Diogo Ferreira Nunes, in Dinheiro Vivo
Exclusão social, discriminação e resposta às necessidades educativas especiais são três problemas resolvidos por startups com missão social
Há 160 mil pessoas que estão a desenvolver projetos em Portugal ligados ao empreendedorismo social. São startups que pretendem resolver problemas como a exclusão social, a discriminação social e que pretendem ainda responder às necessidades educativas especiais. Só que levanta-se sempre a questão do financiamento a estes projetos. Para dar ferramentas e tornar o lucro uma forma de fazer crescer o projeto e de o tornar rentável, a Católica Lisbon Business & Economics conta com uma cátedra liderada pelo professor Filipe Santos dedicada ao empreendedorismo social e que serve como laboratório para partilhar casos de sucesso.
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20.6.17
18.12.13
“O Norte está mais sensibilizado para o empreendedorismo social”
Ana Brito, in Público on-line
Quem são os empreendedores sociais portugueses? O que fazem e com que meios? Em que sectores actuam? Como conseguem transformar recursos escassos em projectos que mobilizam comunidades, respondem a necessidades sociais e são sustentáveis economicamente? É em busca dessas respostas que os investigadores do MIES - Mapa de Inovação e Empreendedorismo Social (desenvolvido pelo IES em parceria com o IPAV) percorrem centenas de quilómetros de carro nas regiões do Norte, Centro e Alentejo e fazem milhares de entrevistas presenciais e telefónicas nas quais procuram identificar modelos de negócio inovadores e social e ambientalmente transformadores.
Os primeiros resultados do levantamento deverão surgir no primeiro semestre de 2014, permitindo divulgar pelo menos 168 iniciativas com elevado potencial de inovação, disse ao PÚBLICO a coordenadora do mapeamento, Mafalda Sarmento. Neste momento, o MIES tem várias fases a decorrer em paralelo através da metodologia de pesquisa ES +, criada em parceria com professores do INSEAD, ISCTE, Universidade Católica do Porto e de um doutorando da Universidade de Lancaster. É através das comunidades locais e dos seus “observadores privilegiados”, que os investigadores fazem um primeiro levantamento de iniciativas relevantes. “São pessoas com conhecimento das regiões, que podem pertencer a fundações, associações, aos serviços da segurança social ou podem ser a senhora da mercearia que faz voluntariado há muitos anos, ou mesmo o padre da aldeia”. Depois há telefonemas de despiste aos líderes das iniciativas referenciadas (sejam da sociedade civil, de entidades públicas ou privadas, individuais ou colectivas, com ou sem fins lucrativos) e, finalmente, a entrevista aprofundada (cerca de duas horas e meias), que decide se o projecto passa à lista dos selecionados. Para isso tem de responder a quatro critérios base: resolver problemas sociais e ou ambientais negligenciados; ser transformador da sociedade nesses domínios; utilizar modelos de negócio inovadores e ter potencial de crescimento e/ou replicação noutro local geográfico. “Os que procuramos são aqueles que com muito pouco conseguem fazer muito, esses é que são verdadeiramente inovadores”, refere a coordenadora do MIES.
Mafalda Sarmento nota que o “Norte está mais sensibilizado para o empreendedorismo social, mas conta também com mais entidades de apoio, como incubadoras e universidades”. Já o Alentejo “tem vindo a fazer uma grande caminhada” e tem na Fundação Eugénio de Almeida, de Évora, uma “grande referência”. Nesta região, em que o MIES (financiado pelas fundações Gulbenkian e EDP e pelo programa Compete) já tem mais dados tratados, os projectos foram identificados essencialmente nas áreas da educação e formação, envelhecimento e apoio ao desenvolvimento e à participação civil e comunitária.
As iniciativas têm ainda de passar pelo crivo do Conselho Académico Consultivo do IES, que seleciona as que podem levar o carimbo ES +. Os empreendedores podem beneficiar do acompanhamento do IES através de formações específicas e, simultaneamente, ganham um estatuto de projectos economicamente sustentáveis que também garante maior credibilidade junto de potenciais investidores sociais. Estabelecer pontes entre empreendedores e potenciais financiadores será, aliás, uma das prioridades do IES para o próximo ano.
Além de dar visibilidade aos bons projectos, o MIES quer também que as iniciativas que “não passam a fase de inquérito, mas ficam inseridas na plataforma”, tenham acesso a um diagnóstico que permita reconhecer as “características fatais”, dando-lhes oportunidade de melhorarem. Ao tirar esta radiografia ao sector do empreendedorismo social em Portugal, o mapa irá também permitir identificar os principais problemas e corrigi-los de raiz, explica a investigadora. Mas o MIES não quer ficar por aqui e já esta a procurar financiamento para realizar o levantamento em Lisboa e Vale do Tejo, Algarve e Ilhas, para que o retrato da inovação e do empreendedorismo social em português fique mais completo
Quem são os empreendedores sociais portugueses? O que fazem e com que meios? Em que sectores actuam? Como conseguem transformar recursos escassos em projectos que mobilizam comunidades, respondem a necessidades sociais e são sustentáveis economicamente? É em busca dessas respostas que os investigadores do MIES - Mapa de Inovação e Empreendedorismo Social (desenvolvido pelo IES em parceria com o IPAV) percorrem centenas de quilómetros de carro nas regiões do Norte, Centro e Alentejo e fazem milhares de entrevistas presenciais e telefónicas nas quais procuram identificar modelos de negócio inovadores e social e ambientalmente transformadores.
Os primeiros resultados do levantamento deverão surgir no primeiro semestre de 2014, permitindo divulgar pelo menos 168 iniciativas com elevado potencial de inovação, disse ao PÚBLICO a coordenadora do mapeamento, Mafalda Sarmento. Neste momento, o MIES tem várias fases a decorrer em paralelo através da metodologia de pesquisa ES +, criada em parceria com professores do INSEAD, ISCTE, Universidade Católica do Porto e de um doutorando da Universidade de Lancaster. É através das comunidades locais e dos seus “observadores privilegiados”, que os investigadores fazem um primeiro levantamento de iniciativas relevantes. “São pessoas com conhecimento das regiões, que podem pertencer a fundações, associações, aos serviços da segurança social ou podem ser a senhora da mercearia que faz voluntariado há muitos anos, ou mesmo o padre da aldeia”. Depois há telefonemas de despiste aos líderes das iniciativas referenciadas (sejam da sociedade civil, de entidades públicas ou privadas, individuais ou colectivas, com ou sem fins lucrativos) e, finalmente, a entrevista aprofundada (cerca de duas horas e meias), que decide se o projecto passa à lista dos selecionados. Para isso tem de responder a quatro critérios base: resolver problemas sociais e ou ambientais negligenciados; ser transformador da sociedade nesses domínios; utilizar modelos de negócio inovadores e ter potencial de crescimento e/ou replicação noutro local geográfico. “Os que procuramos são aqueles que com muito pouco conseguem fazer muito, esses é que são verdadeiramente inovadores”, refere a coordenadora do MIES.
Mafalda Sarmento nota que o “Norte está mais sensibilizado para o empreendedorismo social, mas conta também com mais entidades de apoio, como incubadoras e universidades”. Já o Alentejo “tem vindo a fazer uma grande caminhada” e tem na Fundação Eugénio de Almeida, de Évora, uma “grande referência”. Nesta região, em que o MIES (financiado pelas fundações Gulbenkian e EDP e pelo programa Compete) já tem mais dados tratados, os projectos foram identificados essencialmente nas áreas da educação e formação, envelhecimento e apoio ao desenvolvimento e à participação civil e comunitária.
As iniciativas têm ainda de passar pelo crivo do Conselho Académico Consultivo do IES, que seleciona as que podem levar o carimbo ES +. Os empreendedores podem beneficiar do acompanhamento do IES através de formações específicas e, simultaneamente, ganham um estatuto de projectos economicamente sustentáveis que também garante maior credibilidade junto de potenciais investidores sociais. Estabelecer pontes entre empreendedores e potenciais financiadores será, aliás, uma das prioridades do IES para o próximo ano.
Além de dar visibilidade aos bons projectos, o MIES quer também que as iniciativas que “não passam a fase de inquérito, mas ficam inseridas na plataforma”, tenham acesso a um diagnóstico que permita reconhecer as “características fatais”, dando-lhes oportunidade de melhorarem. Ao tirar esta radiografia ao sector do empreendedorismo social em Portugal, o mapa irá também permitir identificar os principais problemas e corrigi-los de raiz, explica a investigadora. Mas o MIES não quer ficar por aqui e já esta a procurar financiamento para realizar o levantamento em Lisboa e Vale do Tejo, Algarve e Ilhas, para que o retrato da inovação e do empreendedorismo social em português fique mais completo
16.12.13
“O Norte está mais sensibilizado para o empreendedorismo social”
Ana Brito, in Público on-line
O mapa de empreendedorismo social já identificou 168 projectos com modelos de negócio inovadores
O mapa de empreendedorismo social já identificou 168 projectos com modelos de negócio inovadores
23.10.12
9.7.12
Na Serra da Lousã, há uma quinta terapêutica onde todos têm lugar
Por André Jegundo, in Público on-line
Todos os dias, às oito da manhã, Maria Encarnação sai da unidade residencial para pessoas com doença mental, onde vive, em Miranda do Corvo, e às nove já está no Parque Biológico da Serra da Lousã para abrir as portas do Museu da Tanoaria. Há três anos que é responsável pelas visitas guiadas ao museu, onde explica como se fazem as pipas e os barris segundo os métodos tradicionais. "Aqui é o museu da tanoaria", costuma dizer, com voz solene, no início das visitas, aproveitando o primeiro momento em que as crianças que a ouvem estão em silêncio.
Com quase 60 anos, Maria Encarnação, mais conhecida por todos como Dona Maria, sofre de uma doença mental e é uma das 70 utentes da Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP) de Miranda do Corvo - uma instituição privada de solidariedade social, sem fins lucrativos - que trabalha no parque biológico. São pessoas com algum tipo de doença mental, deficiência mental ou física ou que vivem em contextos familiares desestruturados, em exclusão social. Mas são estes utentes também que, coordenados por monitores, asseguram todo o funcionamento do parque.
Tratam de todos os animais do parque de vida selvagem e da quinta pedagógica. Cuidam das árvores e dos jardins e trabalham nas oficinas de ofícios tradicionais, produzindo peças ornamentais em vidro, em cerâmica, criando tapetes, consertando calçado. É com eles, também, que os visitantes se cruzam quando andam a passear pela quinta. E no Museu da Tanoaria, é Dona Maria quem os recebe.
Está há três anos no museu e, até essa altura, pouco ou nada sabia de tanoaria, a arte ancestral que se dedica ao fabrico de pipas e tonéis. Foram os artesãos mais antigos que lhe ensinaram o nome e a função de cada objecto, de cada ferramenta e dos trajes.
Ela ouviu as histórias com atenção, fixou-as, e hoje conta tudo o que sabe aos visitantes. "Querem que vos conte a histórias dos tanoeiros?", recomeça. "Eles começavam da vossa idade, com 13, 14 anos e iam aprender o ofício. No final, tinham um exame: tinham que fazer uma pipa, depois enchiam-na com água e lançavam-na de um monte abaixo. Se ela se partisse, chumbavam, se chegasse inteira passavam e já eram considerados artesãos", conta.
A unidade residencial onde Maria Encarnação vive destina-se aos utentes que são mais autónomos. Para os mais dependentes, que necessitam de apoio em muitas das tarefas do dia-a-dia - na higiene pessoal ou para se vestirem - existem outras unidades onde são acompanhados por técnicos.
É para o Parque Biológico da Serra da Lousã que vêm todos os dias e onde têm tarefas para executar e horários para cumprir, sempre adequados às capacidades de cada um. "O que procuramos fazer é apoiar e integrar estas pessoas que são portadoras de alguma forma de incapacidade ou deficiência e proporcionar-lhes actividades terapêuticas, em contacto com a natureza e com os animais", explica Sofia Santos, responsável pela área social e ocupacional do parque biológico.
Projecto nasceu em 1989
O trabalho desenvolvido pelo parque biológico foi distinguido, na semana passada, com o primeiro Prémio de Empreendedorismo Social Damião de Góis, atribuído pelo Instituto Português de Corporate Governance, em parceria com a Embaixada do Reino dos Países Baixos, em Lisboa. O projecto do parque biológico começou a surgir em 1989. No início, na Quinta da Paiva, uma antiga quinta de família, existia apenas um centro hípico, onde alguns utentes da ADFP de Miranda do Corvo tinham aulas de equitação terapêutica. "O que verificámos foi que havia uma excelente relação deles com a natureza e com os animais. Que reagiam muito melhor num ambiente natural como este, onde se sentem bem e mais à vontade", conta Sofia Santos. Por iniciativa da ADFP, em parceria com a Câmara de Miranda do Corvo, a Quinta da Paiva foi-se transformando no Parque Biológico da Serra da Lousã.
Juventino França, com 47 anos "acabados de fazer", é um dos que está desde o início no parque. Veio para a instituição em 1988, quando tinha apenas 24 anos. "Estou aqui há uma vida", conclui. Tem uma deficiência física nas costas que lhe prejudica a postura e que lhe dificulta a execução de várias tarefas. Quando tinha vinte e poucos anos ainda tentou arranjar um trabalho "normal", como costuma dizer, mas nunca conseguiu. Estava em casa, sem nada para fazer.
"Inicialmente não queria vir para a associação porque pensei que eram só pessoas com deficiência mental e que não me iria integrar. Mas o tempo passava, não conseguia arranjar trabalho, e decidi vir inscrever-me um curso de olaria", recorda. Aprendeu rápido: os oleiros que o ensinaram diziam-lhe que ia demorar anos até saber fazer uma caçoila em barro, mas passados três meses conseguiu fazer a primeira. Hoje é coordenador da oficina de olaria na Quinta da Paiva e trabalha com sete pessoas, a maioria com algum tipo de deficiência mental. A sua tarefa é "saber aproveitar o que cada um tem para dar", apesar de reconhecer que é um trabalho "difícil e desgastante". "Ao nível da linguagem, por exemplo, às vezes sinto falta de determinadas palavras. Porque comunico com eles de uma forma muito simples, ou por gestos, e estou aqui muitas horas por dia. Mas também é muito gratificante. Mesmo que façam algo de muito simples eles sentem o apreço dos outros e ficam bem com eles próprios", reconhece.
No museu de artes e ofícios trabalha Júlio Oliveira, de 33 anos. Ficou paraplégico aos 24 anos por causa de um acidente com um tractor e foi com essa idade que veio para a Quinta da Paiva aprender o ofício de sapateiro. "Se me perguntassem se era isto que queria, que sonhava, não era... Mas gosto de estar aqui, do contacto com natureza e com as pessoas. Vai-se vivendo um dia de cada vez", conta.
Todos os dias, às oito da manhã, Maria Encarnação sai da unidade residencial para pessoas com doença mental, onde vive, em Miranda do Corvo, e às nove já está no Parque Biológico da Serra da Lousã para abrir as portas do Museu da Tanoaria. Há três anos que é responsável pelas visitas guiadas ao museu, onde explica como se fazem as pipas e os barris segundo os métodos tradicionais. "Aqui é o museu da tanoaria", costuma dizer, com voz solene, no início das visitas, aproveitando o primeiro momento em que as crianças que a ouvem estão em silêncio.
Com quase 60 anos, Maria Encarnação, mais conhecida por todos como Dona Maria, sofre de uma doença mental e é uma das 70 utentes da Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP) de Miranda do Corvo - uma instituição privada de solidariedade social, sem fins lucrativos - que trabalha no parque biológico. São pessoas com algum tipo de doença mental, deficiência mental ou física ou que vivem em contextos familiares desestruturados, em exclusão social. Mas são estes utentes também que, coordenados por monitores, asseguram todo o funcionamento do parque.
Tratam de todos os animais do parque de vida selvagem e da quinta pedagógica. Cuidam das árvores e dos jardins e trabalham nas oficinas de ofícios tradicionais, produzindo peças ornamentais em vidro, em cerâmica, criando tapetes, consertando calçado. É com eles, também, que os visitantes se cruzam quando andam a passear pela quinta. E no Museu da Tanoaria, é Dona Maria quem os recebe.
Está há três anos no museu e, até essa altura, pouco ou nada sabia de tanoaria, a arte ancestral que se dedica ao fabrico de pipas e tonéis. Foram os artesãos mais antigos que lhe ensinaram o nome e a função de cada objecto, de cada ferramenta e dos trajes.
Ela ouviu as histórias com atenção, fixou-as, e hoje conta tudo o que sabe aos visitantes. "Querem que vos conte a histórias dos tanoeiros?", recomeça. "Eles começavam da vossa idade, com 13, 14 anos e iam aprender o ofício. No final, tinham um exame: tinham que fazer uma pipa, depois enchiam-na com água e lançavam-na de um monte abaixo. Se ela se partisse, chumbavam, se chegasse inteira passavam e já eram considerados artesãos", conta.
A unidade residencial onde Maria Encarnação vive destina-se aos utentes que são mais autónomos. Para os mais dependentes, que necessitam de apoio em muitas das tarefas do dia-a-dia - na higiene pessoal ou para se vestirem - existem outras unidades onde são acompanhados por técnicos.
É para o Parque Biológico da Serra da Lousã que vêm todos os dias e onde têm tarefas para executar e horários para cumprir, sempre adequados às capacidades de cada um. "O que procuramos fazer é apoiar e integrar estas pessoas que são portadoras de alguma forma de incapacidade ou deficiência e proporcionar-lhes actividades terapêuticas, em contacto com a natureza e com os animais", explica Sofia Santos, responsável pela área social e ocupacional do parque biológico.
Projecto nasceu em 1989
O trabalho desenvolvido pelo parque biológico foi distinguido, na semana passada, com o primeiro Prémio de Empreendedorismo Social Damião de Góis, atribuído pelo Instituto Português de Corporate Governance, em parceria com a Embaixada do Reino dos Países Baixos, em Lisboa. O projecto do parque biológico começou a surgir em 1989. No início, na Quinta da Paiva, uma antiga quinta de família, existia apenas um centro hípico, onde alguns utentes da ADFP de Miranda do Corvo tinham aulas de equitação terapêutica. "O que verificámos foi que havia uma excelente relação deles com a natureza e com os animais. Que reagiam muito melhor num ambiente natural como este, onde se sentem bem e mais à vontade", conta Sofia Santos. Por iniciativa da ADFP, em parceria com a Câmara de Miranda do Corvo, a Quinta da Paiva foi-se transformando no Parque Biológico da Serra da Lousã.
Juventino França, com 47 anos "acabados de fazer", é um dos que está desde o início no parque. Veio para a instituição em 1988, quando tinha apenas 24 anos. "Estou aqui há uma vida", conclui. Tem uma deficiência física nas costas que lhe prejudica a postura e que lhe dificulta a execução de várias tarefas. Quando tinha vinte e poucos anos ainda tentou arranjar um trabalho "normal", como costuma dizer, mas nunca conseguiu. Estava em casa, sem nada para fazer.
"Inicialmente não queria vir para a associação porque pensei que eram só pessoas com deficiência mental e que não me iria integrar. Mas o tempo passava, não conseguia arranjar trabalho, e decidi vir inscrever-me um curso de olaria", recorda. Aprendeu rápido: os oleiros que o ensinaram diziam-lhe que ia demorar anos até saber fazer uma caçoila em barro, mas passados três meses conseguiu fazer a primeira. Hoje é coordenador da oficina de olaria na Quinta da Paiva e trabalha com sete pessoas, a maioria com algum tipo de deficiência mental. A sua tarefa é "saber aproveitar o que cada um tem para dar", apesar de reconhecer que é um trabalho "difícil e desgastante". "Ao nível da linguagem, por exemplo, às vezes sinto falta de determinadas palavras. Porque comunico com eles de uma forma muito simples, ou por gestos, e estou aqui muitas horas por dia. Mas também é muito gratificante. Mesmo que façam algo de muito simples eles sentem o apreço dos outros e ficam bem com eles próprios", reconhece.
No museu de artes e ofícios trabalha Júlio Oliveira, de 33 anos. Ficou paraplégico aos 24 anos por causa de um acidente com um tractor e foi com essa idade que veio para a Quinta da Paiva aprender o ofício de sapateiro. "Se me perguntassem se era isto que queria, que sonhava, não era... Mas gosto de estar aqui, do contacto com natureza e com as pessoas. Vai-se vivendo um dia de cada vez", conta.
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