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25.7.23

O segredo para viver mais tempo? Oito mudanças no seu estilo de vida, sugerem investigadores

in Público


Investigadores sugerem que poderíamos viver mais 20 anos se fizéssemos algumas “pequenas” mudanças de rotinas, mesmo que a adopção de hábitos mais saudáveis só aconteça após os 50 anos de idade.

Ter uma alimentação saudável, evitar os cigarros e o stress, fazer exercício e ter relacionamentos sociais positivos. Um grupo de investigadores sugere que estas e outras mudanças do seu estilo de vida (num total de oito) podem ajudar a que viva mais tempo - pelo menos mais vinte anos. Dormir bem, evitar bebidas em excesso e não consumir opióides são os restantes hábitos sugeridos pelos investigadores se quiser ter uma vida mais longa.

O estudo, apresentado na reunião anual da Sociedade Americana de Nutrição em Boston, nos EUA, baseou-se em dados de questionários e registos médicos recolhidos entre 2011 e 2019. No total, a base deste estudo foi feita com informações de mais de 700 mil veteranos de guerra dos EUA com idades compreendidas entre os 40 e os 99 anos.

Os investigadores sugerem que as pessoas poderiam viver mais se fizessem algumas "pequenas" mudanças nas suas rotinas, mesmo que a adopção destes hábitos mais saudáveis ​​só aconteça depois dos 50 anos. “As nossas descobertas sugerem que adoptar um estilo de vida saudável é importante tanto para a saúde pública quanto para o bem-estar pessoal”, refere Xuan-Mai T Nguyen, especialista em ciências da saúde e uma das investigadoras envolvidas no estudo ao The Guardian. “Quanto mais cedo melhor, mas mesmo que façam uma pequena mudança aos 40, 50 ou 60 anos, esta ainda será benéfica”.

Nguyen e a sua equipa colegas analisaram os dados para identificar quais factores estavam associados a uma expectativa de vida mais longa. “Homens e mulheres que adoptem estas oito mudanças podem ganhar 23,7 ou 22,6 anos de expectativa de vida, respectivamente, aos 40 anos, em comparação com quem não adoptou nenhuma mudança”, escrevem os autores.

Sem surpresas, ser fisicamente inactivo, usar opióides e fumar são os factores com associações mais fortes à morte precoce. Os participantes com estes hábitos tiveram um risco acrescido de morte de 30% a 45% durante o período do estudo. Por outro lado, o stress, o consumo excessivo de álcool, dormir mal e ter uma má alimentação foram associados a um risco acrescido de 20%.




19.6.23

Julian Thayer: “Temos de ter compaixão” — esse será o nosso “segredo para sobreviver”

Filipa Almeida Mendes (texto) e Rui Gaudêncio (fotografia), in Público


Especialista em psicofisiologia, com mais de 450 artigos publicados, Julian Thayer explica-nos qual a relação da compaixão com o nervo vago e a variabilidade da frequência cardíaca.


Compaixão: não será certamente difícil recordar a última vez que ouvimos a palavra. Mas quais são as bases fisiológicas da compaixão? O que sabe a ciência sobre este ramo da saúde mental?

Julian Thayer, professor na Universidade da Califórnia e na Universidade Estadual do Ohio (EUA), é especialista em fisiologia humana da compaixão. Várias vezes premiado pelas contribuições no campo da medicina psicossomática, foi também identificado pelo site Web of Science como um “investigador altamente citado”, somando mais de 450 artigos científicos publicados.


Em entrevista ao PÚBLICO, no âmbito de uma conferência a propósito das comemorações do 10.º aniversário do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, o especialista em psicofisiologia fala sobre a relação da compaixão com o sistema nervoso autónomo, especificamente com o nervo vago (o maior nervo craniano), e com a variabilidade da frequência cardíaca.

Como é que surgiu este seu interesse pela fisiologia humana da compaixão?

Estamos a viver tempos conturbados e penso que muitas pessoas têm a ideia de que “a sobrevivência do mais apto” e a agressividade podem ser a melhor forma de encarar a vida. Mas, de facto, estudos recentes sugerem que temos de ter compaixão e que esse será o nosso segredo para sobreviver.

Qual é a relação entre o nervo vago e a variabilidade da frequência cardíaca?

A palavra “vago” deriva da mesma palavra que “errante”. Portanto, é o “nervo errante” e pode pensar-se nele como o regulador de todo o organismo.


Pode dizer-se que a actividade do nervo vago está associada à segurança e ao bem-estarJulian Thayer

No que diz respeito ao coração, em particular, quando inspiramos, o nosso ritmo cardíaco tende a aumentar e, quando expiramos, tende a diminuir — chama-se a isto arritmia sinusal respiratória e representa um bloqueio da actividade do nervo vago. Quando o nervo vago está activo, o coração abranda e, quando está menos activo, o coração acelera.

O nervo vago tem um papel importante a desempenhar na compaixão?

Sem dúvida. Por exemplo, para adormecermos à noite temos de nos sentir seguros e a actividade do nervo vago aumenta à noite (quando o organismo se sente seguro). Por isso, é por vezes chamado o sistema de descanso e digestão porque para comer e descansar temos de nos sentir seguros. Por isso, pode dizer-se que a actividade do nervo vago está associada à segurança e ao bem-estar.


A variabilidade da frequência cardíaca é mais elevada nas pessoas com melhores relações?
Sim, tende a ser mais elevada nas pessoas com melhores relações. Mas se estivermos a tentar gerir e regular as nossas relações, a actividade do nervo vago também será mais elevada.

Por exemplo, juntamente com o meu colega Tim Smith, da Universidade do Utah, fizemos um estudo em que levámos pessoas casadas para o laboratório e as pusemos a discutir tópicos positivos, negativos e sobre um problema na sua relação. Em resposta à discussão deste problema na relação, a variabilidade da frequência cardíaca nas mulheres aumentou, o que demonstrou estar associado à regulação das emoções negativas do parceiro. Ou seja, a variabilidade da frequência cardíaca pode aumentar quando nos sentimos bem, mas também quando estamos a regular activamente as emoções.


Historicamente, o nervo vago já era conhecido. No livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, Charles Darwin fala sobre o trabalho do fisiologista francês Claude Bernard e diz que o coração e o cérebro estão ligados através do nervo vago. Depois, durante mais de 100 anos, não se fez muita investigação sobre o nervo vago — em parte, porque era um pouco difícil de estudar.

Por volta do final da década de 1970, os investigadores descobriram que, se estudássemos a variabilidade da frequência cardíaca do feto, poderíamos saber quando o feto estava em sofrimento e quando fazer uma cesariana e esse tipo de coisas. Foi nessa altura que começaram os estudos modernos sobre a variabilidade da frequência cardíaca e, ao longo desse período de tempo relativamente curto, foram efectuados vários avanços metodológicos.

Penso que uma das descobertas recentes mais importantes são os estudos que envolvem a estimulação eléctrica do nervo vago e o meu colega Vaughan Macefield​, na Austrália, conseguiu agora registar directamente a actividade do nervo vago em seres humanos vivos. A variabilidade da frequência cardíaca é, obviamente, uma medida indirecta, mas o Vaughan​ conseguiu colocar um pequeno eléctrodo no pescoço e estudar e registar directamente a actividade do nervo vago. Penso que é um grande avanço.

Quais são as bases fisiológicas da compaixão?
Aquela ideia da “sobrevivência do mais apto” e a postura mais agressiva podem não ser verdadeiras e uma das maneiras pelas quais as pessoas têm olhado para isso é em termos do que é chamado a “teoria da autodomesticação” — a ideia de que os humanos anatomicamente modernos são autodomesticados.

Um colega meu, na Suécia, Mats Fredricksson, e alguns outros, fizeram um estudo sobre coelhos domesticados e selvagens e descobriram que os coelhos selvagens eram mais stressados e, de certa forma, mostravam-se mais ansiosos em relação a uma ameaça. Porém, quando estes animais foram domesticados, as áreas do seu cérebro associadas à segurança aumentaram e as áreas associadas à ameaça diminuíram — portanto, o seu córtex pré-frontal aumentou e a amígdala diminuiu. Além disso, esses animais domesticados também tinham uma resposta ao medo mais pequena ou atenuada.

O livro Sobrevivência do Mais Amigável: Compreender as Nossas Origens e Redescobrir a Nossa Humanidade Comum [de Brian Hare e Vanessa Woods] sugere que este tipo de interacção entre pessoas requer que nos sintamos seguros. A ideia é que quando os humanos anatomicamente modernos começaram a interagir com os neandertais, para que não se matassem uns aos outros, tinham de ter alguma base de compaixão, associação e representação.Até hoje, continua a ser um mistério para mim como é que Darwin e Claude Bernard sabiam, em meados de 1800, que o coração e o cérebro estavam ligados pelo nervo vago
Julian Thayer

Como define a compaixão?
Um investigador chamado Paul Gilbert, do Reino Unido, fala da compaixão em termos de “uma sensibilidade ao sofrimento em si e nos outros e um compromisso para aliviar o sofrimento”. Eu seguiria provavelmente a mesma definição.

Portanto, envolve duas coisas. Primeiro, temos de reconhecer o sofrimento e, em segundo lugar, temos de fazer um esforço para o tentar aliviar. Se apenas reconhecermos o sofrimento, isso não é suficiente e se apenas tentarmos ajudar aleatoriamente, isso também pode não ser suficiente.

O que pode influenciar a compaixão?
Alguns estudos sugerem que, quando nos sentimos ameaçados, temos menos compaixão. Isto está relacionado com a região pré-frontal do cérebro e este circuito de ameaça na amígdala. Ou seja, quando a actividade pré-frontal é maior, sentimo-nos mais seguros. Com o stress, a actividade do córtex pré-frontal diminui e a actividade da amígdala aumenta — o que significa que o stress pode ter impacto na compaixão, alterando o circuito cerebral.

E a idade?
Participei num estudo com a minha colega Mara Mather, da Universidade do Sul da Califórnia, que analisou a conectividade destas duas regiões cerebrais [amígdala e região pré-frontal] e a sua relação com a variabilidade do ritmo cardíaco e descobrimos que, tanto em jovens como em idosos, a correlação era mais ou menos idêntica. Por isso, é possível ter, naturalmente, uma grande compaixão (talvez até mais) quando se envelhece.

Poderemos dizer que há algo de involuntário na compaixão?
Sim. Nós não pensamos em muitas destas regulações emocionais que fazemos. É tudo mais ou menos automático. Por isso, aquilo a que chamamos “regulação emocional implícita” é, na minha opinião, a principal forma de regulação das emoções em que todos nós nos envolvemos de forma mais ou menos inconsciente e a toda a hora.

Qual é o papel da oxitocina em tudo isto?
Publicámos um estudo, há alguns anos, do qual fez parte um grupo internacional de investigadores, em que analisámos o gene da oxitocina e descobrimos que as pessoas que tinham um determinado genótipo apresentavam uma maior variabilidade da frequência cardíaca e que o apoio social era mais eficaz para as pessoas com este polimorfismo genético específico.

Há alguma controvérsia sobre a administração de oxitocina exógena às pessoas (através de um spray nasal ou algo do género). Mas sabemos que pelo menos a oxitocina endógena está associada a alguns neurónios no cérebro, os neurónios oxitocinérgicos, que regulam o coração e a função cardíaca, particularmente durante o stress. Isto sugere que ter apoio social, particularmente durante um período de stress, pode activar estes neurónios no cérebro e, por conseguinte, levar a uma fisiologia mais tranquila.

Qual é a relação entre a compaixão, o perdão e a culpa?
Há alguns estudos que sugerem que as pessoas com maior variabilidade da frequência cardíaca têm maior tendência para perdoar. Portanto, mais uma vez, o nervo vago está envolvido porque temos de nos sentir seguros e confiantes em nós próprios e no nosso próprio bem-estar para sermos capazes de perdoar a outra pessoa.

Penso que funciona mais ou menos nos dois sentidos, ou seja, o nervo vago está envolvido na capacidade de perdoar os outros indivíduos e, quando os perdoamos, penso que isso também aumenta a actividade do nervo vago.

Como descreveria a relação entre o coração e o cérebro? Qual deles comanda o outro?
Fizemos alguns estudos, ao longo dos anos, sobre a relação entre a actividade do coração e a actividade do cérebro e tentámos ver qual delas vem primeiro.
[Artigo exclusivo para assinantes]

28.2.22

Crianças que vivem próximo de áreas verdes têm melhor desempenho cognitivo


Estudo no Porto mostra que crianças que vivem a uma distância de até 800 metros de espaços verdes públicos apresentaram um maior QI aos dez anos.

Investigadores do Instituto de Saúde da Universidade do Porto (ISPUP) concluíram que as que vivem mais próximas de espaços verdes apresentam um “melhor desempenho cognitivo”, num estudo que envolveu mais de 3800 crianças da Área Metropolitana do Porto.

O estudo, publicado na revista Science of the Total Environment, visava compreender “qual a importância da exposição a espaços verdes e azuis [água] no desenvolvimento cognitivo das crianças” aos dez anos, explica um comunicado do instituto da Universidade do Porto. Para avaliarem se existia uma correlação, os investigadores realizaram um estudo longitudinal que incluiu 3827 crianças, residentes na Área Metropolitana do Porto e que participam na coorte Geração XXI, do ISPUP.

Na investigação foi tida em conta a “densidade de vegetação”, através de imagens de satélite, bem como a distância a pé da residência e da escola das crianças aos espaços verdes urbanos e espaços azuis. A avaliação foi realizada quando as crianças completaram quatro, sete e dez anos.

Os investigadores mediram o quociente de inteligência (QI) aos dez anos, usando o índice de inteligência Wechsler, e concluíram que “as crianças que viviam a uma distância de até 800 metros de espaços verdes públicos, como parques e jardins, apresentaram um maior QI aos dez anos”.

Quanto a exposição a espaços azuis e inteligência, os investigadores “não encontraram uma associação”.

“O estudo veio reforçar a importância dos espaços verdes no desenvolvimento cognitivo das crianças”, salienta no comunicado Diogo Almeida, o primeiro autor do artigo. “Seria importante que, em termos de planeamento urbano, se considerasse melhor a disponibilidade de espaços verdes, sobretudo perto das áreas residenciais”, considera, lembrando que tal beneficiaria a “inteligência das crianças” e se reflectiria “em adultos mais saudáveis e competentes”.

A investigação, intitulada Residential and school green and blue spaces and intelligence in children: The Generation XXI birth cohort, foi desenvolvida ao abrigo do projecto EXALAR XXI, financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização e por fundos nacionais através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).


22.2.22

O que significa “depressão altamente funcional”? Perguntámos a especialistas

Allyson Chiu, in Público on-line

Não é um diagnóstico clínico, mas é um termo que ganhou alguma popularidade. Refere-se a pessoas que lidam com depressão, mas que, aparentemente, não têm qualquer problema, pois são altamente funcionais. Mas quais os perigos e as vantagens da expressão?

Depois de a Miss EUA de 2019, Cheslie Kryst, se ter suicidado a 30 de Janeiro, uma expressão dominou o debate nas redes sociais e nas notícias: “depressão altamente funcional”.

Num comunicado enviado ao Extra, um canal de notícias de entretenimento onde Kryst era correspondente, a sua mãe, April Simpkins, disse que a modelo de 30 anos estava “a lidar com uma depressão altamente funcional, que escondia de toda a gente, incluindo [da mãe], a sua confidente mais próxima — até muito perto da sua morte”.

“Depressão altamente funcional” não é um diagnóstico clínico que possa ser encontrado no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), um manual utilizado por profissionais de saúde. É um termo coloquial que ganhou popularidade nos últimos anos, ainda que alguns especialistas tenham sentimentos contraditórios em relação ao seu uso.

A expressão realça “um ponto bastante importante, que mostra que as pessoas podem estar a sofrer de uma doença mental e, ainda assim, parecerem funcionais ou não parecem doentes para quem observa de fora”, refere Rebecca Brendel, presidente da Associação Psiquiátrica Americana.


Mas, acrescenta Brendel, o termo pode exacerbar a vergonha e a incompreensão acerca da saúde mental e depressão. “Dizer que alguém é altamente funcional, ainda que tenha uma doença mental, aumenta o estigma associado a doenças mentais.”

Aqui fica o que alguns especialistas em doença mental pensam acerca desta expressão cada vez mais comum.

O que é “depressão altamente funcional” e porque pode a expressão ser útil?

“Depressão altamente funcional” é um termo não médico que pode ser usado para descrever algumas pessoas que cumprem os critérios para um diagnóstico clínico de depressão, mas que conseguem ser funcionais no dia-a-dia, de tal forma que a sua condição mental provavelmente não é evidente para os outros e até para eles”, diz Jameca Woody Cooper, psiquiatra e professora auxiliar na Webster University, no Missouri.

Ainda que “altamente funcional” possa ser associado a figuras públicas ou “poderosas”, nem sempre esse é o caso, ressalva Woody Cooper.

Pode ser um professor, uma pessoa que trabalha num centro de dia, um trabalhador de uma cadeia de fast food”, diz. “Toda a gente pode experienciar depressão severa, e todos podem parecer ou apresentar-se como uma pessoa com depressão altamente funcional.”

A depressão clínica é diagnosticada de acordo com um espectro que tem em conta a capacidade funcional da pessoa. Mas a expressão “depressão altamente funcional” pode ser esclarecedora para os que têm ou não depressão.

“Só porque algumas pessoas têm traços de personalidade que as tornam mais capazes de ser funcionais, não deviam ser levadas menos a sério, e receio que isso seja o que possa começar a acontecer se começarmos a usar mais este termo.” Woody Cooper, psiquiatra

As pessoas têm, normalmente, “a imagem de indivíduos que choram, não saem da cama, são suicidas”, refere Woody Cooper. “Quando, na verdade, é totalmente diferente em pessoas que são funcionais todos os dias.”

Montrella Cowan, terapeuta de relacionamentos, oradora e autora de Washington D.C., concorda. Perceber a depressão altamente funcional pode ajudar a criar consciencialização pública de que é possível uma pessoa “ser produtiva, ter um salário de seis dígitos, uma mansão, um bom carro, e estar deprimida”, atira.

Também pode ajudar as pessoas a perceberem que não estão sozinhas, afirma Cowan, porque “muitas vezes as pessoas não se estão a sentir elas próprias e não conseguem simplesmente identificar o que está errado, por isso apenas sofrem em silêncio. Mas agora as pessoas percebem: ‘Oh, altamente funcional. OK, então já percebo porque me ponho a pé para ir trabalhar.’”

Que questões suscita a designação?

A expressão pode reforçar a vergonha em relação à depressão, defende Natalie Dattilo, psicóloga clínica no Brigham and Women’s Hospital, em Boston. “O estigma é a razão por que usamos essa expressão, como se fosse chocante que as pessoas bem sucedidas pudessem ter depressão.”

Mas, acrescenta, “não devia ser chocante que as pessoas tenham depressão”. “Devia ser uma coisa como outra qualquer, como qualquer outra doença.”

Outro aspecto, adianta Woody Cooper, é que usar o termo “altamente funcional” pode levar a uma forma incorrecta de interpretar a doença como uma forma menos séria de depressão.


“Depressão é depressão”, diz. “Só porque algumas pessoas têm traços de personalidade que as tornam mais capazes de ser funcionais não deviam ser levadas menos a sério, e receio que isso seja o que possa acontecer, se começarmos a usar mais esta designação.”

Mais ainda, usar o termo “altamente funcional” para descrever o problema pode ser enganador, ressalva Matthew Rudorfer, director de programas no National Institute of Mental Health, porque não tem em consideração o esforço que é feito para se ser funcional.

“Se todos os carros que estão na Connecticut Avenue estiverem a andar a 50 quilómetros por hora, mas um condutor tiver de carregar no pedal a fundo para conseguir manter essa velocidade, para o observador externo tudo parece normal”, diz. “Mas essa pessoa está a esforçar-se imenso. Não deveria ser preciso pôr prego a fundo para chegar aos 50 quilómetros por hora.”

Devemos usar a expressão “depressão altamente funcional”?

Os especialistas dividem-se sobre se a expressão deve ser amplamente utilizada ou tornar-se um diagnóstico oficial.

“A melhor coisa que podemos fazer é afastar-nos dos rótulos”, diz Brendel, uma vez que “eles podem interferir com o entendimento acerca do que está a acontecer com a saúde mental”. Ao invés, encoraja conversas abertas “sobre os sintomas de sofrimento mental” e trabalho com vista à redução do estigma e outras barreiras que impedem o tratamento.

“Se começarmos a dizer ‘não podes usar este ou aquele termo’, não vamos ter muito sobre o que falar.” Montrella Cowan, terapeuta de relacionamentos

Cowan, contudo, pensa que os benefícios de utilizar a expressão podem pesar mais do que as desvantagens, e diz que a designação devia ser incluída na próxima actualização do DSM. (Até à data, não foram submetidas propostas para incluir “depressão altamente funcional” no DSM, de acordo com a Associação Psiquiátrica Americana.)

“Estamos a tentar normalizar a conversa”, diz Cowan. “Se começarmos a dizer ‘não podes usar este ou aquele termo’, não vamos ter muito sobre o que falar.”

Ainda que tenha algumas preocupações, Dattilo refere que está confortável com o termo se isso permitir que alguém vá procurar ajuda. “Se isso permitir que alguém olhe para si e pense ‘talvez seja isto que eu tenho’, então vamos usá-la e continuar a trabalhar em direcção a algo melhor.”

Quem está em risco?

É importante, avisam os especialistas, reconhecer quem pode estar em risco de ter este tipo de depressão.

Woody Cooper afirma que normalmente o detecta em pessoas com “personalidade tipo A”. Outras características podem incluir ter uma posição importante, sofrer de perfeccionismo, ser alguém dedicado aos outros ou querer ser visto como forte e capaz”, diz Dattilo.

“Nenhuma delas é um mau traço da pessoa, mas podem interferir com o seu sistema de crenças acerca de si própria”, refere Dattilo. Todos elas “podem contribuir para a pressão para ter um bom desempenho, ser de uma certa forma e ter certas coisas”.

Woody Cooper e Cowan também dizem que a depressão altamente funcional é normalmente observada em comunidades racializadas, em que as barreiras para o seu tratamento podem ser mais altas devido ao custo, disponibilidade e estigma cultural. “Na comunidade negra, por exemplo, ainda estamos a tentar acabar com o estigma do ‘tu és fraco’”, lamenta Cowan. “Como se se fosse fraco por procurar ajuda — e isso não é verdade.”

As dificuldades para procurar ajuda podem ser ainda maiores para mulheres negras, acrescenta Woody Cooper. “Elas têm esta imagem de supermulheres, que podem fazer tudo e não sentir nada”, diz.

Quais os sinais da depressão altamente funcional?

Pode ser difícil encontrar sinais de depressão em pessoas que podem não a reconhecer ou que podem estar activamente a mascarar sintomas e a tentar ultrapassá-la, talvez porque passar uma imagem de força e capacidade é essencial para a sua identidade, defendem os especialistas.

Brendel refere que as pessoas que estão preocupadas com uma possível depressão, nelas ou em outros, devem procurar mudanças subtis, incluindo mudanças de energia, humor e qualidade do sono. Essas mudanças podem ser um sinal de que alguém precisa dar prioridade a tomar conta de si próprio, observa. Mas, acrescenta, se essas mudanças persistirem durante um período de duas semanas, pode ser um sinal para procurar ajuda. Outros sinais são pensamentos negros acerca do futuro, bem como sentimentos de desesperança e impotência.

“Se estás a tentar ajudar outra pessoa, evita afirmar coisas. Não digas, por exemplo, que a pessoa precisa de fazer terapia”, diz Cowan.


Woody Cooper sugere fazer perguntas primeiro e abordar potenciais comportamentos preocupantes como algo que tenhas notado. “Por exemplo, podes dizer: ‘Tenho notado que, quando saímos com o grupo, ultimamente, não tens falado tanto’”, exemplifica Woody Cooper. Podem seguir-se perguntas como: “Está tudo bem? Há algo de que queiras falar?”

Especialistas recomendam ter uma referência de um profissional de saúde mental pronta. Também pode ajudar se quem pergunta estiver disponível para partilhar experiências pessoais de procura de ajuda.

“Admitir e aceitar que se precisa de ajuda não é algo fácil de fazer”, diz Dattilo. É por isso que os especialistas acreditam que uma das mais importantes abordagens sobre a depressão altamente funcional é a necessidade de as conversas, a educação e as atitudes perante a depressão e a saúde mental continuarem a mudar.

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post