orientadas para a exportação (indústria automóvel e moda) puderam reabrir. Empresas de construção e fábricas podem retomar quando tiverem garantidas as condições de segurança para funcionários.

A 4 de maio, haverá a abertura de mais algumas atividades, podendo ser possível passeios nos parques (que vão reabrir) e visitar familiares (mantendo sempre as distâncias de segurança). As reuniões sociais continuam proibidas.

A celebração de funerais será retomada, mesmo que com apenas a presença de 15 pessoas (de preferência ao ar livre e sempre com máscara). A Igreja Católica já lamentou que no cronograma não haja referência ao retomar das cerimónias religiosas, com Conte a ouvir as críticas e a convocar os bispos para consultas.

A 18 de maio, a ideia é reabrir os comércios, museus, estabelecimentos culturais e bibliotecas, estando a reabertura completa de bares e restaurantes prevista para 1 de junho, quando também devem reabrir salões de beleza. As medidas de segurança têm sempre que ser respeitadas.

No desporto, os atletas de desportos individuais podem voltar aos treinos a 4 de maio, mas os de desportos coletivos só o podem fazer duas semanas depois, no dia 18. O que não agradou às equipas de futebol. As competições de futebol devem regressar em junho.

A reabertura das escolas será só em setembro.

A pandemia e as medidas de confinamento paralisaram a economia italiana. Segundo previsões do governo, o país deve entrar em recessão este ano, com uma queda de 8% do PIB. O défice público subirá para os 10,4% do PIB, contra os 2,2% que eram esperados antes do coronavírus, e a dívida pública deve saltar para 155,7% do PIB.

Alemanha

Regresso às aulas na Baviera.

Graças a uma estratégia de testagem alargada, a Alemanha conseguiu responder à pandemia, sem que o seu sistema de saúde ficasse sobrecarregado (ajudou até os países vizinhos), e mantendo os números de mortos controlados.

Esta segunda-feira, a Alemanha confirmou mais 1018 casos de covid-19, num total de 155 193 desde o início da pandemia, e o número de mortos subiu 110 para os 5750. A taxa de infeção caiu há duas semanas abaixo de 1, com o ministro da Saúde, Jens Spahn, a dizer que a pandemia estava controlada.

Mas esse controlo faz com que comecem a surgir críticas, pedindo um rápido levantar do confinamento para começar o mais rapidamente a travar a crise económica.

As restrições começaram a ser levantadas na semana passada, com a abertura dos comércios de até 800 metros quadrados, sendo que cada estado tem liberdade para implementar o calendário que quiser. E os especialistas temem que possa haver uma interpretação criativa das regras, levando a um novo pico.

O uso de máscaras é agora obrigatório nos transportes públicos e, nalguns estados, dentro das lojas, sendo que elas podem ser adquiridas em máquinas de venda automática.

A maior parte das crianças ainda vão continuar em casa, mas há alunos já de volta às aulas, sendo que os que se preparam para os exames vão voltar até dia 4. Nas escolas, as máscaras devem ser usadas nos corredores e durante os intervalos -- nas aulas as carteiras estão a uma distância de segurança umas das outras e é mais fácil a limpeza com desinfetante.

Livrarias, stands de automóveis e lojas de bicicletas também reabriram na semana passada. Os negócios que tinham sido fechados por não serem considerados essenciais, como por exemplo cabeleireiros, vão reabrir também a partir de dia 4.

Grandes eventos e ajuntamentos de pessoas continuam a ser proibidos, pelo menos até 31 de agosto. Restaurantes, cinemas e lojas de grandes dimensões também vão continuar para já fechadas.

Apesar de os alemães concordarem com as medidas de confinamento, e da chanceler Angela Merkel gozar de uma elevada aprovação na forma como lidou com a pandemia, começam a ouvir-se vozes de descontentamento, tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Este fim de semana houve um protesto em Berlim a pedir "liberdade" e o fim do confinamento.

ALEMANHA
Merkel quer sair em 2021. Vai a pandemia mudar isso?
E os políticos também não poupam críticas. "Quando oiço que proteger vidas deve ser mais importante do que tudo o resto, não acho que seja totalmente verdade" disse o ex-ministro das Finanças e atual presidente do Parlamento alemão, Wolfgang Schäuble, numa entrevista ao Der Tagesspiegel. "Os efeitos enormes económicos, sociais, psicológicos e outros precisam de ser pesados", acrescentou.

O gigante europeu não está imune em termos económicos à pandemia, com as previsões a apontarem para uma contração da economia em 7% em 2020, com o país já tecnicamente em recessão.

No início de abril, havia registo de quase meio milhão de empresas a pedir o apoio do estado, estimando-se que quase nove milhões de trabalhadores estivessem em lay-off. Há especialistas que acreditam que o desemprego, em queda há anos na Alemanha, pode subir para os 6% (era de pouco mais de 3% em fevereiro).

Reino Unido

O país que começou por apostar na ideia de imunidade de grupo até perceber que esta podia implicar 250 mil mortes, não quer para já falar de desconfinamento. Mas aumenta a pressão sobre o governo britânico para apresentar os planos para uma reabertura da economia.

Esta segunda-feira, o Reino Unido anunciou mais 360 mortes por coronavírus nos hospitais, elevando para 21 092 o número total de óbitos desde o início da pandemia. Dados que não incluem, por exemplo, os "milhares de mortos" nos lares de idosos, segundo os trabalhadores da área.

No regresso ao trabalho após ter estado ele próprio infetado (e hospitalizado, com uma passagem pelos cuidados intensivos), Boris Johnson pediu aos britânicos para "conterem a impaciência". O confinamento começou a 23 de março no país.

Admitindo os problemas que o confinamento prolongado representa para a economia, o primeiro-ministro avisou contudo que é preciso "reconhecer o risco de um segundo pico, o risco de perder o controlo do vírus", porque isso "seria não apenas uma segunda vaga de morte e doença, mas um desastre económico".

REINO UNIDO
Boris: da "imunidade de grupo" ao medo do segundo pico
Só em duas semanas no final de março, perto de um milhão de pessoas concorreram a benefícios estatais para lidar com a perda de rendimentos, sendo que o governo implementou também um programa de ajuda às empresas que podem aplicar o lay-off.

As previsões são para uma queda do PIB de 6,8%, se as restrições à economia começarem a ser levantadas já em maio. Se estas continuarem até junho, a situação será ainda pior.

Johnson não se quer comprometer com uma data para o levantamento das medidas de restrição, mas agora que está de volta a Downing Street deverá começar a pensar no plano que poderá aplicar assim que a pandemia estiver mais contida.

O novo líder da oposição, Keir Starmer, quer contudo que o governo comece um diálogo para começar a desenhar o plano de saída do confinamento. O líder do Labour lembrou que o governo foi lento a entrar no confinamento, tem sido lento a fazer mais testes e lento a garantir a proteção necessária ao pessoal médico que está na linha da frente e que tem a oportunidade de corrigir a situação na hora de levantar as restrições.

Na semana passada, os governos autónomos da Escócia e País de Gales publicaram documentos com os princípios que vão guiar o desconfinamento nas regiões e esta segunda-feira a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse que revelar as diferentes opções existentes "nos próximos dias".

16.4.20

Vizinhos pedem a enfermeiros que mudem de casa ou se mantenham longe

in Notícias ao Minuto

Em França, o confinamento social e o medo causado pela propagação da Covid-19, fez com que se difundissem mensagens de solidariedade... e de discriminação.

Em França, apesar de todos os dias, pelas 20h, as pessoas se encontrarem às janelas e varandas para aplaudirem os profissionais de saúde, há também quem tenha uma mensagem menos encorajadora para estes profissionais.

"Conhecendo a tua profissão, seria possível, para garantir a nossa segurança, que não toques nas portas das zonas comuns ou que, nos próximos dias, fiques alojada num outro sítio? Não leves a mal, mas eu e os outros vizinhos iríamos sentir-nos mais seguros". Esta é uma mensagem de 22 de março, que Sophie, uma auxiliar de enfermagem, encontrou quando chegou ao prédio onde vive, em Toulouse.

E este não é caso único. Em Paris, no mesmo dia, um grupo de moradores mostrou-se indignado por uma enfermeira ter mudado de casa. O proprietário da casa chegou a receber mensagens de vizinhos que diziam que "não queriam correr riscos", reporta a France Inter.

Já em declarações à estação de rádio RMC, a mãe de uma enfermeira contou, entre lágrimas, que um dia a filha encontrou presa no vidro do carro a seguinte mensagem: "Agradecemos que não estacione o seu carro junto dos nossos".

Posto isto, parece que aqueles que para muitos são os heróis desta luta, para outros se transformaram nos seus inimigos.

Recorde-se que também a região de Múrcia, em Espanha, ficou chocada com uma situação semelhante, referente a uma empregada de supermercado.

"Somos os teus vizinhos e queremos pedir-te, pelo bem de todos, que procures outra casa. (...) Aqui vivem muitas pessoas e não queremos mais riscos", podia ler-se num bilhete deixado no prédio, pelos vizinhos, a uma empregada de supermercado, que, em tempos de pandemia, continua a trabalhar para que as pessoas possam ter onde comprar comida.

16.1.18

Portugueses contra "instrumentalização" da história da emigração para França

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Os portugueses viveram a clandestinidade, a exploração, a xenofobia, como muitos dos que chegam de África e do Médio Oriente.

Há uma frente de luso-franceses e de portugueses residentes em França a levantar-se contra o que entende ser “a instrumentalização da emigração portuguesa pela extrema-direita”. Recusa o uso da retórica do “bom imigrante”, trabalhador árduo e subserviente, contra o “mau imigrante”, não branco e/ou não cristão.
"Nem bons, nem maus." Eis o título do artigo publicado nesta terça-feira no Le Monde, um diário francês de grande tiragem. Foi escrito pelo historiador Victor Pereira, professor da Universidade de Pau et des Pays de l'Adour e especialista em emigração portuguesa, e pelo jornalista Hugo dos Santos, dirigente da associação Mémoire Vive/Memória Viva, e co-assinado por outros 47 luso-franceses ou portugueses, incluindo o sociólogo Albano Cordeiro e o realizador José Vieira.

Na origem da polémica estão incidentes ocorridos na passagem de ano nos arredores de Paris. Com base num artigo sobre o bairro de lata de Champigny, um jornalista de Le Figaro, Alexandre Devecchio, publicou nas redes sociais um comentário: "Mais de dez mil portugueses viviam na lama. Sem água, sem electricidade etc. E sem violência, nem associação para chorar o racismo. Quem pode negar a desintegração francesa?"
A mesma ideia de ausência de violência foi repetida dois dias depois pelo politólogo Laurent Bouvet, durante um debate sobre laicidade, no programa 28 minutos, do canal Arte. E logo pelo jornalista e ensaísta Benoît Raysk, no site Atlantico.fr.

Victor Pereira ficou “perplexo”. "O Arte não é um canal sensacionalista”, é um canal de vocação cultural europeia. “Isso mostra bem como esta ideia está difundida no seio da sociedade”, diz. “Há um desconhecimento total sobre a história da emigração portuguesa. É muito raro ser convocada para o debate público em França e está a sê-lo de uma forma manipuladora, para reforçar o racismo contra grupos estigmatizados.”
Enquanto historiador, e enquanto cidadão, Victor Pereira entendeu que “não podia aceitar” aquilo. “Como filho de portugueses, tenho memória de ouvir: ‘mas vocês são diferentes dos árabes’. Por um lado, o desprezo. Por outro lado, o: ‘és menos pior’.”

A oposição entre os "bons imigrantes" e os "maus imigrantes" estruturou a política migratória francesa dos anos 60 e 70, lê-se no texto. Os estudos de Albano Cordeiro feitos na década de 80 mostram como a imigração africana em geral, e argelina em particular, serviu de escudo aos portugueses. Quanto mais os "árabes" se tornaram indesejáveis, mais eles se esforçavam para ficar invisíveis. E no lugar dos "árabes", estão hoje os ciganos, os subsarianos, os que fogem de conflitos no Médio Oriente.
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Os jovens portugueses de França

O pronto-socorro dos emigrantes em França
O texto, explica Hugo dos Santos, é um protesto contra a "instrumentalização" da  história e da memória. Com dois destinatários: os franceses, que não conhecem essa história, mas também os portugueses, que também não a conhecem ou que a esqueceram. 

Os portugueses que desembarcaram entre 1951 e 1974 sabem bem o que é a clandestinidade, a exploração, a xenofobia. Não é verdade que nunca houve violência, sublinha Victor Pereira. Houve violência dos donos das barracas, que os portugueses pensavam que os podiam denunciar à polícia política. E violência no processo de realojamento. Há muitas histórias de resistência silenciosa, mas também alguns episódios de revolta.

14.2.17

"Não é possível paz social com este desemprego"

José Fialho Gouveia, in Diário de Notícias

Entrevista a Paulo Marques, vereador em Aulnay-sous-Bois

Como está o ambiente na sua zona, em Aulnay-sous-Bois?
Aqui a situação está calma já há vários dias. No entanto, noutras localidades continuaram os distúrbios, nomeadamente em Bobigny, no fim de semana.

Encontra semelhanças com o que se passou em 2005?
Não. As condições não são idênticas. Em 2005 tinham morrido dois jovens. Desta vez isso não aconteceu e o próprio Théo fez um apelo à calma. A atuação do presidente da câmara, Bruno Beschizza, junto da população também permitiu que nada disto seja idêntico ao que se passou em 2005.

Ainda assim, mais uma vez estamos a falar de confrontos entre a polícia e os jovens dessa zona. O que faz com que Seine-Saint-Denis seja um local propício a este tipo de acontecimentos?
Há jovens que gostam de provocar distúrbios. Isso é um facto que nós conhecemos. Para se ter uma ideia, em cada 14 de julho - feriado nacional - e em casa passagem de ano são perto de 10 mil veículos que são incendiados em França. Diria que 99% dos habitantes de Aulnay-sous-Bois querem segurança e querem que a polícia esteja presente. E depois há 50 jovens que provocam os distúrbios. Isso acontece mesmo quando não há vítimas como foi agora o caso com o Théo. São jovens que querem fazer a sua própria lei, nomeadamente os traficantes de droga.

O que pode então ser feito para contrariar este tipo de acontecimentos?
A Justiça funcionar melhor e uma polícia mais eficaz, com mais meios de vigilância. Depois tem que haver - e isso é fundamental - uma resposta ao problema do desemprego. Temos um nível de desemprego jovem de 25%. Assim não é possível haver paz social.

Tudo indica que neste caso do jovem Théo estamos perante uma situação de abuso policial. É algo isolado ou tem informações que indiquem que poderá tratar-se algo recorrente?
Não, não é prática corrente. A justiça irá agora fazer o seu papel.

29.7.16

Estaremos a ajudar a criar assassinos?

in Público on-line

Em França já se omite o nome e os rostos dos autores de atentados terroristas. Um debate relevante.

Ontem soube-se o nome do segundo atacante no infame atentado que vitimou o padre Jacques Hamel. Era um jovem de 19 anos, natural da Saboia, nordeste de França, que a polícia só conseguiu identificar comparando amostras de ADN recolhidas do cadáver (a polícia matou os dois atacantes a tiro, à saída da igreja, depois de dado o alarme por uma das freiras feitas reféns, que conseguiu fugir enquanto o padre era degolado). O agora identificado seria um jihadista procurado pela polícia há dias, depois de uma agência estrangeira lhes ter enviado uma fotografia, dizendo pertencer a um homem que estaria prestes acometer um atentado no país. O atacante tem um nome e a polícia divulgou-o (tal como fez o PÚBLICO), mas em França foi aberto um debate entre os meios de comunicação acerca dessa divulgação. O diário Le Monde, por exemplo, decidiu não publicar fotografias dos assassinos. E a Rádio Europe 1, tal como o canal de televisão France 24 e o jornal católico La Croix decidiram não apenas não divulgar fotos mas também omitir os nomes de todos os que praticarem actos de terrorismo. Há um argumento sensível e compreensível para tais decisões: nos países onde estes atentados ocorrem, a difusão do rosto e nome dos autores pode corresponder ao seu desejo de “glorificação” do crime, tido por martírio guerreiro. O Le Monde argumenta, por exemplo, com a necessidade de “evitar eventuais efeitos de glorificação póstuma” e o psicanalista francês Fehti Benslama disse a este propósito, à AFP, que “quem comete tais atentados quer ser conhecido e reconhecido publicamente”. Por isso, evitar esse “conhecimento” é também evitar o “reconhecimento”, ou seja, a satisfação dos seus pares pelo crime cometido, que será também um incentivo a replicá-lo. É uma discussão que ainda está no início. Estaremos a ajudar a criar assassinos? A resposta obriga a uma reflexão ética e jornalística, que começou e segue agora o seu curso.

29.2.16

França começa a desmantelar parte do campo de refugiados em Calais

Ana Laranjeiro, in Negócios on-line

Começou o desmantelamento de uma parte do campo de refugiados em Calais, França. Milhares de pessoas vivem nesta zona em condições muito precárias aguardando por uma oportunidade para atravessarem o Canal da Mancha.

Foi por volta das 9 horas (8 horas em Lisboa). Uma longa coluna de camiões chegou a parte sul do campo de refugiados de Calais, França, para dar início aos trabalhos de desmantelamento deste campo, relata o jornal francês Le Fígaro. "Os trabalhadores de uma empresa privada começaram a desmontar as cabanas" cercados por um forte dispositivo policial, acrescenta o jornal.

O Le Monde acrescenta que além dos funcionários de uma empresa privada, cerca de 20 pessoas, chegaram ao terreno daquela que é considerada como a "Selva" também duas escavadoras. Os trabalhos de desmantelamento desta área arrancaram esta segunda-feira, 29 de Fevereiro, depois de o Tribunal Administrativo de Lille ter validado, no final da semana passada, a ordem de expulsão da zona considerada como "Selva" da Perfeitura de Pas-de-Calais, de acordo com a mesma fonte.

A BBC salienta que o Executivo francês planeia realojar os migrantes em centros de acolhimentos. Neste campo, vivem milhares de pessoas que aguardam por uma oportunidade para atravessarem o Canal da Mancha e chegarem ao Reino Unido. De acordo com a estação britânica, as autoridades acreditam que cerca de mil migrantes vão ser afectado por este plano de desmantelamento da área. Porém, as agências humanitárias salientam que o número de pessoas a viver nesta zona é muito superior.

Os números relativos à população total deste campo de refugiados divergem: as autoridades em Calais falam em 3.700 pessoas e a Help Refugees, uma organização de apoio aos refugiados, fala em 5.497. Na parte sul, onde está a "Selva", os números também não coincidem: as estimativas oscilam entre 800 a mil refugiados ou ascendem a 3.455 pessoas.

Aos refugiados que ocupavam a "Selva" foram lhes dadas três opções: irem para um alojamento climatizado no sector norte do campo; irem para alojamentos climatizados em outra parte de França ou pedirem asilo em França, segundo a BBC. Contudo, vários ocupantes revelaram à cadeia inglesa que não querem sair daquela zona. Já na semana passada, o ministro francês da Administração Interna, Bernard Cazeneuve, disse que as autoridades iam colaborar com agências humanitárias para realojar os refugiados, segundo a Reuters.

Clare Mosely, voluntária do grupo britânico Care4Calais, citada pelo The Guardian, afirma que as autoridades locais chegaram a este campo por volta das 7 horas e deram uma hora aos residentes para saírem. Caso não o fizessem poderiam ser presos. "A presença policial é enorme. Há um cordão de segurança em toda a área", afirmou.

Fabienne Buccio, da perfeitura regional, afirmou que a presença policial era necessária porque "extremistas" poderiam tentar intimidar os refugiados no sentido destes recusarem as ofertas de habitação.

Crise dos refugiados cria brechas na União Europeia

A forma como os vários países europeus lidam com a chegada de refugiados às suas fronteiras tem feito correr muita tinta. Ainda na semana passada, a Bélgica assinalou a sua intenção de suspender temporariamente o acordo de Shengan e restabelecer o controlo das suas fronteiras com a França, avança o jornal francês Le Figaro esta terça-feira, 23 de Fevereiro. "Informámos a Comissão Europeia que vamos temporariamente suspender Schengen", disse o ministro do Interior do país. Jan Jambon, ministro do Interior da Bélgica, confirmou que o país vai suspender o acordo de Schengen temporariamente devido ao possível fluxo de migrantes provenientes do campo de refugiados de Calais.

Também na semana passada, o Governo húngaro anunciou que vai convocar um referendo para validar a quota nacional obrigatória de refugiados que foi destinada ao país pela Comissão Europeia, no âmbito da actual crise migratória na Europa. "O Governo está a responder ao actual apelo público, pensamos que introduzir quotas de realojamento para migrantes sem o apoio do povo é o mesmo que abuso de poder", disse esta quarta-feira, 24 de Fevereiro, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban.

No último dia 25, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, declarou que a Grécia vai vetar acordos políticos na União Europeia até os outros Estados-membros aplicarem o acordado sobre a repartição dos refugiados. Atenas criticou algumas decisões tomadas por todos os líderes da União Europeia possam ser anuladas por grupos restritos. Tsipras aludia assim, escreve a Lusa, à decisão unilateral dos Estados da designada rota balcânica de encerrar as fronteiras a afegãos e exigir documentos de identificação a sírios e iraquianos, apenas um dia depois de o Conselho Europeu ter garantido que não haveria acções deste tipo antes da próxima cimeira, prevista para 7 de Março.

Tsipras fez estas declarações horas depois de a Áustria e nove países dos Balcãs Ocidentais terem acordado, em Viena, reforçar a cooperação para travar as vagas humanas, com novas medidas nacionais e regionais, com o objectivo declarado de "forçar" uma resposta comum dos Estados-membros da União Europeia à crise dos refugiados.

Esta manhã, a chanceler alemã, Angela Merkel, declarou: "não podemos deixar que a crise de refugiados deixe a Grécia no caos".

A chanceler alemã referiu que os países europeus não podem permitir que a crise de refugiados mergulhe a Grécia no caos, fechando as suas fronteiras. Angela Merkel disse ainda que o continente europeu deve encontrar "uma maneira colectiva" para resolver o problema. Com mais de 70 mil refugiados em vias de ficarem retidos na fronteira norte da Grécia, Angela Merkel alertou para a possibilidade de o Governo de Atenas ficar paralisado devido à chegada de refugiados provenientes de zonas de guerra, como o Médio Oriente ou África.

A União Europeia e a Turquia em reunião especial a 7 de Março. O tema em cima da mesa será a crise dos refugiados.

29.12.15

O crescente fosso da desigualdade: a inevitabilidade e a irrelevância (?)

Miguel Coelho e Rui Sainhas de Oliveira, in Público on-line

Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas será esta a realidade? Uma análise dos autores do livro Mercados – São Mesmo os Grandes Culpados das Crises?

Tenacidade é um dos métodos, segundo Charles S. Peirce (filósofo americano - 1839-1914) para o estabelecimento das nossas opiniões e a fixação das nossas convicções, e que caracteriza do seguinte modo: podemos tomar uma proposição e repeti-la para nós mesmos, concentrando-nos em tudo o que a suporta e voltando as costas a qualquer coisa que a possa desafiar. Mas para tratar do tema da desigualdade, já tão generosamente glosado segundo aquele método, preferimos o método também proposto por Peirce que postula a existência de coisas reais cujas características são inteiramente independentes das nossas opiniões sobre elas; procurando, assim, tirar proveito do que sabemos para nos aproximar mais do que não sabemos, ainda.

Com efeito, esclarecidas as questões quanto ao método, queremos com o termo desigualdade significar o hiato de rendimento que se define entre os termos da comparação que mais genericamente se estabelece na discussão deste tópico, a saber: (i) a diferença de rendimento entre os países mais pobres e os países mais ricos; e (ii) as diferenças salariais num quadro de livre comércio. Procuraremos, pois, desenvolver esta reflexão em torno destes dois polos do tópico, muito valorizado na obra de Angus Deaton, Nobel da Economia de 2015.

O fosso da desigualdade entre países ricos e os países pobres
Partindo do que sabemos, comecemos por revisitar o quadro de reflexão do Prof. William O. Thweat (de quem tomámos o título deste artigo) sobre a definição e o alargamento do fosso da desigualdade de rendimentos entre países ricos e países pobres. Iniciamos esse percurso pela definição do que o autor designa por “taxa de ultrapassagem”: quociente entre a taxa de crescimento dos países mais pobres e a taxa de crescimento do país mais rico de referência, ou seja, o indicador da dinâmica do fosso de rendimento. Se superior a um, estaremos perante uma dinâmica de redução do fosso; se inferior a um, revela o alargamento do fosso de rendimento.

Uma análise centrada exclusivamente no crescente hiato do rendimento com descuidada extrapolação sobre a evolução da pobreza no mundo, como frequentemente se vê fazer, pode ser um obstáculo sério ao estudo lúcido deste importantíssimo problema social e económico, como seguidamente se pretende ilustrar de forma numérica.

Conforme se constata a partir dos dados do Banco Mundial, o crescimento observado nos países com o PIB per capita mais elevado tem sido claramente inferior ao registado nos países com PIB per capita mais baixo (3,9% por ano face aos 7,4% por ano observados no período compreendido entre 1999 e 2014). Apesar disso, o hiato de rendimento entre os dois grupos de países, em termos absolutos, aumentou claramente, com o diferencial entre o PIB per capita a passar de 21.223 USD para os 37.184 USD.

Uma leitura apressada destes dados poder-nos-ia levar à seguinte conclusão: Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas será esta a realidade?

Analisemos, as projeções do Banco de Mundial sobre a pobreza no mundo. De acordo com os últimos dados, 702 milhões de pessoas, ou seja, 9,6% da população mundial, vai ainda este ano (2015) viver abaixo da linha de pobreza. Todavia, em 2012 essa cifra era de 902 milhões, 13% da população mundial, que compara com 29% em 1999.

Conforme se observa, a pobreza no mundo caiu significativamente, não obstante o alargamento do hiato de rendimento entre países mais ricos e países menos ricos.

O impacto da integração europeia
Ao procurar outro foco de luz sobre este mesmo tópico da divergência na distribuição do rendimento, agora no âmbito de uma economia específica - Portugal -, no quadro dado de crescente integração no comércio internacional, ocorre-nos, naturalmente, revisitar o modelo de Heckscher – Ohlin e, em particular, o designado “Teorema da Igualização do Preço dos Factores Produtivos”.

De acordo com este teorema, e como consequência do comércio internacional, produz-se uma tendência para a igualização dos preços relativos e absolutos dos factores produtivos. O comércio internacional funciona assim como substituto da mobilidade internacional dos factores produtivos.

De acordo com a informação disponível, tal parece ter acontecido nos últimos anos na Europa, em benefício claro dos países mais pobres. Na realidade, se em 2002 o salário dos quadros superiores em França era o dobro do registado em Portugal para o mesmo universo de pessoal qualificado, em 2013 esse valor terá caído para cerca de 1,6. Leitura idêntica obtém-se quando se analisa a relação entre os salários dos trabalhadores não qualificados - em 2002 o salário em França era 1,4 vezes superior, tendo passado a 1,2 vezes em 2013.

Apesar da convergência salarial observada com o processo de integração europeia, será que adentro de cada país, nomeadamente em Portugal, a diferença salarial entre as profissões mais qualificadas e menos qualificadas aumentou ou diminuiu?

Conforme se constata, nos primeiros anos de integração europeia os salários dos quadros superiores eram em média cerca de 3,6 a 3,8 vezes maiores do que os salários dos trabalhadores não qualificados, tendo este valor crescido para cerca de 4,5 vezes em 1998-2002, facto que traduziu um agravamento das desigualdades salariais. Contudo, a partir de 2005, o diferencial reduziu-se significativamente voltando em 2013 a níveis de 1986.

Como explicar então este aparente paradoxo? Ou seja, como explicar que a desigualdade salarial entre países tenha diminuído no quadro europeu mas que adentro dos países menos desenvolvidos essa desigualdade salarial não tenha diminuído logo após o início do processo de integração europeia (1986)?

A explicação para isto pode estar num fenómeno que, em teoria económica, é mais conhecido pelo efeito de Kuznets ["Economic Growth and Income Inequality", in American Economic Review, Março de 1949]

De acordo com Kuznets (1901-1985, prémio Nobel da Economia em 1971), nos estágios iniciais do crescimento económico de um país a desigualdade vai aumentar. Isso acontece porque nessa fase do crescimento vai ocorrer um aumento grande na procura por mão-de-obra qualificada, elevando os salários dos trabalhadores qualificados em detrimento dos não qualificados.

Reflexões finais
A problemática da desigualdade de rendimentos entre os países mais ricos e os países mais pobres tem sido alvo de acesa discussão nas últimas décadas. Recorrentemente, valorizamos os insucessos visíveis com o acréscimo no fosso de rendimento entre países ricos e países menos ricos, ignorando os ganhos significativos que obtivemos ao nível da eliminação da pobreza à escala mundial e que se traduzem nas seguintes palavras de Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial: "Somos a primeira geração na História que pode eliminar a extrema pobreza".

Por outro lado, a asserção de Kuznets, que tão bem reflectia as fases mais precoces dos processos de crescimento económico dos países mais periféricos, amplia, no quadro de uma economia mundial que progressivamente foi passando para níveis de maior interdependência, o domínio da sua pertinência.

Com efeito, os países onde tem predominado uma economia assente numa mão-de-obra relativamente menos qualificada têm vindo a assistir, sobre diferentes formas, à crescente concorrência do vasto conjunto de países no mesmo patamar de competências, com as conhecidas consequências: (i) a pressão sobre os salários e (ii) o desemprego da mão-de-obra não qualificada. Ao invés, a mão-de-obra qualificada dos países da periferia, tem vindo a beneficiar do efeito de abertura da economia mundial e os seus efeitos são também bem conhecidos: (i) a forte potencial de atração dos países do centro por níveis elevados de qualificação tem impulsionado a forte mobilidade dos que a possuem, (ii) induzindo a valorização interna desses segmentos superiores de qualificação.

Daqui resulta que, num quadro crescente de integração económica à escala mundial, a qualificação dos recursos humanos apresenta-se como a única via para evitar que os trabalhadores dos países mais ricos, nos quais Portugal se inclui, sejam vítimas de uma inevitabilidade teórica: convergência salarial com os países mais pobres.

11.6.15

Mais de 20% das crianças francesas vivem abaixo da linha da pobreza

in RFI

Relatório da Unicef, publicado nesta terça-feira, relatou que a França tem mais de 3 milhões de crianças pobres.

O desrespeito aos direitos das crianças e adolescentes na França preocupa o Unicef. Em relatório divulgado nesta terça-feira (9), o Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência relatou que o país tem mais 3 milhões de crianças pobres, sendo que mais de 30 mil estão sem domicílio e 9 mil vivem em favelas. O documento também revela um índice alarmante de evasão escolar, além de problemas de maus tratos e abusos.

Entre 2008 e 2012, 440 mil crianças passaram com suas famílias para baixo da linha da pobreza - hoje, uma em cada cinco crianças francesas é pobre. Todos os anos, 140 mil alunos deixam o sistema de ensino e as crianças com deficiências têm um nível de escolaridade baixo. Outro problema apontado pelo estudo é que há muitos problemas em relação à proteção das crianças no país.

"As dificuldades de acesso aos direitos das crianças mais vulneráveis persistem. Apesar das leis, dos planos nacionais, os progressos são poucos", destacou Jacques Toubon, responsável pela Defensoria dos Direitos, uma instituição independente criada pelo Estado em 2011 para defender vários grupos ou pessoas que não têm seus direitos respeitados na França.

Embora pondere que a França ainda ofereça melhores condições para a infância do que a média dos países, o Unicef recomenda 36 medidas para melhorar o diálogo com os menores, combater a evasão escolar e garantir igualdade de acesso à educação, em especial para as crianças isoladas ou que vivem em favelas.

Os responsáveis pelo documento também lamentam a falta de uma estratégia global sobre a infância na França, além de criticar a falta de estatísticas sobre os menores vítimas de abuso sexual, de maus tratos e da prostituição. "Essas crianças continuam invisíveis aos olhos das autoridades e da opinião pública", destacou Toubon.

Convenção da ONU

Os dados apresentados por Jacques Toubon constam no relatório sobre a adoção da Convenção Internacional dos Direitos da Criança (CIDE). Em janeiro de 2016, a França deve comparecer diante do Comitê desta Convenção da ONU para receber comentários, sugestões e críticas.

O relatório anterior da Defensoria dos Direitos foi apresentado em 2009 e as primeiras respostas do governo francês apareceram em 2012. Adotada pelas Nações Unidas em novembro de 1989, a Convenção foi ratificada pela França em 1990.

23.12.14

É mais fácil ter filhos em França? Não, é apenas normal

por João Pedro Vitória, em Paris, in RR

Uma rede de cuidados para crianças, benefícios fiscais e apoios financeiros para o início das aulas em cada ano lectivo são algumas medidas subsidiadas pelo Estado no país com a segunda taxa de natalidade mais elevada da União Europeia.
por João Pedro Vitória, em Paris

França tem a segunda taxa de fertilidade mais elevada da União Europeia: cada mulher tem, em média, dois filhos. Média mais alta, só a Irlanda. Em Portugal, uma mulher tem, em média, 1,23 filhos.

Em França, a política influenciou e continua a influenciar positivamente a natalidade, sendo, pelo menos, uma parte do sucesso atribuída ao consenso entre os actores políticos sobre a importância das políticas de família. Em Portugal, os especialistas traçam um cenário oposto: há mesmo quem fale num país "antinatalista".

Olivier Thevenon, investigador do Instituto de Estudos Demográficos francês, explica à Renascença que o foco das políticas de família foi mudando ao longo dos últimos 40 anos: "O apoio à fertilidade já não é um objectivo em si. Para incentivar a natalidade, o Estado acreditava que tinha de apoiar a criação de famílias numerosas. Agora, a primazia vai para o apoio à manutenção de padrões de vida, porque, quando se tem uma família maior, o padrão de vida pode diminuir".

No final da década de 1970, o Presidente Giscard d'Estaing queria um país "numeroso, feliz e pacífico" e lançava a chamada "política do terceiro filho", entre muitas outras iniciativas que são a base das políticas de família de hoje.

Olivier Thevenon defende que a estabilidade das políticas é fundamental: "Parte do sucesso francês deve-se ao consenso, entre os partidos políticos, sobre as políticas de família. Sabemos que não vão mudar drasticamente com a alternância no poder. Se queremos que as medidas tenham um impacto temos de assegurar às pessoas que, quando tiverem filhos, vão ser apoiadas desde o nascimento até ao fim da idade escolar e que isso não vai mudar porque muda o Governo".

Conciliar trabalho e família
É em torno da conciliação entre o trabalho e a vida familiar que se organizam os diferentes apoios públicos, desde os benefícios fiscais à subsidiação de amas ou à rede de creches públicas.

Não se pense, contudo, que é fácil encontrar vaga num destes infantários: faltam 400 mil lugares, estima o próprio Estado francês. Mas os cofres públicos ajudam as famílias a pagar a quem fique com as suas crianças durante o horário de trabalho.

Juliette Daudeigne, de 44 anos, tem dois filhos, ganha 2900 euros por mês, é funcionária pública. Não lhe falta o dinheiro, mas diz que também não vive folgada. O apoio do Estado para pagar uma ama para os seus dois filhos foi precioso.

"Nenhum dos meus dois filhos teve lugar numa creche, foi preciso pagar a alguém para ficar com eles. Por exemplo, para o meu filho de três anos paguei a uma ama que tomava conta de outras crianças em sua casa, 900 euros por mês. Felizmente o Estado ajudava-me com 350 euros. Se fosse actualmente, não podia pagar. Três anos depois não poderia pagar".

Julliette admite que não foi por haver ajudas do Estado que decidiu ter filhos, mas que isso "facilitou as coisas". Sem ajudas, talvez tivesse ficado pelo primeiro filho.

As despesas com as amas podem ainda ser deduzidas em sede de IRS e mesmo nas creches públicas o preço é baixo, explica Olivier Thevenon. "A principal solução são os cuidadores, as amas. Os pais recebem um subsídio do Estado para ajudar a pagar esses custos, e podem deduzir essas despesas nos impostos".

As creches públicas são financiadas pelo Estado e pelas autarquias e geridas por prestadores do sector social ou privado. O financiamento estatal "cobre dois terços dos custos. Desta forma o custo para as famílias é, também, baixo: é metade do preço real dos cuidados para as crianças e, embora aumente consoante o rendimento das famílias, mesmo para os mais abastados continua sendo baixo".

Ninguém está sozinho
Será assim tão fácil ter um filho em França? Mais do que fácil, é normal — é pelo menos esse o sentimento com que ficamos depois de falar com algumas famílias parisienses. Há uma mensagem de confiança transmitida pelo Estado, sublinha Christophe Giraud, pai de três filhos: dois gémeos de oito anos e um terceiro, de quatro.

"Ter uma família em França é, mais do que fácil, uma coisa normal. Nunca nos colocámos a questão do custo financeiro, porque se o tivéssemos feito teríamos concluído não ter tantos filhos, até porque temos um pequeno apartamento em Paris e em termos de tamanho... Bom, estamos bastante apertados. O que faz com que tenhamos menos medo é saber que podemos ter filhos e continuar a trabalhar a tempo inteiro, tanto a minha mulher como eu. Para mim o facto de haver creches é uma ajuda inestimável. Os abonos de família são uma pequena ajuda, mas não são determinantes".

Para as mulheres sozinhas, a confiança de um Estado que providencia parece, igualmente, ser fundamental. Djia Nabá, de 49 anos, vive sozinha com os seus quatro filhos nos arredores da capital francesa e confessa que "não é fácil, nunca é fácil ter uma família. Eu sou mãe solteira, vivo sozinha, mas em França existe, talvez, a vantagem de sermos ajudadas e integradas: afinal não estamos sozinhas".

"Há toda uma política social de ajuda à família para tudo o que tem que ver com as despesas. Por exemplo, os custos escolares: há uma ajuda para o regresso às aulas, e eu penso que isso é importante. Porque não nos iludamos, para criar uma família são precisos meios, e por isso estas ajudas são importantes", disse.

Esta professora do ensino público sublinha que as despesas escolares e associadas são todas indexadas ao rendimento das famílias e destaca também que em França o princípio da solidariedade é posto em prática. "O que é extraordinário em França é que tudo o que é suposto pagar-se na escola, quer seja na cantina, quer seja nas visitas de estudo, é calculado em função dos seus rendimentos. Existe uma escala, de um a cinco, e é possível pagar-se muito ou muito pouco. Aqueles que têm mais pagam pelos que menos têm".

Receita para o sucesso: equilíbrio e complementaridade nas políticas
Em Portugal, o Governo quer lançar algumas medidas fiscais como incentivo à natalidade. Uma ideia: uma redução na taxa de IRS, que aumentará de forma progressiva, associando, assim, as deduções ao número de filhos. Outra: enquadrar o Imposto Municipal Sobre Imóveis pelo tamanho do agregado familiar. Alargar as licenças de maternidade e alterar os horários de funcionamento das creches são só outras das propostas, que, contudo, ainda demorarão a ver a luz do dia.

O investigador que nos tem acompanhado neste retrato do sucesso das políticas de família francesas entende que nem tudo está nos benefícios fiscais. Olivier Thevenon sublinha que a chave do sucesso reside no equilíbrio dos diferentes tipos de apoio: "Estudos que fizemos e que analisaram o impacto das diferentes políticas de família mostraram que o equilíbrio entre os vários tipos de apoios - licenças, apoios financeiros, rede de creches e seu financiamento - é a chave para encorajar a natalidade".

No Inquérito à Fecundidade, de 2013, elaborado pelo Instituto Nacional de Estatística, os casais portugueses afirmaram que desejariam ter mais filhos: em média, 2,31 filhos, mas alegaram constrangimentos vários para que, na realidade, se tivessem ficado pela metade.

4.7.14

Polícia francesa evacua campo de imigrantes de Calais

Mafalda Ganhão, in Expresso

Centenas de imigrantes foram esta quarta-feira obrigados a deixar o campo da cidade portuária de Calais, onde viviam em condições miseráveis, na esperança de conseguir atravessar o Canal da Mancha e chegar a território britânico.

De olhos postos no outro lado do Canal da Mancha, onde se avista a Grã-Bretanha, as centenas de imigrantes que se fixaram em Calais, França, para tentar cumprir o sonho de entar em território britânico, ficaram esta quarta-feira mais longe de o alcançar.

Numa operação lançada bem cedo, pela manhã, a polícia começou a evacuar o principal campo de imigrantes desta cidade portuária, numa tentativa para resolver um problema antigo, de vários anos, mas que se agravou particularmente desde maio, depois de terem sido desmantelados outros três campos, o que levou ao aumento da população concentrada - a maior parte em tendas - num centro de distribuição de alimentos na área portuária de Calais.

Testemunhas falam em pelo menos 500 pessoas residentes no local, suportando condições miseráveis, sem desistir de cruzar a fronteira. Homens, mulheres e crianças, oriundos sobretudo de África e do Médio Oriente e cujo número aumentou exponencialmente também por causa dos conflitos existentes em países como o Afeganistão e a Síria.

"Tudo começou por volta das 6h. Eu estava lá dentro. Os agentes chegaram, bloquearam todas as saídas e usaram gás lacrimogéneo para impedir as pessoas de fugir", disse uma voluntária, citada pelo "Le Parisien". "As pessoas estavam a dormir. Não tiveram tempo para sair", acrescentou.

Durante os primeiros cinco meses do ano, cerca de três mil imigrantes ilegais foram interceptados em Calais, contra 300 durante o mesmo período em 2013, informa o "Le Monde".

28.4.14

França proíbe contactos com o chefe fora das horas de trabalho

Natália Faria, in Público on-line

E se, terminado o dia de trabalho, o trabalhador ficasse desobrigado de aceder aos emails e atender o telefonema ao chefe? Utopia? Nem por isso. Em França, sindicatos e patrões do sector da tecnologia, engenharia e consultoria assinaram, no início deste mês, um acordo que reconhece o direito do trabalhador a ficar offline.

O seu chefe insiste em contactá-lo fora das horas de trabalho? Telefona e manda mensagens de correio electrónico para as quais exige resposta, mesmo que seja noite ou fim-de-semana? Ignorar estas investidas passou a ser não apenas um direito mas uma obrigação para os milhares de trabalhadores franceses que estão, desde o início do mês, abrangidos pelo chamado “direito à desconexão”.

Traduzindo: os trabalhadores passam a ter de desligar os seus telefones de serviço entre as seis da tarde e as nove da manhã do dia seguinte. Durante o mesmo período, devem ignorar qualquer mensagem de correio electrónico relacionada com trabalho, não podendo ser sancionados pelas respectivas empresas.

Só ao fim de seis meses de negociações é que as federações patronais das empresas francesas de engenharia, informática, consultoria e estudos de mercado (Syntec e Cinov) se puseram de acordo com os principais sindicatos do sector: a Confederação Francesa Democrática do Trabalho e a Confederação Francesa de Quadros Directivos. Juntos concordaram somar ao famoso acordo de 1999, que fixou as 35 horas de trabalho semanal, uma cláusula que estipula o direito à desconexão das ferramentas de comunicação à distância. O objectivo é claro: garantir o respeito pelos períodos mínimos de descanso dos trabalhadores previstos na legislação.

Por enquanto, o acordo vale como mera declaração de princípios. O documento terá de ser aprovado pelo Governo antes de ser publicado no Journal Officiel (equivalente ao Diário da República francês), mas tem desde já o mérito de ter obrigado os empregadores a encarar o problema do prolongamento informal das jornadas de trabalho, comprometendo-as com o objectivo de contactar os funcionários fora das horas de trabalho apenas em situações de emergência.

O direito à “desconexão”, segundo o jornal francês Les Echos, abrange cerca de 250 mil trabalhadores, entre consultores, informáticos e engenheiros. Citado pelo Les Echos, o sindicalista da CFE-CGC, Michel De la Force, considerou que já era tempo de regular o “tempo digital de trabalho” e assim evitar a exploração e inclusivamente a auto-exploração do trabalhador fora do local de trabalho e permitir que este se desligue e esqueça o trabalho por algumas horas.

Problema de saúde pública
Por cá, não se perspectiva que a medida venha a fazer escola. E não é que não fosse necessária. Afinal, calcula-se que 15% dos trabalhadores portugueses estejam num estado de esgotamento, segundo o estudo que a Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional apresentou, no passado dia 12 de Março, na Comissão Parlamentar da Saúde. Para a associação, trata-se de “um problema de saúde pública”, que aumentou substancialmente entre 2008 e 2013.

Se, no ano passado, 15% dos trabalhadores evidenciavam sinais de esgotamento, em 2008 apenas 9% estavam nessa situação. “O máximo aceitável seria 9% a 10%”, sublinhou então ao PÚBLICO João Paulo Pereira, presidente da associação, para quem é “assustadora” a degradação dos indicadores de bem-estar no mundo laboral que ficou patente nesta avaliação que abrangeu mais de 37 mil trabalhadores dos sectores público e privado.

Por outro lado, a percentagem de inquiridos que afirmavam estar a enfrentar situações de stress nas suas empresas quase duplicou neste período, passando de 36%, em 2008, para 62%, em 2013. “As disfuncionalidades emocionais estão a aumentar drasticamente”, ainda segundo João Paulo Pereira.

Outro indicador do mal-estar evidenciado pelos 38.719 trabalhadores inquiridos ficou patente na vontade de mudar de emprego no horizonte dos cinco anos seguintes (o chamado turnover, na gíria da saúde ocupacional). Se, em 2008, cerca de um terço dos trabalhadores manifestavam esta intenção, em 2013 eram já 78% os que pretendiam fazê-lo. A degradação das condições de trabalho nos últimos anos reflectiu-se ainda noutro indicador: 83% dos inquiridos estavam “em risco de exaustão”.

Para o presidente da APPSO, este mal-estar no mundo do trabalho não deve ser encarado como “uma fatalidade nacional”. Mas, alterar o cenário, exige uma mudança de paradigma, uma espécie de “25 de Abril nesta área”. Classificado já como uma enfermidade do século XXI, o esgotamento profissional ganha contornos epidémicos em todo o mundo desenvolvido. Depressão e ansiedade generalizada são os principais sintomas.

Evitar o burnout de trabalhadores
De regresso a França, o semanário L’Express noticiava há algumas semanas que o burnout afecta um em cada cinco trabalhadores. E os franceses são particularmente sensíveis ao tema dos suicídios por motivos laborais. No primeiro trimestre deste ano, suicidaram-se cerca de uma dezena de funcionários da Orange (antiga France Télécom). O alarme social surgiu entre 2006 e 2007, aquando de uma série de suicídios entre os assalariados da Renault que começaram pouco depois de o presidente da corporação, Carlos Ghosn, ter anunciado o propósito de lançar 27 novos modelos automóveis em apenas três anos. Na altura, os 12 mil trabalhadores da fábrica da Renault em Guyancourt, nos arredores de Paris, ficaram sob gestão “quase militar”, como denunciaram então os sindicatos, de dedo apontado aos horários de trabalho desregulados que se praticavam para satisfazer os intentos dos administradores. Os alertas dos sindicatos não sensibilizaram Ghosn. Mas os suicídios entre os trabalhadores (cinco em dois anos) sim. Também porque, nas cartas de despedida, mais do que um aludiu a problemas de stress e sobrecarga no trabalho.

Aumento de ciganos nas ruas de Paris desafia integração europeia

Gabriel Brust, in RFI

A mesma cultura cigana que deu a Paris a música do genial Django Reinhardt coleciona também um longo histórico de perseguições na Europa. O episódio mais recente constrangeu a polícia parisiense e reabriu o debate nacional sobre as condições de vida dos “roms”. Um investimento massivo da União Européia nos próximos quatro anos pretende tirar da pobreza a maior minoria étnica do bloco.

Se Paris se orgulha de Django, um cigano da etnia Sinti que aqui criou o cultuado gênero jazz manouche, o mesmo não se pode dizer da relação com os ciganos que chegam cada vez mais da Romênia e da Bulgária. Desde o último mês de janeiro, pessoas destes países possuem o direito de viver e trabalhar em toda a União Europeia. A presença de ciganos pedindo esmolas em Paris começou a incomodar mais do que nunca os locais e as autoridades quando passaram a pedir dinheiro nas regiões mais caras, como o Boulevard Saint-Germain, na Rive Gauche parisiense.

O estopim da nova crise foi a denúncia do jornal Le Parisien de que a polícia da sexta circunscrição de Paris possui uma diretriz interna para expulsar os ciganos do bairro. A denúncia do jornal se comprovou, a nota interna existe e é ilegal, já que a lei francesa impede a abordagem policial segundo critérios étnicos. A nota foi denunciada por integrantes da própria polícia, que se indignaram com seu conteúdo. O prefeito da sexta circunscrição, do partido de centro-direita UMP, defende a diretriz e denuncia que nos dois últimos meses triplicou a quantidade de ciganos que colocam colchões pelas calçadas e passam os dias na rua expondo crianças e bebês e pedindo dinheiro.

Colchões e crianças pelas ruas

Diante da repercussão negativa e da reação de entidades de defesa de minorias, o governo francês tratou de abafar o escândalo logo de início. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, diz que o texto da ordem interna da polícia já foi retificado e que ninguém será abordado pela polícia em função de sua nacionalidade. A prefeitura de polícia de Paris se disse constrangida e chocada que a nota tenha saído de uma de suas delegacias. Mas, segundo entidades sindicais dos próprios policiais, a nota apenas colocou por escrito o que é prática corrente já há alguns anos: perseguir os ciganos pelas ruas da cidade. Essa recente “invasão” da margem esquerda do Rio Sena teria sido consequência de uma expulsão em massa dos ciganos da região da Bastilha.

Para os moradores, a presença de crianças é o que mais choca. “É horrível ver essas famílias inteiras com crianças de pé no chão nos bairros bonitos. Mas perseguí-los, eu não sei o que isso significa exatamente”, disse uma moradora à reportagem da RFI francesa. “Acho que eles são vítimas e culpados ao mesmo tempo”, diz outro morador. Entre os comerciantes, a preocupação é que os clientes sejam afugentados: “Eles se instalam em frente à loja, então, comercialmente falando, você pode compreender como constrange ter uma família de ciganos em frente à vitrine”, diz um lojista. Outro denuncia as condições em que estão as crianças: “Em cada parte do Boulevard podemos vê-los. Eles trazem colchão com crianças e dormem no chão. Isso cria um mal estar”.

O episódio se inscreve em um histórico recente de uma série de polêmicas envolvendo políticas públicas para os ciganos na França. Em 2010, o governo Sarkozy promoveu uma repatriação em massa para a Bulgária e a Romênia, dois dos principais países de origem da comunidade, após a ocorrência de vários episódios de violência em acampamentos ao redor da França. Segundo o advogado Henri Braun, que defende grupos de ciganos, a perseguição se tornou sistemática na França. “Basta abrir os olhos para ver que a política que é feita em relação a eles ou quem que seja catalogado como cigano, acontece há vários anos”.

Um trilhão em investimentos

A Agência Europeia para os Direitos Fundamentais produz, desde 2011, uma extensa pesquisa para reunir dados sobre os ciganos no continente e pensar políticas públicas para o grupo, que é a maior minoria étnica da Europa e que sofre discriminação mesmo nos países que são mais numerosos, como a Romênia.

As pesquisas do órgão mostram que na França e nos países mais ricos do bloco os ciganos têm condições econômicas ainda piores, principalmente porque não possuem formação suficiente para trabalhar em economias competitivas e industrializadas. Apesar da discriminação e da péssima situação econômica, outro dado surpreendente mostra que apenas 2% dos ciganos da França pensam em ir embora do país.

O diretor de Igualdade da Agencia Europeia para os Direitos Fundamentais, Ioannis Dimitrakopoulos, explica o paradoxo: “É difícil explicar as razões, mas podemos presumir que uma delas é que em economias altamente industrializadas eles veem que podem seguir o exemplo de outras pessoas e melhorar seu nível de vida obtendo educação e um melhor emprego, coisas mais difíceis de se ver em seus países de origem como Romênia e Bulgária.”

Dimitrakopoulos diz que não é mais possível chamar estes movimentos de migração, já que estas pessoas têm o direito de se mover dentro da União Européia e esse “é um dos pilares do bloco”. Mas compara a atual onda com a imigração ocorrida para América no século passado: “Não é muito diferente da imigração dos europeus para os Estados Unidos no séculos 19 e 20. Eles não tinham trabalho e não podiam se sustentar em seus países de origem então foram em busca de algo melhor. Eles encontraram? Talvez não na primeira geração, talvez na segunda ou na terceira. Mas eles certamente ficaram melhor saindo do que ficando na Europa. "

Uma grande parte do orçamento de €1 trilhão da União Europeia para os próximos quatro anos será investida nas condições econômicas dos ciganos em todos os países. Segundo Dimitrakopoulos, esses investimentos massivos serão feitos em quatro áreas que são consideradas chave para redução de pobreza: habitação, educação, saúde e emprego. “Depois que uma criança entra na escola, leva outros 20 anos até que chegue à idade de 27 para vermos o resultado nos padrões de emprego. Milagres não vão acontecer, mas devemos ver uma gradual melhora ao longo dos anos”.

25.6.13

Portugueses conseguem escapar ao desemprego em França

in Sol

O Cônsul de Portugal em Paris, Pedro Lourtie, afirmou hoje que os emigrantes portugueses são das comunidades menos afetadas pelo desemprego em França, apresentando mesmo uma taxa inferior à média nacional daquele país.
“A comunidade portuguesa tem uma característica que lhe é especifica e que é muito interessante e positiva, é que tem uma taxa de desemprego que é mais baixa do que a taxa de desemprego de França e seguramente muito mais baixa até do que as outras comunidades estrangeiras aqui em França”, declarou.

O cônsul foi hoje anfitrião da iniciativa “Exportar Trás-os-Montes”que levou uma delegação de projetos sociais e empresas da região a Paris para promoverem os produtos regionais e à procura de novas oportunidades de negócio.

Pedro Lourtie afirmou não ter “números certos”, mas garantiu que há uma semana decorreu no consulado “um seminário onde foram apresentados números concretos e de facto os portugueses têm uma taxa de desemprego que está abaixo da média francesa”.

“Isso é positivo”, enfatizou.

O consulado tem inscritos 750 mil portugueses e faz cerca de 600 atendimentos à comunidade lusa por dia. O cônsul acredita que contabilizando também os luso descendentes e aqueles que têm dupla nacionalidade, a comunidade portuguesa em França deverá ultrapassar um milhão.

O cônsul reforçou que os portugueses estão “muito bem integrados” e prova disso são os dados do desemprego.

“É algo que só nos pode alegrar”, acrescentou.

Isto não que dizer que “não existam obviamente problemas porque eles existem”, ressalvou, apontando que acontecem, sobretudo “com algumas das pessoas que chegam” nos últimos tempos, embora “com muita pouca frequência”.

Daí, o alerta para que “as pessoas que queiram sair de Portugal que saiam o mais informadas possível, que saiam se possível com um contrato de trabalho já assinado ou pelo menos já programado, para que depois não haja surpresas porque a situação pode não ser exatamente aquela que estava à espera”.

A emigração dos anos 60 e 70 do século passado “passou por muitas dificuldades, mas na altura havia de facto muito emprego”.

Na tualidade, a realidade é outra, embora portugueses que a Lusa encontrou em Paris e que emigraram há mais de 40 anos como Ernesto Nunes, garantam que um bom “garçon”, ou seja um trabalhador que saiba de construção civil e, sobretudo se for “malta nova”, não tem problema em arranjar trabalho.

Ernesto e outro português João Amaral não estranham o fluxo de conterrâneos que agora rumam a França à procura de emprego por causa da crise em Portugal.

“Toda a vida sempre chegou aqui gente”, garantem.

Os tempos também são menos fáceis em Franca, mas João Amaral, que deixou um emprego do Estado na Covilhã, há sete anos, para emigrar, prefere continuar emigrado que agora desempregado.

Portugal “qualquer dia está a saque”, temem.

Lusa / SOL