in Jornal de Notícias
Abrigo D. Maria Magalhães Santo Tirso
As discussões multiplicam-se, incham. As nódoas também. Algumas não se vêem, mas estão lá. O dinheiro nunca chega. As dependências sobram. Dos níveis de escolaridade, habitualmente abaixo da meta obrigatória, não há nada a esperar. E dos filhos, só a prisão - inocentes em quem se deposita a turbulência e a necessidade de ficar. Só mais esta vez. Por eles. Porque sim. E porque geralmente não parece haver alternativa. Quando a agressão física, psicológica, continuada, mais sofisticada, deixa de poder ser encoberta, as mulheres - geralmente, as vítimas são mulheres - são encaminhadas - pela 144, linha nacional de emergência social; pelos serviços locais de Segurança Social; pela acção social da autarquia ou pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - para uma das 34 casas de abrigo existentes em Portugal. O lar acolhe-as - a elas e aos filhos - protege-as, dá-lhes acompanhamento médico, jurídico, espiritual, psicossocial, ensina-lhes os direitos. Mas uma casa de abrigo não é o céu. "Também não é o inferno de onde vêm; digamos que é um não-inferno", assume Sara Almeida e Sousa, psicóloga e coordenadora da Casa D. Maria Magalhães, em Santo Tirso. A instituição, inaugurada em Agosto de 2004, é uma das valências da Santa Casa da Misericórdia, tem capacidade para 25 utentes.
Actualmente, os seus oito quartos são habitados por 11 mulheres e 14 crianças. Não tem lista de espera, mas já teve. "A triagem nunca é feita por ordem de chegada, mas pelo grau de risco que comportam as mulheres ou os filhos". A lei diz que, idealmente, o período de acolhimento deve durar seis meses. "Mas raramente meio ano é tempo suficiente para cumprir os parâmetros de reintegração necessários", salvaguarda a responsável. Na D. Maria Magalhães há mulheres há um ano. "Nunca colocámos ninguém com as malas à porta", assegura Sara Almeida e Sousa. E, mesmo quando há infracções graves às regras da casa, o período de retirada é sempre, pelo menos, de 15 dias. O ano passado, a instituição teve 35% de taxa de sucesso. Ou seja, mulheres que saíram com plano de segurança definido, rendimentos mensais suficientes para as despesas básicas, com habitação e emprego, com questões judiciais sanadas ou orientadas, com a integração escolar dos filhos assegurada e com garantia de continuidade de acompanhamento sócio-familiar. A percentagem do abandono precoce é maior 52%. Apesar de tudo, há mulheres que insistem em voltar a casa, perdoar, voltar a tentar. E 11% desistem. Pedem para cessar o acolhimento. "Elas são donas de si. Não as podemos prender". HTS