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28.2.23

Dia Mundial das Doenças Raras. "É preciso grande investimento" na investigação de cancros raros

João Malheiro, in RR

O presidente do IPO do Porto indica que grande parte destas doenças "têm menos oportunidades de tratamento, dado a dificuldade de desenvolver ensaios clínicos".

O presidente do IPO do Porto diz que é preciso "grande investimento e trabalho em rede" na investigação e diagnóstico de doenças oncológicas raras.

Esta terça-feira assinala-se o Dia Mundial das Doenças Raras, das quais 20% são do foro oncológico. Em Portugal, cerca de 24% das neoplasias são da tipologia rara.

À Renascença, Júlio Oliveira refere que, por terem uma menor incidência, são "mais difíceis de estudar".

"A população elegível para participar nestes estudos é menor e isso leva a que haja menor atratividade da próprioa indústria farmacêutica", indica.

As doenças oncológicas raras são um grupo "heterogéneo", em que algumas têm uma boa perspetiva de cura, sendo diagnosticadas numa fase precoce.

"Aqui incluem-se todos os tumores pediátricos e alguns tumores hematológicos", exemplifica.

No entanto, grande parte destas doenças "têm menos oportunidades de tratamento, dado a dificuldade de desenvolver ensaios clínicos".

Existe também uma maior dificuldade em diagnosticar este tipo de condições oncológicas, devido a uma "menor experiência das equipas clínicas".

Já numa perspetiva mais global em relação a doenças oncológicas em Portugal, o presidente do IPO aponta que tem havido um aumento "da incidência, relacionado com a evolução demográfica, ou seja, do envelhecimento da população".

"Há que salientar, no entanto, que Portugal tem taxas de sobrevivência maiores que a média da União Europeia", acrescenta.

1.9.22

Quase 300 mil mulheres não aderiram ao rastreio do cancro da mama em 2021

Alexandra Campos, in Público on-line

O rastreio de base populacional de cancro de mama foi alargado a quase toda a região de Lisboa e Vale do Tejo no ano passado, mas a adesão foi reduzida.

Das 655 mil mulheres convidadas a fazer rastreio do cancro de mama em Portugal no ano passado, pouco mais de metade aderiram. No total, foram 355 mil as mulheres que fizeram mamografias no rastreio de base populacional, 54% das que foram convocadas em 2021, ano em que este rastreio foi finalmente alargado à maior parte dos concelhos de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e a taxa de cobertura a nível nacional subiu para 91%.

Após a queda abrupta no número de mulheres que fizeram mamografias em 2020, porque o rastreio esteve parado durante alguns meses por causa da pandemia de covid-19, em 2021 foi possível regressar à normalidade, mas a actividade não foi suficiente para recuperar o que ficara por fazer no ano anterior, de acordo com os dados que constam no Relatório Anual do Acesso aos Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas de 2021, que é elaborado pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e a que o PÚBLICO teve acesso.

A adesão ao rastreio de cancro de mama estava a crescer de forma contínua ao longo dos anos e atingiu um pico em 2019 — 357 mil mulheres rastreadas —, mas em 2020 o número caiu para 168 mil, por causa da pandemia.

No ano passado, a recuperação foi evidente e o número de mulheres rastreadas ficou ligeiramente abaixo do de 2019, mas é preciso notar que em 2021 foram convidadas mais 103 mil mulheres do que dois anos antes porque este rastreio – que é organizado pela Liga Portuguesa contra o Cancro e se dirige às mulheres entre os 50 e os 69 anos – foi alargado em 2021 à maior parte dos concelhos de Lisboa e Vale do Tejo.




As explicações para a diminuição desta taxa são várias, mas a principal, segundo o presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro, Vítor Rodrigues, é que na região de LVT a adesão foi “muito reduzida, da ordem dos 20%, o que é habitual” quando a convocatória é enviada pela primeira vez. “No início, as taxas de participação são muito baixas, mas depois começam a aumentar. Eu estava à espera, mesmo assim, que a adesão fosse superior em Lisboa e Vale do Tejo, mas é preciso ver que esta é uma região com maior poder de compra, com mais seguros de saúde, e uma parte das mulheres faz mamografias no sector privado”, justifica.

As explicações são corroboradas pelo director do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da Direcção-Geral da Saúde, José Dinis. “Em LVT, muitas mulheres já fazem este rastreio por sua iniciativa, têm seguros de saúde ou ADSE. E a reduzida adesão à primeira convocatória é, de facto, um fenómeno que se observa em todos os países.”

José Dinis está mais preocupado com o rastreio do cancro do colo do útero, que ainda não é feito por convocatória em Portugal, mas sim “oportunisticamente, quando as mulheres vão aos centros de saúde”. Neste caso, a taxa de adesão é, naturalmente, muito elevada (95,2% no ano passado), mas, de novo, o número de mulheres rastreadas não foi suficiente para compensar a enorme quebra verificada em 2020, tendo chegado em 2021 a mais de 243 mil mulheres, ainda assim abaixo do total de 2019. Este rastreio dirige-se às mulheres entre os 25 e os 60 anos e é intenção do director do programa que passe a ser feito por convocatória, de forma a chegar a todas as mulheres.

Onde se verificou uma evolução assinalável em 2021 foi no rastreio do cancro do cólon e recto, que “tem vindo a aumentar exponencialmente” e em 2021 atingiu finalmente uma taxa de cobertura de 100%, destaca a ACSS no relatório. No ano passado, mais de 188 mil pessoas (metade das convidadas) aderiram, recolhendo uma amostra para a pesquisa de sangue oculto nas fezes que enviaram para análise. Este rastreio dirige-se aos homens e mulheres entre os 50 e os 74 anos.




Recuperação da actividade assistencial

Quanto ao acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde, o relatório da ACSS permite perceber que em 2021 ainda se sentiu o impacto da covid-19, mas este foi um ano de recuperação e o aumento da actividade, quando comparado com 2020, foi assinalável. Ainda assim, na porta de entrada do SNS, os centros de saúde, diminuiu o número de cidadãos com médico de família atribuído, como já tinha, aliás, acontecido em 2020 e em 2019. No final do ano passado, 1.139.000 pessoas estavam nesta situação. Apesar da diminuição do número de médicos de família – menos 77 do que em 2020 —, o total de consultas médicas aumentou para 36 milhões, ainda que mais de metade (20 mil) tenham sido consultas não-presenciais, de acordo com o documento.

Nos hospitais do SNS, a informação recolhida pela ACSS indica que 2021 foi um ano de “crescimento generalizado do volume assistencial” em comparação com o ano anterior. O relatório dá conta de um aumento assinalável das consultas médicas em 2021 face ao ano anterior, mas que ficou, ainda assim, ligeiramente abaixo do total de 2019.

Nas consultas hospitalares, as especialidades em que a percentagem de doentes que ultrapassaram o tempo máximo de espera previsto na lei eram a de risco familiar e de apneia do sono, seguidas da neurocirurgia, do rastreio de retinopatia diabética (oftalmologia), da genética médica e da oncologia médica, além da oftalmologia e da radiologia. Ainda assim, a ACSS destaca que em 2021, apesar do “contexto pandémico”, se procurou “recuperar consultas em atraso” e sublinha que o indicador do cumprimento dos tempos máximos garantidos de resposta “melhorou significativamente” relativamente a 2020, ano em que se tinha agravado.

Também no âmbito do programa de recuperação de listas de espera para cirurgia, o ano de 2021 fica marcado como um ano de “significativa recuperação e retoma na actividade”, com 721 mil novas entradas — mais 24,9% do que em 2020 e aproximando-se dos valores de 2019 — e quase 630 mil doentes operados, ligeiramente acima dos números de 2019. A média de tempo de espera dos operados baixou de 3,3 meses, em 2019, para 3,2 meses no ano passado.

Mas os resultados variam muito de região para região. Se nos hospitais do Norte apenas 15% dos doentes esperaram mais do que o tempo máximo previsto na lei por uma cirurgia no ano passado, no Alentejo esse valor era de 23%, no Centro subia para 28% e e, em LVT, ascendia a 40%. Pior só no Algarve, onde 47% das situações ultrapassaram o tempo máximo de resposta garantido.

Em 2021, como já tinha acontecido no ano anterior, a receita com as taxas moderadoras no SNS voltou a diminuir, porque estes pagamentos deixaram de ser cobrados nos exames e meios complementares de diagnóstico prescritos nos centros de saúde. Actualmente, apenas são cobradas taxas moderadoras nos serviços de urgência. Em 2021, as taxas moderadoras renderam 66,9 milhões de euros.

4.2.22

Mortes por cancro subiram 20% no mundo numa década. Em Portugal foi 10%

Ana Maia, in Público on-line

Em 2019, no Mundo, registaram-se 23,6 milhões de novos casos e dez milhões de mortes, o que representa um acréscimo de 26,3% e 20,9%, respectivamente, em relação a 2010. No mesmo período Portugal passou de 29 mil mortes para 32 mil. Cancros do pulmão, cólon, estômago e mama estão entre os que geram maior carga de doença.

Numa década, o número de novos casos de cancro e de mortes aumentou significativamente no mundo. Em 2019 registaram-se 23,6 milhões de novos casos e dez milhões de mortes, o que representa um acréscimo de 26,3% e 20,9%, respectivamente, em relação a 2010. Em Portugal, o número de novos casos e de mortes também cresceu: mais 5,4% no primeiro caso e mais 10,3% no segundo. Em termos mundiais, em 2019, o cancro representou 250 milhões de anos perdidos de vida saudável, refere um estudo internacional, que alerta para desigualdades no acesso ao diagnóstico e aos cuidados de saúde a nível mundial.

Os 250 milhões de anos perdidos de vida saudável representam um acréscimo de 16% em relação a 2010, tornando o cancro a segunda doença com maior peso neste indicador e na mortalidade a nível mundial, apenas superado pelas doenças cardiovasculares em 2019, refere o artigo Cancer Incidence, Mortality, Years of Life Lost, Years Lived with Disability, and Disability-Adjusted Life Years for 29 Cancer Groups from 2010 to 2019: A Systematic Analysis of Cancer Burden Globally, Nationally, and by Socio-Demographic Index for the Global Burden of Disease Study 2019, publicado recentemente na revista médica JAMA.

O trabalho tem por base o Global Burden of Disease, um estudo que dá uma visão do impacto e do peso do cancro comparado com mais de 300 doenças e no qual a NOVA Medical School participa. “Este aumento mundial do número de casos e de mortes é muito significativo. Dez anos é um período curto. Estes resultados são uma grande chamada de atenção para a necessidade de aumentar a prevenção em todos os tipos de cancro”, diz ao PÚBLICO João Conde, investigador da Nova Medical School da Universidade Nova de Lisboa (Cancer NanoMedicine Lab), reforçando que estes retratos permitem aos governos tomar medidas que ajudem a travar o peso da doença, como o reforço de rastreios.

Entre 2010 e 2019, a carga da doença oncológica em Portugal, que faz parte do grupo com o índice sociodemográfico médio-alto, também subiu. De acordo com os dados do Global Burden of Disease, em 2010 o país registou 29 mil mortes e em 2019 foram 32 mil. Já quanto a novos casos, foram 611 mil em 2010 e 644 mil em 2019. “A nível nacional, o cancro do cólon foi o que causou mais mortes em 2019 (5200), o segundo foi o do pulmão (4700), o terceiro o do estômago (2950) e o quarto o da mama (2100)”, enumera o investigador. Em 2010, o cancro do cólon foi responsável por 4600 mortes, o do pulmão por 4500, o do estômago por 3000 e o da mama por 2050.

O mais importante é realmente criar ou fortalecer os programas de prevenção, bem como facilitar o acesso a novas terapias, mais eficazes e dirigidas que as convencionais João Conde, investigador da Nova Medical School

Questionado sobre esta evolução, João Conde diz que “há muito que ainda não se consegue fazer”, mas há um outro tanto que poderia ser melhorado. “Não temos um sistema de detecção precoce praticamente para cancro nenhum, tirando o da mama e da próstata”, diz, salientando a melhoria “nos últimos anos” que se registou na detecção do cancro do cólon. “O mais importante é realmente criar ou fortalecer os programas de prevenção, bem como facilitar o acesso a novas terapias, mais eficazes e dirigidas que as convencionais”, sugere. Para João Conde, seria importante replicar noutras doenças o exemplo das reuniões no Infarmed entre cientistas e políticos para que se pudesse fazer uma avaliação e estabelecer estratégias para melhorar a qualidade da resposta aos doentes.

Condições sociodemográficas fazem diferença

De volta ao olhar global, João Conde destaca a importância da introdução do Índex Sociodemográfico (SDI, sigla em inglês) nesta análise, ao repartir 204 países e territórios por cinco grupos de acordo com o seu desenvolvimento social e económico. E existem diferenças que ficam visíveis nesta avaliação. Foi nos grupos do SDI baixo, médio-baixo e médio que a percentagem de casos e mortes mais aumentou ao longo da década avaliada, embora no grupo sociodemográfico mais baixo o cancro representasse em 2019 a quinta causa de morte (nos restantes foi a segunda).

No que diz respeito aos anos perdidos de vida saudável, também existem diferenças. Se nos países mais ricos o peso do cancro supera até o das doenças cardiovasculares, nos mais pobres ocupa o 10.º lugar. Este indicador é calculado através do número de anos vividos com incapacidade e do número de anos perdidos (mortes prematuras). Mais uma vez, existem diferenças de acordo com as condições sociodemográficas. Nos países mais ricos há um peso maior dos anos vividos com incapacidade – o que se traduz em melhor diagnóstico e acesso a cuidados e tratamentos –, enquanto nos mais pobres é a morte prematura que mais pesa.

“Nos países com índice mais baixo existe falta de acesso a cuidados de saúde primários, a exames, a tratamentos. O facto de o cancro aparecer em 10.º neste grupo no que diz respeito aos anos perdidos de vida saudável tem a ver com a falta de diagnóstico. Este índice é muito importante para alertar para a necessidade de os países mais ricos apoiarem os mais pobres”, refere o investigador, salientando “as discrepâncias que a pandemia deixou à vista”.

Em termos globais, os cancros que mais pesaram em 2019 no número de anos perdidos de vida saudável foram o do pulmão (18,3%), o do cólon e recto (9,7%), o do estômago (8,9%), o da mama (8,2%) e o do fígado (5%). O estudo mostrou que, na última década, a carga dos cancros do cólon e do fígado aumentou, ocupando neste ranking os lugares que em 2010 eram do cancro do estômago e da leucemia.

Olhar para os adolescentes e jovens adultos

O grupo publicou um outro estudo recentemente, este na revista The Lancet Oncology, sobre o peso do cancro entre os adolescentes e jovens adultos – uma faixa etária entre os 15 e os 39 anos pouco avaliada. Esse foi um dos motivos pelo qual o consórcio decidiu avançar com este trabalho, que estimou em termos mundiais uma incidência de 1,2 milhões de casos de cancro nesta faixa etária e 396 mil mortes. A carga da doença em anos perdidos de vida saudável foi de 23,5 milhões. “Quando comparado com outras doenças em adolescentes e jovens adultos, o cancro foi a quarta causa de morte”, refere o artigo The global burden of adolescent and young adult cancer in 2019: An analysis of the Global Burden of Disease Study 2019.

É nos países com menores condições socioeconómicas que a carga da doença e a mortalidade é maior. A diferença é exposta também pelo peso que determinados tipos de cancros assumem. No cancro do colo do útero, a carga da doença aumenta à medida que as condições sociodemográficas diminuem, ao passo que os tumores do sistema nervoso central e cerebrais têm maior carga nos países mais desenvolvidos quando comparados com os outros.

“O grande objectivo deste estudo é criar esta consciência em todos os países”, afirma João Conde, enfatizando o “impacto que o acesso a cuidados de saúde e a exames têm num diagnóstico mais atempado” e no resultado do tratamento da doença. Outra das chamadas de atenção do artigo vai para a necessidade, em termos mundiais, de existirem estudos sobre os cancros mais frequentes nesta faixa etária.

Em Portugal, registaram-se 323 mortes e 96 mil casos de cancro entre os 15 e os 39 anos em 2019. Embora o estudo não faça esta comparação, o investigador refere que, em 2010, o país contabilizou 466 mortos e 113 mil casos na mesma faixa etária, o que mostra uma melhoria. “Pode ter que ver com a maior sensibilização e intercomunicação entre médicos pediatras e médicos dos adultos. Isto é uma chamada de atenção para a importância de melhorar e supervisionar os tratamentos e a sobrevida de pacientes jovens e é um desafio, visto que os seus cuidados primários ficam entre o de pacientes pediátricos e outros pacientes adultos. Nisso também pode estar a diferença entre os sistemas de saúde”, refere João Conde. Este é outro dos alertas que o estudo deixa aos vários países.

“O foco na pandemia tem tido reflexos negativos noutros problemas de saúde, nomeadamente no cancro”

Ruben Martins e Filipa Almeida Mendes (Entrevista), in Público on-line


Todos os dias, o cancro mata em Portugal cerca de 70 pessoas. Em entrevista ao PÚBLICO que pode ouvir em excerto neste P24, António Parreira, director clínico do Centro Champalimaud, reflecte sobre o impacto da pandemia de covid-19 na luta contra o cancro e o futuro.


Conheça os podcasts do PÚBLICO em publico.pt/podcasts.


4.3.21

Pandemia afetou detecção e tratamento de cancro em crianças

in Público on-line

Os investigadores incluíram na publicação uma análise às respostas de 311 profissionais de 213 unidades de saúde, de 79 países que integram a Organização Mundial da Saúde.

A pandemia teve “um grande impacto” na detecção do cancro em crianças, já que levou a uma “interrupção substancial” dos diagnósticos e tratamentos, especialmente em países considerados em desenvolvimento.

Estas conclusões, de acordo com os investigadores que publicaram um relatório na revista científica The Lancet Child & Adolescent Health, enfatizam “a urgência” de uma resposta global distribuída equitativamente para prestar atenção à oncologia pediátrica durante a pandemia e em futuras emergência de saúde pública.

Os investigadores incluíram na publicação uma análise às respostas de 311 profissionais de 213 unidades de saúde, de 79 países que integram a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O trabalhou abarcou o período compreendido entre 22 de Junho e 21 de Agosto de 2020 e incluiu um questionário para avaliar as características dos hospitais, o número de pacientes diagnosticados com covid-19 e as alterações e adaptações na atenção ao cancro. Esta avaliação permitiu inferir que a pandemia prejudicou em 78% a capacidade das unidades hospitalares na detecção do cancro.

A pandemia também reduziu os recursos e a sua dispersão pelos serviços dos hospitais, prejudicando, consequentemente, o diagnóstico e tratamento do cancro.

Quase metade das unidades de saúde (43%) declarou ter diagnosticado menos casos de cancro, enquanto 34% informou um aumento no número de pacientes que abandonaram os tratamentos.

O questionário também revelou que quase um em cada dez hospitais (7%) teve de encerrar por completo a unidade dedicada aos casos de cancro pediátrico em algum momento, com o período médio de encerramento a corresponder a dez dias. A maioria (87%) eram hospitais de países considerados em desenvolvimento.

10.9.19

Recusa de fármacos inovadores no cancro. Ordem quer responsabilizar peritos

Alexandra Campos e Ana Maia, Público on-line

Os doentes a quem for recusado o acesso a medicamentos inovadores que provaram ser eficazes em fases precoces dos cancros poderão, em teoria, avançar com processos em tribunal contra os peritos ou contra a autoridade do medicamento.

O Conselho Nacional da Ordem dos Médicos (OM) defende que se deve “responsabilizar directamente, com casos concretos”, os peritos que “por decisões que sejam erradas” impeçam os médicos de “preservar a vida de doentes com cancro”. E apela aos médicos que registem as recusas de fármacos inovadores nos processos clínicos, validando esta proposta avançada pelo colégio da especialidade de Oncologia da OM - que em Julho enviou uma carta ao bastonário a denunciar o problema.

Foi depois de a missiva — que denunciava limitações no Serviço Nacional de Saúde (SNS) no acesso a medicamentos inovadores que podem ser usados em fases mais precoces de alguns cancros - ter sido divulgada pelo Expresso no sábado passado que o Conselho Nacional da OM marcou uma reunião extraordinária para analisar a situação. E os moldes em que se decidiu pronunciar, em comunicado esta terça-feira divulgado, são muito duros: negar o acesso de doentes oncológicos a medicamentos “com efeito comprovado” na redução de risco de voltarem a ter cancro ou de aumento da probabilidade de sobrevivência “constitui uma situação muito grave”, ainda mais quando a terapêutica “está livremente disponível para uso no sector privado e social”.

Em causa estarão vários medicamentos para o tratamento de cancros do pulmão, próstata, mama e melanoma, segundo o semanário. São fármacos que já estão a ser usados em casos de cancro metastizado (espalhado por outros órgãos) e que terão mostrado eficácia na redução do risco de ressurgimento da doença e no aumento de sobrevivência, quando usados em fases mais precoces.

No comunicado, o Conselho Nacional afirma ter decidido “recomendar fortemente a todos os médicos” que expliquem aos doentes as melhores opções de tratamentos e a existência de limitações que possam estar ser impostas. Mas vai mais longe e recomenda que os médicos activem “de imediato” o Gabinete de Apoio ao Acesso a Inovação Terapêutica e Tecnológica da OM para “reclamar caso a caso” o acesso aos tratamentos - que já foram validados cientificamente e pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês).

São várias as barreiras no acesso elencadas pela OM: além das comissões de farmácia e terapêutica hospitalares — “que em diversos casos retêm os pedidos de Autorização Excepcional demasiado tempo” —, os membros da Comissão de Avaliação de Tecnologias da Saúde (CATS) do Infarmed e “outros ‘peritos’ desta entidade reguladora “muitas vezes não [são] especialistas na área em questão”. Critica também a direcção da Autoridade Nacional do Medicamento, “que tem colocado obstáculos à implementação de Programas de Acesso Precoce [PAP] e tem demorado tempo excessivo no processo de avaliação custo-efectividade”.

“Os obstáculos colocados pelas barreiras referidas e as decisões negativas ou empatadas” têm “colocado vários doentes em risco de vida e ‘obrigado’ vários médicos oncologistas a delinearem planos de cuidados diversos dos esperados pelas leges artis como plano de actuação contingente”, sustentam os responsáveis da OM, que pedem ao Ministério da Saúde e ao Infarmed que resolvam “de forma definitiva” este tipo de situações.

O presidente do Infarmed, Rui Ivo, já respondeu, sublinhando que se tratam de casos de medicamentos que ainda estão em avaliação. Frisou ainda que as autorizações de utilização excepcional são decididas com base no parecer de peritos médicos, muitos deles oncologistas de hospitais do SNS, incluindo dos institutos de oncologia, com base em critérios técnicos e clínicos, ficando de parte as questões de financiamento.

"Perda de chance"
O registo no processo clínico dos doentes das recusas de disponibilização de medicamentos inovadores pode ser um trunfo importante, uma vez que habilita o doente ou os seus familiares a processar os responsáveis pelas recusas. Há uma figura que é a da “perda de chance”, lembra, a propósito, o director do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, José Dinis, que, apesar de ter uma posição “neutra”, se mostra preocupado com a situação. Existe nestes casos uma “clara perda de oportunidade”, corrobora o presidente do colégio da especialidade de oncologia da Ordem dos Médicos, Luís Costa. Em 2015, um tribunal português invocou pela primeira vez a “perda de chance” de sobrevivência de um doente para condenar um hospital privado a pagar uma indemnização por negligência médica.

Luís Costa frisa que o colégio de oncologia, que é composto por médicos dos três IPO e dos maiores hospitais do país, aprovou de forma unânime o teor da carta, em que se denunciam as limitações de acesso a medicamentos inovadores que permitem combater vários cancros, porque os peritos da CATS consideram que na fase inicial da doença não há “risco imediato de vida”, mas apenas “risco de vida”. Alguns destes tratamentos são autorizados apenas quando já há metástases.

“Não tomamos esta decisão de ânimo leve e não está aqui em causa apenas uma patologia, um produto ou uma companhia [farmacêutica]”, enfatizou Luís Costa ao PÚBLICO. “A oncologia sempre viveu da possibilidade de fazer tratamentos numa fase precoce para evitar metastizações”, disse, sublinhando que os benefícios dos medicamentos em causa não são marginais, ao contrário do que afirmam alguns especialistas. O risco relativo de reaparecimento nos casos de melanoma com uma mutação específica é reduzido em 40%, exemplificou.

“Este problema é recorrente e é preciso repensar a forma de funcionamento do Infarmed nestes casos”, defende também o presidente do Conselho Regional do Norte da OM, António Araújo. O Infarmed “está a obstaculizar imenso e a não deixar registar doentes nos PAP - em que tratamentos inovadores são disponibilizados de forma gratuita durante algum tempo pela indústria farmacêutica. Porquê? Porque estes permitem a criação de grupos de doentes que vão necessitar dos medicamentos depois do fim de programa e aí é o SNS que paga, explica.

Quanto às autorizações excepcionais, a avaliação muitas vezes não é feita por peritos da área da especialidade em causa, critica, sublinhando que o “mais iníquo é que a ADSE até agora financiava todos, desde que aprovados pela EMA”. Nos hospitais privados, estes também são disponibilizados, mas por vezes o plafond dos seguros é esgotado.

Para se ter uma ideia dos valores em questão, a quimioterapia do cancro de pulmão custa num dia standard 500 a 600 euros. Já os tratamentos de primeira geração dirigidos a alvos custam entre mil a 1500 euros por mês, enquanto os de terceira geração ascendem a entre cinco mil a 5500 euros por mês. Mas há protocolos com imunoterapia que podem chegar aos 13 mil euros por mês.

A OM recorda que no último relatório de Primavera do Observatório dos Sistemas de Saúde os especialistas destacam que o tempo para acesso à inovação terapêutica em geral (não apenas a medicamentos oncológicos) em Portugal é cinco vezes mais longo do que o melhor resultado europeu no período de 2015 a 2017. Enquanto a Alemanha teve uma demora média de 119 dias para a introdução no mercado, Portugal demorou 634 dias.

21.4.16

Com 15 anos, Elisabete curou-se como 75% das pessoas que têm cancro na infância

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

Quando tinha 14 anos, Elisabete Chança passava três semanas por mês no IPO, duas delas em isolamento. Ao fim de um ano curou-se e hoje vive uma vida normal. Como ela há pelo menos mais 1500 pessoas em Portugal.

Começado o tratamento depois de diagnosticada a doença, Elisabete Chança não teve dúvidas de que sobreviveria. “Sempre me deram certezas”, diz. Mas quando teve alta, soube que os médicos, em duas ou três ocasiões, duvidaram. “O coração estava fraco e eles não tinham a certeza que eu suportasse o tratamento. Mas sempre me foi dito: ‘Estamos no bom caminho.’ Fomos resguardados dessa incerteza.” Talvez por isso, sentiu-se quase sempre com força para acreditar. Tinha 14 anos. Aos 15 anos, estava curada e voltou a estudar. Emocionalmente teve um outro episódio em que o seu mundo desabou, mas foi fisicamente que se sentiu muito mal, recorda. “O caminho é mesmo para a frente.”

Hoje com 27 anos e a trabalhar na área do turismo em Sintra, onde vive, Elisabete é uma sobrevivente de cancro pediátrico, entre pelo menos 1500 pessoas na mesma situação em Portugal, diz Ana Teixeira, pediatra no Serviço de Pediatria do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, que em 2007 criou a consulta dos DUROS (Doentes que Ultrapassam a Realidade Oncológica com Sucesso), destinada a todos os doentes do serviço que tenham terminado a terapêutica há mais de cinco anos. Mas essa é apenas uma estimativa. Podem ser mais.

A consulta em Lisboa acompanha actualmente 744 pessoas, tendo a maioria (86%) entre dez e 30 anos. Nos Estados Unidos, serão mais de 40 mil sobreviventes de cancro pediátrico, diz a especialista. “O objectivo desta consulta é tentar melhorar e harmonizar a vigilância que é feita em toda a Europa, prevenir o aparecimento de efeitos secundários tardios que possam comprometer a vida ou a qualidade de vida”, explica.
Sobreviver a uma leucemia

A taxa de sobrevida das pessoas que tiveram um cancro na infância tem vindo a aumentar e rondou, nos últimos anos, os 75% em Portugal e noutros países. Não há estatísticas para fazer uma leitura de como a taxa de sobrevida evoluiu. Mas comparativamente aos anos 1960, por exemplo, uma criança não sobrevivia a uma leucemia e, agora, uma criança com leucemia tem uma elevada probabilidade de sobreviver (85%), explica a médica pediatra. A taxa de sobrevida ainda é mais elevada para os tumores renais ou os linfomas de Hodgkin (97%).

86%
das 744 pessoas seguidas na consulta dos DUROS têm entre dez e 30 anos

Os dados relativos aos últimos cinco anos em Portugal vão ser apresentados esta quinta-feira no 17.º Encontro da PanCare, a rede europeia de profissionais de saúde que se dedicam ao acompanhamento a longo prazo dos sobreviventes de cancro pediátrico, como os profissionais da consulta dos DUROS. O encontro, na Fundação Calouste Gulbenkian, começou ontem e termina nesta sexta-feira.

A infertilidade em resultado dos tratamentos “tem vindo a tornar-se um problema cada vez mais raro, com uma melhor adequação das doses de quimioterapia e radioterapia a aplicar”, salienta ainda Ana Teixeira. E refere que 42 sobreviventes de cancro pediátrico tiveram 48 filhos.

Os casos mais graves representam uma pequena minoria. Do conjunto de pessoas acompanhadas na consulta dos DUROS, houve 32 casos em que a pessoa sofreu um segundo cancro e cinco recidivas tardias. O risco de segundas neoplasias é seis vezes superior ao de uma pessoa que teve um cancro pediátrico. Mas, como diz Ana Teixeira, “é o preço a pagar por vivermos mais tempo” — o que se aplica a quem teve ou não um cancro na infância.

Quando estava doente, Elisabete passou muito tempo sozinha — a pintar, a ler, a ouvir música ou ver televisão. “Mas guardamos histórias para o resto da nossa vida, de pessoas que guardamos na memória, com carinho, algumas que infelizmente já não estão cá”

Por outro lado, existe um grupo mais vulnerável que, quando sobrevive, sobrevive com muitas sequelas. São normalmente pessoas que sofreram tumores no sistema nervoso central. “Ao irradiarmos o cérebro, estamos a comprometer uma série de funções, como as funções cognitivas ou endócrinas”, diz a pediatra do IPO. Também podem surgir problemas comportamentais ou cardíacos.
"Uma vitória muito grande"

Elisabete Chança começou por sentir uma forte dor nas costas. Um dia, durante as férias do Natal, tinha as pernas totalmente dormentes ao acordar. Horas depois não caminhava nem se equilibrava sozinha. Era uma adolescente. Na escola frequentava o 9.º ano. Rapidamente ficou paralisada, sem conseguir sentir os movimentos das pernas. Começou por ir à urgência de Pediatria do Amadora-Sintra, de onde foi transferida para o Garcia de Orta, e aí ficou internada para a ressonância magnética e outros exames. Na cirurgia, tiraram-lhe “uma massa instalada na medula” para análise. Era a fase das suspeitas e de nenhuma certeza, diz Elisabete. Inicialmente, os médicos suspeitaram de um linfoma. Depois confirmou-se um sarcoma de Ewing. Num ano de tratamentos intensivos, ficaria curada.

42
sobreviventes tiveram 48 filhos. A infertilidade como consequência das terapêuticas tem-se tornado um problema cada vez mais raro

“Foi um sofrimento muito grande, mas também uma aprendizagem muito grande e uma vitória muito grande”, diz a mãe, Preciosa Chança. “Foi andar para a frente”, acrescenta Elisabete. “Decidi rapar o cabelo, para não o ver cair.”

Foram 12 meses de tratamentos, em semanas alternadas de quimioterapia e radioterapia. Passava três semanas por mês no hospital, duas das quais em isolamento, onde só contactava com a mãe, médicos e enfermeiros. “Para que o tratamento fizesse mesmo efeito, e porque as nossas defesas vão completamente abaixo, somos levados para o isolamento, esperamos que os valores voltem a subir, e só depois podemos sair”, explica.

Passou muito tempo sozinha — a pintar, a ler, a ouvir música ou ver televisão. “Mas guardamos histórias para o resto da nossa vida, de pessoas que guardamos na memória, com carinho, algumas que infelizmente já não estão cá”, diz Elisabete.

Tudo isso acabou finalmente. Quando terminou o tratamento, passou a ser seguida no IPO uma vez por mês, depois de dois em dois meses, três, quatro, até a consulta passar a ser anual, cinco anos depois de estar curada. Nessa altura passou a ser seguida na consulta dos DUROS, onde lhe são feitas análises sanguíneas, raios-X (porque a radioterapia incidiu muito no coração e pulmões) e espaçadamente é submetida a novas ressonâncias magnéticas ou exames mais específicos.

“No meio disto tudo, sinto que tive sorte”, diz. Pela família, pelos amigos e pelos colegas que nunca deixaram de estar perto dela. “Quando estava em casa, amigos e colegas da escola reuniam-se para vir ver-me. E quando tinha algumas forças, eu própria ia à escola. Era bom para mim, e para eles, para saberem que eu ainda estava viva.”

O envelhecimento pode ser tratado como se fosse uma doença?

Alexandra Campos, in Público on-line

Conseguir atrasar o envelhecimento é a última fronteira, diz Sobrinho Simões


Por que motivo é que destaca os ensaios clínicos naquilo que designa como a era da medicina de precisão?
O futuro passa pelos ensaios clínicos unipessoais. A imunoterapia já é em alguns casos claramente personalizada. [O ensaio clínico] passa a ser adaptativo, vai mudando consoante a resposta [do doente]. Mas, agora, a grande discussão é sobre se se pode fazer ensaios clínicos sobre o envelhecimento, saber se o envelhecimento é uma doença. O envelhecimento é um processo natural que se pode retardar. Mas quais são as consequências? Só para ter uma ideia, há uma molécula que damos aos diabéticos – metformina - que muita gente quer testar para o anti-envelhecimento. Conseguir atrasar o envelhecimento é a última fronteira.

Mas o que é que isso significa, na prática?
Quem é diabético ou obeso, se as patologias estiverem descontroladas, perde qualidade de vida. Estas pessoas têm maior incidência de cancros e cancros mais agressivos. Ao fazerem [terapêutica] com metformina, também estão a fazer uma espécie de terapêutica anti-cancro. Mas é preciso ver se, ao longo do tempo, não virão a desenvolver outras doenças.

Os países têm capacidade financeira para absorver toda esta inovação?
Temos a experiência do tratamento da hepatite C, o medicamento é caro mas o doente fica curado. Com o cancro avançado, os [tratamentos] inovadores prolongam e dão qualidade de vida mas não diminuem a sobrecarga sobre o sistema de saúde. Por isso, há uma tarefa muito importante nos cancros com agregação familiar (não os hereditários, que representam cerca de 5% do total). Estes cancros serão entre 10 a 15% do total e não têm genes conhecidos. É necessário criar rastreios especializados de forma a conseguirmos diminuir o número de cancros avançados. O problema é que as instituições que fazem os rastreios ficam sobrecarregadas, têm que ser protegidas, ser financiadas por isso. Quanto aos gastos, vamos ter que fazer o julgamento do custo-benefício.

17.2.16

Má alimentação dos portugueses já se nota nos novos casos de cancro

Vera Lúcia Arreigoso, in Expresso

Consumo de carnes vermelhas aumenta o risco de cancro


Tumores malignos do cólon são cada vez mais expressivos, deixando para trás neoplasias do pulmão ou do estômago, por exemplo. Médicos garantem que a culpa é da dieta menos mediterrânica

Menos sopa e pouca fruta somada a manteiga em vez de azeite e a reduzidas leguminosas, por exemplo, é igual a mais cancros do cólon. Dados recentes sobre a incidência dos tumores malignos em Portugal, de 2009, mostram que as neoplasias do cólon são cada vez mais expressivas, só não destronando as da mama na mulher e da próstata no homem.

"As mudanças no cancro têm de ter décadas para se notarem e a subida no cólon, quase igual para homens e mulheres, é devida às alterações na alimentação, sobretudo nos grandes centros urbanos", explica Ana Miranda, diretora do Registo Oncológico Regional do Sul (ROR-Sul), que esta quarta-feira termina as suas jornadas com a divulgação das estatísticas nacionais. A médica do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa alerta que é preciso "regressar à alimentação mediterrânica, com sopas, frutas, vegetais; reduzir o sal, a gordura e o açúcar".
Quase 45 mil novos cancros em 2009

Segundo os dados publicados, em 2009 o país diagnosticou 44.605 novas neoplasias malignas, das quais 24.220 nos homens e 20.385 nas mulheres. A próstata nos homens, com 5433 casos nesse ano, e a mama nas mulheres, com 5966 novos tumores, continuam a ser a maior ameaça, respetivamente.

Nos restantes tipos de cancro, o cólon surge como o principal agressor para ambos os sexos, quase por igual, e já à frente dos comumente ameaçadores pulmão e estômago. Foram diagnosticados 4951 novos tumores malignos do cólon, 2860 em homens e 2091 em mulheres, e 3512 da traqueia, brônquios e pulmão (2721 nos homens) e 2942 no estômago, dos quais 1767 no sexo masculino e 1175 entre mulheres.

Há 26 anos a estudar a evolução do cancro, Ana Miranda tem a certeza de que "é necessária mais prevenção primária" e que "não chega falar no Dia do Cancro". Na sua opinião, "faz falta uma estratégia consertada como a que já existe para a alimentação saudável nas escolas".
Carne vermelha em excesso aumenta risco de cancro

Os efeitos negativos do consumo continuado de alimentos processados teve ainda recentemente um alerta da própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Em outubro do ano passado, salsichas, presunto, chouriço ou bacon foram incluídos na lista de substâncias que provocam cancro, reforçando assim um risco que já estava identificado e declarado pelo Fundo Internacional para a Investigação Mundial do Cancro desde 2007.

As pesquisas feitas pelos investigadores da OMS, através da Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC), demonstraram provas suficientes para incluir a carne vermelha processada entre as mais de 100 substâncias indutoras de neoplasias. No caso da carne, o perigo está no consumo expressivo e diário.

4.2.16

Uma em cada quatro mortes deveram-se a cancro

In "Correio da Manhã"

Em Portugal, uma em cada quatro mortes em 2013 deveram-se a cancro, proporção que chega a mais de duas em cada três (40%) nas pessoas com menos de 65 anos, segundo dados do Eurostat. O cancro, segundo os dados esta quarta-feira divulgados, foi a causa da morte de 26% da população da União Europeia (UE) em 2013, sendo que abaixo dos 65 anos a taxa de óbitos por cancro sobe para 37%.

O cancro do pulmão foi o que mais mortes causou no ano em análise, com 21% de óbitos na média da UE e 15% em Portugal, valor que coloca o país no fundo da tabela das mortes por esta doença que é liderada pela Hungria, com 26%. Tanto na UE como em Portugal, o cancro do pulmão mata mais homens (PT 20%, UE 26%) do que mulheres (PT 8%, UE 15%). Taxa de mortes O cancro colorretal surge, na média europeia, em segundo lugar na lista dos mais mortais (12%), mas empatado com o do pulmão em Portugal (15%). Seguem-se na taxa de mortes, em Portugal, o cancro da próstata (7%), da mama (6%) e do pâncreas (5%), valores que na média europeia são de, respectivamente, 6%, 6% e 7%.

Em 2013, o cancro causou a morte a 32% de pessoas na Eslovénia, 31% na Holanda e 30% na Irlanda, países que apresentam as maiores taxas, estando no extremo oposto a Bulgária (17%) e a Lituânia (19%). Os dados foram divulgados hoje, no âmbito do Dia Mundial de Luta Contra o Cancro, que se assinala quinta-feira.

13.11.15

Portugueses compram medicamentos falsos para o cancro

In Jornal de Notícias

Os portugueses estão a comprar, através da internet, medicamentos falsos contra doenças graves como as cardiovasculares, a tuberculose e o cancro, o que preocupa as autoridades, devido aos riscos que estes doentes correm.

O alerta é do presidente da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), Hélder Filipe, que recentemente foi o anfitrião de uma reunião que juntou em Lisboa alguns dos principais especialistas europeus, no combate ao tráfico de medicamentos falsificados.

Em entrevista à agência Lusa, Hélder Filipe revelou que, em 2014, foram intercetadas pelas autoridades cerca de 24 mil embalagens postais com produtos, no total de perto de meio milhão de unidades potencialmente medicamentosas.

Os supostos medicamentos para a disfunção erétil continuam a ser dos mais adquiridos por este meio, tal como para o emagrecimento, mas o que está a preocupar as autoridades é o perfil dos alegados fármacos que estão a ser adquiridos por esta via, e que "está alterar-se".

"Assistimos a um crescimento significativo de outro tipo de medicamentos, nomeadamente usados em doenças cardiovasculares, hormonas, para doenças oncológicas, entre outros", disse, concluindo que "o fenómeno está a mudar, em termos de oferta, para produtos diferentes das classes clássicas", o que traz mais riscos para a saúde pública.

Também os tuberculostáticos (medicamentos para a tuberculose) estão a ser identificados nestes percursos que, normalmente, são promovidos por "redes altamente complexas de crime organizado".

"Mais uma vez, para uma doença infecciosa, que tem de ser tratada e deve ser tratada de maneira adequada e com medicamentos de confiança. Isto é um problema", afirmou.

O presidente do Infarmed recorda que, em média, metade dos medicamentos encomendados por internet é falsa.

Segundo Hélder Filipe, quem adquire os medicamentos por esta via fá-lo para "evitar as barreiras de acesso que o próprio sistema regulado impõe: receita médica e a exposição do potencial utilizador relativamente a um profissional de saúde".

Em certas ocasiões, adiantou, o consumidor tenta ter acesso a medicamentos que, "por boas razões", não consegue adquirir no mercado legal, por tal não ser possível.

O presidente do Infarmed avança que os preços nem sequer são a principal razão para a compra destes medicamentos pela internet, pois em certos casos estes acabam por ser mais caros do que no mercado legal. "As barreiras são de outro tipo", disse.

As autoridades confrontam-se ainda com dificuldades em "perceber verdadeiramente as consequências da utilização destes medicamentos", sabendo-se, contudo, que há um risco de o produto falsificado ter metade da dose, não ter qualquer substância ativa ou ter, mas com impurezas.

"Quando analisamos um produto falsificado, não sabemos verdadeiramente o que vamos encontrar. O que vai na composição do rótulo, se o produto está falsificado, é seguramente diferente das características do produto falsificado".

Hélder Filipe apontou um outro fenómeno relacionado com os suplementos alimentares: "Teoricamente são suplementos alimentares, mas quando fazemos a análise encontramos na sua composição medicamentos, embora não declarados no rótulo".

O presidente do Infarmed garante que não foi até ao momento identificada qualquer produção em Portugal de medicamentos falsificados.

Estes chegam de várias partes do globo, na esmagadora maioria dos quais por encomenda postal, como Extremo Oriente, Índia, Brasil ou Estados Unidos.

Nos casos de identificação do produtor de medicamentos falsos, a lei em vigor, e que está em vias de ser alterada, apenas punirá as situações de saúde que forem atribuídas ao consumo do produto.

"Estamos a tentar que haja alterações à própria legislação, na sequência de termos assinado a convenção Medicrime, que nos dá uma obrigação de traduzirmos os princípios assinados para a legislação nacional".

Para Hélder Filipe, "a mudança da legislação nacional fará com que seja mais fácil punir quem intervém neste crime de falsificação dos medicamentos".

5.2.15

Metade dos doentes com cancro morre sem ter acesso a cuidados paliativos

Alexandra Campos, in Público on-line

Dois terços dos doentes com cancro em situação grave e incurável necessitam de cuidados paliativos. Mas só uma parte acaba por ter acesso a este tipo de cuidados especializados. A situação melhorou nos últimos anos em Portugal, mas continua a haver muitas assimetrias. Pelas contas de Manuel Luís Capelas, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, (APCP), dois terços dos doentes oncológicos incuráveis (e são cerca de 25 mil os que morrem em cada ano) precisariam deste tipo de apoio e, destes, um terço necessitava mesmo de "cuidados de elevada complexidade".

A realidade, porém, é muito diferente: entre a referenciação dos doentes oncológicos graves para os cuidados paliativos e o acesso a uma unidade e a uma equipa com formação nesta área "mais de metade acaba por morrer" porque chega numa fase tardia e fica a aguardar demasiado tempo. “A lista de espera é grande em quantidade e em tempo, cerca de 30 dias, quando muitos doentes chegam com sete ou seis dias de vida”, estima Manuel Capelas que é enfermeiro e professor adjunto na Universidade Católica Portuguesa. A agravar, acrescenta, “em hospitais de agudos não temos nenhuma cama para doentes complexos”.

Se nesta contabilidade entrarem ainda todos os outros doentes que necessitam de cuidados paliativos em Portugal, além dos oncológicos, a situação ainda é pior. “Cobrimos apenas cerca de 10% da população portuguesa que precisa de paliativos”, lamenta.

Não é fácil lidar com doentes graves e incuráveis e o melhor é começar o mais precocemente possível. “Não basta medicar os doentes. Não resolvo os problemas só com morfina, é preciso tratar de questões que se prendem com o controlo dos sintomas, a sobrecarga dos familiares, a gestão de expectativas e a preparação o luto”, explica.

Lançada em 2006, a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados foi o catalisador do desenvolvimento deste tipo cuidados prestados a doentes incuráveis e graves, mas a rede baseou-se sobretudo no internamento, afirma Manuel Capelas, para quem é nas equipas que vão a casa das pessoas (as equipas domiciliárias) que deve assentar o grosso deste tipo de cuidados, até porque se sabe que a maior parte das pessoas prefere morrer em casa.

Os doentes que estão em hospitais de agudos são referenciados para a rede e, depois de controlados, o ideal é que sejam enviados para casa e nem todos necessitam de ser seguidos por uma equipa de paliativos, sublinha ainda o enfermeiro, que nota que, sem se poder contar com médicos de família e oncologistas, não vai ser possível dar uma resposta adequada à população. A situação melhorou, de facto, mas a evolução foi muito assimétrica, e actualmente há uma "grande desigualdade no acesso", com distritos com resposta e outros sem resposta, descreve.

"Os cuidados no domicílio são os que estão pior organizados, é o nosso maior défice, e mesmo dentro dos hospitais as condições são más", admite Nuno Miranda, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas. Ainda assim, nota que Portugal aumentou significativamente a capacidade dos cuidados paliativos nos últimos anos. “Há uma década não tínhamos quase nada”, lembra.

"A resposta é muito escassa", contrapõe Elga Freire, coordenadora do Núcleo de Estudos de Medicina Paliativa da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Há alguns anos calculava-se que seriam necessárias 133 equipas de cuidados domiliciários e 102 equipas intra-hospitalares de suporte (uma em cada unidade hospitalar). Actualmente, há 17 equipas domiciliárias e 32 equipas intra-hospitalares, contabiliza a médica do Centro Hospitalar do Porto.

Pensando só nos doentes oncológicos, "cerca de 60% dos que vão morrer beneficiariam de cuidados paliativos", estima Elga Freire. Nos pacientes não oncológicos, esta percentagem ronda os 40%, diz. " É preciso, pois, formar e treinar em cuidados paliativos todos os profissionais de saúde que tratam estes doentes e a criar de estruturas em número suficiente para poder responder às reais necessidades da população portuguesa", defende. É importante que a resposta seja rápida, até porque, se proporcionados na fase mais precoce da doença, os cuidados paliativos melhoram a qualidade de vida dos doentes e aumentam a longevidade, acrescenta.

Em teoria, todos os profissionais de saúde deveriam ter formação em cuidados paliativos, mas só recentemente é que a Ordem dos Médicos criou uma competência nesta área e não ainda há formação pré-graduada em paliativos. Quanto aos enfermeiros, esses vão passar a contar em breve com esta nova especialidade.

Um inquérito recentemente efectuado demonstrou que 51% dos portugueses preferem morrer em casa, 36% em cuidados paliativos e apenas 8% em hospitais. Actualmente, mais de 60% dos portugueses morrem nos hospitais.

28.4.14

Acapo alerta para dificuldade de cegos em aceder a informação na área da saúde

in Público on-line

Parceria com a Liga Portuguesa Contra o Cancro permitirá produzir informação sobre tumores da mama.

A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo) considera que a área da saúde tem "falhas" no acesso a informação para cegos, tendo criado uma parceria com o Núcleo do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) para reduzir "constrangimentos".

José Francisco Caseiro, presidente da delegação da Acapo, explicou nesta segunda-feira que "a área da saúde tem várias lacunas na produção de informação adaptada a este tipo de utentes", explicando que "num hospital regional, local ou centro de saúde não há este tipo de informação" disponível.

"Há uma falha nos organismos públicos", criticou, considerando que, apesar de "na Internet haver muitos sites que falam de saúde", grande parte da população cega e amblíope "não acede à informação na Internet e a que existe não está em caracteres ampliados ou em braile".

A parceria com a LPCC foca-se na produção de informação em torno do cancro da mama, podendo continuar "com acções em torno de outros cancros e criar um programa de educação da saúde" para pessoas com deficiência ou incapacidade visual, afirmou Carlos Oliveira, presidente do núcleo regional. "Há poucas iniciativas neste âmbito e dirigidas para uma população com características muito particulares", disse.

Foi por isso criado material em "áudio e em braile", assim como a ampliação de letras para "pessoas com grande dificuldade de visão", explicou Carlos Oliveira. A informação, que se foca na prevenção e factores de risco do cancro, será dirigida "às mulheres, mas também aos familiares", procurando-se também "promover o rastreio do cancro", que é "a forma de prevenção mais importante", disse o presidente do núcleo da LPCC.

"Estamos convencidos de que parte desta população não faz o rastreio porque não tem acesso à informação", avançou, sublinhando que este projecto é "o primeiro do género em Portugal e um dos primeiros na Europa", estando integrado na Europa Donna - Coligação Europeia Contra o Cancro da Mama. Segundo Carlos Oliveira, apesar de a iniciativa ter partido do núcleo do Centro da LPCC, os outros núcleos regionais vão também promover campanhas semelhantes.

4.2.14

Álcool, tabaco e obesidade alimentam subida crescente de casos de cancro

in Público on-line

Peritos da Organização Mundial de Saúde defendem que a única solução é a prevenção, sugerindo a criação de um imposto para bebidas açucaradas.

O número de casos de cancros no mundo poderá subir 70% nos próximos 20 anos, alertou esta segunda-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS) no Relatório Mundial sobre Cancro 2014. Os peritos dizem que a forma de travar a epidemia não passa apenas pela cura, mas sobretudo pela prevenção, e propõem, por exemplo, a criação de um impostos especial para bebidas açucaradas. Entre as causas da subida estão o consumo de álcool, de açúcar e a obesidade, cita o jornal britânico The Guardian.

Por ano, prevê-se que surjam no mundo cerca de 25 milhões de novos casos de cancro. Metade destes podem ser prevenidos, já que estão ligados a estilos de vida, refere o documento produzido pela Agência Internacional para a Pesquisa em Cancro, uma unidade da OMS especializada na patologia. Não é realista travar a subida pensando apenas nas formas de curar a doença, defendem os seus autores, notando que é essencial o enfoque na prevenção. Até para os países mais ricos o fardo vai tornar-se insustentável em termos de custos, refere o documento, citado pelo The Guardian.

Mas a doença está cada vez mais presente também em países mais pobres, onde os cancros mais frequentes têm origem em infecções, como é o caso do cancro do colo do útero, muito prevalecente nestes países, onde não existe rastreio e muito menos acesso à vacina.

Nos países mais ricos, os cancros que estão a aumentar estão sobretudo ligados a estilos de vida, associados “ao uso crescente do tabaco, consumo de álcool, ingestão de alimentos transformados e falta de exercício físico”, escreve na introdução ao relatório Margaret Chan, directora da OMS.

Prevenção e detecção precoce
Christopher Wild, director da Agência Internacional para a Pesquisa em Cancro e um dos autores do documento, disse que, apesar dos avanços no lado da cura, “o problema não se resolve apenas deste lado. É preciso mais prevenção e a detecção precoce é essencial.”

Bernard Stewart, investigador da University of New South Wales e outro dos autores, apelou à discussão de medidas como a criação de um imposto especial para as bebidas açucaradas, como uma possível forma de fazer diminuir cancros que têm origem na obesidade e na falta de exercício físico.

Em relação ao álcool, lembrou que o seu consumo esteve na origem de 337,400 milhões de mortes no mundo em 2010, sobretudo entre homens. A maioria são mortes por cancro do fígado, mas o álcool também aumenta o risco de cancro da boca, esófago, intestino, pâncreas, mama e outros. “A sua rotulagem, os locais onde é comercializado e os preços de venda ao público devem ser questões a debater”, disse Stewart. Propõe também a criação de um imposto para bebidas açucaradas. O relatório refere que todos os esforços para reduzir a percentagem de refrigerantes que têm adição de açúcar deviam ser prioritários.

As cicatrizes de um cancro que não é um laço cor-de-rosa

autoria The Scar Project, in Público on-line

"O cancro da mama não é um laço cor-de-rosa", daqueles de pendurar na lapela com um alfinete. Quem o diz é David Jay, o fotógrafo de moda responsável pelos retratos de jovens sobreviventes de cancro da mama, todas entre os 18 e os 35 anos, "The SCAR Project". O que começou por ser uma campanha de sensibilização para a doença numa faixa etária por vezes ignorada é já um projecto com documentário, livro e exposição (a inaugurar a 17 de Outubro nos Estados Unidos, em Houston), que conta com quase 100 retratos. O nome do projecto, SCAR, remete para as cicatrizes e para a mensagem que David Jay quer passar: “Surviving Cancer Absolute Reality”. “Para algumas destas jovens mulheres, ser retratada parece representar uma vitória pessoal sobre esta doença assustadora. Ajuda-as a recuperarem a sua feminilidade, sexualidade, identidade e o seu poder, depois de lhes ter sido roubada uma parte tão importante”, diz David no site do projecto.

É dia de ainda mais luta contra uma doença que mata quatro mulheres por dia

por Carolina Duarte [com Lusa], in RR

Exame clínico e mamografia são meios essenciais para um diagnóstico precoce do cancro da mama. Para as mulheres que já enfrentaram a doença, surge muitas vezes o dilema da reincidência.

Assinala-se esta terça-feira o dia nacional de luta contra o cancro da mama, uma doença que afecta 4.500 pessoas por ano em Portugal. Por dia, morrem quatro mulheres.

O exame clínico e a mamografia são meios essenciais para um diagnóstico precoce. Para as mulheres que já enfrentaram o cancro da mama, surge muitas vezes o dilema da reincidência. Coloca-se então a questão: sim ou não à mastectomia profiláctica (remoção cirúrgica dos peitos para reduzir o risco de desenvolvimento do cancro)?

Helena Gervásio, especialista em oncologia da mama, defende que sim em circunstâncias muito específicas, nomeadamente quando o doente está perante um tipo de cancro: o lobular. Mesmo assim, não há regra sem excepção e também neste caso pode haver surpresas.

"Não posso, de modo algum, afirmar que não venha a desenvolver a doença noutro lugar", afirma Helena Gervásio, para quem decidir tirar uma mama sã, porque se teve cancro na outra, é uma medida radical, pessoal e que deve ser profundamente racionalizada.

Laço atribui bolsa de 25 mil euros para investigação
A associação Laço vai atribuir uma bolsa de 25 mil euros para apoiar um projecto de investigação sobre as causas do aparecimento do cancro de mama ou os cancros metastáticos, anunciou esta terça-feira a presidente da instituição, Lynne Archibald.

"São as duas áreas em que precisamos de respostas da ciência", conta à agência Lusa. "É a primeira bolsa especificamente para esta área e conseguimos fazer isto porque continuamos a ter apoio", disse, acrescentando que a associação mantém "muitas campanhas a decorrer", acrescenta.

A bolsa é possível graças aos donativos que a Laço tem recebido. "Por vezes, são campanhas mais pequenas do que no passado, mas continuamos a ter muito apoio das empresas, mas também das mulheres, o que faz com que possamos continuar a angariar dinheiro", revela Lynne Archibald.

A bolsa deve ser atribuída na Primavera do próximo ano.

1.10.13

Contraste entre ricos e pobres no tratamento do cancro 'é dramático'

in Sol

Mais de cem médicos e cientistas de todo o mundo alertam hoje que "é dramático" o contraste entre o diagnóstico e tratamento dos doentes com cancro nos países riscos e nos países pobres.
"É mau ter cancro e é pior ter cancro se se for pobre", alertou Peter Boyle, presidente do Instituto Internacional para a Investigação da Prevenção (Lyon, França), numa comunicação ao Congresso Europeu do Cancro, que termina hoje em Amesterdão.

Na sua intervenção, o investigador apresentou as conclusões do relatório "O Estado da Oncologia 2013", que se baseia em contributos de mais de 100 cientistas médicos que descrevem o estado daquele ramo da medicina em mais de 50 países.

Segundo Boyle, a conclusão é que "a diferença entre ricos e pobres, pessoas com mais ou menos instrução e entre o norte e o sul do planeta é substancial e continua a aumentar".

"Embora o progresso na oncologia tenha sido assinalável nas últimas décadas, e embora o futuro pareça encorajador, nem todos os doentes com cancro beneficiam dos avanços que têm sido alcançados no tratamento da doença. O contraste no diagnóstico, tratamento e resultado entre países de altos e baixos rendimentos é dramático", alertou o também director do Instituto de Saúde Pública Global da Universidade de Strathclyde (Glasgow, Reino Unido).

Esta situação é particularmente grave numa altura em que as Nações Unidas estimam que a população mundial atinja os 9,6 mil milhões em 2050.

"Estes aumentos demográficos, juntamente com aumento do risco de cancro devido à adopção de estilos de vida ocidentais vão levar a um aumento do número de cancros diagnosticados" em países como a Índia, a China, a Nigéria, a Indonésia, o Paquistão, o Bangladesh ou o Vietname, disse Boyle.

"Muitas partes do mundo já são incapazes de lidar com a situação actual e estão completamente impreparadas para o aumento do problema do cancro", acrescentou.

O investigador alertou que são "urgentemente necessárias soluções radicais", sublinhando que "nenhuma fonte de filantropia tem por si só os meios para resolver este problema, pelo que são precisos novos modelos".

Para o especialista, a solução passa por um aumento das parcerias público-privadas, envolvendo fontes de áreas diferentes para fazer o progresso necessário o mais depressa possível.

Esta parceria, alertou, precisa do compromisso da indústria farmacêutica e das indústrias envolvidas nas tecnologias de diagnóstico e tratamento, assim como de governos e organizações não-governamentais.

"A situação descrita no relatório 'Estado da Oncologia 2013' é dramática e urgente, e todas as partes devem pôr de lado quaisquer desconfianças e desenvolver uma colaboração efectiva para melhorar este aspecto-chave da saúde pública em todo o mundo", disse.

7.8.13

Ministério garante que são os melhores especialistas que escolhem medicamentos inovadores para cancro

Alexandra Campos, in Púbico on-line

Bastonário da Ordem dos Médicos diz que se multiplicam as denúncias de “racionamento puro e duro” de terapêuticas inovadoras, por razões economicistas.

Os medicamentos inovadores para o tratamento do cancro são escolhidos pelos “melhores especialistas” do país e não pelo Ministério da Saúde (MS). É desta forma que o ministério liderado por Paulo Macedo responde à polémica sobre terapêuticas inovadoras contra o cancro que nesta segunda-feira se reacendeu depois de o Diário de Notícias ter adiantado que os três institutos de oncologia (IPO) do país estão a recusar, em conjunto, medicamentos muito caros que prolongam em alguns meses a vida dos doentes.

Nos trabalhos do grupo de especialistas de topo que escolhem estes tratamentos e integram a chamada Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica participam os bastonários da Ordem dos Médicos (OM) e dos Farmacêuticos, lembra o ministério, em comunicado. Acrescenta que já estão definidos os medicamentos a adoptar pelos hospitais públicos no tratamento de VIH/sida, da esclerose múltipla e do cancro da próstata.

O que está em causa é o “racionamento puro e duro” de vários medicamentos inovadores, por razões economicistas, não só oncológicos, mas também para o tratamento de outras patologias, como a hepatite C, defende o bastonário da OM, José Manuel Silva. “Temos várias denúncias”, sublinha.

Foi há cerca de dez dias que a OM encaminhou para o ministério mais uma denúncia de um doente a quem foi recusado o acesso a um medicamento para o cancro de próstata metastizado (abiraterona). A recusa de fornecimento desta terapêutica em hospitais do Norte do país já tinha sido denunciada por responsáveis da OM, como o PÚBLICO noticiou em Janeiro.

Sem conseguir precisar quantos são os medicamentos oncológicos em que se verifica “racionamento”, o bastonário diz apenas que “são cada vez mais porque não tem havido aprovação de inovadores nos últimos tempos”. “E a responsabilidade não é dos IPO, mas sim do Ministério da Saúde”, defende.

Regras mudam
O presidente do conselho de administração do IPO do Porto, Laranja Pontes, garantiu ao PÚBLICO que os institutos de oncologia não estão a travar terapêuticas inovadoras contra o cancro, por causa do preço (a abiraterona custará cerca de 3500 euros). “Isso não faz sentido, damos aos doentes medicamentos que são três ou quatro vezes mais caros”, frisa.

Relativamente ao caso específico do medicamento para tratamento do cancro da próstata metastizado, Laranja Pontes afirma que o laboratório que o produz é que “não quis apresentar o estudo fármaco-económico que é necessário para a sua introdução no SNS”.

As regras estão a mudar. Enquanto a Comissão de Farmácia e Terapêutica prepara o formulário nacional do medicamento, o secretário de Estado da Saúde já estabeleceu, por despacho publicado em Junho último, que só os medicamentos previstos nesta lista podem ser dados aos doentes. Até há pouco tempo, havia uma forma alternativa de contornar o sistema e conseguir os medicamentos inovadores para os doentes, através das chamadas autorizações de utilização especial (AUE). Mas também estas estão a ser limitadas, desde a publicação do despacho, porque se instituiu que os medicamentos devem figurar numa adenda, sendo propostos pelos directores clínicos à comissão de farmácia e terapêutica dos hospitais.

Só após autorização pode ser pedida aprovação à comissão de farmácia e terapêutica nacional. Se as regras não forem cumpridas, os administradores e os directores clínicos podem responder civil, criminal e financeiramente.

Assegurando que este “não é apenas, nem sobretudo, um mecanismo de contenção de custos como se quer fazer crer”, o gabinete do ministro contrapõe no comunicado que o novo formulário vai contribuir para a uniformização de regras no país e contrariar a “banalização” das AUE de medicamentos que se tem verificado nos últimos anos. Advoga, mesmo assim, que as AUE sejam solicitadas “sempre que se justifique e acompanhadas da devida fundamentação clínica”.

O gabinete de Paulo Macedo questiona ainda o facto de esta notícia surgir num momento em que “tem procurado um diálogo com a indústria farmacêutica”. E acrescenta: “O Ministério da Saúde espera que a indústria farmacêutica adopte uma atitude realista e responsável, não contribua para a desinformação e continue a colocar os interesses dos doentes e do SNS de Portugal acima dos seus interesses particulares”.

O Partido Socialista e o Bloco de Esquerda já puseram em causa o “racionamento” de medicamentos inovadores. Lembrando que “tem vindo a denunciar diversas vezes que os utentes do Serviço Nacional de Saúde se estão a confrontar com processos de racionamento de medicamentos”, o BE perguntou esta segunda-feira ao Governo se tem conhecimento da alegada recusa concertada de algumas terapêuticas inovadoras por parte dos três IPO e se isto está a acontecer noutros casos.

20.2.13

Cancro infantil aumenta nos países mais pobres

in Sol

O cancro infantil está a aumentar nos países pobres, onde ocorrem 94% das mortes de crianças provocadas por tumores, revela um estudo hoje publicado, que atribui a alta mortalidade à ausência de tratamento adequado.
“A dura realidade é que o acesso ao tratamento é muito fraco nos países de médio e baixo rendimento. Uma percentagem desconhecida de crianças com cancros potencialmente curáveis nunca recebe tratamento - nem sequer tratamento paliativo - e muitos dos que recebem algum tratamento morrem apesar disso", diz um dos autores do estudo, Ian Magrath, da Rede Internacional para o Tratamento e Investigação do Cancro, na Bélgica.

Publicado na revista científica 'Lancet Oncology', o estudo, que reuniu alguns dos maiores especialistas em cancro do mundo, sublinha que o cancro infantil, outrora considerado uma doença de países ricos, é cada vez mais uma ameaça nos países em desenvolvimento.

Segundo estimativas recentes da Organização Mundial de Saúde, citadas no estudo, o cancro mata todos os anos cerca de 100 mil crianças antes dos 15 anos em todo o mundo, 94% das quais morrem em países de baixo rendimento.

Segundo os cientistas, a falta de sensibilização para o cancro infantil e a ausência de serviços de saúde básicos em alguns países levam a que muitas crianças apareçam com cancros em estado avançado.

Os médicos nestes países frequentemente não são formados para diagnosticar o cancro e vêem muito poucos casos de cancro infantil ao longo da sua carreira.

Além disso, o tratamento é muitas vezes pobre ou inexistente, ou demasiado caro para os pacientes.

Em África, exemplificam os autores, a proporção de cancros que ocorrem em crianças é 12 vezes maior do que na Europa, mas 80% das pessoas no continente não tem acesso a radioterapia, cirurgia oncológica ou mesmo às infra-estruturas necessárias para os cuidados oncológicos básicos.

Mas nem sempre o problema é financeiro, alerta a autora principal, Kathy Pritchard-Jones, da University College de Londres, que lamenta a falta de vontade política para criar as condições necessárias.

No México, exemplifica, a taxa de abandono do tratamento entre as crianças diminuiu de 35% para 4% por uma combinação de medidas como a introdução de seguros para os mais pobres, o desenvolvimento de protocolos de tratamento e a criação de 49 programas para o cancro infantil.

Os cientistas defendem o investimento em sistemas de saúde, mais profissionais de saúde e mais bem formados, assim como o estabelecimento de redes de hospitais regionais.

Defendem ainda parcerias entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento que permitam a uns servir de conselheiros aos outros, ajudar na formação médica, no acesso a tratamentos actualizados e ao aumento da participação dos pacientes dos países pobres em ensaios clínicos internacionais.

Finalmente, os investigadores sublinham a necessidade de acabar com o mito de que os países em desenvolvimento não têm recursos para tratar as crianças com cancro.

"Como as crianças têm as vidas todas pela frente, salvá-las tem muito mais impacto no desenvolvimento económico do que o tratamento oncológico dos mais velhos”, explica Magrath.

Lusa/SOL