3.12.15

Brincar e Sorrir

Nuno Gomes, in " Cais"

Raras vezes é dada a cada um de nós a possibilidade de falar aos outros, beneficiar da sua atenção e partilhar ideias para que nos inspiremos mutuamente. A CAIS é uma dessas raras oportunidades em que um objecto de grande consumo, uma revista, extravasa a lógica do mercado e invade a esfera privada de cada um de nós, no melhor que temos para dar. Sei que os leitores da CAIS, como eu, compram a revista pela nobreza da causa, pelo contacto com o vendedor que para ela trabalha e dela beneficia. É de reconhecer o mérito e o alcance da iniciativa. Isso é justo e fácil de fazer... Difícil é aproveitar da melhor maneira esta oportunidade de comunicar com tanta gente, desconhecida e no entanto unida nesta comunidade silenciosa de leitores da CAIS. Nos meus tempos de jogador, a comunicação era imediata, dezenas de milhares viam e sentiam o que eu fazia no jogo e transmitiam, ao momento, com estrondo, a sua partilha e incentivo. E eu jogava para eles, dava o máximo porque queria dar-lhes o máximo!

Somos assim, seres para quem o reconhecimento social, mais que protecção mútua e sobrevivência é uma necessidade emocional profunda, muitas vezes expressa pela negativa quando em momentos de desespero pessoas verbalizam "não valho nada...". Claro que não é verdade: Cada um de nós vale tudo, mas o mundo encarrega-se de produzir injustiças! A responsabilidade de todos nós é descobri-las, contrariá-las, corrigi-las... Mas como fazè-lo?

Nada podemos sozinhos. Somos profunda e estruturalmente sociais. A resposta é óbvia: devemos fazer o que podemos individualmente, melhorando o que se passa à nossa volta e devemos associar-nos para ganhar escala e dimensão. Assim podemos mudar o mundo em conjunto e melhorar sozinhos o bocadito que pisamos. Simples e eficaz! Sou dos que não pensam que o mundo está perdido, pelo contrário, sinto que cada vez somos mais a tentar mudá-lo e vejo coisas fantásticas e inspiradoras. Deixo-vos dois exemplos que me emocionam e fazem agir: o primeiro é internacional e chama-se Right to Play, o que, em inglês tem o duplo sentido de Direito a Brincar e Direito a Jogar. Esta ONG promove esse direito das crianças à escala global.

Trata-se de Futebol, claro, mas tem muito mais lá dentro... Brincar é aprender, interagir com o outro, socializar, dar e receber reconhecimento, motivar e ser motivado para os sonhos que comandam as vidas. Por isso, brincar não é uma brincadeira e sim um assunto muito sério na construção da humanidade. Se pensarmos bem, jogar e brincar são uma e a mesma coisa. O desporto ocupa um lugar central na nobre ocupação infantil que é brincar.

E aí, em lugar cimeiro,aparece o Futebol. O Grande Jogo das multidões. Aquele que elimina as diferenças entre os homens nos relvados. Há quem diga que é uma recreação da guerra, mas é muito mais que isso: a guerra destrói e o futebol une, sara e constrói. É por isso que brincar, "jogar à bola", faz tanta falta! O segundo exemplo é em Portugal e chama-se APLAS. A sigla nada diz, mas o nome por trás diz tudo: "Associação Princesa Leonor Aceita e Sorri". Como bem se lê, o resultado está no sorriso mas a chave, a coragem e a sabedoria destas crianças está na aceitação.

Não disse resignação, nem desistência. Disse aceitação, lucidez e esperança desmedida de gente pequena que luta de frente contra o pior dos medos dos adultos: o cancro. O mais importante dos direitos é o direito à felicidade, em qualquer idade, em qualquer parte ou condição. É uma avaliação individual entre o que somos o que queremos ser, entre o que temos e o que queremos ter, nos planos material e imaterial. Como tudo o que é importante é simples: a felicidade comunica-se pelo sorriso. Se alguma coisa de inspirador podemos comunicar uns aos outros, que interesse a todos, talvez seja Brincar e Sorrir