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5.5.23

Banco Alimentar Contra a Fome. "Não é preciso dar muito, é preciso serem muitos a dar"

Ângela Roque, in RR

Isabel Jonet confirma à Renascença que as doações diminuíram, que a inflação fez disparar o pedidos de ajuda e que há cada vez mais pessoas que, mesmo trabalhando, precisam de apoio alimentar. Diz que a descida do IVA é uma medida mais política do que social, e duvida que chegue para mudar a vida das famílias. Mas confia na generosidade dos portugueses na campanha marcada para este fim de semana.


O Banco Alimentar Contra a Fome (BA) convida os portugueses a “alimentar a esperança” na nova campanha. Sábado e domingo - 6 e 7 de maio - decorre a chamada “recolha saco”, nos super e hipermercados, mas até dia 14 será possível contribuir online ou através da chamada “ajuda vale”.

Em entrevista à Renascença, Isabel Jonet confirma que a situação se agravou desde a última campanha, de há seis meses. Lamentando a falta de medidas estruturais de combate à pobreza, duvida que a descida do IVA chegue para mudar a vida das famílias. Mas, acredita na contribuição generosa dos portugueses, que confiam no Banco Alimentar para ajudar quem mais precisa. Neste momento são mais de 400 mil pessoas que recebem apoio através de 2 mil instituições.

Vai decorrer mais uma campanha do Banco Alimentar contra a Fome. É um dos dois momentos mais importantes do ano em termos de recolha de alimentos. Qual é a sua expectativa para esta campanha?

São realmente dois momentos muito importantes para os bancos alimentares, porque são muito congregadores de toda a sociedade para esta certeza de que, infelizmente, em Portugal, à nossa beira, existem ainda famílias que precisam de ajuda para se alimentar. E também porque há uma participação de voluntariado incrível!
Os bancos alimentares são, talvez, o maior movimento de voluntariado que há em Portugal: reúnem pessoas de todas as idades, de todas as opiniões políticas e de todos os credos, que lá, ombro a ombro, ajudam a levar alimento à mesa quem mais precisa.

As nossas previsões para todas as campanhas são sempre que a campanha é o melhor que pode ser naquele momento, face à conjuntura.

E sabemos que há muitas, muitas famílias que têm necessidades hoje, que têm uma vida mais difícil, seja porque a prestação do crédito aumentou, seja porque aquilo que levam para casa não chega para pagar a conta do supermercado, que tem vindo crescer, apesar de alguns balões de oxigénio que têm recebido, e que continuam a precisar do apoio alimentar.

O Banco Alimentar está nesta altura a ajudar quantos portugueses, através de quantas instituições?
Há 21 bancos alimentares em todo o território nacional – continente e região autónomas da Madeira e Açores, em São Miguel e na Terceira -, que em conjunto e parceria com cerca de 2 mil instituições de solidariedade social e algumas juntas de freguesia apoiam mais de 400 mil pessoas.

E estas pessoas recebem comida todos os dias, porque são famílias que têm que de ter apoio, alimentar diário. São famílias que recebem ou sacos de alimentos, que são entregues pelas instituições, ou que estão em lares ou recebem alimentação em creches ou jardins de infância que têm acordo com o Banco Alimentar da respetiva região.

Essas necessidades têm aumentado? Há mais pessoas a beneficiar da vossa ajuda?

Verificámos que nos primeiros quatro meses do ano houve um aumento dos pedidos através da rede de emergência alimentar, que foi uma plataforma que construímos na altura da pandemia para dar uma melhor resposta às famílias que pediam ajuda, para haver um encaminhamento mais direto para a instituição da sua zona.
Verificámos que houve um acréscimo muito significativo [de pedidos] e também que a maior parte das pessoas que pedem apoio através da rede de emergência alimentar hoje em dia são pessoas que têm um trabalho ou que são estudantes e trabalham.

Como isto é tudo através de uma plataforma, permite-nos retirar dados e temos estas estatísticas e o que verificamos é que quem pede ajuda hoje são pessoas que anteriormente não pediam, e que têm trabalho, ou seja, são pessoas cujo orçamento familiar não está a chegar para todas as suas despesas.

E os bancos alimentares também têm tido dificuldades em manter as ajudas?

Este semestre foi muito desafiante porque tínhamos mais pedidos e menos doações, porque a inflação subiu muito.
Agora houve algum alívio, com a retirada do IVA dos produtos alimentares, mas isso não significa que haja mais doações aos bancos alimentares. Pelo contrário, as empresas tendem até a ser mais eficientes e têm menos doações…

Mas, como é que avalia esta questão do IVA ter descido em alguns alimentos, e que impacto é que isso pode ter na campanha?

Nós esperamos, do ponto de vista de donativos, que as pessoas - até porque os preços estão um bocadinho mais baratos - possam continuar a contribuir para o Banco Alimentar. Mas, sabe que a grande contribuição que se verifica para os bancos alimentares é quase um bocadinho independente dos rendimentos.
Há uma solidariedade, uma generosidade incrível na sociedade portuguesa e há muita confiança no Banco Alimentar. As pessoas sabem que não é preciso dar muito, é preciso serem muitos a dar, e tenho a certeza que a campanha vai, uma vez mais, suscitar a generosidade de muitos portugueses.

Penso que para as famílias que vão ao supermercado todos os fins de semana, o haver uma diminuição dos preços por via da isenção do IVA é positivo, mas não me parece que esta seja uma medida que se possa refletir numa alteração estrutural do combate à pobreza cá em Portugal. Portanto, acho que de um ponto de vista de doações, pode ser até positivo, mas aquilo que é mais positivo é a extraordinária e reiterada generosidade dos portugueses, que numa campanha deste tipo doam muitas, muitas, muitas toneladas de alimentos, porque conhecem pessoas que precisam. E isso é que é extraordinário!

Relativamente à medida em concreto, da descida do IVA, é mais um dos balões de oxigénio que referiu há pouco?

Sim. Baixar o IVA é uma boa medida, mas é mais uma medida política do que uma medida social. É uma medida que, por ser universal, vem beneficiar todas as pessoas, independentemente do seu rendimento, quando eu gostaria de ver mais medidas que combatessem estruturalmente a pobreza no nosso país.
As estatísticas mostram que quem hoje em dia pede ajuda são pessoas que são trabalhadoras, ou seja, pessoas que vivem do seu rendimento de trabalho, muitas vezes até têm dois trabalhos e que não têm a possibilidade de ter uma vida sem depender da ajuda alimentar de uma instituição.

Para mim isto é muito preocupante e gostaria de ver realmente medidas estruturantes no combate à pobreza, seja até por via de parcerias com as empresas, em que as empresas formam e qualificam estes trabalhadores para que possam ter melhores salários e sair desta situação de precariedade, do que sempre apoios sociais que vão aumentar a dependência e o assistencialismo.

A campanha do BA vai decorrer nos supermercados no fim de semana (6 e 7 de maio), mas ainda vai prolongar-se até quando?

A campanha não se esgota nestes dois dias, existe a possibilidade de quem não vai no fim de semana às compras poder colaborar até dia 14 de maio com um vale de alimentos, ou através da Internet, em www.alimentaestaideia.pt. Aí podem escolher o Banco Alimentar e o produto que querem doar, sabendo que estão a contribuir para uma família carenciada da sua região. E recebem um recibo de donativo.
O convite que deixo aos portugueses é aquela que é a expressão da imagem desta campanha de recolha: vamos ‘manter a esperança’ na sociedade portuguesa.

Quando se doa um alimento, uma lata de feijão, o que se está a dar não é apenas o feijão em si, é a esperança que este gesto da partilha significa e a certeza de que há alguém que se preocupa para que as famílias (que precisam) possam ter alimento à mesa. Por isso, quero deixar este convite aos portugueses: sejam solidários, para juntos podermos manter a esperança em Portugal.

26.1.23

“As famílias não têm para onde se virar, cortam na comida e comem pior”: 1100 refeições são distribuídas todas as noites em Lisboa

Marta Gonçalves, in Expresso

Não são apenas pessoas em situação de sem-abrigo que procuram. Cada vez mais surgem pessoas com casa, mas que vivem no limiar da pobreza e têm de escolher “onde vão aplicar o dinheiro”: na renda ou em comida. Organizações alertam para o crescimento dos pedidos de ajuda

Cerca de 1100 refeições são distribuídas todas as noites pela cidade de Lisboa a pessoas carenciadas. O balanço é feito ao Expresso por organizações não governamentais como a Comunidade Vida e Paz, a CASA - Centro de Apoio ao Sem Abrigo e a Noor’Fatima Voluntariado – Projetonur Associação que, diariamente, com dezenas de voluntários, levam uma ceia quente a quem está nas ruas.

“A nossa previsão, até por aquilo que temos vindo a verificar ao longo das últimas semanas e meses, é que este número venha a aumentar”, refere ao Expresso Renata Alves, diretora-Geral da Comunidade Vida e Paz. Uma opinião também partilhada pela gestão das restantes organizações. “Têm aparecido mais pessoas nas ruas a pedir ajuda, e pessoas com casa ou algum local de dormida. Mais estrangeiros nas ruas a pedir apoio”, diz ainda Nuno Jardim do CASA. “Os números têm aumentado sobretudo devido a muitos imigrantes e pessoas com reformas e vencimentos baixos e com estas refeições [que distribuímos] já ajudam nas despesas. A situação é muito triste, todos deviam ter direito a uma refeição sentados à mesa”, acrescenta Nurjaha Tarmahomed, fundadora e presidente da Noor’Fatima.

Uma pessoa regressa a casa após ter recebido uma refeição

No caso da Vida e Paz, as carrinhas saem todas as noites em direção as ruas de Lisboa e na bagageira carregam entre 450 e 500 ceias, que estimam servir para alimentar “400 pessoas de diferentes nacionalidades”. Já a CASA entrega diariamente 400 refeições, enquanto a Noor’Fatima consegue chegar entre 150 e 200 pessoas, entregando água, sopa, comida quente, pão, fruta. Por vezes, há ainda “um bolo ou uma sandes como apoio para o dia seguinte”, refere Nurjaha Tarmahomed. “É um saco por pessoa, em alguns casos são dois porque há outra pessoa na casa onde vivem.”

Há várias semanas que quem procura este tipo de ajudas deixou de ser exclusivamente pessoas em situação de sem-abrigo. Cada vez mais, os voluntários notam haver famílias e pessoas com casa e a pagar rendas que precisam ajuda alimentar. “São pessoas em situação de grande vulnerabilidade social que, tendo casa, com o agravar da situação económica e com a inflação têm que optar onde vão aplicar o seu dinheiro. As refeições são muitas das vezes deixadas para trás, então recorrem às nossas equipas em busca de uma ceia”, explica Renata Alves.

Por outro lado, alerta também a Vida e Paz, as doações “não têm acompanhado” o aumento dos pedidos de ajuda. Esta é uma tendência transversal quer em donativos monetários ou espécie, quer vindo de particulares ou empresas. “Isto dificulta a nossa intervenção. Apelamos à ajuda de todos para podermos continuar a responder às necessidades das pessoas que nos procuram e confiam em nós.”

400 MIL PESSOAS APOIADAS PELO BANCO ALIMENTAR

Com dois balanços anuais, em maio e novembro, os números mais recentes do Banco Alimentar contra a fome dão conta de 400 mil pessoas apoiadas pela instituição através de 2600 organizações espalhadas por todo o país. “São dados referentes a novembro de 2022, quando as coisas ainda não estavam tão caras. Todos os dias temos mais pedidos de ajuda”, diz ao Expresso Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar. “A situação é muito difícil, sobretudo para famílias, que não têm para onde se virar e têm de cortar na comida e comem cada vez pior”, continua.

Jonet acredita ainda que o aumento da procura também aconteceu por antecipação e pela expetativa de que a inflação não fosse abrandar. “As famílias começaram a sentir na pele o acréscimo dos preços em produtos alimentares básicos, tal como as famílias que compraram casa sentem o acréscimo das taxas de juros dos empréstimos habitação. Os preços dos alimentos básicos aumentaram todos e vão continuar,”

O cabaz básico de alimentos custa €225. Nesta lista com 63 bens alimentares essenciais estão incluídos produtos como leite, queijo, manteiga e fiambre, arroz, farinha, massa e açúcar, além de carne, peixe, frutas e legumes. O valor em que agora o cabaz está fixado, refere a DECO/Proteste, representa um novo recorde desde o início do ano passado.

A pescada fresca, carapau, perca e peixe-espada estão no topo dos produtos que mais subiram no último balanço disponibilizado pela DECO/Proteste (entre 4 e 11 de janeiro). A mesma lista de compras custa mais 37 euros do que há um ano.

6.7.22

Apoio alimentar de 60 euros renovado para um milhão de famílias carenciadas

Beatriz Ferreira, in Observador

Conselho de Ministros vai aprovar o alargamento do apoio de 60 euros para um milhão de famílias que beneficiam da tarifa social de eletricidade ou de prestações sociais mínimas.O apoio de 60 euros criado para ajudar as famílias mais vulneráveis a fazer face ao aumento dos preços dos bens alimentares será prolongado para o próximo trimestre. A ajuda vai chegar a um milhão de famílias que beneficiam da tarifa social de eletricidade ou de prestações sociais mínimas.

A reedição da medida será aprovada em Conselho de Ministros esta quinta-feira e vigorará para três meses, anunciou o primeiro-ministro, António Costa, no primeiro debate de política geral do Governo nesta legislatura, esta quarta-feira.

Costa foi questionado pelo líder do Chega, André Ventura, sobre que medidas tem o Governo para fazer face à inflação. “Amanhã, o Conselho de Ministros aprovará que a medida extraordinária de apoio ao cabaz alimentar vigorará por mais três meses, ou seja, com mais 60 euros a serem pagos a famílias que beneficiam da tarifa social de eletricidade e a todos os beneficiários das prestações mínimas”, respondeu o primeiro-ministro, acrescentando depois que a medida voltará a abranger cerca de um milhão de famílias.

O apoio — pago de uma só vez, no valor de 60 euros — começou a ser pago em abril para as famílias beneficiárias da tarifa social de eletricidade, cerca de 762 mil. Mas estavam excluídas famílias sem contratos de eletricidade em seu nome, pelo que o Governo optou por alargar o apoio aos beneficiários de prestações sociais mínimas que não estão abrangidos pela tarifa social.

Esse alargamento chegou a mais de 280 mil famílias e inclui prestações como o complemento solidário para idosos (CSI), o rendimento social de inserção (RSI), a pensão social de invalidez do regime especial de proteção na invalidez, a pensão social de velhice, o subsídio social de desemprego ou o complemento da prestação social para a inclusão, entre outros. Portanto, serão cerca de um milhão as famílias que vão voltar a receber a ajuda de 60 euros.


13.6.22

Ministra assegura que famílias que cumpram critérios continuam a receber apoio alimentar

in Público

Ana Mendes Godinho esclareceu que esta redução resulta de uma reavaliação conduzida pela Segurança Social em que se apurou a diminuição do número de beneficiários que cumprem os critérios do programa, que são actualmente 110 mil pessoas.A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) assegurou esta quarta-feira que todas as famílias que cumpram os critérios do programa de apoio aos mais carenciados vão continuar a ser ajudadas, recusando quaisquer cortes.

“A nossa preocupação é manter todos os apoios que existem, sabemos como é crítico neste momento tudo o que são apoios às famílias mais vulneráveis”, disse Ana Mendes Godinho, em declarações à agência Lusa.

De acordo com o Jornal de Notícias (JN) desta quarta-feira, o Instituto da Segurança Social (ISS) deu indicações em 20 de Maio aos directores da Segurança Social de todo o país para informarem os técnicos que acompanham o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) que têm de reduzir o número de beneficiários de 120 para 90 mil.

No entanto, a ministra esclareceu que essa redução resulta de uma reavaliação conduzida pela Segurança Social em que se apurou a diminuição do número de beneficiários que cumprem os critérios do programa, que são actualmente 110 mil pessoas.

“Não haverá nenhum objectivo de redução numérico, pelo contrário”, reforçou Ana Mendes Godinho, explicando que os 90 mil beneficiários apontados pelo ISS na comunicação interna são antes uma estimativa de evolução da situação.

Questionada se o número de beneficiários do POAPMC poderá voltar a aumentar se crescer igualmente o número de pessoas que cumprem os critérios do programa, a ministra admitiu essa possibilidade.´

“Todas as pessoas que cumpram os requisitos serão abrangidas, com o nosso compromisso e mobilização dos recursos que forem necessários para o efeito”, disse Ana Mendes Godinho.

O ofício enviado pelo ISS às delegações regionais da Segurança Social, citado pelo JN, invoca a “evolução favorável da situação epidemiológica no nosso país e a progressiva normalidade em geral” para que seja retomada a reavaliação trimestral dos destinatários do programa, com o objectivo de reduzir o número de beneficiários “até ao limiar de 90 mil”.

Por outro lado, a ministra disse ainda que o Governo está a avaliar o reforço de medidas de apoio às famílias carenciadas, face ao actual contexto de inflação.

Marcelo quer confirmar se há redução de apoio alimentar

O Presidente da República afirmou esta quarta-feira que vai procurar confirmar a notícia em causa. Questionado sobre este assunto pela comunicação social, em Braga, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que leu o artigo do Jornal de Notícias, mas que quer confirmar essa informação. “Ainda não tive confirmação. Vou tentar confirmar, não tive oportunidade de o fazer”.

Sem falar directamente da abrangência deste programa combate à pobreza através de apoio alimentar e de outros bens de consumo básico, o chefe de Estado advertiu para a incerteza da actual conjuntura internacional e defendeu que é preciso ir “ajustando as medidas sociais à situação vivida”.

“Eu diria apenas, em geral, que nenhum de nós sabe como é que isto vai evoluir, a guerra e os efeitos da guerra. E, portanto, nesse sentido, naturalmente eu espero que as autoridades e os responsáveis dos vários sectores da sociedade portuguesa vão ajustando as medidas sociais”, declarou.

“Provavelmente, as necessidades não serão iguais num determinado momento e noutro momento e dependerão nomeadamente da duração da guerra”, acrescentou.

O POAPMC foi criado em 2015 na União Europeia e pretende ser um instrumento de combate à pobreza e à exclusão sociais, atribuídas a causas estruturais, agravadas por factores conjunturais.

As pessoas que se encontrem em situação de carência económica, pessoas sem-abrigo e na situação de indocumentadas podem ter acesso ao POAPMC, que é financiado pelo Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas Mais carenciadas que em Portugal depende da Segurança Social.

Entretanto, o Bloco de Esquerda também já requereu a audição urgente da MTSSS para esclarecer a redução de beneficiários do programa, considerando inaceitável adoptar medidas que desprotegem “quem mais precisa”.

8.6.22

Banco Alimentar reforça que há mais pedidos de apoios

in Público

Presidente do Banco Alimentar do Algarve diz que não houve “uma melhoria” no número de pedidos de ajuda. “Continuamos a receber pedidos de apoio quer de pessoas quer de instituições, portanto não estamos numa fase decrescente dos pedidos de apoio.”

O presidente do Banco Alimentar do Algarve disse esta quarta-feira que estão a receber cada vez mais pedidos de famílias e instituições para apoio alimentar, sublinhando que o aumento dos preços tem estado a pressionar novamente a população mais carenciada.

Nuno Cabrita Alves falava à Lusa a propósito da intenção do Governo de reduzir o número de beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) de 120 para 90 mil, justificando com a evolução favorável da situação epidemiológica no país e a progressiva normalidade em geral”.

“Nós não entendemos que haja uma melhoria, continuamos a receber pedidos de apoio quer de pessoas quer de instituições, portanto não estamos numa fase decrescente dos pedidos de apoio muito pelo contrário o aumento dos preços, a taxa de inflação tem estado a pressionar novamente aquilo que é a população mais carenciada”, adiantou.

Nuno Cabrita Alves disse que enquanto presidente do Banco Alimentar do Algarve faz a representação junto do Estado no âmbito do POAPMC, mas cada Banco Alimentar tem capacidade para fazer a gestão do programa.

“Estávamos informados [da intenção da redução de beneficiários]. Já estava em plano há algum tempo, porque para fazer a gestão do programa tem de se pensar naquilo que são os número de destinatários a apoiar porque isto obriga a concursos públicos e tem de ser planeado com antecedência”, disse.

De acordo com Nuno Cabrita Alves, o número original de beneficiários do programa era de 60 mil, depois passou para 90 mil e depois subiu para os 120 mil devido à pandemia de covid-19.

“Agora estão novamente previstos os 90 mil para manter até ao final do programa no final do ano. Estamos muito preocupados porque queremos saber a continuidade do programa. Ao contrário do passado era interessante que não houvesse uma paragem de um programa para o outro”, disse.

Nuno Cabrita Alves disse também estar preocupado com o número insuficiente de alimentos que está a ser distribuído no âmbito deste programa.

“O número de alimentos distribuído é insuficiente e inferior ao que está assumido no programa. Tem a ver com a dificuldade de fornecimento de alguns fornecedores, do aumento de preços devido à guerra e ausência de alguns produtos que afasta fornecedores dos concursos, etc”, referiu

Nuno Cabrita Alves contou que de um cabaz de 25 produtos, chegaram a distribuir apenas seis.

“Neste momento, numa base de 21, há sete produtos fora do cabaz, alguns sem perspectiva de voltarem”, disse.

De acordo com o Jornal de Notícias (JN) desta quarta-feira, o ISS deu indicações em 20 de Maio aos directores da Segurança Social de todo o país para informarem os técnicos que acompanham o POAPMC que têm de reduzir o número de beneficiários de 120 para 90 mil.

Questionado pelo jornal, o Governo confirmou que actualmente serão 110 mil as pessoas que cumprem os critérios e que o objectivo é continuar a reduzir.

O Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) foi criado em 2015 na União Europeia e pretende ser um instrumento de combate à pobreza e à exclusão sociais, atribuídas a causas estruturais, agravadas por factores conjunturais.

As pessoas que se encontrem em situação de carência económica, pessoas sem-abrigo e na situação de indocumentadas podem ter acesso ao POAPMC, que é financiado pelo Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas Mais carenciadas que em Portugal depende da Segurança Social.

30 mil beneficiários vão perder apoio alimentar da Segurança Social

in DN

Técnicos que acompanham o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas receberam ordem para reduzir o número de beneficiários de 120 para 90 mil.

O Instituto da Segurança Social (ISS) deu indicações aos centros distritais de todo o país para reduzirem o número de beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) de 120 para 90 mil.

De acordo com o Jornal de Notícias (JN) desta quarta-feira, o ISS deu indicações em 20 de maio aos diretores da Segurança Social de todo o país para informarem os técnicos que acompanham o POAPMC que têm de reduzir o número de beneficiários de 120 para 90 mil.

Questionado pelo jornal, o Governo confirmou que atualmente serão 110 mil as pessoas que cumprem os critérios e que o objetivo é continuar a reduzir.

Técnicos no terreno citados pelo jornal dizem ter pessoas em lista de espera e criticam a medida numa altura em que os preços aumentam e os cabazes têm cada vez menos produtos.

O ofício enviado pelo ISS às delegações regionais da Segurança Social, a que o JN teve acesso, invoca a "evolução favorável da situação epidemiológica no nosso país e a progressiva normalidade em geral" para que seja retomada a reavaliação trimestral dos destinatários do programa, com o objetivo de reduzir o número de beneficiários "até ao limiar de 90 mil".

Contactado pelo JN, o Ministério da Segurança Social remeteu o pedido de informação para o ISS, que disse que vai ser mantido o apoio a todas as pessoas que cumpram os critérios definidos no âmbito do Programa.

A reavaliação trimestral tem por objetivo verificar se as pessoas abrangidas mantêm os requisitos, nomeadamente se se encontram em situação de desemprego.

O Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) foi criado em 2015 na União Europeia e pretende ser um instrumento de combate à pobreza e à exclusão sociais, atribuídas a causas estruturais, agravadas por fatores conjunturais.

As pessoas que se encontrem em situação de carência económica, pessoas sem-abrigo e na situação de indocumentadas podem ter acesso ao POAPMC, que é financiado pelo Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas Mais carenciadas que em Portugal depende da Segurança Social.



6.5.22

Gaia abre espaço para sem-abrigo com atividades e distribuição de comida

in Notícias Online

O espaço dedicado a pessoas sem-abrigo 'InteGrar' abre na sexta-feira em Vila Nova de Gaia, com atividades lúdico didáticas, distribuição de 'kits' alimentares e informação sobre a rede social deste concelho do distrito do Porto, foi hoje anunciado.

Aprovado pelo Programa Norte 2020, este projeto é promovido pela autarquia de Gaia, em parceria com a empresa municipal Gaiurb, a delegação de Gaia da Cruz Vermelha Portuguesa e a Agência Piaget para o Desenvolvimento (APDES).

Na prática, o 'InteGrar' traduz-se num espaço localizado na Praceta Fonte do Casal, em Mafamude, no 'coração' de Vila Nova de Gaia, onde pessoas em situação de sem-abrigo podem socializar e conviver durante o dia, bem como fazer atividades lúdico didáticas, ter acesso a informação sobre os recursos existentes na rede social, receber bens de primeira necessidade e 'kits' alimentares.

Em comunicado, a Câmara de Gaia acrescenta que "é intenção" da autarquia que neste espaço venham a realizar-se ações de capacitação e empregabilidade, através de um grupo de autoajuda e de um programa de treino de competências para a vida.

O espaço que vai abrir em Mafamude é uma das ações de um projeto global que tem como objetivo dar uma resposta integrada de acompanhamento à população sem-abrigo, "trabalhando a prevenção para o fenómeno" através de uma "intervenção especializada com vista à reinserção social e profissional e o combate à sua reincidência", descreve a autarquia.

"O projeto presta um acompanhamento personalizado e contínuo a cada pessoa, através de uma equipa multidisciplinar, com o objetivo de promover a autonomia, a responsabilização, o empoderamento e a inclusão social. Esta inclusão assentará no plano individual, mediante a motivação, as aspirações e os desejos pessoais, promovendo competências pessoais, sociais e de empregabilidade", é também descrito no comunicado.

Em dezembro de 2019, dados da Câmara de Gaia apontavam que este concelho era o 2.º da Área Metropolitana do Porto com mais sem-abrigo, num total de 188 pessoas, dos quais 103 não tinham teto e 85 não tinham casa.

Mas este número tem vindo a aumentar, uma vez que três meses depois, em março de 2020, um diagnóstico para a implementação do Núcleo de Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo (NPISA) de Gaia apontou para a existência de 201 pessoas, sendo 116 sem teto, a viver em espaços públicos, abrigos de emergência e locais precários, e 85 sem casa.

De acordo com a autarquia, estas pessoas estão dispersas por todas as freguesias, com "maior incidência na malha urbana", nomeadamente nas uniões de freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso e Santa Marinha e São Pedro da Afurada.

São maioritariamente homens (153), entre os 35 e os 66 anos de idade.

"O aumento poderá justificar-se pela situação provocada pela pandemia de covid-19, que tende a agravar na generalidade a procura dos serviços por parte das PSSA [população em situação de sem-abrigo]", refere a Câmara de Gaia.

A autarquia destaca, ainda, que "ao longo dos últimos anos tem promovido o acesso a habitação social e implementado medidas de política social, ao nível da emergência social e do apoio ao arrendamento, com comparticipações da renda, promovendo, assim, a manutenção da habitação e prevenindo o aparecimento de situações de PSSA".

Definido para um período temporal de dois anos e com um custo de 160 mil euros, o projeto 'InteGrar' é financiado em 85% pelo Norte 2020 e em 15% pelo município e restantes parceiros.

17.2.22

Famílias carenciadas não recebem totalidade do cabaz de comida a que têm direito

in Expresso

As famílias abrangidas pelo Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) não têm recebido a totalidades dos cabazes alimentares mensais. De acordo com o “Jornal de Notícias”, a situação agravou-se nos últimos cinco meses. Os assistentes sociais e os beneficiários garantem que os cortes são constantes.

O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social diz que as “impugnações judiciais interpostas pelos concorrentes” nos concursos públicos de compra de produtos, “a demora na análise da emissão dos pareceres técnicos da ASAE [Autoridade de Segurança Alimentar e Económica] e a exigência da União Europeia na tramitação procedimental associada” a esses concursos de aquisição são os motivos dos cortes.

O POAPMC, que é um programa cofinanciado pela União Europeia, foi criado para combater a pobreza e a exclusão social em Portugal. O Ministério admite que existem “falhas na entrega de alguns produtos”, mas assegura que “a situação está a ser gradualmente ultrapassada”. “Alguns produtos serão distribuídos este mês”, garante.

18.1.21

As iniciativas de apoio alimentar fazem sentido?

Fábio Rafael Augusto, in Público on-line

Para uns, as iniciativas de apoio alimentar deveriam acabar. Para outros, a sua permanência justifica-se, sobretudo em contextos de crise. Quem são os principais atores e agentes do setor, e que respostas nos dá a investigação sociológica sobre este tema controverso?

Um universo heterogéneo

Termos como “ajuda”, “assistência” ou “apoio alimentar” fazem parte de um léxico que envolve um alargado leque de serviços que procuram garantir o acesso a bens alimentares a pessoas socialmente vulneráveis. Trata-se de um tipo de apoio que, habitualmente, envolve a doação de alimentos, e é assegurado por iniciativas provenientes da sociedade civil. De forma geral, os bens alimentares doados por estas respostas podem advir de produtores (ex: agricultores), de distribuidores (ex: supermercados), de espaços de consumo (ex: restaurantes) ou de organizações parceiras (ex: Banco Alimentar).

Coexistem, atualmente, vários modelos de ajuda alimentar que apresentam variações entre si, sobretudo a nível ideológico e no seu modo de funcionamento. Uma das iniciativas mais difundidas a nível mundial é a do Banco Alimentar, uma organização assente na redistribuição de excedentes alimentares. Além desta, outras iniciativas têm marcado presença no contexto nacional, desde os supermercados sociais e dos vales/cartões solidários, passando pelas iniciativas que apostam no reaproveitamento de refeições cozinhadas, até organizações que se focam na distribuição de cabazes alimentares. Apesar da vocação de algumas destas respostas para atuar, sobretudo, em contextos de emergência — veja-se, por exemplo, o caso recente da União Audiovisual —, a ajuda por elas prestada tende, em diversas situações, a ser de longo prazo. É sobretudo esta continuidade que tem levado a que surjam críticas sobre o papel destas iniciativas.
Os debates sobre as iniciativas de apoio alimentar

De facto, o papel desempenhado pelas iniciativas de apoio alimentar tem sido foco de diversos debates dentro e fora do contexto académico. Aspetos como o impacto, o funcionamento, a eficácia, a adequação do tipo de ajuda prestada, e questões éticas ligadas à preservação da dignidade humana têm fomentado a existência de posturas díspares em relação ao que estas respostas sociais representam. De um lado, encontramos os defensores destas iniciativas, que acreditam no seu potencial para combater ou minimizar fenómenos como a pobreza e o desperdício alimentar. Do outro, aqueles que consideram que elas representam uma falsa resposta a um problema estrutural bem mais complexo.

No âmbito da segunda perspetiva, existe também quem defenda que este tipo de iniciativas contribui para desresponsabilizar o Estado, que delega parte das suas funções sociais nestas respostas. As críticas também se relacionam com os impactos emocionais para os beneficiários (ex: vergonha), com a possibilidade de gerar dependência e com a inadequação nutricional dos alimentos doados.

Ajuda alimentar em contextos de crise

Estas questões assumem particular relevância em contextos excecionais como foi o da crise económica e financeira desencadeada em 2008, e a crise pandémica que estamos a viver atualmente. Perante uma crise, as iniciativas de apoio alimentar são chamadas a intervir de forma ativa, tendo de duplicar ou triplicar esforços sem que os recursos disponíveis sigam, necessariamente, a mesma tendência. A título de exemplo, no contexto nacional, a principal iniciativa a atuar no terreno, o Banco Alimentar, aumentou de forma significativa a sua intervenção no período 2008-2014, passando de 249 593 indivíduos assistidos para 384 930. Atualmente, face à pandemia, a presidente desta iniciativa, Isabel Jonet, dá conta de uma realidade sem precedentes, sendo que desde o início da crise de saúde pública até outubro de 2020 o número de beneficiários aumentou na ordem dos 60 000, contabilizando-se um total de 440 000 indivíduos assistidos.
Da ideia ao projeto

Apesar da longevidade das iniciativas de apoio alimentar e da centralidade que assumem em contextos de crise, têm persistido várias dúvidas em relação ao papel que desempenham na sociedade. Dúvidas em torno do funcionamento, dos objetivos propostos, das parcerias criadas, dos processos de capacitação dos beneficiários, dos vários recursos (humanos, financeiro e operacionais) mobilizados e da atribuição de responsabilidades em matéria de ajuda alimentar. Embora existam alguns dados sobre ajuda alimentar no contexto nacional, são ainda escassos os estudos que reportem a heterogeneidade deste universo. Todos estes aspetos conduzem, essencialmente, a duas necessidades: i) conhecer as iniciativas e os seus atores; e ii) perceber o que tem vindo a ser feito e o que falta fazer. Foi, justamente, para responder a estas dúvidas e carências que surgiu o meu projeto de doutoramento.

Financiado pela FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I. P. (Ref: SFRH/BD/130072/2017) e iniciado em 2016, o projeto intitula-se “Iniciativas de apoio alimentar: a visão dos voluntários e dos beneficiários” e propõe-se a analisar três dos principais modelos de ajuda alimentar a atuar em Portugal: organização de combate ao desperdício alimentar, cantina social e mercearia social. Com base numa metodologia que articula observação participante com entrevistas semiestruturadas aos beneficiários, voluntários e responsáveis, o projeto explora o funcionamento destas respostas, bem como as relações que são estabelecidas no seu seio. De forma a salvaguardar todos os participantes e organizações evolvidos, optou-se por recorrer ao anonimato, utilizando pseudónimos e identificações neutras.

As organizações

Durante as entrevistas com os responsáveis e voluntários das iniciativas de apoio alimentar analisadas, os discursos centraram-se nos desafios enfrentados pelas organizações. O acesso a fontes de financiamento acaba por ser uma das principais dificuldades apontadas. A inadequação das redes de financiamento já alcançadas é um aspeto transversal aos vários contextos organizativos.

A organização de combate ao desperdício alimentar surge de forma autónoma, isto é, sem ser apoiada por outra organização, dependendo, portanto, única e exclusivamente da sua capacidade para angariar voluntários, fontes de alimentos e parcerias. Além disso, este tipo de iniciativa aposta fortemente na formulação de candidaturas aos mais variados tipos de concursos nacionais e internacionais, tendo alcançado resultados bastante positivos nas categorias de empreendedorismo, inovação e sustentabilidade. Tanto a cantina social como a mercearia social surgem associadas a organizações já estabelecidas no terreno, que lhes garantem espaços de atuação, recursos humanos e legitimidade na criação de parcerias.

Não fugindo à tendência nacional, as três iniciativas lutam diariamente para garantir a sustentabilidade financeira do projeto que abraçaram, seja pela fragilidade dos apoios existentes, seja pela volatilidade dos mesmos.

Um outro desafio organizacional identificado prende-se com dificuldades na avaliação da atividade e dos serviços prestados por parte das iniciativas. Quando questionados, a título de exemplo, sobre o número de casos de sucesso, ou seja, sobre o número de beneficiários que deixaram de recorrer à ajuda alimentar por não necessitarem da mesma, os responsáveis das iniciativas analisadas apontaram dificuldades na sua contabilização. Os responsáveis e voluntários deram ainda a conhecer fragilidades nos processos de gestão dos produtos que dão entrada e saída das iniciativas, bem como das equipas (voluntários e técnicos). A escassez de mecanismos e ferramentas que permitam um conhecimento aprofundado sobre as iniciativas acaba por contribuir para fragilizar a imagem das mesmas. Esta ausência é particularmente danosa quando as iniciativas procuram parcerias ou financiamento externo.

As relações humanas

Os resultados preliminares desta investigação apontam para a existência de vários tipos de relações estabelecidas em contexto de ajuda alimentar. Coexistem nas várias iniciativas analisadas relações marcadas pelo estabelecimento de fortes vínculos afetivos — “Acabei por encontrar aqui uma outra família” (João, 63 anos) — com relações de carácter mais instrumental — “Estabeleço uma relação meramente cordial, chego e vou embora” (Alfredo, 56 anos). A elevada rotatividade dos voluntários contribui para um maior distanciamento e contactos mais impessoais: “Acho importante não se andar constantemente a saltar, quando conhecem o nosso historial é melhor” (Maria, 46 anos).

Por vezes, o comportamento e as atitudes de um número reduzido de voluntários acabam por marcar de forma irreversível as perceções de alguns beneficiários, conduzindo a tensões e conflitos: “Não fui bem tratada, a voluntária respondeu-me: ‘Se está assim tão mau, não venha cá.’ E eu disse: ‘Eu venho cá porque preciso’” (Edite, 64 anos). A existência de uma boa comunicação e de simpatia são elementos valorizados pelos beneficiários entrevistados. Contudo, estabelecer uma relação próxima com os voluntários não se apresentou como um desejo universal, e alguns beneficiários optam mesmo por manter algum distanciamento: “Prefiro manter alguma distância com eles [voluntários] para evitar abusos de confiança… já lá vi muita coisa” (Mercedes, 57 anos). Para isto, podem contribuir os processos de rotulagem, estigmatização e discriminação encontrados geralmente em contexto de ajuda alimentar.

Durante a recolha de dados, foi possível identificar tensões e conflitos que são transversais às várias iniciativas, tais como a dificuldade em lidar com beneficiários que ingerem substâncias que alteram o seu estado de espírito como álcool, medicamentos ou estupefacientes, e a existência de perspetivas racistas e xenófobas. Além disso, foi também possível associar problemas relacionais específicos a duas das organizações analisadas.

No caso da organização de combate ao desperdício alimentar, destacam-se desafios relacionados com a existência de longas filas de espera: “Estava a dar o meu número [de beneficiária regular] mas veio um senhor [beneficiário] e ofereceu-me porrada e tudo, porque disse que estava primeiro [na fila]” (Maria, 46 anos). No caso da cantina social, a fragilização das relações advém, sobretudo, da permanência dos beneficiários na iniciativa por longos períodos de tempo: “Há uns que se odeiam há anos e que não se sentam à mesma mesa nem se falam, quando bebem [álcool] ainda é pior” (Júlio, 50 anos).

Reflexões finais

A fazerem sentido, as iniciativas de apoio alimentar fazem-no, desde logo, para aqueles que delas necessitam e para os que as dinamizam. A forte adesão que têm tido a nível nacional, sobretudo em períodos de crise, espelha a existência de fortes carências alimentares na sociedade portuguesa, sendo na ausência de respostas e estratégias dirigidas à raiz dos problemas complexos da pobreza e do desperdício alimentar que vão atuando este tipo de organizações. Um mal necessário? Talvez, mas prefiro caracterizá-las como uma primeira linha de resposta que deve coexistir com soluções capazes de capacitar e capacitar quem necessita de assistência.


Sociólogo, ICS-ULisboa

O Instituto de Ciências Sociais (ICS) é uma escola da Universidade de Lisboa e um Laboratório Associado do Sistema Científico Nacional dedicado à investigação, aos estudos pós-graduados e à divulgação de ciência nas áreas de Antropologia, Ciência Política, Economia, Geografia, História, Psicologia Social e Sociologia (www.ics.ulisboa.pt). Durante um ano, todos os domingos, investigadoras e investigadores com diferentes formações, idades e percursos académicos partilham o seu trabalho com os leitores do P2.

17.9.20

ReFood pede ajuda à comunidade vimaranense para garantir refeições aos mais carenciados

 in Guimarães Digital

O Núcleo de Guimarães da Refood lança um apelo à comunidade vimaranense para conseguir continuar a assegurar distribuição de alimentação junto da população mais carenciada do Concelho.

Os pedidos de ajuda aumentaram desde o passado mês de Março, quando começou a crise sanitária. Inicialmente, não faltaram apoios para garantir a sobrevivência do projecto que se destina a fazer o aproveitamento dos excedentes alimentares a favor dos mais carenciados, mas essa realidade sofreu alterações e os responsáveis do Núcleo de Guimarães estão preocupados com o futuro.

"Faltam alimentos para atender aos pedidos de ajuda que crescem. Antes do Estado de Emergência estávamos a apoiar 39 famílias, num total de 106 pessoas. Em Julho, chegamos a 63 famílias e 191 pessoas", justificou Manuela Mendonça, ao dar conta que "o grande problema" que o movimento enfrenta decorre da necessidade de angariar mais alimentos para os cabazes. "Tivemos bastantes donativos durante a pandemia, mas esses contributos já foram todos gastos. Estamos a atravessar uma fase complicada porque estamos a ficar sem alimentos para podermos levar as refeições a 170 pessoas que contam com a nossa ajuda", disse, ao apelar a ajuda da comunidade.

Criado com a finalidade de aproveitar os excedentes alimentares das mais variadas instituições, o Núcleo de Guimarães da Refood contava com o importante apoio do dinâmico sector da restauração da região. Porém, observa Manuela Mendonça, "já não existem tantas fontes como antigamente". "Os excedentes dos restaurantes que colaboram com o nosso projecto são menores e depois há uma nova e exigente logística para cumprir porque estamos a viver numa pandemia. Não podemos utilizar as mesmas caixas de antigamente. Temos de usar caixas descartáveis. Estamos a fazer apelos para que nos ofereçam caixas descartáveis, a particulares, a instituições, às empresas que as produzem, para que nos possam ajudar a obter essas caixas descartáveis", continuou, ao destacar também a necessidade do movimento contar com mais voluntários disponíveis para o projecto.

"Devido à pandemia tivemos de resguardar as pessoas com idades avançadas ou com patologias de risco, tentamos fazer equipas fixas para podermos entregar os cabazes. Neste momento, como vamos ter de alargar os horários e fazer mais recolhas de comida pronta, mas para isso também precisamos das caixas descartáveis, precisamos de mais voluntários para substituírem aqueles que não podem estar no terreno", insistiu Manuela Mendonça, ao indicar que esses voluntários terão de ter disponibilidade "para fazerem recolhas de manhã e à noite ou para fazerem entregas ao fim do dia".

"É um apelo a toda a comunidade vimaranense para nos ajudar a continuar abertos e a ajudar as pessoas que precisam de nós", alerta, reconhecendo que a actividade do Núcleo corre o risco de encerrar. "Não queremos que isso aconteça, porque sempre funcionamos... Durante o confinamento conseguimos ajudar as pessoas e até duplicamos o número de pessoas que ajudamos. Seria morrer na praia ter de encerrar por falta de condições para trabalhar. Não queremos baixar os braços e sabemos que a comunidade vimaranense não vai deixar que isso aconteça. Toda a gente vai unir-se e todos podem ajudar, se não for com alimentos, pode ser com caixas descartáveis ou com duas horas por dia dedicadas ao projecto, com contactos", apelou, realçando que os donativos de alimentos poderão ser entregues na central da Refood em Guimarães, instalada na Junta de Freguesia de Azurém.

Quem desejar prestar serviço de voluntariado ou obter outro tipo de informações, poderá contactar os responsáveis através da página do Facebook da Instituição.

3.7.20

Imigrantes pedem ajuda para comer e saem de Portugal aos milhares

João Queiroz, in JN

Só entre brasileiros, mais de dois mil em condições dramáticas tiveram que voltar ao seu país. A Ucrânia fez em março e abril cinco voos de repatriamento.

Não se sabe ao certo quantos são. A pandemia tirou-lhes o emprego, atirou-os para a pobreza, deixou-lhes a vida à mercê da sorte e dos movimentos de solidariedade que se multiplicaram nestes tempos de crise. Passaram a depender das associações para comer, pagar a renda da casa ou, simplesmente, para ter onde dormir. Sem meios de subsistência, milhares de imigrantes desistiram e regressaram (ou tentam voltar) ao país de origem.

Entre março e maio, foram repatriados mais de dois mil cidadãos brasileiros - a mais representativa comunidade imigrante em Portugal -, "em situação de extrema vulnerabilidade", sem dinheiro para sobreviver. "Recebemos um número muito expressivo de pedidos de ajuda durante o surto. A população que ainda estava em fase de legalização foi afetada de forma muito violenta", afirma ao JN Eduardo Hosannah, cônsul-geral-adjunto do Brasil.

Trata-se de uma vaga de imigração "muito recente, com poucos apoios informais" no país de acolhimento e "pouca possibilidade de recorrer a ajuda pública", explica João Peixoto, sociólogo e professor do ISEG: "Perante situações de desemprego imediato, sem contrato (muitos são trabalhadores precários, recebendo como independentes), sem possibilidade de recorrer ao lay-off, sem poupanças acumuladas, o retorno passou a ser a única saída, porque a possibilidade de reemigrar para outro país, como aconteceu na crise anterior, não existe agora".

Precários e desprotegidos

Foi "muito significativo" o impacto da crise nos brasileiros, a maioria empregada na restauração, no turismo e noutros serviços. "Ficou muito evidente a situação precária de trabalho e, por conta disso, a falta de proteção social. Foram inúmeros os pedidos de ajuda para alimentação e para habitação - apareceram-nos muitos casos de desalojamento, de quem só tem dinheiro para mais um mês ou 15 dias de renda...", conta Cyntia de Paula, psicóloga e presidente da Casa do Brasil de Lisboa.

Já a Embaixada da Ucrânia diz ter recebido "mais de 2500 pedidos de auxílio" por parte de pessoas em busca de "informação sobre a covid-19 e os meios e as possibilidades de regresso" à terra natal. Entre março e maio, realizou cinco voos de repatriamento com um total de 710 passageiros.

A maioria recorreu aos consulados. Houve quem, no entanto, tenha procurado os três centros nacionais de Apoio à Integração de Migrantes, que "registaram 78 atendimentos com assunto relativo ao retorno voluntário", segundo dados do Alto Comissariado para as Migrações.

ajuda alimentar e de casa

"Os que ficaram atravessam muitas dificuldades. Muitos estão desempregados, a necessitar de ajuda alimentar e alguns de alojamento", diz Pavlo Sadokha, presidente da Associação dos Ucranianos.

Em maio, o Banco Alimentar Contra a Fome prestava assistência a cerca de 60 mil pessoas, "muitos, muitos imigrantes, a maioria de nacionalidade brasileira, mas também de Cabo Verde, Guiné, Angola, Vietname e Nepal", refere Isabel Jonet.

São várias instituições a tirar a fome a quem empobreceu ou ficou sem teto. A Estrela da Lusofonia, por exemplo, ajuda hoje 60 famílias no concelho de Sintra, a sua área de influência. A Associação Cultural Moinho de Vento, cujo plano alimentar de emergência à comunidade do Bairro da Cova da Moura - casa de milhares de imigrantes - passou a abranger mais de 300 pessoas, quando antes eram pouco mais de 50. São os pobres da covid-19.

23.6.20

Reforço de apoio alimentar a pessoas carenciadas em Santarém

in o Mirante

Associação para o Desenvolvimento Social e Comunitário de Santarém recebe subsídio extraordinário.

A Associação para o Desenvolvimento Social e Comunitário de Santarém vai receber um apoio financeiro extraordinário municipal de 19.233 euros para garantir o reforço do apoio alimentar a pessoas em situação de vulnerabilidade social no actual contexto de pandemia e de grave crise. A atribuição do apoio pela Câmara de Santarém, em articulação com a Segurança Social, surge no âmbito do Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas.

Este programa, promovido pelo Ministério da Segurança Social, pretende ser um instrumento de combate à pobreza e à exclusão social. Disponibiliza apoio alimentar e outros bens de consumo básico, assim como medidas de acompanhamento que capacitem as pessoas mais carenciadas a vários níveis, promovendo a sua inclusão.

21.5.20

O combate à Covid-19

Nuno Gonçalves, in A Voz de Trás-os-Montes

No início desta pandemia, o Município de Torre de Moncorvo percebeu a gravidade da situação e procedeu de forma a minimizar a propagação da covid-19. Desinfetamos todos os espaços públicos e equipamentos de deposição de resíduos, procedemos à colocação de proteções nos balcões de atendimento do Município e Centro de Saúde, colocamos em circulação um veículo de sensibilização pelas freguesias, ajudamos nos pedidos de receitas à população, realizamos testes covid-19 aos funcionários das IPSS, criamos duas unidades de acolhimento, adquirimos equipamento de proteção individual, criamos uma base de dados de voluntariado e cancelamos todos os eventos, e utilizamos o seu orçamento no combate à covid-19.

Para apoiar a população e os agentes económicos, suspendemos o pagamento de rendas dos espaços concessionados pelo Município, estamos a fornecer refeições a quem se encontra em isolamento profilático e aos alunos do 1º ciclo do Escalão A e B. No que diz respeito à educação, implementamos aulas online na Escola Municipal Sabor Artes, estamos a entregar a matéria escolar aos alunos do Escalão A e B do 1º ciclo e disponibilizamos nos canais online do município atividades para crianças do pré-escolar e do 1º ciclo.

Para o regresso à normalidade dos moncorvenses criamos uma forma de circulação segura para peões, no centro da vila, e distribuímos 10.000 máscaras pela população e instituições do concelho.
De futuro pretendemos privilegiar a aquisição de bens e serviços às empresas locais, reduzir a tarifa variável da água e saneamento para os não domésticos, permitir a duplicação do espaço destinado a esplanadas e possível isenção das taxas devidas, implementar a mobilidade dos serviços do Balcão Único nas freguesias, disponibilizar uma linha telefónica de apoio social, distribuir leite escolar aos alunos do 1.º ciclo do ensino básico e reforçar a atuação do Banco Solidário.

Não menos importantes são os apoios implementados pela CIMDOURO de cerca de 20 milhões de euros, que servirão para apoiar empregadores e trabalhadores das empresas da região.
Termino, referindo que para este executivo a preocupação com a população do concelho sempre esteve em primeiro lugar e sempre estará!

20.5.20

Criado Grupo de Trabalho na área da Emergência Alimentar/Apoio Alimentar em Santarém

in Correio do Ribatejo

A reunião do Conselho Local de Ação Social de Santarém (CLASS) decorreu ontem, dia 13 de maio, com a participação, por videoconferência, de 41 parceiros, com o objectivo de promover a partilha de informação, ponto de situação e balanço, sobre as respostas sociais aos indivíduos e famílias em situação de vulnerabilidade no âmbito da pandemia Covid-19

Nessa reunião, o Município de Santarém, na qualidade de coordenador do CLASS, submeteu uma proposta de criação de um grupo de trabalho, aprovada por unanimidade, com o objectivo de estudar e implementar medidas que respondam à procura do apoio alimentar por parte de indivíduos e famílias em situação de vulnerabilidade, rentabilizar as respostas existentes, elencar as medidas e apoios sociais já existentes e definir estratégias de intervenção após a resposta de emergência motivada pela situação que hoje vivemos.

O grupo de trabalho será constituído pelos representantes das entidades que já integram o Núcleo Executivo deste Conselho – Município de Santarém; Centro Distrital de Santarém, ISS:IP; ACES da Lezíria; Santa Casa da Misericórdia de Santarém; APPACDM de Santarém; Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira e Associação para o Desenvolvimento Social e Comunitário de Santarém e, na qualidade de entidades convidadas, as duas equipas do Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS) – Cruz Vermelha Portuguesa e Santa Casa da Misericórdia de Pernes (equipas de 1ª linha da intervenção social no concelho), bem como do Banco Alimentar de Santarém.

Este grupo de trabalho surge pela necessidade de actuar e congregar esforços face à actual situação de pandemia do coronavírus Covid-19 e ao elevado número de cidadãos que, por via de situações de desemprego e redução dos seus rendimentos, necessitam deste apoio.

O Conselho Local de Ação Social de Santarém (CLASS) é fórum de articulação e congregação de esforços baseado na adesão livre por parte das autarquias e das entidades públicas ou privadas sem fins lucrativos que nela queiram participar – com o objectivo de desenvolver uma parceria efectiva e dinâmica que articule a intervenção social dos diferentes agentes locais; promover um planeamento integrado e sistemático, potenciando sinergias, competências e recursos a nível local; procurar soluções para os problemas das famílias e pessoas em situação de pobreza e exclusão social, entre outros.

15.5.20

Há uma brigada de voluntários a “cozinhar” cantinas de urgência

Rute Barbedo (texto) e Daniel Rocha (fotografia), in Público on-line

Não vivem de fundos públicos nem são instituições de solidariedade, mas distribuem refeições a centenas de pessoas. Em Lisboa e no Barreiro, cinco colectivos acreditam que dependeremos cada vez mais de iniciativas autónomas para enfrentar os novos tempos.

12h55. As pessoas começam a vir à porta para perguntar quando começa. Acima do balcão metalizado, duas inscrições: “Isto não é um bar”; “Isto não é um restaurante”. Nunca foi. A associação RDA – Recreativa dos Anjos é um projecto político, autónomo e comunitário que, em tempos de covid-19, decidiu concentrar as actividades no essencial: uma cantina solidária que distribui refeições quentes e gratuitas a quem precisa.

De casa em casa, estes enfermeiros levam cuidados e uma palavra amiga a quem mais precisa
No primeiro dia, em Março, apareceu pouca gente. Foi preciso descer a Avenida Almirante Reis, em Lisboa, a passar a comida e a palavra. Agora, oferecem uma média de 150 refeições por dia, sem folgas, e a própria Junta de Freguesia de Arroios encaminha pedidos de apoio para a associação. A quem chega não fazem perguntas, não há requisitos a preencher. Por isso, também não há um padrão na fila que se avoluma ao bater da uma da tarde. São sem-abrigo, novos desempregados, trabalhadores à jorna que perderam os rendimentos de um dia para o outro, imigrantes, portugueses, novos e velhos. A clientela habitual – “estudantes, jovens, hipsters”, no resumo de Luhuna Carvalho, membro da assembleia do RDA – que vinha aos concertos, conversas, filmes e noites de festa da associação em tempos normais – está fechada em casa. Um novo bairro emergiu.

Até às 15h, seis voluntários continuarão a oferecer pratos de massa, carne e legumes. Há também iogurte, uma peça de fruta e água. No entanto, este não é um acto de caridade, mas antes um passo no sentido da autonomia e da entreajuda. Como lembra Luhuna, vários filósofos acreditam que o momento que vivemos é um “ensaio geral” das crises que se seguirão, ligadas às alterações climáticas, e que, nelas, “a acção dos estados oscilará entre a incapacidade de cuidar de todos e a intensificação dos seus traços mais autoritários”. Mais do que dar comida, a cantina é, por isso, uma forma de “colocar em prática processos colectivos de autonomia e organização que permitirão enfrentar os tempos que se aproximam”, acredita Luhuna Carvalho.

O donativo espontâneo
Daniel, 36 anos, equilibra a comida nas mãos. Chegou a Lisboa no dia 20 de Fevereiro, vindo de Londres, onde foi cozinheiro e motorista. Alugou um quarto, ia recomeçar a vida, até que ficou “tudo nebuloso”. “Ainda tenho lugar para dormir mas o dinheiro está a acabar”, conta. Por isso veio pedir comida. “Nunca tinha chegado a este ponto, mas também não me envergonho. Prefiro estar aqui do que roubar.” Apesar de tudo, está tranquilo. Nas filas para a comida, tem conhecido “muita gente que está a passar pelo mesmo” e isso ajuda a aceitar o novo normal, o mesmo que calhou a Josefa, 51 anos, que há dias passou por acaso nesta rua e descobriu a cantina solidária. Empresária no negócio do transporte individual (TVDE), quando “a situação apertou”, viu-se obrigada a dispensar os trabalhadores e a mudar-se do apartamento arrendado para um quarto que partilha com o filho. “Ele ganha pouco, é mecânico de elevadores, mas dá para o quarto. E eu levo a comida. Uma refeição daqui, outra ali de cima, do Exército, muito boa também.”

Provavelmente, Daniel e Josefa nunca conhecerão quem lhes paga as refeições dos dias da pandemia. Tal como acontece com outros colectivos da zona, o sistema de cantina solidária é sustentado por donativos, até porque, com a aplicação do estado de emergência, os bares que suportavam cada um dos espaços foram suprimidos.

“Sempre consideramos a cantina uma das coisas principais. O RDA começou nos anos da austeridade [em 2010] e essas refeições [que custavam 2,50 euros] surgiram como economicamente viáveis para muita gente”, recorda Luhuna. Com o confinamento, pensaram que aconteceria o mesmo. “Fizemos isso durante uma semana, mas não vinha ninguém”; decidiram oferecer. “Tínhamos dinheiro para 30 ou 40 refeições por dia durante uma semana. Depois, logo se via.” E o que se viu foi que “começaram a chover donativos, ao mesmo tempo que aumentava o número de pessoas” à procura de apoio. Na primeira semana oscilaram entre 30 e 40 por dia, no final de Abril, chegaram a aparecer 200.

Na mesma zona da cidade, colectivos vizinhos protagonizam situações semelhantes através de uma rede de voluntários, alguns desempregados, outros em lay-off e outros, ainda, que conseguem dar tempo por terem horários flexíveis. Por vontade de um grupo de amigos, o Provisório criou a Cantina Solidária Temporária, uma espécie de sistema pop-up para estes dias de emergência e calamidade, que serve uma média de 85 refeições diárias; a Disgraça oferece refeições quatro dias por semana; e no Barreiro, a Cooperativa Mula distribui cerca de 80 refeições e 90 cabazes por dia (tanto à porta, como em entregas ao domicílio). Para lá do plano alimentar, está a Brigada de Bairro, uma rede informal – composta por perto de 100 voluntários – que liga todos estes projectos através de um trabalho de comunicação com a comunidade e de sinalização de necessidades no terreno. “Dizemos onde podem ter refeições, tentamos perceber se precisam de comida em casa, mas de outras coisas também, como ir à farmácia, passear animais, levar o lixo ou só conversar. Vemos o que podemos fazer ou para onde as podemos encaminhar. Também já encaminhámos um caso para a Junta”, explica Ana Reis.

Não há planos estanques
A melhor forma de estar em ressonância com o momento, acreditam os colectivos, é estar na rua e criar respostas em função do que acontece. “Temos uma relação muito próxima com as pessoas. Começámos a ver domésticas, ‘mexilhoeiros’ [apanhadores de mexilhão], arrumadores de carros a ficarem sem dinheiro de um dia para o outro. Foram os primeiros. Decidimos criar uma cantina de urgência, em que cada um dava o que pudesse. Mas rapidamente começámos a ver que as pessoas não davam nada, porque não tinham”, conta Mário Negrão, da Cooperativa Mula. Não foi por isso que pararam, e, mais uma vez, começaram a surgir donativos, ainda que nesta fase comecem a escassear. “Já gastámos mais do que o que recebemos”, afirma o activista. Em paralelo à confecção de refeições, às famílias numerosas a Mula decidiu oferecer cabazes, e está também a cultivar um terreno baldio próximo da cooperativa, porque é preciso “ter um backup”.

Mas até quando se aguentarão de pé estas cantinas? “Enquanto houver dinheiro e necessidade, vai continuar”, assume o RDA. Já o colectivo do Barreiro revela-se mais pessimista. “A Cantina Solidária da Mula poderá ter de em breve deixar de ajudar tantas pessoas. A Cooperativa Mula não é uma IPSS, não recebe apoios camarários ou estatais, para além de coisas pontuais e que agradecemos. Mas na verdade, temos de ser francos, temos feito as vezes de várias dessas responsabilidades”, comunicou a organização a 29 de Abril.

Além de apelarem a doações, os colectivos planeiam desenhar uma estratégia que os torne independentes da grande distribuição para a aquisição de comida, de forma a chegarem aos produtores sem ter de passar pelas margens dos intermediários, naquilo que é mais uma vez uma acção política. “O papel dos supermercados está a ser muito reduzido e temos a intenção de confrontá-los”, argumenta Mário Negrão.

Para o colectivo do Barreiro, a consciência é de que, ainda assim, fazem “muito pouco para as necessidades que existem”. No entanto, acreditam que com a partilha de métodos possíveis de solidariedade poderão “inspirar à criação de outras redes como esta”. O propósito deste tipo de iniciativas, corrobora Luhuna Carvalho, “é passar de algo meramente assistencialista para algo politicamente mais forte. As pessoas ajudarem-se umas às outras e organizarem-se não é uma ideia utópica; acontece. Nós só estamos a pegar em coisas que já existem, a desenterrá-las, a limpar-lhes o pó e a metê-las a funcionar”.

11.5.20

Câmara de Lisboa garante 15 mil refeições por dia "para quem mais precisa"

in Sicnotícias

Iniciativa representa um investimento de 1,5 milhões de euros por parte da autarquia.

Cerca de 15 mil refeições estão a ser produzidas e distribuídas por dia "para quem mais precisa" pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), utilizando, entre outros meios, as cozinhas das escolas básicas que se encontram encerradas.

"Desde o início do estado de emergência (devido à pandemia de Covid-19), a CML tem estado a multiplicar a sua capacidade de produção e distribuição de refeições. Utilizando os meios ao seu dispor, nomeadamente as cozinhas das escolas básicas que se encontram encerradas, a CML está atualmente a produzir cerca de 15 mil refeições por dia", é referido num comunicado do gabinete do vereador responsável pelos pelouros da Educação e Direitos Sociais da autarquia, Manuel Grilo.

Este reforço na produção e distribuição de refeições representa por mês um investimento de 1,5 milhões de euros, de acordo com a autarquia.

As cerca de 15 mil refeições são distribuídas em mais de 4.800 kits de alimentação, com a ajuda de vários parceiros, entre os quais a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Em três pontos da cidade, as refeições são distribuídas pelas Forças Armadas e nas escolas "são centenas as famílias" que acedem a essa ajuda para os filhos, "com escalão A ou B da ação social escolar", indica o gabinete do vereador Manuel Grilo (BE, partido que tem um acordo de governação da cidade com o PS).

"Nos centros de acolhimento de emergência para as pessoas em situação de sem abrigo, que abrigam hoje centenas de pessoas, também são distribuídas refeições diariamente, entre pequeno-almoço almoço, lanche, jantar e ceia", lê-se na nota.

Além disso, foi também ativada a rede do Projeto Radar para, com as Juntas de Freguesia, distribuir centenas de refeições a idosos isolados.

"A cada semana, são mais de 70 mil refeições distribuídas pela cidade. Diversificando as formas de distribuição, esta resposta tem de continuar a ser dada nos próximos meses por uma razão simples: a fome não pode voltar a Lisboa e quem o pode garantir é a resposta pública", refere o vereador responsável pelo pelouro da Educação e Direitos Sociais, citado no comunicado.

7.5.20

Plataforma criada em Famalicão permite oferecer refeição a sem-abrigo ‘em tempo real’

Por o Minho

A Eat Tasty, start up de confeção e distribuição de comida caseira criada por dois jovens de Viana do Castelo e Famalicão, onde está instalada parte das instalações da empresa, está a desenvolver uma campanha solidária com o objetivo de entregar refeições às comunidades de sem-abrigo de Lisboa, que é a zona onde opera.

A atividade da Eat Tasty consiste na confecção e entrega de comida caseira no local de trabalho – e agora também em casa.

Através da plataforma “Ajuda-nos a Ajudar”, qualquer pessoa pode comprar um menu solidário, por 4,99 euros, que serão entregues aos sem-abrigo instalados nos albergues oficiais da Câmara de Lisboa.

Segundo a empresa, já foram entregues 6.000 menus solidários.

A iniciativa “Ajuda-nos a Ajudar”, explica a empresa, teve “origem num grupo de WhatsApp onde alguns amigos EatTasty se juntaram com o intuito de oferecer refeições nutritivas aos sem abrigo de Lisboa”.

Começou “com cerca de 20 entregas na Comunidade Vida e Paz” e de repente “já eram mais de 100 refeições entregues todos os dias em diferentes associações da cidade”, crescimento que levou a empresa a “oficializar” o projeto.

Qualquer pessoa pode contribuir a partir do site da Eat Tasty.

Em duas semanas, Rede de Emergência Alimentar recebeu mais de 3100 pedidos de ajuda

Cristiana Faria Moreira (Texto) e Miguel Manso (Fotografia), in Público on-line

A maioria dos pedidos recebidos pela rede de emergência são de pessoas que não tinham qualquer apoio e que, de um momento para o outro, se viram desamparadas. Numa associação da Outurela, o apoio continua mesmo a meio-gás.

O estado de emergência não deixou só as cidades desertas. Dentro de quatro paredes estão pessoas sem empregos, sem rendimentos. E a carência de comida já se nota, diz Isabel Jonet, presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Foi a pensar nesta franja da população mais desprotegida que, com o apoio da associação Entrajuda, criou uma plataforma online para registar novos pedidos de ajuda alimentar e tentar assim responder às carências mais imediatas. Em duas semanas (contabilizados até às 23h de 2 de Abril) chegaram à Rede de Emergência Alimentar 3126 pedidos de todo o país — 223 por dia, em média. Desses, 1.843 (59%) já foram encaminhados.

Lisboa, Setúbal, Porto e Braga são os distritos onde se registam mais pedidos. E Isabel Jonet atribui essa distribuição ao facto de serem cidades onde se dispõe grande parte do rendimento mensal só para a renda da casa. “Estas pessoas enfrentam aquele que é o maior desafio que há nas famílias carenciadas que são as rendas de casa, que aumentaram imenso e que ocupam quase o seu salário total”, admite.

E quem está na linha da frente da perda de rendimentos é precisamente quem já menos tem. “Nós temos muitas mulheres cabeleireiras, empregadas domésticas, que não tinham uma relação laboral estável, por vezes informal. São pessoas que ficaram completamente desamparadas”, diz a responsável.

São pedidos de pessoas que não estavam a precisar de apoio, mas que agora tiveram de o pedir. “As mães de baixos recursos tinham os filhos nas creches, no infantário ou no ATL, e as crianças comiam na instituição. E agora que está em casa, a mãe tem de lhe dar de comer. A própria mãe, muitas vezes, também comia no trabalho. Isto é tão perverso porque é um sistema que se enrola a si próprio”, nota a responsável.

Estes novos pedidos somam-se às 400 mil pessoas que são apoiadas normalmente pelo Banco Alimentar. Os pedidos são feitos através de um site. A equipa da Rede de Emergência Alimentar trata depois de reencaminhar para a associação mais próxima da área de residência de quem faz o pedido.

Perante a pandemia, muitas instituições de apoio social viram-se sem pessoas que assegurassem os serviços e foram também forçadas a encerrar — outras estão a meio gás. Como a rede de apoio social acabou por ficar desfalcada, a Rede de Emergência Alimentar acabou por montar uma rede com as juntas de freguesia. “A rede é no fundo isto: potenciar em cima do que já existe.”

Campanha de Maio em risco
Nos armazéns do Banco Alimentar tudo funciona com aparente normalidade: os monta-cargas andam cá fora a levar mercadorias de um lado para o outro, as associações vão carregando frescos para as carrinhas. Mas há menos voluntários — alguns têm máscaras e luva, outros dispensam o material de protecção.

António Beltrão, de 62 anos e ali voluntário há três, confirma o cenário: “Os voluntários mais velhos estão resguardados em casa. Mas nós continuamos a servir.”

Para já, o Banco Alimentar tem tido “generosos donativos”. A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) avançou com um donativo de 350 mil euros à Rede de Emergência Alimentar. A Fundação do Futebol, uma organização de responsabilidade social da Liga Portuguesa, deu dez mil litros de leite.

O maior receio de Isabel Jonet é a campanha de recolha de Maio, nos supermercados, onde muita gente contribui, mesmo que seja com pouco. É quase certo que não se realizará e isso é um “problema”, reconhece. “As campanhas representam uma grande percentagem dos produtos secos (massas, arroz, farinhas) que entram nos bancos alimentares.”

“Para já, vamo-nos aguentando”
Por estes dias, a palavra de ordem na associação onde Bruno Ribeiro e José Marques dão uma mão é improviso. É quarta-feira, dia de ir a Lisboa recolher frescos ao Banco Alimentar. Eles tratam de carregar paletes de bananas, cogumelos, laranjas, para a carrinha da associação. Não são eles quem costuma fazer este serviço — o primeiro é tesoureiro, o segundo administrativo —, mas tiveram agora de arregaçar as mangas porque parte dos funcionários e voluntários do Projecto Família Global estão resguardados em casa por serem mais velhos ou por terem crianças a seu cuidado.

Esta associação, que presta apoio no bairro social da Outurela e Portela, existe há mais de duas décadas. Ao longo dos anos, foi acrescentando valências à sua actividade: tem apoio domiciliário a idosos, fornece alimentação, tem o banco alimentar com cabazes para as famílias do bairro, uma creche, um ATL, e até uma clínica dentária social. A pandemia fê-los diminuir os apoios: a creche, o ATL e a clínica fecharam, o resto mantém-se.

“É quase um padrão das instituições todas. Mantêm o apoio domiciliário, as refeições, e em alguns casos aquilo a que chamam banco alimentar, que é a distribuição de sacos de alimentos às famílias”, nota Isabel Jonet.

Com a carrinha carregada, é hora de Bruno e José partirem para a associação para deixarem os alimentos, que serão distribuídos pelas famílias. O projecto Família Global apoia 168 agregados e, para já, não surgiram novos pedidos de ajuda — até porque grande parte das famílias do bairro beneficia de Rendimento Social de Inserção ou então são reformados. “Mas há angústia pela incerteza”, repara a assistente social da instituição, Marisa Cardoso. “As pessoas estavam com medo que deixássemos de fazer entregas.”

A associação apoia 168 famílias do bairro social da Outurela e Portela com bens alimentares
Ela e Isabel Ribeiro, também da associação, vão acomodando os bens recebidos para que caibam nos frigoríficos. Naquela tarde, iam começar a distribuição dos cabazes mensais. As prateleiras estão cheias de pacotes de arroz, massas, farinha e açúcar, azeite, óleo, enlatados, salsichas, atum, bolachas. Semanalmente entregam os frescos. “Aqui, apoiamos desde a família de sete, até ao agregado familiar de um”, diz Marisa Cardoso.

No refeitório da associação, perto do meio-dia, acabavam de encher as marmitas para os 38 idosos que apoiam. Mesmo a meio-gás têm continuado a sua missão. Parar é um luxo que eles não têm, caso contrário muita gente ficaria desamparada, diz Isabel Ribeiro. “Para já, vamo-nos aguentando.”

6.5.20

Amadora. Centenas de pessoas aglomeram-se em fila para recolha de alimentos

in Público on-line

A polícia foi chamada a uma mesquita na Amadora, mas não houve desacatos.

A zona que rodeia a mesquita da comunidade islâmica da Amadora recebeu, na tarde desta quarta-feira, um aglomerado de pessoas que faziam fila para recolha de alimentos.

A PSP da Amadora confirmou ao PÚBLICO que “cerca de 200 pessoas não respeitavam as normas de distanciamento social” e que foi movido um dispositivo policial para o local.

Para já, esclarece a PSP, “a polícia interveio sem desacatos nem intervenção rígida”. “Foi uma intervenção indicativa e as pessoas estão a cumprir. Do que sabemos, a situação está calma”, acrescenta, informando ainda que a distribuição de alimentos está a terminar.

O sheik David Munir, líder da mesquita islâmica central de Lisboa, detalhou à TVI24 que “no mês do Ramadão é normal as pessoas distribuírem alimentos para os mais carenciados”, mas lembrou que, fruto da pandemia, foi criada “uma equipa para ir a casa dessas pessoas”.

Elogiando a bondade e generosidade da iniciativa da mesquita da Amadora, lamentou que esta não tenha optado por uma organização mais ponderada, antecipada e com recurso ao apoio das forças policiais e das entidades municipais.

“É uma mesquita pequena, que está a fazer um bom trabalho, mas, acima de tudo, é uma mesquita pequena. Tem de servir de apoio religioso, espiritual e social, mas não nesta virtude. Isto poderia ter sido feito num campo ou num pavilhão, de forma mais organizada e pacífica. Foi tudo um pouco em cima do acontecimento e eles não sabiam que lá iriam tantas pessoas. Se trabalhássemos em equipa, com a Câmara Municipal, a polícia e os bombeiros, resolveríamos o problema de forma pacífica e generosa”.

Sobre os perigos do ajuntamento, David Munir reconheceu o problema de saúde pública, mas lembrou o desespero das pessoas. “Preocupa-me que facilmente uma pessoa infectada pode contaminar centenas. Essas centenas irão para as suas casas e poderão contaminar outras centenas. Depois, essas vão a um supermercado e contactar com outros. Com isto, estamos a expandir a infecção”, começou por dizer, acrescentando: “Mas também me preocupa que as pessoas estão lá porque precisam. É um problema social. As pessoas estão desesperadas. Muitas até taparam a cara - e não só com a máscara -, porque têm vergonha de lá estar”.

Isabel Jonet: "Mais do que dar donativos, as empresas devem esforçar-se por manter empregos"

in DN

Arranca esta quarta-feira uma angariação de fundos para a rede de emergência alimentar. A ideia é colmatar a falha da campanha do Banco Alimentar contra a Fome, que por razões sanitárias não se realiza este mês nos supermercados

Um debate online (webinar) agendado para as 18.00 desta quarta-feira (6 de maio) marca o arranque da campanha de angariação de fundos para a Rede de Emergência Alimentar, criada no passado mês de março. "A pandemia e o impacto social" é o tema genérico deste debate entre Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome, e João Talone, presidente do conselho de administração da Magnum Industrial Partners, estando a moderação a cargo do presidente do Harvard Clube de Portugal, Stephan Morais.

"Desde que foi criada, em março, a Rede de Emergência Alimentar já registou mais de 12 600 pedidos de ajuda, que equivalem a mais de 58 mil pessoas. Em tempos normais, durante o mês de maio teria decorreria uma campanha de recolha de alimentos nos supermercados de todo o país que nos permitiria angariar em média 2600 toneladas, mas com as restrições impostas pelo atual estado é ainda mais urgente encontrar formas que permitam ao Banco Alimentar atingir os objetivos de compra de alimentos" explica Isabel Jonet ao DN.

"O que vou abordar no debate é sobretudo uma perspetiva micro de como esta pandemia se refletiu nas famílias de uma forma inesperada e brusca", frisou. A responsável do Banco Alimentar contra a Fome espera com este alerta incentivar as empresas a perceber "como é que podem exercer a verdadeira responsabilidade social: mais do que fazer donativos, o esforço deve ser manterem os empregos, devolvendo a normalidade possível ao mercado de trabalho, que está completamente transformado". Isabel Jonet aponta o exemplo de muitas famílias "que se mantinham, que se sustentavam, e de repente perderam a sua fonte de rendimento e estão já a precisar de ajuda". Um cenário que, não duvida, vai ganhar escala nos próximos tempos. "Muitas empresas não vão voltar a abrir e as pessoas vão ficar numa situação muito vulnerável."

Na campanha que arranca agora, o Banco Alimentar sublinha que é possível também ao cidadão comum continuar a apoiar, mesmo sem a presença física de voluntários nos hipermercados, como era usual em maio. "As pessoas podem continuar a apoiar, seja pelos canais online ou através de vales dos supermercados", alerta.

Entretanto, o debate desta tarde servirá também para envolver a macroeconomia no apoio a este crescente universo. Stephan Morais, presidente do Harvard Clube de Portugal (que reúne cerca de 300 pessoas que estudaram na Universidade de Harvard mas residem em Portugal), acredita que todos os ex-alunos incorporaram esse "espírito de missão e de ajuda à comunidade", e que por isso será fácil contagiar a solidariedade. Entre esses 300 membros há várias pessoas com influência e responsabilidade no mundo da economia e finança, pelo que não será difícil criar essa rede, acredita.

O objetivo maior é mesmo o de colmatar as perdas decorrentes da impossibilidade de realização desta ação do Banco Alimentar e "auxiliar a situação dramática de carência social agravada pela pandemia de covid-19. Foi por isso que o Harvard Clube de Portugal se associou ao Banco Alimentar nesta campanha de angariação de fundos, junto dos seus associados e do tecido empresarial, mas também da sociedade em geral".

Stephan Morais realça a importância de analisar o impacto da pandemia nas empresas, de como este se reflete na nova realidade social e da necessidade de se realizarem alianças e se estudar o papel de cada um dos atores sociais no combate a esta crise sem precedentes.

A iniciativa contará também com o apoio e a participação do American Club of Lisbon e do Young Presidents Organization Portugal. O debate desta tarde decorre na sede do Banco Alimentar contra a Fome e será transmitido em live stream. Os interessados em participar, através do envio de perguntas, podem inscrever-se através do e-mail harvardclubedeportugal@gmail.com.