Vânia Maia, in "Visão"
Uma equipa espanhola de especialistas em salvamentos aquáticos está a resgatar refugiados junto à ilha grega de Lesbos desde setembro. Até agora, já angariaram mais de 335 mil euros para financiarem a sua missão
As histórias que o mar lhes traz derivam entre a esperança e tragédia. Uma mulher que dá à luz minutos depois de ser resgatada de um dos botes cascas de noz que transportam dezenas de pessoas que procuram refúgio na Europa. Uma menina salva dos braços da mãe no mar, mas quando a equipa regressa para salvar os pais eles já tinham sido engolidos pela água.
Histórias como estas multiplicam-se todos os dias. Nos últimos três meses, a nesga de costa de 10 quilómetros da ilha grega de Lesbos tem recebido cerca de 2 mil migrantes por dia. Desde o início do ano, mais de 300 mil pessoas tentaram chegar à Grécia através do Mar Mediterrâneo. O areal as praias da região tornou-se acolchoada e cor de laranja devido aos coletes salva-vidas que se amontoam na areia.
As imagens dos naufrágios na região foram o sinal de alarme que a Pro-Activa Serveis Aquàtics precisava. Esta empresa catalã é especialista em salvamentos aquáticos e presta serviços de vigilância em muitas praias espanholas. Com o fim da época balnear, o diretor da Pro-Activa, Óscar Camps, com mais de 15 anos de experiência em salvamentos, resolveu rumar ao Mediterrâneo em setembro, com um orçamento de 15 mil euros do seu próprio bolso. «Quando vimos nas redes sociais fotografias de quatro crianças afogadas numa praia pensámos: "se fazemos salvamentos na nossas praias porque é que ali estão a morrer pessoas e ninguém as ajuda?"», contou o nadador-salvador à imprensa espanhola.
Depois de presenciar as situações dramáticas que se vivem no terreno, Óscar Camps decidiu criar oficialmente a Pro-activa Open Arms, uma ONG que se dedica a salvar vidas no mar para ajudar os refugiados que chegam à costa graga. A associação também era fundamental para receberem donativos da sociedade civil, uma vez esgotadas as poupanças.
As duas motas de água da equipa são preciosas para o sucesso das missões de salvamentos e foram compradas com os donativos oferecidos à Pro-Activa Open Arms, que já reuniu mais de 335 mil euros doados por 5113 pessoas. O dinheiro servirá, também, para alargar a equipa que passará a acudir a ilha de Chios, onde chegam mil refugiados diariamente.
Um sopro de esperança
Os voluntários, atualmente a equipa é composta por oito pessoas, passam os dias a tentar garantir o desembarque seguro dos mais de 20 botes que chegam diariamente à ilha, com mais de 50 refugiados em cada um. Das centenas de migrantes resgatados, a maioria são sírios que fogem à guerra no seu país. Muitas vezes, os voluntários também são chamados para fazerem manobras de reanimação.
«Num dia, vi mais gente morta do que em quinze anos de trabalho como nadador-salvador», confessou Oriol Canals, responsável por uma das equipas de salvamento da recém-formada ONG.
No final do mês passado, os socorristas da Pro-Activa participaram no resgate de cerca de 300 pessoas que naufragaram ao largo de Lesbos. Muitos dos náufragos não sabiam nadar e os coletes que traziam vestidos não tinham a qualidade necessária para serem verdadeiros salva-vidas. Sessenta pessoas acabariam por morrer afogadas.
Salvar vidas é a prioridade da equipa. Mesmo quando quem se está a afogar é um homem com uma bolsa cheia de joias roubadas aos passageiros das frágeis embarcações que trazem os migrantes para a Europa. Neste caso, o seu destino não foi o campo de refugiados, mas a esquadra da polícia.
«Cada refugiado paga entre mil a 1500 euros por um lugar num bote, quando o bilhete do ferry da Turquia para Lesbos custa 15 euros. As máfias enriquecem à razão de um milhão de dólares por dia», defendeu Oriol Canals ao jornal Público espanhol.
O mais duro para a equipa de voluntários é ver que o êxodo nunca para. A experiência dos últimos dois meses permite calcular que os custos mensais das missões de salvamento rondam os 15 mil euros, daí que mantenham a campanha de donativos ativa. Na sexta-feira, 13, realiza-se em Barcelona uma maratona de 24 horas a nadar com o objetivo de angariar 11 mil euros para comprar duas plataformas de resgate para as motas de água e fatos de neopreno para equipar os nadadores-salvadores. Oriol Canals destaca a importância dos donativos: «Seria muito duro ter de voltar com tanto trabalho por fazer aqui».


