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15.6.22

Banco Alimentar distribuiu 1.043 toneladas de alimentos em São Miguel em 2021

in Visão

O Banco Alimentar Contra a Fome de São Miguel distribuiu no ano passado 1.043,97 toneladas de alimentos, abrangendo 17.086 pessoas com "carências comprovadas" na maior ilha açoriana, 40% das quais crianças, foi hoje revelado

“Durante o ano de 2021, o Banco Alimentar de São Miguel distribuiu 1.043,97 toneladas de alimentos, que contribuíram para a alimentação de mais de 17.086 pessoas com carências comprovadas”, indica a instituição num comunicado enviado à agência Lusa.

Do número total de beneficiários, 40% foram crianças, respeitante a 6.834 pessoas.

O número total de cidadãos beneficiados pela distribuição do Banco Alimentar é cerca de 13% da população de São Miguel, ilha que, segundo as estimativas mais recentes do Serviço Regional de Estatística, tinha cerca de 137 mil habitantes em 2020.

Segundo o Banco Alimentar de São Miguel, as pessoas carenciadas foram identificadas pelo Centro de Emergência Social, pelas 71 associações parceiras e pela Rede de Emergência Alimentar.

“Desde janeiro, o Banco Alimentar está a responder aos efeitos decorrentes da crise pandémica [de covid-19] e da alta de preços provocada pela guerra [na Ucrânia], apoiando mensalmente acima dos 720 agregados familiares. Para isso, é importante continuar a garantir, todos os meses, um abastecimento de 27 mil quilos de alimentos”, acrescenta a instituição.

Entre sexta-feira e domingo, o Banco Alimentar Contra a Fome vai realizar na ilha de São Miguel uma recolha de bens alimentares em 42 estabelecimentos comerciais da ilha, com recurso a 600 voluntários.

Os estabelecimentos estão distribuídos por todos os concelhos micaelenses: 19 em Ponta Delgada, oito na Ribeira Grande, sete na Povoação, dois no Nordeste, dois na Lagoa e quatro em Vila Franca do Campo.

18.10.21

Fim das moratórias preocupa quem lida com a pobreza

Sandra Freitas, in JN

As instituições e organizações de combate à pobreza estão preocupadas com o fim das moratórias para famílias e empresas, prevendo um novo aumento dos pedidos de ajuda, depois da situação ter estabilizado com a abertura da economia. Só a Rede de Emergência Alimentar, lançada no início da pandemia, recebeu 28 829 solicitações, em cerca de um ano e meio.




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25.3.21

Rede de Emergência Alimentar ajuda 79 mil pessoas afetadas pela pandemia

Por Notícias ao Minuto

Dentistas, empresários e treinadores estão entre as mais de 79 mil pessoas que encontraram na 'Rede de Emergência Alimentar' ajuda para comer, mas também para pagar despesas, como a conta da luz ou renda da casa.

A informação foi avançada à Lusa pela presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BACF), Isabel Jonet, que lançou a iniciativa há exatamente um ano, durante o primeiro estado de emergência.

Quem agora recorre à rede de emergência tem, na maior parte das vezes, histórias bem diferentes das de quem há muito conta com o auxílio dos bancos alimentares.

"São sobretudo pessoas que nunca recebiam ajuda, que tinham a sua vida organizada. Tinham até dois empregos e perderam um deles ou mesmo os dois", disse a presidente do BACF.

À Rede de Emergência Alimentar chegam relatos de quem pediu um empréstimo para iniciar um negócio próprio que não chegou a abrir por causa do confinamento ou de quem teve de fechar pouco depois da inauguração.

Às histórias dos empresários, juntam-se os dramas dos seus empregados que também ficaram sem trabalho.

"Estamos a falar, por exemplo, de pessoas ligadas ao setor da estética, da restauração, da cultura, dos ginásios, os 'personal-trainers', os higienistas e os dentistas", deu como exemplo Isabel Jonet.

A presidente do Banco Alimentar lembrou ainda todos os que trabalham em feiras: "Muitas pessoas que por vezes esquecemos, que fazem romarias no verão e que deitam fogo de artifício, os que vendem farturas ou cachorros. Estas pessoas estão desde março do ano passado sem poder trabalhar, sem ter rendimentos".

Em apenas um ano, os serviços dos centros de emprego registaram um aumento de mais 100 mil pessoas que tinham perdido os seus rendimentos.

Os últimos números do Instituto de Emprego e Formação Profissional apontavam para mais de 400 mil desempregados em Portugal. Mas existem muitos casos que não chegam ao conhecimento dos serviços dos centros de emprego.

"Nós não podemos deixar que estas pessoas percam a esperança e desistam, porque isso seria dramático", sublinhou Isabel Jonet.

Por isso, quando a pandemia obrigou o país a abrandar, a presidente do Banco Alimentar sabia que "a ajuda não podia parar", até porque os pedidos de auxílio "estavam a aumentar".

A 19 de março do ano passado lançou a Rede de Emergência Alimentar, uma plataforma online onde é possível pedir auxílio sem sair de casa.

"Os formulários online permitem resguardar o anonimato e dar uma resposta a quem, não estando habituado a lidar com a pobreza, tinha vergonha ou sentia algum desconforto em mostrar que estava a pedir ajuda", acrescentou Isabel Jonet.

Este novo projeto não se limita a dar apoio alimentar. Há um atendimento social que faz um retrato da família e permite perceber se, por exemplo, falta "um computador para a criança seguir as aulas online e não perder o ano".

A Rede de Emergência também ajuda a pagar a renda da casa, a conta da água ou da luz. A ideia é apoiar no momento certo para que possam "dar outra vez a volta à sua vida".

Mas também o Banco Alimentar se defrontou com problemas complicados quando começou o confinamento.

A descoberta dos primeiros casos de infetados em Portugal levou o país a fechar-se dentro de portas, num movimento nacional ao qual as instituições não escaparam.

No Banco Alimentar Contra a Fome, os voluntários mais velhos foram aconselhados a ficar em casa por precaução e foram suspensas as duas campanhas anuais de angariação de alimentos, que punham nas ruas de todo o país mais de 42 mil voluntários.

As instituições que trabalham com os bancos alimentares, desde associações de bairro a igrejas, também foram obrigadas a fechar as portas.

Mas a ajuda nunca falhou, garantiu Isabel Jonet.

Os alimentos continuaram a chegar ao armazém através de donativos de muitas empresas e da "generosidade de escuteiros, escolas e empresas" que lançaram as suas próprias campanhas.

Os trabalhadores mais velhos dos bancos alimentares -- "muitos com mais de 80 anos" - foram temporariamente substituídos por colaboradores mais jovens. Isabel Jonet recorda a ajuda dos estudantes que estavam fartos de estar fechados em casa e dos professores temporariamente sem trabalho, contou à Lusa.

As pessoas, em nome individual, e o conjunto de organizações que estão no terreno a trabalhar para a Rede de Emergência Alimentar "foram a almofada de segurança deste país, evitando casos de rutura social".

15.2.21

Há listas de espera no programa público de combate à fome

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas foi reforçado no ano passado de forma progressiva para responder à crise pandémica, mas em várias partes do país a procura já supera a oferta.

Alinham-se famílias em listas de espera para entrar no Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas (POAPMC). Com a pandemia de covid-19 à solta, o Governo decidiu alargar progressivamente a oferta de cabazes de 60 mil para 120 mil beneficiários, mas o universo de pessoas elegíveis já cresceu tanto que em várias partes do país ultrapassa a oferta.

O programa, coordenado pelo Instituto de Segurança Social, é co-financiado pelo Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas mais Carenciadas. Serve-se, porém, de centenas de entidades espalhadas por todo o país – umas a funcionar como pólos de recepção, outras como entidades mediadoras, que todos os meses recebem alimentos e os entregam às famílias.

Veja-se o exemplo da Santa Casa da Misericórdia de Almada, responsável pela distribuição de cabazes na Caparica e na Trafaria. Antes da pandemia, chegava a 278 pessoas. Com o reforço do programa, abrange 556. “Mesmo assim, não chega”, assegura a técnica responsável, Sandra Morais. “Temos 270 em lista de espera.”

No Centro Paroquial de Bem Estar Social da Arrentela, no concelho vizinho, no Seixal, os pedidos também se acumulam. Houve um incremento de 209 para 418 pessoas e, neste momento, ao que diz a coordenadora, Natércia Pedro, 164 pessoas aguardam oportunidade.

Na Associação Nacional de Ajuda aos Pobres, no Porto, o drama repete-se. “Nós entregamos cabazes a 1200 pessoas e temos mais de 300 de fora por falta de vagas ou de critérios”, diz a directora, Claudina Costa. Procuram fazer cabazes para esses, recorrendo a donativos cada vez mais escassos. “Temos alguns benfeitores, alguns amigos, algumas empresas, mas isso agora está a falhar.”

Claudina dá por ela a fazer contas impossíveis para acudir a quem lhe chega da freguesia de Paranhos e do centro histórico do Porto. “Este mês ainda não pagamos a renda”, suspira. “Para já, não tenho como.” São demasiadas famílias, de repente, sem rendimentos, a precisar de ajuda. “Entre leite e papas e renda, vou para o leite e as papas. O senhorio pode esperar mais uns dias.”

O gabinete da ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, não nega este quadro. “Nos territórios e entidades em que a capacidade seja atingida está assegurada a possibilidade de se alargar a capacidade de apoio pelas vias alternativas ao POAPMC, de forma a garantir resposta a todas as situações de carência alimentar das famílias”, responde por escrito, aludindo às cantinas sociais e aos serviços de acção social, que podem atribuir apoios pontuais para despesas básicas, inclusive de alimentação.

A sociedade civil como alternativa

Numa ronda por uma dezena de organizações, percebe-se como a sociedade civil se organizou para responder a quem está à espera ou não é elegível, embora também esteja aflito, como os imigrantes em situação irregular. Voltando ao exemplo da Caparica e na Trafaria, as 50 famílias mais carenciadas que aguardam por vaga no POAPMC recebam cabazes do Banco Alimentar. As outras são apoiadas pelo Banco de Bens Doados, que funciona com donativos da Santa Casa e de outras entidades. Agora, com o confinamento, todo o trabalho de angariação está dificultado e as dificuldades vão em crescendo.

No Seixal, explica Natércia Pedro que, “apesar de aparentemente terem sido criadas muitas novas respostas”, como a Rede de Emergência Alimentar gerida pelo Banco Alimentar e as linhas abertas pelas autarquias, tudo assenta nas instituições de sempre. “Vem tudo parar aos mesmos sítios”, sublinha.

Ali, na Arrentela, têm “imensa dificuldade em responder aos pedidos”. Também recorre ao Banco Alimentar, vocacionado para combater a fome enquanto luta contra o desperdício. “Quanto mais pedidos fazemos, menos qualidade de apoio”, lamenta. “Acabamos por ter cada vez menos para dar a cada família. As pessoas, no desespero, ligam para todo o lado.”

"Infelizmente, o pior está para vir”, diz Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa

Não é igual ser apoiado pelo POAPMC ou pelos programas. Os cabazes do POAPMC devem assegurar 50% das necessidades energéticas e nutricionais mensais dos beneficiários. Têm massa, arroz, cereais, enlatados (grão-de-bico, feijão, tomate, saladinha, atum), azeite, creme vegetal, congelados (mistura de vegetais, brócolos e espinafres congelados, frango, pescada), leite e queijo (este último em falha por causa de um concurso). Já os cabazes do Banco Alimentar dependem das doações feitas em cada momento.

Helena Loureiro, presidente da Associação de Intervenção Comunitária Gondomar Social, que faz chegar o POAPMC a 729 pessoas e tem 115 em espera, acredita que, por ali, está tudo sob controlo. “Estas famílias não ficam sem apoio”, assevera. “Estamos organizados em sede de rede social. As situações que vão surgindo têm respostas pontuais até chegar uma resposta continuada.”

Resposta semelhante ouve-se na União de Freguesias de Custóias, Leça do Balio e Guifões, em Matosinhos. Naquele território, a quota definida ainda nem está esgotada. O programa integra 1483 indivíduos, mas pode chegar aos 1600. Neste momento, 25 aguardam aprovação da Segurança Social. “Temos isso preparado. Se a técnica entende que é preciso comprar um cabaz de emergência, eu digo compre-se”, garante o autarca, Pedro Gonçalves.

Não se pense que é sempre a somar beneficiários. Quando maior a lista de espera, maior a pressão para ir actualizando a composição e o rendimento de cada agregado, tirar quem já não precisa, meter quem precisa. “Há pessoas a entrar e a sair quase todos os meses”, torna Sandra Morais. Ninguém pode falhar a recolha do cabaz sem justificação. Se tiver de ir ao médico, por exemplo, tem de avisar. Pode levantar o cabaz mais tarde. Se estiver retido em casa por doença ou para olhar pelas crianças, levam-lho. Se tem problemas de memória, ligam-lhe a lembrar. Se não aparecer porque está a chover, “deixa de ter direito, o cabaz passa para outra pessoa”.

Às filas do apoio alimentar chegam pessoas sem contrato, com contratos temporários, trabalhadores independentes, microempresários, de repente, sem trabalho e sem rendimento. Mas também a trabalhadores em layoff, com cortes salariais e crianças a cargo

"Regressados à pobreza"

O sociólogo Fernando Diogo recusa o termo “novos pobres”. “É uma importação de França com reduzida aplicação em Portugal.” Embora os haja, não provocam o grosso desta avalancha. “São regressados à pobreza. Estiveram na pobreza, conseguiram encontrar um trabalho que os tirou da pobreza, mas ficaram numa situação vulnerável. São vulneráveis empobrecidos.” Precários, pouco qualificados, com salários baixos, sem hipótese de poupar, na corda bamba. “A pobreza em Portugal é estrutural. Há uma forte probabilidade de um indivíduo ser pobre várias vezes ao longo da vida.”

Às filas do apoio alimentar chegam pessoas sem contrato, com contratos temporários, trabalhadores independentes, microempresários, de repente, sem trabalho e sem rendimento. Mas também a trabalhadores em layoff, com cortes salariais e crianças a cargo. “Infelizmente, o pior está para vir”, diz Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa.

Nem quer pensar no que seria se não tivessem sido criados apoios extra para os trabalhadores independentes, prolongado o subsídio social de desemprego, multiplicados os apoios às empresas (através de isenções de contribuições para a Segurança Social e financiamento do layoff). “No dia em que as empresas, fragilizadas, quiserem recuperar a sua vida, não sei quantas vão subsistir.”

Patrícia Martins, do Centro Social da Paróquia de São Salvador de Grijó, em Vila Nova de Gaia, onde também há algumas pessoas em lista de espera para o POAPMC, nota muita vergonha entre novos beneficiários. Para quem nunca precisou ou já não precisava de qualquer apoio do Estado, recolher cabazes é o último degrau. O estigma não tem de ver só com culpabilização, também com a ideia de que a protecção social não é um direito. “Há grupos que se unem para formar um cabaz e ajudar alguém”, observa. “Essas pessoas, se calhar, podem ter um papel de trazer as pessoas ao apoio que já existe no país. Se calhar, essas famílias precisam, por exemplo, de apoio para pagar a renda ou a luz. E esses grupos não conseguem ajudar nisso porque já ajudam na comida.”

26.5.20

Mais de 750 famílias algarvias pediram ajuda alimentar nas últimas semanas

in Região Sul

Os novos pedidos de apoio alimentar, sobretudo através da Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve, devido aos efeitos da pandemia de Covid-19, ascenderam a mais de 750 famílias no Algarve, revelou o Banco Alimentar Contra a Fome.

“Ao longo das últimas semanas os novos pedidos de apoio alimentar, sobretudo através da Rede de Emergência Alimentar, ascenderam a mais de 750 famílias. É um número superior a 2.300 pessoas que no Algarve estão em situação de insegurança alimentar. Destas famílias, 74% deixou de receber rendimento do trabalho, o que levou a pedir apoio”, frisou a instituição, em comunicado.

“Devido à situação económica e social criada pela pandemia, mais do que nunca o apoio do Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve (BACFA) é importante e fundamental a milhares de pessoas na região”, acrescenta-se.

A pandemia de Covid-19 impediu, pela primeira vez, a realização da campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar nos supermercados com voluntários e o BACFA, que até 31 de maio promove decorre a campanha «VALE» nas lojas Auchan, Continente, Lidl, Minipreço e Pingo Doce.

Nas lojas Algartalhos, Apolónia e Jafers (apenas nas lojas com condições e aderentes) podem ser doados alimentos a favor do Banco Alimentar do Algarve.

Os produtos necessários são leite, arroz, massa, leguminosas (grão, feijão e lentilhas), conservas de peixe, cereais, azeite, salsichas e óleo.

Por outro lado, através da campanha online em www.alimentestaideia.pt, as doações de alimentos também podem ser feitas ao BACFA.

Outras formas de ajudar estão também disponíveis em www.bancoalimentar.pt ou no facebook em @bacfalgarve.

O Banco Alimentar dirige também o apelo a todas as empresas da fileira alimentar, como produtores, indústria e distribuidores, para que façam chegar os seus excedentes.

7.5.20

Em duas semanas, Rede de Emergência Alimentar recebeu mais de 3100 pedidos de ajuda

Cristiana Faria Moreira (Texto) e Miguel Manso (Fotografia), in Público on-line

A maioria dos pedidos recebidos pela rede de emergência são de pessoas que não tinham qualquer apoio e que, de um momento para o outro, se viram desamparadas. Numa associação da Outurela, o apoio continua mesmo a meio-gás.

O estado de emergência não deixou só as cidades desertas. Dentro de quatro paredes estão pessoas sem empregos, sem rendimentos. E a carência de comida já se nota, diz Isabel Jonet, presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Foi a pensar nesta franja da população mais desprotegida que, com o apoio da associação Entrajuda, criou uma plataforma online para registar novos pedidos de ajuda alimentar e tentar assim responder às carências mais imediatas. Em duas semanas (contabilizados até às 23h de 2 de Abril) chegaram à Rede de Emergência Alimentar 3126 pedidos de todo o país — 223 por dia, em média. Desses, 1.843 (59%) já foram encaminhados.

Lisboa, Setúbal, Porto e Braga são os distritos onde se registam mais pedidos. E Isabel Jonet atribui essa distribuição ao facto de serem cidades onde se dispõe grande parte do rendimento mensal só para a renda da casa. “Estas pessoas enfrentam aquele que é o maior desafio que há nas famílias carenciadas que são as rendas de casa, que aumentaram imenso e que ocupam quase o seu salário total”, admite.

E quem está na linha da frente da perda de rendimentos é precisamente quem já menos tem. “Nós temos muitas mulheres cabeleireiras, empregadas domésticas, que não tinham uma relação laboral estável, por vezes informal. São pessoas que ficaram completamente desamparadas”, diz a responsável.

São pedidos de pessoas que não estavam a precisar de apoio, mas que agora tiveram de o pedir. “As mães de baixos recursos tinham os filhos nas creches, no infantário ou no ATL, e as crianças comiam na instituição. E agora que está em casa, a mãe tem de lhe dar de comer. A própria mãe, muitas vezes, também comia no trabalho. Isto é tão perverso porque é um sistema que se enrola a si próprio”, nota a responsável.

Estes novos pedidos somam-se às 400 mil pessoas que são apoiadas normalmente pelo Banco Alimentar. Os pedidos são feitos através de um site. A equipa da Rede de Emergência Alimentar trata depois de reencaminhar para a associação mais próxima da área de residência de quem faz o pedido.

Perante a pandemia, muitas instituições de apoio social viram-se sem pessoas que assegurassem os serviços e foram também forçadas a encerrar — outras estão a meio gás. Como a rede de apoio social acabou por ficar desfalcada, a Rede de Emergência Alimentar acabou por montar uma rede com as juntas de freguesia. “A rede é no fundo isto: potenciar em cima do que já existe.”

Campanha de Maio em risco
Nos armazéns do Banco Alimentar tudo funciona com aparente normalidade: os monta-cargas andam cá fora a levar mercadorias de um lado para o outro, as associações vão carregando frescos para as carrinhas. Mas há menos voluntários — alguns têm máscaras e luva, outros dispensam o material de protecção.

António Beltrão, de 62 anos e ali voluntário há três, confirma o cenário: “Os voluntários mais velhos estão resguardados em casa. Mas nós continuamos a servir.”

Para já, o Banco Alimentar tem tido “generosos donativos”. A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) avançou com um donativo de 350 mil euros à Rede de Emergência Alimentar. A Fundação do Futebol, uma organização de responsabilidade social da Liga Portuguesa, deu dez mil litros de leite.

O maior receio de Isabel Jonet é a campanha de recolha de Maio, nos supermercados, onde muita gente contribui, mesmo que seja com pouco. É quase certo que não se realizará e isso é um “problema”, reconhece. “As campanhas representam uma grande percentagem dos produtos secos (massas, arroz, farinhas) que entram nos bancos alimentares.”

“Para já, vamo-nos aguentando”
Por estes dias, a palavra de ordem na associação onde Bruno Ribeiro e José Marques dão uma mão é improviso. É quarta-feira, dia de ir a Lisboa recolher frescos ao Banco Alimentar. Eles tratam de carregar paletes de bananas, cogumelos, laranjas, para a carrinha da associação. Não são eles quem costuma fazer este serviço — o primeiro é tesoureiro, o segundo administrativo —, mas tiveram agora de arregaçar as mangas porque parte dos funcionários e voluntários do Projecto Família Global estão resguardados em casa por serem mais velhos ou por terem crianças a seu cuidado.

Esta associação, que presta apoio no bairro social da Outurela e Portela, existe há mais de duas décadas. Ao longo dos anos, foi acrescentando valências à sua actividade: tem apoio domiciliário a idosos, fornece alimentação, tem o banco alimentar com cabazes para as famílias do bairro, uma creche, um ATL, e até uma clínica dentária social. A pandemia fê-los diminuir os apoios: a creche, o ATL e a clínica fecharam, o resto mantém-se.

“É quase um padrão das instituições todas. Mantêm o apoio domiciliário, as refeições, e em alguns casos aquilo a que chamam banco alimentar, que é a distribuição de sacos de alimentos às famílias”, nota Isabel Jonet.

Com a carrinha carregada, é hora de Bruno e José partirem para a associação para deixarem os alimentos, que serão distribuídos pelas famílias. O projecto Família Global apoia 168 agregados e, para já, não surgiram novos pedidos de ajuda — até porque grande parte das famílias do bairro beneficia de Rendimento Social de Inserção ou então são reformados. “Mas há angústia pela incerteza”, repara a assistente social da instituição, Marisa Cardoso. “As pessoas estavam com medo que deixássemos de fazer entregas.”

A associação apoia 168 famílias do bairro social da Outurela e Portela com bens alimentares
Ela e Isabel Ribeiro, também da associação, vão acomodando os bens recebidos para que caibam nos frigoríficos. Naquela tarde, iam começar a distribuição dos cabazes mensais. As prateleiras estão cheias de pacotes de arroz, massas, farinha e açúcar, azeite, óleo, enlatados, salsichas, atum, bolachas. Semanalmente entregam os frescos. “Aqui, apoiamos desde a família de sete, até ao agregado familiar de um”, diz Marisa Cardoso.

No refeitório da associação, perto do meio-dia, acabavam de encher as marmitas para os 38 idosos que apoiam. Mesmo a meio-gás têm continuado a sua missão. Parar é um luxo que eles não têm, caso contrário muita gente ficaria desamparada, diz Isabel Ribeiro. “Para já, vamo-nos aguentando.”

25.3.20

Rede de Emergência Alimentar recebe 900 pedidos de ajuda em três dias

in SicNotícias

Isabel Jonet não tem dúvidas de que as necessidades vão aumentar durante esta fase de pandemia.

Em apenas três dias, a Rede de Emergência Alimentar recebeu 900 pedidos de ajuda. A Plataforma, criada pelo Banco Alimentar com outros projetos e instituições que ainda se mantêm abertas durante este período de quarentena, promete repor a ajuda interrompida durante o estado de emergência, que colocou voluntários em quarentena e fechou instituições.

A responsável, Isabel Jonet, não tem dúvidas de que as necessidades vão aumentar durante esta fase, mesmo entre quem não recebia ajuda até aqui. Quem quiser também pode contribuir através da internet.