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1.8.23

Pessoas em situação de vulnerabilidade: há um programa para encontrar emprego

in Público

Há cinco anos que o Incorpora une pessoas com dificuldade em encontrar emprego a empresas. Num país em que o desemprego de pessoas em situação de vulnerabilidade é elevado, todas as ajudas contam.

De acordo com os dados mais recentes disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística sobre o mercado de trabalho em Portugal, o panorama no que diz respeito ao desemprego no nosso país não é dos mais animadores. No terceiro trimestre de 2022, a taxa de desemprego situava-se nos 5.8%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Mas embora o desemprego seja um problema transversal na sociedade, há determinados grupos populacionais particularmente vulneráveis. É o caso, por exemplo, dos mais novos, com a taxa de desemprego jovem em Portugal a chegar quase aos 16%, sendo que, na União Europeia se situa nos 13%, segundo dados do Eurostat.


Outro grupo que sofre as consequências do desemprego é o das pessoas com deficiência, como fica patente no relatório “Pessoas com Deficiência em Portugal – Indicadores de Direitos Humanos 2021”, desenvolvido pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos do ISCSP-ULisboa. Segundo este documento, entre 2011 e 2021, o desemprego na população com deficiência em Portugal continental aumentou 30,5%, sendo este crescimento mais acentuado nas mulheres (+63,1%) do que nos homens com deficiência (+9,8%). Pelo contrário, no mesmo período, na população portuguesa como um todo, este indicador diminuiu 43,2%, de acordo com o mesmo relatório.
Programa Incorpora: potenciar a integração laboral

A funcionar em Portugal há cinco anos, o programa Incorpora da Fundação “la Caixa” destina-se precisamente a proporcionar oportunidades de trabalho a pessoas com maiores dificuldades de empregabilidade. Ao mesmo tempo, ajuda as empresas a encontrar pessoal qualificado, a gerir os seus processos de selecção e a reforçar os seus objectivos de responsabilidade social corporativa.


Contribuir para a integração laboral de pessoas em situação de vulnerabilidade nas empresas colaboradoras do programa é possível graças à Rede Incorpora, uma rede constituída por 52 entidades sociais, distribuídas por todo o país.

Entre as entidades sociais que integram a rede Incorpora encontram-se, por exemplo, as Santas Casas da Misericórdia do Fundão, Campo Maior, Maia ou Vila do Conde, a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Coimbra (APPACDM), a Cooperativa de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Castro Verde Ourique e Almodovar (CERCICOA), a Associação para Formação Profissional e Desenvolvimento do Montijo (AFPDM), a Cáritas Diocesana de Viseu, a Ajuda de Mãe, a Associação CAIS, a Associação Cultural Moinho da Juventude, e muitas outras.

Colocar a pessoa no centro

Encarar a pessoa como a protagonista do seu próprio percurso é um dos pilares do funcionamento do programa Incorpora, que conta com a colaboração do BPI e do IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional, e explica o sucesso do mesmo. Desde logo, a pessoa é colocada no centro da intervenção, sendo acompanhada para se sentir valorizada e empoderada no sentido de procurar emprego e participar activamente no seu próprio processo de integração laboral.


Como tal, a participação no programa é inteiramente voluntária, ou seja, deve partir da pessoa com dificuldade em encontrar emprego a iniciativa de contactar a entidade social da sua zona de residência (ver aqui a Rede Incorpora), sendo posteriormente apoiada na concepção do seu plano de integração e beneficiando de assessoria contínua por parte da equipa técnica. O programa leva ainda a cabo o contacto com as empresas empregadoras, ajuda na preparação do candidato para os processos de selecção e também apoia durante a adaptação à empresa, uma vez que cada pessoa é acompanhada por um técnico Incorpora da entidade social onde se inscreveu.

Por seu turno, as empresas interessadas em recrutar colaboradores através do programa Incorpora só têm de preencher o formulário disponível na página web do programa Incorpora ou contactar directamente uma das entidades sociais da rede ou a Coordenação nacional do programa através do mail:


redeincorporaportugal@gmail.com. A equipa Incorpora analisa as necessidades da empresa e, com esta, desenha um plano personalizado de recrutamento e de formação, fornecendo também informação sobre todos os incentivos fiscais disponíveis, todas as medidas do IEFP que se podem aplicar à contratação de pessoas em situação de vulnerabilidade.


Histórias de superação, de recuperação e integração plena na sociedade – através da integração laboral – é o que o programa Incorpora permite, eliminando barreiras e tornando possível o que, para muitos, parece um objectivo inatingível.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

23.5.23

Sem apoios sociais, quase metade da população estaria em risco de pobreza

in Público


Em 2020, 1,9 milhões de pessoas em Portugal estavam em risco de pobreza, um aumento de 1,6% face ao ano anterior. Esta é uma das conclusões do relatório “Portugal, Balanço Social 2022”.


O relatório “Portugal, Balanço Social 2022” é projecto conjunto da Fundação “la Caixa”, do BPI e da Nova SBE, no âmbito da Social Equity Initiative (ver caixa), que se propõe traçar o retrato social do país e que, nesta última edição – apresentada na terça-feira, 16 de Maio, em Lisboa, actualiza o impacto da pandemia de Covid-19 e analisa as dimensões do custo de vida.


Para estas conclusões, os autores do estudo – os economistas Susana Peralta. Bruno P. Carvalho e Miguel Fonseca, do Nova SBE Economics for Policy Kknowledge Center – trabalharam com dados recolhidos pelo INE na Primavera de 2021 e que permitem retratar a situação material e social das famílias na altura, sendo que a informação sobre o rendimento e a situação perante o trabalho reporta a 2020.

São, na verdade, micro-dados, o que, como notou o director da Nova SBE, Pedro Oliveira, evidencia aspectos que as médias disfarçam, com o facto de a análise incidir sobre a família, como unidade, a proporcionar “informação muito rica”.

As estatísticas mais recentes – dados preliminares do INE relativos ao ICOR (Inquérito às Condições de Vida) 2022 – apontam para uma diminuição da pobreza em 2021, na ordem dos 2%, bem como uma diminuição da desigualdade, mas carecem de uma análise mais fina, que fará parte do próximo relatório a desenvolver ao abrigo da parceria entre a fundação e a faculdade.

Iniciativa para a Equidade Social

A Fundação “la Caixa” BPI é, na Europa, a fundação que mais investe na área social, dedicando-lhe 60% do orçamento, com o restante a ser distribuído, equitativamente, entre a ciência e a cultura. Este dado foi avançado, na sessão de apresentação do relatório “Portugal, Balanço Social 2022”, pelo curador da fundação em Portugal e presidente honorário do BPI, Artur Santos Silva. “Consideramos a investigação na área social e em todos os domínios que se cruzem com a desigualdade como o objectivo primeiro”, sublinhou.

É neste âmbito que se enquadra a Social Equity Initiative, uma parceria entre a Fundação "la Caixa", o BPI e a Nova SBE que visa impulsionar o sector social em Portugal com uma visão de longo prazo. Trata-se de uma parceria a seis anos, que se propõe traçar o retrato social do país e desenvolver programas de investigação e capacitação de organizações sociais, envolvendo duas catédras e oito projectos, entre os quais o relatório anual "Portugal, Balanço Social".
Sem apoios sociais, quase metade da população estaria em risco de pobreza
No que toca ao relatório de 2022, agora divulgado, constitui igualmente uma ferramenta que, como sublinhou a investigadora Susana Peralta, permite “fazer uma certa antecipação da crise inflaccionista que se instalou”, abordando questões ligadas à energia, à alimentação e ao sobre-endividamento das famílias.


Relativamente à taxa de pobreza, o que se verifica é que ela é mais elevada entre as mulheres, os desempregados e as pessoas com menor escolaridade, tendo um dos autores, Bruno P. Carvalho, feito notar que 12% das pessoas que trabalham são, ainda assim, pobres. Por outro lado, confirma que as crianças e os idosos são particularmente vulneráveis: em 2020, 345 mil crianças estavam em risco de pobreza, o mesmo acontecendo com 465 mil pessoas com 65 ou mais anos.

Olhando para as diferentes dimensões da sociedade, o estudo concluiu que, entre 2019 e 2020, o rendimento detido pelos 25% mais ricos em Portugal aumentou para 47% do rendimento total, o que, como explicou o investigador, decorreu, sobretudo, da diminuição do rendimento detido pelos 25% de pessoas mais pobres.


Destaque ainda para o impacto das transferências sociais na redução da pobreza: isto porque, em 2020, e na ausência desses apoios, a taxa de pobreza em Portugal dispararia para os 43,5%.

Do ponto de vista geográfico, o país apresenta alguma heterogeneidade, com a Madeira a concentrar a maior prevalência de pobreza (23,4%) e a maior taxa de privação material e social severa (8,8%).
Impacto da crise pandémica

Um factor decisivo para a situação da população portuguesa face ao rendimento foi a crise pandémica, cujo impacto foi esmiuçado por outro dos co-autores do relatório, Miguel Fonseca. Assim, 18% dos agregados viram o seu rendimento diminuir, em 2020, valor que sobe para os 22,8% quando o foco são os mais pobres. No leque de razões, predominam as de natureza laboral, nomeadamente por via da perda de emprego, diminuição das horas de trabalho ou do salário. Paralelamente, verificou-se um aumento dos apoios sociais, sendo que 13% das famílias receberam pelo menos um apoio social relacionado com a pandemia, índice ligeiramente superior para as mais pobres (13,8%), com o valor médio a rondar os mil euros.

Desafios do custo de vida

Uma dimensão importante para as famílias são as despesas, com esta edição do “Portugal, Balanço Social” a evidenciar que, em 2020, mais de 80% das pessoas pobres tinham dificuldade em pagar as despesas usuais, valor que desce para os 60% quando se olha para o total da população. Acresce que mais de 60% das pessoas pobres não possui capacidade de lidar com despesas inesperadas, também aqui emergindo uma diferença, já que, no cômputo da população, essa dificuldade se situa na ordem dos 30%.

As dívidas assumem também um papel relevante no orçamento familiar, com mais de 32% das pessoas pobres a identificar como excessivo o peso do pagamento das prestações mensais. Mais uma vez, no total da população, o cenário é outro, com menos de metade da taxa.


No que toca à alimentação, em 2021, 24% das crianças pobres viviam em agregados que enfrentaram a preocupação de não ter comida, o que é muito superior às crianças da população geral (7,7%). Nos idosos, evidencia-se a mesma discrepância: entre os pobres, foram 5,7% os que responderam ter sentido fome, mas não terem comido, enquanto na população total essa resposta foi dada por 2,2%.

Uma fatia significativa dos orçamentos pertence aos gastos com a habitação, tendo-se concluído que a taxa de esforço é, em média, de 20,5% do rendimento disponível, crescendo para os 38,4% entre os agregados mais pobres.


Estes dados foram, de seguida, debatidos por um painel constituído por Hunter Halder, da Refood; Joana Silva, da Católica Lisbon School of Business & Economics; Natália Nunes, da DECO; e Ana Paula Rodrigues, da ADENE - Agência para a Energia.