por Carlos Calaveiras, in RR
A grande parte dos inquiridos que não poupam diz que não o faz porque, pura e simplesmente, não tem rendimentos suficientes. Para 7%, poupar não é uma prioridade.
Só pouco mais de metade dos portuguese - 52% - dizem fazer poupanças, mas apenas um quinto da população poupa de facto, aplicando esse dinheiro numa conta a prazo ou noutro tipo de aplicação financeira.
Esta é uma das conclusões do relatório do inquérito à literacia financeira da população portuguesa 2010, divulgado hoje pelo Banco de Portugal.
De acordo com o documento, 88% dos inquiridos que não poupam dizem que não o fazem porque, pura e simplesmente, não tem rendimentos suficientes e só 7% dizem que não poupam porque não acham que isso seja prioritário.
Entre os que poupam, 58% fazem-no por precaução, 15% para férias e viagens, 8% para bens duradouros. Só 6% o faz a pensar na reforma.
Mais de metade (65%) dos inquiridos poupa sempre antes de uma compra, 26% usam o crédito e 8% confessam que já utilizaram crédito para bens de que não precisavam.
Segundo o relatório do Banco de Portugal, “os resultados do inquérito são relativamente positivos e revelam atitudes em geral adequadas” no que diz respeito a literacia financeira.
Em Portugal, 11% dos indivíduos com idade igual ou superior a 16 anos não têm conta bancária. Na população em idade adulta, esta proporção reduz-se para 9%. Como principal razão para não ter conta bancária, 67% dos inquiridos apontam não ter rendimentos que o justifique e 17% referem que a conta de outra pessoa (cônjuge ou familiar) é suficiente.
No que se refere aos critérios da escolha do banco para abertura de conta, os mais frequentes são a recomendação de familiares e amigos (35%) ou critérios de ordem prática, como a proximidade de casa ou do trabalho (23%).
A maioria dos indivíduos (81%) prefere a sua instituição bancária como canal para receber informação sobre produtos bancários, enquanto 33% preferem os prospectos e as brochuras.
Não são muitos (24%) os que utilizam o “homebanking”, mas a maioria ainda prefere o multibanco.
Confiança nas instituições
Os resultados do Inquérito revelam ainda uma grande confiança dos clientes no aconselhamento dado pelas instituições de crédito. A maioria dos indivíduos (83%) analisa a informação pré-contratual que lhes é disponibilizada pelas instituições, mas só 8% a compara a outras alternativas.
Nos critérios de escolha do crédito à habitação, apenas 4% dos que têm este produto indicam a Taxa Anual Efectiva e 18% mencionam a taxa de juro como razões para a escolha. No crédito ao consumo, os critérios relacionados com os encargos do empréstimo têm ainda menor expressão: 5% indicam a taxa que inclui todos os encargos do crédito (TAEG) e 13% referem a taxa de juro.
“O valor da prestação é o critério mais referido na escolha do empréstimo, seja para habitação seja para consumo, o que revela a preocupação dos consumidores com o esforço financeiro mensal associado ao serviço da dívida”, lê-se no relatório do Banco de Portugal.
O estudo apresenta resultados satisfatórios no que respeita aos conhecimentos sobre a relação entre a taxa de juro e a taxa de inflação (57% responderam correctamente) e sobre a responsabilidade individual pelo pagamento de um empréstimo contraído em conjunto com outra pessoa (com 78% de respostas certas). No entanto, quando questionados sobre o conceito de Euribor, apenas 9% dos inquiridos respondem com rigor.
O inquérito confirma ainda que a população idosa (com mais de 70 anos), primeiro, e os desempregados, depois, são os que têm maior défice de informação e formação financeira. Mais surpreendente pode ser o facto de os jovens terem também resultados menos positivos.
Do lado contrário, com índices de literacia superiores, estão os indivíduos com uma escolaridade ao nível da licenciatura ou superior e os que se encontram na faixa etária entre os 24 e os 59 anos. Apresentam também melhores resultados os indivíduos com níveis mais elevados de rendimento.
Ficha técnica
O inquérito baseou-se num questionário com 94 perguntas de escolha múltipla, estruturado em seis áreas temáticas: inclusão financeira, gestão da conta bancária, planeamento de despesas e poupança, escolha de produtos bancários, escolha e conhecimento das fontes de informação e compreensão financeira. Foi realizado entre Fevereiro e Março de 2010, através de 2.000 entrevistas presenciais em todo o território nacional.

