7.8.19

Imprensa: EAPN Portugal distingue jornalismo que analisa a «pobreza» de «forma digna, livre de preconceito»

in Ecclesia

Porto, 07 ago 2019 (Ecclesia) – A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal escolheu as reportagens “Esta escola já não é só para ciganos” e “Esta é uma vitória nossa”, dos jornais ‘Público’ e ‘O Setubalense’, como vencedores do prémio ‘Analisar a Pobreza na Imprensa’.

“O jornalismo sempre teve um papel fundamental no desenvolvimento da vida democrática, denunciando os abusos dos direitos humanos; as notícias sobre pobreza e exclusão social podem, por vezes, ter por base simplificações excessivas e imagens estereotipadas de culpabilização”, afirma a EAPN Portugal em comunicado enviado hoje à Agência ECCLESIA.

Na primeira edição, o prémio de jornalismo ‘Analisar a pobreza na Imprensa’ atribuiu o primeiro prémio, na categoria imprensa nacional, ao trabalho “Esta escola já não é só para ciganos”, da jornalista Ana Cristina Pereira e do fotojornalista Adriano Miranda, publicado no jornal ‘Público’ a 28 de outubro de 2018; na imprensa regional, “Esta é uma vitória nossa”, do jornal ‘O Setubalense’ (de 21 de dezembro), de Ana Martins Ventura e Alex Gaspar.

A EAPN Portugal destaca que o prémio distingue trabalhos que abordem a pobreza e a exclusão social “de forma digna, livre de preconceito e de outras representações negativas”.
No segundo prémio foram distinguidas as reportagens “Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?” (2 de dezembro), da jornalista Ana Mafalda Inácio e do fotojornalista Reinaldo Rodrigues do ‘Diário de Notícias; e “Inclusão – Quando as empresas abrem portas à diferença todos saem a ganhar” do Jornal Região de Leiria (22 de novembro), do jornalista Carlos S. Almeida e do fotojornalista Joaquim Dâmaso.

O jornal ‘Público’ venceu também o 3º prémio na categoria imprensa nacional com “Lurdes vive na carcaça de uma antiga escola. Para onde irá agora?”, de Ana Cristina Pereira e Paulo Pimenta, publicado a 8 de novembro, enquanto na imprensa regional foi escolhido o trabalho “Sementes da Globalização”, da jornalista Daniela Franco Sousa e do fotojornalista Ricardo Graça do Jornal de Leiria, com data de 20 de dezembro.
A EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza informa ainda que o 1.º lugar das duas categorias vai receber um prémio, uma peça do artista plástico João Carqueijeiro.
A cerimónia de entrega dos prémios vai realizar-se às 18h00, do dia 16 de outubro, no Museu Nacional da Imprensa, no Porto, inserida no Fórum Nacional de Pessoas em Situação de Pobreza e Exclusão Social, que vai ter como tema ‘A pobreza é notícia? O papel dos media no combate à pobreza’.

Ao todo foram recebidos 58 trabalhos jornalísticos – 28 nacionais e 30 regionais.

O prémio de jornalismo foi criado em 2010 pela EAPN Áustria; a EAPN Portugal quer “dar-lhe continuidade e alargar o seu âmbito a outras categorias”.

A EAPN – European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti Pobreza) foi fundada em 1990, em Bruxelas, e está em 31 países, nomeadamente em Portugal desde 17 de dezembro do ano seguinte, com sede no Porto.
CB/OC

Salário mínimo e demografia no centro dos programas eleitorais

in RTP

Centenas de páginas com centenas de propostas - umas mais concretas do que outras. Os vários partidos prometeram aumentar o salário mínimo. A natalidade e o envelhecimento ativo ocupam grande parte dos programas eleitorais.

O Salário Mínimo Nacional entra sempre nas campanhas eleitorais e quase sempre com os partidos defenderem um aumento. As diferenças estão no quanto e no como.

O valor mais ambicioso está na CDU: 850 euros. O programa não fixa uma data, mas a medida está inserida naquilo a que a coligação chama de "emergência salarial".

O PSD quer um aumento progressivo que chegue, pelo menos, aos 700 euros no último ano da legislatura. No público e no privado. Sempre negociado na concertação social.

O PS também quer mais Salário Mínimo. Não adianta valores. Apenas refere que deve ser uma subida sustentada, tendo em conta a evolução global dos salários e os principais indicadores económicos.

Para além de um aumento, o Bloco de Esquerda defende a harmonização entre o sector público e o privado. Mas não há referência a valores.

Bloco de Esquerda e CDS ainda não têm o programa fechado. Sobre o Salário Mínimo, os centristas dizem que é uma matéria que deve ser acordada em concertação social.

A demografia é uma das grandes preocupações dos programas eleitorais. Os partidos querem ver mais crianças a nascer e procuram respostas para um país com cada vez mais cabelos brancos.

Da esquerda à direita: alargar e flexibilizar as licenças parentais; aprofundar a partilha desse tempo entre os pais.

O CDS quer ainda que uma parte da licença possa ser gozada pelos avós. O partido defende creches para todas as crianças e para isso o Estado deve criar um regime de contratualização com o setor social e privado.
O PS pretende "estimular" o alargamento da rede de creches e criar o "complemento-creche" - um valor garantido e universal que apoie as famílias a partir do segundo filho.

Aumentar o abono de família até aos seis anos é outra das propostas. Neste capítulo, o PSD quer rever os escalões do abono de família para aumentar o número de beneficiários. A partir do segundo filho o valor será maior. Os sociais-democratas também querem criar uma rede nacional de creches e jardins-de-infância "tendencialmente gratuitos".

No programa da CDU está a construção de uma rede pública de creches: crianças até aos três anos não pagam. A coligação defende ainda Abono de família para todos e uma valorização dos montantes atribuídos.

O Bloco de Esquerda propõe que o horário de trabalho dos pais de crianças até aos três anos seja reduzido e que os direitos sejam alargados para quem tem filhos com doenças crónicas.

Ser sénior não é ser velho. Os partidos sabem disso e querem uma terceira idade mais ativa e menos isolada.

O PSD quer uma transição mais lenta para a aposentação: ou seja, que antes de chegar à idade da reforma seja possível trabalhar a tempo parcial.

Portugal é o primeiro país da UE a legalizar o projeto que combate o abandono escolar

By Daniela Mendes Carvalho, in Comumonline

As Escolas de Segunda Oportunidade têm como objetivo combater casos graves de abandono escolar e consequente exclusão social. Este projeto entra em vigor no próximo ano letivo 2019/2020.

O Ministério da Educação publicou, esta terça-feira, um despacho que reconhece legalmente o projeto das Escolas de Segunda Oportunidade, que trabalham com jovens que abandonaram a escola sem dar por concluída a sua formação. Este modelo destina-se a jovens com mais de 15 anos que tenham deixado a escola há pelo menos um ano e que não tenham qualificação profissional.

O plano já existe há cerca de 11 anos em Portugal, com a criação da Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos, tendo-se desenvolvido mais nos últimos anos. A nível europeu estas escolas surgiram em 1999 após o reconhecimento, por parte da Comissão Europeia, da educação de segunda oportunidade. Portugal é o primeiro país a reconhecer formalmente este projeto.

O secretário de Estado da Educação, João Costa, explica que o despacho publicado vai permitir “institucionalizar um modelo que até agora não tinha enquadramento legal”. João Costa acredita ainda que haverá um alargamento da oferta neste tipo de formação, especialmente em zonas onde existem “focos grandes de exclusão social”, como é o caso da área metropolitana de Lisboa.

Os alunos que frequentem as Escolas de Segunda Oportunidade têm de estar formalmente inscritos num agrupamento de escolas pertencentes à rede pública. Apesar do despacho permitir a adoção de um “modelo pedagógico personalizado” enquadrado legalmente, estas escolas têm que garantir a formação dos alunos nos instrumentos de certificação disponíveis na lei. Os jovens podem integrar os cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA), se tiverem mais de 18 anos, ou o Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF), indicado para idades dos 15 aos 18 anos em risco de exclusão escolar e social.

Em Portugal, as Escolas de Segunda Oportunidade existem na sua maioria na zona do Porto, encontrando-se espalhadas na Maia, Valongo, Arco Maior e a já referida em Matosinhos. Perto da capital apenas existe uma escola, em Samora.

Embora a taxa de abandono escolar tenha atingido o valor mais baixo de sempre no último ano – 11.8% – o diploma assinado esta terça-feira tem estabelecidas orientações para a criação de um plano a nível nacional que visa dar resposta aos jovens que abandonaram o sistema educativo e estão em risco de exclusão social.
Tags

Educação de segunda oportunidade

Jornalistas do DN Ana Mafalda Inácio e Reinaldo Rodrigues ganham prémio

in DN

A jornalista Ana Mafalda Inácio e o fotojornalista Reinaldo Rodrigues ganharam o 2º prémio de jornalismo "Analisar a pobreza na Imprensa", atribuído pela EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza, com a reportagem "Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?"

Na Semear, um grupo de jovens portadores de uma defiência faz formação para procurar um lugar no mercado de trabalho. Hoje, é diferente de ontem e têm esperança, querem ter.© Reinaldo Rodrigues

Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?
A sociedade portuguesa é inclusiva? A pergunta serviu de ponto de partida para o trabalho da jornalista Ana Mafalda Inácio e do fotojornalista Reinaldo Rodrigues que fizeram um retrato da população com deficiência. Histórias na primeira pessoa de quem lida diariamente com esta realidade foram dadas a conhecer na reportagem "Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?", publicada a 2 de dezembro de 2018, e que acaba de ser distinguida com o 2º lugar (na Categoria Imprensa Nacional) na primeira edição do prémio de jornalismo "Analisar a pobreza na Imprensa", atribuído pela EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza.

"Acho que é um trabalho importante a partir do qual tentamos chamar a atenção para uma realidade da sociedade portuguesa que tem estado escondida", diz a jornalista Ana Mafalda Inácio, "grata pelo reconhecimento do trabalho que o DN fez".

"'O medo está na base de todas as formas de exclusão, tal como a confiança está na génese de todas as formas de inclusão'. A frase é de Jean Vanier, o homem que fundou a Arca, L'Arche, a comunidade no norte de França que acolhe homens e mulheres portadores de deficiência mental. E que ao longo do trabalho que o DN agora inicia, com um ciclo de reportagens, histórias na primeira pessoa, de crianças, jovens, pais, que lidam com esta realidade, nos remeteu para uma única questão: do que temos medo? "Ou melhor, do que tem medo a sociedade portuguesa quando se olha para o mercado de trabalho e a taxa de desemprego com pessoas com deficiência aumentou nos últimos anos, quando a taxa da população geral diminuiu? Do que tem medo a sociedade quando as queixas por discriminação a pessoas com deficiência aumentaram em 2017, do que se tem medo quando ainda nas escolas, nas empresas, nos transportes, nos cafés, na rua, não somos ainda capazes de olhar para os outros não pela sua incapacidade mas pela pessoa que são?", escreveu Ana Mafalda Inácio no artigo que foi agora premiado.
"Tentamos alertar a sociedade portuguesa para uma realidade que afeta mais de um milhão de pessoas e que há muito está escondida", refere a jornalista.

Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?
Na Categoria de Imprensa Nacional, o 1º lugar foi atribuído à reportagem "Esta escola já não é só para ciganos", dos jornalistas Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda, do jornal Público, e 3º lugar foi para "Lurdes vive na carcaça de uma antiga escola. Para onde irá agora?", também da autoria de Ana Cristina Pereira, mas com o fotojornalista Paulo Pimenta.

"Este é um prémio importante que destaca trabalhos que mostram uma realidade escondida da sociedade portuguesa", realça Ana Mafalda Inácio, referindo-se às reportagens que também foram premiadas nesta primeira edição do prémio de jornalismo "Analisar a pobreza na Imprensa".

A iniciativa tem como objetivo distinguir trabalhos jornalísticos que abordem a pobreza e a exclusão social "de forma digna, livre de preconceito e de outras representações negativas sobre estas matérias". Em 2018, foram selecionados e analisados pelos 18 Conselhos Locais de Cidadãos 28 notícias de âmbito nacional e 30 notícias de âmbito regional.
Na Categoria de Imprensa Regional, Ana Martins Ventura e Alex Gaspar (O Setubalense) foram distinguidos com o 1º lugar com a peça "Esta é uma vitória nossa". Carlos Almeida e Joaquim Dâmaso (Jornal Região de Leiria) com o trabalho "Inclusão - Quando as empresas abrem portas à diferença todos saem a ganhar", e Daniela Franco Sousa e Ricardo Graça (Jornal de Leiria) com "Sementes da Globalização" foram premiados com o 2º e 3º lugar, respetivamente.

Nas duas categorias, nacional e regional, o primeiro lugar vai receber como prémio uma peça assinada pelo artista plástico João Carqueijeiro. O segundo e o terceiro lugar serão agraciados com um galardão simbólico.
A atribuição dos prémios está prevista para o dia 16 de outubro, a partir das 18:00, no Museu Nacional da Imprensa, no Porto.

Cidade sueca obriga mendigos a tirar licença para pedir na rua

in Público on-line

Esquiltuna, a oeste de Estocolmo, é a primeira cidade sueca a introduzir uma taxa para quem praticam a mendicidade. O objectivo confesso é “dificultar” a vida a quem vive de pedir dinheiro”.

As pessoas que forem descobertas a pedir dinheiro sem licença podem ter de pagar uma multa até 272 euros PP PAULO PIMENTA

A partir de 1 de Agosto, a cidade sueca de Esquiltuna exige aos mendigos que obtenham uma licença oficial de 23 euros, aproximadamente, antes de poderem exercer a mendicidade. A licença é válida por três meses e pode ser obtida através do preenchimento de um formulário numa esquadra. Para o efeito, será necessário mostrar um documento de identidade válido. Se alguém for apanhado a pedir sem licença pode ter de pagar uma multa até 272 euros.

Acorda, vem ver a Lua: a mensagem de esperança de um fotógrafo para um menino cigano
Jimmy Jansson, vereador social-democrata, assumiu que esta nova regra pretende diminuir a mendicidade. “Estamos a tornar o processo mais burocrático e difícil”, declarou a jornais suecos, citados pelo Guardian britânico. Críticos desta medida dizem, no entanto, que legitima a mendicidade, e deixa ainda mais vulneráveis as pessoas que já se vêem reduzidas a pedir nas ruas para sobreviver, muitas delas ciganos vindos de outros países, como a Roménia e a Bulgária.

“A pobreza, a desigualdade, a discriminação vão fazer explodir os paióis”
Grupos criminosos podem pagar pela licença e depois exigir pagamentos com juros exorbitantes, como acontece noutros casos de redes de prostituição e mendicidade, disse Tomas Lindroos, de um grupo de uma organização de apoio aos mais necessitados de Esquiltuna, citado pelo Guardian.

Jimmy Jansson defendeu, em declarações ao ao jornal Aftonbladet a abordagem da autarquia local. “Não se trata de importunar pessoas vulneráveis, mas de tentar resolver a questão maior: a mendicidade”, explicou. “Há muitas críticas às tentativas de regular a mendicidade, mas não ao facto de as pessoas serem forçadas a pedir dinheiro”, defendeu.

A introdução deste pagamento prévio surge alguns meses depois de várias cidades suecas terem proibido a mendicidade.

Um terço dos jovens até 24 anos disponível para emigrar em 2020

in Negócios on-line

Para a geração dos nativos digitais, nascidos a partir de 1995, é mais interessante sair de Portugal do que ir trabalhar para outra zona do país. Os destinos mais apelativos para a emigração são EUA, Espanha e Alemanha.

Um em cada três (34%) jovens trabalhadores, com idades entre os 18 e os 24 anos, mostra disponibilidade para ir trabalhar para o estrangeiro já no próximo ano, subindo a percentagem para 44% quando esta pergunta é colocada sem um horizonte temporal tão próximo.

A Geração Z, também conhecida por nativos digitais, mostra a mesma propensão para emigrar que a geração anterior (Millennials, nascidos entre 1981 e 1994). Curiosamente, a disponibilidade para uma experiência no exterior é maior entre os Baby Boomers (1946-1964) do que na Geração X (1965-1980), com 33% e 28%, respetivamente.

Segundo os dados recolhidos pela consultora de recursos humanos Hays, para os jovens nascidos a partir de 1995 é mais interessante sair de Portugal do que ir viver para outra zona do país (só 12% o admitem). Os países mais apelativos para a emigração são Estados Unidos, Espanha e Alemanha. À medida que a idade aumenta, surgem outros destinos preferenciais, como Reino Unido, Angola ou Austrália.

"As gerações mais recentes estão mais predispostas para uma mobilidade internacional do que qualquer outra geração, pois nasceram num mundo digital e sem barreiras geográficas. Por isso, conceitos como o ‘gap year’, onde a pessoa tira geralmente um ano sabático para poder viajar, conhecer novas culturas e línguas, ou fazer voluntariado, são cada vez mais uma tendência entre os jovens", aponta Paula Baptista, diretora da Hays Portugal.

No relatório "Talento Z: Os nativos digitais no mercado laboral", que mostra também que a possibilidade de trabalhar a partir de casa (72%), o seguro de saúde (72%) e a flexibilidade de horários (70%) são os três principais benefícios valorizados, a empresa de recrutamento analisou as preferências e tendências no mercado laboral português, dividindo a amostra por quatro gerações diferentes, num total de mais de 855 inquiridos.

Ansiedade A epidemia silenciosa

Texto Nelson Marques Ilustrações Alex Gozblau, in Expresso</i>

Durante a adolescência, Sara Pereira, hoje com 32 anos, sempre foi muito exigente com ela própria. Era aluna de 18 valores, soube desde cedo que queria seguir o mundo da comunicação, tinha objetivos e sonhos bem definidos. “Na minha cabeça, desenhei uma linha do tempo para a minha carreira e para a minha vida pessoal. Aos 25 anos teria casa própria, aos 30 um relacionamento sério, aos 35 iria para fora trabalhar numa multinacional como diretora ou chefe de equipa.” Tirando a asma, nunca tivera grandes problemas de saúde. Lembra-se apenas de ficar nervosa antes dos testes e dos exames nacionais. Mas ‘ficar nervosa’ “não é sofrer de ansiedade”. Isso só veio mais tarde.

Chegou sem aviso, como uma explosão inesperada. Foi no início do verão após o primeiro ano na Universidade do Porto. Sara foi com dois amigos a um festival de música em Lisboa, era a primeira vez longe de casa sem os pais. “À noite, e depois de um dia mal alimentada, acordei e pensei que ia morrer. O meu melhor amigo estava ao meu lado e segurou-me a mão enquanto perguntava o que é que eu tinha. Vomitei, quase desmaiei. Tinha a cabeça à roda e chorei durante o que me pareceram horas.” Ela ainda não o sabia, mas tinha acabado de ter o seu primeiro ataque de pânico. “A partir desse dia a minha vida mudou. E eu ainda não imaginava quanto.”
Quando regressou ao Porto, marcou uma consulta num psiquiatra, que lhe diagnosticou um esgotamento e um início de depressão, e lhe receitou um antidepressivo e um ansiolítico. Por causa dos medicamentos, passou as duas semanas seguintes “sem conseguir sair de casa ou ver a luz do dia”. Ficava exausta, parecia “um zombie”.

Ao longo dos últimos 13 anos, sentiu todo o tipo de sintomas físicos. A lista parece interminável: “Taquicardia, tonturas, tremores, formigueiros nos membros superiores e inferiores, sensação de falta de ar, de sufoco, de desmaio, de estar a perder o controlo ou até de ‘desrealização’, visão turva e em túnel, secura da boca, náuseas e dores abdominais, perda de força nas pernas, transpiração excessiva, medo de vomitar e, claro, medo de morrer.” Sara sabe bem que um ataque de ansiedade ou de pânico não a vai matar, mas nem sempre consegue convencer-se disso. Não é fácil explicar a quem a rodeia que não existe um botão para desligar a ansiedade. “Muita gente diz-me o clássico ‘tens de ter calma, não stresses’. Há muito estigma em relação às doenças mentais e os ataques de pânico ainda são vistos muito como ‘ataquezinhos de gente mimalha que quer tudo e está frustrada’.”
Portugal está entre os países da UE onde o problema mais se faz sentir: cerca de 16,5% da população sofre de perturbação de ansiedade, sendo a doença mental mais prevalente
O pior, garante, são os evitamentos, o deixar de fazer as suas rotinas com medo de ter uma nova crise. O medo de ter medo. É um círculo vicioso que a leva a alterar as suas rotinas. “Por exemplo, tive um ataque de pânico no comboio, então evitei durante anos andar de comboio. Se tinha um numa determinada rua, evitava passar por lá. Nada disto faz sentido nem para quem tem ansiedade, mas é quase uma obrigação respeitar o medo.”
Sara não tem medo das palavras: viver com ansiedade “é uma prisão”. Aos poucos, foi perdendo autonomia e isolando-se cada vez mais. Não por vergonha, mas por receio de estragar o dia ou a noite aos outros. Sai quase sempre sozinha, para, se se sentir mal, voltar para casa quando quiser, sem ter de dar grandes explicações. “Quando dei por mim, tinha deixado de conduzir, de sair à noite, na pior fase até de sair de dia para tomar um café, de trabalhar fora da minha cidade, de ir ao ginásio, de ir ao cinema, ao teatro, a concertos ou a reuniões, de viajar, de ter liberdade e autonomia, de deixar de ser eu própria e de acreditar nos meus sonhos.” Em espaços fechados fica sempre perto das saídas, nos espetáculos escolhe uma cadeira colada ao corredor, evita andar de transportes públicos. Nunca sai sem a medicação. Por causa da doença, perdeu muitos empregos. “Quando me perguntam se há problema em ter muitas viagens, respondo sempre que não. Depois, quando me ligam a dizer que fui escolhida, desisto. Já tentei ser honesta. Não passei para a fase seguinte.”
Quando olha para fotografias antigas, tem saudades da miúda que era antes da ansiedade se ter instalado na sua vida. “Essa miúda ainda está dentro de mim, mas, muitas vezes, está coberta por um manto de medo que a isola e paralisa.”

25 MILHÕES DE ANSIOSOS NA EUROPA
Sara não está só. A sua história podia ser a de milhões de outras pessoas que sofrem de perturbação de ansiedade em todo o mundo. Só na Europa, de acordo o relatório “Health at Glance 2018” da OCDE, estima-se que a doença afete 25 milhões de pessoas. Portugal está entre os países da UE onde o problema mais se faz sentir: cerca de 16,5% da população sofre dele, sendo a doença mental mais prevalente, de acordo com o último estudo epidemiológico realizado no país. Perto de um terço das pessoas irá sofrer uma perturbação de ansiedade num dado momento das suas vidas.

A doença faz-se sentir sobretudo nas gerações mais jovens, em particular os millennials (pessoas que têm hoje entre 20 e 37 anos, aproximadamente), o que não é uma surpresa, uma vez que ela prospera num mundo de incertezas e o de hoje está cheio de ameaças potenciais para os jovens adultos: desemprego, baixos salários, dificuldade em comprar casa própria, dívidas… Os estudos demonstram também que a ansiedade parece ser mais frequente nas cidades do que nos meios rurais, e é quase o dobro nas mulheres. É algo para o qual são apontadas várias razões, desde fatores biológicos, nomeadamente hormonais, a “uma maior exposição a fatores indutores de stresse nas mulheres, relacionados com o trabalho, o ambiente familiar, pressões sociais, etc.”, explica o médico psiquiatra Diogo Telles Correia, autor do livro “A Ansiedade nos Nossos Dias”, editado no ano passado.

Mariana Anjos, 26 anos, consultora de recursos humanos e caça-talentos, é outro nome que engrossa as estatísticas. Teve o primeiro ataque de pânico, “o mais assustador” até hoje, aos 13 anos. Estava a fazer um teste de História e era a única que ainda não tinha entregado a prova. De repente, o ruído na sala começou a incomodá-la imenso. “Só me lembro de chorar muito e começar a arranhar-me toda. Tentaram tudo para me acalmar, mas era impossível. Um professor chegou a dar-me um estalo, mas eu não parava. Fui para o hospital e sedaram-me para dormir, mas nem assim consegui.”
Até aos 22 anos foi “sempre a piorar”. Os ataques passaram a ser diários, especialmente quando estava a dormir. “A dor que sentia no peito era horrível.” Aos 18 anos, por causa da ansiedade, perdeu “grande parte do cabelo”. O resultado: mais ansiedade. Como uma bola de neve. “Estava constantemente medicada, tomava demasiados comprimidos, mas não sentia que surtissem efeito.”
Na hora de ir para a universidade, decidiu tirar Psicologia. Antes de cada exame ou apresentação, tinha um ataque. Foi então que percebeu que a sua ansiedade tinha origem sobretudo em situações em que estava a ser avaliada. O medo de falhar estava sempre presente. “A pressão que coloco em mim é demasiada. Os meus pais também não ajudavam, diziam-me que ia chumbar ou falhar. Dei por mim a viver numa agonia constante, não conseguia aproveitar nada.”

Há quatro anos, cansada da medicação, e apesar de “muito cética”, deixou-se convencer por uma amiga a fazer terapia num centro de ioga especializado em ataques de pânico e de ansiedade. “Fiz duas sessões que me custaram muito. É uma autoanálise dolorosa, porque desconstruímos as coisas e vamos à sua origem, mas depois sente-se um alívio enorme.” Nos três anos seguintes não voltou a ter ataques. “Comecei a aproveitar muito mais a vida, a ser mais focada no trabalho e a conseguir desvalorizar muito mais facilmente os problemas.”

UMA COMPANHEIRA DE VIAGEM DA DEPRESSÃO
Apesar do impacto profundo que pode ter na vida das pessoas, nem toda a ansiedade é má. Ela é, aliás, uma emoção fundamental para ajudar a identificar situações de perigo e permitir que nos preparemos melhor para as enfrentar. Nas doses adequadas, pode até ter efeitos positivos. “Alguns autores chamam a atenção para o facto de, em baixos níveis, ela poder favorecer o desempenho profissional”, sublinha Telles Correia, psicoterapeuta que é também professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. É a chamada Lei Yerbes-Dodson, segundo a qual até determinados níveis de ansiedade há “um aumento da atenção e do interesse”. Mesmo níveis “moderados altos” podem ter um efeito positivo, nota a psicóloga Isabel Lourinho, do Instituto CUF Porto. “Na minha tese de doutoramento concluí que os estudantes mais ansiosos tinham melhores resultados académicos do que os não ansiosos.”

Onde se traça então a fronteira entre o que é uma ansiedade “normal” e a que constitui uma perturbação psicológica? A linha que as separa é muito subjetiva e varia de pessoa para pessoa, mas, explica a especialista, “o problema acontece quando a ansiedade paralisa ou bloqueia o indivíduo, que não é capaz de utilizar nenhuma estratégia positiva para lidar com ela”. Ou seja, quando controla a sua vida, ao invés de ser este a controlá-la.
O consumo elevado de ansiolíticos, nomeadamente aqueles que têm na sua base a benzodiazepina, como o Victan ou o Xanax, o mais famoso de todos, é algo que está a preocupar os especialistas
Em grande parte dos casos, está associada à depressão. “São companheiras de viagem”, afirma Telles Correia. “As pessoas que sofrem dos vários tipos de ansiedade acabam, devido ao peso que esta impõe nas suas vidas, e à disfunção social e ocupacional que imprime, por desenvolver sentimentos de tristeza que podem chegar à depressão.” Da mesma forma, os sintomas de ansiedade, os medos constantes e os comportamentos de evitamento “podem ocorrer com frequência” nos doentes com depressão.

É muito difícil apontar uma causa para um problema tão complexo como este. “As causas são, na grande maioria dos casos, de natureza reativa a acontecimentos da vida”, nota João Marques Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. “No entanto, nem toda a gente reage com perturbações de ansiedade a acontecimentos traumáticos semelhantes, o que significa que também é necessário que os indivíduos apresentem uma determinada organização da sua personalidade para que reajam desta forma. Em síntese, podemos dizer que elas resultam de uma combinação entre fatores próprios da constituição genética da pessoa e fatores ambientais.” O especialista sublinha que um aspeto importante para o desenvolvimento das perturbações da ansiedade é a “aprendizagem desta forma de reagir aos acontecimentos”. É algo que ocorre durante o desenvolvimento da pessoa “e muitas vezes é aprendido a partir de estilos comportamentais dos familiares próximos”.

As perturbações de ansiedade podem assumir várias formas, cada uma delas com sintomas diferentes, sendo as mais frequentes a doença obsessiva compulsiva, as fobias, os ataques de pânico, o stresse pós-traumático e a perturbação de ansiedade generalizada, que se caracteriza por uma preocupação praticamente permanente e duradoura (pelo menos seis meses).

Andreia Reis tinha 16 anos quando lhe foi diagnosticada doença obsessiva compulsiva, mas os sintomas da sua ansiedade começaram dois anos antes. “Nessa altura andava bastante revoltada com tudo. Tinha um ódio enorme por mim mesma, um medo terrível dos outros e o desejo de ter mais experiência. Foi pouco depois disso que decidi sair do colégio da terrinha e ir estudar teatro.”

Aos poucos, os sintomas foram-se intensificando. Tinha episódios sufocantes, em que sentia engasgar-se “com o próprio ar”. Teve ataques de pânico “tão graves e tão repentinos” que nem sabia o que se estava a passar. Num momento estava a dormir “descansada da vida”, no outro acordava com dores no peito tão fortes que tinha de ir para o hospital. Começou a automutilar-se. “Era o mecanismo que na altura parecia resultar comigo.”

Quanto mais os ataques se agravavam mais ela se esforçava para que ninguém reparasse que algo de errado se passava. Faz parte de um grupo de pessoas a quem Daniel Smith, autor do best-seller “Monkey Mind”, onde descreve a sua experiência com a doença, chama “repressores”. “Aprendem a esconder a sua ansiedade dos olhares públicos. Fecham-na dentro delas como ácido num tubo. Não é agradável. A mente humana não é um Pyrex, pode corroer.”
Foi isso que um médico cardiologia do Hospital de Santo António, no Porto, lhe explicou quando foi lá parar depois de ter desmaiado no chão da faculdade, coberta de suores frios. “Disse-me que estava a ter ataques de pânico e que podiam vir em muitas formas e quando menos esperava. Dava para perceber que eu era uma pessoa que engarrafava toda a minha ansiedade e depois o meu corpo tinha de descarregá-la.”

Já tentou “de tudo”: consultou psicólogos e psiquiatras, tomou “várias medicações”, que começavam em doses pequenas e “aumentavam até doses de cavalo”, experimentou a hipnose e “terapias não convencionais”, do reikki a taças de som tibetanas (que se diz ajudarem a equilibrar o corpo e a mente). “Só me falta ir a bruxa ou à missa!”, atira, esboçando um sorriso. A psiquiatra que a segue agora quer tirar-lhe a medicação. “Estou só com uma dose baixa de fluoxetina [um antidepressivo] e faço Victan [um ansiolítico] em SOS, mas ela também quer acabar com isso.”

O consumo elevado de ansiolíticos, nomeadamente aqueles que têm na sua base a benzodiazepina, como o Victan ou o Xanax, o mais famoso de todos, é algo que está a preocupar os especialistas. Portugal é um dos países da Europa que mais consomem este tipo de medicamentos: em 2017, venderam-se nas farmácias 10,6 milhões de embalagens, ou seja, mais de uma por habitante, facto que levou o diretor do Programa Nacional de Saúde Mental, Paulo Xavier, a afirmar que, no país, “quase não há respostas além das farmacológicas”.

Estarão os ansiolíticos a ser usados como panaceia para todos os males da ansiedade? Isabel Lourinho responde com cautela. “Ao contrário de alguns colegas, não sou antifármacos. Sendo uma psicóloga com formação na área das ciências e doutoramento em biomedicina, reconheço o valor que os fármacos podem ter. Aliás, existem situações em que tomar o comprimido adequado pode ser a estratégia de resolução mais eficaz”, explica. Porém, a psicóloga lembra que, tão importante como resolver o sintoma, é descobrir a causa do mesmo. “E, aí, a psicoterapia aliada ao estilo de vida adequado, com uma maior consciência de si mesmo e dos outros, e em harmonia com o mundo, faz toda a diferença.”

Onde se traça então a fronteira entre o que é uma ansiedade “normal” e a que constitui uma perturbação psicológica? A linha que as separa é muito subjetiva e varia de pessoa para pessoa
Apesar de combaterem os sintomas, acalmando de forma transitória a ansiedade, os ansiolíticos não vão à raiz do problema e expõem os pacientes à dependência. Se estes tomarem a mesma dose durante vários anos, o corpo habitua-se e para conseguir o mesmo efeito é preciso subir a dose. Caem assim num círculo vicioso de tolerância e dependência, até a um ponto em que deixam de funcionar com normalidade, surgindo efeitos secundários como a perda de memória e de atenção. Sem saberem o que fazer, muitos acabam com frequência por tomar diversos fármacos. Dos ansiolíticos passam aos antidepressivos.

Diogo Telles Correia desfaz um dos mitos muito associados a estes últimos: “Ao contrário do que se publicita, não se conhecem efeitos secundários importantes deste tipo de medicamentos quando tomados por largos períodos de tempo”, garante. “Os mais usados na ansiedade são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Embora se denominem antidepressivos, porque foram inicialmente testados e usados na depressão, são os medicamentos mais eficazes para o tratamento a médio e longo prazo da ansiedade.” Um comprimido não deve nunca substituir a terapia, mas isso não significa que a medicação não seja, muitas vezes, parte da resposta ao problema.

As estratégias adequadas para cada caso “dependem sempre do diagnóstico”, explica Marques Teixeira. “Nas situações de extrema gravidade o tratamento terá de ser um tratamento médico; nas situações menores, uma abordagem psicológica que ajude a pessoa a encontrar recursos para lidar com os seus níveis elevados de ansiedade pode ser suficiente.” Absolutamente fundamental é apostar na prevenção, adotando um estilo de vida saudável, que inclua uma alimentação adequada, horas de sono suficientes e atividade física, “que é o melhor ansiolítico”, garante Isabel Lourinho.

Andreia ainda tem ataques de pânico “traduzidos em crises de meia idade”, o que é estranho porque só tem 19 anos “e a vida pela frente”. A diferença é que, pela primeira vez, sente-se preparada para “tomar as rédeas” da sua ansiedade. “A minha psiquiatra deu-me essa confiança. Foi a primeira que me disse: ‘Tu és responsável. E eu sei que és capaz dessa responsabilidade e dessa evolução’.” Depois de um período de tréguas, os ataques de ansiedade de Mariana voltaram, por culpa de uma experiência profissional que não a deixava dormir muito. Desta vez, está a lidar “com o monstrinho” sozinha. “Tento fazer a minha autoanálise e falar muito sobre as coisas. Acho que já tenho essas competências.” Sara sabe que o caminho rumo à paz interior é longo. Lutar contra a ansiedade “é uma maratona, não um sprint. Há que treinar pouco a pouco até recuperarmos a nossa vida. E os nossos sonhos”. Ninguém devia passar os dias a ter medo de ter medo.

Mais de 87% das crianças timorenses são alvo de violência em casa

in Mundo ao Minuto

Mais de 87% das crianças em Timor-Leste são alvo de violência em casa, como forma de disciplina, indicou um relatório, de acordo com o qual o problema atingiu "proporções endémicas" no país e no Pacífico.

trabalho, de quatro organizações não-governamentais (ONG) com ampla experiência na região, Plan International, ChildFund, World Vision e Save The Children, refere que Timor-Leste é de entre oito países da região o que tem níveis mais elevados de violência contra as crianças em casa.


Intitulado "Invisíveis, inseguros -- O subinvestimento para pôr fim à violência contra crianças no Pacífico e Timor-Leste", o relatório, divulgado na ONU no final do mês passado, adianta que perto de 613 mil crianças com menos de 14 anos (87,4% do total) sofrem "disciplina violenta em casa".

Timor-Leste fica, com este valor, à frente de países como Vanuatu (83,5%), Kiribati (81%) ou Papua-Nova Guiné (75,7%).

Segundo o estudo, o problema atingiu "níveis endémicos" com mais de quatro milhões de crianças na região a sofrerem disciplina violenta em casa ou, em alguns casos, abusos sexuais.

Para a ONG Save the Children, o relatório mostra "níveis elevados chocantes de violência física, sexual e emocional contra as crianças da região", algo que terá um impacto "profundo e a longo prazo" na população.

Os autores referem que em causa não está o uso de disciplina, mas sim os métodos particularmente violentos ou humilhantes.

O relatório refere que na região quase um quarto das adolescentes foram alvo de violência física e que mais de 10% foram alvo de violência sexual.

Entre os casos destacados conta-se o da Papua Nova Guiné, onde há índices "excecionalmente elevados" de violência contra crianças.

De acordo com dados da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), as crianças representam mais de 50% dos casos de violência sexual registados nas suas clínicas em Port Moresby e Tari.

Igreja/Sociedade: Educação e formação são áreas prioritárias do voluntariado missionário (c/vídeo)

in Agência Ecclesia

1059 pessoas dedicam tempo a projetos de ajuda a países em desenvolvimento

Lisboa, 05 ago 2019 (Ecclesia) – A leiga Susana Lourenço faz parte dos 1059 missionários que este ano participam em projetos de voluntário, em diversas áreas de intervenção, onde a educação continua a ser uma prioridade e as atividades com crianças e jovens.

“Incentivá-las ao gosto pela leitura, ao gosto por voltar a estudar, por terem sonhos. Tudo começa com a educação”, disse à Agência ECCLESIA antes de partir para Manjacaze, em Moçambique.

Susana Lourenço faz parte do Grupo Missão Mundo, ligado às Irmãs Concecionistas ao Serviço dos Pobres, e explica que vai “desenvolver atividades com crianças” e “ajudá-las a poderem sonhar” num sítio onde têm que andar cerca de uma hora e meia “para irem para a escola”.

A fundação católica Fé e Cooperação reúne e divulga os números do voluntariado missionário e Catarina António explica que a educação e a formação “continuam a ser uma grande aposta” do trabalho das organizações e dos missionários, bem como a área pastoral que “quase sempre no terreno é fundamental”, uma vez que trabalham com uma congregação religiosa.

Neste contexto, acrescenta que “todas (organizações) trabalham várias áreas ao mesmo tempo” e realça que começam a ter áreas de ação “diferentes”, como o “ambiente” e a “cultura”, “setores que se começa a apostar mais”.
Susana Lourenço, que foi a última dos 10 voluntários enviados pelo Grupo Missão Mundo para Manjacaze, adianta que vão ajudar na biblioteca e adianta que há “um dia de lazer, de brincadeira, de fazer jogos”, mas “todos virados para a educação”, para além de apoiaram o projeto ‘Mesa de São Nicolau’, onde servem “uma refeição às crianças”.

Da Associação Sol Sem Fronteiras (SOLSEF), Inês Souta exemplifica que também trabalham essencialmente na área da educação uma vez que acreditam que “é pela educação que se consegue quebrar o ciclo de pobreza”.
“A educação de um jovem, de uma criança, tem impacto na sua família e, futuramente, na sua comunidade, dai a preponderância para esta área tanto no voluntariado como nos projetos de cooperação”, afirmou.
A SOLSEF está a trabalhar com os Jovens Sem Fronteiras que tem agora um grupo de voluntários em São Tomé e Príncipe, no ‘Projeto Ponte 2019’, para além de missionários do Agrupamento de Escolas de Peniche que já estão ao serviço da comunidade de Contuboel, na Guiné Bissau.

A partir dos números fornecidos por 37 organizações, das 67 que constituem a Rede do Voluntariado Missionário, Catarina António informa que este ano 1059 pessoas se dedicam ao voluntariado missionário.
“Temos um número maior dentro de portas, 691 estão a desenvolver atividades de voluntariado missionário em Portugal. Partem 368, alguns em curta duração, projetos que podem ir entre um e seis meses, e de longa duração, entre seis meses e 1 ano, 2 anos”, precisa.

Catarina António, da FEC, acrescenta que este ano são 32 pessoas que “pediram licença sem vencimento e muitas deixaram o seu emprego” e têm ainda “7% de reformados”, isto é, 27 voluntários missionários.
Segundo Inês Souta, cada voluntário “leva consigo um conjunto de pessoas” que se envolveram no projeto missionário e, “muitas delas, depois têm vontade de fazer uma experiência” e contactam a associação, “ficam contagiadas por este entusiasmo”.

“É muito interessante ver que ao longo dos anos, independentemente dos números apresentados, temos dezenas e dezenas de contactos ao longo do ano de jovens e de menos jovens, pessoas disponíveis para largar os seus empregos, para fazer uma licença sem vencimento, para poder partir”, acrescenta.
PR/CB/OC

Marcelo promulga Lei de Bases da Habitação com dúvidas sobre “elevadas expectativas suscitadas”

in Eco-online

O Presidente da República promulgou a Lei de Bases da Habitação, mas mostrou dúvidas quanto à "concretização das elevadas expetativas suscitadas".

O Presidente da República promulgou esta terça-feira a Lei de Bases da Habitação com dúvidas sobre a “concretização das elevadas expetativas suscitadas” e apontou a “excessiva especificação” do diploma.
O anúncio da promulgação por parte do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, foi feito esta terça-feira à noite no site da Presidência da República, juntamente com outros 16 diplomas. “Apesar de dúvidas quer quanto à possível concretização das elevadas expetativas suscitadas, quer quanto à porventura excessiva especificação para uma lei de bases, atendendo ao seu significado simbólico volvidas décadas de regime democrático, o Presidente da República promulgou o diploma que aprova a Lei de Bases da Habitação”, lê-se na mesma nota.

A primeira Lei de Bases da Habitação foi aprovada a 5 de julho, em votação final global, na Assembleia da República, com os votos a favor de PS, PCP, BE, PEV e PAN, e os votos contra de PSD e CDS.

O diploma foi consensualizado entre os deputados do grupo de trabalho parlamentar da Habitação, Reabilitação Urbana e Políticas de Cidades, no âmbito do processo de apreciação dos projetos de lei de PS, PCP e BE para a criação da Lei de Bases da Habitação, que suscitaram cerca de uma centena de propostas de alteração, apresentadas pelos diferentes grupos parlamentares, incluindo PSD e CDS.
“O Estado é o garante do direito à habitação”, lê-se no diploma da Lei de Bases, indicando que “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”.

Além da “efetiva garantia desse direito a todos os cidadãos”, o diploma estabelece a função social da habitação, em que “os imóveis ou frações habitacionais detidos por entidades públicas ou privadas participam, de acordo com a lei, na prossecução do objetivo nacional de garantir a todos o direito a uma habitação condigna”.

Entre as medidas que compõem a Lei de Bases, destaca-se a criação do Programa Nacional de Habitação e da Carta Municipal de Habitação, assim como a proteção no despejo e a integração do direito à habitação nas políticas de erradicação de pessoas em condição de sem-abrigo.

O Estado deve acelerar os processos judiciais de heranças indivisas que incluam bens imóveis com aptidão habitacional, a possibilidade da entrega da casa às instituições bancárias para extinguir a dívida no crédito à habitação e a regulação e fiscalização da atividade dos condomínios são outras das medidas que incluem a proposta para a Lei de Bases da Habitação.

Após a promulgação pelo Presidente da República, o diploma entra em vigor “no primeiro dia do mês seguinte ao da sua publicação” no Diário da República, dando “um prazo de nove meses” para adaptação da Lei de Bases da Habitação ao quadro legal e regulamentar.

Hospital de S. João autoriza terapia reiki para doentes oncológicos em ambulatório

in Associação Portuguesa de Reiki

O Hospital de São João, no Porto, está a usar a terapia reiki para tratar doentes oncológicos em ambulatório, com o objetivo de limitar os efeitos do tratamento de quimioterapia.

A terapia de Reiki tem sido cada vez mais indicada por médicos e terapeutas para combater os efeitos da quimioterapia em doentes que lutam contra o cancro, a fim de ajudar a reduzir os sintomas e a promover o relaxamento nestes pacientes.

Os efeitos positivos desta técnica motivaram assim o Conselho de Administração daquele hospital a autorizar a sua aplicação em doentes em regime de ambulatório, e a técnica é aplicada por enfermeiros com formação na área.
Fonte: Lusa

Como o Serviço Nacional de Saúde está a cair aos bocados

Silvia Caneco, Catarina Guerreiro, in Visão

O que não faltam são relatos da miséria que atravessa o SNS, de norte a sul do País. Como chegámos ao ponto de ver desmoronar um dos melhores serviços que o Estado português alguma vez concedeu aos seus cidadãos? E, mais importante, como se vai remediar isto?


António Marques, 61 anos, vítima de cancro no pulmão, nunca chegou a fazer quimioterapia. Morreu a 27 de março, à espera do resultado de um exame. O desfecho infeliz da história deste homem que era acompanhado no Hospital de Portimão, foi largamente noticiado e será, porventura, sintomático do estado do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS). Enredada num processo burocrático entre Portimão e o IPO de Lisboa, a biopsia de que António precisava para saber que tipo de tratamento lhe seria mais conveniente terá demorado 50 dias. Chegou tarde demais. Em 2016, e de acordo com o Tribunal de Contas, 2 605 pacientes morreram enquanto esperavam por uma cirurgia. Destes, 231 eram doentes oncológicos.

Em junho – e agora vamos do Algarve a Coimbra –, os blocos de cirurgia para operar crianças do Hospital Universitário tiveram de encerrar por falta de profissionais ou de material. “Nesse mês terão sido fechadas 19 salas de bloco no hospital pediátrico, com a consequente desmarcação e o adiamento das cirurgias”, garante José Carlos Almeida, do Hospital dos Covões. Nestas situações a única solução era dar aos utentes um cheque-cirurgia para irem ao privado.

As falhas, avisa o médico, também afetam com gravidade a área de Gastroenterologia. Há milhares de exames em atraso, entre endoscopias e colonoscopias, em parte resultado dos problemas relacionados com os próprios equipamentos. “No Hospital dos Covões, o aparelho que faz endoscopias está avariado desde agosto do ano passado. Por isso não se fazem”, adianta José Carlos Almeida, sublinhando que os exames têm de ser feitos nos hospitais da Universidade de Coimbra, que nos últimos tempos têm dado sinais de dificuldade em responder a todos os pedidos.
Podíamos continuar (e vamos fazê-lo nestas páginas), caso atrás de caso, história atrás de história, a mostrar o desabar de um serviço que (ainda) é dos melhores que o Estado português alguma vez prestou aos seus cidadãos. Parece que se formou aqui a tempestade perfeita. À falta de financiamento junta-se a carência de recursos humanos e a má gestão, um “triângulo maldito” que se tem acumulado na última década, com maior ênfase durante o período da Troika.

Apesar de ter sido injetado dinheiro sobre o sistema, o montante ainda assim não foi suficiente para igualar a concorrência dos hospitais privados, (que florescem à medida que o SNS asfixia), com grande capacidade de atrair os bons profissionais com um plano remuneratório difícil de recusar. A falta de recursos humanos é transversal a todas as áreas de especialidade. Nota-se sobretudo nos enfermeiros, que viram o horário reduzido das 40 para as 35 horas semanais e em que as novas admissões acabaram basicamente por compensar em parte a redução de horários, mas não foram suficientes para acudir ao acréscimo de trabalho. Já na classe médica, são especialidades como a Anestesiologia, a Ginecologia ou a Obstetrícia que deixam ausências nos serviços.

Falta a má gestão: de dinheiro e de recursos humanos. “Se nos dizem que houve mais dinheiro e não foi suficiente ou não se vê, é porque não está a ser bem gerido”, diz Rosário Órfão, presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia e clínica no hospital de Coimbra. “Fazer gestão de unidades de saúde é complexo. Tem de ser feita de forma competente, mas sobretudo séria. E enquanto for gerida por cores políticas, isto vai sempre ser assim”, critica Eva Salgado, da Secção Norte da Ordem dos Enfermeiros.

O drama dos doentes com cancro
Em muitos serviços, o tempo de espera para uma consulta é superior a dois anos. É o caso do Hospital de Évora, onde para se ter acesso a uma consulta de Cirurgia Geral de Obesidade são precisos 1 004 dias; ou no Hospital de Faro, onde uma consulta de Ortopedia demora 1 047 dias. Os dados, relativos ao período de novembro de 2018 a janeiro deste ano, mostram ainda que a situação se alastra a todo o País. Em Portimão, uma consulta de Reumatologia demora 718 dias e em Portalegre uma de Angiologia/Cirurgia Vascular oito meses. Uma auditoria do Tribunal de Contas, de 2017, concluiu que existem “marcadas assimetrias regionais no acesso a consultas hospitalares e cirurgias e nos tempos de espera associados, que traduzem desigualdades no acesso a cuidados no SNS”, sendo a região do Algarve a mais problemática. Se os pacientes da região Norte esperaram, em média, 87 dias por uma cirurgia programada, no Algarve tiveram de esperar quase o dobro do tempo (162 dias).

“O Ministério da Saúde desenvolveu um plano de ação para melhorar o acesso ao SNS, que tem como objetivo que, no final de 2019, nenhum utente até à data, esteja à espera há mais de um ano. Prevê-se assim abranger os cerca de 99 000 doentes que aguardam por uma primeira consulta hospitalar via Consulta a Tempo e Horas há mais de um ano (cerca de 15% do total de doentes em espera) e os cerca de 21 000 doentes (cerca de 8,8%) que aguardam por uma cirurgia há mais de um ano”, refere o ministério à VISÃO.

Preocupante é também o tempo de espera em Oncologia. Segundo dados da Entidade Reguladora da Saúde, de 2018, até nos doentes muito prioritários há atrasos consideráveis: 31% desses pacientes foram operados para além do tempo máximo considerado por lei (que é de 15 dias após a indicação cirúrgica) e 48% estavam em lista de espera por um período acima do considerado aceitável. “Nos últimos tempos, essa situação não tem melhorado. Pelo contrário, há mais atrasos!”, exclama Paulo Cortes, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

A Liga Portuguesa Contra o Cancro fala de uma grande disparidade de tratamentos. “Há casos de doentes que chegam através da Caixa Geral de Aposentações e têm acesso a estes tratamentos, e que não os teriam no público”, diz Carla Barbosa, advogada. Falamos, por exemplo, de uma terapêutica inovadora para doentes com cancro do pulmão – imunoterapia com Pembrolizumab, um tratamento menos agressivo e com efeitos secundários menos violentos do que a químio ou radioterapia. “Esta terapêutica tem sido negada em muitos hospitais, o que não é minimamente justificado quando o Infarmed aprovou a comparticipação em 2018. Mas o que vemos é que há uma grande discricionariedade no acesso aos medicamentos, porque há hospitais sem orçamento”, insiste Carla Barbosa.

E há, ainda, relatos de inúmeros problemas no acesso às chamadas “ajudas técnicas” ou “produtos de apoio” – como dentaduras para doentes que perderam todos os dentes devido a tumores e não conseguem mastigar, sutiãs próprios para mulheres que tiveram cancro da mama e ainda não fizeram a reconstrução mamária, ou perucas para quem perdeu o cabelo na quimioterapia. Um doente que a advogada acompanha pediu acesso a uma dentadura em março de 2017. Ainda hoje está à espera.

Em todo o lado faltam médicos...
“Vivemos continuamente a apagar fogos e, qualquer dia, já não há floresta”, afirma, perentório, o pneumologista Filipe Froes. A floresta, aqui, é o SNS. O médico é um dos fundadores do popular grupo no Facebook SNS: O Lado B, que soma mais de 4 200 membros, no qual são partilhadas notícias e testemunhos. Também criaram o movimento SNS in Black (SNS de negro), que insta os profissionais a vestirem-se de preto à sexta-feira, em defesa do serviço público. “Há uma grande discrepância entre o discurso oficial e o quotidiano de quem está no terreno”, garante o coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos do Hospital Pulido Valente, em Lisboa.

De acordo com o Ministério da Saúde, o SNS tem atualmente mais 10 800 profissionais do que em dezembro de 2015. Destes, 1 857 são médicos especialistas, 4 400 são enfermeiros e 1 000 são técnicos superiores de saúde e técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica. Ao todo, o SNS soma 130 800 profissionais. No entanto, as queixas de falta de recursos humanos vêm de todo o lado.

Nascem mais de quatro mil bebés por ano no Algarve, mas a maternidade de Portimão tem sido forçada a encerrar ocasionalmente devido à falta de profissionais. “Não estamos em Lisboa, onde as maternidades são próximas umas das outras. São 70 quilómetros de distância entre o Hospital de Portimão e o de Faro”, constata João Dias. No verão, o cenário poderá ser dramático, denuncia o dirigente do Sindicato Independente dos Médicos: “O Hospital de Portimão corre o risco de passar 33 dias, nos próximos três meses, a transferir grávidas para outros hospitais por faltarem dois pediatras nesses dias para assegurar os turnos da Urgência”, alerta. Quando Faro fica a rebentar pelas costuras, algumas mães acabam por ser transferidas para Lisboa.

As férias de verão também vieram agravar os problemas das maternidades da capital. A falta de obstetras e de anestesistas é um dos principais dramas da Maternidade Alfredo da Costa e dos hospitais de Santa Maria, São Francisco Xavier e Amadora-Sintra. O presidente do Colégio da Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, João Bernardes, alerta para o facto de as maternidades serem um dos locais mais protegidos dos hospitais. Por isso, são um bom barómetro para avaliar a saúde do SNS. “Quando há roturas num bloco de partos, todos os serviços a montante já estão em rotura.”

“O Estado gastou cerca de 100 milhões de euros a contratar médicos tarefeiros, dinheiro que dava para contratar 5 500 médicos”, assegura o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que teme que um dia a classe se revolte contra o excesso de trabalho. “Se amanhã os médicos não estiverem disponíveis para fazer mais de 150 horas extraordinárias por ano, o SNS cairá como um castelo de

Jornalista madeirense conquista prémio da Rede Europeia Antipobreza

in DnMadeira

Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda venceram o prémio na categoria de imprensa nacional

A peça “Esta escola já não é só para ciganos” produzida pelos jornalistas do Público, a madeirense Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda, mereceu a distinção na primeira edição do prémio de jornalismo “Analisar a pobreza na Imprensa” atribuído pela Rede Europeia Antipobreza (EAPN). Os jornalistas lusos conquistaram o título na Categoria da Imprensa Nacional.

De referir que esta série já tinha sido distinguida com o prémio Direitos da Criança em Notícia, atribuídos pelo Fórum sobre os Direitos das Crianças e dos Jovens, com o apoio da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens​ (CNPDPCJ) e da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), segundo avançou há pouco o site oficial do jornal Público.

Nestes prémios da EAPN a madeirense veio ainda a conquistar a ‘medalha de bronze, juntamente com Paulo Pimenta, com a peça “Lurdes vive na carcaça de uma antiga escola. Para onde irá agora?”, avançou o Público.

Reportagem do PÚBLICO ganha prémio de jornalismo da Rede Europeia Antipobreza

Maria João Mesquita, in Público on-line

Reportagem Esta escola já não é só para ciganos, sobre a inclusão das crianças ciganas na escolaridade obrigatória, mereceu o primeiro lugar no prémio de jornalismo “Analisar a pobreza na Imprensa”, instituído pela Rede Europeia Antipobreza (EAPN).

Os jornalistas do PÚBLICO Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda foram distinguidos na primeira edição do prémio de jornalismo “Analisar a pobreza na Imprensa” da EAPN-Portugal/Rede Europeia Antipobreza. O primeiro lugar na Categoria da Imprensa Nacional foi atribuído à peça Esta escola já não é só para ciganos.

Acorda, vem ver a Lua: a mensagem de esperança de um fotógrafo para um menino cigano
A série de Ana Cristina Pereira e Adriano Miranda sobre crianças ciganas e escolaridade obrigatória, de que esta reportagem faz parte, já tinha sido distinguida com o prémio Direitos da Criança em Notícia, atribuídos pelo Fórum sobre os Direitos das Crianças e dos Jovens, com o apoio da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens​ e da Sociedade Portuguesa de Autores.

Também da autoria de Ana Cristina Pereira, mas com Paulo Pimenta, foi distinguida a peça Lurdes vive na carcaça de uma antiga escola. Para onde irá agora?. A esta foi atribuído o terceiro lugar.

Segundo um comunicado emitido esta tarde pela organização, o objectivo é “distinguir trabalhos jornalísticos que abordem a pobreza e a exclusão social de forma digna, livre de preconceito e de outras representações negativas sobre estas matérias”. O processo começou com a selecção de trabalhos jornalísticos publicados na imprensa nacional e na imprensa regional em 2018. Os trabalhos foram seleccionados pelos 18 Conselhos Locais de Cidadãos (CLC) em situação de pobreza – um por distrito –, num total de 58 (28 nacionais e 30 regionais).

Seis desses trabalhos foram distinguidos pelo júri, constituído por quatro membros dos núcleos, Cidália Barriga (CLC de Évora), Francisco Rico (CLC de Aveiro), Jaime Filipe (CLC de Setúbal), Jaime Janeiro (CLC de Portalegre), e três académicos, Rita Simões (Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Paulo Alves (Universidade do Algarve) e Fernando Zamith (Departamento de Ciências da Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto).

Dos distinguidos na Categoria da Imprensa Nacional fizeram ainda parte Ana Mafalda Inácio e Reinaldo Rodrigues (Diário de Notícias) com o trabalho Um milhão e 700 mil portugueses têm incapacidade. Somos uma sociedade inclusiva?. Já na Categoria Imprensa Regional destacaram-se, no primeiro, segundo e terceiro lugar, respectivamente, Ana Martins Ventura e Alex Gaspar (O Setubalense) com Esta é uma vitória nossa, Carlos Almeida e Joaquim Dâmaso (Jornal Região de Leiria) com Inclusão – Quando as empresas abrem portas à diferença todos saem a ganhar, e Daniela Franco Sousa e Ricardo Graça (Jornal de Leiria) com Sementes da Globalização.
Em ambas as categorias – nacional e regional – só o primeiro lugar receberá um prémio, uma peça assinada pelo artista plástico João Carqueijeiro. O segundo e o terceiro lugar serão agraciados com um galardão simbólico. A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar no Museu Nacional da Imprensa, no Porto, no dia 16 de Outubro, pelas 18h00, no decurso do Fórum Nacional de Pessoas em Situação de Pobreza e Exclusão Social, que este ano será dedicado ao tema A pobreza é notícia? O papel dos media no combate à pobreza.

Quase 700 mil fazem voluntariado, mas Portugal está muito abaixo da média da União Europeia
Este prémio foi criado em 2010 pela EAPN- Áustria. Outros países europeus foram seguindo o exemplo. Esta é a primeira vez que a EAPN-Portugal o atribui. Pretende dar continuidade à iniciativa e abranger outras categorias.

Texto editado por Pedro Sales Dias

6.8.19

Cravinho defende 15% de mulheres militares "no mínimo"

Manuel Freire, in DN

Ministério da Defesa lançou um portal com informação sobre a Defesa Nacional e outro relativo ao recrutamento militar.

As Forças Armadas "não devem ter menos que 15%, no mínimo", de mulheres nas fileiras para poder responder aos pedidos de maior presença feminina nas missões externas feitos pela ONU, disse esta segunda-feira o ministro da Defesa.

"Temos um número insuficiente" de mulheres "para fazer face ao valor acrescentado" que dão aos contingentes militares no exterior e aos resultados dessas missões, sublinhou João Gomes Cravinho, no final da cerimónia de lançamento dos dois novos portais do setor na Internet: um para divulgar a Defesa Nacional, o outro para informar os jovens sobre o processo de recrutamento (desde as profissões militares aos incentivos e oportunidades de carreira) nos regimes de voluntariado e contrato.

Com menos de 12% de mulheres das fileiras e diferenças entre os três ramos, Gomes Cravinho reconheceu a necessidade de haver "medidas diferentes" para "responder às lacunas" específicas da Marinha, Exército e Força Aérea - a fim de aumentar, em mais de 3%, o efetivo atual de quase 3000 militares femininos.
Para isso contribuirão os portais agora lançados, permitindo que a Defesa se dê a conhecer com mais transparência e maior rigor, visando reduzir "as discrepâncias" registadas entre o grau de informação que os jovens têm sobre a vida militar e a realidade profissional que depois encontram - as quais justificam muitas das saídas precoces das fileiras, destacou o ministro da tutela.

A Força Aérea é o ramo com maior percentagem de mulheres nas fileiras (16%)© ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
De qualquer forma, como sublinharam o ministro e o diretor-geral de Recrutamento, Alberto Coelho, o portal do recrutamento não se destina a substituir a informação disponibilizada pelos três ramos mas a concentrá-la e torná-la mais acessível.
"Temos de trabalhar bem para evitar discrepâncias entre o que se imagina e o que se vai encontrar" nas fileiras, insistiu Gomes Cravinho, insistindo que o problema dos efetivos nas Forças Armadas centra-se menos na capacidade de recrutar e mais na dificuldade de reter os militares durante os seis anos de contrato ou, nos quadros permanentes, ao longo da carreira.
Greve dos motoristas
Questionado sobre o apoio que os militares possam dar em caso de greve dos motoristas de matérias perigosas, João Gomes Cravinho reafirmou que as Forças Armadas "estão sempre disponíveis" para responder às necessidades identificadas.
Contudo, frisou o ministro da Defesa, isso será feito "dentro do enquadramento constitucional apropriado".

"Se forem verificados os pressupostos que permitem constitucionalmente a utilização das Forças Armadas", alertou Gomes Cravinho, elas "obviamente corresponderão às necessidades e temos suficientes motoristas" nas fileiras para dar esse apoio.

Sobre se essa condição tem implícita a necessidade de decretar o estado de emergência. Gomes Cravinho limitou-se a dizer que essa é "matéria para constitucionalistas" e que "iremos estudar" se se justifica invocar.
Segundo a lei, "o estado de emergência é declarado quando se verifiquem situações de menor gravidade, nomeadamente quando se verifiquem ou ameacem verificar-se casos de calamidade pública" e onde est´´a previsto, "se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas".

defesa
Há "duas dezenas" de militares disponíveis para conduzir camiões de combustível
Aquando da greve realizada pelos motoristas de matérias pesadas em abril passado, as Forças Armadas disponibilizaram duas dezenas de militares habilitados a conduzir aquele tipo de viaturas.

5.8.19

Mulheres sauditas já não precisam da permissão de um homem para viajar

De João Paulo Godinho, in Euronews

O governo da Arábia Saudita anunciou esta sexta-feira que as cidadãs com mais de 21 anos podem agora obter passaporte e viajar para o estrangeiro sem precisar da autorização de um homem (pai, marido, filho ou outro familiar do sexo masculino).

A Amnistia Internacional veio já reconhecer a importância da decisão. Para Lynn Malouf, diretora de pesquisa para o Médio Oriente, este é um passo "muito bem-vindo", que se vai traduzir em "maior autonomia e paridade para as mulheres" na Arábia Saudita.

No entanto, há ainda quem critique um suposto desvio aos princípios do Islão ou veja riscos nesta alteração. Numa contraofensiva, os membros ultraconservadores da sociedade saudita partilharam vídeos de sermões de religiosos sauditas pregando o sistema de “guardião masculino”.

As cidadãs sauditas passam também a poder declarar oficialmente nascimentos, casamentos ou divórcios e a terem autoridade parental sobre os seus filhos menores, mudanças que também enfraquecem o sistema de “guardião” obrigatório para as mulheres.

As reformas inserem-se na série de medidas de liberalização tomadas pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que tenta mudar a imagem do reino.

No espaço de um ano, as mulheres sauditas passaram a poder conduzir e a frequentar estádios de futebol, algo que estava apenas reservado aos homens até um passado recente.

Crimes de importunação sexual subiram em 2018, mas pouco se sabe sobre o piropo

in TSF

Passaram quatro anos desde a criminalização do piropo, mas efeitos da medida são praticamente desconhecidos.

Os crimes de importunação sexual aumentaram em 2018, com a abertura de 903 inquéritos e dedução de 122 acusações, mas desconhece-se qual a contribuição estatística do piropo, que passou a ser crime na lei portuguesa em agosto de 2015.

Volvidos quatro anos sobre a criminalização do piropo de cariz sexual como crime pouco se sabe sobre os efeitos da medida, uma vez que a importunação sexual engloba outros ilícitos, como o assédio e os atos exibicionistas.

O próprio Ministério Público (MP), através da Procuradoria-Geral da República (PGR), reconhece que, quanto ao caráter da tipificação, o sistema informático "não permite fornecer dados com a especificidade pretendida", ou seja, sobre o número de queixas e inquéritos instaurados em resultado do piropo de cariz sexual.
O que o MP dispõe são dados disponíveis relativos aos inquéritos instaurados pelo crime de importunação sexual (artigo 170.º do Código Penal), que abrange ainda o assédio e os atos exibicionistas.

Assim, os dados do MP revelam que, em 2018, foram instaurados 903 inquéritos pela eventual prática de crime de importunação sexual e que, no mesmo período, foram deduzidas 122 acusações pelo mesmo tipo de crime.
Estas cifras evidenciam uma subida, uma vez que, em 2017, foram instaurados 870 inquéritos e deduzidas 93 acusações, enquanto em 2016 foram instaurados 733 inquéritos e deduzidas 75 acusações.

Pelos dados percebe-se que os crimes de importunação sexual têm vindo a subir desde 2015, altura em que foram instaurados 659 inquéritos e deduzidas 64 acusações.

O que não se sabe é o peso que o piropo de teor sexual teve eventualmente no crescimento dos crimes de importunação sexual porque não existe um tratamento diferenciado dos dados estatísticos.

Também a PSP não consegue dizer se algumas das queixas recebidas por piropo de cariz sexual chegou ou não a julgamento, conforme admitiu o Comissário André Oliveira Serra, que explicou que, uma vez recebida a participação, a mesma segue para o Ministério Público abrir e dirigir o inquérito/investigação.

O mesmo comissário diz ter conhecimento da apresentação de algumas queixas apresentadas à PSP por pessoas que se sentem ofendidas com piropos impróprios, mas a PSP, à semelhança do MP, não tem dados individualizados desta tipologia de crime a não ser no âmbito do conjunto de crimes de importunação sexual.

André Serra salientou, no entanto, que a PSP realizou já uma campanha de sensibilização junto dos seus agentes no sentido de darem atenção às queixas relacionadas com o piropo, evitando assim qualquer desvalorização da prática daquele crime.

Contactada pela agência Lusa a propósito deste tema, Elisabete Brasil, que pertenceu à associação UMAR/União de Mulheres Alternativa e Resposta, afirmou que "tem havido muito pouca informação" sobre as queixas relativas a piropos de cariz sexual, criticando a falta de interesse do poder político em saber mais sobre este e outros fenómenos criminais previstos na Convenção de Istambul.

Elisabete Brasil notou que se pretendeu cumprir um calendário por causa da Convenção de Istambul, mas que depois não seu o devido valor aos temas aprovados e tudo está um pouco "esquecido".

Ao contrário de muitos outros países europeus, Portugal continua a não dispor de dados precisos sobre cada um dos crimes da Convenção de Istambul, nomeadamente o número de queixas e processos por cada um dos crimes sexuais e o tipo de relação entre agressor e vítima. Este défice estatístico, em sua opinião, estende-se aos crimes de assédio, violação, violência doméstica e casamentos forçados.

Elisabete Brasil alertou ainda para o facto de existirem entidades públicas a fazerem não propriamente um tratamento de dados estatísticos, mas de dados administrativos, os quais são elaborados sem cruzamento de informações e sem o rigor que se exige"Temos dados muito dispersos", comentou ainda.

Quanto ao piropo, Elisabete Brasil diz ter conhecimento pessoal de duas situações: uma delas resultou na apresentação de queixa e noutra, ocorrida o ano passado, a queixa foi arquivada.

No entender daquela responsável, a falta de organizações a atuar no terreno para dar resposta aos crimes sexuais e à violência doméstica, bem como de linhas telefónicas que forneçam informações sobre esses crimes, enfraquece a posição da vítima, embora reconheça que se "avançou" na criação de estruturas para dar resposta ao crime de violação.

"De resto, não há resposta para o assédio e a perseguição", observou.

Violência sexual perpetrada por mulheres: mito ou fenómeno invisível?

Joana Carvalho e Nélio Brazão, in Público on-line

Existe evidência de que homens vítimas de abuso sexual por mulheres tendem a ser descredibilizados quando solicitam apoio e/ou apresentam queixa judicial.

Atualmente, existe um considerável volume de investigação científica que procura compreender o fenómeno da violência sexual no sentido de prevenir e intervir sobre o mesmo. Tem-se procurado compreender o funcionamento psicológico e emocional dos agressores sexuais, mas também as dinâmicas sociais que validam esta forma de violência. No entanto, parece haver uma exceção para a qual a ciência carece de respostas: a violência sexual perpetrada por mulheres.

Acorda, vem ver a Lua: a mensagem de esperança de um fotógrafo para um menino cigano
Em termos sociais, as mulheres são consideradas as figuras cuidadoras/protetoras (logo, incapazes de agredir sexualmente), contrastando com os homens que são vistos recorrentemente como os agressores. Mesmo quando reconhecemos que os homens podem ser vítimas de violência sexual, assumimos que os agressores são também do género masculino. Esta ideia prototípica persiste mesmo após os primeiros casos de violência sexual perpetrada por mulheres contra homens e crianças terem sido descritos na literatura científica na década de 1970. No entanto, estes dados continuam a não ter impacto social ou relevo na comunidade científica.

Apesar de escassa, a investigação tem vindo a demonstrar que as mulheres agressoras sexuais representam um grupo relativamente heterogéneo. Por outras palavras, existem diferentes tipologias de agressoras sexuais em função do seu modus operandi e eventuais características psicológicas e emocionais. Dados do contexto norte-americano apontam para quatro tipologias de agressoras sexuais, nomeadamente: 1) cuidadora, na qual existe uma relação hierárquica ou de poder sobre a vítima; nesta tipologia, é frequente encontrar a progenitora ou a cuidadora que abusa sexualmente de menores; 2) co-agressora, na qual se inclui a mulher que assume um papel passivo, assistindo o marido/companheiro no abuso sexual de menores e/ou de mulheres adultas; 3) adulto-adulto, onde a mulher adulta agride sexualmente o homem também adulto, geralmente quando este está de alguma forma incapacitado (e.g., alcoolizado); e 4) criminal, a mulher que recruta outras mulheres e/ou crianças para fins de prostituição.

É importante referir que estas tipologias apresentam pouca validade, devido ao parco investimento científico nesta área. Este desinvestimento (que também pode ser explicado por eventuais mitos de investigadores), resulta na ausência de enquadramentos conceptuais adequados à compreensão/intervenção neste fenómeno. É também de enfatizar a falta de formação sobre esta temática nos currículos académicos em áreas como a Psicologia, Sociologia, Sexologia, Direito ou Criminologia. Esta ausência de informação/formação tem claras consequências, nomeadamente porque reforça o chamado enviesamento de complacência (i.e., a tendência para culpabilizarmos a vítima e não o agressor). Este enviesamento pode ser mais evidente no caso dos crimes sexuais perpetrados por mulheres, com repercussões para os sistemas judicial e de saúde. Estes sistemas parecem não estar preparados para lidar de forma adequada com estes casos.

Existe evidência de que homens vítimas de abuso sexual por mulheres tendem a ser descredibilizados quando solicitam apoio e/ou apresentam queixa judicial. Ilustramos este ponto com dados de estudos experimentais sobre perceções sociais acerca da violência sexual perpetrada por mulheres. Os participantes foram confrontados com cenários (narrativas) onde era descrito um episódio de coação sexual, variando o género do agressor e da vítima (i.e., num cenário a vítima era do género feminino e o agressor do género masculino e vice-versa). Verificou-se que nos cenários onde o homem era o agressor, o mesmo era conotado como violador/agressor, enquanto a mulher, no mesmo papel, era conotada como promíscua ou como estando apaixonada pelo homem. Ora, parece haver um duplo padrão na forma como julgamos estas situações que, por sua vez, estão alinhadas com estereótipos de género.
Neste sentido, urge compreender os fatores psicossociais que motivam as mulheres agressoras sexuais, mas também as dinâmicas sociais que, por este duplo padrão, fazem desta realidade um mito, legitimando assim as diferentes formas de violência sexual.

- Professora Auxiliar na Universidade Lusófona e Investigadora do Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab, Universidade do Porto). Investigadora Principal do Projeto FEMOFFENCE - The myth of innocence: A mixed methods approach toward the understanding of female sexual offending behavior (PTDC/PSI-GER/28097/2017), financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia


Porquê uma participação criminal por discriminação racial?

Joana Cabral, in Público on-line

A luta contra o racismo é uma luta pela democracia e esta luta não abdica de nenhum meio ao seu dispor.

Assistiu-se a um aceso debate em torno do texto assinado neste jornal por Maria de Fátima Bonifácio (MFB). Uma franca maioria criticou o seu teor racista e xenófobo, mas houve ainda quem acrescentasse um “mas” desavergonhado, para amparar a autora e menosprezar a gravidade das suas ofensas. Na sequência do texto, e por entenderem que existiam nele indícios da prática do crime de discriminação racial, o SOS Racismo e outras individualidades apresentaram queixas junto do Ministério Público. Estas iniciativas não foram bem acolhidas pela esmagadora maioria das pessoas que se pronunciaram publicamente sobre o assunto, o que demonstra à evidência que pouca gente está verdadeiramente empenhada no combate ao racismo, querendo mantê-lo afastado dos tribunais e relegado apenas para o campo da mera troca de ideias e opiniões.

Acorda, vem ver a Lua: a mensagem de esperança de um fotógrafo para um menino cigano
Os principais argumentos que sustentam a crítica à queixa-crime têm sido o de que um “mau argumento” deve ser combatido com um “bom argumento”, e que o que estaria em causa seria o mero exercício da liberdade de expressão de MFB. Invariavelmente, quem invoca tais considerandos nunca releva a dignidade, honra e consideração dos/as africanos/as e ciganos/as atingidos/as com as palavras livremente expressadas por MFB; mas demonstra, sim, alguma ignorância sobre aquilo que constitui a liberdade de expressão. Nos termos do n.º 1 do artigo 37.º da Constituição da República Portuguesa, “Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio […].”. Esta norma não foi violada – efetivamente, MFB teve toda a liberdade para escrever o que quis, não tendo sido censurada. Mas os n.º 3 e o n.º 4 do artigo 37.º da CRP também referem o seguinte: “As infrações cometidas no exercício destes direitos ficam submetidas aos princípios gerais de direito criminal ou do ilícito de mera ordenação social, sendo a sua apreciação respetivamente da competência dos tribunais judiciais ou de entidade administrativa independente, nos termos da lei”, e “A todas as pessoas, singulares ou coletivas, é assegurado, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta e de retificação, bem como o direito a indemnização pelos danos sofridos”.

Em 2017, o artigo 240.º do Código Penal, que prevê e pune o crime de discriminação racial, sofreu uma importante alteração: para que este se considere praticado, deixou de ser necessário que a declaração pública de injúria e difamação seja efetuada com a intenção de incitar à discriminação ou de a encorajar. Basta que alguém, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, venha a difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica.
São estas normas que fundamentaram a queixa apresentada. Observando o texto de MFB, o SOS Racismo entendeu que existiam indícios suficientes da prática do crime – as suas declarações foram públicas e amplamente divulgadas, foram descritos dois grupos de pessoas em função da sua origem étnica ou nacional, cor da pele ou ascendência, e as expressões e conclusões anunciadas serão injuriosas e difamatórias.


Houve ainda quem argumentasse que a queixa não foi conveniente, porque permitiu que a luta política contra o racismo fosse deslocada para o campo judicial e que o debate público se afastasse da questão essencial – a criação de quotas de acesso ao ensino para minorias étnicas. Esta visão oportunista e tacticista merece-nos igual rejeição, quer porque não corresponde à verdade (o debate continuou a ser feito), quer porque assenta no pressuposto de que os direitos dos visados não são suficientemente importantes para serem protegidos pelos tribunais.

O SOS Racismo é uma associação anti-racista. O seu objeto estatutário é combater o racismo. Para tanto, a associação serve-se dos mais variados instrumentos ao seu dispor. Um deles é a possibilidade que lhe foi conferida pela Lei n.º 20/96, de 6 de julho, e cujo n.º 1 do seu artigo único refere o seguinte: “No caso de crimes cuja motivação resulte de atitude discriminatória em razão de raça ou de nacionalidade, designadamente nos crimes previstos nos artigos 132.º, n.º 2, alínea d), 146.º, 239.º e 240.º do Código Penal, podem constituir-se assistentes em processo penal as associações de comunidades de imigrantes, anti-racistas ou defensoras dos direitos humanos, salvo expressa oposição do ofendido, quer este requeira ou não a sua constituição como assistente.”

Quando agressor e vítima se encontram em tribunal: Há muita coisa que não quero contar
Com a queixa apresentada, o SOS Racismo não deixou de diversificar as suas ações e frentes de luta quotidiana e sistémica contra o racismo. Continuamos empenhados na dinamização de debates e formações, na produção de materiais e em todas as atividades de defesa dos mais elementares direitos humanos, incluindo a proposta de recolha de dados étnico-raciais, a alteração da lei da nacionalidade, o combate contra a violência policial, contra a extrema-direita, a reflexão em torno das quotas e de outras medidas de combate à discriminação. Estamos, como sempre estivemos, ao lado de quem sofre diariamente a discriminação racial, que é também inflamada por textos como aquele que motivou a queixa. Para nós, a luta contra o racismo é uma luta pela democracia e esta luta não abdica de nenhum meio ao seu dispor. Dirigentes do SOS Racismo
Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico​

Antifascistas preparam mobilização contra reunião da extrema-direita

Liliana Valente, in Público on-line

Grupo de associações juntou-se para pedir às autoridades que impeçam a reunião de organizações de extrema-direita da próxima semana. Antifascistas pedem a partidos que tomem uma posição.

O local exacto ainda é secreto, tal como o da reunião de grupos de extrema-direita. Para já, está definido que será em Lisboa, no próximo dia 10 de Agosto, que antifascistas se irão juntar numa contramanifestação, protestando contra a conferência nacionalista marcada para o mesmo dia. O objectivo é “a proibição desta conferência e de qualquer evento neonazi no território português”, lê-se numa petição que contava esta sexta-feira com cerca de 900 assinaturas, poucas horas depois de ter sido disponibilizada.

Acorda, vem ver a Lua: a mensagem de esperança de um fotógrafo para um menino cigano
A ideia de uma contramanifestação começou no núcleo de Braga e do Porto da Frente Unitária Antifascista. Este movimento produziu um manifesto que foi assinado por 18 associações nacionais e 21 organizações internacionais. Além disso, foi lançada entretanto uma petição a apelar aos partidos para que não fiquem calados perante o anúncio da reunião de organizações de extrema-direita. O movimento exige saber que “medidas pretendem tomar para que este tipo de acontecimento não se possa reproduzir”, lê-se no manifesto.

Não querem, no entanto, ficar por aqui. “[Queremos] do Governo e dos partidos uma intervenção para que estes grupos sejam ilegalizados, por respeito pela nossa Constituição e pelas nossas leis”, disse ao PÚBLICO um dos organizadores, Jonathan Ferreira da Costa.
O activista conta que o objectivo deste movimento, e da mobilização do dia 10, é a de “sensibilizar e consciencializar o povo português para o perigo que representam os movimentos de extrema-direita, dos quais alguns terroristas, que, actuando de modo mais underground, têm pouca visibilidade e isso dá uma falsa sensação de segurança”, considera.

Em causa está o facto de a tal “conferência nacionalista” contra a qual protestam, organizada pelo movimento de Mário Machado, Nova Ordem Social, contar ainda com elementos de outras organizações “de ideologia fascista e neonazi”, algumas delas sinalizadas, como os “grupos terroristas e neonazis Blood and Honour, Hammerskin ou ainda a Nova Ordem Social”, lê-se na petição.
Um dos convidados da conferência, o britânico Paul Anthony Golding, foi o primeiro condenado num tribunal britânico pelo crime de ódio racial, noticiou o Expresso. Outro dos oradores é um alemão que gravou um vídeo de promoção com a palavra “nazi” atrás e, por fim, é organizada por Mário Machado, condenado por vários crimes, incluindo o seu envolvimento no homicídio de Alcindo Monteiro, e por crimes de discriminação racial. De resto, uma das vezes em que foi preso isso deu-se à entrada para uma conferência desta índole, relembra o jornal.

Uma das associações que se juntaram à mobilização contra a conferência da extrema-direira é a SOS Racismo. “Não podemos ficar de braços cruzados a ver a extrema-direita, movimentos que têm as mãos sujas de sangue, que são violentos, antidemocráticos. É uma afronta à democracia”, diz ao PÚBLICO o dirigente da associação. Mamadou Ba.
“Não podemos, nem iremos aceitar a normalização deste discurso de ódio e dos ataques dos quais estes grupos são autores, permitindo a sua livre actuação e comprometendo assim a segurança dos nossos filhos e filhas, dos nossos amigos e amigas! Não podemos aceitar que tal evento aconteça sem uma reacção da parte de quem esteja pronto a defender a nossa democracia e a liberdade que com ela conquistámos”, lê-se na petição, que já foi entregue aos grupos parlamentares.

O Serviço de Informações de Segurança (SIS) fez saber em resposta à Lusa que está a acompanhar “muito de perto” as movimentações para a conferência nacionalista, o que para estes activistas não chega. Antes que esta iniciativa ocorra, os activistas pedem às autoridades que a impeçam, que não fiquem apenas “muito atentos”.


"Os lares são todos muito maus. Encontrei pobreza que não imaginava"

Céu Neves, in DN

Nasceu há 80 anos num palacete em Vialonga, tem passado os últimos em lares, "numa tournée", ironiza, com horários completamente desfasados do teatro. Fala destes tempos, de uma pobreza que não imaginava, mas também dos tempos do glamour. Tão intensos como as suas paixões.

Nasceu num palacete às portas de Lisboa, vive agora num lar da Santa Casa da Misericórdia em Canha (Montijo). Como é lidar com todas estas mudanças?
Nasci numa família de gente com dinheiro, nunca me faltou nada, tinha tudo, talvez demasiado. Foi uma infância feliz. Apercebo-me agora de que era tudo muito fácil, quando se tem tudo não há a noção do difícil que é ter alguma coisa. Por exemplo, nesta tournée em que tenho andado, tenho visto situações que não imaginava que existissem.
Tournée é um eufemismo.

[Ri-se] Sabe que ainda tenho sentido de humor, se não tivesse sentido de humor não tinha ultrapassado o que já ultrapassei. Se não tivesse sentido de humor, isto não teria graça nenhuma. Tive de vender a minha casa, recebo uma reforma de 600 euros e tenho de viver em lares. Nesta tournée pelos lares que ando a fazer, vejo esta miséria, esta pobreza, gente tão pobre que fico mesmo aflita. Esta miséria, esta pobreza, dá para as pessoas serem extremamente malcriadas. O que gera um péssimo ambiente.

Em quantos lares já esteve?
Alguns [ri-se] e os lares são todos muito maus. Quem inventou os lares inventou-os por boas causas, pensou em criar sítios agradáveis onde pudesse viver quem não tivesse casa, mas, talvez por falta de fundos, tornaram-se todos muito maus. Por exemplo, acabaram com os manicómios e as pessoas com doenças mentais estão todas nos lares, o que é muito incomodativo. Uma pessoa fica magoada com o que aquelas pessoas devem ter sofrido para estar neste estado. Há uma mulher que diz palavrões a toda a hora, uma pessoa acorda com aquela mulher a dizer palavrões e os piores palavrões.

Está num quarto partilhado?
Sim, não há quartos individuais, mas vou para um sítio onde terei um quarto só para mim. É perto da minha filha e do meu neto, que adoro.

Como é que passa o dia? Participa nas atividades?
Passo os dias no computador, no Facebook, vou postando umas coisas que me chateiam. As pessoas aqui não têm atividade, não leem, ou não sabem ler, há pessoas que não sabem escrever o seu nome. Na minha mesa, onde faço o pequeno-almoço, almoço e jantar - vocês não acreditam nisto -, tenho um homem que come com as mãos e, à minha esquerda, havia um homem que deitava sangue pelo nariz. Tudo isto me incomoda, mas não me mudam de lugar.
Tem vários problemas de saúde e está a fazer um ano em agosto que a sua filha expôs no Facebook a sua situação, com uma foto sua de uma grande vulnerabilidade.
Foi por isso que apareceu este lar, mas eu estava no Hospital de Santa Maria, que era onde queria ficar.

Não se zangou? Sabia que ela ia publicar a foto?
Não sabia, mas não me zanguei, é a minha filha. E eu teria feito a mesma coisa, teria ido ter com o filho, que foi o que ela fez, o meu neto tem 7 anos e não pode estar sozinho. Ainda por cima, mora numa aldeia - esta mania das aldeias -, mas ela adora, diz que tem uma floresta. A minha filha é uma mulher da natureza, não é uma mulher como eu, das cidades, com tudo à porta: livros, restaurantes, bares, viagens.
E a sua saúde?
Tive um cancro da mama há 20 anos, que superei, mas ficaram as sequelas, caio com facilidade. Fraturei cinco costelas e tenho outros problemas de saúde, mas sou uma sobrevivente. Um neurologista muito conhecido disse-me uma vez que eu nasci para viver.

Reconhece-se nessa afirmação?
Sim, nada me deita abaixo, não morro por coisa nenhuma. Mas sei que vou morrer e vou morrer agora. Tenho apneia do sono, preciso de dormir com uma máquina de oxigénio, eÉ uma mulher do teatro, da noite. Já se habituou aos horários rígidos de uma instituição?
Que remédio, os horários das refeições são terríveis, deitamo-nos às 19.30 e levantamo-nos às 07.00, e estava habituada a deitar-me às três da manhã. Mas o pior de viver aqui é a falta de dinheiro, do lar propriamente dito e das pessoas. E nunca imaginei que as pessoas vivessem assim, sem dinheiro, sem saber ler.

Uma realidade muito diferente da da Graça Lobo que estudou em colégios da elite?
Sim, mas do que mais gostei foi do St. Julliens, aliás foram os ingleses que me criaram, e vivi em Londres.
Também na Irlanda, num convento em Dublin.
Isso foi quando tinha 15 anos, vivi lá até aos 17. O meu pai mandou-me a mim e às minhas duas irmãs para lá.

Como é que o seu pai se lembrou de um convento?
O meu pai lembrava-se das coisas mais estranhas. A minha mãe tinha ido para Paris tratar de negócios, tinha uma empresa de cosméticos, e nós ficámos entregues às empregadas e ao colégio, na altura estava no Charles Pierre, o que foi ótimo para o meu francês.
Alguma deve ter feito.
Não fiz nada, bem, disseram ao meu pai que eu andava de vespa com rapazes e era verdade. Eu andava de vespa com rapazes e era tudo o que eu fazia com os rapazes. Mas isso era uma coisa impensável para o meu pai. Falou com o padre que me tinha dado a primeira comunhão e mandou-me a mim e às minhas duas irmãs para a Irlanda, para um convento. Ele proibiu-me de telefonar à minha mãe e eu cumpri com a minha palavra - para mim não era aceitável não cumprir. A minha mãe ficou desvairada quando regressou e não nos viu.


Os pais estavam separados?
Sim. Aliás, ele fez montes de coisas sem avisar a mãe, uma mãe que eu adorava, pura e simplesmente, não havia ninguém para mim que se lhe comparasse: em beleza, em ternura, em nada. A última vez que chorei dá-me a ideia que foi quando a minha mãe morreu.

Não é chorona.
Não, não sou, a minha filha é chorona, eu não. Dizem que as pessoas choronas são as mais inteligentes.

Depois do convento, da Irlanda, regressou a Portugal mas não quis ficar.
Ainda aqui estive um ano, mas vim com a ideia de ir para a América do Sul conhecer os índios e, com 19 anos, fui para a Colômbia, para Bogotá, trabalhar na companhia aérea Avianca. Na viagem para Bogotá, fiz escala em Nova Iorque e passei mais tempo em Nova Iorque do que a conhecer os Índios [ri-se]. No fundo, o que eu queria era ir para Nova Iorque.
Naquela altura, sem as facilidades de comunicação de agora, como é que se vai para uma companhia de aviação em Bogotá?
Com cunhas e eu tinha uma grande cunha, mas não estive lá muito tempo. Incendiei um avião [ri-se]. Meti uma coisa a aquecer no forno, adormeci e quando acordei só ouvia: "Fuego, fuego."
Foi despedida?
Não, porque eu era muito educada, muito estimada, fui convidada a sair, a pedir a rescisão do contrato, e eu pedi. Vim para o pé da minha mãe, Lia do Sacramento Monteiro, dar muitos beijinhos. Era uma cabo-verdiana, branquíssima, com olhos verdes e cabelos pretos, belíssima, o Eduardo [Anahory] gostava muito dela, tinha uma pachorra para o aturar enorme. E depois ainda fui para a TAP, como hospedeira de terra.


O que a fez decidir mudar de profissão e ir para o Conservatório?
Conheci um homem lindo, que eu adorei e que me adorou, que era o Maurício Vasconcelos, arquiteto. Apaixonei-me loucamente por ele e ele por mim. Deixou a vida que tinha e veio viver comigo. Ele é que me diz: "Se queres ser atriz, vai para o Conservatório." E havia um homem, o Alexandre Babo [escritor e dramaturgo], que fez o Teatro Experimental do Porto, que disse que eu devia ir para o Conservatório. Fui para o Conservatório por influência destes dois homens e comecei logo a trabalhar [na Casa da Comédia, em 1967, com o espetáculo Noites Brancas, de Dostoiévski.
O Eduardo Anahory era o pai da sua filha e já disse que se arrepende de se ter separado?
Completamente. Era um homem bom, um talento, um homem lindo.
Porque é que se separou?

Porque, no meio de tudo isto, sou muito estúpida, faço as escolhas erradas. Estava no Teatro Experimental de Cascais, com o Carlos Avilez, que era longe de casa, achei melhor separar-me, tinha 33 anos.
Dá grande importância à beleza?
Não, mas o Eduardo era lindo. Depois de me separar dele, apaixonei-me por um homem feio, o Júlio [Pomar]. Foi uma grande, grande paixão, com um homem tão feio, tão feio, mas ele tinha uma magia qualquer. O Dr. Mário Soares disse-me uma vez: "Ó Graça, porque é que mulheres tão bonitas se apaixonam pelo Júlio Pomar, que é tão feio?" Realmente, era feio.

Quando é que conheceu o Júlio Pomar?
Isso foi muito engraçado, só o posso explicar pela existência, ou não, de Deus. Ainda vivia com o Eduardo e ele diz-me: "Logo vem cá o maior pintor português tomar uma bebida, prepara umas coisas", e eu pedi à empregada para preparar umas coisas. O Júlio entrou, sentou-se, não abriu a boca. Levantou-se e à saída deu o cartão dele ao Eduardo. Assim que saí, o Eduardo dá-me esse cartão e eu, imediatamente e sem pensar, guardo-o na carteira. Um ano depois, chateio-me com o Avilez [Carlos] e vou para o Teatro D. Maria II fazer As Criadas, encenada pelo Vítor Garcia, com a Glicínia Quartin e a Lurdes Norberto. Descíamos num baloiço que era manobrado por um contraguerra que estava sempre bêbado.

Que histórias...
Histórias que eu adoro. O contraguerra estava sempre com os copos e conforme ele balançava assim nos balançávamos. Quando o espetáculo acabou, estava estoirada e pensei: "Vou para Paris, fazer compras e vestir-me como deve ser, que não estou nada bem." Em Paris, sentei-me numa esplanada no bairro Saint Michel, aparece-me um maluco, pede para se sentar e tomar um café, toma o café e segue-me até ao hotel. No dia seguinte, estava à porta do hotel, e pensei: "Estou feita, vou ter um maluco atrás de mim todo o dia." Não ia à polícia, porque não tinha ido a Paris para estar numa esquadra, e telefonei ao Júlio, que vivia em Paris (para alguma coisa aquele cartão serviu). Disse-me para ir ter com ele às cinco da tarde e eu fui. Só saí de casa dele dez dias depois, fomos os dois buscar a mala ao hotel.

Uma paixão fulminante.
Foi fantástico, mas nesses dez dias não me tocou, passámos esses dez dias a conversar e ele a olhar para mim, isto em 1973. O primeiro quadro que fez meu foi de 1973.

Ofereceu-lho?
Não, vendeu, ofereceu-me outros. Vendeu todos os quadros que fez de mim, podia ter-me dado uma percentagem, mas não deu, era muito agarrado ao dinheiro.
O contrário da Graça Lobo.
Era o oposto, porque nasceu pobre e as pessoas que nascem pobres são muito agarradas ao dinheiro, os que nascem com dinheiro não. Viemos para Lisboa, eu vim para o apartamento da minha mãe em Miraflores e ele comprou um apartamento ao lado, queria que abrisse uma porta entre as duas casas, não aceitei. A relação acabou, ele é que acabou, depois de eu ter feito quase tudo o que uma mulher faz para acabar uma relação. Estava apaixonada mas a certa altura deixei de pensar que estava apaixonada, esta coisa de estar apaixonada tem muito que ver com o pensar que se está apaixonada.

Foi uma separação amigável?
Não foi muito amigavelmente, só se tornou amigável quando o convidei para fazer os cenários da peça As Cartas Portuguesas, aí foi uma relação de verdadeira amizade. A mulher com quem ele viveu depois era uma amiga minha, fui eu que a apresentei. Era a mulher ideal para ele, o oposto de mim, uma paz. Eu era um desassossego e ele precisava de paz. Depois vivi com o Carlos Quevedo, 13 anos, 13 anos é muito ano. Depois acalmei, acalmei depois de ter um cancro.

'As Cartas Portuguesas', 1980, peça que representou na companhia que fundou um ano antes, o Teatro Experimental de Lisboa.
Referiu a primeira peça que representou no Teatro Nacional D. Maria II, As Criadas, que foi estrear a sala-estúdio. Fez a última peça, As Três (Velhas) Irmãs, no mesmo palco. É o fechar de um ciclo?
Não sei, não sei se essa peça foi a última. Vou fazer uma coisa engraçada com um amigo meu, o poeta Rui de Noronha Osório. Vai lançar um livro de poesia e vou dizer a poesia dele com ele, como fiz com o Mário Cesariny, que editámos em disco e as pessoas acharam uma maravilha.

Atuou no Japão, Brasil, Eslovénia e Estados Unidos, neste último país em São Francisco e em Nova Iorque. Como é que se leva uma peça para a Big Apple?
É outra boa história. Atuei no La MaMa Experimental Theatre, da Ellen Stewart [1980, off-Broadway], que era de uma senhora que procurava êxitos na Europa e os levava para lá. Eu estava a fazer As Cartas Portuguesas no Teatro Experimental de Lisboa [companhia que fundou em 1979] e disse: "Vou pegar neste espetáculo e levá-lo a Nova Iorque." Enfiei-me no avião e pedi à senhora que marcasse uma entrevista, ela marcou e saí de lá com um contrato. Foi muito engraçado porque o Vítor Pavão, que tinha uma grande intuição, tinha dito: "És doida, mas nunca, por nunca ser, esta mulher te vai dar um contrato." Quando acabou a entrevista, peguei no contrato, fui ter com ele, levantei o braço e disse: "Está aqui!"
Conseguia sempre o que queria?
Não, porque o que eu queria era ter uma companhia estável. Fundei o Teatro Experimental de Lisboa porque não me identificava com o teatro que aqui se fazia. Isso não consegui, não havia dinheiro.
Geria bem o dinheiro?
Era muito boa a gerir o dinheiro no teatro e era muito má a gerir o dinheiro na minha vida, por isso é que estou aqui.

A atriz em 1996.
Quando é que ficou sem esse dinheiro?
Em 1994 roubaram a firma que era da minha mãe, basta isso. Vivo com muito menos dinheiro do que já vivi, mas, para quem teve dinheiro, o viver com menos é quase natural, é como se o dinheiro encolhesse, não consigo explicar.