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20.2.23

Europa atinge segundo maior pico de excesso de mortalidade desde o início da pandemia

Alexandra Campos, in Público online

Portugal registou 1099 mortes acima do esperado entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. No início deste ano, o Instituto Ricardo Jorge identificou já mais 483 óbitos em excesso.

2022 voltou a ser um ano com um elevado excesso de mortalidade por todas as causas na maior parte dos países europeus. Numa altura em que o peso directo da covid-19 diminuiu substancialmente, nas últimas semanas de 2022, nos 28 países e regiões que reportam dados ao projecto de monitorização da mortalidade em excesso EuroMomo, atingiu-se mesmo o segundo maior pico de óbitos acima do esperado desde o início da pandemia, suplantado apenas pelo extraordinário cume observado logo na Primavera de 2020.

Para este pico, observável no site do EuroMomo (European Monitoring of Excessive Mortality), contribuíram essencialmente países como a Alemanha e o Reino Unido, e, ainda que em menor escala, França, Países Baixos, além da Áustria, Dinamarca e Bélgica, entre outros, onde o frio e a epidemia de gripe sazonal e de outros vírus respiratórios terão tido um maior impacto na mortalidade.

Portugal também viu a curva das mortes acima do esperado subir um pouco no final de 2022. Ao longo do ano passado, Portugal surge nos gráficos do EuroMomo com dois picos destacados de excesso de mortalidade na sequência das duas ondas de calor, em Junho e Julho, e, de novo, observa-se um pequeno cume no fim de 2022, mas o excesso de mortalidade que aí sobressai até é inferior ao verificado em Invernos de anos anteriores à pandemia, como em 2018 e 2019.

Neste inverno, o Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa) identificou já um período de excesso de mortalidade em três semanas do final de 2022 - 1099 óbitos acima do esperado, entre 28 de Novembro e 18 de Dezembro. Um aumento de mortalidade que, enfatiza, “correspondeu ao pico de actividade gripal em Portugal”. Foi na região Norte que teve maior duração (quatro semanas) e impacto (584 óbitos) e, por faixas etárias, a população com mais de 85 destaca-se claramente como a principal atingida, com "1033 óbitos" em excesso.
 



Já no início deste ano, o Insa identificou um novo período de excesso de mortalidade, que começou em 30 de Janeiro e “ainda está a decorrer”, atingindo agora exclusivamente a população com mais de 75 anos. Em duas semanas (30 de Janeiro a 12 de Fevereiro), estima que tenham ocorrido 483 mortes acima do esperado, excesso que “deverá estar relacionado com o período de frio extremo que ocorreu no início do ano”.

Relativamente ao excesso de mortalidade observado no final de 2022 em vários países europeus, este estará “provavelmente associado à epidemia de gripe, que esta época ocorreu mais precocemente em toda a Europa”, justifica, por escrito, Ana Paula Rodrigues, do Departamento de Epidemiologia do Insa, que pede cautela na análise dos dados do EuroMomo. Porquê? Porque é difícil estabelecer comparações com períodos de excesso de mortalidade anteriores, uma vez que “as linhas de base (mortalidade esperada) não têm em conta a mortalidade observada desde 2020, por causa das importantes variações da mortalidade observadas com a pandemia”.
Em 2022 houve menos 313 óbitos do que no ano anterior

Seja como for, os números actualizados no final da semana passada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que acabámos 2022 com um total de 124.872 óbitos, menos 313 do que em 2021, o ano em que tivemos um pico extraordinário de mortalidade em Janeiro e Fevereiro por causa da pior onda de covid-19. Mas, se a comparação for feita com 2019, a diferença é substancial – foram mais 12.529 óbitos.

O INE destaca o indicador do excesso de mortalidade calculado pelo Eurostat, que compara o número de óbitos registados em cada mês nos países da União Europeia e na Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, com o número médio de mortes no período 2016-2019. Segundo o Eurostat, Portugal registou em 2022 excesso de mortalidade em todos os meses, menos em Janeiro. Exceptuando a Bulgária e a Roménia, no ano passado todos os os países da União Europeia apresentaram excesso de mortalidade, assinala o instituto.

O que parece claro é que na maior parte dos países não se regressou ao padrão de mortalidade anterior à pandemia, como era esperado. O fenómeno do elevado excesso de mortalidade por todas as causa está a intrigar os especialistas, que colocam em uníssono a questão: por que é que continuam a morrer tantas pessoas? A resposta não é simples.

“Normalmente nas situações de excesso de mortalidade não há um único factor”, enfatiza Joan Carles March, professor da Escuela Andaluza de Salud Pública ao jornal El Mundo. “Creio que os três eixos em que assenta o excesso de mortalidade são a covid, as temperaturas e os problemas da assistência sanitária”, especula.

Temos que olhar com cuidado para os gráficos do EuroMomo, começa por advertir também o especialista em bioestatística Paulo Jorge Nogueira, que estuda há décadas o fenómeno da mortalidade. Antes da pandemia de covid-19, em anos de epidemia de gripe e períodos de frio mais intensos, havia sempre picos de excesso de mortalidade, lembra.

Relativamente ao elevado número de mortes por todas as causas registado em 2022, o professor na Escola Nacional de Saúde Pública acredita que se fica a dever em parte ao envelhecimento da população – que estava a aumentar "consecutivamente" há vários anos, ainda que com oscilações anuais. “Mas o envelhecimento da população não explica tudo”, assume.

“Toda a gente achava que íamos voltar ao antigamente, mas este padrão de mortalidade veio para ficar e não é de esperar que as coisas mudem muito”, reflecte.“Há factores sociais e económicos, há toda uma panóplia de motivos, e há pequenos sinais que indicam que pode estar a ocorrer uma degradação, um retrocesso, mas agora é preciso estudar, olhar para as causas de morte, não apenas para o excesso”, recomenda.

“O habitual era os elevados excessos de mortalidade estarem associados a fenómenos agudos, como a gripe ou o calor. Termos a mortalidade persistentemente acima de linha de base é uma mudança de padrão e um alerta”, sustenta Vasco Ricoca Peixoto, investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, que sugere igualmente "um conjunto grande de hipóteses" para explicar a continuidade deste fenómeno.

“Sabemos que a infecção [por SARS-CoV-2] aumenta o risco de descompensação de várias doenças, por um lado”, e, por outro, é preciso também levar em conta “o impacto social da pandemia nas populações já vulneráveis em termos sócio-económicos e de isolamento”. A somar a tudo isto, “houve muito menos consultas, cirurgias, rastreios” no primeiro ano da pandemia “e algumas coisas nunca se recuperam”, observa. "Os serviços de saúde também se ressentiram, alguns perderam profissionais", acrescenta, defendendo igualmente que agora é preciso esmiuçar e olhar para as causas de morte.

8.9.22

ONU: “Morremos mais cedo, somos menos instruídos e os nossos rendimentos estão a cair”

Guilherme Pinheiro, in Público online

Relatório das Nações Unidas argumenta que uma série de crises sem precedentes, nomeadamente a guerra na Ucrânia e a pandemia da covid-19, atrasaram o progresso humano em cinco anos e alimentaram uma onda global de incertezas.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) anunciou que, pela primeira vez desde que foi criado, há mais de 30 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – uma medida das expectativas de vida, níveis de educação e padrões de vida dos países – diminuiu por dois anos consecutivos, em 2020 e 2021, apagando os avanços positivos dos últimos cinco anos.

“Isso significa que morremos mais cedo, que somos menos instruídos e que os nossos rendimentos estão a cair”, disse o chefe do PNUD, Achim Steiner, em entrevista à AFP. “Com estes números, podemos ter uma noção de por que tantas pessoas estão a começar a sentir-se desesperadas, frustradas, preocupadas com o futuro”, disse.

O desenvolvimento humano voltou aos níveis de 2016, revertendo grande parte do progresso em direcção aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. A reversão deste resultado é quase universal, uma vez que mais de 90% dos países registaram um declínio na pontuação do IDH em 2020 ou 2021 e mais de 40% caíram nos dois últimos anos, sinalizando que a crise ainda se está a aprofundar cada vez mais para muitos países.

O último Relatório de Desenvolvimento Humano, “Tempos incertos, vidas instáveis: moldando o nosso futuro num mundo em transformação”, lançado esta quinta-feira pelo PNUD, dá também um grande destaque às camadas de incerteza que “se estão a acumular e a perturbar a vida de maneiras sem precedentes.” “Os últimos dois anos tiveram um impacto devastador para milhões de pessoas em todo o mundo, enquanto crises como a da covid-19 e a guerra na Ucrânia se sucederam e trouxeram amplas mudanças sociais e económicas, mudanças planetárias perigosas e que contribuem para o aumento da polarização”, acrescenta.

Segundo o estudo, o mundo está a “oscilar de crise em crise”, e está também preso num ciclo interminável de combate a incêndios e outros desastres naturais, muitos deles causados pelas alterações climáticas - ficando incapaz de enfrentar a raiz dos problemas mais fulcrais. “Sem uma mudança brusca de rumo, podemos estar a caminho de ainda mais privações e injustiças”, alerta o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Enquanto alguns países conseguem começar a recuperar, esta mesma recuperação é desigual e parcial, tornando ainda mais nítidas desigualdades no desenvolvimento humano em termos mundiais. A América Latina, a África Subsaariana e o Sul da Ásia, que foram particularmente atingidos, ainda não mostram sinais de recuperação.

“O mundo está a lutar para responder a crises consecutivas. E neste momento temos também as crises do custo de vida e da energia que, embora seja tentador que os Governos se foquem em soluções e medidas rápidas, - como subsidiar combustíveis fósseis e outras tácticas de socorro imediato - acabam por atrasar as mudanças a longo prazo que devem ser feitas”, sublinha Achim Steiner.

“Estamos colectivamente paralisados ​​no que diz respeito a este tipo de mudanças. E num mundo definido pela incerteza, precisamos de um sentimento renovado de solidariedade global para enfrentar os nossos desafios comuns e interconectados”, acrescenta,

O relatório concluiu que a mudança necessária não estar a acontecer e sugere várias razões para tal, incluindo o modo como a insegurança e a polarização se alimentam de forma a impedir a solidariedade e a acção colectiva que são necessárias para enfrentar as crises a todos os níveis. Novos cálculos mostram, por exemplo, que aqueles que se sentem mais inseguros também são mais propensos a ter visões políticas extremas.
“Mesmo antes da chegada da covid-19, já conseguíamos observar paradoxos do progresso com insegurança e polarização. Hoje, com um terço das pessoas em todo o mundo a sentirem-se stressadas, e com apenas menos de um terço com confiança nos outros, enfrentamos grandes obstáculos para a adopção de políticas que funcionem para as pessoas e para o planeta”, diz Achim Steiner.

“Esta nova análise instigante visa ajudar-nos a quebrar este impasse por forma a traçar um novo rumo para nossa actual incerteza global. Temos uma janela estreita para reiniciar os nossos sistemas e garantir um futuro baseado em acções climáticas decisivas e novas oportunidades para todos”, conclui,

“Para traçar um novo rumo, o relatório recomenda a implementação de políticas que se concentrem no investimento – desde sector da energia renovável, passando pela preparação para futuras pandemias – incluindo medida de protecção social – com vista a preparar a nossa sociedade para os altos e baixos de um mundo incerto”, pode ler-se no relatório.

“Para navegar na incerteza, precisamos dobrar o desenvolvimento humano e olhar para lá da melhoria da riqueza ou da saúde das pessoas”, diz Pedro Conceição, do PNUD, um dos principais autores deste relatório. “Para além disto, precisamos de proteger o planeta e fornecer às pessoas as ferramentas necessárias para se sentirem mais seguras, recuperar o controlo sobre suas vidas e ter esperança no futuro”.

“Não podemos continuar com a cartilha do século passado”, argumentou Steiner, preferindo o foco na transformação económica em vez da confiança no crescimento como um remédio final.
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11.7.22

Mortes de idosos por covid-19 levaram ao rejuvenescimento do país

in JN

A mortalidade por covid-19 nos idosos levou a um rejuvenescimento da estrutura etária em Portugal, onde se registou um excesso de 12 mil mortes em 2020, avança um relatório do Conselho Nacional de Saúde (CNS), divulgado esta segunda-feira.

"O facto de os indivíduos mais velhos terem sido os mais atingidos pela mortalidade por covid-19 tem um impacto nas tendências de envelhecimento da população. No curto prazo, regista-se um certo rejuvenescimento da estrutura etária - não por aumento da natalidade, mas por decréscimo da sua população mais velha - e uma diminuição do índice de longevidade", adianta o relatório "Pandemia de covid-19: Desafios para a saúde dos portugueses".

Segundo o documento deste órgão independente de consulta do Governo, em 2020, primeiro ano da pandemia, registou-se um excesso de cerca de 12 mil óbitos, comparando com o número médio de mortes observadas entre 2016 e 2019.

"Este excesso de mortalidade iniciou-se logo no mês de março de 2020, continuando ao longo dos restantes nove meses desse ano, e nos meses de janeiro, fevereiro e de julho a dezembro de 2021, ainda que com menor expressão", adianta o documento do CNS presidido por Henrique Barros.

Em 2020, as regiões com maior excesso de mortalidade, comparando com a média de 2016-2019, foram o Norte, com 154 óbitos por 100 mil habitantes, o Alentejo (144 mortes) e a Área Metropolitana de Lisboa (106 mortes).

"Se o excesso de mortalidade observado em março e abril e de outubro em diante coincidiram com os picos de incidência da infeção (primeira, segunda e início da terceira vaga), o excesso de mortalidade sentido no final de maio e entre julho e agosto de 2020 não coincidiu com incidências elevadas no país", revela o documento.

A taxa de mortalidade em Portugal subiu de 10,9 por mil em 2019 para 12 em 2020 e cerca de 19 mil pessoas perderam a vida com covid-19 até ao final de 2021.

"Se cerca de 80% dos casos de infeção registados ocorreram em indivíduos abaixo dos 65 anos, já 93% dos óbitos covid-19 atingiram as franjas mais velhas de população (acima dos 65, com especial destaque para os mais de 85)", refere o relatório.

O CNS alerta ainda que a natalidade e a fecundidade podem ter sido - ou vir ainda a ser - influenciadas pela pandemia e pela alteração da vida quotidiana dos portugueses.

Os dados publicados no documento indicam que, em 2020, nasceram 84.426 crianças em Portugal, menos 2.294 do que na média dos anos 2016-2019 e, no final de 2021, os dados provisórios indicavam que tinham sido registados apenas 79.548 recém-nascidos, o que corresponde a menos 4.878 do que no ano anterior.

"A queda entre 2019 e 2021 vem reforçar essa tendência, para a qual podem ter contribuído o medo da pandemia, os constrangimentos económicos e sociais colocados às famílias, a dificuldade de as franjas mais jovens de população acederem a condições de vida autónomas que lhes permitam sequer perspetivar um projeto de procriação", avança o CNS.

Quanto à esperança média de vida, baixou dos 81,8 em 2019 para 81,1 em 2020, "facto que não serão alheios os impactos, diretos e indiretos, da pandemia", refere o relatório, que salienta também que, de 2020 para 2021, houve uma redução dos níveis de stresse, ansiedade e depressão dos portugueses.

Essa diminuição reflete uma adaptação generalizada às adversidades da pandemia, ainda que menos evidente em alguns grupos populacionais, como nas mulheres, nas pessoas desempregadas e com doença crónica, explica o relatório.

Neste capítulo dedicado aos indicadores sociais e demográficos, o documento concluiu também que os trabalhadores pouco qualificados de baixas remunerações, com contratos precários ou envolvidos na economia informal, foram "não só como dos mais atingidos pela pandemia, como os que suportam intensamente as suas consequências negativas sobre o seu nível de vida".

Relativamente à educação durante a pandemia, que teve dois períodos de suspensão da atividade presencial nas escolas durante 2020 e no primeiro semestre de 2021, o CNS constatou que, comparativamente com outros países, Portugal foi dos que "adotou uma política mais severa nesta matéria, sem que se fundamentasse verdadeiramente a evidência científica que a suportava".

O documento adianta que, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, em 2020 e 2021 (descontando férias, fins de semana e feriados), as escolas até ao nono ano fecharam cerca de 100 dias, "dados que contrastam com os de outros países europeus, nomeadamente Espanha, Bélgica ou França (cerca de 50)".

O documento, que é apresentado esta segunda-feira numa sessão na Assembleia da República, analisa o impacto da pandemia nos principais indicadores sociodemográficos, na saúde mental da população e na prestação de cuidados de saúde.

Criado em 2016, o CNS é um órgão independente de consulta do Governo, que visa garantir a participação dos cidadãos na definição das políticas de saúde e promover uma cultura de transparência e de prestação de contas perante a sociedade.

6.1.22

Portugal, um país em que se vive com (muito) frio dentro de casa

João Carlos Malta , Liliana Carona, in RR

Nove em cada dez pessoas não está confortável com a temperatura dentro de casa. Mas o frio não causa apenas incómodo, pode mesmo matar. Por ano, há centenas senão milhares de portugueses que morrem por as casas não terem condições térmicas condignas. Retrato de um país que bate o dente dentro de portas.

Os portugueses a nível europeu são dos que mais sofrem as consequências da pobreza energética das casas em que vivem. Foto: Miguel Pereira Da Silva/EPA

José Augusto tem 72 anos e uma casa gelada à espera. Garante que depende dos dias, mas em média no interior da habitação estão entre 12 e 14 graus. Na aldeia de Cortiçô da Serra, em Celorico de Basto, no interior do país, esta é uma história que se repete quase porta sim, porta sim. “É horrível, é muito frio”, afirma o reformado, ex-emigrante na Alemanha.

José pertence aos 88% de portugueses que, segundo o Portal da Construção Sustentável (PCS) através de um inquérito feito em março deste ano, não se sentem confortáveis dentro de casa devido ao frio ou ao calor. Ou seja, apenas 1 em cada 10 portugueses vive numa casa em que a temperatura é satisfatória.

O mesmo relatório afiança que os que conseguem manter a casa a uma temperatura agradável têm um aumento significativo da conta de energia − pode levar a um agravamento de 50% na fatura.

Mas não é só na carteira que este fenómeno tem impacto. Aliás, o principal problema é as consequências negativas que tem para a saúde dos portugueses. Segundo o inquérito PCS, 15% dos inquiridos têm alguém em casa com problemas de saúde que decorrem da falta de condições térmicas.

​Faz tanto frio nesta escola de Barcelos que há quem entre em hipotermia


O problema é, muitas vezes, mais grave, como confirma o diretor do departamento de epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, Carlos Dias. À Renascença, não tem dúvidas em confirmar a correlação entre a precariedade das habitações e o aumento de mortes que todos os anos, no inverno, se contabilizam em Portugal.

Em relação às que possam ser imputadas ao frio, garante que há anos em que podem ser mais de mil, mas que em média se situam nas largas centenas por ano.

Aquecidos a lenha

Em Portugal, o problema da pobreza energética é sério. É o quarto país da Europa em pior situação (dados do Eurostat). Facto que decorre, muitas vezes, de outro tipo de pobreza − a socioeconómica. Na aldeia do distrito da Guarda em que José Augusto habita, o ex-emigrante lembra que “os ordenados que recebem não dão para as pessoas viverem com condições”.
Portugal sempre foi um país pobre, onde se negligenciou o conforto térmico”, diz João Pedro Gouveia, Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade.

Para aquecer a casa no inverno, ele teve de ir comprar “duas carradas” de lenha. Gastou 400 euros. Mas nem todos têm esse dinheiro. Mesmo para ele, que até pode pagar, os cobertores − uns em cima dos outros − são a solução, frequentemente mais eficaz para combater as baixas temperaturas daquela zona serrana. “Passa-se frio. Isso nem é bom falar”, remata.

O recente inquérito do INE e do Direção-Geral de Engenharia e Geologia revela que a segunda fonte de energia mais consumida nas casas é a lenha. Primeiro, a eletricidade, depois lenha. O gás aparece já muito depois.

"Em minha casa estão entre os 12.5 graus e os 14 graus, depende dos dia... é conforme o tempo dá", José Augusto, morador de Cortiçô da Serra

Um outro estudo da PCS com a Quercus, em 2017, chegou à conclusão de que 20% da população refere “que usa apenas roupa e cobertores como estratégia de melhorar o seu conforto térmico”.

Em Lisboa, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, o professor João Pedro Gouveia, investigador do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade, fala de um “problema estrutural do país”, que tem uma longa história, mas se intensificou nas décadas de 1970, 1980 e 1990, anos em que a migração de populações do campo para a cidade fez com que se construísse “mal, rápido e barato”.

Segundo dados do Observatório da Energia (ADENE) cerca de 70% das habitações atualmente certificadas têm baixa eficiência energéticas (C ou menos).

“Houve muitas pessoas que passaram das zonas rurais para as grandes cidades. Foi preciso construir rápido e a baixo custo. Portugal sempre foi um país pobre, onde se negligenciou o conforto térmico”, afirma.

O especialista aponta ainda outro número contundente. “Temos bastante mais de 80% dos edifícios com má qualidade de construção, falta de isolamento e com vidros simples. Por isso, temos um problema tão grande de eficiência energética agora”, reconhece.

Em Portugal, 70% das habitações atualmente certificadas têm baixa eficiência energéticas. Foto: EPA


O inquérito anual da União Europeia sobre o Rendimento e as Condições de Vida indica que em Portugal é o segundo país em que mais pessoas detetam “infiltrações, humidade e decomposição” em casa. São 25,2% a responder afirmativamente a esta questão, um valor só superado pelo Chipre.
Mais confortável na rua do que em casa

De regresso à Guarda, junto ao campus universitário, a Renascença encontra-se com dois estudantes deslocados. Vêm de um país com calor, São Tomé e Príncipe. A transição de um clima tropical para o rigor do Interior de Portugal nunca seria suave. Mas as condições das casas que encontraram naquela cidade acentuaram os problemas de adaptação ao clima.

António Cardoso, de 26 anos, está no segundo ano da licenciatura de Recursos Humanos e começa por dizer que vive num apartamento frio. Tão frio, que não tem pejo em dizer: “Estar na rua é mais confortável do que estar dentro de casa”, ilustra.

“As casas não têm aquecimento, não têm as condições mínimas para as pessoas ficarem dentro de casa”, sentencia.
"Somos o país da Europa com mais dias de sol num ano e não faz sentido termos casas tão geladas", diz Aline Guerreiro do Portal de Construção Sustentável.

Isso, claro está, “dificulta o estudo” a ele e aos colegas de curso. A solução são “edredons, cobertores e vestir bastante roupa”. E o aquecedor? É mesmo o último recurso, porque “quando vem a fatura, aumenta-a. Não temos como ligar. Não conseguimos pagar no final do mês”.

Por isso, não tem dúvidas, mal acabe o curso “não queremos nem pensamos ficar aqui”. E não é só a falta de emprego na Guarda que contribui para a decisão. O frio é um fator decisivo.

Ao lado, a compatriota e colega em Recursos Humanos, Leonilde Cravide, de 24 anos, faz o mesmo diagnóstico sintético das casas: “Muito frias”. E lembra o choque quando chegou à cidade. “Os dedos começaram a inchar, fiquei cheia de gripe, agora estou a habituar-me”, afiança.
Olhar para o acessório e não para o estrutural

Aline Guerreiro, CEO do Portal de Construção Sustentável, sublinha um paradoxo difícil de explicar. “Somos o país da Europa com mais dias de sol num ano e não faz sentido termos casas tão geladas, tão frias e que se comportam tão mal, principalmente no inverno”, defende.

A especialista lamenta que quem constrói em grande escala, edifícios multifamiliares, tenha no pensamento “vender num curto espaço de tempo”. “A casa é vendida e tem no máximo cinco anos de garantia. Quando a pessoa se apercebe de problemas graves, de patologias da construção, acontece depois dos tais cinco anos”, defende.

Aline pormenoriza as razões que contribuem para a baixa eficiência energética dos edifícios.

“Os materiais que não se veem, como os do isolamento – um dos fatores mais decisivos para a casa ter ou não conforto – é o que mais sofre. É colocado o que está mais barato no mercado. A pessoa que compra pensa em que acabamentos tem a casa, que pavimento foi colocado, se tem banheira de hidromassagem e não pensa na orientação solar, na colocação de isolamento e dos caixilhos mais eficientes. O comum utilizador não sabe”, concretiza.

Isso tem como consequência que “só 12% dos portugueses se sentem confortáveis nas casas que habitavam”, segundo o último inquérito da PCS. Muitas dessas casas “posso garantir que eram recentes com cinco ou 10 anos de existência, e as pessoas tinham problemas de humidade, de frio, outras de calor”.

Frio em novembro fez disparar consumo de eletricidade

Os números têm rostos e muitos espalhados por todo o país. Segundo os últimos dados divulgados pelo Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade, os municípios em que a vulnerabilidade à pobreza energética é mais intensa concentram-se no interior, com o Alto Tâmega, Viseu Dão Lafões e o Douro à cabeça. Os municípios em pior condição são Valpaços, Ribeira de Pena e Penalva do Castelo.

Também no interior do país, em Verdelhos, na Covilhã, está Cristiana Pereira que, aos 25 anos, trabalha no café da aldeia.

Olha para as casas que a rodeiam e dispara: “Não são isoladas, não têm vidros duplos e as pessoas aquecem-nas à base de uma pequena lareira”.

As consequências desta situação, segundo Cristiana, são problemas de saúde. “Na época mais fria as pessoas apanham mais facilmente gripes e constipações por terem tão poucas defesas”, analisa.

"Só 12% dos portugueses se sentem confortáveis nas casas que habitavam, e muitas dessas casas, posso garantir que eram casas recentes com cinco ou dez anos de existência", Aline Fernandes, CEO do Portal da Construção Sustentável.

No ano passado, o Eurostat, base de dados estatística da União Europeia, apontava Portugal como o quarto país em que há maior incapacidade de manter a habitação quente, num total de 17,5%.

O diretor do departamento de epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, Carlos Dias, diz que é comummente sabido que “temperaturas muito extremas, sejam elas muito elevadas, ou muito baixas, estão relacionadas com problemas respiratórios e em especial problemas cardiovasculares”.

Isto porque, explica, “o nosso coração tem de fazer um esforço maior para bombear ar que esteja poluído, ou com menos oxigénio, ou mais frio. Todos estes fatores podem causar doença ou agravar doenças já existentes como a bronquite, a doença pulmonar obstrutiva crónica, a asma”.

O frio mata em Portugal. Especialista do INSA diz que em média são centenas de pesssoas a morrer por ano por causa da temperatura baixa. Foto: Sofia Freitas Moreira/RR


As causas, diz, são a falta de isolamento térmico das habitações que leva a que haja dificuldade de manter uma temperatura confortável e a que as casas sejam mais húmidas e mais frias.

“Nos dias de frio, as casas mal isoladas, mal ventiladas, podem contribuir para o agravar da doença existente ou desencadear de crises de doença das pessoas que estão dentro dessas casas”, assegura.

Carlos Dias acrescenta que a relação destes fatores com a doença e com a morte estão estudadas. “A mortalidade no hemisfério norte é sempre maior nos meses mais frios. Mesmo removendo os efeitos de outros fatores, a mortalidade era maior quanto mais frio estivesse. Se temos habitações com deficiente conforto térmico, é claro que está correlacionado com o maior risco de mortalidade”, sublinha.

A Healthy Homes Barometer 2019 identifica Portugal como o país da UE com maior percentagem de crianças (51%) com risco elevado de viver em habitações com más condições de saúde.
Gastar 20% da pensão para se aquecer

Na aldeia de Cortiçô da Serra, o agricultor Manuel José solta o lamento. “Quem é pobre tem de ir à lenha”.

"Tivémos anos em que o excesso de mortalidade devido às temperaturas baixas, excluindo gripe foi de centenas ou perto do milhar de óbitos", Carlos Dias, diretor do departamento de epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge..

Não tem aquecimento em casa, apenas a lareira. Para se manter quente gasta 10 quilos de lenha por noite. “Se não tiver a lareira acesa estão quatro ou cinco graus [em casa], com a lareira pode ir aos 15 a 16 graus”, especifica.

Numa situação igualmente muito complicada está Maria Henriqueta, de 86 anos. Ali naquela aldeia do distrito da Guarda, quando faz frio, faz mesmo frio.
"Nos dias de frio, as casas mal isoladas, mal ventiladas, podem contribuir para o agravar da doença existente ou desencadear de crises de doença", diz Carlos Dias, diretor do departamento de epidemiologia do INSA.

Ela não usa lareiras, nem lenha. “Aqueço-me com as botijas”. Por elas paga 27 euros por cada uma. Por mês gasta duas. Levam-lhe quase 20% dos pouco mais de 300 euros de pensão que recebe por mês.

O especialista João Pedro Gouveia diz que para solucionar estes problemas que existem de norte a sul do país há que apostar no isolamento, através da alteração de janelas, a instalação de vidros duplos, de caixilharias de qualidade.

A lenha é a segunda fonte de energia mais consumida pelos portugueses. Só superada pela electricidade. Foto: Joana Bourgard/RR

“Só depois é que entra a parte do consumo e das soluções de equipamentos mais eficientes, como substituir lareiras por ar condicionado”, elucida.

Por último, defende a introdução de energias renováveis, como a solar, descentralizada nas habitações. “[Esta solução] ataca a falta de eficiência dos edifícios, os baixos rendimentos da população e os altos preços da energia”, valoriza.
Ministro fala de um país numa condição frágil

O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, reconhece que Portugal é “um dos países que está numa condição mais frágil” no que diz respeito à pobreza energética. “A pobreza energética em Portugal vai muito além das famílias pobres e nunca houve em Portugal uma tradição de conforto térmico nos edifícios”, analisa.

Em relação ao que o Governo fez nos últimos seis anos, o ministro diz que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) está a canalizar verbas para resolver estes problemas, ou pelo menos minorá-los.

"Não temos uma lógica paternalista. Não sou ninguém para dizer a uma família o que é melhor para essa família (...) Cabe às pessoas fazerem as suas opções tendo em conta as suas necesidade", João Matos Fernandes, ministro do Ambiente.

São 300 milhões de euros para gastar, sendo que o Governo estabeleceu como meta, até 2030, resolver os problemas de eficiência energética em 35% dos edifícios.

Para isso criou dois programas que servem para, através de apoios diretos às famílias, pagar na totalidade ou parcialmente um conjunto diverso de investimentos que vão desde a substituição de janelas, a portas novas, a revestimentos dos edifícios, a aquisição de painéis solares e à compra de equipamentos mais eficientes.
"A pobreza energética em Portugal vai muito além das famílias pobres", diz João Matos Fernandes, ministro do Ambiente

O primeiro programa é o “Edifícios Eficientes” que já tem mais de 50 mil candidaturas e em que a comparticipação nos investimentos pode ir até aos 85%.

O segundo, o “Vale Eficiência”, é dedicado às 800 mil famílias que estão em pobreza energética e que beneficiam da tarifa social de energia. Há até agora 11 mil candidaturas submetidas.

“Pagamos a 100%, à cabeça, damos um vale. Essas famílias, por terem menos dinheiro, não têm de pagar primeiro e vir buscar o dinheiro depois. Já distribuímos mais de 2.500 vales, mais de quatro milhões de euros”, quantifica.

O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, diz que os dois programas que lançou de combate à pobreza energética não querem ter uma atitude paternalista em relação aos portugueses. Foto: Estela Silva/Lusa

O governante afirma que os números são satisfatórios porque os programas foram lançados há pouco tempo. “Mentiria se dissesse que temos a ambição de resolver os problemas todos com o valor que está em causa. Sabemos bem que o esforço que temos é muito grande, porque as condições de partida são muito frágeis, mas de facto estamos com o ‘Vale Eficiência’ a criar condições para chegar a 100 mil famílias, ou seja, a 100 mil habitações”, promete.

O professor João Pedro Gouveia, que além de membro do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade, também pertence ao grupo que analisa as candidaturas destes dois programas, diz que os mesmos vão no caminho, mas são insuficientes.
"Dois terços ou mais do que isso [das candidaturas ao Edíficios Eficientes] são bombas de calor, climatização ativa, ou seja, gastar dinheiro para consumir energia”, diz João Pedro Gouveia.

“Temos um estudo recente em que identificámos os custos totais para renovar os edifícios de forma passiva: substituição de janelas, paredes, isolamento de paredes e telhados, em perto de 70 mil milhões de euros. O PRR aloca 300 milhões de euros”, compara.

O especialista diz que esta é uma transformação muito exigente. Quando se reconhece que mais de 70% dos edifícios não são eficientes em termos energéticos, “estamos a falar de que quase todos os edifícios portugueses deviam ser renovados”.

"Temos entre 70 a 80% dos edificios com má qualidade de construção, falta de isolamento e vidros simples. Por isso, temos um problema tão grande de eficiência energética agora", João Pedro Gouveia, Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade .

Para João Pedro Gouveia estes programas deviam dar um sinal diferente e atribuir prioridade ao isolamento e proteção exterior dos edifícios. Isso não acontece, pelo que é dado igual apoio a bombas de calor que promovem um consumo ativo de energia, ou a uma janela, ou a um solar fotovoltaico.

O especialista diz que até agora “dois terços ou mais do que isso [das candidaturas] são bombas de calor, climatização ativa, ou seja, gastar dinheiro para consumir energia”

“As pessoas não têm tanto interesse em fazer isolamento nas suas casas, é mais difícil arranjar empresas [para o fazer]”, afiança.

O mesmo ponto é focado por Aline Fernandes que argumenta que “um dos erros do Governo são os vouchers que estão a dar para a aquisição de equipamentos em famílias com rendimentos reduzidos”, isto porque, “por muito eficientes que os equipamentos sejam, é fazer com que consumam mais energia”.

​Mais de 3.000 pessoas terão morrido devido à gripe em Portugal na época passada


O ministro Matos Fernandes, confrontado com o facto de as pessoas estarem a privilegiar equipamentos para aquecer o interior das casas ao invés de apostarem no isolamento das casas, responde: “Não temos uma lógica paternalista. Não sou ninguém para dizer a uma família o que é melhor para essa família. Abrimos um leque de possibilidades de financiamento em coisas muito diversas, desde equipamentos, a obras nas frações. Cabe às pessoas fazerem as suas opções tendo em conta as suas necessidades, para terem uma casa mais confortável em que paguem menos eletricidade”.

A líder do Portal da Construção Sustentável argumenta, por outro lado, que o primeiro programa “Edifícios Eficientes” parecia melhor do que a segunda versão.

“Nesse faziam menção à utilização de materiais de qualidade, naturais, que tivessem menor impacto ambiental e melhores resultados em termos práticos, e nesta segunda candidatura já abriram aos materiais mais baratos e com menos qualidade. Apesar de o financiamento não ser tão alto para os materiais menos amigos do ambiente e que derivam de combustíveis fósseis”, releva.

"Estar na rua é mais confortável do que estar dentro de casa", António Cardoso, estudante do Politécnico da Guarda.

Em relação a este ponto, Matos Fernandes lembra que “se inicialmente quisemos reduzir a materiais sustentáveis, o mercado não deu uma resposta”. Por isso, “alargámos a mercados mais comuns e comummente utilizados na construção civil”.
Falta de conhecimento

Um outro handicap do programa, identificado por João Pedro Gouveia, é o da falta de conhecimento das pessoas do que é melhor para a sua casa. “No ‘Vale Eficiência’, o Governo está a dar, em abstrato, 1600 euros para gastarem. As pessoas, se calhar, não estão a fazer a melhor opção. Estão a gastar na bomba de calor e, se calhar, deviam gastar nas janelas e no isolamento. Devia haver uma ajuda de especialistas e técnicos para ajudar as pessoas a decidir”, identifica.
"Há um hiato enorme entre a população que precisava desta ajuda e a grande maioria desconhece", diz João Pedro Gouveia.

E depois questiona o acesso que as pessoas estão a ter aos programas, até porque em zonas rurais, de baixa escolaridade, afirma, o conhecimento para lidar com candidaturas e regulamentos não é muito.

“Será que os programas estão a chegar às pessoas que mais precisam? Temos dois ou três milhões de portugueses em pobreza energética, 800 mil pessoas com tarifa social, e os vales eficiência apoiam 20 mil famílias”, quantifica.

Portugal é o 4º país em que há maior incapacidade de manter a habitação quente, num total de 17,5%. Foto: RR

Por isso, diz que há “um hiato enorme entre a população que precisa desta ajuda e a grande maioria desconhece”. “E mesmo quem conhece não sabe lidar com regulamentos nem plataformas digitais para terem a ajuda de que precisam”, analisa.

O investigador da Universidade Nova pertence à Energy Poverty Advisory Hub, uma organização que promove o papel dos municípios e das regiões para serem os agentes de apoio. “Não podemos pensar que o Governo consegue chegar a toda a gente de forma próxima. Quem tem esse papel? Associações locais, centros de saúde e paróquias”, explica.

Longe destas discussões, mas com o frio muito perto, em Cortiçô da Serra, Aida Simões, agricultora, de 58 anos, é mais uma moradora que fala da necessidade de ter lenha para se poder aquecer. Se não há, as casas gelam.

“Aqui há muitas pessoas que passam frio, os velhotes que não podem comprar lenha é complicado”, remata.

27.4.21

Mais mortes e menos nascimentos. Em 2020 só há uma boa notícia

Natália Faria, in Público on-line

Em 2020, houve quase mais 39 mil mortes do que nascimentos. E, além do forte impacto no saldo natural negativo, a pandemia também baixou os casamentos para o menor número desde que há registos. A (única) boa notícia é que a taxa de mortalidade infantil é a mais baixa de sempre.

O menor número de casamentos desde que há registo e um fortíssimo agravamento do saldo natural negativo. Não foi preciso muito para se fazerem notar os efeitos colaterais da pandemia nas estatísticas vitais dos portugueses. Ainda assim, o aziago ano de 2020 vai ficar marcado por uma boa notícia: registaram-se menos 41 óbitos de crianças com menos de um ano de idade (205, no total), o que fez diminuir a taxa de mortalidade infantil de 2,8 para 2,4 óbitos por mil nados-vivos. E sim, é a taxa mais baixa observada em Portugal.

Em números absolutos, os nascimentos de crianças de mães residentes em Portugal, fixaram-se nos 84.426, o que traduz um decréscimo de 2153 bebés comparativamente com 2019, equivalente a 2,5%. Esta queda na natalidade não traz surpresas, dado o contexto de instabilidade e medo que atravessaram todo o ano passado e que levaram ao adiamento do projecto de ter filhos. De resto, o chamado “teste do pezinho” mostrou que no primeiro trimestre de 2021 nasceram menos 2898 bebés relativamente ao período homólogo do ano anterior, o que faz perceber que a queda nos nascimentos se deverá manter ao longo deste ano.

Este “afundar” da natalidade poderia não ter um impacto tão grande na estrutura populacional se não tivesse ocorrido no mesmo ano em que os óbitos sofreram um agravamento de 10,3%. Em 2020, morreram 123.358 pessoas, ou seja, mais 11.565 do que em 2019, numa balança a que não é alheia a covid-19, nomeadamente a sua elevada letalidade entre os idosos. Aliás, o INE sublinha que que nos dois primeiros meses do ano passado o número de mortes foi inferior ao de 2019. “A partir de Março, mês em que ocorreram os primeiros óbitos por covid-19, a mortalidade começou a aumentar”, lê-se no documento, que apresenta os meses de Abril, Julho e Dezembro, como aqueles em que a mortalidade atingiu picos.
Mais de 60% das mortes foram de idosos com 80 e mais anos

Só no último mês de Dezembro, morreram mais 29,9% pessoas do que no mesmo mês de 2019. E, ainda que a mortalidade tenha aumentado em todo o país, no Norte esse aumento foi mais alto, tendo chegado aos 14,5%.

A maioria dos óbitos ocorreu em idades avançadas: 86,2% corresponderam a pessoas com 65 e mais anos de idade e mais de metade (60,4%) a idosos com 80 e mais anos. Entre 2011 e o ano passado, a proporção de óbitos de pessoas com 80 e mais anos aumentou 8,1 pontos percentuais.

Resultado: o saldo natural negativo (diferença entre nascimentos e mortes) agravou-se dos -25.214 em 2019 para os -38.932 do ano passado. Há 12 anos consecutivos que Portugal regista um saldo natural negativo. Mas nunca com estes valores. Em 2011, por exemplo, o saldo natural já era negativo mas a diferença entre mortes e nascimentos não passava dos -5992. E, actualmente, segundo as estatísticas vitais do Instituto Nacional de Estatística, o saldo natural passou a ser negativo em todas as regiões do país. Até na região autónoma dos Açores.

À boleia do aumento dos óbitos, aumentaram também as dissoluções de casamento por morte do cônjuge: 45.720 dissoluções, mais 7,8% do que no ano anterior. Em resultado disso, o país passou a contar com 34.973 viúvas e 14.313 viúvos. Esta preponderância das mulheres em situação de viuvez não é nova e decorre em parte da maior esperança de vida feminina.
O menor número de casamentos de sempre

Sem surpresas também, o ano de 2020 vai ficar para a história como tendo sido aquele em que os casamentos bateram no fundo: realizaram-se 18.902 casamentos no total, o menor número de que há registos. Aqui também a pandemia poderá ajudar a explicar esta queda tão drástica, já que foram vários os meses em que o confinamento que vigorou de forma intermitente durante vários meses do ano fechou notários e igrejas e inviabilizou a realização de cerimónias como aquela.

Nas contas do INE, o decréscimo comparativamente com o ano anterior (33.272 casamentos) foi de 43,2%. “Na última década, o número de casamentos esteve sempre acima dos 30.000 e, desde que há registos, nunca se verificou um valor tão baixo”, lê-se no documento, que especifica que, dos 18.902 casamentos celebrados no ano passado, 11.985 tinham residência anterior comum, 16.087 foram realizados apenas na forma civil e 445 foram de pessoas do mesmo sexo.

Por causa disso, mas confirmando uma tendência que já vinha de anos anteriores, 57,9% dos 84.426 bebés de 2020 nasceram fora do casamento, isto é, são filhos de pais que não eram casados entre si. Em 2019, a proporção de nados-vivos fora do casamento era de 56,8%. E temos de recuar a 2011 para encontrar um valor em que a proporção de nados-vivos fora do casamento era de menos de metade do total de nascimentos: 42,8%. Nos últimos seis anos consecutivos, os bebés nascidos fora do casamento representaram sempre mais de metade do total de nascimentos.
Mulheres acima dos 35 responsáveis por mais de 33% dos bebés

Se fizermos um zoom por regiões, percebe-se que no Algarve 68,8% dos bebés nasceram fora do casamento. No Norte, essa proporção não ultrapassa os 50,7%. Uma diferença que a maior ou menor presença de estrangeiros e o maior ou menor peso da religião podem ajudar a explicar.

Curiosamente, no primeiro semestre de 2020, o número de nados-vivos até foi superior ao de 2019 (à excepção do mês de Fevereiro), o que vem reforçar a tendência de que foi a pandemia o factor decisivo desta interrupção da curva ascendente dos nascimentos que se vinha observando desde que o país começou a recuperar da crise social e económica do início e meados da década passada.

A descida da natalidade atravessou todo o território, em particular na Área Metropolitana de Lisboa, onde a quebra atingiu os -4,9%, quase o dobro da média nacional.

As mães com mais de 35 anos foram o único grupo onde a natalidade aumentou em cerca de 9,8 pontos percentuais. Em contrapartida, a proporção de nados-vivos de mães com idades entre os 20 e os 34 anos de idade baixou 8,2 pontos percentuais. Este é, ao contrário das mulheres com mais de 35 anos, o grupo etário onde o projecto da parentalidade pode continuar a aguardar por melhores dias. De resto, 33,7% dos nascimentos de 2020 foram de mães com mais de 35 anos de idade, ligeiramente acima dos 33,3% de 2019.

3.2.21

Menos nascimentos, mais mortes prematuras e menor esperança de vida. O efeito “brutal” da pandemia na demografia portuguesa

Joana Gonçalves, in RR

Portugal apresentou em 2020 o maior saldo negativo das últimas cinco décadas e, no mês de janeiro, as mortes abaixo dos 70 anos aumentaram. “Vamos ter um reflexo direto na diminuição da nossa população e na própria esperança de vida”, defende especialista. "Relativamente às situações de mortalidade das pessoas mais jovens, o efeito vai ser mais duradouro."

Da natalidade à esperança de vida, os efeitos da pandemia começam a fazer-se notar e um dos indicadores mais alarmantes é o aumento da mortalidade prematura, que tinha vindo a verificar uma tendência decrescente.

No último mês, aumentaram em Portugal os óbitos de indivíduos com idade inferior a 70 anos. No grupo etário dos 34 aos 69 anos, a média diária de óbitos regista um aumento na ordem dos 139%, face ao mês anterior.

De acordo com os dados do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito, janeiro regista uma média de 98 óbitos diários nesta faixa etária, mais 27 quando comparados com a média de janeiro dos últimos sete anos.

“Este aumento de óbitos é extremamente significativo. Se concentrarmos a nossa atenção nesta mortalidade prematura, abaixo dos 70 anos, verificamos que, efectivamente, há uma inversão desta tendência, que íamos tendo nos últimos anos, de redução extremamente significativa desta mortalidade prematura”, defende Maria Filomena Mendes.

De acordo com a demógrafa, a mortalidade prematura no país representava cerca de 20% do total de mortes. “Atualmente, esperamos vir a ter mais óbitos em idades abaixo dos 70 anos”, diz.

A especialista acredita que “vamos ter um reflexo direto na diminuição da nossa população e na própria esperança de vida, que podemos vir a verificar já eventualmente em 2020 e sobretudo em 2021, se a situação se mantiver”.

Para Maria Filomena Mendes mais relevante do que a antecipação de uma morte, “o que é importante é perceber-se que estes óbitos eram evitáveis”.

“É preciso perceber e é preciso corrigir o mais rapidamente possível esse tipo de situações, para que não possamos vir a ter, não só nas próximas semanas, mas também nos próximos meses, ainda um número de óbitos muito acima daquele que era esperado nas idades mais jovens, sobretudo provocadas por situações que elas próprias eram evitáveis”, diz a especialista.

O maior saldo negativo dos últimos cinquenta anos

Portugal apresentou em 2020 o maior saldo negativo dos últimos cinquenta anos. Os dados provisórios apontam para um número de óbitos que supera em quase 38 mil o número de nascimentos em território nacional.

De acordo com dados preliminares do Instituto Nacional de Estatística, entre janeiro e dezembro do ano passado, morreram 123.409 pessoas em Portugal, mais 12.200 do que a média dos cinco anos anteriores.

Já o número de “testes do pezinho”, avançados pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, no âmbito do Programa Nacional de Rastreio Neonatal (PNRN), e habitualmente muito próximos das estatísticas finais de nados-vivos, dão conta de 85.456 recém-nascidos estudados em 2020.

Os números mostram, por isso, que o país apresenta um saldo natural negativo que se traduz em menos 37.953 habitantes.

O aumento de mortalidade explica parte do problema, mas Maria Filomena Mendes adianta que “no final do ano [de 2020] tivemos um efeito bastante significativo em termos da redução da natalidade”.

Um efeito que deve continuar a aumentar nos próximos meses. “Esperamos que agora nestes meses de janeiro, fevereiro e eventualmente com o pico que estamos a atravessar, ainda tenhamos um efeito muito mais significativo de redução de uma natalidade em Portugal que já era bastante baixa”, afirma.

A degradação da qualidade de vida e, sobretudo, a incerteza representam um papel determinante no momento da decisão. “Há uma tendência natural de evitar ou de adiar o nascimento para momentos menos incertos, em que também se tenha um pouco mais de expectativa em relação aquilo que pode acontecer num futuro próximo”, explica a demógrafa.

Decréscimo da esperança média de vida

Para Maria Filomena Mendes é evidente que “em todas as variáveis demográficas, vemos efeitos muito significativos e começam, desde logo, na mortalidade”. Já este indicador desempenha um papel fundamental na esperança média de vida dos portugueses, “bastante elevada, quer no caso dos homens, quer no caso das mulheres”.

De acordo com a especialista, os acréscimos da esperança de vida têm sido conseguidos, sobretudo mais recentemente, à custa de um aumento da esperança de vida nas idades mais avançadas.

“Ora esta pandemia tem tido um efeito extraordinariamente significativo, e nos últimos dias e nas últimas semanas brutal, no número de óbitos de pessoas com idades muito avançadas. Também aqui há mortes evitáveis, provocadas pela Covid-19 e também por outras patologias, não Covid-19”, adianta a demógrafa.

“Relativamente às situações de mortalidade das pessoas mais jovens, ou da mortalidade prematura, o efeito vai ser mais duradouro”, defende.


O número médio de anos que uma pessoa ainda tem para viver depois de chegar aos 65 tem-se fixado nos 19,61 anos, ou seja, a esperança de vida aos 65 anos aproxima-se das duas décadas. Com o aumento de óbitos abaixo desta idade, “é como se essas pessoas deixassem de viver, em média, por mais de 20 anos”.

“Iremos ter aqui meses, eventualmente alguns anos, até conseguirmos - não inverter a tendência, porque isso esperamos consegui-lo passado este período tão negro - mas eventualmente recuperar para valores que teríamos antes de tudo isto acontecer”, diz Maria Filomena Mendes .

Em Portugal, já morreram mais de 13 mil pessoas, devido ao novo coronavírus. As vítimas colaterais ainda estão por contabilizar.

18.1.21

Nunca se morreu tanto em Portugal

Marta F. Reis, in Sol

Não há registos de tantos dias seguidos com mais de 500 mortes. Frio pode passar, mas não se prevê o pico na covid-19.

Há 11 dias que morrem diariamente no país mais de 500 pessoas. Mortes por todas as causas, que incluem a covid-19, outras doenças, descompensadas ou não pelo frio intenso que vive no país, cancros, ataques de coração, AVC, acidentes. As causas não estão ainda codificadas, o que só acontece mais tarde, mas não há registos de um período com uma mortalidade diária desta magnitude. Dados dos últimos 40 anos, fornecidos ao Nascer do SOL pelo Instituto Nacional de Estatística, mostram que desde 1980 tinha havido apenas 12 dias com mais de 500 óbitos no país. Registos de quatro décadas que, a manter-se a tendência da última semana e meia, serão hoje ultrapassados, em apenas 16 dias de um mês de janeiro mais frio do que o habitual e com a epidemia de covid-19 em níveis extremamente elevados de disseminação.

Mais mortes por covid-19 do que as que constam nos boletins?

O número de óbitos tem estado em patamares tão elevados que o sistema nacional de vigilância de mortalidade sofre diariamente, quase hora a hora, atualizações maiores do que é habitual. A plataforma do Ministério da Saúde regista em tempo real certificados de óbitos, que geralmente só são consolidados ao fim de alguns dias. Durante esta semana houve acertos de dezenas de óbitos de uns dias para os outros. A última segunda-feira registava já na terça-feira ao final do dia 630 óbitos, mais do que os reportados no próprio dia. Entretanto os registos foram atualizados e ontem os registos já apontavam 659 mortes nesse dia. Há agora cinco dias com mais de 600 mortes desde o passado domingo, quando, em 40 anos, apenas em junho de 1981, numa vaga de calor, houve dois dias em que esse patamar foi ultrapassado. Comparando com há um ano, com uma época de gripe de intensidade baixa – este ano a gripe continua ainda mais residual – morreram diariamente nos últimos sete dias mais 221 pessoas do que na mesma semana de 2020.

O Nascer do SOL tentou esclarecer junto da Direção Geral da Saúde se, perante os acertos diários que têm estado a ser registados no SICO, o sistema de registo de óbitos na base da plataforma de vigilância de mortalidade, estão também a ser reportadas mortes adicionais de covid-19 em relação às que são reportadas diariamente nos boletins que ‘fecham’ à meia-noite do dia em causa, questão que não foi respondida até ao final da semana. Ao longo dos últimos dias, as mortes associadas à epidemia passaram os máximos dos últimos 10 meses mas, havendo atrasos no reporte, poderão ser superiores. Este quinta-feira registou um recorde de 159 mortes associadas à epidemia. Só desde o início de janeiro contabilizam-se 1571 mortes de pessoas infetadas com covid-19, quando o recorde tinha sido em dezembro, quando se registaram 2395 óbitos relacionados com o SARS-CoV-2. Manuel Carmo Gomes adiantou ao Nascer do SOL que as projeções apresentadas na reunião do Infarmed estão já ultrapassadas e que neste momento não conseguem projetar quando poderá verificar-se o pico de óbitos e qual a magnitude. Na altura, previram que até 9 de fevereiro o país poderia chegar às 12 mil mortes associadas à epidemia, o que implicaria mais 4 mil mortes até lá. Receia-se que sejam mais.

O número de idosos infetados é um dos preditores e este mês os diagnósticos neste grupo etário estão também a aumentar. Desde o início do ano contabilizavam-se ontem nos dados facultados pela DGS já mais de 16 mil idosos com 70 ou mais anos infetados, quando em novembro e dezembro o recorde neste grupo etário aproximou-se de 20 mil infeções diagnosticadas. Só nos primeiros 14 dias do ano foram diagnosticados com covid-19 mais de 9 mil idosos com mais de 80 anos quando em todo o mês passado foram 11 mil. Na reunião no Infarmed, o epidemiologista Henrique Barros referiu os primeiros 3 mil casos, estimando que poderiam morrer 600. Agora são mais do triplo, o que significa que são expectáveis 1800 mortes só entre os idosos acima dos 80 diagnosticados nas últimas duas semanas. Os médicos já alertaram para um aumento da letalidade quando existe maior pressão sobre os serviços, como a que se vive.

14.1.21

Em 2020, morreram mais pessoas do que era esperado em Portugal. Como, onde e porquê?

in Expresso

O ano que agora acabou foi desastroso para a saúde, com uma pandemia que, direta ou indiretamente, fez disparar o número de óbitos em Portugal. Qual a dimensão do excesso de mortalidade? Em que idades ele se deu? E em que regiões? Jornalismo de dados em 2 minutos e 59 segundos

Segundo a metodologia do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge, as linhas de base são calculadas de forma independente para cada estrato etário. Por isso, o excesso de mortalidade em cada faixa etária apresentado no episódio é superior ao total nacional.

Ao Expresso, Ana Paula Rodrigues, médica de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do INSA, explica que a análise detalhada às causas de morte que está a ser feita pela DGS só será conhecida mais para a frente em 2021. Pode ler mais detalhadamente sobre isto aqui.

18.11.20

https://eco.sapo.pt/2020/11/18/e-necessario-repensar-as-politicas-de-habitacao-diz-presidente-da-gebalis/

in DN

Os alarmes soaram assim que o INE começou a publicar os dados sobre mortalidade em Portugal. De 2 de março até 1 de novembro, morreram mais 8686 portugueses, quase seis mil fora do contexto hospitalar. Para o diretor do maior serviço hospitalar de medicina interna do país, Jorge Almeida, a principal causa de morte é as pessoas "não procurarem cuidados de saúde".

Há quem diga que a covid-19 tem uma marca muito forte associada à morte, à solidão da morte, de quem parte e de quem fica, por não haver a proximidade da despedida. Mas a pandemia está a deixar agora mais uma marca na morte, a do medo. "O medo de ir ao hospital para não serem infetados com a covid", dizem-nos. Mas esse medo já se está a traduzir em mais mortes em casa, ou fora do contexto hospitalar.

De acordo com os dados agora publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), nestes meses oito meses morreram 77.249 portugueses, mais 8686 óbitos do que no mesmo período homólogo, dos últimos cinco anos, e, destes, 31.124 morreram fora dos hospitais, mais 5817 do que o registado também no período entre 2015 e 2019. "Mais de dois terços do acréscimo de óbitos entre 2 de março e 1 de novembro, relativamente à média dos últimos cinco anos, ocorreu fora dos hospitais", conclui o INE.

Os dados do INE são recolhidos através das certidões de óbito não referindo causas ou locais, mas ao DN o médico Jorge Almeida, diretor do maior serviço de medicina interna do país, que integra o Hospital São João, no Porto, explica: "A maioria morreu em casa, porque só uma ínfima parte das mortes ocorrem na rua ou em instituições."

Um cenário que já nada tem a ver com o que se considera habitual. "A maioria das pessoas morre hoje nas enfermarias dos hospitais", sustenta Jorge Almeida, mas "quando passámos março e abril e começámos a ver camas vazias percebemos que os doentes não estavam a vir aos hospitais para se tratarem", argumenta.

Mais 5817 mortes fora do contexto hospitalar e mais 2868 nos hospitais; por covid até 15 de novembro, foram 3305.

Segundo os dados do INE, 46.125 morreram no contexto hospitalar e 31.124 fora, numa leitura comparativa com o aumento do número de mortes em relação aos cinco anos anteriores; só houve 2868 mortes a mais nos hospitais, enquanto houve mais 5817 em casa ou fora dos cuidados de saúde.

Há ainda a salientar que do total de mortes nestes oito meses, até ontem, domingo 15 de novembro, embora os dados do INE sejam só até ao dia 1, apenas 3381 é que têm como causa de morte covid-19, "uma ínfima parte da totalidade de mortes", comenta o médico do Hospital São João.

Diretor do serviço de medicina interna do Hospital São João confessa que a imagem impactante que a covid-19 está a deixar é a do aumento do número de doenças neoplásicas em estádio muito avançado sem hipótese de tratamento.

Quais as doenças que estão a matar mais os portugueses? Serão as doenças do coração? As neoplásicas? Os acidentes de viação? A resposta não é simples, mas há uma que é excluída de imediato pelo médico do Porto: "Há muito menos trauma provocado por acidentes de viação, e que em outros anos se reflete num número significativo de mortes."

Segundo o médico do Hospital São João, "desde março que houve uma redução no número de mortes por trauma, devido a acidentes de viação. Notou-se uma ligeira subida, mas nada comparado com o habitual, entre julho e agosto, nos meses em que desconfinámos e as pessoas voltaram à estrada para irem de férias. Agora voltou a diminuir". Aliás, "a maioria do trauma que tem chegado às nossas urgências tem a ver com quedas, sobretudo de idosos em casa e que depois acabam por ter complicações graves", pormenoriza.

"Maior causa de morte foi não terem ido aos cuidados de saúde"

Jorge Almeida não tem dúvidas de que a maior causa de morte durante este tempo de pandemia foi "as pessoas não terem procurado os cuidados de saúde", sublinhando: "Não porque não houvesse capacidade de resposta por parte das unidades de saúde, mas porque tinham medo da covid-19, de serem infetadas, e deixaram-se ficar em casa, deixaram agravar o seu estado de saúde ao não procurarem cuidados."

Questionada pelo DN, Direção-Geral da Saúde (DGS), à qual compete a codificação das causas de morte dos portugueses anualmente, recusou fazer avançar com qualquer tipo de informação, respondendo apenas haver "um grupo de técnicos a trabalhar nas causas de morte, mas a codificação das causas de morte não estará completa antes do final do ano".

Jorge Almeida - que chefia um serviço com 261 camas, que agora com a covid-19 chega a ultrapassar as 300, já que tem 209 no polo do Porto, 32 no polo de Valongo, 11 na unidade de cuidados intensivos intermédios, nove na unidade de AVC e mais 50 a 60 para responder à pandemia - conta ao DN que a única diferença em relação aos outros anos foi mesmo "os doentes não virem ao hospital, quando vieram o estado era tão grave que já não era possível ajudá-los".


"Tivemos um aumento significativo de doenças neoplásicas que chegaram aos serviços num estadio muito avançado, já com hipóteses diminutas de tratamento."

Explicando: "Quando as doenças crónicas chegam a nós completamente descompensadas, já não temos grande margem de atuação. Nos primeiros meses da pandemia chegámos a ter só 20% a 30% de ocupação de camas no serviço, ou seja, só 20% a 30% dos doentes não covid é que estavam a procurar os nossos cuidados, quando a taxa de ocupação normal é de 98% a 100%."

No seu serviço esta situação deixou uma imagem que diz ter sido "muito impactante" e que teve a ver com "o aumento significativo de doenças neoplásicas num estádio muito avançado e já com hipóteses diminutas de tratamento". O médico reconhece que é uma realidade local, pode não espelhar a realidade do resto do país, neste momento não há dados oficiais que comprovem ter havido um maior número de mortes por cancro, mas no seu serviço "foi uma imagem que nos marcou", desabafa. " Falharam os sinais de alerta para estas pessoas, quanto às outras causas de morte não nos espantou. Temos uma mortalidade no serviço da ordem dos 8,9% ou 10% que não aumentou nestes meses e que as causas de morte são muito semelhantes ao que registámos em anos anteriores ", afirma.

O médico reafirma que "os cuidados não foram negados, os serviços estavam abertos e tínhamos capacidade para os tratar nessa altura, mais do que agora, em que estamos com muito mais dificuldade nas respostas, mas não vieram, e isto é absurdo".

Jorge Almeida refere que o grande pico de mortalidade a que assistiu no seu serviço foi em junho e julho deste ano, que provavelmente coincidiu com os "momentos de calor inusitado, o que é normal, porque as pessoas com doenças crónicas tendem a piorar em duas circunstâncias de extremo calor e de frio, quer um quer outro são mecanismos diferentes, mas semelhantes ao mesmo tempo, porque obrigam o corpo a funcionar como uma atividade maior que já não tem".

No entanto, o diretor de serviço diz que numa situação destas não culpa o doente que não procurou os cuidados de saúde. "Nunca culpo o doente, a culpa do doente é a culpa de todos nós. Muitos dos doentes não poderiam ter chegado aos serviços sozinhos, teriam de ser trazidos por terceiros, e não foram."

Maior aumento do número de mortes no país ocorreu no norte, refere INE.


Explica ainda que "há sempre uma causa de morte com maior prevalência e que está ligada às doenças respiratórias nas alturas sazonais, mas isso nem se está a observar muito neste ano, tivemos uma primavera suave, também não muito calor no verão, e o frio ainda não está a ser intenso. O que há também são as causas de morte por descompensação das doenças crónicas e cardiovasculares."

Maior aumento de mortes ocorreu na região Norte

De acordo com os dados do INE, o maior acréscimo de óbitos durante estes oito meses ocorreu na região Norte, com exceção da última semana de junho, das primeiras de julho, das últimas de setembro e primeira de outubro, em que foi superior na Área Metropolitana de Lisboa. O médico do Hospital São João confirma que o "impacto maior de óbitos no seu hospital foi sentido até junho, depois a curva atenuou, agora voltou a aumentar".

Contudo, alerta para o facto de continuarmos todos muito focados na realidade da covid-19, que "se traduz numa ínfima parte da mortalidade dos portugueses", quando, "infelizmente, a morte é um condicionalismo do ato médico e da vida e, neste momento, já vamos quase com um total de 80 mil mortes, por covid são umas três mil. Isto significa que é preciso olhar para os outros portugueses".

A experiência acumulada no seu serviço em relação aos anos anteriores revela que a morte anda à volta dos 8% a 10% no seu serviço, sendo certo que "é um dos serviços com menor mortalidade, maioria acima dos 75 anos. Os dados do INE indicam que Portugal está a seguir a tendência europeia em relação à mortalidade, até nas faixas etárias em que mais de 70% dos óbitos foram de pessoas com idades iguais ou superiores a 75 anos, mais mulheres do que homens, respetivamente 38.987 e 38.262, o que dá um aumento de 4953 de mortes no sexo feminino e de 3732 no sexo masculino.

Para um médico, um doente é um doente, "não sou um herói, sou médico", dizendo esperar estar enganado, pois sabe que "vai ser difícil manter a resposta aos doentes não covid. O meu hospital preparou-se para isso, estamos a fazer tudo para o manter, tem sido pedido um esforço aos profissionais, mas na primeira fase não estávamos cansados, agora estamos. Mas vamos conseguir, claro que sim."

24.7.20

Morreram mais 615 pessoas do que seria esperado na última semana

Marta F. Reis, in Ion-line 

Mortalidade aumentou desde o início do mês e só nos últimos sete dias de intenso calor morreram mais 615 pessoas do que é considerado esperado. Nos idosos, o excesso de mortalidade é maior do que no pico da covid-19, em abril. “Temos um milhão de doentes crónicos que precisamos de acompanhar”, alerta médico.

A mortalidade por todas as causas tem estado a aumentar desde o início de julho e a tendência agravou-se nos últimos dias de intenso calor. Só nos últimos sete dias, revelava ontem o sistema de vigilância de mortalidade (eVM), houve mais 615 mortes do que seria esperado nesta altura do ano. A plataforma indica que o excesso de mortalidade se verificou nos idosos, em particular acima dos 75 anos, em que o pico de mortalidade foi maior do que o que se verificou no pico da epidemia de covid-19, em abril. No final da semana passada, a Direção-Geral da Saúde já tinha indicado que desde o início de julho se tinham registado 919 óbitos acima do esperado para esta altura do ano, coincidindo com os dias de maior calor. Esta semana não foi ainda feito um ponto de situação, mas só este mês já terá mais de mil mortes acima do expetável, isto numa altura em que, apesar de um aumento ligeiro da mortalidade por covid-19 nas últimas semanas, a epidemia dá sinais de abrandamento. Nos dias de verão, a média diária de mortes costuma rondar as 250 a 300, mas na última semana houve quatro dias com 400 óbitos.

Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, admite ao i preocupação com o aumento da mortalidade por todas as causas, tendo em conta o facto de a tendência se verificar já há vários dias e de o tempo quente poder manter-se nos próximos meses. O médico sublinha que o calor pode levar ao agravamento e descompensação de doença crónica, mas o receio é de que esteja também a refletir-se neste aumento da mortalidade a quebra no acompanhamento médico de doentes crónicos e idosos nos últimos meses. “Sabemos que seria algo expetável, mas são dados preocupantes”, diz o médico, lembrando os estudos que já tinham alertado para que o excesso de mortalidade registado em alguns períodos dos últimos meses era superior aos óbitos atribuídos à covid-19, uma situação que os períodos de maior calor durante o verão poderá agravar. “É bem possível que este ano tenhamos dois óbitos não covid além do esperado por cada óbito covid, o que não é uma situação razoável”, considera o médico, sublinhando que a resposta que o país tem dado à epidemia e que tem resultado numa baixa mortalidade associada ao novo vírus não deve descurar a análise do impacto na restante população e nas necessidades de assistência. “Temos um problema que estávamos à espera que acontecesse a qualquer momento e que não sabemos qual será a dimensão dele, que é o aumento da mortalidade por efeito da covid-19 mas não diretamente ligado à covid-19, que é o que parece estar a acontecer, e não me parece que tenhamos ainda consciência total do que poderão ser os efeitos da epidemia nos outros doentes”, diz Rui Nogueira. “Temos um milhão de doentes crónicos que precisamos de acompanhar e nos últimos meses estivemos muito concentrados na covid-19, tendo tido um pico de 20 mil casos ativos, agora menos, mas na maioria dos casos ligeiros. Sabemos que o calor aumenta o risco de descompensação, seja de situações de diabetes ou insuficiência cardíaca, e temos tido esses casos, mas esses são os doentes que vamos vendo. Temos consciência de que ainda estamos a ver menos doentes do que devíamos ver”. Rui Nogueira alerta ainda para outros casos em que poderá refletir-se o efeito de diagnósticos tardios, que poderá também contribuir para um aumento da mortalidade.

Em Inglaterra, um estudo divulgado este mês estimou que a epidemia poderá levar a um aumento de pelo menos sete mil mortes por doença oncológica no espaço de um ano, podendo chegar a 35 mil mortes adicionais. “Neste momento o calor deve ser o grande responsável por descompensação de doença de base que contribui para o aumento da mortalidade, não creio que possamos pensar na covid-19 pois não temos tido casos para isso e a mortalidade tem estado relativamente baixa, mas poderemos ter uma conjugação de fatores daqui para a frente. Não é possível estarmos tantos meses sem atividade normal e a ver menos doentes sem haver um impacto”, diz o médico, sublinhando que o medo continua a levar doentes a adiar idas aos centros de saúde e hospitais. “Temos de conseguir aprender a viver com este vírus, pois a situação à partida não ficará melhor do que agora, sobretudo no inverno, quando teremos os vírus respiratórios habituais mais a covid”.

A DGS tem associado o aumento recente da mortalidade ao calor, sendo que desde 10 de julho se verificou uma onda de calor em vários pontos do país. Nas últimas década foram registados fenómenos semelhantes de aumento da mortalidade durante vagas de calor. Em 2013, uma onda de calor também nesta altura do ano foi associada a um excesso de 1684 mortes, na altura um aumento de 32% face ao esperado. Nesse verão chegou a haver um dia com perto de 500 mortes, um registo que só foi ultrapassado há dois anos. A 6 de agosto de 2018 morreram no país 508 pessoas, tendo sido o dia com mais mortes de que há registo um verão.

As curvas da mortalidade estão a ser acompanhados por diferentes grupos de investigação mas a análise é neste momento complexa, alertou ao i um investigador, recusando que para já seja possível tirar ilações e sublinhando que é particularmente difícil comparar períodos homólogos dos últimos anos com o que se vive este ano e nesse sentido perceber o que seria expectável para calcular o excesso de mortalidade.

Além do efeito do confinamento, associado a uma redução de acidentes, mesmo agora, o uso de máscaras mais generalizado e maior fiscalização nos lares pode ter um efeito protetor de algumas causas de mortalidade, um fator que também terá de ser tido em conta numa análise mais detalhada da mortalidade, exemplifica o mesmo investigador, isto ao mesmo tempo a que se assistiu a uma redução da assistência médica, o que pode levar a maior descompensação de doenças, fatores diferentes dos que estavam presentes noutros verões e ondas de calor.

10.4.12

Mais 11 países, além de Portugal, reportam excesso de mortes de idosos

Por Alexandra Campos, in Público on-line

O excesso de mortalidade chegou a ser correlacionado com as dificuldades no acesso aos serviços de saúde, mas estudo atribui o fenómeno ao regresso da estirpe da gripe que afecta sobretudo os idosos

Portugal não foi o único país da Europa a registar, em Fevereiro e Março, um elevado número de mortes entre os idosos. Em mais 11 países, dos 14 que forneceram dados, verificou-se um excesso de mortalidade (total de óbitos acima do valor esperado para esta altura do ano) na população com idade igual ou superior a 65 anos, revela a revista Eurosurveillance, publicada pelo Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças. A Alemanha e a Dinamarca constituíram as excepções.

O excesso de mortalidade observado neste Inverno desencadeou grande polémica em Portugal. Após várias semanas consecutivas com um número de mortes muito elevado, vários especialistas em saúde pública e políticos vieram a público defender que este fenómeno poderia ter que ver com as crescentes dificuldades no acesso aos serviços de saúde e com a crise económica.

Os responsáveis da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) atribuíram desde o início o excesso de óbitos ao período de frio extremo, em conjugação com a ocorrência tardia da epidemia de gripe, aliado ao facto de, este ano, a estirpe do vírus predominante ser a A(H3N2), que afecta sobretudo os idosos.

Enfatizando a natureza preliminar desta análise, os especialistas que assinam o artigo da Eurosurveillance defendem agora que o "regresso" desta estirpe do vírus da gripe deverá ser, de facto, o principal factor que explica o acréscimo da mortalidade, associado à vaga de frio que se fez sentir na Europa. E isto porque, nos dois Invernos anteriores, a estirpe em circulação foi a do vírus pandémico, a A(H1N1), que afecta sobretudo os mais jovens e poupa os mais idosos.

"O que estes dados demonstram é que, independentemente das diferenças económicas e sociais, este Inverno houve um excesso de mortalidade na maior parte dos países. E tudo aponta para que isto resulte do H3N2 e do frio, sobretudo da duração do período de frio", comenta o pneumologista e consultor da DGS Filipe Froes. "Devemos, mesmo assim, continuar a analisar o eventual impacto que as medidas tomadas (como as taxas moderadoras) podem ter no acesso aos cuidados de saúde e o impacto das dificuldades económicas" neste fenómeno, acentua.

O excesso de mortalidade tem sempre "uma explicação multifactorial, mas a hipótese que parece mais plausível é a das características do vírus", reforça o presidente do INSA, José Pereira Miguel. "Ninguém pode afastar os efeitos da crise, mas os fenómenos sociais demoram mais tempo a produzir efeito", nota Pereira Miguel, que diz que vai ser necessário aguardar mais alguns meses até que o estudo sobre as causas da mortalidade esteja concluído.

Seja como for, há muitas diferenças entre a progressão da epidemia de gripe e a mortalidade observada entre os vários países analisados no artigo da Eurosurveillance. Os gráficos permitem perceber que, em Portugal, Espanha, França e Bélgica, o pico do excesso de mortalidade foi mais acentuado do que o registado nos outros países. E a mortalidade por todas as causas entre os idosos esteve acima da linha de base durante sete semanas em Portugal, em Espanha e na Bélgica, enquanto na Irlanda e na Grécia isso aconteceu apenas durante uma semana.

Por outro lado, se numa grande parte dos países analisados o excesso de mortalidade coincidiu com o crescimento da actividade gripal (como aconteceu em Portugal), noutros, como a Bélgica, a Suécia e a Holanda, as mortes começaram a exceder o esperado ainda antes de a epidemia de gripe se manifestar. O que significa, concluem os especialistas, que a gripe não explica tudo e que haverá "outros factores" a considerar.

4.4.12

Em três meses, morreram mais 1385 pessoas no Norte do que em 2011

Por Alexandra Campos, in Público online

Entre 1 de Janeiro e 4 de Março deste ano, morreram no Norte mais 1385 pessoas do que no mesmo período de 2011, adiantou hoje a Administração de Saúde desta região. O pico da mortalidade por todos os tipos de causas aconteceu na semana entre 13 e 19 de Fevereiro, enquanto em todo o país ocorreu numa semana mais tarde, revela a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, que amanhã vai apresentar os seus dados epidemiológicos sobre a gripe sazonal.

Neste Inverno, o início da actividade gripal foi mais tardia do que em épocas anteriores e o pico observado foi de “maior magnitude” do que o que se registou nas duas épocas gripais anteriores, refere a ARS, citando os resultados do programa regional de vigilância de gripe – a nível nacional há um programa coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

De acordo com o relatório que resultou desta vigilância, a actividade gripal nos serviços de urgência teve um pico na semana de 20 a 26 de Fevereiro e foram os grupos etários mais extremos (crianças com 10 ou menos anos ou adultos com 60 ou mais anos) os que mais procuraram aqueles serviços por síndrome gripal. Em 8,7% dos casos houve necessidade de internamento e registaram-se 59 óbitos por este motivo.

A ARS do Norte nota que, de acordo com os dados divulgados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, observou-se um aumento de mortalidade por todas as causas, principalmente nas pessoas mais idosas, em vários países europeus, “não sendo ainda possível explicar esse excesso de mortalidade”.

Em todo o país, depois de sete semanas consecutivas de mortalidade acima do esperado para este altura do ano, o número de óbitos voltou aos níveis normais, indica o último boletim de vigilância epidemiológica da gripe, divulgado pelo Instituto de Saúde Ricardo Jorge. Na semana de 19 a 25 de Março, a mortalidade por todas as causas voltou a estar “de acordo com o esperado”, refere o boletim. Os dados precisos sobre o número de óbitos acima do esperado registados durante a epidemia de gripe a nível nacional não foram ainda divulgados.

Hoje, no Parlamento, segundo a Lusa, o secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Leal da Costa, reafirmou aquilo que já tinha sido anunciado na semana passada pelo director-geral da Saúde:“Para o ano vamos incluir no Plano Nacional de Vacinação a obrigatoriedade da vacina sazonal a todos os doentes em risco, de forma a que através dos cuidados primários essa vacinação integral seja cumprida”.

O director-geral da Saúde, Francisco George, já tinha manifestado preocupação com o défice de cobertura que a vacina tem em grupos de risco. “Os portugueses não dão a devida importância à gripe. Estimávamos que a gripe era responsável pela morte de 1500 portugueses por ano. Agora sabemos que em média 2400 portugueses morrem por gripe todos os anos”, revelou.

3.3.12

Aumento da mortalidade também tem a ver com a pobreza

António Louçã, in RTP

O director da Faculdade de Medicina do Porto, Agostinho Marques, admitiu hoje, em declarações à Antena 1, que o aumento da mortalidade registada em fevereiro poderá estar relacionado com as limitações materiais dos grupos de risco para se protegerem contra o surto de gripe.

O aumento do número de mortes em fevereiro, relativamente ao período homólogo do ano passado, tinha suscitado uma primeira explicação por parte do director-geral da Saúde, Francisco George: "Estamos perante um padrão esperado quando circulam estas estirpes do vírus da gripe associadas às semanas frias do ano".

Também segundo Agostinho Marques, "houve um pico de gripe e a gripe é determinante no aumento de mortalidade de pessoas de idade". Até aqui, a explicação do penumologista e director da Faculdade de Medicina do Porto nada acrescenta à de Francisco George. Mas depois vem o ponto mais melindroso.
"As pessoas não ligam o aquecimento"Com efeito, Agostinho Marques observa que "o mês de Fevereiro teve um frio excepcional numa época de crise económica em que as pessoas não ligam o aquecimento". Ao impedir um uso adequado dos sistemas de aquecimento, a falta de dinheiro terá, assim, agravado as consequências da gripe, sobretudo no caso de pessoas idosas.

A este factor social agravante da mortalidade, acresce segundo Agostinho Marques um outro, menos determinado pela conjuntura: "Num país que tem uma cobertura vacinal relativamente baixa, há um número muito grande de pessoas de idade que ainda não fazem vacina da gripe".

Na entrevista à Antena 1, Agostinho Marques sustenta também: "As pessoas de idade que morreriam durante este inverno em grande parte terão morrido durante o mês de fevereiro". Se assim for, será expectável para as próximas semanas uma baixa da mortalidade em relação ao período homólogo dos anos anteriores.O tabaco mata - e a Troika?O vínculo entre os indicadores da saúde e o agravamento da crise económica não é novo nem se verifica apenas em Portugal. A conjugação de factores como a gripe e as limitações ao aquecimento não é, por outro lado, a única manifestação desse vínculo.

Segundo um estudo do sociólogo David Stuckler recentemente publicado na revista médica britânica The Lancet, a Grécia registou em 2010 um aumento de 24 por cento nos internamentos hospitalares em relação ao ano anterior. E, em 2009, registou um aumento de pelo menos 17 por cento no número de suicídos em relação a 2007. E, dois anos depois, em 2011, esse aumento atingiu os 40 por cento em relação a 2010.

O suicídio é. aliás, um dos indicadores mais sensíveis que ligam a crise económica e a saúde pública. Segundo Cinthia Briseño, em DER SPIEGEL, a crise económica japonesa traduziu-se em 1999 num acréscimo de 30.000 suicídios. No final da década seguinte, uma equipa de sociólogos britânicos investigou o comportamento deste indicador no contexto de várias crises económicas entre 1970 e 2007, chegando à conclusão categórica: "Há uma ligação linear entre a taxa de suicídios e o PIB".

Uma hipótese de trabalho que até aqui não foi, que se saiba, explorada pelos responsáveis da saúde pública em Portugal foi a que liga o aumento da taxa de mortalidade às dificuldades crescentes dos utentes para recorrerem ao Serviço Nacional de Saúde.

Ao contrário de Portugal, essas dificuldades não se manifestam no caso grego através de um aumento de taxas moderadoras. E, no entanto, também na Grécia a política de austeridade tem atingido duramente a prestação de cuidados médicos, com um corte de 40 por cento na respectiva despesa. Finalmente, na Grécia esses cortes não se traduzem numa cobrança de taxas moderadoras, e sim numa degradação dos serviços prestados, que desencorajam os utentes e os afastam do SNS.

Especialistas em saúde pública associam excesso de mortalidade à crise económica

Por Alexandra Campos, in Público on-line

Responsáveis da Direcção-Geral da Saúde e do Instituto Ricardo Jorge dizem que perfil de mortalidade das últimas semanas não é anormal, já se registou em períodos anteriores, como em 2008/2009.

Em duas semanas apenas, morreram 6110 pessoas em Portugal, pelo menos mais um milhar do que era esperado para esta altura do ano. Os responsáveis da Direcção-Geral da Saúde (DGS) continuam a atribuir este elevado número de mortes ao período de frio extremo, em conjugação com a ocorrência tardia da epidemia de gripe, mas adiantam que está igualmente a ser estudada uma eventual influência de pequenas alterações observadas na estirpe do vírus da gripe que este ano é predominante, a A (H3N3), que afecta sobretudo os mais idosos e que provoca habitualmente um excesso de mortalidade.

Especialistas como o ex-director-geral da Saúde e professor da Escola Nacional de Saúde Pública Constantino Sakellarides e o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge Santos, vieram ontem a público defender, porém, que os efeitos da crise económica e do aumento das taxas moderadoras devem também ser levados em linha de conta na análise deste fenómeno. "O facto de as pessoas viverem com mais dificuldades", sentidas no acesso "aos medicamentos e à saúde", e de terem a "electricidade mais cara", são "hipóteses plausíveis" para explicar os anormais picos de mortalidade verificados nas últimas semanas, admitiu Constantino Sakellarides, em declarações à TSF.

Além do frio e da gripe, que provocam sempre um aumento da mortalidade no Inverno, a manter-se esta tendência, há outros factores que devem ser investigados, como a "perda de rendimento das famílias e o aumento brutal das taxas moderadoras", defendeu Mário Jorge Neves. "Conheço pessoas que deixaram de ir ao hospital, de comprar medicamentos e de fazer alguns exames complementares de diagnóstico por causa das taxas moderadoras", descreveu.

É preciso ver se as pessoas se estão a vacinar mais ou menos, se retardaram a ida ao médico e se pioraram a sua alimentação, recomenda também Vítor Faustino, coordenador do GripeNet, um sistema de monitorização da actividade gripal. "A gripe mata, mas não pode ser a única explicação. Temos de olhar para todos os lados, não descurar nada, como um detective", afirma o investigador, que lembra que noutros países europeus e nos Estados Unidos não se estão a observar tendências semelhantes. E nos EUA esta foi a gripe mais tardia dos últimos 29 anos.

"São declarações precipitadas", contrapõe o director-geral da Saúde, Francisco George. "Este perfil de mortalidade e de curva epidémica [da gripe] já se registou em anos anteriores, nomeadamente em 2008/2009", ano em que também predominou o A (H3N2), frisa. "Este excesso de mortalidade é da mesma magnitude do observado em 2008/2009", quando houve cerca de 1900 óbitos acima do que era esperado, reforça Baltazar Nunes, bioestatista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), o laboratório nacional de referência da gripe. Recuando mais no tempo, em 1998/99 o excesso de mortalidade foi ainda mais expressivo (8500 óbitos acima do habitual).

O pico de mortalidade começou a ser observado a partir da semana cinco, no final de Janeiro, e tem vindo a crescer desde então. Mas foi na semanas sete e oito (entre 13 e 19 e entre 20 e a 26 de Fevereiro) que se acentuou, com um total de 3030 e 3080 mortes, respectivamente. Estes picos são coincidentes "com um período de frio e uma epidemia de gripe que neste momento está em fase ascendente", diz Baltazar Nunes. O especialista admite que "neste momento todas as hipóteses são passíveis de ser estudadas", até porque só será possível chegar a conclusões depois de desagregadas as causas de morte, mas considera que relacionar o que está a acontecer com a crise é, por enquanto, "muito especulativo".

"É o padrão da actividade gripal do A (H3). Já em 2008 tive de explicar que não se passava nada de anormal, o que é invulgar é que agora se está a assistir em directo [a este fenómeno]", assegura também Paulo Nogueira, especialista em estatística na DGS.

Quanto às pequenas alterações que estão a ser observadas no vírus A (H3N2), também ainda é cedo para adiantar conclusões. "Parece haver uma alteração muito ligeira, que está a ser estudada em vários países", explica Isabel Falcão, da DGS. Destaca que este fenómeno não é raro, mas necessita de ser estudado "em profundidade". É o que está acontecer neste momento, até porque está a ser preparada a vacina para o próximo Outono.