4.7.09

Fim da crise mundial não garante retoma rápida a Portugal, avisam economistas

Ana Rita Faria e Sérgio Aníbal, in Jornal Público

Quatro ex-ministros dizem que Portugal precisa de mais empreendedorismo, inovação
e poupança se quiser evitar aterragem brusca da economia


Défice externo crónico, aterragem brusca das finanças públicas, poupança forçada para os particulares e crescimento económico reduzido durante muito tempo. Os economistas presentes ontem no Congresso da Sedes dificilmente poderiam ter traçado um cenário mais assustador para a evolução da economia portuguesa, mesmo depois de ficar resolvida a crise internacional.

Portugal, avisaram um conjunto de ex-ministros, está a braços com uma crise de competitividade e com crescentes dificuldades em financiar-se no exterior e vai, no momento em que a conjuntura internacional começar a melhorar, demorar muito a concretizar uma retoma forte da economia, com efeitos negativos para as finanças públicas e com uma persistência prolongada de níveis elevados de desemprego.

João Salgueiro, que agora abandona o cargo de presidente da Associação Portuguesa de Bancos, garantiu, na sua intervenção, que "a página da crise internacional pode ser virada, mas a crise nacional irá permanecer". Para este economista, que já foi ministro das Finanças, Portugal, à semelhança de outros países europeus e dos Estados Unidos, enfrenta "um défice crónico na balança de pagamentos", que se arrasta há quase uma década e que resulta de uma crise de competitividade. Para resolver este problema, Salgueiro defende a necessidade de criar condições ao empreendedorismo que, afirma, "tem sido uma espécie para caça sem período de reserva".

Daniel Bessa, ex-ministro da Economia, centrou a sua intervenção no evento no que diz ser o principal problema da economia portuguesa: a oferta. "Não produzimos o suficiente. É daquelas questões que ultrapassam a política", afirmou o economista, para quem a única solução, face aos constrangimentos competitivos externos em termos de custos, passa por uma aposta na inovação, especialmente ao nível dos serviços. Daniel Bessa mostrou também pouco entusiasmo com uma estratégia de aposta no investimento, dizendo que "o país investiu de mais" e que o problema esteve na falta de qualidade dessa despesa.

A mesma opinião não é partilhada por Silva Lopes. Apesar de criticar os megaprojectos na área das infra-estruturas, este economista defendeu que não só é preciso fazer investimentos rápidos agora para contrariar a contracção da economia e o desemprego, como a prazo é necessário elevar a taxa de investimento para 20 por cento. Actualmente este valor está situado na ordem dos 18 por cento. No entanto, avisa, para fazer isso e ao mesmo tempo corrigir o défice externo é necessário aumentar bastante a taxa de poupança, o que significa mais sacrifícios para os portugueses. A possibilidade de, no futuro, se terem de adoptar medidas de poupança forçada, como a entrega do 14.º mês em títulos do tesouro, foi mesmo lançada pelo ex-ministro das Finanças.

Campos e Cunha, na intervenção final de síntese do Congresso, destacou também os problemas que Portugal poderá vir a enfrentar para se financiar no exterior, encontrando "apenas um caminho": aumentar a poupança nacional. E deu, como aviso para Portugal, o exemplo do Estado de Nova Iorque nos anos 80: "De um momento para o outro tiveram uma redução brutal da despesa pública e dos serviços públicos."
Estes quatro economistas estão entre os autores do denominado "manifesto dos 28", documento em que é defendida a suspensão dos megaprojectos de investimento.