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8.7.21

Pobreza, pandemia e solidariedade na comunidade portuguesa em França

 Daniel Bastos, in TVEuropa

A pandemia agravou a vida a muitos portugueses por cá e por lá na situação de emigrantes. Daniel Bastos dá-nos, neste seu artigo, uma visão das muitas dificuldades dos emigrantes portugueses em França mas também de atos de solidariedade.

O impacto da pandemia que assola o mundo tem agravado e desvendado várias situações de emigrantes portugueses envoltos nas dificuldades do isolamento, das malhas da pobreza, do flagelo do desemprego e da precariedade.

Nos últimos tempos, têm sido conhecidos, por exemplo, no seio da comunidade portuguesa em França, a mais numerosa das comunidades lusas na Europa, rondando um milhão de pessoas, vários casos de emigrantes que viram a pandemia reduzir os seus salários ou ficarem mesmo sem trabalho, não conseguindo por via disso pagar a renda da casa e consequentemente soçobrar perante o espectro da pobreza.

Ainda no final do mês de junho, o Presidente do Conselho Fiscal da Misericórdia de Paris, Manuel Antunes da Cunha, revelou no decurso das XI Jornadas Sociais da Santa Casa da Misericórdia de Paris, que seis portugueses, entre os 38 e 82 anos, encontram-se entre as 535 pessoas que morreram nas ruas de França em 2020. Segundo o dirigente da instituição de assistência social lusa em Paris, região onde pereceram cinco mendigos portugueses no ano passado, muitas das vezes olvidamos os compatriotas “cujos percursos de vida não foram os desejáveis para eles e, portanto, em situações de pandemia, aqueles que estão no limiar da pobreza ou têm uma vida remediada rapidamente se encontram em situações de precariedade”. No entendimento do mesmo, a “pandemia põe à vista as dificuldades de uma população que está na fronteira do limiar da pobreza. Há um conjunto de pessoas da nova migração para França que vieram em condições difíceis e não têm retaguarda familiar”.

Este cenário de intrincadas dificuldades decorrentes do cenário pandémico tem sido essencialmente mitigado no seio da comunidade portuguesa em França através de um enorme espírito entreajuda e solidariedade, que tem inclusivamente contribuído decisivamente para a prossecução da missão da instituição de assistência social lusa em Paris. Ainda no ocaso do mês de junho, o coletivo “Todos Juntos”, voltou a mobilizar-se para ajudar a Santa Casa da Misericórdia de Paris numa campanha de recolha de géneros alimentícios, produtos de higiene e outros bens essenciais destinados a apoiar famílias portuguesas carenciadas

Este espírito de entreajuda e solidariedade tem sido igualmente profusamente dinamizado ao longo dos últimos anos pela ação benemérita do empresário luso-francês João Pina, instituidor da Fundação “Nova Era Jean Pina”, e que tem sido responsável pela promoção de projetos de cariz sociocultural em prol das pessoas mais desfavorecidas ou vulneráveis, como idosos, crianças institucionalizadas e desempregados. Ainda recentemente, a Fundação Nova Era, assinou um contrato de aluguer de um apartamento que albergou um lusodescendente, residente em França, que se encontrava há vários meses a residir num espaço sem as condições mínimas de habitabilidade.

Estes exemplos inspiradores de entreajuda e solidariedade, e muitos outros que estão a ser dinamizados no seio da comunidade portuguesa em França, assim como um pouco toda a diáspora lusa, têm sido fundamentais para mitigar os efeitos adversos da pandemia, e dão sentido à citação do afamado advogado Clarence Darrow: “O homem que luta por outro é melhor do que aquele que luta por si próprio”.

Autor: Daniel Bastos, Historiador e Escritor.

2.11.20

Mais que duplicaram os emigrantes que regressaram a Portugal com a ajuda do Estado

 in EcoOnline

Postos e secções consulares receberam 118 pedidos de repatriação. Destes, 83 cidadãos concretizaram o seu propósito “através de verbas adiantadas pelo Estado português”.

O número de portugueses residentes no estrangeiro que regressaram ao país com a ajuda do Estado mais que duplicou no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2019, segundo dados oficiais. De acordo com o gabinete da secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes, os postos e secções consulares receberam, nesse período, 118 pedidos de repatriação.

Destes cidadãos que tinham pedido ajuda para regressar, 83 cidadãos concretizaram o seu propósito “através de verbas adiantadas pelo Estado português”. No mesmo período de 2019 tinham sido efetuadas 33 repatriações.

A despesa do Estado português com estas repatriações foi, nos primeiros seis meses deste ano, de 69.688 euros (mais 49.224) que em igual período de 2019. Este tipo de repatriação de portugueses ocorre quando se regista uma comprovada falta de meios para suportar as despesas de regresso, por razões médicas que, em situações de perigo de vida, aconselhem o regresso imediato, por impossibilidade de tratamento local ou em caso de expulsão.

Devido à covid-19, o Estado português apoiou ainda outros cidadãos nacionais (5.215) por via de voos comerciais ou através do recurso aos voos de repatriamento enquadrados no Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Estes cidadãos portugueses apoiados por esta via eram provenientes de mais de 70 países (63% de África e 14% da Ásia).

Pobreza ameaça portugueses no Luxemburgo

 in EcoOnline

Apesar da maioria dos portugueses no Luxemburgo terem, para já, boas condições de vida, os que chegaram nos últimos anos com contratos precários, não conseguiram até hoje estabilidade.

Centenas de portugueses no Luxemburgo estão a recorrer a associações de solidariedade para não passarem fome, após perderem os empregos precários devido à pandemia, mas a maioria, mesmo sem meios, recusa regressar a Portugal, de onde já partiu pobre.

“Têm fome. Estão em casa e sem o que fazer, o que conduz a discussões. As crianças não entendem. É muito triste”, afirma à Lusa o português José Trindade, fundador da Associação CASA, um centro de apoio social que atualmente apoia quase 80 famílias portuguesas a braços com o desemprego.

José Trindade, que fundou este centro em 1980, para ajudar outros portugueses a ultrapassar as dificuldades que sentiu quando emigrou para este país, nos anos 70 do século passado, não esconde a preocupação com a crise atual, que classifica como uma das piores de sempre.

Apesar da maioria dos portugueses no Luxemburgo terem, para já, boas condições de vida, os que chegaram nos últimos anos através de agências de emprego, com contratos precários, não conseguiram até hoje uma estabilidade capaz de aguentar o impacto de uma crise como a que se vive. “Muitos ficaram sem emprego de um dia para o outro, principalmente nas áreas onde os portugueses mais trabalham: limpezas, construção civil e restauração”, disse.

O Luxemburgo, onde vivem perto de 100 mil portugueses (cerca de um sexto da população, estimada em 600.000 habitantes), tem atualmente em vigor novas medidas de combate à pandemia, como o recolher obrigatório, uso de máscara obrigatório em ajuntamentos com mais de quatro pessoas, encerramento de cafés e restaurantes às 23:00, limitação a quatro do número de pessoas recebidas em casa e proibição de ajuntamentos com mais de 100 pessoas.

Na CASA, os portugueses encontram uma “resposta imediata”, pois ficaram sem qualquer rendimento e principalmente porque também já auferiam baixos rendimentos, num país onde “ninguém consegue viver sem dinheiro” que assegure, nomeadamente, o pagamento da habitação.

Mensalmente, este centro social investe cerca de 3.000 euros no apoio a estas famílias, uma despesa que cresce cada vez mais e que obriga a associação a recorrer a iniciativas criativas para obter fundos, como a recente venda de castanhas. Mas há outras necessidades prementes, como o apoio psicológico a estas famílias em crise, que ali chegam num estado emocional “gravíssimo”.

A falta de verbas também tira o sono a José Trindade, que manifesta preocupação com as associações que antes da pandemia de covid-19 apoiavam a comunidade portuguesa através de iniciativas que iam muito além das manifestações culturais e que agora estão de portas fechadas e em risco de fechar.

E as preocupações também se estendem à CASA, onde “41 pessoas trabalham para ajudar a resolver os problemas dos outros”. “Estas pessoas precisam do emprego”.

Além dos portugueses que chegaram mais recentemente com contratos precários de trabalho, os que ocupam tarefas mais diferenciadas e estão atualmente em teletrabalho também estão em risco. “Já ouvi dizer que quando o teletrabalho acabar já não voltam para os seus postos de trabalho”, disse.

Segundo José Trindade, a situação irá piorar quando os trabalhadores ficarem sem as “almofadas sociais” que o Estado luxemburguês oferece. Por todas estas razões, o dirigente associativo defende que o Estado português deve olhar mais para as instituições. “Não estamos a querer substituir os consulados ou as embaixadas. Somos diferentes, mas precisamos de um orçamento para ajudar as embaixadas e os consulados”, disse.

Em declarações à Lusa, o embaixador de Portugal no Luxemburgo, António Gamito, manifestou-se contra a permanência no país de portugueses em situação de pobreza. “É melhor voltarem e viverem com dignidade do que estar aqui à espera”, afirmou, referindo que a situação destes portugueses desempregados tende a agravar-se, porque as suas profissões, menos classificadas, são as mais afetadas.

E acrescentou: “Se as pessoas estão desempregadas e não têm condições de rapidamente encontrar um trabalho, a situação de pobreza vai agravar-se”. Segundo António Gamito, são “poucos” os casos de pedidos de repatriamento para Portugal que chegam à embaixada: meia dúzia desde o início da pandemia.

Na sua opinião, mesmo atravessando dificuldades, “estes portugueses parecem acreditar que vão conseguir ultrapassar a situação, porque vão tendo umas ajudas, que são muito poucas e insuficientes para terem uma condição de vida neste país que é um dos mais catos da Europa”. O diplomata sublinhou que, na generalidade, a comunidade portuguesa vive bem no Luxemburgo.

22.10.20

Portugueses possuem o maior risco de cair na pobreza

Paula Santos Ferreira, in Contacto

Do total de residentes do Luxemburgo em perigo de viver abaixo do limiar da pobreza, 30% são portugueses.

Do total de residentes do Luxemburgo em perigo de viver abaixo do limiar da pobreza, 30% são portugueses. O alerta é relatado no novo relatório do Statec “Coesão Social e Trabalho”, no País em tempos de pandemia. Os portugueses são a nacionalidade estrangeira residente no Luxemburgo mais exposta à pobreza e “em maior risco de se tornar pobre”. Esta é uma das conclusões do relatório. “Existe uma representação elevada de pessoas de nacionalidade portuguesa entre os pobres, a sua percentagem é de 27,4% entre as pessoas em risco de pobreza que afeta 14,9% da população total do País” nessa situação, lê-se no estudo do Statec.

E o que significa viver abaixo do limiar da pobreza? “É viver com um rendimento mensal inferior a 1804 euros, por mês, no Luxemburgo”. Os jovens sozinhos, os estrangeiros e as famílias monoparentais são as mais expostas a este risco, vinca o Statec. Os portugueses surgem em primeiro lugar. A comunidade portuguesa é a maior do País, representando 15,2% da população total do Luxemburgo. Traduzido em números absolutos, em janeiro de 2020, dos 626.108 residentes no Grão-Ducado, 95.057 pessoas tinham nacionalidade portuguesa, indica o relatório.

“Mesmo antes da crise, o Luxemburgo era já um país com desigualdades crescentes e situações de pobreza terríveis, especialmente para famílias numerosas, famílias monoparentais, crianças e jovens, estrangeiros e pessoas com poucas qualificações”, frisa por seu turno a Caritas Luxemburgo no balanço da atividade da Corona Helpline.

Em 2018, o Luxemburgo era “o segundo país da Europa com um maior número de trabalhadores pobres, 13,5% da população ativa do país”, percentagem que aumento com a crise da pandemia. “A Cáritas Luxemburguesa apela ao Governo para que faça maiores esforços na luta contra a pobreza e a desigualdade”, vinca o relatório.

30.1.20

Secretária de Estado das Comunidades. "'Há portugueses sem-abrigo na Venezuela"

Liliana Monteiro, in RR

A secretária de Estado Berta Nunes está de visita à Venezuela, inteirando-se das dificuldades sentidas pelos portugueses que residem no país.

A secretária de Estado das Comunidades, Berta Nunes, diz que, embora em número reduzido, há na Venezuela portugueses sem-abrigo.
"Há portugueses na lista dos sem abrigo, mas são poucos", diz à Renascença a secretária de Estado das Comunidades, a partir da Venezuela, onde se encontra há quatro dias em visita aos portugueses que residem no país.
"Constatei que é uma comunidade que continua a querer permanecer, mas com as dificuldades que o país representa", acrescenta.

Berta Nunes revela que tem recebido informação que dá conta da vulnerabilidade de muitos dos nacionais que vivem na Venezuela, em particular de idosos que estão sozinhos. 'Visitamos uma organização não governamental ["Regala una Sonrisa"] que nos vai ajudar a procurar os idosos portugueses que estão sozinhos, em suas casas, em situação dificil e de indigência".
Visitas a lares e unidades clínicas, reuniões com conselheiros que representam a comunidade portuguesa, com ONGs, escolas, associações têm sido algumas das diligências da secretária de Estado no terreno.
Berta Nunes revelou que o Governo português está a ponderar alargar o leque de medicamentos que distribui aos portugueses na Venezuela, incluindo fármacos para doenças crónicas. "A crise venezuelana deixou de ser notícia na imprensa de Portugal, mas os portugueses radicados na Venezuela continuam a precisar de apoio", argumenta.


31.8.12

Sindicato diz que há portugueses escravizados em obra da NATO

in RR

"Trabalham mais horas" que funcionários de outras nacionalidades numa obra em Bruxelas, mas "ganham menos". "É esta a capital da democracia?", questiona sindicato do sector construção.

Cerca de uma centena de trabalhadores portugueses "estão em regime de escravatura contemporânea" numa obra da NATO, em Bruxelas. O alerta é do Sindicato da Construção de Portugal.

Em conferência de imprensa no Porto, o presidente do sindicato afirmou que os trabalhadores laboram "14 horas por dia e recebem sete euros por hora", enquanto os colegas belgas "com a mesma profissão recebem 16 euros por hora".

Albano Ribeiro disse ainda que "estão a dormir sete trabalhadores portugueses numa área que era para dois e sem qualquer espaço para colocarem a roupa", que permanece "na mala que levaram de Portugal". A obra da NATO em causa localiza-se "no centro de Bruxelas, ao lado do Parlamento Europeu", adiantou.

"É esta a capital da democracia, Bruxelas?", questionou o dirigente sindical. Segundo Albano Ribeiro, estarão actualmente a trabalhar em Bruxelas "milhares de portugueses do sector da construção", levados de Portugal "às camionetas por um angariador português sem alvará, nem registo".

Anunciando que irá, ainda esta sexta-feira, "pedir a intervenção de Durão Barroso", presidente da Comissão Europeia, o dirigente sindical reclama ainda a "intervenção" da Autoridade para as Condições do Trabalho, da secretaria de Estado das Comunidades, da Polícia Judiciária portuguesa e da sua congénere belga.

"Estas entidades têm que intervir, porque esta emigração é pior que a da década de 60 e 70 em alguns aspectos", sustentou Albano Ribeiro

24.4.12

Emigração portuguesa muda de rosto

Texto Francisco Pedro, in Fátima Missionária

Novos emigrantes são jovens licenciados e famílias que perderam a capacidade financeira para cumprir com os encargos


As mudanças sociais e económicas na Europa provocaram uma alteração na realidade emigrante portuguesa. Nos últimos meses, registou-se um aumento de casos de pobreza entre os portugueses que vivem em países europeus, havendo mesmo o relato de casos de cidadãos lusos que estão a viver em carros ou contentores no Luxemburgo. A Cáritas quer ajudar a minimizar o problema e reforçar a rede de solidariedade, com a ajuda das famílias católicas.

Hoje, quem mais parte em busca de uma oportunidade no estrangeiro são os «jovens licenciados à procura do primeiro emprego e desempregados mas também famílias que perderam recursos financeiros e que não conseguem responder aos encargos que têm». E muitos dos que decidem partir nem sempre estão bem informados sobre as dificuldades que vão encontrar. Este desconhecimento leva, por vezes, à exploração por parte de redes organizadas, concluíram a Cáritas e a Obra Católica Portuguesa das Migrações, após um encontro com os principais intervenientes junto das comunidades portuguesas emigrantes na Europa.

Para travar este flagelo, os participantes na reunião propõem-se a trabalhar para alcançar o reforço da ação das comunidades paroquiais e associações de emigrantes, o melhoramento da estrutura das Missões Católicas e o envolvimento das famílias cristãs no acolhimento e acompanhamento de novos emigrantes. Entre outras medidas, pretendem também solicitar às dioceses locais «a cedência de espaços físicos que possam ser utilizados para o atendimento direto a emigrantes».