Fernanda Câncio, in Diário de Notícias
A Comissão Para a Igualdade dos Direitos das Mulheres vai tomar uma posição pública contra o novo reality show da TVI, A Bela e o Mestre, e pondera uma queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). "Os nossos juristas já estão a estudar o assunto", certifica Elza Pais, a presidente da Comissão, que considera "inadmissível, no ano europeu em que se promove a igualdade de oportunidades, que um programa de TV apresente estereótipos dos papéis da mulher e do homem em que elas são subjugadas e eles dominadores. Não se pode transmitir esse tipo de informação".
A Bela e o Mestre, uma produção da Endemol baseada num formato da cadeia americana Fox que se estreou no domingo passado, tem como concorrentes mulheres jovens, bonitas e exibindo absoluta ignorância em relação a factos e personalidades de conhecimento comum, e homens jovens, de físico pouco atraente mas apresentados como inteligentes, propondo o "acasalamento" das "belas" com os "mestres" e uma progressiva aprendizagem mútua: elas devem ficar "mais espertas", eles "mais atraentes". O par que provar ter "evoluído mais" ganha cem mil euros.
O formato suscitou já vários protestos publicitados nos media e até críticas de um dos membros do seu júri residente, a bióloga e escritora Clara Pinto Correia, que disse "não haver pachorra para o tipo de estereótipos veiculados pelo programa" e "ter dificuldade em assistir ao espectáculo de pessoas que não sabem quem é o Fidel Castro", chegando mesmo a duvidar que tal corresponda à verdade: "Passou-me pela cabeça que tal ignorância seja afectada." Pelo menos duas associações que lutam pela igualdade de género, a Mulheres em Acção (MA) e a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), se insurgiram contra aquilo que Joana Barbosa, da MA, vê como um programa que "humilha as concorrentes física e intelectualmente, partindo do eterno estereótipo da mulher burra e do homem inteligente, e da oposição entre beleza e inteligência".
Na mesma linha, Maria José Magalhães, da UMAR, considera a visão estereotipada do programa "extremamente prejudicial em relação à valorização dos contributos das mulheres", e fazendo parte de "uma démarche ideológica cíclica, que geralmente surge acompanhada de um apelo à maternidade e ao 'regresso a casa.'" Joana Barbosa chama ainda a atenção para a ironia de o programa ter-se estreado "poucos dias depois do Dia da Mulher, em que falou tanto de violência de género", concluindo: "Este tipo de estereótipos têm muito a ver com essa violência."