in DN
No ano passado, foram encerados 117 lares e 22 foram fechados "de forma imediata" devido às situações detetadas, revelou a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. A governante explicou que as ações de fiscalização acontecem sem "data marcada" e os lares de idosos não são avisados.
Quase 120 lares de idosos foram encerrados no ano passado, 22 dos quais "de forma imediata" devido às situações detetadas, revelou esta terça-feira a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
Na comissão parlamentar de Trabalho, Segurança Social e Inclusão, Ana Mendes Godinho disse que em 2022 foram fiscalizados 674 lares de idosos, tendo sido "o ano com maior número de ações de fiscalização de sempre".
Segundo a ministra, no ano passado foram encerados 117 lares e 22 foram fechados "de forma imediata" devido às situações detetadas.
Ana Mendes Godinho acrescentou que em 2022 aconteceu o maior número de encerramentos a estas estruturas.
A ministra sublinhou que as ações de fiscalização realizadas pela segurança social aos lares de idosos têm várias consequências, como o encerramento destas instituições, que é a medida mais greve, e participações ao Ministério Público.
A governante explicou que estas ações de fiscalização acontecem sem "data marcada" e os lares de idosos não são avisados.
A ministra indicou também que no ano passado foram feitas 7.000 visitas de acompanhamento aos lares para verificação de acompanhamento das situações, sendo ações realizadas em conjunto com a saúde.
Ana Mendes Godinho afirmou que as visitas de acompanhamento permitem com regularidade realizar visitas em conjunto com a saúde e segurança social, enquanto as ações de fiscalização "não têm data marcada e não tem hora marcada".
"O meu apelo é que, quando haja indícios, sejamos todos nós sinalizadores de situações", disse.
Ana Mendes Godinho salientou também que as ações de fiscalização são feitas quando há denúncias ou de acordo com os indicadores de risco definidos pelo Instituto de Segurança Social, estando afetas a esta atividade 290 pessoas.
Segundo a governante, existem 2.587 lares de idosos em Portugal e 103.000 lugares em termos de capacidade, num total de 280.000 respostas para o envelhecimento, que inclui, além das estruturas para a terceira idade, apoio domiciliário e centros de dias.
A ministra anunciou ainda aos deputados que o Governo decidiu mobilizar uma parte do investimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para criação de centro dedicado a promoção do envelhecimento ativo, considerando tratar-se de uma "iniciativa importante" e "determinante no plano de ação" que se está a construir em conjunto com a saúde.
Notícia atualizada às 17:50
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15.6.22
Governo reativa programa que reforça recursos humanos nos lares
O Governo reativou o programa que permite reforçar os recursos humanos nos lares e que prevê apoios financeiros a instituições que contratem desempregados, trabalhadores a tempo parcial e estudantes. As candidaturas a estes apoios podem ser feitas até final de julho.
"O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social [MTSSS] reativou a Medida de Apoio ao Reforço de Emergência em Equipamentos Sociais e de Saúde (MAREESS) reafirmando o seu compromisso de alcançar uma boa resposta social, mais precisamente no combate ao isolamento, principalmente junto dos mais idosos. A medida já entrou em vigor e as candidaturas aos apoios previstos podem ser submetidas até ao dia 31 de julho”, adianta em comunicado o MTSSS.
Na nota, o ministério recorda que a medida, criada em abril de 2020, “já permitiu a integração de 30 mil pessoas em mais de 2 mil entidades e, até ao momento, foram pagos 66 milhões de euros”.
“Esta medida vem contribuir para assegurar a capacidade de resposta das instituições públicas e do setor solidário com atividade na área social e da saúde, nomeadamente serviços de saúde, hospitais, lares ou estruturas residenciais para pessoas idosas e pessoas com deficiência e incapacidade, assim como contribuir para a promoção da empregabilidade de pessoas em situação de desemprego”, explica a tutela.
O comunicado adianta que a prorrogação desta medida prevê que continue a ser paga “uma bolsa mensal de 443,20 euros para desempregados que recebem prestações de desemprego, ou de 664,80 euros para os restantes, existindo uma majoração de 30 por cento para profissionais mais qualificados”.
Acrescenta ainda que as instituições que estabeleçam contratos sem termo com os trabalhadores colocados ao abrigo deste programa têm direito a um “prémio-emprego” no valor “de 7091,20 euros, majorado em 30 por cento para contratação do género sub-representado na profissão”.
“Estão abrangidas pela MAREESS pessoas desempregadas, trabalhadores com contrato suspenso ou horário de trabalho reduzido, trabalhadores independentes e também trabalhadores com contratos de trabalho a tempo parcial. São ainda abrangidos estudantes ou formandos, desde que com pelo menos 18 anos e refugiados e beneficiários de proteção temporária”, explica o comunicado.
As candidaturas estão abertas até 31 de julho e os formulários de submissão, assim como o regulamento das candidaturas, estão disponíveis no portal do Instituto do Emprego e Formação Profissional.
23.7.21
Aldeia das Tipuanas. Toda a liberdade que um lar tradicional não dá
Liliana Carona, in RR
Dezoito idosos vivem de forma completamente autónoma, com apoio de retaguarda, na Aldeia das Tipuanas, um projeto social e inclusivo da Associação “Os Pioneiros” de Mourisca do Vouga, concelho de Águeda. Em vésperas de se assinalar o primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, a Renascença foi conhecer um projeto diferente.
“Há muita procura porque, cada vez mais, a saída dos mais novos para o litoral deixa as zonas interiores vazias e as pessoas de idade, mas com alguma autonomia e com capacidade de decidir sobre o seu dia a dia, começam a sofrer de solidão e aqui estão autónomas, mas têm um apoio de retaguarda”, observa a diretora técnica.
“Como vimos, um utente vai de chave na mão, vai sair de carro. Tem autonomia para decidir o seu dia a e a sua rotina, mas contam com uma estrutura de retaguarda, enquanto que nos lares que nós conhecemos não estariam integrados, os nossos lares, são cada vez mais uma estrutura muito semelhante a uma unidade de cuidados paliativos, continuados”, lamenta a responsável.
Preços variam conforme os rendimentos
A resposta das casinhas não tem qualquer tipo de acordo com a Segurança Social, funciona unicamente às custas da associação, onde, sublinha Alexandra Alves, “calculam-se as rendas das casas em função dos rendimentos das pessoas que para cá vêm, de forma a ser uma aldeia inclusiva, com preços que rondam entre os 120 e os 800 euros, dependendo se querem partilhar casa ou não. Pode estar um casal, duas mulheres ou só uma pessoa”, explica.
Henrique Almeida, 81 anos, vai sair de carro. Desde o dia 15 de janeiro que o antigo operário fabril vive na Aldeia das Tipuanas.
“Para já, este é dos melhores lares que há, acho que não há outro igual”, comenta. Independentes, mas com apoio de retaguarda. Susana Tomás, 43 anos, técnica de serviço social e coordenadora das casinhas autónomas, não perde de vista os 18 utentes.
“Alguns precisam de apoio na alimentação, na higiene da casa, na própria higiene, eles contratualizam o tipo de serviço que precisam, o tratamento da roupa por exemplo, há senhoras que querem tratar da roupa delas, ou fazer a própria comida”, esclarece Susana, acrescentando que o projeto “é uma continuidade da sua anterior casa, permite-lhes fazer uma transferência de uma forma suave”, defende.
Ali, numa espécie de pequena aldeia, não falta piscina nem jardins verdejantes. António Alves, um soldador metalúrgico de 82 anos, encontrou há oito anos o ambiente perfeito para dar asas à criatividade.
“Faço quadros para pendurar na parede, com cápsulas de café, cortiça, tenho mais de 500 feitos e também crucifixos, tenho os trabalhos todos no tablet”, mostra, enaltecendo o apoio prestado na aldeia.
“Faz de conta que estamos em nossa casa, estamos completamente independentes. Toda a liberdade, quando preciso de alguma coisa, peço, desde cortiça, bogalhos, arame”, conclui António, na varanda de uma casinha ladrilhada, a trabalhar em mais uma peça de arte.
Na casinha ao lado está a vizinha Georgina Bastos, 78 anos. A costureira tem saudades de casa, mas sabe que ali tem todo o apoio de que precisa.
“O meu filho não me deixa estar sozinha em casa, diz que é perigoso, mas esta casa é limpinha, praticamente nova, e temos de nos adaptar. É jeitosinha pronto, tem o lavatório, casa de banho completa, temos o que é indispensável para viver”, considera Georgina.
Os preços por casinha rondam entre os 120 e os 800 euros, conforme o rendimento dos moradores, mas com a garantia de terem uma casa portuguesa e com ginástica ao ar livre, ao som da Amália Rodrigues.
Dezoito idosos vivem de forma completamente autónoma, com apoio de retaguarda, na Aldeia das Tipuanas, um projeto social e inclusivo da Associação “Os Pioneiros” de Mourisca do Vouga, concelho de Águeda. Em vésperas de se assinalar o primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, a Renascença foi conhecer um projeto diferente.
À entrada da Aldeia das Tipuanas, uma árvore de crescimento rápido dos climas tropicais que deu nome àquele lugar de liberdade e de idosos independentes, dentro das limitações de cada um.
Para Silvério Miranda, de 62 anos, o sabor da liberdade é feito de pequenas coisas, como poder ouvir música alto e bom som. É ele também o responsável pelos moinhos que abundam no local, feitos de embalagens que iriam para o lixo. “Até ver não tenho razão de queixa, tenho sempre o rádio ligado até às 4h00 da manhã”, diz com um sorriso estampado no rosto.
O projeto das casinhas autónomas, desenvolvido pela Associação “Os Pioneiros”, surgiu há cerca de oito anos. Alexandra Alves, 48 anos, é a diretora técnica da associação fundada em 1986 e que presta apoio à terceira idade com um centro de convívio, centro de dia, serviço de apoio domiciliário, lar e a aldeia sénior (casinhas autónomas).
“Parece uma aldeia em ponto pequenino, onde se criam todas as dinâmicas de uma aldeia normal, as redes de vizinhança”, diz Alexandra Alves, enquanto aponta para as dez moradias, todas ocupadas e com lista de espera.
Para Silvério Miranda, de 62 anos, o sabor da liberdade é feito de pequenas coisas, como poder ouvir música alto e bom som. É ele também o responsável pelos moinhos que abundam no local, feitos de embalagens que iriam para o lixo. “Até ver não tenho razão de queixa, tenho sempre o rádio ligado até às 4h00 da manhã”, diz com um sorriso estampado no rosto.
O projeto das casinhas autónomas, desenvolvido pela Associação “Os Pioneiros”, surgiu há cerca de oito anos. Alexandra Alves, 48 anos, é a diretora técnica da associação fundada em 1986 e que presta apoio à terceira idade com um centro de convívio, centro de dia, serviço de apoio domiciliário, lar e a aldeia sénior (casinhas autónomas).
“Parece uma aldeia em ponto pequenino, onde se criam todas as dinâmicas de uma aldeia normal, as redes de vizinhança”, diz Alexandra Alves, enquanto aponta para as dez moradias, todas ocupadas e com lista de espera.
“Há muita procura porque, cada vez mais, a saída dos mais novos para o litoral deixa as zonas interiores vazias e as pessoas de idade, mas com alguma autonomia e com capacidade de decidir sobre o seu dia a dia, começam a sofrer de solidão e aqui estão autónomas, mas têm um apoio de retaguarda”, observa a diretora técnica.
“Como vimos, um utente vai de chave na mão, vai sair de carro. Tem autonomia para decidir o seu dia a e a sua rotina, mas contam com uma estrutura de retaguarda, enquanto que nos lares que nós conhecemos não estariam integrados, os nossos lares, são cada vez mais uma estrutura muito semelhante a uma unidade de cuidados paliativos, continuados”, lamenta a responsável.
Preços variam conforme os rendimentos
A resposta das casinhas não tem qualquer tipo de acordo com a Segurança Social, funciona unicamente às custas da associação, onde, sublinha Alexandra Alves, “calculam-se as rendas das casas em função dos rendimentos das pessoas que para cá vêm, de forma a ser uma aldeia inclusiva, com preços que rondam entre os 120 e os 800 euros, dependendo se querem partilhar casa ou não. Pode estar um casal, duas mulheres ou só uma pessoa”, explica.
Henrique Almeida, 81 anos, vai sair de carro. Desde o dia 15 de janeiro que o antigo operário fabril vive na Aldeia das Tipuanas.
“Para já, este é dos melhores lares que há, acho que não há outro igual”, comenta. Independentes, mas com apoio de retaguarda. Susana Tomás, 43 anos, técnica de serviço social e coordenadora das casinhas autónomas, não perde de vista os 18 utentes.
“Alguns precisam de apoio na alimentação, na higiene da casa, na própria higiene, eles contratualizam o tipo de serviço que precisam, o tratamento da roupa por exemplo, há senhoras que querem tratar da roupa delas, ou fazer a própria comida”, esclarece Susana, acrescentando que o projeto “é uma continuidade da sua anterior casa, permite-lhes fazer uma transferência de uma forma suave”, defende.
Ali, numa espécie de pequena aldeia, não falta piscina nem jardins verdejantes. António Alves, um soldador metalúrgico de 82 anos, encontrou há oito anos o ambiente perfeito para dar asas à criatividade.
“Faço quadros para pendurar na parede, com cápsulas de café, cortiça, tenho mais de 500 feitos e também crucifixos, tenho os trabalhos todos no tablet”, mostra, enaltecendo o apoio prestado na aldeia.
“Faz de conta que estamos em nossa casa, estamos completamente independentes. Toda a liberdade, quando preciso de alguma coisa, peço, desde cortiça, bogalhos, arame”, conclui António, na varanda de uma casinha ladrilhada, a trabalhar em mais uma peça de arte.
Na casinha ao lado está a vizinha Georgina Bastos, 78 anos. A costureira tem saudades de casa, mas sabe que ali tem todo o apoio de que precisa.
“O meu filho não me deixa estar sozinha em casa, diz que é perigoso, mas esta casa é limpinha, praticamente nova, e temos de nos adaptar. É jeitosinha pronto, tem o lavatório, casa de banho completa, temos o que é indispensável para viver”, considera Georgina.
Os preços por casinha rondam entre os 120 e os 800 euros, conforme o rendimento dos moradores, mas com a garantia de terem uma casa portuguesa e com ginástica ao ar livre, ao som da Amália Rodrigues.
3.5.21
EM PORTUGAL, A TERCEIRA IDADE REPRESENTA JÁ 20% DA POPULAÇÃO
Por Carina Seabra, in JUP
NE aponta que o país venha a atingir um rácio de 317 idosos por cada 100 jovens, até 2080. Com 20% da sua população já na terceira idade, o governo prepara um plano de ação para o envelhecimento saudável.
O envelhecimento populacional é um fenómeno demográfico que abrange a grande maioria das sociedades mundiais, assumindo particular expressividade nos países desenvolvidos. Entre estes, Portugal destaca-se assumindo 20% da sua população na terceira idade, uma tendência que se apresenta crescente, como apontado pelo INE quando descreve que o índice de envelhecimento venha a atingir em 2080 um rácio de 317 idosos por cada 100 jovens. Este fenómeno traduz-se numa intensa quebra geracional e, por estar associado também a uma tendência de despovoamento da zona interior, antecipa para Portugal um futuro conturbado tanto ao nível económico como social.
A problemática do envelhecimento prende-se com o facto da demanda por maior exigência nos serviços sociais, já que potencia a procura de recursos que são já escassos e que os países não conseguirão, futuramente, assegurar às suas populações, pelo que lhes estão inerentemente relacionadas políticas sociais de extrema importância. Entre estas, destaca-se o constrangimento do sistema nacional de saúde, bem como a extrapolação das capacidades financeiras do Estado, como nos diz Anthony Giddens, sociólogo britânico, no seu estudo sobre o «crescimento dos grisalhos». Dentro de apenas uma década, estima-se que o rácio de cada contribuinte para pensionista será equivalente a 4.1, ou seja, contaremos apenas com o contributo de quatro cidadãos economicamente ativos para suster o subsídio de um pensionista, com expectativas de evolução da mesma no sentido negativo, ou seja, a densa população idosa estará dependente dos contributos financeiros que estes contribuintes terão necessariamente que gerar para manter a sustentabilidade do Estado. Embora as pessoas vivam por mais tempo, outrora um idoso era entendido como alguém que tinha à volta dos quarenta anos e hoje em dia os valores sobem em mais de vinte anos, haverá uma quebra da força de trabalho.
Também no domínio social se esperam dificuldades acrescidas para a população idosa. Anthony Giddens descreve o envelhecimento por meio de uma miríade de processos biológicos, psicológicos e sociais, interligados, que atingem o indivíduo no decorrer do aumento da sua idade. Este envelhecimento é um processo inevitável e, por isso, carece de urgente consideração sobre dois pontos de vista essenciais: primeiro é preciso entender que, com uma população cada vez mais envelhecida, é imprescindível que se pensem em ações que colmatem a quebra na atividade económica que desta tendência decorre. O decréscimo da população ativa e o aumento da taxa de dependência tendem a agravar as tensões relativas aos recursos existentes, um ponto ao qual o plano atual de reforma não tem capacidade de resposta, pelo que é urgente que se considerem alternativas económicas. Depois, é ainda importante pensar em mecanismos que possam assistir os idosos, a nível social, seja pela atenuação dos efeitos biológicos, por meio da promoção de uma alimentação cuidada e estilo de vida em concordância, seja pela consideração de ferramentas que garantam que as suas necessidades fisiológicas sejam atendidas e contribuam para a sua inserção na sociedade, permitindo que viva com dignidade. A questão do trabalho é, aqui, essencial, uma vez que o sentido de identidade pessoal está diretamente ligado à profissão, que é vedada a uma significativa parcela de idosos.
Se hoje Portugal já se depara com dificuldades em lidar com os idosos, seja ao nível dos cuidados prestados, seja ao nível dos apoios financeiros, espera-se que estes temas se venham a agravar ainda mais no futuro. Procurando responder às problemáticas associadas ao envelhecimento demográfico, as quais se encontram descritas no Livro Verde sobre o Envelhecimento e atendendo à posição particularmente frágil de Portugal neste sentido, a atual ministra do trabalho, Ana Mendes Godinho, garantiu, em 2021, a corrente preparação de um plano de ação no sentido da promoção do envelhecimento ativo e saudável, o qual prevê um investimento de mais de 400 milhões de euros em requalificação e equipamento.
A solução desta expressiva crise demográfica poderá ser ainda acalentada por via dos processos migratórios ou pelo aumento da taxa de natalidade. Embora os portugueses expressem ainda vontade em ter mais filhos, os custos que lhes estão associados debilitam esse sonho, sendo que este apenas será possível se forem criados mecanismos que os suportem, seja por meio de subsídios, da criação de estruturas institucionais que garantam os seus cuidados durante o período de labor, ou até pela própria adaptação dos horários de trabalho.
Envelhecimento demográfico e despovoação
O século XX foi revolucionário em vários sentidos e o universo português não foi exceção, já que beneficiou de significativos progressos nas áreas da tecnologia e medicina, bem como de evidentes alterações no regime político vigente, adotando uma visão política democrática como alternativa ao regime ditatorial que vigorou até 1974. Estes fenómenos promoveram a duplicação da esperança média de vida, aliada à redução da taxa de mortalidade infantil.
Em simultâneo, difundiam-se os meios contracetivos, que garantiam à mulher a capacidade de escolha, a qual também se vincou com a sua entrada no mercado de trabalho. Com a impossibilidade de conciliar as horas de trabalho com o cuidado aos filhos, o aumento do custo que cada filho implicava e dada a inexistência de mecanismos no estado que auxiliassem nesse sentido, dá-se um intenso decréscimo da taxa de fecundidade e natalidade. A melhoria das condições de vida e o aumento da educação fazem com que as famílias prefiram ter menos filhos, garantindo-lhes, contudo, vidas melhores. Logo, as famílias passam a ter, em média, entre um e dois filhos por agregado,o que se torna insuficiente para a substituição de gerações.
Em linha com o envelhecimento do país, dá-se o despovoamento das regiões do interior. Encontrando nas zonas costeiras melhores condições de vida, aliadas a rendimentos superiores, os jovens partem, deixando para trás aldeias praticamente desertas, em que habitam apenas os velhos, incapazes de manter a sua atividade social e económica. Num incessante fechar de portas que se traduz na redução de oportunidades que nestas regiões se fazem surgir, bem como na redução da atividade quotidiana e social, as zonas interiores revelam-se cada vez mais destinadas à ruína e ao abandono, tal como os seus velhos, que, Eugénia da Graça refere, em entrevista para o documentário Nós portugueses: Nascer para não morrer, que “a gente é o soldado da nossa terra”.
Segundo os valores apontados pelo INE tanto nos censos de 2001 como nos de 2011, o Alentejo apresenta-se como a região mais envelhecida, apresentando ainda, em 2019, um índice de envelhecimento de 204,6 %. Relativamente à densidade populacional, o território assume apenas uma média de 22 indivíduos por km2, sendo, por isso, a região portuguesa de NUTS II em que a despovoação mais se faz sentir.
Há um duplo envelhecimento da população: o número de idosos aumenta ou o número de jovens diminui e assiste-se uma inércia demográfica no que respeita à população ativa.
Também na região norte se verifica um intenso grau de envelhecimento. Projeções demográficas realizadas em 2017 pelo mesmo sistema verificam uma tendência para que, no decorrer dos anos, esta última região seja a principal responsável pelo declínio da população residente e agravamento do envelhecimento demográfico, assumindo ainda, por volta de 2033, a região NUTS II mais envelhecida do contexto português.
Pandemia e a problemática dos lares ilegais
A pandemia veio também desvendar as já conhecidas dificuldades enfrentadas por estes cidadãos ao nível económico, na medida em que os apoios estatais nem sempre lhes são suficientes para lhes assegurar aquecimento em casa, refeições condignas ou mesmo medicação, garantindo-lhes uma posição central pelo elevado índice de pobreza que apresentam. O INE (Instituto Nacional de Estatística) descreveu, em fevereiro de 2021, no seu relatório provisório de Dados de Rendimento e Condições de Vida, um elevado risco de pobreza associado à presença de alguma limitação na realização de atividades, onde se enquadra também a população idosa.
O efeito da pobreza nas famílias portuguesas e a ineficácia do Estado em colmatar estas dificuldades são fatores cruciais para que estas, na impossibilidade de perder a sua fonte de rendimento para cuidar dos seus velhos e na inexequibilidade de cumprimento com os preçários indicados pelos lares privados, recorram a cuidadores informais, um serviço afetado diretamente pelo confinamento, e a lares ilegais.
A crise sanitária veio também deixar ao descoberto o denso conjunto de lares ilegais que se espalham pelo país, em que inúmeros idosos são encarados como um negócio e padecem à luz da ineficácia desses serviços em garantir-lhes uma vida digna e segura.
Os lares ilegais constituem cerca do dobro dos lares privados e, por apresentarem valores com os quais estes não conseguem competir, acumulam um conjunto de usuários que tratam pobremente. A Segurança Social emitiu o fecho de 109 estruturas residenciais ilegais, denotando os cenários perturbadores de fome, agressão e negligência em que estes cidadãos eram forçados a viver. Destaca-se, contudo, a pobre fiscalização que está associada ao serviço, já que estes lares recebem multas notavelmente inferiores aos valores recebidos mensalmente para o cuidado dos seus residentes. Existem, ainda, falhas apresentadas pelos sistemas estatais em verificar e acompanhar o seu encerramento, garantindo que este se efetiva e que no dia seguinte não estará aberto novamente, no mesmo local ou a poucos quilómetros, sobre um outro nome, perpetuando as falhas sistémicas e sistemáticas que se evidenciaram e que descrevem claras violações aos direitos humanos, como tem vindo a acontecer.
Integrar o cidadão idoso é um tema essencial, particularmente em sociedades envelhecidas, como é o caso da portuguesa, na medida em que lhe garante os seus direitos humanos fundamentais e, por isso, já várias cidades dedicam projetos à companhia ao idoso, como é o caso do projeto de voluntariado universitário VO.U Acompanhar, que atua no sentido da promoção da dignidade e segurança na vida do idoso, promovendo ainda a responsabilidade e solidariedade social.
O Livro Verde sobre o Envelhecimento revela-nos uma vez mais a importância de questões como a segurança e interação social, essenciais na satisfação das necessidades sociais e emocionais dos idosos, e que, portanto, não devem ser negligenciadas. Neste sentido ressalta-se a urgência na implementação de políticas de ação social no sentido de garantir que estas sejam cumpridas, nomeadamente por meio do “investimento nas competências digitais, no desenvolvimento da comunidade e na coesão intergeracional”. Na sequência deste ponto, verificam-se também ações no sentido da promoção da habitação intergeracional, como é o caso do programa Aconchego, que resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal do Porto e a Federação Académica do Porto.
A pandemia resultante da rápida disseminação do Sars-cov-2, para além de desvendar e impulsionar as desigualdades sociais, limitou também a implementação e atuação de políticas sociais que combatem a solidão, pobreza e desigualdade sentidas pela população idosa portuguesa, como nos refere João Teixeira Lopes, sociólogo português. O autor recorda, contudo, o impacto positivo da ativação de redes de solidariedade, que emergiu também em período de crise sanitária. Assim, a solução para esta problemática e a garantia de que os idosos portugueses possam, em Portugal, assumir uma vida digna e segura passa não só por medidas estatais e reforço hospitalar, mas principalmente pela difusão de políticas de solidariedade, educação e requalificação.
Texto de Carina Seabra. Editado por Laís França.
NE aponta que o país venha a atingir um rácio de 317 idosos por cada 100 jovens, até 2080. Com 20% da sua população já na terceira idade, o governo prepara um plano de ação para o envelhecimento saudável.
O envelhecimento populacional é um fenómeno demográfico que abrange a grande maioria das sociedades mundiais, assumindo particular expressividade nos países desenvolvidos. Entre estes, Portugal destaca-se assumindo 20% da sua população na terceira idade, uma tendência que se apresenta crescente, como apontado pelo INE quando descreve que o índice de envelhecimento venha a atingir em 2080 um rácio de 317 idosos por cada 100 jovens. Este fenómeno traduz-se numa intensa quebra geracional e, por estar associado também a uma tendência de despovoamento da zona interior, antecipa para Portugal um futuro conturbado tanto ao nível económico como social.
A problemática do envelhecimento prende-se com o facto da demanda por maior exigência nos serviços sociais, já que potencia a procura de recursos que são já escassos e que os países não conseguirão, futuramente, assegurar às suas populações, pelo que lhes estão inerentemente relacionadas políticas sociais de extrema importância. Entre estas, destaca-se o constrangimento do sistema nacional de saúde, bem como a extrapolação das capacidades financeiras do Estado, como nos diz Anthony Giddens, sociólogo britânico, no seu estudo sobre o «crescimento dos grisalhos». Dentro de apenas uma década, estima-se que o rácio de cada contribuinte para pensionista será equivalente a 4.1, ou seja, contaremos apenas com o contributo de quatro cidadãos economicamente ativos para suster o subsídio de um pensionista, com expectativas de evolução da mesma no sentido negativo, ou seja, a densa população idosa estará dependente dos contributos financeiros que estes contribuintes terão necessariamente que gerar para manter a sustentabilidade do Estado. Embora as pessoas vivam por mais tempo, outrora um idoso era entendido como alguém que tinha à volta dos quarenta anos e hoje em dia os valores sobem em mais de vinte anos, haverá uma quebra da força de trabalho.
Também no domínio social se esperam dificuldades acrescidas para a população idosa. Anthony Giddens descreve o envelhecimento por meio de uma miríade de processos biológicos, psicológicos e sociais, interligados, que atingem o indivíduo no decorrer do aumento da sua idade. Este envelhecimento é um processo inevitável e, por isso, carece de urgente consideração sobre dois pontos de vista essenciais: primeiro é preciso entender que, com uma população cada vez mais envelhecida, é imprescindível que se pensem em ações que colmatem a quebra na atividade económica que desta tendência decorre. O decréscimo da população ativa e o aumento da taxa de dependência tendem a agravar as tensões relativas aos recursos existentes, um ponto ao qual o plano atual de reforma não tem capacidade de resposta, pelo que é urgente que se considerem alternativas económicas. Depois, é ainda importante pensar em mecanismos que possam assistir os idosos, a nível social, seja pela atenuação dos efeitos biológicos, por meio da promoção de uma alimentação cuidada e estilo de vida em concordância, seja pela consideração de ferramentas que garantam que as suas necessidades fisiológicas sejam atendidas e contribuam para a sua inserção na sociedade, permitindo que viva com dignidade. A questão do trabalho é, aqui, essencial, uma vez que o sentido de identidade pessoal está diretamente ligado à profissão, que é vedada a uma significativa parcela de idosos.
Se hoje Portugal já se depara com dificuldades em lidar com os idosos, seja ao nível dos cuidados prestados, seja ao nível dos apoios financeiros, espera-se que estes temas se venham a agravar ainda mais no futuro. Procurando responder às problemáticas associadas ao envelhecimento demográfico, as quais se encontram descritas no Livro Verde sobre o Envelhecimento e atendendo à posição particularmente frágil de Portugal neste sentido, a atual ministra do trabalho, Ana Mendes Godinho, garantiu, em 2021, a corrente preparação de um plano de ação no sentido da promoção do envelhecimento ativo e saudável, o qual prevê um investimento de mais de 400 milhões de euros em requalificação e equipamento.
A solução desta expressiva crise demográfica poderá ser ainda acalentada por via dos processos migratórios ou pelo aumento da taxa de natalidade. Embora os portugueses expressem ainda vontade em ter mais filhos, os custos que lhes estão associados debilitam esse sonho, sendo que este apenas será possível se forem criados mecanismos que os suportem, seja por meio de subsídios, da criação de estruturas institucionais que garantam os seus cuidados durante o período de labor, ou até pela própria adaptação dos horários de trabalho.
Envelhecimento demográfico e despovoação
O século XX foi revolucionário em vários sentidos e o universo português não foi exceção, já que beneficiou de significativos progressos nas áreas da tecnologia e medicina, bem como de evidentes alterações no regime político vigente, adotando uma visão política democrática como alternativa ao regime ditatorial que vigorou até 1974. Estes fenómenos promoveram a duplicação da esperança média de vida, aliada à redução da taxa de mortalidade infantil.
Em simultâneo, difundiam-se os meios contracetivos, que garantiam à mulher a capacidade de escolha, a qual também se vincou com a sua entrada no mercado de trabalho. Com a impossibilidade de conciliar as horas de trabalho com o cuidado aos filhos, o aumento do custo que cada filho implicava e dada a inexistência de mecanismos no estado que auxiliassem nesse sentido, dá-se um intenso decréscimo da taxa de fecundidade e natalidade. A melhoria das condições de vida e o aumento da educação fazem com que as famílias prefiram ter menos filhos, garantindo-lhes, contudo, vidas melhores. Logo, as famílias passam a ter, em média, entre um e dois filhos por agregado,o que se torna insuficiente para a substituição de gerações.
Em linha com o envelhecimento do país, dá-se o despovoamento das regiões do interior. Encontrando nas zonas costeiras melhores condições de vida, aliadas a rendimentos superiores, os jovens partem, deixando para trás aldeias praticamente desertas, em que habitam apenas os velhos, incapazes de manter a sua atividade social e económica. Num incessante fechar de portas que se traduz na redução de oportunidades que nestas regiões se fazem surgir, bem como na redução da atividade quotidiana e social, as zonas interiores revelam-se cada vez mais destinadas à ruína e ao abandono, tal como os seus velhos, que, Eugénia da Graça refere, em entrevista para o documentário Nós portugueses: Nascer para não morrer, que “a gente é o soldado da nossa terra”.
Segundo os valores apontados pelo INE tanto nos censos de 2001 como nos de 2011, o Alentejo apresenta-se como a região mais envelhecida, apresentando ainda, em 2019, um índice de envelhecimento de 204,6 %. Relativamente à densidade populacional, o território assume apenas uma média de 22 indivíduos por km2, sendo, por isso, a região portuguesa de NUTS II em que a despovoação mais se faz sentir.
Há um duplo envelhecimento da população: o número de idosos aumenta ou o número de jovens diminui e assiste-se uma inércia demográfica no que respeita à população ativa.
Também na região norte se verifica um intenso grau de envelhecimento. Projeções demográficas realizadas em 2017 pelo mesmo sistema verificam uma tendência para que, no decorrer dos anos, esta última região seja a principal responsável pelo declínio da população residente e agravamento do envelhecimento demográfico, assumindo ainda, por volta de 2033, a região NUTS II mais envelhecida do contexto português.
Pandemia e a problemática dos lares ilegais
A pandemia veio também desvendar as já conhecidas dificuldades enfrentadas por estes cidadãos ao nível económico, na medida em que os apoios estatais nem sempre lhes são suficientes para lhes assegurar aquecimento em casa, refeições condignas ou mesmo medicação, garantindo-lhes uma posição central pelo elevado índice de pobreza que apresentam. O INE (Instituto Nacional de Estatística) descreveu, em fevereiro de 2021, no seu relatório provisório de Dados de Rendimento e Condições de Vida, um elevado risco de pobreza associado à presença de alguma limitação na realização de atividades, onde se enquadra também a população idosa.
O efeito da pobreza nas famílias portuguesas e a ineficácia do Estado em colmatar estas dificuldades são fatores cruciais para que estas, na impossibilidade de perder a sua fonte de rendimento para cuidar dos seus velhos e na inexequibilidade de cumprimento com os preçários indicados pelos lares privados, recorram a cuidadores informais, um serviço afetado diretamente pelo confinamento, e a lares ilegais.
A crise sanitária veio também deixar ao descoberto o denso conjunto de lares ilegais que se espalham pelo país, em que inúmeros idosos são encarados como um negócio e padecem à luz da ineficácia desses serviços em garantir-lhes uma vida digna e segura.
Os lares ilegais constituem cerca do dobro dos lares privados e, por apresentarem valores com os quais estes não conseguem competir, acumulam um conjunto de usuários que tratam pobremente. A Segurança Social emitiu o fecho de 109 estruturas residenciais ilegais, denotando os cenários perturbadores de fome, agressão e negligência em que estes cidadãos eram forçados a viver. Destaca-se, contudo, a pobre fiscalização que está associada ao serviço, já que estes lares recebem multas notavelmente inferiores aos valores recebidos mensalmente para o cuidado dos seus residentes. Existem, ainda, falhas apresentadas pelos sistemas estatais em verificar e acompanhar o seu encerramento, garantindo que este se efetiva e que no dia seguinte não estará aberto novamente, no mesmo local ou a poucos quilómetros, sobre um outro nome, perpetuando as falhas sistémicas e sistemáticas que se evidenciaram e que descrevem claras violações aos direitos humanos, como tem vindo a acontecer.
Integrar o cidadão idoso é um tema essencial, particularmente em sociedades envelhecidas, como é o caso da portuguesa, na medida em que lhe garante os seus direitos humanos fundamentais e, por isso, já várias cidades dedicam projetos à companhia ao idoso, como é o caso do projeto de voluntariado universitário VO.U Acompanhar, que atua no sentido da promoção da dignidade e segurança na vida do idoso, promovendo ainda a responsabilidade e solidariedade social.
O Livro Verde sobre o Envelhecimento revela-nos uma vez mais a importância de questões como a segurança e interação social, essenciais na satisfação das necessidades sociais e emocionais dos idosos, e que, portanto, não devem ser negligenciadas. Neste sentido ressalta-se a urgência na implementação de políticas de ação social no sentido de garantir que estas sejam cumpridas, nomeadamente por meio do “investimento nas competências digitais, no desenvolvimento da comunidade e na coesão intergeracional”. Na sequência deste ponto, verificam-se também ações no sentido da promoção da habitação intergeracional, como é o caso do programa Aconchego, que resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal do Porto e a Federação Académica do Porto.
A pandemia resultante da rápida disseminação do Sars-cov-2, para além de desvendar e impulsionar as desigualdades sociais, limitou também a implementação e atuação de políticas sociais que combatem a solidão, pobreza e desigualdade sentidas pela população idosa portuguesa, como nos refere João Teixeira Lopes, sociólogo português. O autor recorda, contudo, o impacto positivo da ativação de redes de solidariedade, que emergiu também em período de crise sanitária. Assim, a solução para esta problemática e a garantia de que os idosos portugueses possam, em Portugal, assumir uma vida digna e segura passa não só por medidas estatais e reforço hospitalar, mas principalmente pela difusão de políticas de solidariedade, educação e requalificação.
Texto de Carina Seabra. Editado por Laís França.
15.4.21
A importância de continuar a apostar no estímulo sensorial em utentes de lares
Catarina Rodrigues, in Sapolifestyle
Vivemos numa sociedade envelhecida, consequência de fatores como reduzidas taxas de natalidade e avanços na medicina, o que leva a um aumento gradual da esperança média de vida. Um artigo de Catarina Rodrigues, psicóloga do Círculo de Mestres.Como forma de dar resposta a todas as alterações que acompanham o processo de envelhecimento e perante a incapacidade sentida, por parte das famílias, no sentido de conciliar as exigências da sociedade atual, nomeadamente no que respeita aos compromissos profissionais, cuidados dos filhos, múltiplas atividades a desenvolver em simultâneo, com a prestação de cuidados aos seus familiares idosos, surge a institucionalização dos mesmos em lares. Se, por si só, o avançar da idade se constitui como um desafio contínuo, lidar com um processo de institucionalização revela-se mais uma transformação significativa a ter em conta.
Todo o processo de institucionalização implica uma série de mudanças nas rotinas diárias, particularmente no que se refere à adaptação a um ambiente e pessoas desconhecidas, cumprimento de regras e horários, alteração do papel do indivíduo na sociedade e afastamento familiar. Estes aspetos tendem a acentuar o declínio cognitivo na pessoa idosa, o aparecimento de sintomatologia depressiva e a evolução de quadros demenciais, resultado de um decréscimo significativo ao nível da socialização e da presença de estímulos. Com o objetivo de colmatar e atrasar a deterioração das funções cognitivas e reduzir a sintomatologia depressiva, a estimulação cognitiva e sensorial assume um papel de extrema relevância.
Estimular a mente, através da experiência de sensações que envolvam os sentidos, tem revelado ser uma das melhores formas de garantir um envelhecimento saudável, atuando de forma positiva em áreas como a memória, a concentração, a atenção, a linguagem, o pensamento e as capacidades visuoespaciais. Desenvolver estas tarefas promove a autonomia e independência do idoso e, consequentemente, a sua autoestima, o que permite melhorias no estado geral de saúde dos mesmos.
Assim, ao fomentar o envelhecimento ativo, torna-se possível que cada idoso possa alcançar o seu potencial máximo e viver com tanta qualidade de vida quanto possível.
Com toda a conjuntura pandémica que o mundo tem vindo a atravessar, os idosos, sobretudo os que se encontram institucionalizados, têm vivido, ao longo do último ano, privados de qualquer proximidade física com os seus familiares e distanciados dos seus pares dentro da instituição, verificando-se uma quase inexistência de estímulos exteriores. Desta forma, a estimulação cognitiva e sensorial assume um papel cada vez mais preponderante, na medida em que torna possível atenuar os efeitos adversos causados por todo o isolamento social que estes têm vindo a experienciar.
É deveras importante que o caminho a seguir seja feito no sentido de implementar estratégias cuja finalidade primordial seja conceder o máximo de dignidade à pessoa idosa, reconhecendo e valorizando o papel significativo que estes já desempenharam, em prol da nossa sociedade. Esta é a filosofia do Círculo de Mestres e que é transversal a todas as residências sénior que agrega.
18.1.21
Covid-19: Assistência nos Lares está em situação limite – Presidente da União Distrital das IPSS de Évora
Octávio Carmo (Ecclesia) e Henrique Cunha (Renascença), in Agência Ecclesia
Tiago Abalroado alerta para riscos acrescidos com escolas abertas e votação nas residências para idosos
Lisboa, 17 jan 2021 (Ecclesia) – O presidente da União Distrital das IPSS de Évora (UDIPSS-Évora) alertou para a situação limite que se vive na assistência aos idosos, em Lares e Estruturas Residenciais, por causa da pandemia de Covid-19 que se vive há meses.
“Há aqui todo um somar de situações que vem exigir mais dos profissionais, exigir mais das organizações e depois entra-se em situação de situação, de burnout, de algumas dificuldades em gerir, conflitos internos”, assinala Tiago Abalroado, convidado da entrevista semanal conjunta Renascença/Ecclesia, publicada e emitida semanalmente aos domingos.
O responsável sublinha que, por causa dos vários confinamentos e limitações sanitárias, os utentes “estão isolados, estão confinados, por isso também evidenciam um maior desgaste” e exigem mais atenção dos profissionais.
“Desde março, temos vindo a fazer um esforço e a contar com a colaboração das pessoas; as pessoas não desistem e tem sido muito importante ver a vocação, a disponibilidade, a dedicação dos profissionais e aqui destaco de forma muito séria o papel dos ajudantes e das ajudantes de ação direta”, aponta.
“As instituições têm de se desdobrar entre o trabalho aos utentes residenciais, aqueles que estão na instituição e aos utentes que estão em casa”, acrescenta.
O presidente da UDIPSS-Évora recorda que as respostas sociais “funcionam em permanência” e admite em encontrar recursos humanos, “seja por via de voluntariado, seja por via de contratos”.
“É uma dificuldade que se tem vindo a agudizar, por força do aumento dos casos”, adverte.
Tiago Abalroado questiona a eficácia das brigadas de intervenção rápida, por falta de pessoal médico e de formação específica, além de sublinhar atrasos na testagem nas instituições.
O entrevistado elogia, por outro lado, o processo de vacinação em curso, que chega já 70% dos lares do Alentejo, na 1ª dosagem, esperando que chegue depois aos profissionais do apoio domiciliário.
Questionado sobre o novo confinamento, o presidente da UDIPSS-Évora considera que “o facto de as escolas se manterem abertas faz com que a proteção das famílias não seja tão acautelada como no primeiro confinamento”, em 2020.
“Não há aqui uma efetiva diminuição do risco: os pais continuam a relacionar-se com os filhos; os pais, trabalhadores de IPSS, continuar a ir às Instituições, porque estas têm de continuar a sua prestação de serviços; os filhos têm de continuar a ir à escola”, precisa.
Tiago Abalroado mostra também preocupações com o facto de os idosos residentes em lares poderem votar para as presidenciais de 24 de janeiro, na instituição onde vivem, assinalando que teria sido preferível adiar o processo eleitoral.
“Uma coisa é certa: é muito difícil, na fase em que nos encontramos, assegurar com todas as condições de proteção que os idosos poderão votar, que os utentes institucionalizados poderão votar”, indica.
O responsável convida a fazer do tempo de pandemia um momento de reflexão sobre os modelos de institucionalização para os idosos, para que os lares e estruturas residenciais não sejam “depósitos de utentes”.
Tiago Abalroado alerta para riscos acrescidos com escolas abertas e votação nas residências para idosos
Lisboa, 17 jan 2021 (Ecclesia) – O presidente da União Distrital das IPSS de Évora (UDIPSS-Évora) alertou para a situação limite que se vive na assistência aos idosos, em Lares e Estruturas Residenciais, por causa da pandemia de Covid-19 que se vive há meses.
“Há aqui todo um somar de situações que vem exigir mais dos profissionais, exigir mais das organizações e depois entra-se em situação de situação, de burnout, de algumas dificuldades em gerir, conflitos internos”, assinala Tiago Abalroado, convidado da entrevista semanal conjunta Renascença/Ecclesia, publicada e emitida semanalmente aos domingos.
O responsável sublinha que, por causa dos vários confinamentos e limitações sanitárias, os utentes “estão isolados, estão confinados, por isso também evidenciam um maior desgaste” e exigem mais atenção dos profissionais.
“Desde março, temos vindo a fazer um esforço e a contar com a colaboração das pessoas; as pessoas não desistem e tem sido muito importante ver a vocação, a disponibilidade, a dedicação dos profissionais e aqui destaco de forma muito séria o papel dos ajudantes e das ajudantes de ação direta”, aponta.
“As instituições têm de se desdobrar entre o trabalho aos utentes residenciais, aqueles que estão na instituição e aos utentes que estão em casa”, acrescenta.
O presidente da UDIPSS-Évora recorda que as respostas sociais “funcionam em permanência” e admite em encontrar recursos humanos, “seja por via de voluntariado, seja por via de contratos”.
“É uma dificuldade que se tem vindo a agudizar, por força do aumento dos casos”, adverte.
Tiago Abalroado questiona a eficácia das brigadas de intervenção rápida, por falta de pessoal médico e de formação específica, além de sublinhar atrasos na testagem nas instituições.
O entrevistado elogia, por outro lado, o processo de vacinação em curso, que chega já 70% dos lares do Alentejo, na 1ª dosagem, esperando que chegue depois aos profissionais do apoio domiciliário.
Questionado sobre o novo confinamento, o presidente da UDIPSS-Évora considera que “o facto de as escolas se manterem abertas faz com que a proteção das famílias não seja tão acautelada como no primeiro confinamento”, em 2020.
“Não há aqui uma efetiva diminuição do risco: os pais continuam a relacionar-se com os filhos; os pais, trabalhadores de IPSS, continuar a ir às Instituições, porque estas têm de continuar a sua prestação de serviços; os filhos têm de continuar a ir à escola”, precisa.
Tiago Abalroado mostra também preocupações com o facto de os idosos residentes em lares poderem votar para as presidenciais de 24 de janeiro, na instituição onde vivem, assinalando que teria sido preferível adiar o processo eleitoral.
“Uma coisa é certa: é muito difícil, na fase em que nos encontramos, assegurar com todas as condições de proteção que os idosos poderão votar, que os utentes institucionalizados poderão votar”, indica.
O responsável convida a fazer do tempo de pandemia um momento de reflexão sobre os modelos de institucionalização para os idosos, para que os lares e estruturas residenciais não sejam “depósitos de utentes”.
28.12.20
“Tudo o que tinha foi enfiado em dois sacos. Foi como se me tivessem enfiado a mim naqueles sacos”
Natália Faria, in Público on-line
Maria Júlia Costa e Almeida, 93 anos, utente d’ O Lar do Comércio, em Matosinhos. Relato de uma conversa mantida através de vídeochamada, dada a interdição de entradas e saídas do lar.
Quando fiz 93 anos de idade, no dia 1 de Maio, estávamos aqui largados no bar do lar. Tinham-me batido à porta do quarto, pelas oito e meia da noite, e disseram-me: “Pegue na sua almofada e vá lá para baixo”. E eu fui, sem saber o que se passava. Estava o bar com umas 30 camas em fila, com uma cadeira cada, e ali ficámos durante três semanas. Nem direito a banho tivemos. A única pessoa que lá entrou durante esse tempo todo foi o senhor Amândio com a comida. O que me valeu foi que, no momento em que me foram chamar, calhou de estar com o telefone e enfiei-o no bolso do roupão. E com isso fui podendo falar com os meus filhos, porque aqui dentro ninguém nos dizia nada. Mas não gosto muito de falar disso.
Sabe o que me aconteceu nesse dia em que fiz 93 anos? O meu filho arranjou maneira de me fazer chegar um aparelho, como se fosse um telemóvel, e, quando carreguei no botão, apareceu-me um filme com a minha família toda a dar-me os parabéns. Foi uma surpresa tão boa, tão boa. Isso e a rosa que a minha filha Isabel também me fez chegar. Até a fotografei depois, já com este telemóvel que a minha afilhada me deu – ela sempre que muda para um telemóvel de gama alta dá-me o antigo - e que já me permite vê-los a todos por vídeo: filhos, netos e bisnetos. E olhe que eu ainda sou do tempo em que apareceram aquelas máquinas – não me recordo do nome - em que mandavam uns papéis de Lisboa e no mesmo segundo estava a apanhá-los no Porto. Eu não saía de ao pé daquela máquina. Como é que podia ser tal maravilha? E o mesmo digo agora: como é possível estarem as pessoas a ver-se, estando tão distantes? Já viu como o mundo mudou? Mudou muito, muito, muito.
Depois daquelas três semanas em que estivemos no bar (e durante as quais nem os dentes pudemos lavar, porque nem tempo deram para levar escova ou pasta e também ninguém no-las ofereceu) mudaram-nos para o infantário, onde passámos mais 15 dias. E ainda foi pior: num sítio como no outro, só havia uma sanita. Conseguíamos lavar a cara e por baixo no bidé e mais nada. Andávamos todos fardados porque ninguém tinha tido tempo de trazer roupa.
Eu no início fiquei muito nervosa porque não tinha a medicação comigo. E, como estava aflita, liguei para a farmácia, onde são todos muito meus amigos e já sabem do que sofro, para ver se me mandavam os meus comprimidos. E lá mandaram. Nessa altura, a gente não sabia o que era a covid nem nada. E eu julguei que estava bem, porque não me doía nada. Só depois é que a minha filha Manuela me explicou que uma daquelas coisinhas que me tinham metido no nariz tinha apanhado alguma coisa. Foi ela que me trouxe uma pilha para eu na altura poder ir à casa de banho de noite, porque eles a uma certa hora desligavam a luz e nós ali ficávamos às escuras. Ainda a tenho comigo, à pilha, até lhe chamo Manelinha.
Quando pude voltar ao meu quarto tive outra decepção. Tudo o que tinha na parede foi enfiado em dois sacos. Senti uma tristeza medonha. A minha vida estava toda naquela parede: fotografias, desenhos, enfeites de Natal, um vaso com flores de papel, recordações disto e daquilo. Toda a gente que cá vinha ficava admirada, porque aquilo ficava muito bem, pronto. Quanto a estar mal ou bem, cá me vou remediando, mas custa-me muito agora olhar para aquela parede e ver aqueles buracos todos.
Como tenho uma pequena estante fixa na parede, há tempos lá arranjei coragem para abrir um dos sacos e recuperei algumas fotografias. Se eu rodar o telemóvel até lhas consigo mostrar, mas veja lá não me desapareça: esta sou eu (gosto muito desta fotografia porque, e desculpe-me, mas eu aos 20 anos era mesmo muito bonita); esta mais pequena é do meu marido, Manuel, que morreu aos 60 anos, e aqui estão os meus três filhos novinhos ainda.
Quando fiz a inscrição para poder vir para aqui, há 42 anos, este lar era um sonho: tinha cabeleireiro, biblioteca, sala de jogos, com um bilhar e uns joguitos de mesa, muita coisa. Havia dois médicos cá dentro. E havia ginástica e canto coral. Na altura, fiquei encantada e disse: “Se ficar viúva, é para aqui que venho”. E, no início, foi bom. Antes disto ter começado a morrer, eu saía e entrava quando queria e os meus filhos também, que eu, graças a Deus, tenho uns filhos que fazem tudo por mim, admito que por ter sido uma boa mãe para eles. Enquanto pude, fiz questão de os levar a todo o lado: a Lisboa, para lhes mostrar aqueles museus todos, ao cinema, e se se fosse preciso mentir na idade para que pudessem entrar, mentia. Queria que fossem instruídos como eu era antes de a doença ter começado a dar cabo de mim.
Sempre fui muito amiga de ajudar toda a gente - a minha mãe, a minha sogra, uma tia-avó, fui eu que tratei delas todas. Já eu, não gosto que cuidem de mim. Pode ser uma tolice, mas é assim que sou. Nunca quis maçar ninguém. Por isso é que não penso sair do lar. Nem nesta época de festas, porque, se sair, já sei que depois tenho de ficar em quarentena e antes quero morrer do que ter de passar por isso outra vez. Ainda se me pusessem de quarentena aqui no meu quarto, onde sempre me vou entretendo com as minhas palavras cruzadas, lavando uma peça ou outra de roupa que ponho a secar na varanda, onde posso beber as minhas quatro garrafinhas de chã. Há dias, pedi ao meu filho que me trouxesse um papel com o hino francês escrito. O português ainda sei todo, mas do francês já estava esquecida. E ele arranjou-mo. Já me consigo pôr agora a cantá-lo baixinho. Por isso, se me deixassem fazer a quarentena aqui, ainda admitia. Mas não é assim que eles fazem. Põe-nos num sítio e limitam-se a levar a comida numa marmita: se eu gostasse comia, se não gostasse não comia. Não.
Custa-me muito não poder estar um bocadinho com os meus filhos, com os meus netos. De sair já nem tanto porque envelheci muito nos últimos meses e já não me consigo mexer como dantes. Há tempos pedi ao meu filho que me arranjasse um banquinho, só para eu poder crescer mais um palmo para os poder ver pela janela quando me vêm trazer as encomendas. Ainda não me medi, mas parece que já minguei. Com o banco, eles dizem a hora a que chegam, e eu ponho-me à janela a dizer adeus e a mandar beijinhos. Com isso e com o telemóvel, lá vou andando.
Se a vacina chegar aqui, e as coisas começarem a melhorar cá dentro e lá fora, vou pedir que deixem entrar o meu filho para ele me colocar as coisas todas na parede outra vez. Não sei o que me parece olhar para o chão e ver as coisas todas enfiadas nos sacos. Foi como se me tivessem enfiado a mim naqueles sacos. Será por isso que também ando mais abatida.
Mas, olhe, não ligue. Acredito que as coisas vão melhorar e, enquanto falei, estive entretida. Já sabe que não estive sentada, porque não me dou parada. Fui falando e andando aqui pelo quarto. Desculpe se a chateei. Sei que aí por fora andam todos muito ocupados. Se calhar de voltar a falar com a minha Manuela, diga-lhe que não se esqueça das rabanadas que lhe pedi.
Texto escrito a partir de uma conversa com Natália Faria
Maria Júlia Costa e Almeida, 93 anos, utente d’ O Lar do Comércio, em Matosinhos. Relato de uma conversa mantida através de vídeochamada, dada a interdição de entradas e saídas do lar.
Quando fiz 93 anos de idade, no dia 1 de Maio, estávamos aqui largados no bar do lar. Tinham-me batido à porta do quarto, pelas oito e meia da noite, e disseram-me: “Pegue na sua almofada e vá lá para baixo”. E eu fui, sem saber o que se passava. Estava o bar com umas 30 camas em fila, com uma cadeira cada, e ali ficámos durante três semanas. Nem direito a banho tivemos. A única pessoa que lá entrou durante esse tempo todo foi o senhor Amândio com a comida. O que me valeu foi que, no momento em que me foram chamar, calhou de estar com o telefone e enfiei-o no bolso do roupão. E com isso fui podendo falar com os meus filhos, porque aqui dentro ninguém nos dizia nada. Mas não gosto muito de falar disso.
Sabe o que me aconteceu nesse dia em que fiz 93 anos? O meu filho arranjou maneira de me fazer chegar um aparelho, como se fosse um telemóvel, e, quando carreguei no botão, apareceu-me um filme com a minha família toda a dar-me os parabéns. Foi uma surpresa tão boa, tão boa. Isso e a rosa que a minha filha Isabel também me fez chegar. Até a fotografei depois, já com este telemóvel que a minha afilhada me deu – ela sempre que muda para um telemóvel de gama alta dá-me o antigo - e que já me permite vê-los a todos por vídeo: filhos, netos e bisnetos. E olhe que eu ainda sou do tempo em que apareceram aquelas máquinas – não me recordo do nome - em que mandavam uns papéis de Lisboa e no mesmo segundo estava a apanhá-los no Porto. Eu não saía de ao pé daquela máquina. Como é que podia ser tal maravilha? E o mesmo digo agora: como é possível estarem as pessoas a ver-se, estando tão distantes? Já viu como o mundo mudou? Mudou muito, muito, muito.
Depois daquelas três semanas em que estivemos no bar (e durante as quais nem os dentes pudemos lavar, porque nem tempo deram para levar escova ou pasta e também ninguém no-las ofereceu) mudaram-nos para o infantário, onde passámos mais 15 dias. E ainda foi pior: num sítio como no outro, só havia uma sanita. Conseguíamos lavar a cara e por baixo no bidé e mais nada. Andávamos todos fardados porque ninguém tinha tido tempo de trazer roupa.
Eu no início fiquei muito nervosa porque não tinha a medicação comigo. E, como estava aflita, liguei para a farmácia, onde são todos muito meus amigos e já sabem do que sofro, para ver se me mandavam os meus comprimidos. E lá mandaram. Nessa altura, a gente não sabia o que era a covid nem nada. E eu julguei que estava bem, porque não me doía nada. Só depois é que a minha filha Manuela me explicou que uma daquelas coisinhas que me tinham metido no nariz tinha apanhado alguma coisa. Foi ela que me trouxe uma pilha para eu na altura poder ir à casa de banho de noite, porque eles a uma certa hora desligavam a luz e nós ali ficávamos às escuras. Ainda a tenho comigo, à pilha, até lhe chamo Manelinha.
Quando pude voltar ao meu quarto tive outra decepção. Tudo o que tinha na parede foi enfiado em dois sacos. Senti uma tristeza medonha. A minha vida estava toda naquela parede: fotografias, desenhos, enfeites de Natal, um vaso com flores de papel, recordações disto e daquilo. Toda a gente que cá vinha ficava admirada, porque aquilo ficava muito bem, pronto. Quanto a estar mal ou bem, cá me vou remediando, mas custa-me muito agora olhar para aquela parede e ver aqueles buracos todos.
Como tenho uma pequena estante fixa na parede, há tempos lá arranjei coragem para abrir um dos sacos e recuperei algumas fotografias. Se eu rodar o telemóvel até lhas consigo mostrar, mas veja lá não me desapareça: esta sou eu (gosto muito desta fotografia porque, e desculpe-me, mas eu aos 20 anos era mesmo muito bonita); esta mais pequena é do meu marido, Manuel, que morreu aos 60 anos, e aqui estão os meus três filhos novinhos ainda.
Quando fiz a inscrição para poder vir para aqui, há 42 anos, este lar era um sonho: tinha cabeleireiro, biblioteca, sala de jogos, com um bilhar e uns joguitos de mesa, muita coisa. Havia dois médicos cá dentro. E havia ginástica e canto coral. Na altura, fiquei encantada e disse: “Se ficar viúva, é para aqui que venho”. E, no início, foi bom. Antes disto ter começado a morrer, eu saía e entrava quando queria e os meus filhos também, que eu, graças a Deus, tenho uns filhos que fazem tudo por mim, admito que por ter sido uma boa mãe para eles. Enquanto pude, fiz questão de os levar a todo o lado: a Lisboa, para lhes mostrar aqueles museus todos, ao cinema, e se se fosse preciso mentir na idade para que pudessem entrar, mentia. Queria que fossem instruídos como eu era antes de a doença ter começado a dar cabo de mim.
Sempre fui muito amiga de ajudar toda a gente - a minha mãe, a minha sogra, uma tia-avó, fui eu que tratei delas todas. Já eu, não gosto que cuidem de mim. Pode ser uma tolice, mas é assim que sou. Nunca quis maçar ninguém. Por isso é que não penso sair do lar. Nem nesta época de festas, porque, se sair, já sei que depois tenho de ficar em quarentena e antes quero morrer do que ter de passar por isso outra vez. Ainda se me pusessem de quarentena aqui no meu quarto, onde sempre me vou entretendo com as minhas palavras cruzadas, lavando uma peça ou outra de roupa que ponho a secar na varanda, onde posso beber as minhas quatro garrafinhas de chã. Há dias, pedi ao meu filho que me trouxesse um papel com o hino francês escrito. O português ainda sei todo, mas do francês já estava esquecida. E ele arranjou-mo. Já me consigo pôr agora a cantá-lo baixinho. Por isso, se me deixassem fazer a quarentena aqui, ainda admitia. Mas não é assim que eles fazem. Põe-nos num sítio e limitam-se a levar a comida numa marmita: se eu gostasse comia, se não gostasse não comia. Não.
Custa-me muito não poder estar um bocadinho com os meus filhos, com os meus netos. De sair já nem tanto porque envelheci muito nos últimos meses e já não me consigo mexer como dantes. Há tempos pedi ao meu filho que me arranjasse um banquinho, só para eu poder crescer mais um palmo para os poder ver pela janela quando me vêm trazer as encomendas. Ainda não me medi, mas parece que já minguei. Com o banco, eles dizem a hora a que chegam, e eu ponho-me à janela a dizer adeus e a mandar beijinhos. Com isso e com o telemóvel, lá vou andando.
Se a vacina chegar aqui, e as coisas começarem a melhorar cá dentro e lá fora, vou pedir que deixem entrar o meu filho para ele me colocar as coisas todas na parede outra vez. Não sei o que me parece olhar para o chão e ver as coisas todas enfiadas nos sacos. Foi como se me tivessem enfiado a mim naqueles sacos. Será por isso que também ando mais abatida.
Mas, olhe, não ligue. Acredito que as coisas vão melhorar e, enquanto falei, estive entretida. Já sabe que não estive sentada, porque não me dou parada. Fui falando e andando aqui pelo quarto. Desculpe se a chateei. Sei que aí por fora andam todos muito ocupados. Se calhar de voltar a falar com a minha Manuela, diga-lhe que não se esqueça das rabanadas que lhe pedi.
Texto escrito a partir de uma conversa com Natália Faria
22.12.20
A "ALDEIA" PARA IDOSOS QUE NÃO QUEREM IR PARA UM LAR. "QUANDO ME APETECE, SAIO PARA FAZER PETISCADAS"
in TVI24
Em Águeda, as Casinhas Autónomas permitem a idosos viverem com autonomia e companhia. São dez casas pré-fabricadas de madeira, separadas por poucos metros de distância, onde vivem casais ou duas pessoas do mesmo sexo
Em Águeda, no distrito de Aveiro, há uma espécie de aldeia social habitada por 19 idosos com alguma autonomia que não querem ir para um lar, um projeto que tem vindo a revelar-se um sucesso, em tempos de pandemia.
A ideia nasceu há cerca de sete anos quando a associação “Os Pioneiros” concluiu que “era preciso uma resposta social que antecedesse o lar e que desse a possibilidade de as pessoas serem autónomas, e terem a sua vida normal”.
“Nós chamamos-lhe Casinhas Autónomas, mas um antigo ministro que visitou a instituição de forma informal chamou-lhe aldeia social e eu acho que o nome se adequa bastante bem, porque isto, no fundo, é uma aldeia. As pessoas conhecem-se todas, interagem umas com as outras, e têm as suas tricas também, como numa aldeia”, disse José Carlos Arede, presidente da direção de “Os Pioneiros”.
Construída num terreno desta instituição particular de solidariedade social, sedeada em Mourisca do Vouga, a aldeia é composta por dez casas pré-fabricadas de madeira, separadas por poucos metros de distância e envolvidas por um extenso jardim e um pinhal. Em cada uma mora um casal ou duas pessoas do mesmo sexo.
Sentadas num pequeno alpendre em frente a uma das casas, encontramos Benilde da Glória Vidal, de 86 anos, e Emília de Jesus Antunes, de 85 anos. São as duas mais recentes moradoras das casinhas. Mudaram-se para aqui há quase dois anos, partilhando desde então a mesma casa.
“Vivia na minha casa sozinha. A minha filha não tem tempo para olhar por mim e pensei vir para estas casinhas. Se fosse para um lar com certeza não ia ainda”, diz Glória Vidal, enquanto abre a porta para nos mostrar o interior da habitação.
A moradia dispõe de uma cozinha, um quarto e uma casa de banho. O espaço é apertado, mas tem tudo o que é preciso. “Gosto de estar cá. Gosto muito da casinha, gosto do paraíso, gosto das pessoas, gosto de tudo”, disse.
“As pessoas quando chegam aqui ficam fascinadas, porque não vão perder a sua autonomia. Elas sentem que estão nas suas próprias casas”, realça José Carlos Arede, adiantando que atualmente há cerca de 30 pessoas na lista de espera.
O responsável sublinha que, nesta pandemia, a aldeia social veio a revelar-se “altamente funcional”, porque “as pessoas não estão todas ao monte”. “Hoje, num lar, as salas de espera são comuns, estão 20 a 30 pessoas. Aqui não. Cada um está na sua casinha e tem acesso a serviços médicos, refeições e lavandaria”, explica.
As casas são arrendadas por um preço que varia entre cerca de 100 euros e 850 euros. “Quando as pessoas não têm, não podem pagar. É conforme os rendimentos. Não queremos aqui uma coisa elitista”, disse José Carlos Arede.
A conversa é interrompida pela chegada de António de Oliveira Pinho, de 80 anos, que atravessa o jardim a pedalar na sua bicicleta. “Eu adoro andar de bicicleta. Faço uma média de 50 quilómetros por dia no verão, da parte da manhã. É costume andar de bicicleta pela vila. Às vezes paro num café e tomo um cafezinho, descanso um bocadinho e sigo de novo”, diz.
António de Oliveira Pinho, também conhecido por “Pauleta”, começou por ajudar a associação como voluntário e, há cerca de sete anos, mudou-se para as Casinhas Autónomas. A decisão surgiu após o divórcio da mulher.
“Eu não gosto da solidão. Nós temos que andar, fazer exercício, falar com as pessoas e aqui temos isso tudo. Quando me apetece, saio para fazer petiscadas, beber uns copos com os amigos e jogar à sueca, porque eu gosto muito de jogar à sueca”, contou.
Este ex-jogador profissional de futebol e que esteve emigrado mais de 40 anos na África do Sul não se imagina a viver fechado num lar. “Quem é que quer ir para um lar? Ninguém. Espero é não ir para lá tão depressa. Quero ver se fujo de lá, ninguém gosta de ir para lá”, atira.
O presidente de “Os Pioneiros” lamenta que esta resposta social não esteja prevista na Lei, considerando que as casinhas desempenham um papel “imprescindível”, até porque a realidade dos idosos mudou muito nos últimos anos.
“Hoje os lares são quase unidades de cuidados continuados. As pessoas estão acamadas, muitas delas dementes, com alzheimer. Colocar alguém que esteja no seu estado perfeito, embora com alguma idade, num lar, é um absurdo”, disse.
Nos últimos anos, a instituição tem vindo a travar uma batalha jurídica para contestar uma contraordenação aplicada pela Segurança Social.
“Em 2015, tivemos uma inspeção da Segurança Social e disseram-nos que isto era um lar ilegal e foi-nos aplicada uma contraordenação de dez mil euros”, explicou.
A instituição impugnou a decisão junto do Tribunal do Trabalho de Águeda que manteve a coima, mas José Carlos Arede afirmou que vão recorrer desta decisão.
“Não podemos concordar com uma coisa daquelas. É uma injustiça tremenda. Eles não estão confinados a um lar. Fazem a sua vida normal. Alguns têm o carro lá fora, vão visitar os seus familiares. Portanto, isto não pode ser e nem nunca será um lar”, concluiu.
Em Águeda, as Casinhas Autónomas permitem a idosos viverem com autonomia e companhia. São dez casas pré-fabricadas de madeira, separadas por poucos metros de distância, onde vivem casais ou duas pessoas do mesmo sexo
Em Águeda, no distrito de Aveiro, há uma espécie de aldeia social habitada por 19 idosos com alguma autonomia que não querem ir para um lar, um projeto que tem vindo a revelar-se um sucesso, em tempos de pandemia.
A ideia nasceu há cerca de sete anos quando a associação “Os Pioneiros” concluiu que “era preciso uma resposta social que antecedesse o lar e que desse a possibilidade de as pessoas serem autónomas, e terem a sua vida normal”.
“Nós chamamos-lhe Casinhas Autónomas, mas um antigo ministro que visitou a instituição de forma informal chamou-lhe aldeia social e eu acho que o nome se adequa bastante bem, porque isto, no fundo, é uma aldeia. As pessoas conhecem-se todas, interagem umas com as outras, e têm as suas tricas também, como numa aldeia”, disse José Carlos Arede, presidente da direção de “Os Pioneiros”.
Construída num terreno desta instituição particular de solidariedade social, sedeada em Mourisca do Vouga, a aldeia é composta por dez casas pré-fabricadas de madeira, separadas por poucos metros de distância e envolvidas por um extenso jardim e um pinhal. Em cada uma mora um casal ou duas pessoas do mesmo sexo.
Sentadas num pequeno alpendre em frente a uma das casas, encontramos Benilde da Glória Vidal, de 86 anos, e Emília de Jesus Antunes, de 85 anos. São as duas mais recentes moradoras das casinhas. Mudaram-se para aqui há quase dois anos, partilhando desde então a mesma casa.
“Vivia na minha casa sozinha. A minha filha não tem tempo para olhar por mim e pensei vir para estas casinhas. Se fosse para um lar com certeza não ia ainda”, diz Glória Vidal, enquanto abre a porta para nos mostrar o interior da habitação.
A moradia dispõe de uma cozinha, um quarto e uma casa de banho. O espaço é apertado, mas tem tudo o que é preciso. “Gosto de estar cá. Gosto muito da casinha, gosto do paraíso, gosto das pessoas, gosto de tudo”, disse.
“As pessoas quando chegam aqui ficam fascinadas, porque não vão perder a sua autonomia. Elas sentem que estão nas suas próprias casas”, realça José Carlos Arede, adiantando que atualmente há cerca de 30 pessoas na lista de espera.
O responsável sublinha que, nesta pandemia, a aldeia social veio a revelar-se “altamente funcional”, porque “as pessoas não estão todas ao monte”. “Hoje, num lar, as salas de espera são comuns, estão 20 a 30 pessoas. Aqui não. Cada um está na sua casinha e tem acesso a serviços médicos, refeições e lavandaria”, explica.
As casas são arrendadas por um preço que varia entre cerca de 100 euros e 850 euros. “Quando as pessoas não têm, não podem pagar. É conforme os rendimentos. Não queremos aqui uma coisa elitista”, disse José Carlos Arede.
A conversa é interrompida pela chegada de António de Oliveira Pinho, de 80 anos, que atravessa o jardim a pedalar na sua bicicleta. “Eu adoro andar de bicicleta. Faço uma média de 50 quilómetros por dia no verão, da parte da manhã. É costume andar de bicicleta pela vila. Às vezes paro num café e tomo um cafezinho, descanso um bocadinho e sigo de novo”, diz.
António de Oliveira Pinho, também conhecido por “Pauleta”, começou por ajudar a associação como voluntário e, há cerca de sete anos, mudou-se para as Casinhas Autónomas. A decisão surgiu após o divórcio da mulher.
“Eu não gosto da solidão. Nós temos que andar, fazer exercício, falar com as pessoas e aqui temos isso tudo. Quando me apetece, saio para fazer petiscadas, beber uns copos com os amigos e jogar à sueca, porque eu gosto muito de jogar à sueca”, contou.
Este ex-jogador profissional de futebol e que esteve emigrado mais de 40 anos na África do Sul não se imagina a viver fechado num lar. “Quem é que quer ir para um lar? Ninguém. Espero é não ir para lá tão depressa. Quero ver se fujo de lá, ninguém gosta de ir para lá”, atira.
O presidente de “Os Pioneiros” lamenta que esta resposta social não esteja prevista na Lei, considerando que as casinhas desempenham um papel “imprescindível”, até porque a realidade dos idosos mudou muito nos últimos anos.
“Hoje os lares são quase unidades de cuidados continuados. As pessoas estão acamadas, muitas delas dementes, com alzheimer. Colocar alguém que esteja no seu estado perfeito, embora com alguma idade, num lar, é um absurdo”, disse.
Nos últimos anos, a instituição tem vindo a travar uma batalha jurídica para contestar uma contraordenação aplicada pela Segurança Social.
“Em 2015, tivemos uma inspeção da Segurança Social e disseram-nos que isto era um lar ilegal e foi-nos aplicada uma contraordenação de dez mil euros”, explicou.
A instituição impugnou a decisão junto do Tribunal do Trabalho de Águeda que manteve a coima, mas José Carlos Arede afirmou que vão recorrer desta decisão.
“Não podemos concordar com uma coisa daquelas. É uma injustiça tremenda. Eles não estão confinados a um lar. Fazem a sua vida normal. Alguns têm o carro lá fora, vão visitar os seus familiares. Portanto, isto não pode ser e nem nunca será um lar”, concluiu.
21.12.20
Porque escolhemos não ver os velhos?
Adriano Miranda (fotografia), Dulce Maria Cardoso (texto) e Miguel Feraso Cabral (web), in Público on-line
Com o início da pandemia percebeu-se que os mais velhos eram também os mais vulneráveis. Hoje, em Portugal, 67% do total de mortos têm mais de 80 anos. Os residentes em lares foram dos mais afectados. Adriano Miranda procurou duas excepções e fez retratos em dois lares (Lar e Centro de Dia de Alcoutim e Lar Idade D’Ouro, em Melgaço) onde a covid-19 não entrou. Dulce Maria Cardoso revela a sua experiência como cuidadora informal da mãe. Dois ensaios, em jeito de homenagem, para nos pôr a pensar sobre a velhice e a maneira como tratamos os velhos
6 de Abril
Mudei-me para casa da minha mãe há três dias. Tenho medo do vírus, disse-me ela num desespero ao telefone. Acrescentou, Não é só o vírus, sinto-me mal, não quero mais viver sozinha, o teu pai morreu há já tanto tempo, estou cansada. Fiz uma pequena mala de roupa, pus o computador na mochila, fechei as portadas da minha casa e regressei ao lugar de onde saí há quase trinta anos.
O único pedido de que me lembro de a minha mãe alguma vez nos ter feito, a mim e à minha irmã, foi o de que não a internássemos num lar, Não gostava que o meu fim fosse num sítio desses, disse-nos. De resto, dava-nos tudo o que podia sem pedir nada em troca

Fernando Rita
87 anos, músico
Com 80 anos, o coração da minha mãe, já operado por duas vezes, parece fraquejar novamente. Insisto para que ela coma, A comida enrola-se-me na garganta, responde. Emagreceu muito nos últimos tempos. Pesa 45 quilos. Está deprimida, muitos idosos queixam-se do mesmo, explicou a psiquiatra à minha irmã. Na divisão de tarefas que dizem respeito ao cuidar da minha mãe, a minha irmã ficou encarregada das idas aos médicos. Até fevereiro deste ano, a minha mãe fazia ginástica no centro de dia duas vezes por semana, tratava da casa e do jardim, ia de Cascais a Benfica de transportes públicos para ajudar a cuidar dos bisnetos, o Tomás e o Vicente. Apesar da perda de apetite, do cansaço, da tristeza, do desinteresse da vida em geral, não acredito que a minha mãe esteja deprimida.

Amílcar Ramadas
86 anos, segurança
7 de abril
Esta manhã telefonei ao Luís para lhe confessar que tenho medo. De não saber cuidar de quem sempre cuidou de mim, do trabalho que me espera e que não sei medir, de não voltar a pertencer a esta casa, de deixar de fazer o que quero, de me descobrir exageradamente egoísta, de ser uma má filha. Não podes pensar assim, disse-me ele, mas tens pela frente um trabalho hercúleo e precisas de arranjar quem te ajude a fazê-lo. Nos últimos três anos, grande parte das preocupações do Luís condensou-se em assegurar o bem-estar da mãe dele. Quase todos os meus amigos que ainda têm pais e idades próximas da minha confrontam-se com o mesmo problema – o que fazer quando os que amamos deixam de saber tomar conta de si?

Maria José Mestre
86 anos, doméstica
Quinta-feira Santa. Nunca houve Páscoa sem folares feitos pela minha mãe. A seu pedido, encomendei massa de fermento de padeiro, comprei ovos e enchidos. Estávamos as duas na cozinha, a minha mãe sovava a massa na enorme vasilha de esmalte azul, tudo parecia quase igual. De repente, dei conta do açúcar na massa do folar de carne, os ovos esquecidos num alguidar, a aguardente vertida sobre a bancada. Numa voz desconhecida, de olhos inesperadamente apagados, a minha mãe exclamou, Não sei o que estou a fazer, ajuda-me. Sentou-se numa cadeira da sala de jantar com as mãos enfarinhadas, uma boneca velha jogada para um canto. E eu incapaz de ajudá-la, pregada ao chão pela certeza de que há qualquer coisa a escangalhar-se na cabeça dela.
À noite não consigo adormecer e escrevo mentalmente, estou a perder a minha mãe, páginas e páginas onde não cabe mais nada.

Eduardo Patrício
73 anos, metalúrgico
10 de abril
O Papa Francisco rezou sozinho diante do enorme vazio da Praça de S. Pedro, Parece o fim do mundo, disse a minha mãe ao vê-lo na televisão, Que Deus tenha piedade de nós.
Tem razão, dá ideia de que desligaram o mundo. Registo os dias que passam como se não passassem. Para não os esquecer? Para gastá-los? Todos os registamos, a humanidade outra vez adolescente, a escrever diários, já não suficientemente criança para ignorar que os dias se perdem, ainda não suficientemente adulta para reconhecer que quase só se repetem.

Isabel Relógio
92 anos, doméstica
17 de abril
A senhora vai decorar estas três palavras e diz-mas quando eu lhe pedir, explica o neurologista. A minha mãe falha o teste. Não falha completamente, mas falha o bastante. No final da consulta, o médico diz à minha irmã, A sua mãe tem Alzheimer. Li tanto sobre a doença para criar a personagem da avó da Eliete e nunca imaginei que passaria por isto. Dou-me mal com a ironia.

Justina Pereira
Peixeira
22 de abril
Ontem, a minha mãe pediu para desligar o televisor quando estavam a noticiar as estatísticas dos mortos por covid, Os velhos estão todos a morrer, fecham-nos nos lares para matá-los, disse para si própria.
Ao adormecer, sonhei com o Jean-Louis Trintignant a asfixiar a Emmanuelle Riva no filme Amour e hoje passei o dia maldisposta.
Além destas notas dispersas e trapalhonas que vou escrevendo, tenho gravado em áudio e vídeo as histórias que a minha mãe sempre contou, a viagem para o Brasil aos onze anos, a fuga com o meu pai de casa dos meus avós, a ida para Luanda, as agruras e alegrias da vida rural. Depois do almoço, pedi-lhe que me dissesse alguns dos muitos provérbios que sabe. Não quis. Perante a minha insistência, riu-se matreira, O que não se faz num dia faz-se no dia de Santa Maria.
Apanhámos nêsperas no quintal. Eu fiquei a travar o escadote e o Pedro subiu. A minha mãe ajeitava as folhas da figueira que colocara no fundo do tabuleiro de verga onde eu ia colocando as nêsperas, Obrigada, filha, exclamou do nada.

Arminda Monteiro
88 anos, costureira
28 de abril
É o aniversário da minha mãe, Se alguma vez pensei chegar a esta idade, os meus pais morreram na casa dos sessenta, os velhos de antigamente eram mais novos, ainda que parecessem mais velhos. Por causa da pandemia improvisámos uma mesa no jardim, debaixo da figueira, e mantivemo-nos afastados uns dos outros. Esteve um dia primaveril, o Tomás e o Vicente fizeram pantominices na relva antes de cantarmos os parabéns à minha mãe. Judas enforcou-se numa figueira depois de ter traído Cristo, desde então a sombra da figueira é a sombra da morte, lembrou a minha mãe. E acrescentou mais baixinho, Não quero morrer.
Quando se foram todos embora, deixei-me ficar a ver no telemóvel as fotografias que tirei. Parecia um almoço de aniversário como os dos outros anos. As imagens mentem. Ou são os nossos corpos que o fazem. Repetem a mesma gramática de gestos, indiferentes ao que aconteça, e tanto me surpreendo com o exagero de estragos que apresentam quando por dentro nada mudou, como com a teimosia de se manterem iguais mesmo sendo já outros. Ainda assim, de entre todas as diferenças que procurei, as impostas pela pandemia foram as menos notórias. Vamos cumprindo as tarefas que eram da minha mãe, fazemo-lo com mais ou menos dificuldade, mais ou menos brigas, mais ou menos acusações. Cumprimo-las mal. A doença da minha mãe vai adoecendo a nossa ideia de família.

Maria Antónia Marques
81 anos, criada de servir
1 de maio
A minha mãe pediu-me que a deixasse ficar mais tempo no banho e começou a entoar uma canção da sua juventude, Cantávamos isto nas vindimas, explicou-me. Nunca a tinha visto demorar-se no banho. Muito menos cantar. Não se apercebe que hoje é feriado. Os dias são-lhe dificilmente distinguíveis.
Mais de mil mortos por covid em Portugal. A Direção-Geral de Saúde informou que cerca de 90% são idosos. Não gosto da palavra idoso. Soa-me a eufemismo de velho e ser velho não tinha de ser mau.

António Pimenta
84 anos, manobrador de gruas
27 de maio
O novo neurologista é da opinião de que a minha mãe não tem Alzheimer, Trata-se do início de uma demência, mas não é Alzheimer. Não encontra justificação para a minha mãe estar a emagrecer tanto. Propõe que consultemos um cardiologista e um médico de medicina interna, De qualquer maneira, tem uma doença muito grave, 81 anos é uma doença grave por si só, assegura.
Pergunto-me porque somos tão mais capazes de cuidar dos corpos do que das cabeças. Das cabeças e da felicidade. Não conseguimos tratar bem o que não vemos. Ou o que escolhemos não ver. Os velhos foram arredados dos palcos em que a vida moderna acontece. Como gatos vadios que deixamos de ver na rua porque adoecem discreta e secretamente nas traseiras dos prédios. Ninguém quer saber deles.
Só conseguimos consultas no privado.

Carminda Barbosa
81 anos, empregada de limpeza
8 de junho
A Bárbara telefona-me a perguntar se já sei quando estará pronto o novo romance, Não faço ideia de quando posso voltar a trabalhar nele, respondo, não tenho tempo nem resistência para me abalançar a um esforço tão grande. A Bárbara, que também tem a avó à sua responsabilidade, compreende. Às minhas inglórias tarefas domésticas que sempre me roubaram tanto tempo acrescem agora as da minha mãe, a vigilância da sua alimentação, a atenção aos sinais de doença, o registo das diferenças de memória dela, os passeios a pé no bairro, os concursos televisivos que vemos em conjunto etc., etc., etc. É como se acumulasse vários empregos. E sinto que não dou conta de nenhum.

Fernando Frederico
70 anos, pescador
20 de junho
Quando entrei na sala, a minha mãe, sentada no sofá, olhava muito atenta para a televisão, Estás a ver publicidade, mãe?, estranhei. Sim, respondeu-me imperturbável. Afinal, em vez do ecrã, parecia estar a focar, aquém ou além, um ponto qualquer onde os seus pensamentos flutuavam. Sucederam-se anúncios a uma operadora de telemóveis, a um creme de beleza, a uma loja de eletrodomésticos, a um festival de verão, a um banco, a uma marca de detergentes, a uma agência de viagens. Foi quando disparou o genérico do reality show que a ouvi murmurar, Já só sirvo para morrer.
Amanhã começa o verão.

Emília Esteves
90 anos, doméstica
14 de julho
Perante a descrição da fraqueza geral que a minha mãe sente, o SNS24 referenciou-a para a Urgência do hospital de Cascais. Mesmo assim, quando lá chegámos, perguntaram-nos, desagradados, por que a levávamos. Consideraram que não o devíamos ter feito. Depois de várias horas, vários exames, mandaram-na para casa. Não tem aparentemente nada de grave. Mas definha. Poderá a cabeça confundida de quem tanto quer viver fragilizar a este ponto o seu corpo?

Rosa Barreira
91 anos, empregada de limpeza
17 de agosto
A minha mãe está cada vez mais calada e parada. Ultimamente, quando acordo, vou até à cama dela e deixo-me ficar deitada à espera que a manhã chame por mim. Hoje abraçou-me, Sabe bem este quentinho, é triste dormir sempre sozinha.
O ecocardiograma que fez num hospital privado detetou um coágulo na superfície da prótese cardíaca.

Alda Pereira
82 anos, doméstica
27 de agosto
Depois de recebermos os resultados do batalhão de exames que o médico de medicina interna e a cardiologista prescreveram, ambos nos avisam de que a minha mãe precisa de um tratamento que só pode ser feito em regime de internamento hospitalar. Um tratamento prolongado e caro, vários milhares de euros, no privado. Maldizemos o sistema de saúde, a pandemia, a injustiça dos corpos. Exausta, peço à minha irmã que leve mais uma vez a minha mãe à Urgência do hospital de Cascais. Fico à espera em casa. A minha irmã liga-me daí a pouco, Desta vez ficou internada, vão tratar finalmente dela, diz, triunfante

Custódia Sousa
87 anos, doméstica
30 de agosto
Por causa da covid-19, não podemos visitar a minha mãe. Comprámos um tablet que deixámos no hospital para ser mais fácil falar com ela e para a vermos. Só que para isso ela precisa da ajuda de uma enfermeira ou de uma auxiliar. Temos direito a uma videochamada por dia.
A casa da minha mãe sem a minha mãe é violentamente triste. Tudo me magoa aqui dentro, o lugar dela à mesa, as árvores que plantou, a sua cama imaculadamente feita. Mas tenho-a pelo menos uma hora por dia no ecrã do meu computador. Protegida deste lado, acaricio-lhe demoradamente o rosto, sem a vergonha que a presença física impõe. Ela não sente nada. Com as palavras é mais difícil, não sei o que lhe dizer. Ou como lhe dizer.

Delmira Esteves
78 anos
28 de setembro
Fez já um mês que a minha mãe está hospitalizada. Em linguagem de leigos, tem uma doença maligna do sangue e uma infeção no coração. Um mieloma e uma endocardite, em linguagem técnica. Está gravemente doente em ambas as linguagens.
7 de outubro
De repente, dou conta de como estou só. Não por a minha mãe continuar no hospital, com a morte a rondar, e o Pedro ter ido de bicicleta até ao Guincho. Apercebo-me, sem perceber bem, que o abandono dos velhos é o espelho que desfigura a solidão a que nos fomos condenando. Muito antes do vírus, já estávamos confinados. Por classes sociais, por idades, por empregos, por aquilo de que gostamos, por aquilo em que acreditamos, por aquilo que consumimos. De tudo nos servimos para dividir, para especializar, para desligar. Se descobrirmos como religar-nos, não vamos mais envelhecer assim.

Florência Custódia
92 anos, doméstica
29 de outubro
A minha mãe está de novo em casa. Esteve quase dois meses hospitalizada, mas conseguiu debelar a endocardite. É raro ver uma doente com tanta vontade de viver, disse o médico. Regressou esfusiante, conversadora, cheia de vontade de fazer isto e aquilo, parecia outra vez a nossa incansável mãe. Até que hoje de manhã deitou o olhar para o quintal e disse, Já viste filha, andei tanto tempo perdida por esse mundo e acabei por vir parar à primeira casa em que vivi com o teu pai. Quando a localizei no tempo e no espaço, de acordo com os conselhos da psiquiatra, os seus olhos cinzentos aguaram-se, Ai filha, não ligues, a minha cabeça já não dá para mais.

Álvaro Gomes
91 anos, agricultor
13 de novembro
Uma das cuidadoras que respondeu ao anúncio que pus na OLX, confessou-me, por telefone, que não gosta muito de idosos, tinha estado empregada até há uns meses num hostel, mas agora não havia turistas, Temos de ir atrás do trabalho. A associação Amor e Esperança deu-me o preçário dos serviços que cobrem as necessidades da minha mãe, limpeza da habitação, banho, refeições, companhia, fisioterapia opcional, 1800 euros por mês já com o desconto de… Tiveram a gentileza de me informar que eu, como cuidadora informal, podia pedir ao Estado um subsídio mensal de 150 euros.

Rosa Sousa
74 anos, doméstica
30 de novembro
Um dos colegas do Vicente testou positivo. Todos os colegas e respetivas famílias ficaram de quarentena. Como se dizia na primeira vaga, vai ficar tudo bem. Daqui a duas semanas a turminha da creche recomeça como se nada tivesse acontecido. Entretanto, nos lares os velhos continuam a morrer. Todas as crianças são parecidas entre si, os velhos são velhos cada um à sua maneira.
12 de dezembro
O meu pai morreu há 19 anos. A minha mãe não se lembrou da data. Mandar rezar uma missa no dia da morte do meu pai era um dos seus deveres mais queridos. Vou desvalorizando os esquecimentos e tentando calar a pergunta que me atormenta como ferro quente, E se ela se esquecer de nós?
Albertina Domingues
82 anos, costureira
17 de dezembro
É o aniversário do Pedro e os pais dele vieram almoçar connosco. São quase da idade da minha mãe, mas estão capazes de tomar conta de si. Arranjei a minha mãe para o almoço, dei-lhe banho, perfumei-a, fiz-lhe um penteado, escolhi-lhe um fato bonito, vesti-a, dei-lhe um beijo na cara, Estamos prontas.
18 de dezembro
Na sala de estar, revejo mais uma vez estas notas que acompanharão as belíssimas fotografias do Adriano Miranda. A minha mãe vê um programa da manhã. Interrompe-me várias vezes, esquece-se que estou a trabalhar, Ando preocupada com uma coisa, filha, quem vai cuidar de ti quando fores velha? A minha mãe não desiste de cuidar de mim. Mas aceita que eu cuide dela. Somos felizes assim.
Maria Francisca
87 anos, operária

José Lourenço
81 anos, pastor evangélico

Rosete Sabino
74 anos, cozinheira

Ilda Virgínia
95 anos, doméstica

José Araújo
88 anos, pedreiro

Mariana Afonso
83 anos, doméstica

Avelino Gomes
71 anos, pedreiro

Mário Serqueira
77 anos, barman

Teresa Silva
70 anos, doméstica

António Ferraz
68 anos, pedreiro

Ildefonso Martins
84 anos, pastor

Olga Rosas
83 anos, doméstica

Isac Miranda
77 anos, agricultor

Maria Martins
98 anos, doméstica

Maria José Gomes e Mário Gomes
85 anos e 87 anos, empregada de limpeza e pedreiro

Conceição Miranda
75 anos, agricultora

Maria Gato
79 anos, ajudante de enfermagem

Angelina Cerqueira
82 anos, doméstica

Deolinda Paula
84 anos, agricultora

Leopoldina Penisga
94 anos, operária

Odete Gigante
73 anos, bordadeira

Manuel Rodrigues
93 anos, operário

Cláudia Mestra
95 anos, doméstica

Domingos Marques
94 anos, operário

António Gomes
71 anos, pastor

João Godinho
73 anos, comerciante

Manuel Marques
91 anos, pastor

Joaquina Roberto
90 anos, doméstica

Alice Cavaco
94 anos, doméstica

Adelide Nunes
81 anos, doméstica

Rita Mário
94 anos, costureira

Mário e Fernanda Guerreiro
68 anos, gémeos, funcionário público e doméstica

Antónia Vicente
91 anos, doméstica

Alice Carvalho
89 anos, operária

Sebastião Soeiro e Antónia Pereira
92 e 90 anos, carpinteiro e doméstica

Ernesto Godinho
97 anos, mineiro

Luísa de Brito
93 anos, doméstica

Vítor Freire
74 anos, agente imobiliário

Maria Francisca
87 anos, operária

José Lourenço
81 anos, pastor evangélico

Rosete Sabino
74 anos, cozinheira

Ilda Virgínia
95 anos, doméstica

José Araújo
88 anos, pedreiro

Mariana Afonso
83 anos, doméstica

Avelino Gomes
71 anos, pedreiro

Mário Serqueira
77 anos, barman

Teresa Silva
70 anos, doméstica

António Ferraz
68 anos, pedreiro

Ildefonso Martins
84 anos, pastor

Olga Rosas
83 anos, doméstica

Isac Miranda
77 anos, agricultor

Maria Martins
98 anos, doméstica

Maria José Gomes e Mário Gomes
85 anos e 87 anos, empregada de limpeza e pedreiro

Conceição Miranda
75 anos, agricultora

Maria Gato
79 anos, ajudante de enfermagem

Angelina Cerqueira
82 anos, doméstica

Deolinda Paula
84 anos, agricultora

Leopoldina Penisga
94 anos, operária

Odete Gigante
73 anos, bordadeira

Manuel Rodrigues
93 anos, operário

Cláudia Mestra
95 anos, doméstica

Domingos Marques
94 anos, operário

António Gomes
71 anos, pastor

João Godinho
73 anos, comerciante

Manuel Marques
91 anos, pastor

Joaquina Roberto
90 anos, doméstica

Alice Cavaco
94 anos, doméstica

Adelide Nunes
81 anos, doméstica

Rita Mário
94 anos, costureira

Mário e Fernanda Guerreiro
68 anos, gémeos, funcionário público e doméstica

Antónia Vicente
91 anos, doméstica

Alice Carvalho
89 anos, operária

Sebastião Soeiro e Antónia Pereira
92 e 90 anos, carpinteiro e doméstica

Ernesto Godinho
97 anos, mineiro

Luísa de Brito
93 anos, doméstica

Vítor Freire
74 anos, agente imobiliário

Maria Francisca
87 anos, operária

José Lourenço
81 anos, pastor evangélico

Rosete Sabino
74 anos, cozinheiraNextPrevious
Com o início da pandemia percebeu-se que os mais velhos eram também os mais vulneráveis. Hoje, em Portugal, 67% do total de mortos têm mais de 80 anos. Os residentes em lares foram dos mais afectados. Adriano Miranda procurou duas excepções e fez retratos em dois lares (Lar e Centro de Dia de Alcoutim e Lar Idade D’Ouro, em Melgaço) onde a covid-19 não entrou. Dulce Maria Cardoso revela a sua experiência como cuidadora informal da mãe. Dois ensaios, em jeito de homenagem, para nos pôr a pensar sobre a velhice e a maneira como tratamos os velhos
6 de Abril
Mudei-me para casa da minha mãe há três dias. Tenho medo do vírus, disse-me ela num desespero ao telefone. Acrescentou, Não é só o vírus, sinto-me mal, não quero mais viver sozinha, o teu pai morreu há já tanto tempo, estou cansada. Fiz uma pequena mala de roupa, pus o computador na mochila, fechei as portadas da minha casa e regressei ao lugar de onde saí há quase trinta anos.
O único pedido de que me lembro de a minha mãe alguma vez nos ter feito, a mim e à minha irmã, foi o de que não a internássemos num lar, Não gostava que o meu fim fosse num sítio desses, disse-nos. De resto, dava-nos tudo o que podia sem pedir nada em troca
Fernando Rita
87 anos, músico
Com 80 anos, o coração da minha mãe, já operado por duas vezes, parece fraquejar novamente. Insisto para que ela coma, A comida enrola-se-me na garganta, responde. Emagreceu muito nos últimos tempos. Pesa 45 quilos. Está deprimida, muitos idosos queixam-se do mesmo, explicou a psiquiatra à minha irmã. Na divisão de tarefas que dizem respeito ao cuidar da minha mãe, a minha irmã ficou encarregada das idas aos médicos. Até fevereiro deste ano, a minha mãe fazia ginástica no centro de dia duas vezes por semana, tratava da casa e do jardim, ia de Cascais a Benfica de transportes públicos para ajudar a cuidar dos bisnetos, o Tomás e o Vicente. Apesar da perda de apetite, do cansaço, da tristeza, do desinteresse da vida em geral, não acredito que a minha mãe esteja deprimida.
Amílcar Ramadas
86 anos, segurança
7 de abril
Esta manhã telefonei ao Luís para lhe confessar que tenho medo. De não saber cuidar de quem sempre cuidou de mim, do trabalho que me espera e que não sei medir, de não voltar a pertencer a esta casa, de deixar de fazer o que quero, de me descobrir exageradamente egoísta, de ser uma má filha. Não podes pensar assim, disse-me ele, mas tens pela frente um trabalho hercúleo e precisas de arranjar quem te ajude a fazê-lo. Nos últimos três anos, grande parte das preocupações do Luís condensou-se em assegurar o bem-estar da mãe dele. Quase todos os meus amigos que ainda têm pais e idades próximas da minha confrontam-se com o mesmo problema – o que fazer quando os que amamos deixam de saber tomar conta de si?
Maria José Mestre
86 anos, doméstica
Quinta-feira Santa. Nunca houve Páscoa sem folares feitos pela minha mãe. A seu pedido, encomendei massa de fermento de padeiro, comprei ovos e enchidos. Estávamos as duas na cozinha, a minha mãe sovava a massa na enorme vasilha de esmalte azul, tudo parecia quase igual. De repente, dei conta do açúcar na massa do folar de carne, os ovos esquecidos num alguidar, a aguardente vertida sobre a bancada. Numa voz desconhecida, de olhos inesperadamente apagados, a minha mãe exclamou, Não sei o que estou a fazer, ajuda-me. Sentou-se numa cadeira da sala de jantar com as mãos enfarinhadas, uma boneca velha jogada para um canto. E eu incapaz de ajudá-la, pregada ao chão pela certeza de que há qualquer coisa a escangalhar-se na cabeça dela.
À noite não consigo adormecer e escrevo mentalmente, estou a perder a minha mãe, páginas e páginas onde não cabe mais nada.
Eduardo Patrício
73 anos, metalúrgico
10 de abril
O Papa Francisco rezou sozinho diante do enorme vazio da Praça de S. Pedro, Parece o fim do mundo, disse a minha mãe ao vê-lo na televisão, Que Deus tenha piedade de nós.
Tem razão, dá ideia de que desligaram o mundo. Registo os dias que passam como se não passassem. Para não os esquecer? Para gastá-los? Todos os registamos, a humanidade outra vez adolescente, a escrever diários, já não suficientemente criança para ignorar que os dias se perdem, ainda não suficientemente adulta para reconhecer que quase só se repetem.
Isabel Relógio
92 anos, doméstica
17 de abril
A senhora vai decorar estas três palavras e diz-mas quando eu lhe pedir, explica o neurologista. A minha mãe falha o teste. Não falha completamente, mas falha o bastante. No final da consulta, o médico diz à minha irmã, A sua mãe tem Alzheimer. Li tanto sobre a doença para criar a personagem da avó da Eliete e nunca imaginei que passaria por isto. Dou-me mal com a ironia.
Justina Pereira
Peixeira
22 de abril
Ontem, a minha mãe pediu para desligar o televisor quando estavam a noticiar as estatísticas dos mortos por covid, Os velhos estão todos a morrer, fecham-nos nos lares para matá-los, disse para si própria.
Ao adormecer, sonhei com o Jean-Louis Trintignant a asfixiar a Emmanuelle Riva no filme Amour e hoje passei o dia maldisposta.
Além destas notas dispersas e trapalhonas que vou escrevendo, tenho gravado em áudio e vídeo as histórias que a minha mãe sempre contou, a viagem para o Brasil aos onze anos, a fuga com o meu pai de casa dos meus avós, a ida para Luanda, as agruras e alegrias da vida rural. Depois do almoço, pedi-lhe que me dissesse alguns dos muitos provérbios que sabe. Não quis. Perante a minha insistência, riu-se matreira, O que não se faz num dia faz-se no dia de Santa Maria.
Apanhámos nêsperas no quintal. Eu fiquei a travar o escadote e o Pedro subiu. A minha mãe ajeitava as folhas da figueira que colocara no fundo do tabuleiro de verga onde eu ia colocando as nêsperas, Obrigada, filha, exclamou do nada.
Arminda Monteiro
88 anos, costureira
28 de abril
É o aniversário da minha mãe, Se alguma vez pensei chegar a esta idade, os meus pais morreram na casa dos sessenta, os velhos de antigamente eram mais novos, ainda que parecessem mais velhos. Por causa da pandemia improvisámos uma mesa no jardim, debaixo da figueira, e mantivemo-nos afastados uns dos outros. Esteve um dia primaveril, o Tomás e o Vicente fizeram pantominices na relva antes de cantarmos os parabéns à minha mãe. Judas enforcou-se numa figueira depois de ter traído Cristo, desde então a sombra da figueira é a sombra da morte, lembrou a minha mãe. E acrescentou mais baixinho, Não quero morrer.
Quando se foram todos embora, deixei-me ficar a ver no telemóvel as fotografias que tirei. Parecia um almoço de aniversário como os dos outros anos. As imagens mentem. Ou são os nossos corpos que o fazem. Repetem a mesma gramática de gestos, indiferentes ao que aconteça, e tanto me surpreendo com o exagero de estragos que apresentam quando por dentro nada mudou, como com a teimosia de se manterem iguais mesmo sendo já outros. Ainda assim, de entre todas as diferenças que procurei, as impostas pela pandemia foram as menos notórias. Vamos cumprindo as tarefas que eram da minha mãe, fazemo-lo com mais ou menos dificuldade, mais ou menos brigas, mais ou menos acusações. Cumprimo-las mal. A doença da minha mãe vai adoecendo a nossa ideia de família.
Maria Antónia Marques
81 anos, criada de servir
1 de maio
A minha mãe pediu-me que a deixasse ficar mais tempo no banho e começou a entoar uma canção da sua juventude, Cantávamos isto nas vindimas, explicou-me. Nunca a tinha visto demorar-se no banho. Muito menos cantar. Não se apercebe que hoje é feriado. Os dias são-lhe dificilmente distinguíveis.
Mais de mil mortos por covid em Portugal. A Direção-Geral de Saúde informou que cerca de 90% são idosos. Não gosto da palavra idoso. Soa-me a eufemismo de velho e ser velho não tinha de ser mau.
António Pimenta
84 anos, manobrador de gruas
27 de maio
O novo neurologista é da opinião de que a minha mãe não tem Alzheimer, Trata-se do início de uma demência, mas não é Alzheimer. Não encontra justificação para a minha mãe estar a emagrecer tanto. Propõe que consultemos um cardiologista e um médico de medicina interna, De qualquer maneira, tem uma doença muito grave, 81 anos é uma doença grave por si só, assegura.
Pergunto-me porque somos tão mais capazes de cuidar dos corpos do que das cabeças. Das cabeças e da felicidade. Não conseguimos tratar bem o que não vemos. Ou o que escolhemos não ver. Os velhos foram arredados dos palcos em que a vida moderna acontece. Como gatos vadios que deixamos de ver na rua porque adoecem discreta e secretamente nas traseiras dos prédios. Ninguém quer saber deles.
Só conseguimos consultas no privado.
Carminda Barbosa
81 anos, empregada de limpeza
8 de junho
A Bárbara telefona-me a perguntar se já sei quando estará pronto o novo romance, Não faço ideia de quando posso voltar a trabalhar nele, respondo, não tenho tempo nem resistência para me abalançar a um esforço tão grande. A Bárbara, que também tem a avó à sua responsabilidade, compreende. Às minhas inglórias tarefas domésticas que sempre me roubaram tanto tempo acrescem agora as da minha mãe, a vigilância da sua alimentação, a atenção aos sinais de doença, o registo das diferenças de memória dela, os passeios a pé no bairro, os concursos televisivos que vemos em conjunto etc., etc., etc. É como se acumulasse vários empregos. E sinto que não dou conta de nenhum.
Fernando Frederico
70 anos, pescador
20 de junho
Quando entrei na sala, a minha mãe, sentada no sofá, olhava muito atenta para a televisão, Estás a ver publicidade, mãe?, estranhei. Sim, respondeu-me imperturbável. Afinal, em vez do ecrã, parecia estar a focar, aquém ou além, um ponto qualquer onde os seus pensamentos flutuavam. Sucederam-se anúncios a uma operadora de telemóveis, a um creme de beleza, a uma loja de eletrodomésticos, a um festival de verão, a um banco, a uma marca de detergentes, a uma agência de viagens. Foi quando disparou o genérico do reality show que a ouvi murmurar, Já só sirvo para morrer.
Amanhã começa o verão.
Emília Esteves
90 anos, doméstica
14 de julho
Perante a descrição da fraqueza geral que a minha mãe sente, o SNS24 referenciou-a para a Urgência do hospital de Cascais. Mesmo assim, quando lá chegámos, perguntaram-nos, desagradados, por que a levávamos. Consideraram que não o devíamos ter feito. Depois de várias horas, vários exames, mandaram-na para casa. Não tem aparentemente nada de grave. Mas definha. Poderá a cabeça confundida de quem tanto quer viver fragilizar a este ponto o seu corpo?
Rosa Barreira
91 anos, empregada de limpeza
17 de agosto
A minha mãe está cada vez mais calada e parada. Ultimamente, quando acordo, vou até à cama dela e deixo-me ficar deitada à espera que a manhã chame por mim. Hoje abraçou-me, Sabe bem este quentinho, é triste dormir sempre sozinha.
O ecocardiograma que fez num hospital privado detetou um coágulo na superfície da prótese cardíaca.
Alda Pereira
82 anos, doméstica
27 de agosto
Depois de recebermos os resultados do batalhão de exames que o médico de medicina interna e a cardiologista prescreveram, ambos nos avisam de que a minha mãe precisa de um tratamento que só pode ser feito em regime de internamento hospitalar. Um tratamento prolongado e caro, vários milhares de euros, no privado. Maldizemos o sistema de saúde, a pandemia, a injustiça dos corpos. Exausta, peço à minha irmã que leve mais uma vez a minha mãe à Urgência do hospital de Cascais. Fico à espera em casa. A minha irmã liga-me daí a pouco, Desta vez ficou internada, vão tratar finalmente dela, diz, triunfante
Custódia Sousa
87 anos, doméstica
30 de agosto
Por causa da covid-19, não podemos visitar a minha mãe. Comprámos um tablet que deixámos no hospital para ser mais fácil falar com ela e para a vermos. Só que para isso ela precisa da ajuda de uma enfermeira ou de uma auxiliar. Temos direito a uma videochamada por dia.
A casa da minha mãe sem a minha mãe é violentamente triste. Tudo me magoa aqui dentro, o lugar dela à mesa, as árvores que plantou, a sua cama imaculadamente feita. Mas tenho-a pelo menos uma hora por dia no ecrã do meu computador. Protegida deste lado, acaricio-lhe demoradamente o rosto, sem a vergonha que a presença física impõe. Ela não sente nada. Com as palavras é mais difícil, não sei o que lhe dizer. Ou como lhe dizer.
Delmira Esteves
78 anos
28 de setembro
Fez já um mês que a minha mãe está hospitalizada. Em linguagem de leigos, tem uma doença maligna do sangue e uma infeção no coração. Um mieloma e uma endocardite, em linguagem técnica. Está gravemente doente em ambas as linguagens.
7 de outubro
De repente, dou conta de como estou só. Não por a minha mãe continuar no hospital, com a morte a rondar, e o Pedro ter ido de bicicleta até ao Guincho. Apercebo-me, sem perceber bem, que o abandono dos velhos é o espelho que desfigura a solidão a que nos fomos condenando. Muito antes do vírus, já estávamos confinados. Por classes sociais, por idades, por empregos, por aquilo de que gostamos, por aquilo em que acreditamos, por aquilo que consumimos. De tudo nos servimos para dividir, para especializar, para desligar. Se descobrirmos como religar-nos, não vamos mais envelhecer assim.
Florência Custódia
92 anos, doméstica
29 de outubro
A minha mãe está de novo em casa. Esteve quase dois meses hospitalizada, mas conseguiu debelar a endocardite. É raro ver uma doente com tanta vontade de viver, disse o médico. Regressou esfusiante, conversadora, cheia de vontade de fazer isto e aquilo, parecia outra vez a nossa incansável mãe. Até que hoje de manhã deitou o olhar para o quintal e disse, Já viste filha, andei tanto tempo perdida por esse mundo e acabei por vir parar à primeira casa em que vivi com o teu pai. Quando a localizei no tempo e no espaço, de acordo com os conselhos da psiquiatra, os seus olhos cinzentos aguaram-se, Ai filha, não ligues, a minha cabeça já não dá para mais.
Álvaro Gomes
91 anos, agricultor
13 de novembro
Uma das cuidadoras que respondeu ao anúncio que pus na OLX, confessou-me, por telefone, que não gosta muito de idosos, tinha estado empregada até há uns meses num hostel, mas agora não havia turistas, Temos de ir atrás do trabalho. A associação Amor e Esperança deu-me o preçário dos serviços que cobrem as necessidades da minha mãe, limpeza da habitação, banho, refeições, companhia, fisioterapia opcional, 1800 euros por mês já com o desconto de… Tiveram a gentileza de me informar que eu, como cuidadora informal, podia pedir ao Estado um subsídio mensal de 150 euros.
Rosa Sousa
74 anos, doméstica
30 de novembro
Um dos colegas do Vicente testou positivo. Todos os colegas e respetivas famílias ficaram de quarentena. Como se dizia na primeira vaga, vai ficar tudo bem. Daqui a duas semanas a turminha da creche recomeça como se nada tivesse acontecido. Entretanto, nos lares os velhos continuam a morrer. Todas as crianças são parecidas entre si, os velhos são velhos cada um à sua maneira.
12 de dezembro
O meu pai morreu há 19 anos. A minha mãe não se lembrou da data. Mandar rezar uma missa no dia da morte do meu pai era um dos seus deveres mais queridos. Vou desvalorizando os esquecimentos e tentando calar a pergunta que me atormenta como ferro quente, E se ela se esquecer de nós?
Albertina Domingues
82 anos, costureira
17 de dezembro
É o aniversário do Pedro e os pais dele vieram almoçar connosco. São quase da idade da minha mãe, mas estão capazes de tomar conta de si. Arranjei a minha mãe para o almoço, dei-lhe banho, perfumei-a, fiz-lhe um penteado, escolhi-lhe um fato bonito, vesti-a, dei-lhe um beijo na cara, Estamos prontas.
18 de dezembro
Na sala de estar, revejo mais uma vez estas notas que acompanharão as belíssimas fotografias do Adriano Miranda. A minha mãe vê um programa da manhã. Interrompe-me várias vezes, esquece-se que estou a trabalhar, Ando preocupada com uma coisa, filha, quem vai cuidar de ti quando fores velha? A minha mãe não desiste de cuidar de mim. Mas aceita que eu cuide dela. Somos felizes assim.
Maria Francisca
87 anos, operária
José Lourenço
81 anos, pastor evangélico
Rosete Sabino
74 anos, cozinheira
Ilda Virgínia
95 anos, doméstica
José Araújo
88 anos, pedreiro
Mariana Afonso
83 anos, doméstica
Avelino Gomes
71 anos, pedreiro
Mário Serqueira
77 anos, barman
Teresa Silva
70 anos, doméstica
António Ferraz
68 anos, pedreiro
Ildefonso Martins
84 anos, pastor
Olga Rosas
83 anos, doméstica
Isac Miranda
77 anos, agricultor
Maria Martins
98 anos, doméstica
Maria José Gomes e Mário Gomes
85 anos e 87 anos, empregada de limpeza e pedreiro
Conceição Miranda
75 anos, agricultora
Maria Gato
79 anos, ajudante de enfermagem
Angelina Cerqueira
82 anos, doméstica
Deolinda Paula
84 anos, agricultora
Leopoldina Penisga
94 anos, operária
Odete Gigante
73 anos, bordadeira
Manuel Rodrigues
93 anos, operário
Cláudia Mestra
95 anos, doméstica
Domingos Marques
94 anos, operário
António Gomes
71 anos, pastor
João Godinho
73 anos, comerciante
Manuel Marques
91 anos, pastor
Joaquina Roberto
90 anos, doméstica
Alice Cavaco
94 anos, doméstica
Adelide Nunes
81 anos, doméstica
Rita Mário
94 anos, costureira
Mário e Fernanda Guerreiro
68 anos, gémeos, funcionário público e doméstica
Antónia Vicente
91 anos, doméstica
Alice Carvalho
89 anos, operária
Sebastião Soeiro e Antónia Pereira
92 e 90 anos, carpinteiro e doméstica
Ernesto Godinho
97 anos, mineiro
Luísa de Brito
93 anos, doméstica
Vítor Freire
74 anos, agente imobiliário
Maria Francisca
87 anos, operária
José Lourenço
81 anos, pastor evangélico
Rosete Sabino
74 anos, cozinheira
Ilda Virgínia
95 anos, doméstica
José Araújo
88 anos, pedreiro
Mariana Afonso
83 anos, doméstica
Avelino Gomes
71 anos, pedreiro
Mário Serqueira
77 anos, barman
Teresa Silva
70 anos, doméstica
António Ferraz
68 anos, pedreiro
Ildefonso Martins
84 anos, pastor
Olga Rosas
83 anos, doméstica
Isac Miranda
77 anos, agricultor
Maria Martins
98 anos, doméstica
Maria José Gomes e Mário Gomes
85 anos e 87 anos, empregada de limpeza e pedreiro
Conceição Miranda
75 anos, agricultora
Maria Gato
79 anos, ajudante de enfermagem
Angelina Cerqueira
82 anos, doméstica
Deolinda Paula
84 anos, agricultora
Leopoldina Penisga
94 anos, operária
Odete Gigante
73 anos, bordadeira
Manuel Rodrigues
93 anos, operário
Cláudia Mestra
95 anos, doméstica
Domingos Marques
94 anos, operário
António Gomes
71 anos, pastor
João Godinho
73 anos, comerciante
Manuel Marques
91 anos, pastor
Joaquina Roberto
90 anos, doméstica
Alice Cavaco
94 anos, doméstica
Adelide Nunes
81 anos, doméstica
Rita Mário
94 anos, costureira
Mário e Fernanda Guerreiro
68 anos, gémeos, funcionário público e doméstica
Antónia Vicente
91 anos, doméstica
Alice Carvalho
89 anos, operária
Sebastião Soeiro e Antónia Pereira
92 e 90 anos, carpinteiro e doméstica
Ernesto Godinho
97 anos, mineiro
Luísa de Brito
93 anos, doméstica
Vítor Freire
74 anos, agente imobiliário
Maria Francisca
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José Lourenço
81 anos, pastor evangélico
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