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2.9.22

Índice alimentar da FAO cai pelo quinto mês consecutivo

Isabel Aveiro, in Público online

Indicador que mede os preços dos bens alimentares essenciais nos mercados de exportação recuou 1,9% em Agosto.

O índice de preços alimentares da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO, na sigla inglesa) recuou 1,9% em Agosto, para 138 pontos, face a Julho.

Foi o quinto mês, consecutivo, em que houve uma redução do indicador que resulta numa média de cinco subíndices de preços de bens alimentares (carne, lacticínios, cereais, óleos vegetais e açúcar) ponderados pela média das quotas de exportação mundial de cada um dos grupos no período de 2014-2016.

O índice, que atingiu o valor mais elevado da sua história de 32 anos em Março passado – em consequência do impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia e dos efeitos que a guerra iniciada a 24 de Fevereiro teve nos mercados de cereais, óleos vegetais e fertilizantes –, terminou Agosto 7,9% acima de igual mês de 2021.

Diz a FAO (sigla em inglês para Food and Agriculture Organization of the United Nations), no seu comunicado emitido esta sexta-feira, que “todos os cinco subíndices” do índice agregado “caíram moderadamente em Agosto, com decréscimos percentuais mensais que variam entre 1,4% para os cereais e 3,3% para os óleos vegetais”.




Reinício das exportações da Ucrânia alivia preço dos cereais

“Em Agosto”, explica a FAO, “os preços internacionais do trigo caíram 5,1%, marcando o terceiro decréscimo mensal consecutivo”, que se justifica com “melhores perspectivas de produção, especialmente no Canadá, Estados Unidos da América e Federação Russa”; por uma “maior disponibilidade sazonal à medida que as colheitas prosseguiam no hemisfério norte”; e pelo retomar das “exportações dos portos do Mar Negro na Ucrânia, pela primeira vez em mais de cinco meses de interrupção”.

“Contudo”, sublinham os responsáveis da agência da ONU para a alimentação mundial, “os preços globais do trigo permaneceram 10,6% acima dos seus valores em Agosto do ano passado”.

A queda mais expressiva, de 3,3%, ocorreu no índice que mede o preço dos óleos vegetais disponíveis para exportação nos mercados internacionais. E, aqui também, há um efeito directo da guerra: “os valores mundiais do óleo de girassol diminuíram” devido a uma menor procura de importação global, “que coincidiu com a retomada gradual dos carregamentos dos portos marítimos da Ucrânia”.

Além disso, o recuo “contínuo do índice foi impulsionado pelos preços mundiais mais baixos dos óleos de palma, girassol e colza”, que “mais do que compensaram as cotações mais elevadas do óleo de soja”. Os preços internacionais do óleo de palma, acrescenta a organização, “caíram pelo quinto mês consecutivo em Agosto”, impulsionados pelo aumento da oferta da Indonésia, “principalmente graças a impostos de exportação mais baixos”, conjugado com o aumento sazonal da produção no Sudeste Asiático.

Nos lacticínios (leite, manteiga e queijo), o recuo do subíndice foi de 2% e na carne de 1,5%. O indicador que monitoriza os preços internacionais do açúcar registou uma queda de 2,1%, em cadeia, face a Julho passado, situando-se agora no patamar mais baixo desde Julho de 2021, acrescenta a FAO.


21.10.20

“Há uma guerra económica e os europeus não podem continuar parados”

Rita Siza, in Público on-line

Num relatório intitulado “Proteger a Europa da Coerção Económica”, especialistas do European Centre on Foreign Relations defendem postura mais agressiva e sugerem novos instrumentos, como um Banco Europeu de Exportações.

A União Europeia ainda não dispõe de um arsenal adequado para poder enfrentar o fogo cruzado comercial e responder a outras agressões económicas de potências como os Estados Unidos, a China e a Rússia, que ameaçam a sua soberania e lhe custam milhões por efeito da distorção do mercado. O alerta é de Jonathan Hackenbroich, autor de um relatório intitulado “Proteger a Europa da Coerção Económica” publicado esta quarta-feira pelo think tank European Centre on Foreign Relations.

Mas a UE não pode permanecer fechada na caserna por muito mais tempo, argumenta. “A realidade é que a guerra económica está a instalar-se e os europeus não podem continuar parados enquanto outros países ditam políticas”, considera o investigador em política económica e especialista em geopolítica. “A inacção está a tornar-se insuportável e perigosa para a Europa”, diz.

O relatório defende que a União Europeia, e os seus Estados membros, individualmente, adoptem uma postura mais assertiva. Isto é, que se preparem para “desenvolver novos instrumentos concretos” e utilizar outras opções, incluindo de maior confronto, para defender o seu mercado e as suas empresas.

A constituição de um banco europeu de exportações, a promoção do euro digital, o desenvolvimento de um instrumento europeu anti-coerção ou a criação de um regime efectivo de reciprocidade para sanções extraterritoriais e pessoais são algumas das propostas avançadas por Jonathan Hackenbroich no seu relatório, que resulta de um trabalho de auscultação de responsáveis dos governos nacionais e ainda peritos dos sectores público e privado.

A UE, entendem estes especialistas, não deve perder mais tempo para desenhar um menu de medidas de natureza defensiva que contribuam para aumentar a sua resiliência, promover a sua autonomia e, em simultâneo, dissuadir os agentes externos de uma potencial escalada na guerra comercial.

Sem novos “instrumentos concretos”, os parceiros europeus não conseguirão abrir caminho para a cooperação e o “compromisso bilateral” — que é a sua resposta preferencial, mas “nem sempre é viável”, nota Hackenbroich.

O relatório aponta para várias medidas que podem ser consideradas (algumas mais fáceis de adoptar do que outras) em três áreas de actuação distintas: no campo financeiro defende-se o reforço do papel internacional do euro; na política comercial propõe-se a revisão do Estatuto de Bloqueio da UE ou a criação de um instrumento europeu de defesa colectiva de coerção económica; e em termos da agenda comum para o futuro, insiste-se na necessidade de investir o futuro fundo de recuperação “Próxima Geração UE” na dupla transição ecológica e digital, e também na nova estratégia industrial de “interligação e revalorização das cadeias de abastecimento vulneráveis”.

A fundação de um novo Banco Europeu de Exportações, que poderia prestar serviços de pagamento (transferências monetárias e cartas de crédito) sem recorrer ao dólar ou ao sistema financeiro norte-americano, tornaria a UE menos vulnerável a chantagens económicas, defende o autor do relatório. Tal como o estabelecimento, pelo Banco Central Europeu, de uma nova infra-estrutura de pagamentos europeia para um euro digital, que aumentaria a resiliência das relações comerciais europeias às sanções impostas pelos operadores dos EUA.

Na opinião de Hackenbroich, a UE não pode continuar a deixar sem resposta acções hostis ou sanções direccionadas, como por exemplo aquelas que foram prometidas pelo Senado norte-americano contra o presidente do município alemão de Sassnitz por causa da construção do gasoduto Nordstream 2, ou sugeridas pela Administração Trump para punir a procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional pela investigação de crimes de guerra cometidos por militares dos EUA.


As ameaças, vindas de um aliado histórico, surpreenderam os europeus. Mas não foi um episódio isolado: recentemente, os EUA prometeram retaliar duramente contra a UE se esta cumprisse a sua prerrogativa, confirmada pela Organização Mundial de Comércio, de impor tarifas no valor de quatro mil milhões de euros a produtos norte-americanos.

Não é nada de novo: em 2014, a Rússia reagiu à imposição de sanções pela UE por causa da invasão da Ucrânia e anexação da Crimeia com uma ordem a travar as exportações de produtos agrícolas de origem europeia.

Rivais como a China também têm usado coerção e chantagem contra a UE para atingir os seus objectivos económicos e políticos. Pequim fez pairar uma nuvem negra sobre as importações de automóveis alemães enquanto a Huawei se candidatava à construção da infra-estrutura para o 5G naquele país. E desde o início da pandemia de coronavírus tem gerido as suas remessas de equipamentos médicos e cirúrgicos para condicionar as acções (económicas ou diplomáticas) de vários Estados membros.

Além do impacto directo nas transacções europeias com os seus maiores parceiros comerciais, as manobras têm um efeito secundário: como se lê no relatório, as ameaças de controlos às exportações podem ser utilizados pela China e os EUA para controlar o comércio da UE com países terceiros, uma vez que Pequim e Washington têm de dar a sua autorização para a “re-exportação” de produtos para outros mercados.

19.1.16

FMI avisa que “crescimento global pode descarrilar”

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Passados três meses desde as últimas previsões, FMI surge agora mais pessimista. Prevê uma retoma mais moderada da economia mundial e alerta para os riscos de uma crise nascida nos mercados emergentes.

Três meses após as suas últimas previsões, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avisou esta terça-feira que está agora mais pessimista, retirando 0,2 pontos percentuais à previsão de crescimento no Mundo este ano e avisando que se os diversos riscos existentes não forem bem geridos, a economia mundial “pode descarrilar”.

De acordo com as previsões intercalares apresentadas pelo FMI, a taxa de crescimento do PIB mundial irá situar-se em 3,4% em 2016 e 3,6% em 2017. Estes números significam que a retoma da economia mundial, depois dos 3,1% registados no ano passado, vai ser mais lenta do que aquilo que era previsto nas projecções do passado mês de Outubro.

Nessa altura, o Fundo apontava para um crescimento mundial de 3,6% em 2016 e de 3,8% em 2017.

A revisão em baixa deve-se, explica o relatório agora publicado, a três factores principais: a instabilidade que se vive em muitas economias emergentes, a descida pronunciada dos preços das matérias primas, incluindo o petróleo, e o efeito do início das taxas de juro nos Estados Unidos. “Estas revisões reflectem em larga medida, mas não exclusivamente, uma recuperação mais fraca do que o previsto em Outubro nas economias emergentes”, diz o FMI, explicando depois quais são as economias que mais sofrem.

Em primeiro lugar, o Brasil, “onde a recessão causada pela incerteza política gerada pela investigação na Petrobras está a mostrar ser mais profunda e prolongada do que era esperado”. Depois, o Médio Oriente, “onde as projecções são afectadas pelos preços de petróleo mais baixos”. E por fim, os EUA, “onde o ritmo de crescimento se espera agora estabilize em vez de ganhar mais velocidade”.

Olhando para os números, verifica-se que o FMI prevê agora que a economia norte-americana acelere ligeiramente este ano de uma taxa de crescimento de 2,5% em 2015 para 2,6%, valor que se repete em 2017. Em Outubro, estavam previstas taxas de crescimento de 2,8% nos dois anos.

Para os mercados emergentes, também há uma revisão em baixa de 0,2 pontos percentuais tanto em 2016 como em 2017. O Fundo prevê agora que estas economias cresçam 4,3% este ano e 4,7% no próximo, mais rápido do que os 4% de 2015.

No entanto, em alguns países, o pessimismo é agora muito maior e projectam-se mesmo anos de recessão profunda. Para o Brasil, o FMI está à espera de uma contracção de 3,5% este ano e de estagnação em 2017, resultados que são cerca de 2,5 pontos percentuais mais baixos do que era esperado há três meses.

Em relação à zona euro, as previsões do Fundo mantém-se praticamente inalteradas, com a economia a passar de um crescimento de 1,5% no ano passado para 1,7% neste ano e no próximo. O FMI apenas apresenta previsões para as quatro maiores economias da zona euro, deixando por isso Portugal sem qualquer actualização.

Os riscos
Se o cenário agora traçado é o de uma recuperação da economia mundial feita de forma ainda mais moderada, a verdade é que os responsáveis do Fundo fazem questão de deixar claro que as coisas podem acabar por ser ainda bem piores, principalmente pelo lado das economias emergentes.

São quatro os principais riscos identificados: a China não conseguir fazer a transição de um modelo económico para o outro e ver a sua economia travar bruscamente; a subida das taxas de juro nos EUA acentuar os problemas financeiras nas economias emergentes; os investidores dos mercados financeiros internacionais aumentarem a sua aversão ao risco; e registar-se uma escalada dos conflitos geopolíticos.

Se estes riscos se concretizarem, avisa o Fundo, “o crescimento global pode descarrilar”.

O que o FMI não muda, neste mais recente relatório, são as recomendações que faz aos governos e aos bancos centrais. Pede reformas estruturais que aumentem o potencial de crescimento económico a prazo, aconselha os países com espaço de manobra orçamental a investir mais em infraestruturas e pede aos bancos centrais da zona euro e do Japão para manterem uma política monetária expansionista, num cenário em que ainda há motivos para temer a deflação.

12.1.15

Papa diz que economia está doente porque mercados contam mais que as pessoas

in Jornal de Notícias

O papa Francisco considerou, este domingo, em entrevista ao jornal italiano "La Stampa", que quando os mercados financeiros contam mais do que as pessoas, isso é sinal de que "a economia está doente".

"Hoje em dia os mercados financeiros contam mais do que as pessoas, é uma economia doente", afirmou o Papa em entrevista ao La Stampa, citado pela AFP.

Noutra passagem lê-se que "cuidar dos pobres não é comunismo, é a mensagem evangelical da Igreja Católica muito antes do comunismo ser inventado".

Na entrevista, o Papa disse ainda que "até o papa Paulo VI e São Ambrósio disseram que a propriedade privada não pode ser um direito absoluto e incondicional".

5.11.14

“Não é por causa do comércio livre que a União Europeia tem um desemprego tão alto”

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Yorizumi Watanabe é um dos principais especialistas japoneses nas questões do comércio internacional. De visita a Portugal, diz ao PÚBLICO que, para a Europa, a conclusão bem sucedida do acordo de comércio livre com o Japão actualmente em negociação poderá ser um passo decisivo para as relações económicas com todo o continente asiático.

Qual é que acha que pode ser o resultado dos processos de negociação de comércio internacional que estão a decorrer entre os principais blocos económicos mundiais?
É muito importante que se possa criar agora um novo impulso para que se discutir o sistema de comércio internacional e parece-me que esta discussão, que tem como principais actores os EUA a Europa e o Japão pode ser decisiva, principalmente quando as negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) não conseguem avançar, especialmente porque a Índia cria muitos obstáculos. Acho que há aqui uma grande oportunidade de criar novas regras comerciais, de investimento internacional, na área da concorrência e dos concursos. E parece-me que o Japão desempenha um papel fundamental neste processo. Em simultâneo, está a negociar três acordos: na área do Pacífico, com os seus vizinhos asiáticos e com a Europa.

Para a Europa, não sente que a negociação com o Japão pode ser de importância secundária?
Acho que para a Europa, chegar a um acordo com o Japão pode ser muito positivo. Tem que se pensar que o Japão tem relações muito próximas com muitos países da Ásia e a Europa, se chegar a um acordo com o Japão, pode ficar com uma excelente base para trabalhar com todo o continente asiático.

Porque é que a agricultura continua a ser um problema para o Japão nas suas negociações comerciais com outros grandes blocos económicos?
A agricultura é uma área sensível para todos. Para a Europa também e de forma diferente também para os Estados Unidos. No caso do Japão, a agricultura representa menos de 2% do PIB. Mas há 2,5 milhões de pessoas envolvidas no sector e estão muto decididas em defender os seus interesses. Além disso, a idade, a idade média dos participantes no sector é superior a 60 anos. Essa é mais uma das razões para o Governo tentar proteger o sector agrícola, através de taxas elevadas em alguns produtos, especialmente o arroz.

Mas o perigo para os produtores de arroz japoneses vem da Europa?
No Japão importamos muitos produtos, também da Europa. E o arroz para nós é sagrado. Há vários tipos de arroz, e é possível que produtores europeus consigam penetrar no mercado japonês. Para nós é uma área muito sensível, mas creio que do lado dos europeus existe a compreensão de que não será por causa do arroz que não se chega a um acordo.

Para a Europa – e para Portugal em particular – o vinho pode ser mais sensível…
O vinho já não é um problema. Temos um acordo com o Chile e a Austrália em que o mercado de vinho japonês fica aberto, no caso do Chile de forma progressiva. Acho que não haverá problemas em aplicar o mesmo tipo de acordo com o vinho europeu.

Que outras áreas preocupam o Japão?
Mais de 50% do consumo de carne de porco no Japão é proveniente de importações. Os produtores de carne de porco japoneses estão preocupados que a sua quota de mercado possa descer ainda mais com a abertura do mercado.

Será difícil chegar a acordo com a Europa nesta área?
Há um motivo para que a carne de porco não seja realmente um problema nas negociações entra a Europa e o Japão. A Dinamarca, que é o maior fornecedor europeu de carne de porco para o Japão, não tem um grande interesse em que haja uma abertura significativa do mercado. Eles estão satisfeitos com a situação actual e preferem assegurar-se de que mantêm a quota de mercado actual e o regime que lhes é aplicado, que inclui um tratamento preferencial em determinados tipos de carne de porco. Eles não querem outros produtores a competir com eles. Por isso, tenho a impressão que a União Europeia não irá colocar uma pressão muito grande neste tema.

O que a Europa mais se tem queixado é de os concursos realizados por empresas japonesas se fecharem a empresas europeias, especialmente no que diz respeito aos caminhos de ferro. Concorda?
Não acho que isso seja verdade. Quando os europeus me questionam sobre esta matéria, mostro-lhes sempre um número: nos produtos relacionados com caminho de ferro a Europa tem neste momento um excedente comercial face ao Japão. Apenas há uma excepção, que é o Reino Unido. Com os outros países, Alemanha e França, por exemplo, o Japão importa mais do que exporta. Por isso, o que as estatísticas mostram é que o mercado de caminhos de ferro japonês não está fechado. E há muitos exemplos de encomendas feitas pelas grandes companhias ferroviárias japonesas a produtores europeus. Acho que há aqui uma percepção errada da realidade e seria importante promover um maior diálogo entre os responsáveis das empresas de ambos os lados.

E que queixas tem o Japão em relação à Europa?
Nos produtos industriais. Se é verdade que em alguns produtos agrícolas o Japão aplica taxas de entrada muito elevadas, no que diz respeito aos produtos industriais as taxas no Japão são bastante mais baixas do que as da União Europeia. Por exemplo, no sector automóvel. A Europa aplica uma tarifa alfandegária de 10% e o Japão não tem tarifa. É por isso que a União Europeia tem sido muito reticente em entrar numa negociação comercial que inclua este sector. Eles já beneficiam de um comércio livre. É isso que o Japão quer uma maior abertura destes mercados para os produtos japoneses.

A Europa está com uma taxa de desemprego elevada. Esta é capaz de não ser o momento ideal para negociar a abertura destes mercados…
Nunca há momentos ideais para baixar as tarifas alfandegárias. Mas não é por causa do comércio livre que a União Europeia está a crescer lentamente e tem uma taxa de desemprego tão alta. Acho que é por causa dos problemas estruturais que não foram tratados. Para a União Europeia seria bom expor estes sectores à concorrência internacional, torna-los ía mais resistentes. É uma grande ilusão pensar que a Europa se pode isolar dos mercados internacionais.

E a política monetária? O Japão tem aplicado uma política que conduz à descida do valor da sua divisa. Não há também aqui uma estratégia proteccionista?
Não me parece. A estratégia do primeiro-ministro Shinzu Abe de expansão da política monetária tem tido um efeito positivo ao nível do crescimento económico, o que acaba por ter também um impacto favorável noutros países. E nas várias reuniões do G20 nunca houve nenhuma acusação de que o Japão estivesse a manipular a sua taxa de câmbio. Aliás, relativamente à Abenomics, as suas primeiras setas, de política monetária e política orçamental, estão a fazer a economia crescer, mas agora o que será decisivo é a terceira seta, das reformas estruturais na economia. E a este nível, as negociações comerciais do Japão com os outros blocos, quer no Pacífico que com a Europa, podem desempenhar um papel muito importante.

É uma das provas de fogo que a Aaministração Abe tem de passar para mostrar que consegue avançar com reformas?
Claramente. Eu acho que o Sr. Abe está consciente do efeito positivo que os acordos comerciais poderiam vir a ter para a economia. Como primeiro-ministro, tanto neste mandado como no anterior, deu sempre passos no sentido de avançar com negociações de abertura do comércio.

Quando é que acha que o acordo de comércio com a Europa pode ficar concluído? Dentro do prazo previsto de final de 2015?
Não sei, quanto mais cedo melhor. O ritmo até agora tem sido bom e as duas partes mostram interesse em concluir as questões rapidamente. Mais recentemente, no entanto, assiste-se a uma paragem por causa da mudança na Comissão Europeia.

E no Japão, o Governo Abe é estável? Nos últimos dias houve várias demissões…
Há uma maioria absoluta nas duas casas do Parlamento, acho que isso garante a estabilidade. Mas é verdade que esta remodelação governamental não deveria ter sido feita. A primeira equipa era boa, não se devia ter mexido.

2.7.14

Portugueses que não trabalham são os que mais viajam dentro do país

Ana Rute Silva, in Público on-line

Mais de 49% dos turistas residentes estão inactivos e, destes, perto de 20% são estudantes. Desempregados são responsáveis por 6,4% das deslocações.

Em 2002, 61,2% dos portugueses que viajavam dentro do país estavam empregados e 36% não trabalhavam. Dez anos depois, o cenário inverteu-se. A maioria dos turistas residentes (49,5%) são agora estudantes, domésticos ou reformados. E 6,4% estão desempregados. As pessoas no activo pesam hoje 44,5%.

De acordo com dados compilados pela Pordata, disponíveis desde ontem, entre os “inactivos” destacam-se os estudantes (20,7%) e os reformados (18,2%) – perfis que, nos últimos anos, têm vindo a ganhar peso como clientes do sector. Em 2002, os alunos não iam muito além dos 12% e os reformados chegavam perto dos 16%. Nessa altura, os turistas empregados eram mais importantes para o sector, chegando a representar 62,9% em 2006. Contudo, estão a perder terreno desde 2008, ano em que estalou a crise financeira mundial. A sua importância foi caindo até aos actuais 44,5%, mas como sublinha Maria João Valente Rosa, directora da Pordata, ainda são o principal grupo, secundado pelos estudantes e, depois, pelos reformados.

Os desempregados passaram de um peso de 2,8% em 2002, para 6,4% em 2012, o valor mais alto destes dez anos analisados. É o espelho de uma elevada taxa de desemprego que, com a crise, o país tem enfrentado.

Ao mesmo tempo, os portugueses fazem menos turismo do que há dez anos. Em 2002, quase metade da população residente (49%) fez pelo menos uma viagem. Agora, diz a Pordata, a percentagem é de 38%. Portugal mantém-se como principal destino turístico: em 2012, apenas 2,9% dos residentes saíram do país em viagem (o valor mais baixo registado).

Até 1984, os portugueses eram o principal cliente do turismo nacional, mas a realidade alterou-se a partir desse ano quando, pela primeira vez, os visitantes oriundos do exterior representaram mais de metade dos turistas. Os estrangeiros, que em 1965 representavam apenas 39,9% dos visitantes, pesam agora 55,5%. E esta foi a principal alteração que o sector viveu nas últimas décadas. “Um dos efeitos dessa evolução é o número de dormidas nos estabelecimentos hoteleiros”, analisa Maria João Rosa, revelando que aumentou mais de seis vezes em menos de 50 anos. “Se em meados dos anos 60, o número de dormidas em estabelecimentos hoteleiros era bem inferior à população de Portugal, actualmente já corresponde a cerca de quatro vezes o número de residentes”, sustenta.

A extensa base de dados da Pordata mostra, ainda, que os portugueses que viajaram cá dentro fazem-no para visitar familiares (48,3%). O lazer ou as férias são o segundo motivo principal (41,5%).

Turismo rural dispara
Nos últimos 28 anos, a oferta de unidades de turismo de habitação e no espaço rural passou de 109, em 1984, para 1045, em 2012, quase dez vezes mais. E se em 1997 este tipo de alojamento representava 21% do total da oferta hoteleira, até há dois anos valia 31% do mercado.

Entre as várias tipologias analisadas, predominam as casas de campo – passaram de umas escassas 15 unidades em 1999 para 337 em 2011. Já o turismo de habitação tinha, em 2011, 237 casas registadas. No agro-turismo eram 142.

A tendência de evolução deste alojamento foi sempre positiva até 2006, ano em que o número de unidades caiu 4% em comparação com o ano anterior. Regressou ao crescimento em 2007, mas em 2010, em pleno cenário de crise, registou-se novo travão. Este mercado, aliás, encolheu 12% desde essa altura.

Maria João Rosa acrescenta que a capacidade das unidades é, hoje, “cerca de 18 vezes superior ao que era”. E, em termos de procura, “o número de dormidas passou a ser 26 vezes superior ao de meados dos anos 80”. O crescimento superou o dos hotéis que, no mesmo período, “pouco mais que duplicaram em termos de capacidade de dormidas”. Ainda assim, a responsável da Pordata sublinha que os hotéis continuam a ser os “grandes aglutinadores das estadas turísticas em Portugal”.

Os dados da Pordata são compilados a partir de indicadores do Instituto Nacional de Estatística, Turismo de Portugal e Banco de Portugal, e fazem parte de uma nova secção dedicada ao turismo no contexto nacional. A organização, que pertence à Fundação Manuel dos Santos, passou a disponibilizar dados estatísticos sobre o sector pela primeira vez em Agosto de 2013, mas incluídos nos indicadores europeus. Agora, dedica um espaço próprio na secção dedicada à estatística nacional.