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7.3.17

Mães antes do tempo. Seis adolescentes dão à luz todos os dias em Portugal

Joana Capucho, in Diário de Notícias

O número está a descer, mas, em 2015, ainda houve 2295 nascimentos de mães entre os 11 e os 19 anos. Em 1980, eram quase 18 mil
"Quando descobri que estava grávida de dois meses tinha 16 anos. Falaram-me no aborto, mas isso nunca foi uma hipótese. Tive medo, claro, porque não sabia o que era ser mãe. Mas, por outro lado, também fiquei contente." Susana, de 18 anos, vive desde novembro de 2015 numa instituição que apoia mães adolescentes, na Maia. Depois do choque inicial, a mãe "acabou por aceitar a gravidez", mas "não tinha condições" para a criar, nem à neta. "Não havia outra hipótese a não ser uma instituição." Belany tem hoje 16 anos, um filho de 1 ano e uma história idêntica. Vive na casa de acolhimento para adolescentes da Associação Humanidades, em Lisboa. Chegou ali aos 15 anos, no início da gravidez, mas já vinha de uma outra instituição para jovens, onde viveu durante algum tempo. A família, apesar de não ter meios para a receber, sempre a apoiou, "não é uma família ausente". Tanto que agora já vai a casa passar alguns fins de semana. O bebé de Belany nasceu prematuramente, não foi fácil. Agora, está ótimo, a crescer normalmente, e ela voltou à escola, para completar a escolaridade obrigatória, que tinha interrompido.

Em Portugal, uma média de seis adolescentes dão à luz todos os dias. Segundo dados de 2015, os últimos disponíveis, nasceram 2295 bebés de mães entre os 11 e os 19 anos. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), este número foi o mais baixo de sempre, desde o final da década dos anos de 1970. No início desta década, a média de adolescentes que davam à luz atingia as dez por dia. Em 2011, por exemplo, nasceram 3663 bebés na faixa etária mais jovem. Para Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família, a diminuição da maternidade na adolescência não pode ser analisada sem se ter em conta que "Portugal tem hoje menos adolescentes do que tinha". Mas essa não é a única explicação: "O acesso à informação é mais fácil e existe uma generalização da educação para a saúde nas escolas", afirma, destacando que tivemos "anos de crise, e há mais preocupação em não engravidar. Os adolescentes acabam por se informar mais".

Elsa Mota, psicóloga da Divisão de Saúde Sexual Reprodutiva, Infantil e Juvenil da Direção-Geral da Saúde, confirma que esta diminuição está relacionada "com estratégias múltiplas da saúde e educação, como a disponibilização de métodos contracetivos no Serviço Nacional de Saúde, contraceção de emergência e com o acesso a consultas de planeamento familiar". Os números de gravidezes precoces, que coincidem quase sempre com o número de nascimentos, a não ser que haja um caso raro de gravidez gemelar, baixaram. Isto sem que tivesse aumentado o número de interrupções voluntárias da gravidez (IVG). Ainda de acordo com os dados do INE, em 2011 houve 2274 IVG em jovens entre os 15 e os 19 anos (11,1% do total em todas as mulheres). Em 2015, as IVG baixaram para os 1708 (10,38%).

Na década de 1980, Portugal era dos países da Europa com uma das taxas mais elevadas de mães adolescentes (ver texto ao lado ). Os números provam: em 1980, houve 17 973 mães adolescentes que deram à luz. Duarte Vilar reconhece que os números "são hoje menos preocupantes", mas "uma mãe adolescente deve ser sempre um motivo de preocupação". Ainda há muitas situações em que "a maternidade na adolescência gera pobreza e abandono, até porque muitas jovens já são originárias de famílias carenciadas e vulneráveis". A psicóloga Elsa Mota diz: "Só em determinados meios é que uma gravidez aos 16 anos é bem enquadrada, a maioria dos pais não aceita. É mais um bebé para eles."

Escolas e pais alinhados
Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, diz que "as escolas estão muito sensibilizadas para fazer que a gravidez na adolescência diminua", tanto pela ação de "psicólogos como nas aulas de educação para a cidadania, onde professores, médicos e enfermeiros fazem um trabalho notável". Na opinião deste dirigente de escolas, "os pais também têm hoje um diálogo mais aberto e franco sobre esta temática com os filhos". Mas seria importante, sugere, que "os professores das diferentes disciplinas tivessem formação" para abordar os mesmos assuntos nas aulas. Dados do estudo Health Behaviour in School-Aged Children revelam que, na generalidade, os adolescentes de 15 anos que já tiveram relações sexuais são cada vez menos - passaram de 18,2% para 16,1% entre 2006 e 2014 -, mas os que são sexualmente ativos usam menos o preservativo (25% não usaram, em 2014), quando, em 2010, só 10% diziam não o fazer.

A socióloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora nacional do estudo, diz que "o uso do preservativo baixou, o que é um risco para as infeções sexualmente transmissíveis". No entanto, sublinha, houve alterações que têm resultado na diminuição da gravidez na adolescência, como o uso de outros meios de contraceção, a pílula, disponibilizada nas consultas de planeamento nos centros de saúde.

Uma gravidez precoce tem riscos biológicos, mas um impacto social mais alargado. "Os jovens "saltam passos" numa trajetória de desenvolvimento pessoal e social, com prejuízo da sua escolarização, do seu convívio entre pares e da vivência da sua própria adolescência", alerta a socióloga. Carla, 19 anos, entrou na Associação Humanidades, em Lisboa, aos 15 e recorda que quando ficou grávida achou que "nunca mais acabaria os estudos". Estava sozinha, sem o apoio do pai do bebé ou da família. "Ouvi comentários negativos, olhavam para mim de lado." Enquanto viveu na instituição conseguiu acabar o 12.º ano. Renata Cortiço, responsável pela residência que acolhe estas mães, não nota diminuição na maternidade entre as jovens, porque os seis quartos da unidade estão sempre cheios. Ali vão parar casos referenciados pelo tribunal ou pelas comissões de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. "Muitas vezes, as coisas já não estavam a correr bem na vida destas jovens antes da gravidez. Normalmente, já havia o abandono escolar." E, em algumas situações, "há quem já esteja a viver em instituições, devido a casos de abuso sexual, violência ou de maus--tratos dentro da família".

30.10.13

Mais de metade das adolescentes grávidas vão ao médico fora do prazo legal para abortar

in iOnline

Para já, a amostra é apenas representativa das adolescentes que levam a gravidez até ao fim, mas os autores estimam que a amostra das jovens que interrompem a gravidez será alcançada nos próximos meses

Mais de metade das adolescentes portuguesas grávidas recorrem aos serviços de saúde demasiado tarde para poderem interromper a gravidez, mas das que chegam dentro do prazo legal apenas uma minoria opta por fazer um aborto, revelam os resultados preliminares de um estudo sobre gravidez na adolescência em Portugal.

O projeto “Gravidez na Adolescência em Portugal: etiologia, decisão reprodutiva e adaptação”, que começou em 2008 e deverá estar concluído em 2014, analisou até ao momento dados de 1.675 jovens, entre os 12 e os 19 anos de idade, utentes de 31 hospitais e maternidades, 29 unidades locais de saúde e centros de atendimento a jovens e 23 escolas de todas as regiões de Portugal.

Para já, a amostra é apenas representativa das adolescentes que levam a gravidez até ao fim, mas os autores estimam que a amostra das jovens que interrompem a gravidez será alcançada nos próximos meses.

As primeiras conclusões apontam que 53,9 por cento destas jovens “têm o seu primeiro contacto com os serviços de saúde após as 10 semanas de gestação”, o que elimina a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez, disse à agência Lusa Raquel Pires, uma das investigadoras do projeto da Universidade de Coimbra, que conta com o apoio da Associação para o Planeamento da Família e da Direção-Geral de Saúde.

No entanto, assinala Raquel Pires, daquelas que tiveram essa possibilidade, apenas 15,1 por cento ponderou interromper a gravidez, tendo posteriormente mais de metade destas decidido continuar com a gestação.

O estudo conclui ainda que a grande maioria das gravidezes adolescentes (98 por cento) ocorrem dentro de uma relação de namoro com homens em média 4,5 anos mais velhos, por vezes adultos, e que estão fora do sistema escolar.

Revela ainda que, apesar de a maioria das adolescentes ter engravidado de forma não planeada, utilizando contraceção e conseguindo identificar o que falhou no seu uso, há regiões do país com elevadas percentagens de gravidezes resultantes do não uso de contraceção, nomeadamente as regiões Centro e da Madeira.

No Alentejo e nos Açores, as gravidezes adolescentes são na sua maioria planeadas e na Madeira existe também uma elevada percentagem de uso ineficaz da contraceção sem que as jovens consigam identificar a falha que esteve na origem da gravidez.

“Independentemente da trajetória que conduz as adolescentes à gravidez, a baixa escolarização e/ou o abandono escolar estão entre as variáveis que mais contribuem para a amplificação do risco de gravidez adolescente”, sublinha Raquel Pires.

Nesse sentido, a investigadora defende que é necessário dar prioridade "à educação das adolescentes e dos seus parceiros sobre possíveis falhas na utilização de métodos contracetivos, o risco de gravidez a elas inerente e a ação da contraceção de emergência".

"Os nossos resultados espelham igualmente a necessidade de não desinvestir nas políticas de saúde que visam a promoção da utilização de contraceção, sendo ainda necessário avaliar as razões pelas quais os resultados alcançados em algumas regiões, como o Centro e a Madeira, não são totalmente satisfatórios", acrescentou.

Raquel Pires considera que as adolescentes em maior risco se encontram fora do sistema de ensino, "o que restringe o seu acesso a uma educação sexual”, sublinhando que um dos grandes desafios na prevenção deste fenómeno passa pela integração nas ações da população masculina.

"Muitas vezes estes homens estão fora do alcance dos programas de educação sexual e prevenção da gravidez e outros resultados indesejados por serem mais velhos ou não frequentarem a escola, sendo importante investir em ações destinadas à promoção de uma sexualidade segura na comunidade", disse.

A gravidez adolescente em Portugal tem vindo a descer nos últimos anos, segundo a Direção-Geral de Saúde.

"O número de nascimento em mulheres abaixo dos 19 anos têm diminuído ao longo dos anos, progressivamente e de forma sustentada, sem que isso corresponda ao aumento de interrupções da gravidez neste grupo etário", disse à agência Lusa Lisa Vicente, da DGS.

Baseando-se em inquéritos a jovens realizados em Portugal e na União Europeia, a responsável da DGS adiantou ainda existir uma "maior utilização de contraceção segura entre as mulheres mais jovens".

28.6.12

Todos os anos um milhão de adolescentes morre ou tem complicações devido a gravidez

Por Romana Borja-Santos, in Público on-line

Kali tem 12 anos e vive no Paquistão com o marido Faqeera, de 18 anos. Casou ainda antes de ter a primeira menstruação. Quando esta surgiu foi o marido que lhe explicou o que era. Foi a primeira e única. Está grávida. Todos os anos há cerca de um milhão de raparigas que morrem ou que ficam com problemas de saúde na sequência de uma gravidez precoce. Os dados e a história de Kali fazem parte de um relatório da organização Save The Children, que refere que a situação é predominante nos países em desenvolvimento.

De acordo com o documento Every Woman's Right: How family planning saves children's lives, que acaba de ser divulgado, as raparigas que engravidam com menos de 15 anos têm cinco vezes mais probabilidade de morrer durante a gravidez ou durante o parto do que se engravidassem com 20 ou mais anos. “O risco de morte materna aos 15 anos é de 1 em 3800 casos nos países desenvolvidos e de 1 em 150 nos países em desenvolvimento”, sublinha a Save The Children.

A organização frisa que todos os dias existem cerca de 25 mil casamentos de raparigas com menos de 18 anos, o que associado à falta de planeamento familiar acaba por fazer disparar o número de gravidezes em corpos que ainda não estão totalmente desenvolvidos. A situação é mais comum nas zonas rurais e em famílias com baixa escolaridade.

Foi este o caso de Kali. “Tive o meu primeiro período 15 dias depois de casar. Não fazia ideia do que estava a acontecer. O meu marido explicou-me o que era. Mas no mês a seguir nada aconteceu. Quando passou um segundo mês e voltou a não acontecer nada disse ao meu marido. Ele disse que eu talvez estivesse grávida. Levou-me a um médico que confirmou que estava grávida de dois meses. Fiquei estática. Telefonei de imediato para casa e contei à minha mãe. Ficou preocupada que fosse demasiado nova para tudo isto. Eu não prestei muita atenção mas, mais tarde, quando a minha irmã me falou dos perigos e complicações de uma gravidez fiquei ansiosa”, conta no relatório.

“A questão das crianças que têm crianças – e que morrem porque os seus corpos são demasiado imaturos para ter um bebé – é um escândalo global”, afirma, em comunicado, o director-executivo da Save The Children, Justin Forsyth. O responsável acrescenta que “esta tragédia não afecta apenas aquelas raparigas mas também as suas crianças” que têm 60% mais probabilidades de morrerem.

Ásia e África são os piores locais

Em média, diz o documento, em todo o mundo uma em cada cinco raparigas são mães adolescentes, ou seja, têm um filho com menos de 18 anos. A situação acontece sobretudo em países em desenvolvimento na Ásia, como Índia, Paquistão, e Bangladesh. Mas também é um problema em África, onde se destacam países como Nigéria, Guiné, Madagáscar, Mali, Níger e Serra Leoa.

O documento alerta, ainda, que duas gravidezes com menos de 24 meses de intervalo também representam um risco acrescido para as mães e bebés. “Permitir o acesso ao planeamento familiar de forma a que a mulheres possam adiar a concepção durante pelo menos três anos após o parto reduz o risco materno e do feto de complicações e pode salvar até 1,8 milhões de vidas todos os anos”, lê-se no relatório. Os autores adiantam também que 222 milhões de mulheres em todo o mundo que não querem ficar grávidas não têm acesso a formas de contracepção modernas.

A organização refere que tem tentado desenvolver um trabalho de sensibilização em vários países em desenvolvimento, no sentido de convencer as famílias a deixarem as filhas completar a escola antes de casar, como forma de adiar a maternidade que “pode ser uma sentença de morte”.

O documento surge numa altura em que em Julho um grupo de especialistas e líderes mundiais se vão reunir em Londres num encontro que será dedicado ao planeamento familiar e que é apoiado pelo Governo do Reino Unido e pela Fundação Bill e Melinda Gates.

Em Portugal, apesar do número de mães adolescentes ser elevado a situação tem vindo a melhorar. De acordo com dados da ONU de 2009, relativos a 2007, Portugal tem das mais altas taxas de fertilidade em adolescentes da Europa. Na tabela dos 27, Portugal surge em oitavo lugar, com uma taxa de fertilidade em adolescentes de 16,5. Em 2009, o número de nados vivos de mães com idades entre os 11 e os 19 foi o mais baixo desde finais da década de 70, mas mesmo assim ultrapassou os quatro mil, o que significa que, por dia, 12 adolescentes tiveram bebés. A média na zona euro é de 8,4.