in RTP Notícias
O Banco Mundial e a plataforma Covax criaram um novo mecanismo de financiamento que deverá permitir a vacinação de 250 milhões de pessoas nos países pobres até meados de 2022, de acordo com uma declaração conjunta hoje divulgada.
O novo mecanismo de financiamento permitirá aos 92 países-membros mais pobres da Covax a aquisição de doses adicionais para além da quota já totalmente financiada pelos países doadores, indica a declaração.
"O acesso às vacinas constitui o maior desafio para os países em desenvolvimento na proteção das suas populações do impacto da pandemia de covid-19, do ponto de vista sanitário, social e económico", disse o chefe do Banco Mundial, David Malpass.
Por enquanto, a desigualdade na vacinação entre países ricos e pobres é a regra.
A 26 de julho, os 29 países mais pobres só tinham conseguido administrar 1,5 doses por 100 habitantes, enquanto os países mais ricos tinham atingido 95,4 doses por 100 habitantes, de acordo com uma contagem da agência de notícias francesa AFP.
Os países pobres, que já têm projetos de vacinas aprovados pelo Banco Mundial, poderão confirmar o seu desejo de comprar doses adicionais da Covax, o tipo de vacina e o calendário de entrega.
Assim que o Banco Mundial seja informado pelo país do seu plano, poderá fornecer à Covax uma garantia de pagamento. Com a garantia do Banco Mundial, "a Covax pode negociar grandes volumes de vacina Covid-19 com fabricantes, a preços competitivos", refere a declaração.
Este mecanismo deverá permitir aos 92 países mais pobres que participam no sistema Covax a obtenção de 430 milhões de doses adicionais ou o suficiente para vacinar 250 milhões de pessoas, entre o final de 2021 e meados de 2022. Poderão também escolher a vacina que preferem.
O plataforma Covax, uma parceria entre a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Vaccine Alliance (Gavi) e a Coalition for Innovations in Epidemic Preparedness (Cepi), só conseguiu fornecer pouco mais de 135 milhões de doses a 136 países, muito aquém dos seus alvos iniciais, em parte porque os países ricos têm acumulado as doses disponíveis, mas também porque a Índia - que era suposto fornecer a maior parte das doses - tem vindo a proibir as exportações há vários meses, a fim de combater a pandemia no país.
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19.4.22
Projeto de Capital Humano em Cabo Verde com 26 milhões do Banco Mundial
O Banco Mundial aprovou um financiamento de 26 milhões de dólares (24 milhões de euros) para o Projeto de Capital Humano em Cabo Verde, para apoiar milhares de famílias no acesso a serviços básicos e educação, anunciou hoje a instituição.
Em comunicado, o Banco Mundial refere que o financiamento será atribuído a Cabo Verde pela Associação Internacional de Desenvolvimento -- organismo daquele grupo que fornece empréstimos sem juros e subsídios aos países mais carenciados - e insere-se no objetivo definido "antes da pandemia de covid-19", de apostar no capital humano como "um dos desafios mais significativos" para o país "alcançar o duplo objetivo" de "reduzir a pobreza extrema e aumentar a prosperidade partilhada"."A economia de Cabo Verde registou um crescimento robusto ao longo da última década, mas foi severamente atingida pela pandemia da covid-19, agravando a desigualdade de rendimentos, aumentando a taxa de desemprego e minando os investimentos no capital humano", reconhece ainda o Banco Mundial.
De acordo com Lily Mulatu, gestora global de Práticas Educativas para a África Ocidental e Central do Banco Mundial, trata-se de um projeto que reúne "quatro setores diferentes", mas "todos com o mesmo objetivo, de melhorar o capital humano de Cabo Verde".
"Assenta em realizações recentes e esforços contínuos do Governo de Cabo Verde, apoiado pelo Banco Mundial, nos setores da educação e proteção social, bem como no programa de reabilitação urbana do Governo", afirmou a responsável, citada no mesmo comunicado.
Em concreto, o Projeto Capital Humano visa "melhorar o acesso a serviços básicos e formação relevante para o mercado de trabalho em Cabo Verde", e para alcançar esse objetivo "apoiará o Governo de Cabo Verde em três áreas de resultados".
Prevê "assegurar que todos os jovens em idade escolar adquiram competências relevantes para as necessidades do mercado de trabalho", também que "os investimentos em formação profissional conduzam a uma maior empregabilidade" e, por último, "apoiar mulheres e jovens de famílias pobres e vulneráveis e melhorar o seu acesso a serviços básicos", incluindo intervenções de inclusão produtiva, formação, cuidados infantis, água, saneamento.
No setor da educação, o projeto apoiará a reforma curricular no ensino secundário, concentrando-se também na formação profissional de professores e na monitorização dos resultados da aprendizagem, para "melhorar a qualidade da educação".
Para o desenvolvimento de competências serão apoiadas "reformas que focalizem uma maior atenção na empregabilidade" de participantes em ações de formação e "no aumento do papel do setor privado, através do desenvolvimento de parcerias público-privadas para a formação de competências".
Na área da proteção social, o projeto "assenta em esforços recentes para estabelecer um registo social e direcionar serviços para as famílias mais pobres e vulneráveis, incluindo a expansão de um programa de inclusão social e produtiva a todos os 22 municípios do país".
Também prevê apoiar a implementação de um programa de melhoria da habitação, "para assegurar que as famílias mais pobres tenham acesso a serviços básicos", como abastecimento de água, rede saneamento e eletricidade.
O Projeto de Capital Humano em Cabo Verde, segundo o Banco Mundial, estima apoiar "mais de 3.500 pessoas em agregados familiares pobres e vulneráveis", facilitando-lhes o acesso a serviços básicos e condições de vida, mais de 40.000 pessoas em agregados familiares "pobres e vulneráveis, tornando-as mais social e produtivamente incluídos", através de programas para melhorar o acesso a cuidados infantis, a formação empresarial e ao empreendedorismo. Vai ainda apoiar quase 40.000 jovens em idade escolar "que deverão beneficiar de um currículo de ensino secundário mais orientado para o mercado de trabalho", e 4.550 jovens e mulheres "a obterem certificados de cursos de formação profissional relevantes para o mercado de trabalho".
De acordo com Eneida Fernandes, representante residente do Banco Mundial em Cabo Verde, este projeto vai proporcionar "investimentos atempados no atual contexto de recuperação económica" no pós-pandemia de covid-19, "melhorando o acesso a serviços básicos e formação relevante para o mercado de trabalho em Cabo Verde".
"Contribuindo, em última análise, para o crescimento económico acelerado por uma maior oferta de capital humano bem treinado e uma maior produtividade de todos os cidadãos de Cabo Verde", afirmou.
Cabo Verde enfrenta uma profunda crise económica e financeira, decorrente da forte quebra na procura turística - setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do arquipélago - desde março de 2020, devido à pandemia de covid-19.
Em 2020 registou uma recessão económica histórica, equivalente a 14,8% do PIB, seguindo-se um crescimento de 7% em 2021.
Segundo informação anterior da instituição, o Banco Mundial é "um dos parceiros estratégicos de desenvolvimento de Cabo Verde", tendo atualmente 11 projetos em execução no país, nas áreas do turismo, educação e desenvolvimento de competências, transportes, inclusão social, energia, economia digital, saúde, setor empresarial e acesso ao financiamento de micro e pequenas empresas, totalizando 223 milhões de dólares (203 milhões de euros).
23.4.21
Banco Mundial: Pobreza, desigualdade e crise climática andam de mão dada
in Negócios on-line
O Banco Mundial definiu como objetivo dedicar pelo menos metade do seu financiamento de projetos à preparação e ajuda à adaptação às alterações climáticas.
A pobreza, a desigualdade e a emergência climática vão cada vez mais de mão dada, alertou o presidente do Banco Mundial, David Malpass (na foto), insistindo na necessidade de medidas como a redução dos subsídios aos combustíveis fósseis.
"Sabemos que a pobreza, a desigualdade e as alterações climáticas são os desafios que vão definir o nosso tempo e que andam cada vez mais de mão na mão", disse Malpass, ao intervir na Cimeira de Líderes sobre o Clima, organizada pelos EUA, em modo virtual, que conta com 40 dirigentes internacionais.
Malpass salientou que, assim, a chave "é integrar desenvolvimento e luta contra as alterações climáticas".
Biden quer cortar emissões de gases poluentes para metade até 2030
O Banco Mundial definiu como objetivo dedicar pelo menos metade do seu financiamento de projetos à preparação e ajuda à adaptação às alterações climáticas.
"Sabemos que a pobreza, a desigualdade e as alterações climáticas são os desafios que vão definir o nosso tempo e que andam cada vez mais de mão na mão", disse Malpass, ao intervir na Cimeira de Líderes sobre o Clima, organizada pelos EUA, em modo virtual, que conta com 40 dirigentes internacionais.
Malpass salientou que, assim, a chave "é integrar desenvolvimento e luta contra as alterações climáticas".
Biden quer cortar emissões de gases poluentes para metade até 2030
O Banco Mundial definiu como objetivo dedicar pelo menos metade do seu financiamento de projetos à preparação e ajuda à adaptação às alterações climáticas.
Como exemplo, observou que é importante que os Estados reduzam os subsídios aos combustíveis fósseis.
Na cimeira participam, entre outros, os presidentes chinês, Xi Jiping, russo, Vladimir Putin, os principais líderes europeus e da América Central e do Sul.
Como exemplo, observou que é importante que os Estados reduzam os subsídios aos combustíveis fósseis.
Na cimeira participam, entre outros, os presidentes chinês, Xi Jiping, russo, Vladimir Putin, os principais líderes europeus e da América Central e do Sul.
23.11.20
Pobreza Infantil na União Europeia: das palavras à ação
Odete Severino Soares, in Expresso
O mais recente relatório do Banco Mundial revela que, só este ano, a pobreza extrema deverá atingir entre 88 milhões e 115 milhões de pessoas, podendo chegar a um total de 150 milhões de pessoas em 2021, em resultado da pandemia
Um terço da população global esteve em isolamento decorrente da COVID-19, e o encerramento das escolas teve impacto em mais de 1,5 bilhões de crianças e adolescentes em todo o mundo, resultando no agravamento das desigualdades sociais, nomeadamente, no aumento da pobreza infantil. Serão por isso necessários esforços consideráveis para reduzir as desigualdades no acesso à educação, apoiar famílias vulneráveis e impulsionar os sistemas de proteção das crianças.
Corremos o risco desta crise sanitária se transformar numa crise dos direitos da criança, sem localização específica, afetando todos os países, pelo que se tornam necessárias estratégias e políticas com uma visão inovadora de combate à pobreza infantil ao nível de toda a UE para responder a esta ameaça. Os líderes europeus têm que admitir que algo está profundamente errado se, apesar de todas políticas, medidas e instrumentos implementados, a pobreza infantil continua a aumentar no espaço europeu. No quadro da UE, conforme refere o Relatório do Tribunal de Contas Europeu sobre a pobreza infantil (29/09/20120), “é quase impossível avaliar de que forma a UE ajuda os Estados-Membros nos seus esforços para reduzir a pobreza infantil” adiantando que “os instrumentos mais robustos, como o Semestre Europeu ou o apoio dos fundos da União, raramente incidem especificamente na pobreza infantil” e acabando por concluir que “é difícil determinar se ação da UE dá um contributo eficaz para os esforços de luta contra este importante problema”.
É importante relembrar que um dos objetivos definidos na Estratégia Europa 2020 implicava tirar pelo menos 20 milhões de cidadãos europeus da pobreza até 2020. Este objetivo, não alcançado, baseava-se no compromisso de todos os estados-membros em construir uma Europa mais justa e inclusiva. No centro deste esforço estava o combate à pobreza infantil.
A ameaça da crise sanitária não acabou, e os líderes europeu procuram agora soluções através dos respetivos Planos Nacionais de Recuperação e Resiliência para fazer face à situação económica e social que esta crise está a criar afetando todos, com a previsão do aumento da despesa que ameaça escolas, serviços de saúde, a proteção das crianças. O aumento do desemprego já se faz sentir com risco crescente no que diz respeito às condições de vida daqueles que recebem apoio ou que estão dependentes de serviços sociais ou de solidariedade em geral, com os números relativos de pobreza infantil a aumentar.
Neste quadro, combater a pobreza infantil na UE tem que estar necessariamente no topo de agenda dos líderes europeus e não pode ser visto como um objetivo eternamente adiado, até porque estamos a falar de uma das regiões mais rica do mundo.
A iniciativa “Garantia Europeia para a Infância” pode mesmo constituir um instrumento fundamental e robusto para a estabilidade e prosperidade da UE no seu todo. Dispomos de instrumentos eficazes que podem ser utilizados para a concretizar, como o novo Fundo Social Europeu (FSE+) 2021-2027. A indecisão dos líderes europeus em relação à proposta do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia para que cada Estado-Membro aloque pelo menos 5% do FSE+ para combater a pobreza infantil, não é compreensível e não é um sinal positivo de um compromisso europeu comum que se quer alcançar para esta área.
Diria mesmo que a “Garantia Europeia para a Infância” deve ser assumida como parte integrante de um plano europeu transversal para combater a pobreza infantil, com financiamento UE adequado, materializado em planos e medidas nacionais e complementado por programas de apoio e oportunidades para os pais saírem de situações de exclusão social e integrarem o mercado de trabalho. Também é preciso que a UE e os seus Estados-membros melhorem a recolha de dados para ajudar a monitorizar e avaliar os progressos em matéria de combate à pobreza infantil.
Para o sucesso desta iniciativa é imperioso que se olhe para a pobreza infantil no quadro dos direitos das crianças, cuja unidade de observação e de mensuração é a criança, tendo em consideração a natureza multidimensional das suas vidas e a importância das suas relações, e onde a escassez de rendimento constitui apenas uma das vertentes. Engloba também saúde, educação, apoio familiar, proteção e a capacidade de as crianças participarem nas decisões que as afetam. “Um nível de vida adequado é um pré-requisito para o desenvolvimento da criança a nível físico, mental, moral e social”, como salienta a Organização Eurochild.
A decisão da Presidência portuguesa da UE de colocar a pobreza infantil no topo da sua agenda é por isso oportuna e urgente e pode constituir um marco decisivo no alcance daquele plano europeu integrado. Espera-se, por isso, no primeiro semestre de 2021, a par do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, a adoção da recomendação relativa à “Garantia Europeia para a Infância” desenhada de forma que cada estado-membro desenvolva estratégias e políticas que se concentrem na primeira infância, de forma a que todas as crianças em situação de pobreza possam ter acesso a cuidados de saúde gratuitos, creches e educação gratuitas, habitação digna e nutrição adequada.
Portugal vai estar numa posição privilegiada e única para ajudar a concretizar a noção de “felicidade” do Charlie Brown e que representa na sua essência o sonho que cada criança tem para si próprio de “Ser escandalosamente Feliz”.
O mais recente relatório do Banco Mundial revela que, só este ano, a pobreza extrema deverá atingir entre 88 milhões e 115 milhões de pessoas, podendo chegar a um total de 150 milhões de pessoas em 2021, em resultado da pandemia
Um terço da população global esteve em isolamento decorrente da COVID-19, e o encerramento das escolas teve impacto em mais de 1,5 bilhões de crianças e adolescentes em todo o mundo, resultando no agravamento das desigualdades sociais, nomeadamente, no aumento da pobreza infantil. Serão por isso necessários esforços consideráveis para reduzir as desigualdades no acesso à educação, apoiar famílias vulneráveis e impulsionar os sistemas de proteção das crianças.
Corremos o risco desta crise sanitária se transformar numa crise dos direitos da criança, sem localização específica, afetando todos os países, pelo que se tornam necessárias estratégias e políticas com uma visão inovadora de combate à pobreza infantil ao nível de toda a UE para responder a esta ameaça. Os líderes europeus têm que admitir que algo está profundamente errado se, apesar de todas políticas, medidas e instrumentos implementados, a pobreza infantil continua a aumentar no espaço europeu. No quadro da UE, conforme refere o Relatório do Tribunal de Contas Europeu sobre a pobreza infantil (29/09/20120), “é quase impossível avaliar de que forma a UE ajuda os Estados-Membros nos seus esforços para reduzir a pobreza infantil” adiantando que “os instrumentos mais robustos, como o Semestre Europeu ou o apoio dos fundos da União, raramente incidem especificamente na pobreza infantil” e acabando por concluir que “é difícil determinar se ação da UE dá um contributo eficaz para os esforços de luta contra este importante problema”.
É importante relembrar que um dos objetivos definidos na Estratégia Europa 2020 implicava tirar pelo menos 20 milhões de cidadãos europeus da pobreza até 2020. Este objetivo, não alcançado, baseava-se no compromisso de todos os estados-membros em construir uma Europa mais justa e inclusiva. No centro deste esforço estava o combate à pobreza infantil.
A ameaça da crise sanitária não acabou, e os líderes europeu procuram agora soluções através dos respetivos Planos Nacionais de Recuperação e Resiliência para fazer face à situação económica e social que esta crise está a criar afetando todos, com a previsão do aumento da despesa que ameaça escolas, serviços de saúde, a proteção das crianças. O aumento do desemprego já se faz sentir com risco crescente no que diz respeito às condições de vida daqueles que recebem apoio ou que estão dependentes de serviços sociais ou de solidariedade em geral, com os números relativos de pobreza infantil a aumentar.
Neste quadro, combater a pobreza infantil na UE tem que estar necessariamente no topo de agenda dos líderes europeus e não pode ser visto como um objetivo eternamente adiado, até porque estamos a falar de uma das regiões mais rica do mundo.
A iniciativa “Garantia Europeia para a Infância” pode mesmo constituir um instrumento fundamental e robusto para a estabilidade e prosperidade da UE no seu todo. Dispomos de instrumentos eficazes que podem ser utilizados para a concretizar, como o novo Fundo Social Europeu (FSE+) 2021-2027. A indecisão dos líderes europeus em relação à proposta do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia para que cada Estado-Membro aloque pelo menos 5% do FSE+ para combater a pobreza infantil, não é compreensível e não é um sinal positivo de um compromisso europeu comum que se quer alcançar para esta área.
Diria mesmo que a “Garantia Europeia para a Infância” deve ser assumida como parte integrante de um plano europeu transversal para combater a pobreza infantil, com financiamento UE adequado, materializado em planos e medidas nacionais e complementado por programas de apoio e oportunidades para os pais saírem de situações de exclusão social e integrarem o mercado de trabalho. Também é preciso que a UE e os seus Estados-membros melhorem a recolha de dados para ajudar a monitorizar e avaliar os progressos em matéria de combate à pobreza infantil.
Para o sucesso desta iniciativa é imperioso que se olhe para a pobreza infantil no quadro dos direitos das crianças, cuja unidade de observação e de mensuração é a criança, tendo em consideração a natureza multidimensional das suas vidas e a importância das suas relações, e onde a escassez de rendimento constitui apenas uma das vertentes. Engloba também saúde, educação, apoio familiar, proteção e a capacidade de as crianças participarem nas decisões que as afetam. “Um nível de vida adequado é um pré-requisito para o desenvolvimento da criança a nível físico, mental, moral e social”, como salienta a Organização Eurochild.
A decisão da Presidência portuguesa da UE de colocar a pobreza infantil no topo da sua agenda é por isso oportuna e urgente e pode constituir um marco decisivo no alcance daquele plano europeu integrado. Espera-se, por isso, no primeiro semestre de 2021, a par do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, a adoção da recomendação relativa à “Garantia Europeia para a Infância” desenhada de forma que cada estado-membro desenvolva estratégias e políticas que se concentrem na primeira infância, de forma a que todas as crianças em situação de pobreza possam ter acesso a cuidados de saúde gratuitos, creches e educação gratuitas, habitação digna e nutrição adequada.
Portugal vai estar numa posição privilegiada e única para ajudar a concretizar a noção de “felicidade” do Charlie Brown e que representa na sua essência o sonho que cada criança tem para si próprio de “Ser escandalosamente Feliz”.
21.10.20
Uma em cada seis crianças vivia em extrema pobreza e Covid-19 só piorou
Por Noticias ao Minuto
Uma em cada seis crianças de todo o mundo vivia em extrema pobreza antes da pandemia, mas a covid-19 vai agravar significativamente os números, alertam o Banco Mundial e a Unicef, num relatório hoje divulgado.
O documento, intitulado 'Estimativa Global de Crianças em Pobreza Monetária: Uma Atualização', revela que, em 2017, um total de 356 milhões de crianças vivia com uma média de 1,90 dólares (1,61 euros) por dia ou menos, valor referência que determina a extrema pobreza.
O número corresponde a quase um quinto (17,5%) da população mundial com idade inferior a 18 anos, sendo que as crianças mais novas são as mais pobres.
Segundo as duas instituições, quase 20% de todas as que têm menos de cinco anos e são de países em desenvolvimento vivem em lares de extrema pobreza.
"Apesar de as crianças representarem aproximadamente um terço da população mundial, cerca de metade dos que vivem em situação de extrema pobreza são crianças", conclui o documento, acrescentando que "as crianças têm mais do dobro da probabilidade de viveram em extrema pobreza do que os adultos.
O relatório faz uma comparação com a quantidade de adultos de todo o mundo em pobreza extrema e mostra que o número de crianças que apenas sobrevive é muito superior, já que a fatia de pessoas com mais de 18 anos que vivem com menos de 1,61 euros por dia ronda os 7,9%.
Todas as regiões do mundo registaram, em 2017, uma diminuição da pobreza extrema entre as crianças, com exceção da África subsaariana, que "assistiu a um aumento de 64 milhões no número absoluto de crianças a lutar para sobreviver", passando de 170 milhões em 2013 para 234 milhões, apontam o Banco Mundial e a Unicef.
Segundo a análise, dois terços do total de crianças a viver em extrema pobreza eram da África subsaariana, enquanto o sul da Ásia era responsável por quase um quinto (18%).
Entre as duas regiões do mundo, encontram-se cerca de 85% dos menores de 18 anos a viver com 1,61 euros diários ou menos.
As contas das duas entidades indicam ainda que mais de 40% das crianças de todo o mundo viviam com 3,20 dólares (2,71 euros) diários e mais de dois terços sobrevivia com um rendimento inferior a 5,50 dólares (4,66 euros) por dia.
"Só por si, estes números são chocantes. E a escala e a profundidade daquilo que sabemos sobre as dificuldades financeiras provocadas pela pandemia apenas servem para piorar ainda mais a situação", afirma o diretor de programas da Unicef, Sanjay Wijesekera, no relatório hoje divulgado.
"Os governos precisam urgentemente de um plano de recuperação para evitar que um número inestimável de crianças e das suas famílias atinja níveis de pobreza nunca vistos durante muitos, muitos anos", apelou.
Apesar de o número de crianças em extrema pobreza ter diminuído em aproximadamente 29 milhões entre 2013 e 2017, o valor deverá ser bastante superior na atualidade, já que as estimativas não consideram o impacto económico da pandemia de covid-19.
Segundo previsões do Banco Mundial divulgadas no dia 07, o número de pessoas em situação de pobreza extrema no mundo vai aumentar em 150 milhões em 2021 devido à pandemia de covid-19.
Segundo a instituição, este será o primeiro aumento em mais de 20 anos, já que à pandemia de covid-19 se associam as alterações climáticas e situações de conflito em vários pontos do globo.
De acordo com esse relatório do Banco Mundial, a pandemia deverá empurrar "mais 88 a 115 milhões de pessoas para a extrema pobreza este ano, com o total a chegar aos 150 milhões em 2021, dependendo da severidade da contração económica".
Os números "representariam um regresso à taxa de 9,2% em 2017", e, segundo o Banco Mundial, caso não tivesse existido a pandemia, a taxa deveria baixar para 7,9%.
Os dados divulgados hoje pelo Banco Mundial e pela Unicef referem que a maioria dos países respondeu à crise da pandemia "através da expansão de programas de proteção social, nomeadamente com apoios financeiros", mas "muitas das respostas são de curto prazo e não são adequadas para responder à dimensão e à recuperação no longo prazo".
As estimativas apresentadas no relatório de hoje foram compiladas na primavera de 2020 com base no Banco de Dados de Monitoramento Global de pesquisas domiciliares em 149 países.
Elaborado pelo Banco Mundial e pela Unicef (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância), o documento foi divulgado a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que foi assinalado no domingo passado.
Uma em cada seis crianças de todo o mundo vivia em extrema pobreza antes da pandemia, mas a covid-19 vai agravar significativamente os números, alertam o Banco Mundial e a Unicef, num relatório hoje divulgado.
O documento, intitulado 'Estimativa Global de Crianças em Pobreza Monetária: Uma Atualização', revela que, em 2017, um total de 356 milhões de crianças vivia com uma média de 1,90 dólares (1,61 euros) por dia ou menos, valor referência que determina a extrema pobreza.
O número corresponde a quase um quinto (17,5%) da população mundial com idade inferior a 18 anos, sendo que as crianças mais novas são as mais pobres.
Segundo as duas instituições, quase 20% de todas as que têm menos de cinco anos e são de países em desenvolvimento vivem em lares de extrema pobreza.
"Apesar de as crianças representarem aproximadamente um terço da população mundial, cerca de metade dos que vivem em situação de extrema pobreza são crianças", conclui o documento, acrescentando que "as crianças têm mais do dobro da probabilidade de viveram em extrema pobreza do que os adultos.
O relatório faz uma comparação com a quantidade de adultos de todo o mundo em pobreza extrema e mostra que o número de crianças que apenas sobrevive é muito superior, já que a fatia de pessoas com mais de 18 anos que vivem com menos de 1,61 euros por dia ronda os 7,9%.
Todas as regiões do mundo registaram, em 2017, uma diminuição da pobreza extrema entre as crianças, com exceção da África subsaariana, que "assistiu a um aumento de 64 milhões no número absoluto de crianças a lutar para sobreviver", passando de 170 milhões em 2013 para 234 milhões, apontam o Banco Mundial e a Unicef.
Segundo a análise, dois terços do total de crianças a viver em extrema pobreza eram da África subsaariana, enquanto o sul da Ásia era responsável por quase um quinto (18%).
Entre as duas regiões do mundo, encontram-se cerca de 85% dos menores de 18 anos a viver com 1,61 euros diários ou menos.
As contas das duas entidades indicam ainda que mais de 40% das crianças de todo o mundo viviam com 3,20 dólares (2,71 euros) diários e mais de dois terços sobrevivia com um rendimento inferior a 5,50 dólares (4,66 euros) por dia.
"Só por si, estes números são chocantes. E a escala e a profundidade daquilo que sabemos sobre as dificuldades financeiras provocadas pela pandemia apenas servem para piorar ainda mais a situação", afirma o diretor de programas da Unicef, Sanjay Wijesekera, no relatório hoje divulgado.
"Os governos precisam urgentemente de um plano de recuperação para evitar que um número inestimável de crianças e das suas famílias atinja níveis de pobreza nunca vistos durante muitos, muitos anos", apelou.
Apesar de o número de crianças em extrema pobreza ter diminuído em aproximadamente 29 milhões entre 2013 e 2017, o valor deverá ser bastante superior na atualidade, já que as estimativas não consideram o impacto económico da pandemia de covid-19.
Segundo previsões do Banco Mundial divulgadas no dia 07, o número de pessoas em situação de pobreza extrema no mundo vai aumentar em 150 milhões em 2021 devido à pandemia de covid-19.
Segundo a instituição, este será o primeiro aumento em mais de 20 anos, já que à pandemia de covid-19 se associam as alterações climáticas e situações de conflito em vários pontos do globo.
De acordo com esse relatório do Banco Mundial, a pandemia deverá empurrar "mais 88 a 115 milhões de pessoas para a extrema pobreza este ano, com o total a chegar aos 150 milhões em 2021, dependendo da severidade da contração económica".
Os números "representariam um regresso à taxa de 9,2% em 2017", e, segundo o Banco Mundial, caso não tivesse existido a pandemia, a taxa deveria baixar para 7,9%.
Os dados divulgados hoje pelo Banco Mundial e pela Unicef referem que a maioria dos países respondeu à crise da pandemia "através da expansão de programas de proteção social, nomeadamente com apoios financeiros", mas "muitas das respostas são de curto prazo e não são adequadas para responder à dimensão e à recuperação no longo prazo".
As estimativas apresentadas no relatório de hoje foram compiladas na primavera de 2020 com base no Banco de Dados de Monitoramento Global de pesquisas domiciliares em 149 países.
Elaborado pelo Banco Mundial e pela Unicef (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância), o documento foi divulgado a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que foi assinalado no domingo passado.
20.8.20
Presidente do Banco Mundial defende perdão de dívida dos países mais pobres
in Público on-line
Recessão provocada pela covid-19 está-se a tornar numa depressão, segundo David Malpass. Banco Mundial mobilizou 160 mil milhões de dólares para ajudar os sistemas de saúde e de educação, apoiar os trabalhadores e tentar travar as ameaças de fome.
O presidente do Banco Mundial, David Malpass, apelou, em entrevista ao jornal The Guardian, para que seja feito um plano mais ambicioso de alívio da dívida dos países mais pobres, pois acredita que recessão provocada pela covid-19 está a tornar-se em depressão nesses territórios.
David Malpass sugeriu a primeira grande revogação de dívida desde o G8 de 2005 (acordo em que foram perdoadas as dívidas dos 18 estados mais pobres, 14 dos quais africanos). Segundo o chefe do Banco Mundial, mais cem milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza com a crise de covid-19.
“Isto é pior do que a crise financeira de 2008 e para a América Latina pior do que a crise da dívida dos anos 80”, disse o presidente do Banco Mundial. “A recessão transformou-se numa depressão para alguns países”, afirmou, demonstrando-se contudo “optimista” de que haja uma solução.
“O problema imediato é um problema de pobreza. Há pessoas à beira do abismo. Fizemos progressos nos últimos 20 anos. Populações inteiras saíram da pobreza extrema. O risco, à medida que a crise económica se instala, é que as pessoas caiam de novo na pobreza extrema.” O líder do Banco Mundial disse que há uma perspectiva “preocupante” que estas pessoas passem fome.
Malpass acrescentou ainda que a desigualdade ficou ainda mais marcada entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. “As recessões são ainda piores no mundo em desenvolvimento do que nas economias avançadas”, explicou.
O presidente do Banco Mundial elogiou o facto do grupo das sete economias mais desenvolvidas (G7) estar a considerar prolongar os prazos de pagamento da dívida, que acabavam este ano, até 2021, mas não considera isto suficiente. “Até ao momento, temos estado a fornecer alívio para o pagamento da dívida, acrescentando o que não foi pago no final [do prazo]” - “no caso dos países que já estão muito endividados, precisamos de olhar para o stock da dívida”, disse, pedindo mais transparência nos termos da contracção de dívida e sugerindo novos actores privados.
David Malpass indicou, na entrevista ao jornal britânico, que o Banco Mundial mobilizou 160 mil milhões de dólares (cerca de 134 mil milhões de euros ao câmbio actual) para empréstimos e subsídios para aliviar a pressão nos sistemas de saúde e tentar travar o aumento do número de crianças sem ir à escola, a perda de rendimentos daqueles que trabalham na economia informal e as ameaças de fome. A pandemia impediu crianças de irem à escola, lembrou, considerando tal uma “enorme tragédia”.
Recessão provocada pela covid-19 está-se a tornar numa depressão, segundo David Malpass. Banco Mundial mobilizou 160 mil milhões de dólares para ajudar os sistemas de saúde e de educação, apoiar os trabalhadores e tentar travar as ameaças de fome.
O presidente do Banco Mundial, David Malpass, apelou, em entrevista ao jornal The Guardian, para que seja feito um plano mais ambicioso de alívio da dívida dos países mais pobres, pois acredita que recessão provocada pela covid-19 está a tornar-se em depressão nesses territórios.
David Malpass sugeriu a primeira grande revogação de dívida desde o G8 de 2005 (acordo em que foram perdoadas as dívidas dos 18 estados mais pobres, 14 dos quais africanos). Segundo o chefe do Banco Mundial, mais cem milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza com a crise de covid-19.
“Isto é pior do que a crise financeira de 2008 e para a América Latina pior do que a crise da dívida dos anos 80”, disse o presidente do Banco Mundial. “A recessão transformou-se numa depressão para alguns países”, afirmou, demonstrando-se contudo “optimista” de que haja uma solução.
“O problema imediato é um problema de pobreza. Há pessoas à beira do abismo. Fizemos progressos nos últimos 20 anos. Populações inteiras saíram da pobreza extrema. O risco, à medida que a crise económica se instala, é que as pessoas caiam de novo na pobreza extrema.” O líder do Banco Mundial disse que há uma perspectiva “preocupante” que estas pessoas passem fome.
Malpass acrescentou ainda que a desigualdade ficou ainda mais marcada entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. “As recessões são ainda piores no mundo em desenvolvimento do que nas economias avançadas”, explicou.
O presidente do Banco Mundial elogiou o facto do grupo das sete economias mais desenvolvidas (G7) estar a considerar prolongar os prazos de pagamento da dívida, que acabavam este ano, até 2021, mas não considera isto suficiente. “Até ao momento, temos estado a fornecer alívio para o pagamento da dívida, acrescentando o que não foi pago no final [do prazo]” - “no caso dos países que já estão muito endividados, precisamos de olhar para o stock da dívida”, disse, pedindo mais transparência nos termos da contracção de dívida e sugerindo novos actores privados.
David Malpass indicou, na entrevista ao jornal britânico, que o Banco Mundial mobilizou 160 mil milhões de dólares (cerca de 134 mil milhões de euros ao câmbio actual) para empréstimos e subsídios para aliviar a pressão nos sistemas de saúde e tentar travar o aumento do número de crianças sem ir à escola, a perda de rendimentos daqueles que trabalham na economia informal e as ameaças de fome. A pandemia impediu crianças de irem à escola, lembrou, considerando tal uma “enorme tragédia”.
3.6.20
Pobreza pode duplicar na Cisjordânia, alerta Banco Mundial
Por Notícias ao Minuto
O número de famílias pobres pode duplicar este ano na Cisjordânia ocupada devido à pandemia da covid-19, que ameaça as finanças públicas e o emprego nos territórios palestinianos, alertou hoje o Banco Mundial.
Até ao momento, aqueles territórios têm sido relativamente poupados pela pandemia, com um total de 447 casos e três mortos registados entre os cerca de cinco milhões de habitantes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Mas a crise afetou a atividade económica, como em muitos outros locais, numa altura em que as autoridades estão sob pressão para aumentar as medidas relativas à saúde e de relançamento económico.
"Antes mesmo da pandemia de covid-19, cerca de um quarto dos palestinianos vivia sob o limiar da pobreza, 53% em Gaza e 14% na Cisjordânia. Segundo estimativas preliminares, o número de lares pobres deve aumentar para os 30% na Cisjordânia e 64% em Gaza", indica o Banco Mundial no seu relatório divulgado hoje.
O impacto deve ser maior na Cisjordânia porque dezenas de milhares de palestinianos do território trabalham em Israel, onde os salários são mais altos e que também foi afetado pela crise. Devido ao novo coronavírus o número desses trabalhadores caiu, o que contribui para uma "redução significativa" da sua contribuição financeira.
Após semanas de proibição de entrada em Israel, milhares de trabalhadores da Cisjordânia foram autorizados no início de maio a regressarem no quadro de um recomeço gradual da economia local.
Um acordo entre Israel e a Autoridade Palestiniana permitiu o regresso de 40.000 dos cerca de 100.000 trabalhadores e, no domingo, o número subiu para mais de 60.000, segundo as autoridades israelitas.
Mas, "nesta fase, não é possível saber quanto tempo levará a economia a recuperar das medidas de confinamento", sublinha o Banco Mundial, que espera uma contração do produto interno bruto (PIB) nos territórios palestinianos este ano entre os 7,6 e os 11,2%.
Em relação ao orçamento palestiniano, é esperado este ano um défice de 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,3 mil milhões de euros), quase o dobro do ano passado.
A situação deverá tornar-se "cada vez mais difícil" para a Autoridade Palestiniana, que vê diminuir as suas receitas e aumentar as despesas com a saúde, nota o Banco Mundial.
Neste contexto e para relançar o emprego no setor das tecnologias, o Banco Mundial pede medidas para relançar a filial da telefonia móvel nos territórios palestinianos. Na Cisjordânia ainda prevalece a 3G (telefonia móvel de terceira geração) e em Gaza a 2G.
As Nações Unidas, por seu turno, pediram num relatório divulgado no domingo a aplicação de "medidas mais audaciosas e diferentes" para "evitar uma destruição da economia".
A organização saudou o empréstimo de 800 milhões de shekels (cerca de 210 milhões de euros) à Autoridade Palestiniana que "constituirá uma 'boia de salvação' fiscal essencial" e que deve ser concedido em várias parcelas a partir de junho para compensar a perda de receita provocada pela crise sanitária.
As Nações Unidas alertaram também para as consequências desastrosas do projeto israelita de anexação de partes da Cisjordânia, território palestiniano que o Estado hebreu ocupa desde 1967.
O Governo israelita deve pronunciar-se a partir de 1 de julho sobre a aplicação do plano norte-americano para o Médio Oriente, que prevê a anexação por Israel do vale do Jordão e dos colonatos na Cisjordânia.
Além de "violar a lei internacional", a anexação poderá "complicar seriamente a ajuda ao desenvolvimento que a ONU e outras organizações dão aos palestinianos", segundo as Nações Unidas.
"Se continuar a tendência atual, as realizações do governo palestiniano nos últimos 25 anos desaparecerão e a situação de segurança (...) piorará, o que levará inevitavelmente a políticas mais radicais de ambos os lados", alertou.
O número de famílias pobres pode duplicar este ano na Cisjordânia ocupada devido à pandemia da covid-19, que ameaça as finanças públicas e o emprego nos territórios palestinianos, alertou hoje o Banco Mundial.
Até ao momento, aqueles territórios têm sido relativamente poupados pela pandemia, com um total de 447 casos e três mortos registados entre os cerca de cinco milhões de habitantes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Mas a crise afetou a atividade económica, como em muitos outros locais, numa altura em que as autoridades estão sob pressão para aumentar as medidas relativas à saúde e de relançamento económico.
"Antes mesmo da pandemia de covid-19, cerca de um quarto dos palestinianos vivia sob o limiar da pobreza, 53% em Gaza e 14% na Cisjordânia. Segundo estimativas preliminares, o número de lares pobres deve aumentar para os 30% na Cisjordânia e 64% em Gaza", indica o Banco Mundial no seu relatório divulgado hoje.
O impacto deve ser maior na Cisjordânia porque dezenas de milhares de palestinianos do território trabalham em Israel, onde os salários são mais altos e que também foi afetado pela crise. Devido ao novo coronavírus o número desses trabalhadores caiu, o que contribui para uma "redução significativa" da sua contribuição financeira.
Após semanas de proibição de entrada em Israel, milhares de trabalhadores da Cisjordânia foram autorizados no início de maio a regressarem no quadro de um recomeço gradual da economia local.
Um acordo entre Israel e a Autoridade Palestiniana permitiu o regresso de 40.000 dos cerca de 100.000 trabalhadores e, no domingo, o número subiu para mais de 60.000, segundo as autoridades israelitas.
Mas, "nesta fase, não é possível saber quanto tempo levará a economia a recuperar das medidas de confinamento", sublinha o Banco Mundial, que espera uma contração do produto interno bruto (PIB) nos territórios palestinianos este ano entre os 7,6 e os 11,2%.
Em relação ao orçamento palestiniano, é esperado este ano um défice de 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,3 mil milhões de euros), quase o dobro do ano passado.
A situação deverá tornar-se "cada vez mais difícil" para a Autoridade Palestiniana, que vê diminuir as suas receitas e aumentar as despesas com a saúde, nota o Banco Mundial.
Neste contexto e para relançar o emprego no setor das tecnologias, o Banco Mundial pede medidas para relançar a filial da telefonia móvel nos territórios palestinianos. Na Cisjordânia ainda prevalece a 3G (telefonia móvel de terceira geração) e em Gaza a 2G.
As Nações Unidas, por seu turno, pediram num relatório divulgado no domingo a aplicação de "medidas mais audaciosas e diferentes" para "evitar uma destruição da economia".
A organização saudou o empréstimo de 800 milhões de shekels (cerca de 210 milhões de euros) à Autoridade Palestiniana que "constituirá uma 'boia de salvação' fiscal essencial" e que deve ser concedido em várias parcelas a partir de junho para compensar a perda de receita provocada pela crise sanitária.
As Nações Unidas alertaram também para as consequências desastrosas do projeto israelita de anexação de partes da Cisjordânia, território palestiniano que o Estado hebreu ocupa desde 1967.
O Governo israelita deve pronunciar-se a partir de 1 de julho sobre a aplicação do plano norte-americano para o Médio Oriente, que prevê a anexação por Israel do vale do Jordão e dos colonatos na Cisjordânia.
Além de "violar a lei internacional", a anexação poderá "complicar seriamente a ajuda ao desenvolvimento que a ONU e outras organizações dão aos palestinianos", segundo as Nações Unidas.
"Se continuar a tendência atual, as realizações do governo palestiniano nos últimos 25 anos desaparecerão e a situação de segurança (...) piorará, o que levará inevitavelmente a políticas mais radicais de ambos os lados", alertou.
22.5.20
Banco Mundial avisa que mais de 60 milhões de pessoas poderão atingir “pobreza extrema” devido à pandemia
João Tereso Casimiro, in Económico
O banco espera que o crescimento económico mundial “encolha” 5% e, como consequência, milhares de empresas serão obrigadas a encerrar portas arrastando milhões de pessoas para o desemprego, passando a subsistir com menos de dois euros por dia.
Com a pandemia de Covid-19 a empurrar a economia mundial para terreno negativo, o Banco Mundial alertou para o risco de milhões de pessoas atingirem níveis de “pobreza extrema”.
David Malpass, presidente do Banco Mundial, garante que os recursos fornecidos pela entidade não serão suficientes, avança a BBC esta quarta-feira.
O banco espera que o crescimento económico mundial “encolha” 5% e, como consequência, milhares de empresas serão obrigadas a encerrar portas arrastando milhões de pessoas para o desemprego.
David Malpass, explica que “milhões de meios de subsistência foram destruídos” e realça que “os sistemas de saúde continuam sob pressão em todo o mundo”.
Segundo as estimativas do banco, a crise económica provocada pela pandemia de Covid-19, poderá levar a que 60 milhões de pessoas vivam em condições de “pobreza extrema”. O Banco Mundial define “pobreza extrema” pessoas que vivam com menos de 1,90 dólares (1,70 euros) diariamente, por pessoa.
“A nossa estimativa é de que até 60 milhões de pessoas serão levadas à extrema pobreza. Isso fará com que todo o progresso alcançado no alívio da pobreza nos últimos três anos seja apagado”, alertou Malpass.
O banco, com sede em Washington, está a oferecer 160 mil milhões de dólares (146 mil milhões de euros) em doações e empréstimos com juros baixos para ajudar os países mais pobres a enfrentar a crise. Malpass afirmou que 100 países, onde vivem 70% da população mundial, já receberam o financiamento de emergência.
“Enquanto o Banco Mundial estiver a fornecer recursos consideráveis, estes não serão suficientes”, acrescentou. Malpass não escondeu a sua frustração com os credores comerciais que, segundo ele, estão atrasados na oferta de alívio da dívida aos países mais pobres. “Os credores comerciais ainda estão, regra geral, a receberem pagamentos dos países mais pobres e é necessário que haja um movimento mais rápido”.
O Banco Mundial trabalha diretamente com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no sentido de desenvolver uma estratégia que permita aos países mais pobres solicitar um alívio na dívida dos pagamentos de empréstimos em dívida aos membros do G20 até o final deste ano.
Ao mesmo tempo, Jamie Dimon, presidente-executivo do banco JP Morgan, disse que a pandemia de coronavírus pode servir como um “alerta” para construir uma sociedade mais justa.
“Tenho uma esperança fervorosa que consigamos utilizar esta crise como um catalisador para reconstruir uma economia que cria e sustenta oportunidades para muito mais pessoas, especialmente aquelas que foram deixadas para trás durante muito tempo”, segundo o líder do banco norte-americano.
O banco espera que o crescimento económico mundial “encolha” 5% e, como consequência, milhares de empresas serão obrigadas a encerrar portas arrastando milhões de pessoas para o desemprego, passando a subsistir com menos de dois euros por dia.
Com a pandemia de Covid-19 a empurrar a economia mundial para terreno negativo, o Banco Mundial alertou para o risco de milhões de pessoas atingirem níveis de “pobreza extrema”.
David Malpass, presidente do Banco Mundial, garante que os recursos fornecidos pela entidade não serão suficientes, avança a BBC esta quarta-feira.
O banco espera que o crescimento económico mundial “encolha” 5% e, como consequência, milhares de empresas serão obrigadas a encerrar portas arrastando milhões de pessoas para o desemprego.
David Malpass, explica que “milhões de meios de subsistência foram destruídos” e realça que “os sistemas de saúde continuam sob pressão em todo o mundo”.
Segundo as estimativas do banco, a crise económica provocada pela pandemia de Covid-19, poderá levar a que 60 milhões de pessoas vivam em condições de “pobreza extrema”. O Banco Mundial define “pobreza extrema” pessoas que vivam com menos de 1,90 dólares (1,70 euros) diariamente, por pessoa.
“A nossa estimativa é de que até 60 milhões de pessoas serão levadas à extrema pobreza. Isso fará com que todo o progresso alcançado no alívio da pobreza nos últimos três anos seja apagado”, alertou Malpass.
O banco, com sede em Washington, está a oferecer 160 mil milhões de dólares (146 mil milhões de euros) em doações e empréstimos com juros baixos para ajudar os países mais pobres a enfrentar a crise. Malpass afirmou que 100 países, onde vivem 70% da população mundial, já receberam o financiamento de emergência.
“Enquanto o Banco Mundial estiver a fornecer recursos consideráveis, estes não serão suficientes”, acrescentou. Malpass não escondeu a sua frustração com os credores comerciais que, segundo ele, estão atrasados na oferta de alívio da dívida aos países mais pobres. “Os credores comerciais ainda estão, regra geral, a receberem pagamentos dos países mais pobres e é necessário que haja um movimento mais rápido”.
O Banco Mundial trabalha diretamente com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no sentido de desenvolver uma estratégia que permita aos países mais pobres solicitar um alívio na dívida dos pagamentos de empréstimos em dívida aos membros do G20 até o final deste ano.
Ao mesmo tempo, Jamie Dimon, presidente-executivo do banco JP Morgan, disse que a pandemia de coronavírus pode servir como um “alerta” para construir uma sociedade mais justa.
“Tenho uma esperança fervorosa que consigamos utilizar esta crise como um catalisador para reconstruir uma economia que cria e sustenta oportunidades para muito mais pessoas, especialmente aquelas que foram deixadas para trás durante muito tempo”, segundo o líder do banco norte-americano.
9.4.20
FMI e Banco Mundial defendem perdão imediato da dívida dos países mais pobres
in o Observador
O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) defenderam esta quarta-feira, com efeito imediato, um perdão da dívida oficial bilateral dos países mais pobres, entre os quais estão Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
“Com efeito imediato, e consistente com as leis nacionais dos países credores, o Grupo BM e o FMI apelam a todos os credores oficiais bilaterais que suspendam os pagamentos de dívida dos países [abrangidos pela] Associação para o Desenvolvimento Internacional (IDA, na sigla em inglês) que assim o solicitem”, lê-se num comunicado conjunto difundido hoje em Washington pelas duas instituições financeiras internacionais.
Isto vai ajudar os países da IDA com necessidades imediatas de liquidez a lidarem com os desafios colocados pela pandemia do novo coronavírus e dar tempo para uma análise do impacto da crise e sobre as necessidades de financiamento para cada país”, lê-se ainda no texto.
A IDA é uma instituição que funciona no âmbito do Banco Mundial com a missão de apoiar os 76 países mais pobres, entre os quais estão todos os países lusófonos africanos, à exceção de Angola e Guiné Equatorial.
Alimentação e imunidade: mitos e verdades
Neste apelo ao G20, o BM e o FMI apelam a estes países “que façam esta avaliação, incluindo a identificação dos países em situação de dívida insustentável, e preparem propostas para uma ação abrangente dos credores oficiais bilaterais sobre as necessidades de financiamento e de alívio de dívida nestes países”.
O grupo dos 20 países mais industrializados está esta semana a realizar um conjunto de reuniões no seguimento da pandemia da Covid-19, tentando delinear um plano de ação conjunto.
“O FMI e o BM acreditam que neste momento é imperativo fornecer um sentimento global de alívio aos países em desenvolvimento, bem como um forte sinal aos mercados financeiros”, conclui-se no comunicado, que incide apenas sobre a dívida bilateral e não sobre a dívida emitida nos mercados internacionais e detida por investidores privados ou institucionais.
Dos países lusófonos, apenas São Tomé e Príncipe não tem, até ao momento, registo de contágio pelo novo coronavírus.
O novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, já infetou perto de 428 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 19.000.
O continente africano registou 64 mortes devido ao novo coronavírus, ultrapassando os 2.300 casos.
Vários países adotaram medidas excecionais, incluindo o regime de quarentena e o encerramento de fronteiras.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) defenderam esta quarta-feira, com efeito imediato, um perdão da dívida oficial bilateral dos países mais pobres, entre os quais estão Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
“Com efeito imediato, e consistente com as leis nacionais dos países credores, o Grupo BM e o FMI apelam a todos os credores oficiais bilaterais que suspendam os pagamentos de dívida dos países [abrangidos pela] Associação para o Desenvolvimento Internacional (IDA, na sigla em inglês) que assim o solicitem”, lê-se num comunicado conjunto difundido hoje em Washington pelas duas instituições financeiras internacionais.
Isto vai ajudar os países da IDA com necessidades imediatas de liquidez a lidarem com os desafios colocados pela pandemia do novo coronavírus e dar tempo para uma análise do impacto da crise e sobre as necessidades de financiamento para cada país”, lê-se ainda no texto.
A IDA é uma instituição que funciona no âmbito do Banco Mundial com a missão de apoiar os 76 países mais pobres, entre os quais estão todos os países lusófonos africanos, à exceção de Angola e Guiné Equatorial.
Alimentação e imunidade: mitos e verdades
Neste apelo ao G20, o BM e o FMI apelam a estes países “que façam esta avaliação, incluindo a identificação dos países em situação de dívida insustentável, e preparem propostas para uma ação abrangente dos credores oficiais bilaterais sobre as necessidades de financiamento e de alívio de dívida nestes países”.
O grupo dos 20 países mais industrializados está esta semana a realizar um conjunto de reuniões no seguimento da pandemia da Covid-19, tentando delinear um plano de ação conjunto.
“O FMI e o BM acreditam que neste momento é imperativo fornecer um sentimento global de alívio aos países em desenvolvimento, bem como um forte sinal aos mercados financeiros”, conclui-se no comunicado, que incide apenas sobre a dívida bilateral e não sobre a dívida emitida nos mercados internacionais e detida por investidores privados ou institucionais.
Dos países lusófonos, apenas São Tomé e Príncipe não tem, até ao momento, registo de contágio pelo novo coronavírus.
O novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, já infetou perto de 428 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 19.000.
O continente africano registou 64 mortes devido ao novo coronavírus, ultrapassando os 2.300 casos.
Vários países adotaram medidas excecionais, incluindo o regime de quarentena e o encerramento de fronteiras.
6.11.18
Inflação nos alimentos pode ter agravado pobreza em 4% a 6%
in Notícias ao Minuto
A inflação do preço dos alimentos em 2016-17 pode ter aumentado em quatro a seis pontos percentuais a parcela de população moçambicana que vive na pobreza, de acordo com um novo estudo do Banco Mundial.
"Uma análise do Banco Mundial sobre as implicações da inflação do preço dos alimentos em 2016-17 conclui que pode ter significado um aumento da pobreza em 04 a 06 pontos percentuais", refere.
A informação faz parte do boletim sobre a Atualidade Económica de Moçambique, divulgado na quarta-feira, em Maputo.
Algumas das províncias mais pobres, tais como Tete, Manica e Niassa (interior norte e centro), terão sido as que mais suportaram o fardo, devido ao elevado nível de dependência do milho, acrescenta.
Como Moçambique é importador de milho e arroz, o preço dos alimentos chegou a subir 40% em novembro de 2016, por causa de uma depreciação acentuada da moeda, o metical - logo, eram necessários mais meticais para pagar a mesma quantidade de comida.
Hoje, a situação macroeconómica estabilizou-se (a inflação média a 12 meses é de 4,59%), mas as marcas podem perdurar.
Estas perspetivas sobre 2016 são as mais recentes indicações sobre a evolução da pobreza em Moçambique, uma vez que os últimos dados oficiais consolidados das autoridades e Banco Mundial são de 2014-15 e indicam que 48,4% da população é pobre - uma trajetória de descida desde 2002-03 em que o valor atingia 60,3%.
"A medição da pobreza em Moçambique baseia-se no valor de um nível mínimo de consumo necessário para a vida normal a curto prazo e bem-estar humano a longo prazo e que é estimado a partir de pesquisas domiciliares a cada cinco ou seis anos", pelas autoridades moçambicanas, nota a instituição.
Apesar da situação inflacionária verificada em 2016-17, o Banco Mundial prevê que, até 2030, Moçambique consiga reduzir a pobreza de 48,4% para 21,8% (melhor cenário) ou 36% (pior cenário).
O impacto desigual da instabilidade macroeconómica (e consequente inflação do preço de alimentos) registada em Moçambique nos últimos anos é avaliado numa secção específica do novo boletim do Banco Mundial.
Na secção, a instituição nota que as famílias pobres do interior rural foram as que mais cortaram na alimentação.
"Uma análise ao impacto de preços mais altos no bem-estar das famílias mostra que um aumento de 10% nos preços do milho levou a uma redução de 1,2% do consumo per capita nas áreas rurais e de 0,2% nas áreas urbanas", refere a instituição.
Os efeitos causados pelas mudanças "nos preços do arroz e mandioca foram menores, mas qualitativamente iguais".
O estudo realça "os custos da instabilidade macroeconómica nos mais desfavorecidos, especialmente dada a medida em que as subidas de preços dos alimentos são desproporcionalmente sentidas pelas famílias mais pobres, mesmo quando são produtoras de alimentos".
A descoberta de dívidas ocultas do Estado, ascendendo a dois mil milhões de dólares, contribuiu para que o abrandamento económico de Moçambique, que já se perspetivava, se transformasse numa crise em 2016-17, com os indicadores macroeconómicos a estabilizarem desde o último ano.
A inflação do preço dos alimentos em 2016-17 pode ter aumentado em quatro a seis pontos percentuais a parcela de população moçambicana que vive na pobreza, de acordo com um novo estudo do Banco Mundial.
"Uma análise do Banco Mundial sobre as implicações da inflação do preço dos alimentos em 2016-17 conclui que pode ter significado um aumento da pobreza em 04 a 06 pontos percentuais", refere.
A informação faz parte do boletim sobre a Atualidade Económica de Moçambique, divulgado na quarta-feira, em Maputo.
Algumas das províncias mais pobres, tais como Tete, Manica e Niassa (interior norte e centro), terão sido as que mais suportaram o fardo, devido ao elevado nível de dependência do milho, acrescenta.
Como Moçambique é importador de milho e arroz, o preço dos alimentos chegou a subir 40% em novembro de 2016, por causa de uma depreciação acentuada da moeda, o metical - logo, eram necessários mais meticais para pagar a mesma quantidade de comida.
Hoje, a situação macroeconómica estabilizou-se (a inflação média a 12 meses é de 4,59%), mas as marcas podem perdurar.
Estas perspetivas sobre 2016 são as mais recentes indicações sobre a evolução da pobreza em Moçambique, uma vez que os últimos dados oficiais consolidados das autoridades e Banco Mundial são de 2014-15 e indicam que 48,4% da população é pobre - uma trajetória de descida desde 2002-03 em que o valor atingia 60,3%.
"A medição da pobreza em Moçambique baseia-se no valor de um nível mínimo de consumo necessário para a vida normal a curto prazo e bem-estar humano a longo prazo e que é estimado a partir de pesquisas domiciliares a cada cinco ou seis anos", pelas autoridades moçambicanas, nota a instituição.
Apesar da situação inflacionária verificada em 2016-17, o Banco Mundial prevê que, até 2030, Moçambique consiga reduzir a pobreza de 48,4% para 21,8% (melhor cenário) ou 36% (pior cenário).
O impacto desigual da instabilidade macroeconómica (e consequente inflação do preço de alimentos) registada em Moçambique nos últimos anos é avaliado numa secção específica do novo boletim do Banco Mundial.
Na secção, a instituição nota que as famílias pobres do interior rural foram as que mais cortaram na alimentação.
"Uma análise ao impacto de preços mais altos no bem-estar das famílias mostra que um aumento de 10% nos preços do milho levou a uma redução de 1,2% do consumo per capita nas áreas rurais e de 0,2% nas áreas urbanas", refere a instituição.
Os efeitos causados pelas mudanças "nos preços do arroz e mandioca foram menores, mas qualitativamente iguais".
O estudo realça "os custos da instabilidade macroeconómica nos mais desfavorecidos, especialmente dada a medida em que as subidas de preços dos alimentos são desproporcionalmente sentidas pelas famílias mais pobres, mesmo quando são produtoras de alimentos".
A descoberta de dívidas ocultas do Estado, ascendendo a dois mil milhões de dólares, contribuiu para que o abrandamento económico de Moçambique, que já se perspetivava, se transformasse numa crise em 2016-17, com os indicadores macroeconómicos a estabilizarem desde o último ano.
27.6.16
Aumento da produção agrícola é essencial para fim da fome, alerta o Banco Mundial
in Diário Digital
O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, afirma que, nos últimos 25 anos, o percentual de desnutrição caiu quase pela metade no mundo, de 19% para 11%. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo.
Washington - O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, afirma que, nos últimos 25 anos, o percentual de desnutrição caiu quase pela metade no mundo, de 19% para 11%. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo hoje, a maior parte delas em países de baixa renda, como os da África Subsaariana.
O documento diz ainda que vai ser muito difícil acabar com a fome até 2030, cumprindo o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, se o ritmo atual de queda continuar o mesmo.
O relatório discute maneiras de alcançar os objetivos das Nações Unidas. Uma delas é elevar a produtividade das famílias rurais. Afinal, para 70% dos pobres do mundo que vivem no campo, a agricultura é a principal fonte de emprego e renda.
Além disso, em 2030, a população e a demanda por alimentos devem aumentar nos países mais pobres do mundo, onde a produtividade agrícola é menor e a vulnerabilidade às mudanças climáticas, mais alta.
Alterações na produtividade agrícola, principalmente na produção de cereais, influem nos números de pobreza e desnutrição, segundo o estudo do Banco Mundial.
Em períodos de estagnação na produtividade, como a ocorrida entre 1990 e 1999 nos países mais pobres do mundo, houve pouca melhora nos níveis de pobreza e saúde nutricional.
Já entre 2000 e 2012, quando o crescimento médio anual de produção de cereais nos países de baixa renda foi de 2,6%, a pobreza e a desnutrição caíram 2,7% ao ano.
O relatório do Banco Mundial também traz avanços nos indicadores de nanismo e desnutrição severa em crianças de até 5 anos, mas lembra que ainda há muito por fazer.
A prevalência de nanismo, por exemplo, diminuiu desde 1990, mas permanece perto de 40% nos países mais pobres do mundo. Até 2025, o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável visa reduzir em 40% o número de crianças de até 5 anos com nanismo.
O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, afirma que, nos últimos 25 anos, o percentual de desnutrição caiu quase pela metade no mundo, de 19% para 11%. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo.
Washington - O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, afirma que, nos últimos 25 anos, o percentual de desnutrição caiu quase pela metade no mundo, de 19% para 11%. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo hoje, a maior parte delas em países de baixa renda, como os da África Subsaariana.
O documento diz ainda que vai ser muito difícil acabar com a fome até 2030, cumprindo o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, se o ritmo atual de queda continuar o mesmo.
O relatório discute maneiras de alcançar os objetivos das Nações Unidas. Uma delas é elevar a produtividade das famílias rurais. Afinal, para 70% dos pobres do mundo que vivem no campo, a agricultura é a principal fonte de emprego e renda.
Além disso, em 2030, a população e a demanda por alimentos devem aumentar nos países mais pobres do mundo, onde a produtividade agrícola é menor e a vulnerabilidade às mudanças climáticas, mais alta.
Alterações na produtividade agrícola, principalmente na produção de cereais, influem nos números de pobreza e desnutrição, segundo o estudo do Banco Mundial.
Em períodos de estagnação na produtividade, como a ocorrida entre 1990 e 1999 nos países mais pobres do mundo, houve pouca melhora nos níveis de pobreza e saúde nutricional.
Já entre 2000 e 2012, quando o crescimento médio anual de produção de cereais nos países de baixa renda foi de 2,6%, a pobreza e a desnutrição caíram 2,7% ao ano.
O relatório do Banco Mundial também traz avanços nos indicadores de nanismo e desnutrição severa em crianças de até 5 anos, mas lembra que ainda há muito por fazer.
A prevalência de nanismo, por exemplo, diminuiu desde 1990, mas permanece perto de 40% nos países mais pobres do mundo. Até 2025, o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável visa reduzir em 40% o número de crianças de até 5 anos com nanismo.
21.6.16
Subir Lall quer desempregados a participar na definição das políticas laborais
Raquel Martins, in Público on-line
Chefe de missão do FMI alerta que “nunca há um ponto final” nas reformas do mercado de trabalho.
Portugal é um bom exemplo da participação dos parceiros sociais na definição das reformas do mercado de trabalho, mas é preciso ir mais longe e envolver também os desempregados nessa discussão. O desafio foi deixado nesta segunda-feira por Subir Lall, chefe de missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Portugal, durante um debate sobre desigualdade salarial, promovido pela pela Nova School of Business and Economics, em colaboração com o Banco de Portugal e com o Banco Mundial.
A ideia, explicou à margem do debate, é “tornar o debate mais inclusivo e mais transparente”. “Se há políticas que afectam toda a força de trabalho, então [os desempregados] devem poder participar nas discussões porque [essas medidas] também os afectam”, disse, lembrando que um governo eleito democraticamente representa toda a gente, incluindo os mais de 640 iml desempregados existentes em Portugal.
A forma como isso pode ser feito é algo que “tem de ser definido ao nível nacional”, porque “o que funciona num país pode não funcionar noutro”. “Há muitas ideias no ar”, na Europa por exemplo está a ser equacionada a criação de um conselho nacional para a competitividade.
Durante o debate, que juntou em Lisboa vários economistas da área do trabalho, Subir Lall reconheceu que o mercado laboral é um “importante mecanismo de ajustamento quando a economia estão sob choque”, mas é preciso evitar resolver todos os problemas através das políticas laborais.
Questionado sobre se Portugal já fez as reformas necessárias na área laboral, Lall foi claro: “As reformas [laborais] são um processo contínuo, nunca há um ponto final”. “Muitas reformas foram feitas, pensamos que tiveram um papel importante na redução do desemprego desde o pico da crise. Não significa que o trabalho está terminado, porque o trabalho das reformas nunca está terminado”, acrescentou o economista do FMI.
"Se estão preocupados com a desigualdade", olhem para os desempregados
Subir Lall, que está em Portugal para conduzir a quarta missão de monitorização do pós- programa, evitou os temas mais polémicos e em relação aos quais o FMI tem criticado o actual Governo. Contudo, Nuno Alves, sub-director do departamento de estudos do Banco de Portugal, que moderou o debate, surpreendeu o chefe de missão quando lhe perguntou se reconhece que o salário mínimo nacional (SMN) é um instrumento importante para reduzir a desigualdade.
"Claro que não podemos deixar que a desigualdade cresça”, reconheceu Lall, mas “o aumento dos rendimentos deve ser feito por via do aumento da procura e não através do aumento do SMN”. “Se estão preocupados com a desigualdade e com a pobreza, têm de se preocupar com os desempregados", defendeu este responsável, cujo organismo que representa defende que o aumento do SMN afecta negativamente a criação de emprego.
Subir Lall lembrou ainda que mexer na remuneração mínima sem aumentar a produtividade (como diz que aconteceu em Outubro de 2014, quando o anterior Governo decidiu aumentar o SMN de 485 para 505 euros, e em Janeiro de 2016, quando o actual executivo aumentou a remuneração mínima para 530 euros), “pode ser um problema no futuro". O Governo tem como meta colocar o valor nos 600 euros no final da legislatura.
Ao longo do dia, foram apresentadas várias investigações sobre desigualdade salarial que estão a ser desenvolvidas por economistas portugueses e norte-americanos. O objectivo, explicou logo no início da conferência o director da Nova School of Business, Daniel Traça, é “contribuir para trazer factos e conhecimento ao debate sobre a desigualdade” e evitar que se faça apenas “uma discussão política”.
Algumas das conclusões desmontam ideias pré-concebidas sobre o problema. Uma delas foi apresentada por David Card, professor na Universidade de Berkeley que tem estado envolvido em vários estudos sobre Portugal. Ao contrário do que se possa pensar, a origem da desigualdade tem uma componente empresarial significativa, conclui o economista, com 20% da variação salarial a ser definida pelas empresas. “As empresas têm uma grande flexibilidade para definir os salários, independentemente da contratação colectiva, dado que os trabalhadores recebem mais do que o que está definido nos contratos colectivos”, que têm vindo a perder terreno.
É também nesse sentido que vão as conclusões preliminares de um estudo que está a ser conduzido por Pedro Portugal, professor na Universidade Nova. O também economista do Banco de Portugal conclui que o SMN “tem vindo a aumentar a sua importância na determinação do salário de entrada [dos trabalhadores numa empresa], mais do que os salários mínimos determinados pela negociação colectiva”.
Além disso, nota, há um tendência que se vem afirmando na economia portuguesa, contrariando o que acontecia na década de 1980, quando os melhores trabalhadores se concentravam nas empresas mais generosas. Nos últimos anos, os trabalhadores com menos qualificações têm vindo a ocupar postos de trabalho em empresas relativamente generosas e, ao mesmo tempo, há trabalhadores com muitas qualificações em empresas pouco produtivas.
Isto pode ter a ver, adianta, “com uma má afectação de recursos na economia portuguesa ao longo das últimas décadas” – demonstrada em vários estudos já publicados – e com a redução da dimensão das empresas em Portugal.
6.6.16
Fim da pobreza depende de crescimento econômico, constata Banco Mundial
in Diário Digital
Em 2030, 4% da população do planeta viverá em extrema pobreza se a economia continuar crescendo como na década entre 2002 e 2012. O dado é do estudo Indicadores de Desenvolvimento Global, do Banco Mundial, que neste ano tem como foco os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
Brasília - Em 2030, 4% da população do planeta viverá em extrema pobreza se a economia continuar crescendo como na década entre 2002 e 2012. O dado é do estudo Indicadores de Desenvolvimento Global, do Banco Mundial, que neste ano tem como foco os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
O relatório ainda aponta que, caso o crescimento econômico global seja igual ao dos últimos 20 anos, 6% de toda a população será extremamente pobre, ou seja, viverá com US$ 1,90 ao dia.
Erradicar a pobreza em todas as formas, em todo o mundo, é o primeiro dos Objetivos adotados pelas Nações Unidas em setembro do ano passado.
Segundo o estudo do Banco Mundial, a África Subsaariana e o Sul da Ásia terão as reduções mais drásticas nos percentuais de extrema pobreza se continuarem crescendo como no período 2002-2012.
Nesse ritmo, 20% dos africanos e 1,1% dos asiáticos do sul serão extremamente pobres em 2030.
Já a América Latina faria poucos progressos em 2030 mesmo que crescesse como na década anterior a 2012, um período de bonança para a região.
Acontece que a economia latino-americana entrou, em 2016, no quinto ano de desaceleração, preocupando os especialistas em desenvolvimento.
Hoje, 5,6% dos latino-americanos vivem com até US$ 1,90 ao dia, ante os 17,8% registrados em 1990.
Para não perder os avanços sociais dos últimos anos, os economistas da região estudam novas formas de estimular o crescimento latino-americano sem depender tanto das matérias-primas, como ocorreu nos anos de bonança.
Um dado positivo do relatório é que, pela primeira vez, menos de 10% da população global vive em extrema pobreza. Em 1990, eram 37%.
O estudo do Banco Mundial ainda destaca que as iniciativas de proteção social também são fundamentais para ajudar os países a cumprir o primeiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável. Entre esses programas, estão os de transferências de renda, alimentação escolar, mercado de trabalho e seguridade social.
Cerca de 60% dos mais pobres da América Latina estão assegurados por programas desse tipo, contra apenas 15% na África Subsaariana. Nessa e em outras regiões, é preciso aumentar a cobertura e a eficiência de tais programas, de acordo com o relatório.
Em 2030, 4% da população do planeta viverá em extrema pobreza se a economia continuar crescendo como na década entre 2002 e 2012. O dado é do estudo Indicadores de Desenvolvimento Global, do Banco Mundial, que neste ano tem como foco os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
Brasília - Em 2030, 4% da população do planeta viverá em extrema pobreza se a economia continuar crescendo como na década entre 2002 e 2012. O dado é do estudo Indicadores de Desenvolvimento Global, do Banco Mundial, que neste ano tem como foco os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
O relatório ainda aponta que, caso o crescimento econômico global seja igual ao dos últimos 20 anos, 6% de toda a população será extremamente pobre, ou seja, viverá com US$ 1,90 ao dia.
Erradicar a pobreza em todas as formas, em todo o mundo, é o primeiro dos Objetivos adotados pelas Nações Unidas em setembro do ano passado.
Segundo o estudo do Banco Mundial, a África Subsaariana e o Sul da Ásia terão as reduções mais drásticas nos percentuais de extrema pobreza se continuarem crescendo como no período 2002-2012.
Nesse ritmo, 20% dos africanos e 1,1% dos asiáticos do sul serão extremamente pobres em 2030.
Já a América Latina faria poucos progressos em 2030 mesmo que crescesse como na década anterior a 2012, um período de bonança para a região.
Acontece que a economia latino-americana entrou, em 2016, no quinto ano de desaceleração, preocupando os especialistas em desenvolvimento.
Hoje, 5,6% dos latino-americanos vivem com até US$ 1,90 ao dia, ante os 17,8% registrados em 1990.
Para não perder os avanços sociais dos últimos anos, os economistas da região estudam novas formas de estimular o crescimento latino-americano sem depender tanto das matérias-primas, como ocorreu nos anos de bonança.
Um dado positivo do relatório é que, pela primeira vez, menos de 10% da população global vive em extrema pobreza. Em 1990, eram 37%.
O estudo do Banco Mundial ainda destaca que as iniciativas de proteção social também são fundamentais para ajudar os países a cumprir o primeiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável. Entre esses programas, estão os de transferências de renda, alimentação escolar, mercado de trabalho e seguridade social.
Cerca de 60% dos mais pobres da América Latina estão assegurados por programas desse tipo, contra apenas 15% na África Subsaariana. Nessa e em outras regiões, é preciso aumentar a cobertura e a eficiência de tais programas, de acordo com o relatório.
14.1.16
Mais de metade da população mundial está excluída da economia digital
Camilo Soldado, in Público on-line
Banco Mundial avalia que vantagens do acesso à internet para a economia global ficam aquém das expectativas.
Embora a evolução tecnológica tenha representado avanços consideráveis, as vantagens apenas favorecem uma fracção da população mundial.
Apesar da rápida disseminação da internet por equipamentos digitais como os telemóveis pelos países em desenvolvimento, os dividendos esperados de maior crescimento, mais emprego e melhores serviços públicos não acompanham o ritmo de propagação desta tecnologia.
A conclusão de que a maior parte dos “dividendos digitais” beneficia, essencialmente, os mais ricos, mais qualificados e mais influentes em vez esbater as assimetrias é do estudo “Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial: Dividendos Digitais” do Banco Mundial, que avalia que 60% da população mundial esteja excluída da crescente esfera da economia digital.
Embora a evolução tecnológica tenha representado avanços consideráveis, como o acesso a informação, a redução de custos e maior rapidez na sua propagação e a criação, estas vantagens apenas favorecem uma fracção da população mundial.
Apesar de o número de indivíduos com acesso à web ter triplicado no espaço de uma década, com 3,2 mil milhões de habitantes a utilizar este serviço no final de 2015, a internet continua a não chegar a esses 60%, o que corresponde a 4 mil milhões de pessoas em todo o globo.
Para além de o impacto da evolução da tecnologia ter ficado aquém das expectativas, está também “distribuído de forma desigual”, pode ler-se no estudo liderado por dois economistas chefes do Banco Mundial, Deepak Mishra e Uwe Deichmann. Ou seja, os restantes 40% da população mundial estão melhor posicionados para tirar partido das vantagens proporcionadas pelo avanço tecnológico.
A pequena revolução operada pela internet em vários sectores está longe de ter apenas pontos positivos. O Banco Mundial avalia que, embora as empresas estejam mais interligadas, o ritmo de crescimento da produtividade abrandou e o mercado de trabalho tornou-se “mais polarizado em muitos países”, resultando no aumento das desigualdades. Estas tendências preocupam, “não porque sejam causadas pela rápida divulgação de tecnologias, mas porque têm persistido” apesar disso.
Os novos empregos que têm sido criados não compensam os postos de trabalho esvaziados pela automatização dos processos pelo que, mais uma vez, as “pessoas com melhor nível de instrução, bem conectadas e mais capazes” recebem a maior parte dos benefícios, “limitando os ganhos da revolução digital”. Da mesma forma, como a economia digital “favorece monopólios naturais”, um ambiente empresarial pouco competitivo pode “resultar em mercados mais concentrados”, o que consolida as empresas já constituídas.
Para inverter este sentido, o Banco Mundial sugere medidas como a adaptação das “aptidões dos trabalhadores à procura” bem como o reforço na regulamentação que “assegure a concorrência entre empresas”. Estas políticas enquadram-se naquilo a que a instituição se refere como um “fundamento analógico sólido”, uma vez que considera que “uma maior adopção digital não será suficiente” para tentar anular o fosso.
O mesmo é dizer que a propagação da tecnologia, por si só, não é suficiente para por fim às desigualdades no acesso à informação. O “hiato digital” mantém-se, com factores como rendimento, idade, geografia e género a constituir-se como relevantes. O facto de cerca de 20% da população mundial não saber ler nem escrever mostra como o acesso à economia digital não está apenas condicionado por questões tecnológicas.
A instituição sediada em Washington considera que, tal como os mais antigos desafios ao desenvolvimento, para que haja uma melhor distribuição dos dividendos digitais é necessário criar um ambiente favorável às empresas e construir sistemas de formação eficazes.
Banco Mundial avalia que vantagens do acesso à internet para a economia global ficam aquém das expectativas.
Embora a evolução tecnológica tenha representado avanços consideráveis, as vantagens apenas favorecem uma fracção da população mundial.
Apesar da rápida disseminação da internet por equipamentos digitais como os telemóveis pelos países em desenvolvimento, os dividendos esperados de maior crescimento, mais emprego e melhores serviços públicos não acompanham o ritmo de propagação desta tecnologia.
A conclusão de que a maior parte dos “dividendos digitais” beneficia, essencialmente, os mais ricos, mais qualificados e mais influentes em vez esbater as assimetrias é do estudo “Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial: Dividendos Digitais” do Banco Mundial, que avalia que 60% da população mundial esteja excluída da crescente esfera da economia digital.
Embora a evolução tecnológica tenha representado avanços consideráveis, como o acesso a informação, a redução de custos e maior rapidez na sua propagação e a criação, estas vantagens apenas favorecem uma fracção da população mundial.
Apesar de o número de indivíduos com acesso à web ter triplicado no espaço de uma década, com 3,2 mil milhões de habitantes a utilizar este serviço no final de 2015, a internet continua a não chegar a esses 60%, o que corresponde a 4 mil milhões de pessoas em todo o globo.
Para além de o impacto da evolução da tecnologia ter ficado aquém das expectativas, está também “distribuído de forma desigual”, pode ler-se no estudo liderado por dois economistas chefes do Banco Mundial, Deepak Mishra e Uwe Deichmann. Ou seja, os restantes 40% da população mundial estão melhor posicionados para tirar partido das vantagens proporcionadas pelo avanço tecnológico.
A pequena revolução operada pela internet em vários sectores está longe de ter apenas pontos positivos. O Banco Mundial avalia que, embora as empresas estejam mais interligadas, o ritmo de crescimento da produtividade abrandou e o mercado de trabalho tornou-se “mais polarizado em muitos países”, resultando no aumento das desigualdades. Estas tendências preocupam, “não porque sejam causadas pela rápida divulgação de tecnologias, mas porque têm persistido” apesar disso.
Os novos empregos que têm sido criados não compensam os postos de trabalho esvaziados pela automatização dos processos pelo que, mais uma vez, as “pessoas com melhor nível de instrução, bem conectadas e mais capazes” recebem a maior parte dos benefícios, “limitando os ganhos da revolução digital”. Da mesma forma, como a economia digital “favorece monopólios naturais”, um ambiente empresarial pouco competitivo pode “resultar em mercados mais concentrados”, o que consolida as empresas já constituídas.
Para inverter este sentido, o Banco Mundial sugere medidas como a adaptação das “aptidões dos trabalhadores à procura” bem como o reforço na regulamentação que “assegure a concorrência entre empresas”. Estas políticas enquadram-se naquilo a que a instituição se refere como um “fundamento analógico sólido”, uma vez que considera que “uma maior adopção digital não será suficiente” para tentar anular o fosso.
O mesmo é dizer que a propagação da tecnologia, por si só, não é suficiente para por fim às desigualdades no acesso à informação. O “hiato digital” mantém-se, com factores como rendimento, idade, geografia e género a constituir-se como relevantes. O facto de cerca de 20% da população mundial não saber ler nem escrever mostra como o acesso à economia digital não está apenas condicionado por questões tecnológicas.
A instituição sediada em Washington considera que, tal como os mais antigos desafios ao desenvolvimento, para que haja uma melhor distribuição dos dividendos digitais é necessário criar um ambiente favorável às empresas e construir sistemas de formação eficazes.
29.12.15
O crescente fosso da desigualdade: a inevitabilidade e a irrelevância (?)
Miguel Coelho e Rui Sainhas de Oliveira, in Público on-line
Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas será esta a realidade? Uma análise dos autores do livro Mercados – São Mesmo os Grandes Culpados das Crises?
Tenacidade é um dos métodos, segundo Charles S. Peirce (filósofo americano - 1839-1914) para o estabelecimento das nossas opiniões e a fixação das nossas convicções, e que caracteriza do seguinte modo: podemos tomar uma proposição e repeti-la para nós mesmos, concentrando-nos em tudo o que a suporta e voltando as costas a qualquer coisa que a possa desafiar. Mas para tratar do tema da desigualdade, já tão generosamente glosado segundo aquele método, preferimos o método também proposto por Peirce que postula a existência de coisas reais cujas características são inteiramente independentes das nossas opiniões sobre elas; procurando, assim, tirar proveito do que sabemos para nos aproximar mais do que não sabemos, ainda.
Com efeito, esclarecidas as questões quanto ao método, queremos com o termo desigualdade significar o hiato de rendimento que se define entre os termos da comparação que mais genericamente se estabelece na discussão deste tópico, a saber: (i) a diferença de rendimento entre os países mais pobres e os países mais ricos; e (ii) as diferenças salariais num quadro de livre comércio. Procuraremos, pois, desenvolver esta reflexão em torno destes dois polos do tópico, muito valorizado na obra de Angus Deaton, Nobel da Economia de 2015.
O fosso da desigualdade entre países ricos e os países pobres
Partindo do que sabemos, comecemos por revisitar o quadro de reflexão do Prof. William O. Thweat (de quem tomámos o título deste artigo) sobre a definição e o alargamento do fosso da desigualdade de rendimentos entre países ricos e países pobres. Iniciamos esse percurso pela definição do que o autor designa por “taxa de ultrapassagem”: quociente entre a taxa de crescimento dos países mais pobres e a taxa de crescimento do país mais rico de referência, ou seja, o indicador da dinâmica do fosso de rendimento. Se superior a um, estaremos perante uma dinâmica de redução do fosso; se inferior a um, revela o alargamento do fosso de rendimento.
Uma análise centrada exclusivamente no crescente hiato do rendimento com descuidada extrapolação sobre a evolução da pobreza no mundo, como frequentemente se vê fazer, pode ser um obstáculo sério ao estudo lúcido deste importantíssimo problema social e económico, como seguidamente se pretende ilustrar de forma numérica.
Conforme se constata a partir dos dados do Banco Mundial, o crescimento observado nos países com o PIB per capita mais elevado tem sido claramente inferior ao registado nos países com PIB per capita mais baixo (3,9% por ano face aos 7,4% por ano observados no período compreendido entre 1999 e 2014). Apesar disso, o hiato de rendimento entre os dois grupos de países, em termos absolutos, aumentou claramente, com o diferencial entre o PIB per capita a passar de 21.223 USD para os 37.184 USD.
Uma leitura apressada destes dados poder-nos-ia levar à seguinte conclusão: Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas será esta a realidade?
Analisemos, as projeções do Banco de Mundial sobre a pobreza no mundo. De acordo com os últimos dados, 702 milhões de pessoas, ou seja, 9,6% da população mundial, vai ainda este ano (2015) viver abaixo da linha de pobreza. Todavia, em 2012 essa cifra era de 902 milhões, 13% da população mundial, que compara com 29% em 1999.
Conforme se observa, a pobreza no mundo caiu significativamente, não obstante o alargamento do hiato de rendimento entre países mais ricos e países menos ricos.
O impacto da integração europeia
Ao procurar outro foco de luz sobre este mesmo tópico da divergência na distribuição do rendimento, agora no âmbito de uma economia específica - Portugal -, no quadro dado de crescente integração no comércio internacional, ocorre-nos, naturalmente, revisitar o modelo de Heckscher – Ohlin e, em particular, o designado “Teorema da Igualização do Preço dos Factores Produtivos”.
De acordo com este teorema, e como consequência do comércio internacional, produz-se uma tendência para a igualização dos preços relativos e absolutos dos factores produtivos. O comércio internacional funciona assim como substituto da mobilidade internacional dos factores produtivos.
De acordo com a informação disponível, tal parece ter acontecido nos últimos anos na Europa, em benefício claro dos países mais pobres. Na realidade, se em 2002 o salário dos quadros superiores em França era o dobro do registado em Portugal para o mesmo universo de pessoal qualificado, em 2013 esse valor terá caído para cerca de 1,6. Leitura idêntica obtém-se quando se analisa a relação entre os salários dos trabalhadores não qualificados - em 2002 o salário em França era 1,4 vezes superior, tendo passado a 1,2 vezes em 2013.
Apesar da convergência salarial observada com o processo de integração europeia, será que adentro de cada país, nomeadamente em Portugal, a diferença salarial entre as profissões mais qualificadas e menos qualificadas aumentou ou diminuiu?
Conforme se constata, nos primeiros anos de integração europeia os salários dos quadros superiores eram em média cerca de 3,6 a 3,8 vezes maiores do que os salários dos trabalhadores não qualificados, tendo este valor crescido para cerca de 4,5 vezes em 1998-2002, facto que traduziu um agravamento das desigualdades salariais. Contudo, a partir de 2005, o diferencial reduziu-se significativamente voltando em 2013 a níveis de 1986.
Como explicar então este aparente paradoxo? Ou seja, como explicar que a desigualdade salarial entre países tenha diminuído no quadro europeu mas que adentro dos países menos desenvolvidos essa desigualdade salarial não tenha diminuído logo após o início do processo de integração europeia (1986)?
A explicação para isto pode estar num fenómeno que, em teoria económica, é mais conhecido pelo efeito de Kuznets ["Economic Growth and Income Inequality", in American Economic Review, Março de 1949]
De acordo com Kuznets (1901-1985, prémio Nobel da Economia em 1971), nos estágios iniciais do crescimento económico de um país a desigualdade vai aumentar. Isso acontece porque nessa fase do crescimento vai ocorrer um aumento grande na procura por mão-de-obra qualificada, elevando os salários dos trabalhadores qualificados em detrimento dos não qualificados.
Reflexões finais
A problemática da desigualdade de rendimentos entre os países mais ricos e os países mais pobres tem sido alvo de acesa discussão nas últimas décadas. Recorrentemente, valorizamos os insucessos visíveis com o acréscimo no fosso de rendimento entre países ricos e países menos ricos, ignorando os ganhos significativos que obtivemos ao nível da eliminação da pobreza à escala mundial e que se traduzem nas seguintes palavras de Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial: "Somos a primeira geração na História que pode eliminar a extrema pobreza".
Por outro lado, a asserção de Kuznets, que tão bem reflectia as fases mais precoces dos processos de crescimento económico dos países mais periféricos, amplia, no quadro de uma economia mundial que progressivamente foi passando para níveis de maior interdependência, o domínio da sua pertinência.
Com efeito, os países onde tem predominado uma economia assente numa mão-de-obra relativamente menos qualificada têm vindo a assistir, sobre diferentes formas, à crescente concorrência do vasto conjunto de países no mesmo patamar de competências, com as conhecidas consequências: (i) a pressão sobre os salários e (ii) o desemprego da mão-de-obra não qualificada. Ao invés, a mão-de-obra qualificada dos países da periferia, tem vindo a beneficiar do efeito de abertura da economia mundial e os seus efeitos são também bem conhecidos: (i) a forte potencial de atração dos países do centro por níveis elevados de qualificação tem impulsionado a forte mobilidade dos que a possuem, (ii) induzindo a valorização interna desses segmentos superiores de qualificação.
Daqui resulta que, num quadro crescente de integração económica à escala mundial, a qualificação dos recursos humanos apresenta-se como a única via para evitar que os trabalhadores dos países mais ricos, nos quais Portugal se inclui, sejam vítimas de uma inevitabilidade teórica: convergência salarial com os países mais pobres.
Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas será esta a realidade? Uma análise dos autores do livro Mercados – São Mesmo os Grandes Culpados das Crises?
Tenacidade é um dos métodos, segundo Charles S. Peirce (filósofo americano - 1839-1914) para o estabelecimento das nossas opiniões e a fixação das nossas convicções, e que caracteriza do seguinte modo: podemos tomar uma proposição e repeti-la para nós mesmos, concentrando-nos em tudo o que a suporta e voltando as costas a qualquer coisa que a possa desafiar. Mas para tratar do tema da desigualdade, já tão generosamente glosado segundo aquele método, preferimos o método também proposto por Peirce que postula a existência de coisas reais cujas características são inteiramente independentes das nossas opiniões sobre elas; procurando, assim, tirar proveito do que sabemos para nos aproximar mais do que não sabemos, ainda.
Com efeito, esclarecidas as questões quanto ao método, queremos com o termo desigualdade significar o hiato de rendimento que se define entre os termos da comparação que mais genericamente se estabelece na discussão deste tópico, a saber: (i) a diferença de rendimento entre os países mais pobres e os países mais ricos; e (ii) as diferenças salariais num quadro de livre comércio. Procuraremos, pois, desenvolver esta reflexão em torno destes dois polos do tópico, muito valorizado na obra de Angus Deaton, Nobel da Economia de 2015.
O fosso da desigualdade entre países ricos e os países pobres
Partindo do que sabemos, comecemos por revisitar o quadro de reflexão do Prof. William O. Thweat (de quem tomámos o título deste artigo) sobre a definição e o alargamento do fosso da desigualdade de rendimentos entre países ricos e países pobres. Iniciamos esse percurso pela definição do que o autor designa por “taxa de ultrapassagem”: quociente entre a taxa de crescimento dos países mais pobres e a taxa de crescimento do país mais rico de referência, ou seja, o indicador da dinâmica do fosso de rendimento. Se superior a um, estaremos perante uma dinâmica de redução do fosso; se inferior a um, revela o alargamento do fosso de rendimento.
Uma análise centrada exclusivamente no crescente hiato do rendimento com descuidada extrapolação sobre a evolução da pobreza no mundo, como frequentemente se vê fazer, pode ser um obstáculo sério ao estudo lúcido deste importantíssimo problema social e económico, como seguidamente se pretende ilustrar de forma numérica.
Conforme se constata a partir dos dados do Banco Mundial, o crescimento observado nos países com o PIB per capita mais elevado tem sido claramente inferior ao registado nos países com PIB per capita mais baixo (3,9% por ano face aos 7,4% por ano observados no período compreendido entre 1999 e 2014). Apesar disso, o hiato de rendimento entre os dois grupos de países, em termos absolutos, aumentou claramente, com o diferencial entre o PIB per capita a passar de 21.223 USD para os 37.184 USD.
Uma leitura apressada destes dados poder-nos-ia levar à seguinte conclusão: Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas será esta a realidade?
Analisemos, as projeções do Banco de Mundial sobre a pobreza no mundo. De acordo com os últimos dados, 702 milhões de pessoas, ou seja, 9,6% da população mundial, vai ainda este ano (2015) viver abaixo da linha de pobreza. Todavia, em 2012 essa cifra era de 902 milhões, 13% da população mundial, que compara com 29% em 1999.
Conforme se observa, a pobreza no mundo caiu significativamente, não obstante o alargamento do hiato de rendimento entre países mais ricos e países menos ricos.
O impacto da integração europeia
Ao procurar outro foco de luz sobre este mesmo tópico da divergência na distribuição do rendimento, agora no âmbito de uma economia específica - Portugal -, no quadro dado de crescente integração no comércio internacional, ocorre-nos, naturalmente, revisitar o modelo de Heckscher – Ohlin e, em particular, o designado “Teorema da Igualização do Preço dos Factores Produtivos”.
De acordo com este teorema, e como consequência do comércio internacional, produz-se uma tendência para a igualização dos preços relativos e absolutos dos factores produtivos. O comércio internacional funciona assim como substituto da mobilidade internacional dos factores produtivos.
De acordo com a informação disponível, tal parece ter acontecido nos últimos anos na Europa, em benefício claro dos países mais pobres. Na realidade, se em 2002 o salário dos quadros superiores em França era o dobro do registado em Portugal para o mesmo universo de pessoal qualificado, em 2013 esse valor terá caído para cerca de 1,6. Leitura idêntica obtém-se quando se analisa a relação entre os salários dos trabalhadores não qualificados - em 2002 o salário em França era 1,4 vezes superior, tendo passado a 1,2 vezes em 2013.
Apesar da convergência salarial observada com o processo de integração europeia, será que adentro de cada país, nomeadamente em Portugal, a diferença salarial entre as profissões mais qualificadas e menos qualificadas aumentou ou diminuiu?
Conforme se constata, nos primeiros anos de integração europeia os salários dos quadros superiores eram em média cerca de 3,6 a 3,8 vezes maiores do que os salários dos trabalhadores não qualificados, tendo este valor crescido para cerca de 4,5 vezes em 1998-2002, facto que traduziu um agravamento das desigualdades salariais. Contudo, a partir de 2005, o diferencial reduziu-se significativamente voltando em 2013 a níveis de 1986.
Como explicar então este aparente paradoxo? Ou seja, como explicar que a desigualdade salarial entre países tenha diminuído no quadro europeu mas que adentro dos países menos desenvolvidos essa desigualdade salarial não tenha diminuído logo após o início do processo de integração europeia (1986)?
A explicação para isto pode estar num fenómeno que, em teoria económica, é mais conhecido pelo efeito de Kuznets ["Economic Growth and Income Inequality", in American Economic Review, Março de 1949]
De acordo com Kuznets (1901-1985, prémio Nobel da Economia em 1971), nos estágios iniciais do crescimento económico de um país a desigualdade vai aumentar. Isso acontece porque nessa fase do crescimento vai ocorrer um aumento grande na procura por mão-de-obra qualificada, elevando os salários dos trabalhadores qualificados em detrimento dos não qualificados.
Reflexões finais
A problemática da desigualdade de rendimentos entre os países mais ricos e os países mais pobres tem sido alvo de acesa discussão nas últimas décadas. Recorrentemente, valorizamos os insucessos visíveis com o acréscimo no fosso de rendimento entre países ricos e países menos ricos, ignorando os ganhos significativos que obtivemos ao nível da eliminação da pobreza à escala mundial e que se traduzem nas seguintes palavras de Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial: "Somos a primeira geração na História que pode eliminar a extrema pobreza".
Por outro lado, a asserção de Kuznets, que tão bem reflectia as fases mais precoces dos processos de crescimento económico dos países mais periféricos, amplia, no quadro de uma economia mundial que progressivamente foi passando para níveis de maior interdependência, o domínio da sua pertinência.
Com efeito, os países onde tem predominado uma economia assente numa mão-de-obra relativamente menos qualificada têm vindo a assistir, sobre diferentes formas, à crescente concorrência do vasto conjunto de países no mesmo patamar de competências, com as conhecidas consequências: (i) a pressão sobre os salários e (ii) o desemprego da mão-de-obra não qualificada. Ao invés, a mão-de-obra qualificada dos países da periferia, tem vindo a beneficiar do efeito de abertura da economia mundial e os seus efeitos são também bem conhecidos: (i) a forte potencial de atração dos países do centro por níveis elevados de qualificação tem impulsionado a forte mobilidade dos que a possuem, (ii) induzindo a valorização interna desses segmentos superiores de qualificação.
Daqui resulta que, num quadro crescente de integração económica à escala mundial, a qualificação dos recursos humanos apresenta-se como a única via para evitar que os trabalhadores dos países mais ricos, nos quais Portugal se inclui, sejam vítimas de uma inevitabilidade teórica: convergência salarial com os países mais pobres.
18.11.15
“A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome”
Ana Rute Silva, in Público on-line
Eric Holt-Gimenez, presidente da Food First, organização não-governamental americana, defende que a forma como hoje a comida chega ao prato, num complexo percurso que vai do campo ao supermercado, tem de sofrer “reformas estruturais” e não ficar refém dos 1% mais ricos do planeta.
O pretexto para a vinda de Eric Holt-Gimenez a Portugal era uma conferência sobre o polémico Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento que está a ser negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia. O convite partiu do CIDAC (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral), e, em conversa com o PÚBLICO, o presidente da organização não-governamental Food First, defensora da soberania alimentar, traçou o seu retrato do que é hoje o sistema alimentar do mundo, ou seja, a forma como a comida nos chega ao prato: Agricultores com cada vez menos terra para cultivar (a maioria hipotecada e vendida nos mercados de crédito internacionais), que comercializam os seus produtos a preços cada vez mais reduzidos. Quando chegam às prateleiras, os alimentos são ultra-processados para que possam aguentar ciclos longos de distribuição, num mundo em que se come soja plantada no Brasil, processada nos EUA e consumida na China.
Defende que há um sistema alimentar capitalista a operar no mundo. O que é que isso significa?
Trata-se de um regime alimentar corporativo. Basicamente há uma série de instituições e regras que determinam a forma como cultivamos, processamos, vendemos e consumimos a nossa comida. Este é o terceiro de três sistemas. O primeiro foi o colonialista, no qual os países do Sul forneciam alimentos baratos e matérias-primas à indústria do Norte, para que o Norte se pudesse industrializar. A revolução industrial teve sucesso porque as matérias-primas e a comida eram muito baratas e não era preciso pagar muito aos agricultores. A cesta básica era muito barata. O segundo sistema nasce depois da II Guerra Mundial. Os Estados Unidos criaram uma capacidade industrial tremenda depois da guerra, que permaneceu intocável, assim como uma capacidade tremenda de produzir comida. Acumulou nitratos, que transformou em fertilizantes, e venenos que transformou em insecticidas. Estes produtos geram uma produção massiva de alimentos. Chegou à Europa, durante a reconstrução.
Até essa altura não se usavam fertilizantes e insecticidas?
Havia mas não eram baratos, e tornaram-se baratos depois da Guerra. Os Estados Unidos emprestaram dinheiro à Europa para que reconstruísse e a Europa comprou estes químicos e rapidamente começou a produzir em excesso. Foi, por isso, preciso exportar esta comida para o hemisfério Sul, que até agora tinha alimentado os Estados Unidos e a Europa. O Norte teve de tornar o Sul dependente no acesso a alimentos, tudo ajudado pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. O regime alimentar corporativo nasce depois de meio século de produção alimentar excessiva. Há, agora, a globalização do controlo corporativo. Existem cadeias longas de abastecimento, mas concentradas em poucas mãos. Produz-se soja no Brasil, que é processada por uma empresa norte-americana e é enviada para a China onde é usada para alimentar para animais. Dá-se ainda a emergência das grandes cadeias de distribuição alimentar, como a Tesco, a Walmart ou a Carrefour, que controlam grande parte da cadeia de valor. São monopólios.
Os acordos de comércio "determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é democrático, não o votámos"
Algumas dessas empresas também estão a investir na produção alimentar. Em Portugal, por exemplo, um dos maiores operadores é dono de uma fábrica de transformação de leite. Não estão apenas a distribuir, estão a produzir.
Essa é uma tendência muito perigosa, porque a comida passa a ser controlada por muito poucas mãos. A comida não é uma commodity elástica, comemos até um certo ponto e tendemos a entrar em fases de produção excessiva. O que se faz com toda esta comida? O único mercado que está a crescer é o dos pobres. De repente torna-se muito importante alimentar os pobres. Isto é cíclico. De tempos a tempos, quando o mercado precisa de se expandir, preocupamo-nos muito com os pobres. Actualmente, a pobreza está a crescer 13% ao ano e não podemos vender-lhes iPads ou carros Tesla. Mas podemos vender-lhes comida, sementes e fertilizante. Há muitos monopólios hoje: o das sementes, o dos supermercados, as instituições como o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos [USDA na sigla inglesa] que é global. As regras em vigor são as dos acordos de comércio livre, a da Política Agrícola Comum na União Europeia ou a do Farm Bill nos Estados Unidos [lei agrícola]. Determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é democrático, não o votámos. Nada disto é feito por necessidade e há [795 milhões] de pessoas com fome no mundo.
Ao mesmo tempo, temos um elevado desperdício alimentar.
Produzimos 1,5 vezes mais de comida do que o necessário por cada mulher e criança no planeta. Fazemos isso há meio século porque a comida não é distribuída com base na necessidade. É distribuída com base na procura. Há fome porque as pessoas não têm dinheiro para comprar alimentos, não por falta de comida.
Os consumidores das sociedades desenvolvidas abastecem-se nas grandes cadeias de distribuição. Estão também a contribuir para esta realidade?
Absolutamente. Os supermercados dependem dos clientes e mantêm os preços baixos. E isso faz com que tenham de esmagar os lucros dos produtores e, ao mesmo tempo, tirar vantagem de uma enorme economia de escala. Para garantir essa economia de escala têm de usar muitos conservantes nos alimentos, processam muita comida, o que faz com que contribuam de forma expressiva para o aparecimento de doenças relacionadas com a alimentação. Doenças cardíacas, obesidade, diabetes… Produzem comida em massa que está a ser cada vez mais consumida pelos pobres, que representam a maioria da população do planeta. São muito poucos os que podem pagar comida de qualidade…
Refere-se a comida biológica, produtos frescos…
Sim, comida produzida localmente, diversidade nos vegetais, na carne. Esse tipo de dieta está apenas disponível a uma classe média alta.
Não acho que o poder esteja nos consumidores. Penso que são os cidadãos que têm o poder. É um problema estrutural e não vamos poder votar com o nosso garfo porque a maioria das pessoas do mundo são demasiado pobres para o fazer. Não têm o poder de compra que pode fazer mudanças.
O acesso a terra não poderia mudar essa realidade? Numa lógica de produção para auto-sustento?
A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome. E a maioria são mulheres. Podemos dizer que a maioria das pessoas que alimentam o mundo têm fome e são mulheres. Este é um problema de injustiça e de alocação de recursos. Porque hoje os produtores já não têm terra suficiente. Têm cada vez menos terra para cultivar, vendem os seus produtos mas não têm capacidade financeira para os comprar. As diferentes crises e as bolhas (a tecnológica, a imobiliária, a financeira) fazem com que a riqueza fique concentrada num número muito pequeno de pessoas. Perante a insegurança, já não há onde investir esse dinheiro e não é sensato, como capitalista, manter a riqueza em forma de dinheiro.
Por isso compram terra?
Exacto. Há aquisições de terra por todo o mundo, não necessariamente para produção. Há compras de terra para produzir, sobretudo, soja ou óleo de palma, mas parte é pura especulação. É um bom local para investir em tempos de grande volatilidade.
Quem lidera essas aquisições de terra?
Os 1% da população mais rica do mundo.
O TTIP "vai fazer descer os preços pagos à produção, vai fazer aumentar a volatilidade do preço dos alimentos, vamos assistir a uma concentração da posse de terra e a uma 'financeirização' da terra".
O consumidor não terá o poder de inverter essa lógica ao, por exemplo, escolher produtos produzidos de forma socialmente responsável, ou exigindo à indústria preços justos aos produtores?
Não acho que o poder esteja nos consumidores. Penso que são os cidadãos que têm o poder. É um problema estrutural e não vamos poder votar com o nosso garfo porque a maioria das pessoas do mundo são demasiado pobres para o fazer. Não têm o poder de compra que pode fazer mudanças. Não digo que não devemos comer de acordo com determinados valores, se tivermos essa capacidade financeira, mas isso não vai resolver o problema. O que vai resolver são reformas estruturais no sistema alimentar que vão afectar o sistema político e financeiro.
Que reformas são essas?
Primeiro que tudo, os agricultores devem receber um preço justo pelos seus produtos, o que não acontece hoje. Falamos muitos em subsídios para compensar, sobretudo, os maiores produtores, e isso tem como consequência o aumento do preço dos alimentos. Mas a verdade é que a maioria do valor de um alimento é gerado no processo de transformação e distribuição. Em segundo lugar, o poder político dos monopólios na alimentação deveria ser retirado. O que pode ser produzido localmente, deve ser produzido localmente. Isto deve ser incentivado e a melhor forma de o fazer é tornar o campo um bom local para viver. Por outras palavras, melhorar os salários, ter bons sistemas de saúde, água, saneamento, estradas no campo para que as pessoas não tenham de sair para ter uma vida boa. Em terceiro lugar, a comida não devia estar sob alçada da Organização Mundial do Comércio (OMC). Diria até para acabarmos com a OMC. Outra medida seria anular os acordos livres de comércio e imediatamente suspender as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento [TTIP na sigla inglesa]. São muito perigosos para as economias locais, que podemos ajudar a reconstruir, reparando o sistema alimentar.
A negociação do TTIP tem gerado muita polémica. Qual é a leitura que faz do impacto deste acordo para os agricultores?
Vai fazer descer os preços pagos à produção, vai fazer aumentar a volatilidade do preço dos alimentos, vamos assistir a uma concentração da posse de terra e a uma “financeirização” da terra. O que se passa agora nos Estados Unidos é que a maior parte da terra agrícola é hipotecada. Essas hipotecas são vendidas nos mercados internacionais de crédito. São divididas, distribuídas e vendidas no mundo continuamente. Pequenos pedaços de terra são vendidos à volta do globo e é do interesse do sector financeiro fazer aumentar o seu preço. O valor da terra está, por isso, a aumentar. Contudo, devido à volatilidade do preço dos alimentos, o valor da produção (que é excessiva) é muito inferior ao da própria terra. Com o TTIP é de esperar a “financeirização” da terra na União Europeia, como aconteceu nos Estados Unidos.
O que se passa agora nos Estados Unidos é que a maior parte da terra agrícola é hipotecada. Essas hipotecas são vendidas nos mercados internacionais de crédito. São divididas, distribuídas e vendidas no mundo continuamente.
Os alimentos deveriam ser protegidos dessa volatilidade, tratando-se de bens essenciais à sobrevivência humana?
Mais importante do que isso, são os salários justos. Se as pessoas fossem remuneradas de forma justa não teriam de se preocupar com o preço da comida. O maior empregador privado do mundo é a Walmart. E sempre que esta cadeia de supermercados americana abre uma loja, a comunidade paga um milhão de dólares de subsídios. É dinheiro público. Quem trabalha no Walmart não ganha dinheiro suficiente para comprar coisas na loja e precisam de recorrer aos vales de refeições. Se o Walmart fosse forçado a pagar um salário mínimo, os cofres públicos não teriam de suportar esses vales. A questão do preço é, por isso, uma questão laboral.
Qual é a diferença de preço entre o que o produtor ganha e o que o consumidor paga?
Há 50 anos os produtores recebiam 80 cêntimos por cada dólar, ou seja, 80%. Agora recebem 10%. O restante fica nas mãos da indústria transformadora e da distribuição.
Notícia corrigida: Há 50 anos os produtores recebiam 80 cêntimos por cada dólar e não oito cêntimos como erradamente se escreveu
Eric Holt-Gimenez, presidente da Food First, organização não-governamental americana, defende que a forma como hoje a comida chega ao prato, num complexo percurso que vai do campo ao supermercado, tem de sofrer “reformas estruturais” e não ficar refém dos 1% mais ricos do planeta.
O pretexto para a vinda de Eric Holt-Gimenez a Portugal era uma conferência sobre o polémico Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento que está a ser negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia. O convite partiu do CIDAC (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral), e, em conversa com o PÚBLICO, o presidente da organização não-governamental Food First, defensora da soberania alimentar, traçou o seu retrato do que é hoje o sistema alimentar do mundo, ou seja, a forma como a comida nos chega ao prato: Agricultores com cada vez menos terra para cultivar (a maioria hipotecada e vendida nos mercados de crédito internacionais), que comercializam os seus produtos a preços cada vez mais reduzidos. Quando chegam às prateleiras, os alimentos são ultra-processados para que possam aguentar ciclos longos de distribuição, num mundo em que se come soja plantada no Brasil, processada nos EUA e consumida na China.
Defende que há um sistema alimentar capitalista a operar no mundo. O que é que isso significa?
Trata-se de um regime alimentar corporativo. Basicamente há uma série de instituições e regras que determinam a forma como cultivamos, processamos, vendemos e consumimos a nossa comida. Este é o terceiro de três sistemas. O primeiro foi o colonialista, no qual os países do Sul forneciam alimentos baratos e matérias-primas à indústria do Norte, para que o Norte se pudesse industrializar. A revolução industrial teve sucesso porque as matérias-primas e a comida eram muito baratas e não era preciso pagar muito aos agricultores. A cesta básica era muito barata. O segundo sistema nasce depois da II Guerra Mundial. Os Estados Unidos criaram uma capacidade industrial tremenda depois da guerra, que permaneceu intocável, assim como uma capacidade tremenda de produzir comida. Acumulou nitratos, que transformou em fertilizantes, e venenos que transformou em insecticidas. Estes produtos geram uma produção massiva de alimentos. Chegou à Europa, durante a reconstrução.
Até essa altura não se usavam fertilizantes e insecticidas?
Havia mas não eram baratos, e tornaram-se baratos depois da Guerra. Os Estados Unidos emprestaram dinheiro à Europa para que reconstruísse e a Europa comprou estes químicos e rapidamente começou a produzir em excesso. Foi, por isso, preciso exportar esta comida para o hemisfério Sul, que até agora tinha alimentado os Estados Unidos e a Europa. O Norte teve de tornar o Sul dependente no acesso a alimentos, tudo ajudado pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. O regime alimentar corporativo nasce depois de meio século de produção alimentar excessiva. Há, agora, a globalização do controlo corporativo. Existem cadeias longas de abastecimento, mas concentradas em poucas mãos. Produz-se soja no Brasil, que é processada por uma empresa norte-americana e é enviada para a China onde é usada para alimentar para animais. Dá-se ainda a emergência das grandes cadeias de distribuição alimentar, como a Tesco, a Walmart ou a Carrefour, que controlam grande parte da cadeia de valor. São monopólios.
Os acordos de comércio "determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é democrático, não o votámos"
Algumas dessas empresas também estão a investir na produção alimentar. Em Portugal, por exemplo, um dos maiores operadores é dono de uma fábrica de transformação de leite. Não estão apenas a distribuir, estão a produzir.
Essa é uma tendência muito perigosa, porque a comida passa a ser controlada por muito poucas mãos. A comida não é uma commodity elástica, comemos até um certo ponto e tendemos a entrar em fases de produção excessiva. O que se faz com toda esta comida? O único mercado que está a crescer é o dos pobres. De repente torna-se muito importante alimentar os pobres. Isto é cíclico. De tempos a tempos, quando o mercado precisa de se expandir, preocupamo-nos muito com os pobres. Actualmente, a pobreza está a crescer 13% ao ano e não podemos vender-lhes iPads ou carros Tesla. Mas podemos vender-lhes comida, sementes e fertilizante. Há muitos monopólios hoje: o das sementes, o dos supermercados, as instituições como o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos [USDA na sigla inglesa] que é global. As regras em vigor são as dos acordos de comércio livre, a da Política Agrícola Comum na União Europeia ou a do Farm Bill nos Estados Unidos [lei agrícola]. Determinam o preço das sementes em todo o mundo e nada disto é democrático, não o votámos. Nada disto é feito por necessidade e há [795 milhões] de pessoas com fome no mundo.
Ao mesmo tempo, temos um elevado desperdício alimentar.
Produzimos 1,5 vezes mais de comida do que o necessário por cada mulher e criança no planeta. Fazemos isso há meio século porque a comida não é distribuída com base na necessidade. É distribuída com base na procura. Há fome porque as pessoas não têm dinheiro para comprar alimentos, não por falta de comida.
Os consumidores das sociedades desenvolvidas abastecem-se nas grandes cadeias de distribuição. Estão também a contribuir para esta realidade?
Absolutamente. Os supermercados dependem dos clientes e mantêm os preços baixos. E isso faz com que tenham de esmagar os lucros dos produtores e, ao mesmo tempo, tirar vantagem de uma enorme economia de escala. Para garantir essa economia de escala têm de usar muitos conservantes nos alimentos, processam muita comida, o que faz com que contribuam de forma expressiva para o aparecimento de doenças relacionadas com a alimentação. Doenças cardíacas, obesidade, diabetes… Produzem comida em massa que está a ser cada vez mais consumida pelos pobres, que representam a maioria da população do planeta. São muito poucos os que podem pagar comida de qualidade…
Refere-se a comida biológica, produtos frescos…
Sim, comida produzida localmente, diversidade nos vegetais, na carne. Esse tipo de dieta está apenas disponível a uma classe média alta.
Não acho que o poder esteja nos consumidores. Penso que são os cidadãos que têm o poder. É um problema estrutural e não vamos poder votar com o nosso garfo porque a maioria das pessoas do mundo são demasiado pobres para o fazer. Não têm o poder de compra que pode fazer mudanças.
O acesso a terra não poderia mudar essa realidade? Numa lógica de produção para auto-sustento?
A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome. E a maioria são mulheres. Podemos dizer que a maioria das pessoas que alimentam o mundo têm fome e são mulheres. Este é um problema de injustiça e de alocação de recursos. Porque hoje os produtores já não têm terra suficiente. Têm cada vez menos terra para cultivar, vendem os seus produtos mas não têm capacidade financeira para os comprar. As diferentes crises e as bolhas (a tecnológica, a imobiliária, a financeira) fazem com que a riqueza fique concentrada num número muito pequeno de pessoas. Perante a insegurança, já não há onde investir esse dinheiro e não é sensato, como capitalista, manter a riqueza em forma de dinheiro.
Por isso compram terra?
Exacto. Há aquisições de terra por todo o mundo, não necessariamente para produção. Há compras de terra para produzir, sobretudo, soja ou óleo de palma, mas parte é pura especulação. É um bom local para investir em tempos de grande volatilidade.
Quem lidera essas aquisições de terra?
Os 1% da população mais rica do mundo.
O TTIP "vai fazer descer os preços pagos à produção, vai fazer aumentar a volatilidade do preço dos alimentos, vamos assistir a uma concentração da posse de terra e a uma 'financeirização' da terra".
O consumidor não terá o poder de inverter essa lógica ao, por exemplo, escolher produtos produzidos de forma socialmente responsável, ou exigindo à indústria preços justos aos produtores?
Não acho que o poder esteja nos consumidores. Penso que são os cidadãos que têm o poder. É um problema estrutural e não vamos poder votar com o nosso garfo porque a maioria das pessoas do mundo são demasiado pobres para o fazer. Não têm o poder de compra que pode fazer mudanças. Não digo que não devemos comer de acordo com determinados valores, se tivermos essa capacidade financeira, mas isso não vai resolver o problema. O que vai resolver são reformas estruturais no sistema alimentar que vão afectar o sistema político e financeiro.
Que reformas são essas?
Primeiro que tudo, os agricultores devem receber um preço justo pelos seus produtos, o que não acontece hoje. Falamos muitos em subsídios para compensar, sobretudo, os maiores produtores, e isso tem como consequência o aumento do preço dos alimentos. Mas a verdade é que a maioria do valor de um alimento é gerado no processo de transformação e distribuição. Em segundo lugar, o poder político dos monopólios na alimentação deveria ser retirado. O que pode ser produzido localmente, deve ser produzido localmente. Isto deve ser incentivado e a melhor forma de o fazer é tornar o campo um bom local para viver. Por outras palavras, melhorar os salários, ter bons sistemas de saúde, água, saneamento, estradas no campo para que as pessoas não tenham de sair para ter uma vida boa. Em terceiro lugar, a comida não devia estar sob alçada da Organização Mundial do Comércio (OMC). Diria até para acabarmos com a OMC. Outra medida seria anular os acordos livres de comércio e imediatamente suspender as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento [TTIP na sigla inglesa]. São muito perigosos para as economias locais, que podemos ajudar a reconstruir, reparando o sistema alimentar.
A negociação do TTIP tem gerado muita polémica. Qual é a leitura que faz do impacto deste acordo para os agricultores?
Vai fazer descer os preços pagos à produção, vai fazer aumentar a volatilidade do preço dos alimentos, vamos assistir a uma concentração da posse de terra e a uma “financeirização” da terra. O que se passa agora nos Estados Unidos é que a maior parte da terra agrícola é hipotecada. Essas hipotecas são vendidas nos mercados internacionais de crédito. São divididas, distribuídas e vendidas no mundo continuamente. Pequenos pedaços de terra são vendidos à volta do globo e é do interesse do sector financeiro fazer aumentar o seu preço. O valor da terra está, por isso, a aumentar. Contudo, devido à volatilidade do preço dos alimentos, o valor da produção (que é excessiva) é muito inferior ao da própria terra. Com o TTIP é de esperar a “financeirização” da terra na União Europeia, como aconteceu nos Estados Unidos.
O que se passa agora nos Estados Unidos é que a maior parte da terra agrícola é hipotecada. Essas hipotecas são vendidas nos mercados internacionais de crédito. São divididas, distribuídas e vendidas no mundo continuamente.
Os alimentos deveriam ser protegidos dessa volatilidade, tratando-se de bens essenciais à sobrevivência humana?
Mais importante do que isso, são os salários justos. Se as pessoas fossem remuneradas de forma justa não teriam de se preocupar com o preço da comida. O maior empregador privado do mundo é a Walmart. E sempre que esta cadeia de supermercados americana abre uma loja, a comunidade paga um milhão de dólares de subsídios. É dinheiro público. Quem trabalha no Walmart não ganha dinheiro suficiente para comprar coisas na loja e precisam de recorrer aos vales de refeições. Se o Walmart fosse forçado a pagar um salário mínimo, os cofres públicos não teriam de suportar esses vales. A questão do preço é, por isso, uma questão laboral.
Qual é a diferença de preço entre o que o produtor ganha e o que o consumidor paga?
Há 50 anos os produtores recebiam 80 cêntimos por cada dólar, ou seja, 80%. Agora recebem 10%. O restante fica nas mãos da indústria transformadora e da distribuição.
Notícia corrigida: Há 50 anos os produtores recebiam 80 cêntimos por cada dólar e não oito cêntimos como erradamente se escreveu
8.10.15
Migrações vão desafiar economia global nas próximas décadas
in Notícias ao Minuto
A migração em grande escala dos países pobres para as regiões mais ricas será uma característica permanente da economia global nas próximas décadas, resultante de importantes mudanças populacionais nos países, diz um relatório do Banco Mundial/FMI.
Segundo o Relatório de Monitorização Global 2015/2016: Objetivos de Desenvolvimento numa Era de Mudança Demográfica, lançado no Peru no início dos Encontros Anuais do Banco Mundial e do FMI, o mundo está a passar por uma grande mudança da população, que vai remodelar o desenvolvimento económico por décadas e, ao mesmo tempo que levanta desafios, oferece um caminho para o fim da pobreza extrema e para a prosperidade partilhada - isto se as políticas adequadas forem postas em prática nacional e internacionalmente.
O documento revela que a população mundial em idade ativa atingiu um pico de 66% e está agora em declínio, enquanto o crescimento da população mundial deve abrandar para 1%, quando era superior a 2% na década de 1960. Quanto ao número de idosos, deverá atingir os 16% em 2050, com a contagem global de crianças a estabilizar nos 2 mil milhões.
O Relatório de Monitorização Global 2015/2016 assinala igualmente que a direção e o ritmo da transição demográfica mundial varia drasticamente de país para país, tendo implicações diferentes em função da posição que cada nação ocupa no espectro do envelhecimento populacional e do desenvolvimento económico.
Independentemente dessa diversidade, países em todos os estágios de desenvolvimento podem aproveitar a transição demográfica como uma enorme oportunidade, consideram os autores do relatório, que surge num momento em que os migrantes e refugiados de África e do Médio Oriente continuam a chegar à Europa em vagas sem precedentes.
"Com o conjunto correto de políticas, esta época de mudança demográfica pode ser um motor de crescimento económico", declarou o presidente do Grupo do Banco Mundial, Jim Yong Kim, para quem "se os países com envelhecimento populacional conseguirem criar uma forma de os refugiados e migrantes participarem nas suas economias, todos beneficiarão, pois tudo leva a crer que eles vão trabalhar arduamente, contribuindo mais em impostos do que aquilo que vão consumir em serviços sociais".
Mais de 90% da pobreza mundial concentra-se em países de baixo rendimento, com populações jovens e de crescimento rápido que esperam ver as pessoas em idade ativa aumentar significativamente, mas mais de três quartos do crescimento global é gerado nos países de rendimento mais elevado, com taxas de fertilidade muito inferiores, menos pessoas em idade ativa e um número crescente de idosos.
"O desenvolvimento demográfico analisado no relatório coloca desafios fundamentais aos decisores políticos em todo o mundo para os próximos anos", segundo a diretora do FMI.
Para Christine Lagarde, "quer se trate das implicações do envelhecimento da população, das ações necessárias para beneficiar de um dividendo demográfico ou da manipulação dos fluxos migratórios - estas questões estarão no centro dos debates políticos nacionais e do diálogo internacional sobre a melhor forma de cooperar para lidar com estas pressões".
A migração em grande escala dos países pobres para as regiões mais ricas será uma característica permanente da economia global nas próximas décadas, resultante de importantes mudanças populacionais nos países, diz um relatório do Banco Mundial/FMI.
Segundo o Relatório de Monitorização Global 2015/2016: Objetivos de Desenvolvimento numa Era de Mudança Demográfica, lançado no Peru no início dos Encontros Anuais do Banco Mundial e do FMI, o mundo está a passar por uma grande mudança da população, que vai remodelar o desenvolvimento económico por décadas e, ao mesmo tempo que levanta desafios, oferece um caminho para o fim da pobreza extrema e para a prosperidade partilhada - isto se as políticas adequadas forem postas em prática nacional e internacionalmente.
O documento revela que a população mundial em idade ativa atingiu um pico de 66% e está agora em declínio, enquanto o crescimento da população mundial deve abrandar para 1%, quando era superior a 2% na década de 1960. Quanto ao número de idosos, deverá atingir os 16% em 2050, com a contagem global de crianças a estabilizar nos 2 mil milhões.
O Relatório de Monitorização Global 2015/2016 assinala igualmente que a direção e o ritmo da transição demográfica mundial varia drasticamente de país para país, tendo implicações diferentes em função da posição que cada nação ocupa no espectro do envelhecimento populacional e do desenvolvimento económico.
Independentemente dessa diversidade, países em todos os estágios de desenvolvimento podem aproveitar a transição demográfica como uma enorme oportunidade, consideram os autores do relatório, que surge num momento em que os migrantes e refugiados de África e do Médio Oriente continuam a chegar à Europa em vagas sem precedentes.
"Com o conjunto correto de políticas, esta época de mudança demográfica pode ser um motor de crescimento económico", declarou o presidente do Grupo do Banco Mundial, Jim Yong Kim, para quem "se os países com envelhecimento populacional conseguirem criar uma forma de os refugiados e migrantes participarem nas suas economias, todos beneficiarão, pois tudo leva a crer que eles vão trabalhar arduamente, contribuindo mais em impostos do que aquilo que vão consumir em serviços sociais".
Mais de 90% da pobreza mundial concentra-se em países de baixo rendimento, com populações jovens e de crescimento rápido que esperam ver as pessoas em idade ativa aumentar significativamente, mas mais de três quartos do crescimento global é gerado nos países de rendimento mais elevado, com taxas de fertilidade muito inferiores, menos pessoas em idade ativa e um número crescente de idosos.
"O desenvolvimento demográfico analisado no relatório coloca desafios fundamentais aos decisores políticos em todo o mundo para os próximos anos", segundo a diretora do FMI.
Para Christine Lagarde, "quer se trate das implicações do envelhecimento da população, das ações necessárias para beneficiar de um dividendo demográfico ou da manipulação dos fluxos migratórios - estas questões estarão no centro dos debates políticos nacionais e do diálogo internacional sobre a melhor forma de cooperar para lidar com estas pressões".
Para compensar o envelhecimento, países ricos devem abrir portas aos imigrantes
Clara Barata, in Público on-line
Recomendações do Banco Mundial mostram como usar mudanças demográficas globais no combate à pobreza.
As migrações podem ajudar os países a ajustar-se às mudanças demográficas mundiais, que tendem a ser desiguais consoante o nível de desenvolvimento económico das nações. Essa é uma das mensagens mais fortes do relatório do Banco Mundial Objectivos de Desenvolvimento numa Era de Alterações Demográficas, divulgado nesta quarta-feira.
Mais de 90% da pobreza global concentra-se nos países com rendimentos mais baixos, e onde a população em idade activa vai crescer de forma significativa nos próximos anos. Mas três quartos do crescimento económico mundial é gerado em países onde por vezes a taxa de fertilidade bateu tão fundo que já não são repostas as gerações (2,1 filhos por casal), como em Portugal. Nestas nações, há cada vez menos habitantes e cada vez mais pessoas idosas, que necessitam de mais cuidadores.
A multiplicação de notícias sobre migrantes que esbarram nos muros do mundo rico fazem-nos temer um mundo a duas velocidades, mas o que o Banco Mundial diz que não tem de ser assim. “Com um conjunto de políticas adequado, esta era de mudanças demográficas pode ser um motor de crescimento económico”, afirmou o presidente desta instituição promotora do desenvolvimento, Jim Yong Kim. “Se os países com populações envelhecidas criarem caminhos para os refugiados e os migrantes participarem na economia, todos beneficiam. Os dados sugerem que os migrantes trabalham no duro e contribuem mais com os seus impostos do que consomem em serviços sociais”, escreve no prefácio.
Estima-se que existam 700 milhões de pobres no mundo – pessoas que vivem com menos de 1,9 dólares por dia (1,69 euros) –, menos que os 900 milhões de 2012. Em termos de rendimentos, a pobreza está a reduzir-se, mas para além da Ásia do Sul e outros pontos importantes, está a concentrar-se na África subsariana. Ali vive, em 2015, 14% da população mundial e, até 2050, metade do crescimento populacional global acontecerá neste continente.
Os países mais ricos têm 17% da população mundial, mas foram responsáveis por 42% do Produto Interno Bruto global entre 2000 e 2014 e por 60% da actividade económica em 2014, quantifica o relatório.
“Metade da população mundial – e a maioria dos pobres do mundo – vive em países onde a percentagem da população em idade activa (15-64 anos) está a crescer. A outra metade vive em países nos quais a população está a envelhecer e a população activa decresce. Torna-se necessário adaptar as políticas às mudanças demográficas”, diz o Banco Mundial, que sugere uma série de medidas.
Fala, por exemplo, na “criação de um mercado de trabalho mais inclusivo”, investindo no capital humano, na perspectiva de criar emprego para pessoas mais velhas, mas também na necessidade crescente de aumentar as despesas com os idosos e de garantir pensões que não deixem os mais velhos vulneráveis.
Mas indica também uma série de medidas para facilitar a livre circulação de estudantes e trabalhadores estrangeiros, para assegurar funções nos países ricos que têm falta de população em idade activa. Recomenda ainda uma abertura ao comércio internacional, que facilite o desenvolvimento dos países jovens e garanta benefícios aos mais ricos.
É uma questão de partilha de interesses: os mais pobres continuam a ter sérias dificuldades para escapar à pobreza, e os grandes motores do crescimento mundial estão a perder força. “Por isso, todos os países devem aproveitar as oportunidades dos fluxos de capital, da migração internacional e do comércio mundial”, diz o relatório.
Recomendações do Banco Mundial mostram como usar mudanças demográficas globais no combate à pobreza.
As migrações podem ajudar os países a ajustar-se às mudanças demográficas mundiais, que tendem a ser desiguais consoante o nível de desenvolvimento económico das nações. Essa é uma das mensagens mais fortes do relatório do Banco Mundial Objectivos de Desenvolvimento numa Era de Alterações Demográficas, divulgado nesta quarta-feira.
Mais de 90% da pobreza global concentra-se nos países com rendimentos mais baixos, e onde a população em idade activa vai crescer de forma significativa nos próximos anos. Mas três quartos do crescimento económico mundial é gerado em países onde por vezes a taxa de fertilidade bateu tão fundo que já não são repostas as gerações (2,1 filhos por casal), como em Portugal. Nestas nações, há cada vez menos habitantes e cada vez mais pessoas idosas, que necessitam de mais cuidadores.
A multiplicação de notícias sobre migrantes que esbarram nos muros do mundo rico fazem-nos temer um mundo a duas velocidades, mas o que o Banco Mundial diz que não tem de ser assim. “Com um conjunto de políticas adequado, esta era de mudanças demográficas pode ser um motor de crescimento económico”, afirmou o presidente desta instituição promotora do desenvolvimento, Jim Yong Kim. “Se os países com populações envelhecidas criarem caminhos para os refugiados e os migrantes participarem na economia, todos beneficiam. Os dados sugerem que os migrantes trabalham no duro e contribuem mais com os seus impostos do que consomem em serviços sociais”, escreve no prefácio.
Estima-se que existam 700 milhões de pobres no mundo – pessoas que vivem com menos de 1,9 dólares por dia (1,69 euros) –, menos que os 900 milhões de 2012. Em termos de rendimentos, a pobreza está a reduzir-se, mas para além da Ásia do Sul e outros pontos importantes, está a concentrar-se na África subsariana. Ali vive, em 2015, 14% da população mundial e, até 2050, metade do crescimento populacional global acontecerá neste continente.
Os países mais ricos têm 17% da população mundial, mas foram responsáveis por 42% do Produto Interno Bruto global entre 2000 e 2014 e por 60% da actividade económica em 2014, quantifica o relatório.
“Metade da população mundial – e a maioria dos pobres do mundo – vive em países onde a percentagem da população em idade activa (15-64 anos) está a crescer. A outra metade vive em países nos quais a população está a envelhecer e a população activa decresce. Torna-se necessário adaptar as políticas às mudanças demográficas”, diz o Banco Mundial, que sugere uma série de medidas.
Fala, por exemplo, na “criação de um mercado de trabalho mais inclusivo”, investindo no capital humano, na perspectiva de criar emprego para pessoas mais velhas, mas também na necessidade crescente de aumentar as despesas com os idosos e de garantir pensões que não deixem os mais velhos vulneráveis.
Mas indica também uma série de medidas para facilitar a livre circulação de estudantes e trabalhadores estrangeiros, para assegurar funções nos países ricos que têm falta de população em idade activa. Recomenda ainda uma abertura ao comércio internacional, que facilite o desenvolvimento dos países jovens e garanta benefícios aos mais ricos.
É uma questão de partilha de interesses: os mais pobres continuam a ter sérias dificuldades para escapar à pobreza, e os grandes motores do crescimento mundial estão a perder força. “Por isso, todos os países devem aproveitar as oportunidades dos fluxos de capital, da migração internacional e do comércio mundial”, diz o relatório.
6.10.15
Pobreza dispara com mudança de critérios do Banco Mundial
Por Eduarda Frommhold, in Dinheiro Vivo
O Banco Mundial prepara-se para aumentar para 1,90 dólares por dia o rendimento abaixo do qual a população mundial é considerada pobre.
Atualmente a linha de pobreza está fixada em 1,25 dólares por dia em paridade do poder de compra. Ou seja, considerando o poder de compra equivalente a essa quantia em cada país.
A subida para 1,90 dólares (cerca de 1,70 euros) representaria um aumento de cerca de 50% do rendimento considerado mínimo para subsistir, o que a concretizar-se deverá engrossar as estatísticas da pobreza mundial em muitas dezenas de milhões.
Pelas contas do Banco Mundial, 1,1 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem em pobreza extrema, com menos de um dólar por dia. Ou seja, cerca de um sexto da população mundial. Enquanto outros 2,7 mil milhões vivem em pobreza moderada, com menos de dois dólares por dia.
É difícil prever com exatidão quantas pessoas mais entrarão para as fileiras da pobreza com a alteração do Banco Mundial. Mas quando no início do ano os seus investigadores testaram um limiar de pobreza de 1,92 dólares, o salto foi de 148 milhões. O Leste da Ásia foi o mais atingido com a população abaixo da linha de pobreza quase a duplicar.
O Banco Mundial deverá anunciar a alteração, que está a ser preparada há quase dois anos, antes das suas reuniões anuais em Lima, no Peru, no início de Outubro. E será a maior revisão em 25 anos do valor fixado para a pobreza, desde que a instituição com sede em Washington, nos Estados Unidos, subiu, em 1990, de um dólar para 1,25 dólares por dia o seu critério para a linha da pobreza no globo ainda atualmente em vigor.
Em entrevista ao Financial Times, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, justificou a decisão com a necessidade de uma atualização dos critérios para melhor aferir a pobreza no mundo, face aos novos dados sobre o poder de compra. E garantiu que o novo limiar foi "muito bem analisado" pela equipa da instituição especializada na pobreza.
Mas coloca-se um problema. Um dos principais objetivos do Banco Mundial é o combate e erradicação da pobreza no mundo. A meta para acabar com "a extrema pobreza em todos os lugares" foi fixada pela própria instituição liderada por Jim Yong Kim em 2030. Isto é daqui a apenas 15 anos. Uma tarefa tanto mais difícil quanto mais pobres entrarem para as estatísticas.
Esta sexta-feira mesmo, os líderes mundiais estarão reunidos na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, nos EUA, para se comprometerem com 17 novos "objetivos de desenvolvimento sustentável", destinados a orientar a política de desenvolvimento para os próximos 15 anos, onde se inclui, logo à cabeça, a erradicação da pobreza até 2030.
Na região da Europa e Ásia Central, o Banco Mundial aponta para uma fatia de 5% da população que vive com menos de 1,25 dólares por dia. Uma percentagem que mais do que triplicou desde 1990 até 2011.
Em Portugal, o limiar do rendimento abaixo do qual se considera que uma família se encontra em risco de pobreza é de 60% do rendimento médio nacional por adulto, que é o mesmo valor convencionado pela Comissão Europeia para todos os países da União Europeia.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), este valor era em 2013 de 4937,00 euros anuais em Portugal, o que equivale a 411,42 euros por mês. Abaixo, portanto, dos 4969,00 euros por ano (414,00 euros por mês) que se registavam em 2008, no ano da crise económica e financeira despoletada pela falência do Lemon Brothers no final desse ano.
Ainda de acordo com o INE, a taxa de risco de pobreza em Portugal antes de qualquer transferência social (pensões ou apoios sociais)subiu de 42,5% em 2010, antes do pedido de ajuda financeira à UE e ao FMI, para 47,8% em 2013, meses antes da saída "limpa" do programa de ajustamento.
Por outro lado, a taxa de intensidade da pobreza também se agravou, passando de 23,2% em 2010 para 30,3% em 2013, segundo números ainda provisórios.
Morrem 50 mil pobres por dia em todo o mundo
Todos os anos, cerca de 18 milhões de pessoas no mundo morrem devido a razões relacionadas com a pobreza, o que dá uma média de 50 mil pessoas por dia, na maioria mulheres e crianças.
O Banco Mundial estima que mais de 800 milhões de pessoas estão subnutridas e o combate torna-se cada vez mais difícil em clima de desaceleração económica generalizada, em que impera a contenção dos gastos públicos e quando muitos países atravessam ainda períodos de grande austeridade.
Segundo um relatório da Cáritas, Portugal foi, dos sete países da União Europeia mais atingidos pela crise, aquele em que o risco de pobreza e exclusão social mais aumentou em 2014, à frente da Grécia, Chipre, Roménia, Irlanda, Itália e Espanha.
O Banco Mundial prepara-se para aumentar para 1,90 dólares por dia o rendimento abaixo do qual a população mundial é considerada pobre.
Atualmente a linha de pobreza está fixada em 1,25 dólares por dia em paridade do poder de compra. Ou seja, considerando o poder de compra equivalente a essa quantia em cada país.
A subida para 1,90 dólares (cerca de 1,70 euros) representaria um aumento de cerca de 50% do rendimento considerado mínimo para subsistir, o que a concretizar-se deverá engrossar as estatísticas da pobreza mundial em muitas dezenas de milhões.
Pelas contas do Banco Mundial, 1,1 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem em pobreza extrema, com menos de um dólar por dia. Ou seja, cerca de um sexto da população mundial. Enquanto outros 2,7 mil milhões vivem em pobreza moderada, com menos de dois dólares por dia.
É difícil prever com exatidão quantas pessoas mais entrarão para as fileiras da pobreza com a alteração do Banco Mundial. Mas quando no início do ano os seus investigadores testaram um limiar de pobreza de 1,92 dólares, o salto foi de 148 milhões. O Leste da Ásia foi o mais atingido com a população abaixo da linha de pobreza quase a duplicar.
O Banco Mundial deverá anunciar a alteração, que está a ser preparada há quase dois anos, antes das suas reuniões anuais em Lima, no Peru, no início de Outubro. E será a maior revisão em 25 anos do valor fixado para a pobreza, desde que a instituição com sede em Washington, nos Estados Unidos, subiu, em 1990, de um dólar para 1,25 dólares por dia o seu critério para a linha da pobreza no globo ainda atualmente em vigor.
Em entrevista ao Financial Times, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, justificou a decisão com a necessidade de uma atualização dos critérios para melhor aferir a pobreza no mundo, face aos novos dados sobre o poder de compra. E garantiu que o novo limiar foi "muito bem analisado" pela equipa da instituição especializada na pobreza.
Mas coloca-se um problema. Um dos principais objetivos do Banco Mundial é o combate e erradicação da pobreza no mundo. A meta para acabar com "a extrema pobreza em todos os lugares" foi fixada pela própria instituição liderada por Jim Yong Kim em 2030. Isto é daqui a apenas 15 anos. Uma tarefa tanto mais difícil quanto mais pobres entrarem para as estatísticas.
Esta sexta-feira mesmo, os líderes mundiais estarão reunidos na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, nos EUA, para se comprometerem com 17 novos "objetivos de desenvolvimento sustentável", destinados a orientar a política de desenvolvimento para os próximos 15 anos, onde se inclui, logo à cabeça, a erradicação da pobreza até 2030.
Na região da Europa e Ásia Central, o Banco Mundial aponta para uma fatia de 5% da população que vive com menos de 1,25 dólares por dia. Uma percentagem que mais do que triplicou desde 1990 até 2011.
Em Portugal, o limiar do rendimento abaixo do qual se considera que uma família se encontra em risco de pobreza é de 60% do rendimento médio nacional por adulto, que é o mesmo valor convencionado pela Comissão Europeia para todos os países da União Europeia.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), este valor era em 2013 de 4937,00 euros anuais em Portugal, o que equivale a 411,42 euros por mês. Abaixo, portanto, dos 4969,00 euros por ano (414,00 euros por mês) que se registavam em 2008, no ano da crise económica e financeira despoletada pela falência do Lemon Brothers no final desse ano.
Ainda de acordo com o INE, a taxa de risco de pobreza em Portugal antes de qualquer transferência social (pensões ou apoios sociais)subiu de 42,5% em 2010, antes do pedido de ajuda financeira à UE e ao FMI, para 47,8% em 2013, meses antes da saída "limpa" do programa de ajustamento.
Por outro lado, a taxa de intensidade da pobreza também se agravou, passando de 23,2% em 2010 para 30,3% em 2013, segundo números ainda provisórios.
Morrem 50 mil pobres por dia em todo o mundo
Todos os anos, cerca de 18 milhões de pessoas no mundo morrem devido a razões relacionadas com a pobreza, o que dá uma média de 50 mil pessoas por dia, na maioria mulheres e crianças.
O Banco Mundial estima que mais de 800 milhões de pessoas estão subnutridas e o combate torna-se cada vez mais difícil em clima de desaceleração económica generalizada, em que impera a contenção dos gastos públicos e quando muitos países atravessam ainda períodos de grande austeridade.
Segundo um relatório da Cáritas, Portugal foi, dos sete países da União Europeia mais atingidos pela crise, aquele em que o risco de pobreza e exclusão social mais aumentou em 2014, à frente da Grécia, Chipre, Roménia, Irlanda, Itália e Espanha.
11.6.15
Infâncias pobres e pobreza em Portugal como escolha política
Pedro Abrantes, Maria José Casa-Nova, Fernando Diogo, Carlos Estêvão, Rafaela Ganga, João Teixeira Lopes, in Público on-line
Nunca houve tantos recursos no mundo. Como permitimos que tantas crianças continuem a crescer na pobreza?
Se a miséria dos pobres não é causada pela natureza mas pelas instituições grande é o nosso pecado. (Charles Darwin in A viagem do Beagle, 1839)
O aumento da pobreza e das desigualdades em Portugal, documentado em relatórios recentes, deve fazer-nos estremecer. As assimetrias profundas em que crescem as crianças e jovens, uma parte significativa delas sem acesso a condições consideradas básicas, colocam em causa os direitos humanos e o desenvolvimento, tanto pessoal como social.
Não nos podemos conformar com o argumento repetido diariamente nos noticiários da inexistência de recursos, quando, nos mesmos noticiários, poucos segundos volvidos, se documenta a circulação de enormes volumes de capital entre instituições europeias, administrações nacionais, grandes empresas, off-shores. Nunca houve tantos recursos no mundo. Como permitimos que tantas crianças continuem a crescer na pobreza?
Estas desigualdades de distribuição de rendimento, em Portugal como em outros países desenvolvidos, constituem um dos problemas centrais no mundo atual e o pano de fundo onde a pobreza e a pobreza infantil prosperam. Mais, elas estão a aumentar desde os anos 70, sendo um problema com evidentes impactos sociais e políticos. Existem estudos (como os de Richard Wilkinson, Univ. de Nottingham) que mostram que quanto maior o fosso entre os ricos e os outros, num dado país, maiores são os problemas sociais enfrentados.
As grandes desigualdades na distribuição de rendimento constituem ameaças à democracia, dado que tornam os mais pobres vulneráveis à influência dos mais ricos e os mais ricos capazes de influenciar as decisões políticas em seu favor por via da sua riqueza. Não se trata apenas de uma questão de cidadania; existe um crescente número de estudos e autores (cf. Krugman e Stiglitz ou ainda Piketty) que argumentam que sociedades mais igualitárias são mais capazes de criar riqueza. Acrescente-se que outros estudos (cf. James Gailbraith, Univ. do Texas) mostram como o aumento das desigualdades nos anos 20 e nos anos 90 preparou o caminho para as crises económicas de 1928 e de 2008. Neste sentido, a afirmação de que as grandes e crescentes desigualdades de distribuição de rendimento são um problema político e não meramente económico, exigindo de nós soluções políticas, tem vindo a reunir um crescente consenso entre os críticos da ideologia neoliberal do mercado-rei mesmo no seio de organizações a ela ligadas como o Banco Mundial, o FMI ou a OCDE.
Em Portugal, as desigualdades de distribuição de rendimento são das maiores da OCDE e da União Europeia e os últimos dados disponíveis (2013) apontam para o seu crescimento. Em 2013, uma pessoa pertencendo aos 10% mais ricos dos portugueses tinha em média um rendimento 11,1 vezes maior que uma pessoa pertencendo aos 10% mais pobres. Associada a esta elevada (e crescente) desigualdade de distribuição de rendimento, existe em Portugal um grande número de pessoas em situação de pobreza. O seu valor caiu nos primeiros anos deste século mas, segundo o INE, o número de 2013 (19,5%) é quase idêntico ao de 2003 (20,4%). Boa parte destes pobres são crianças e jovens com menos de 18 anos, a sua taxa de pobreza é maior que a média nacional (25,6% versus 19,5%) e é entre as crianças e jovens que esta taxa mais tem aumentado.
Um número crescente de estudos (cf. Noble et al, Nature Neuroscience, Março 2015) vem mostrando que uma infância e juventude na pobreza têm, com frequência, consequências ao nível da saúde dos indivíduos de forma duradoura, dado que pode expô-los a níveis tóxicos e prolongados no tempo de stress e, por via disso, reduzir a habilidade de se movimentarem na sociedade e de adquirirem competências sociais e escolares. Por outro lado, a forma como as políticas educativas têm sido desenhadas envolve, em boa parte, a exclusão dos mais pobres do sistema de ensino e, em sequência, a sua relegação para as posições menos desejáveis do mercado de trabalho, reproduzindo-se assim a pobreza ao longo da vida e entre gerações.
A este propósito, será importante lembrar como as políticas educativas recentes, alicerçadas numa retórica da “livre escolha”, do “rigor” e da “competição”, incluindo cortes substanciais em áreas fundamentais para a inclusão e a redução das desigualdades, têm conduzido a um aumento das reprovações e da segregação escolar, afetando, sobretudo, as crianças e jovens dos meios mais desfavorecidos.
Ensaiou-se uma política de financiamento público do ensino privado que se pretende aprofundar, se as condições económicas melhorarem, num momento em que já existem evidências dos resultados negativos, em termos de reforço das desigualdades, nos poucos países que lançaram políticas semelhantes, a nível mundial, como o Chile ou a Suécia.
Se na Constituição e na Lei de Bases do Sistema Educativo portuguesas é reconhecido o acesso universal à educação e oportunidades iguais para todos, a pobreza infantil vem impedir que se concretizem os valores subjacentes àqueles normativos levando a que, em boa parte, não passem de retórica vazia. Não é por acaso que os indicadores de escolaridade e de escolarização da população portuguesa (crianças e adultos) são dos piores da União Europeia e da OCDE.
Neste contexto, qual tem sido o contributo do governo para contrariar este estado de coisas? As medidas de combate à crise que temos vivido mais não fazem do que ampliar os seus efeitos. O agravamento dos impostos indiretos e o corte nas prestações sociais são exemplos significativos de opções políticas que impactam negativamente nestas crianças e jovens.
Fortes desigualdades de distribuição de rendimento estão associadas a problemas sociais variados, de entre os quais destacamos o problema da pobreza infantil por esta representar um dano sério na capacidade de os indivíduos agirem como cidadãs e cidadãos ativos e críticos e, por consequência, no desenvolvimento do país. Sendo as fortes desigualdades de distribuição de rendimento que se verificam em Portugal o resultado de opções políticas, a pobreza infantil e o seu aumento são consequências de políticas centradas na extração do rendimento dos indivíduos por via do estado em benefício de determinadas elites nacionais e seus aliados. Nos últimos anos, o pretexto do combate à crise mais não tem servido do que para ampliar o processo extrativo que se verifica na sociedade portuguesa, por muito que isso signifique, literalmente, hipotecar o futuro negligenciando as crianças. Neste jogo há vencedores e vencidos e as crianças em situação de pobreza são vencidos ainda antes de entrarem verdadeiramente no jogo social.
Membros do Núcleo do Manifesto para um Mundo Melhor (Manifesto Internacional de Cientistas Sociais)
Nunca houve tantos recursos no mundo. Como permitimos que tantas crianças continuem a crescer na pobreza?
Se a miséria dos pobres não é causada pela natureza mas pelas instituições grande é o nosso pecado. (Charles Darwin in A viagem do Beagle, 1839)
O aumento da pobreza e das desigualdades em Portugal, documentado em relatórios recentes, deve fazer-nos estremecer. As assimetrias profundas em que crescem as crianças e jovens, uma parte significativa delas sem acesso a condições consideradas básicas, colocam em causa os direitos humanos e o desenvolvimento, tanto pessoal como social.
Não nos podemos conformar com o argumento repetido diariamente nos noticiários da inexistência de recursos, quando, nos mesmos noticiários, poucos segundos volvidos, se documenta a circulação de enormes volumes de capital entre instituições europeias, administrações nacionais, grandes empresas, off-shores. Nunca houve tantos recursos no mundo. Como permitimos que tantas crianças continuem a crescer na pobreza?
Estas desigualdades de distribuição de rendimento, em Portugal como em outros países desenvolvidos, constituem um dos problemas centrais no mundo atual e o pano de fundo onde a pobreza e a pobreza infantil prosperam. Mais, elas estão a aumentar desde os anos 70, sendo um problema com evidentes impactos sociais e políticos. Existem estudos (como os de Richard Wilkinson, Univ. de Nottingham) que mostram que quanto maior o fosso entre os ricos e os outros, num dado país, maiores são os problemas sociais enfrentados.
As grandes desigualdades na distribuição de rendimento constituem ameaças à democracia, dado que tornam os mais pobres vulneráveis à influência dos mais ricos e os mais ricos capazes de influenciar as decisões políticas em seu favor por via da sua riqueza. Não se trata apenas de uma questão de cidadania; existe um crescente número de estudos e autores (cf. Krugman e Stiglitz ou ainda Piketty) que argumentam que sociedades mais igualitárias são mais capazes de criar riqueza. Acrescente-se que outros estudos (cf. James Gailbraith, Univ. do Texas) mostram como o aumento das desigualdades nos anos 20 e nos anos 90 preparou o caminho para as crises económicas de 1928 e de 2008. Neste sentido, a afirmação de que as grandes e crescentes desigualdades de distribuição de rendimento são um problema político e não meramente económico, exigindo de nós soluções políticas, tem vindo a reunir um crescente consenso entre os críticos da ideologia neoliberal do mercado-rei mesmo no seio de organizações a ela ligadas como o Banco Mundial, o FMI ou a OCDE.
Em Portugal, as desigualdades de distribuição de rendimento são das maiores da OCDE e da União Europeia e os últimos dados disponíveis (2013) apontam para o seu crescimento. Em 2013, uma pessoa pertencendo aos 10% mais ricos dos portugueses tinha em média um rendimento 11,1 vezes maior que uma pessoa pertencendo aos 10% mais pobres. Associada a esta elevada (e crescente) desigualdade de distribuição de rendimento, existe em Portugal um grande número de pessoas em situação de pobreza. O seu valor caiu nos primeiros anos deste século mas, segundo o INE, o número de 2013 (19,5%) é quase idêntico ao de 2003 (20,4%). Boa parte destes pobres são crianças e jovens com menos de 18 anos, a sua taxa de pobreza é maior que a média nacional (25,6% versus 19,5%) e é entre as crianças e jovens que esta taxa mais tem aumentado.
Um número crescente de estudos (cf. Noble et al, Nature Neuroscience, Março 2015) vem mostrando que uma infância e juventude na pobreza têm, com frequência, consequências ao nível da saúde dos indivíduos de forma duradoura, dado que pode expô-los a níveis tóxicos e prolongados no tempo de stress e, por via disso, reduzir a habilidade de se movimentarem na sociedade e de adquirirem competências sociais e escolares. Por outro lado, a forma como as políticas educativas têm sido desenhadas envolve, em boa parte, a exclusão dos mais pobres do sistema de ensino e, em sequência, a sua relegação para as posições menos desejáveis do mercado de trabalho, reproduzindo-se assim a pobreza ao longo da vida e entre gerações.
A este propósito, será importante lembrar como as políticas educativas recentes, alicerçadas numa retórica da “livre escolha”, do “rigor” e da “competição”, incluindo cortes substanciais em áreas fundamentais para a inclusão e a redução das desigualdades, têm conduzido a um aumento das reprovações e da segregação escolar, afetando, sobretudo, as crianças e jovens dos meios mais desfavorecidos.
Ensaiou-se uma política de financiamento público do ensino privado que se pretende aprofundar, se as condições económicas melhorarem, num momento em que já existem evidências dos resultados negativos, em termos de reforço das desigualdades, nos poucos países que lançaram políticas semelhantes, a nível mundial, como o Chile ou a Suécia.
Se na Constituição e na Lei de Bases do Sistema Educativo portuguesas é reconhecido o acesso universal à educação e oportunidades iguais para todos, a pobreza infantil vem impedir que se concretizem os valores subjacentes àqueles normativos levando a que, em boa parte, não passem de retórica vazia. Não é por acaso que os indicadores de escolaridade e de escolarização da população portuguesa (crianças e adultos) são dos piores da União Europeia e da OCDE.
Neste contexto, qual tem sido o contributo do governo para contrariar este estado de coisas? As medidas de combate à crise que temos vivido mais não fazem do que ampliar os seus efeitos. O agravamento dos impostos indiretos e o corte nas prestações sociais são exemplos significativos de opções políticas que impactam negativamente nestas crianças e jovens.
Fortes desigualdades de distribuição de rendimento estão associadas a problemas sociais variados, de entre os quais destacamos o problema da pobreza infantil por esta representar um dano sério na capacidade de os indivíduos agirem como cidadãs e cidadãos ativos e críticos e, por consequência, no desenvolvimento do país. Sendo as fortes desigualdades de distribuição de rendimento que se verificam em Portugal o resultado de opções políticas, a pobreza infantil e o seu aumento são consequências de políticas centradas na extração do rendimento dos indivíduos por via do estado em benefício de determinadas elites nacionais e seus aliados. Nos últimos anos, o pretexto do combate à crise mais não tem servido do que para ampliar o processo extrativo que se verifica na sociedade portuguesa, por muito que isso signifique, literalmente, hipotecar o futuro negligenciando as crianças. Neste jogo há vencedores e vencidos e as crianças em situação de pobreza são vencidos ainda antes de entrarem verdadeiramente no jogo social.
Membros do Núcleo do Manifesto para um Mundo Melhor (Manifesto Internacional de Cientistas Sociais)
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