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19.4.22

A resposta do Orçamento do Estado à escalada dos preços

Miguel Prado, in Semanário Expresso

Entre reduções no ISP, subsídios à fatura com o gás, apoios na eletricidade e medidas para setores específicos, como a agricultura e as empresas de transportes, o OE2022 contempla várias iniciativas para lidar com a inflação

Inflação. A palavra surge por 14 vezes no relatório da proposta de Orçamento do Estado para 2022, o que nem sequer é muito, se notarmos que o documento, com mais de 400 páginas, tem outras expressões bem mais frequentes. "Resiliência" regista 181 ocorrências, "dívida" aparece 214 vezes e "défice" surge 41 vezes. Ainda assim, a pressão da escalada dos preços merece, na proposta orçamental, um conjunto de medidas, que confirmam, na sua maior parte, as iniciativas já anunciadas, nos últimos dias, pelo primeiro-ministro, António Costa.

O relatório do Orçamento do Estado para 2022 (OE2022) sublinha que "para mitigar o impacto da inflação na economia e proteger o poder de compra das famílias e as condições de produção das empresas o Governo anunciou um conjunto de medidas extraordinárias".

Entre elas estão as medidas que visam conter o aumento dos preços da energia, como a redução do ISP que incide sobre os combustíveis rodoviários equivalente a uma redução da taxa de IVA de 23% para 13%, os subsídios para as empresas intensivas no uso de gás natural, linhas de crédito que ascendem a 459 milhões de euros, e apoios para as famílias, em particular as mais vulneráveis, através de diversos subsídios que visam mitigar o aumento do preço das botijas de gás e dos bens alimentares.

Em termos de inflação, o OE2022 projeta uma aceleração do índice de preços no consumidor (IPC), que deve crescer 3,7% este ano, bem acima dos 1,3% de 2021, enquanto o índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC) deve disparar de 0,9% em 2021 para 4% em 2022.

A apresentação do Governo sublinha que quer o Banco de Portugal quer o Banco Central Europeu apontam a inflação elevada como "um fenómeno temporário". Ainda assim, pelo menos neste arranque do ano, a fatura das famílias, seja com combustíveis, seja com produtos alimentares, seja com outras rubricas de despesa, está a aumentar. E a das empresas também. Com o que podem então contar famílias e empresas para mitigar os aumentos de custos?

REDUÇÃO DO ISP EQUIVALENTE A CORTE NO IVA

O Governo prevê em maio e junho ter o ISP da gasolina e gasóleo reduzido num montante equivalente ao benefício de uma descida do IVA de 23% para 13%. A medida, que beneficia famílias e empresas, tem um custo estimado de 170 milhões de euros. O Orçamento é omisso quanto ao que sucederá depois de junho.

DEVOLUÇÃO DE RECEITA ADICIONAL DE IVA VIA ISP

Ainda em maio e junho o Governo prevê manter uma redução de 5,8 cêntimos por litro de gasóleo e 4,6 cêntimos por litro de gasolina no ISP, redução essa que visa compensar o acréscimo de receita de IVA que o Estado arrecadou devido à escalada das cotações dos produtos petrolíferos. Este benefício, ao acesso de famílias e empresas, está orçado em 117 milhões de euros.

SUSPENSÃO DA TAXA DE CARBONO

A taxa de carbono aplicável aos combustíveis rodoviários é atualizada todos os anos em janeiro, mas este ano o Governo adiou essa atualização e no OE2022 assume que o congelamento da taxa de carbono irá perdurar até dezembro deste ano, o que permite aos consumidores evitar um agravamento de 5 cêntimos por litro. A medida está avaliada pelo Governo em 360 milhões de euros.


17.11.21

Os culpados do salário mínimo

Manuel Carvalho, in Público on-line

Desde a criação do euro, Portugal geriu a conjuntura. Fez pouco ou nada para sair da armadilha do rendimento medíocre.

A pobreza do salário mínimo ou a indigência do salário médio geram hoje um dos mais importantes debates sobre o país. Como tem acontecido regularmente, os valores baixos dos salários servem para se denunciar as precárias condições de vida de milhões de portugueses, criticar as políticas públicas e julgar as relações de força entre trabalho e capital. Nesta discussão, não se encara com o mesmo vigor as causas profundas deste quadro de pobreza: uma economia amarrada ao passado, que já não retrata a dinâmica ou a qualificação da sociedade portuguesa. Fala-se mais do sintoma do que da causa profunda da doença.

De pouco vale persistir em acusações maniqueístas que tanto passam culpas para os patrões e o capitalismo, como para os trabalhadores e o Estado sobre as causas que condenam um quarto dos trabalhadores portugueses a sobreviver com o salário mínimo. O problema existe porque Portugal se viciou há décadas em discutir muito a redistribuição e pouco a criação de riqueza. Até à troika, o rentismo e os sectores protegidos da concorrência internacional serviram de cortina para iludir o problema. Depois da troika, veio a ilusão de que bastava decretar o fim da austeridade para que a riqueza abundasse. Desde a criação do euro, Portugal geriu a conjuntura. Fez pouco ou nada para sair da armadilha do rendimento medíocre.

O debate em torno dos salários baixos é, por isso, inultrapassável, mas só será útil se der origem a um maior equilíbrio entre o indispensável discurso social e o obrigatório incentivo à actividade económica. Durante os anos da “geringonça”​, fez-se um e esqueceu-se o outro – era impossível querer mais quando os orçamentos dependiam de dois partidos hostis à iniciativa privada. Com mais ou menos apoio público, boa regulação, acertos fiscais, estímulos a jovens e à inovação, haverá escolhas na esquerda ou na direita moderadas para definir um rumo. O salário mínimo deve aumentar, tem de aumentar, mas era bom que aumentasse porque o país enriqueceu e não porque o Governo quer.

O valor deste debate está por isso na sua própria existência. As prioridades políticas do próximo Governo têm de considerar a economia como factor crítico do progresso social. Com mais tempero à esquerda ou à direita, mais ou menos liberalismo ou intervenção pública, tudo é possível. O que não é possível é continuar a lamentar a pobreza que persiste junto de quem trabalha, como nos mostrou a reportagem da jornalista Natália Faria deste domingo, e acreditar que o problema está na gula dos patrões e a solução na sensibilidade do Estado. Não está. O problema está num modelo económico que 

22.2.21

Pandemia trouxe a menor taxa de execução do OE em dez anos

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Governo explica taxa de execução da despesa pública mais baixa do que o normal em ano de pandemia com a quebra das receitas próprias dos organismos públicos e a consequente diminuição da despesa que podem realizar.

A taxa de execução da despesa pública inscrita no orçamento suplementar de 2020 apresentado pelo Governo em Junho é a mais baixa dos últimos dez anos. Um resultado que ocorre num momento de crise económica profunda e que o Governo diz que acontece por causa da quebra extraordinária que a pandemia provocou nas despesas financiadas com as receitas próprias dos organismos da Administração Pública.

A discussão sobre a execução do OE em 2020 tem estado acesa nas últimas semanas, com o Governo a ser acusado de estar a poupar nas despesas numa altura em que o apoio do Estado às empresas e às famílias se revela mais importante do que nunca. Em particular, o Executivo é criticado por não ter realizado todas as despesas que tinha sido autorizado a fazer pelo Parlamento.

João Leão tem respondido a essas críticas afirmando que os dados até agora divulgados da execução orçamental estão em contabilidade pública e que, nessa óptica, aquilo que está inscrito no OE não é uma estimativa, mas apenas um tecto de despesa. E que, por isso, afirma o ministro das Finanças, o normal é a execução ficar abaixo do orçamentado, algo que acontece em todos os orçamentos, sejam do Estado ou de autarquias.

Uma análise do PÚBLICO às taxas de execução dos orçamentos do Estado da última década confirma que, como diz João Leão, em todos os anos o nível da despesa pública executada ficou abaixo daquilo que tinha sido autorizado pelo Parlamento, com diferenças na ordem dos milhares de milhões de euros. No entanto, também é claramente visível que o ano de 2020 foi aquele em que esta diferença atingiu uma dimensão mais significativa.

Entre 2011 e 2019, usando os valores inscritos em cada OE em contabilidade pública e comparando-os com a despesa registada nos boletins de execução orçamental publicados em Janeiro pela Direcção Geral do Orçamento (DGO), a taxa de execução dos últimos orçamentos ficou invariavelmente entre os 96% e os 98%. Isto é, as Administrações Públicas – que incluem para além da Administração Central, também as autarquias, os governos regionais e os serviços e fundos autónomos – realizaram um total de despesa que ficou entre 2% e 4% abaixo do montante autorizado nos OE.

Em 2020, considerando o OE suplementar publicado em Junho, a taxa de execução da despesa foi consideravelmente mais baixa, de 93,2%. No OE suplementar estava inscrita uma despesa total de 101.302,6 milhões de euros, mas, de acordo com o boletim da DGO publicado em Janeiro, foi executada uma despesa de 94.436,6 milhões de euros, ou seja, menos 6866 milhões de euros.



Para que se tivesse registado uma taxa de execução mais próxima das dos outros anos da última década, de 96%, por exemplo, teria sido preciso executar mais 2800 milhões de euros de despesa.

O Ministério das Finanças, em resposta às questões colocadas pelo PÚBLICO, explica que esta menor taxa de execução orçamental durante o ano de 2020 se deve, não a uma tentativa de conter a despesa num ano em que o défice disparou, mas ao facto de, do lado da receita, se terem registado este ano alguns resultados extraordinários relacionados com a pandemia que acabaram por ter influência também na execução da despesa.

Em particular, as Finanças dizem que, se ao nível da receita de impostos da Administração Central, a execução até ficou acima do orçamentado, no que diz respeito às receitas próprias e aos fundos europeus, a taxa de execução foi de apenas 89%. As receitas próprias são receitas que diversos organismos públicos têm, como por exemplo as custas nos tribunais ou as taxas de reguladores, e sem as quais não podem realizar parte da despesa prevista no seu orçamento.

O Governo argumenta que este tipo de receita ressentiu-se com a pandemia e que “cerca de 76,2% do desvio registado na execução da despesa da Administração Central encontra explicação no resultado da receita própria e da receita de fundos europeus, ou seja, 4200 milhões do total de 5500 milhões de euros”. “Se corrigirmos deste último efeito, a taxa de execução teria sido de 97,5%, em linha com os anos anteriores”, garantem as Finanças.
Para além dos tectos

Para além dos tectos de despesa aprovados pelo Parlamento, em contabilidade pública, os Governo apresentam nos orçamentos do Estado as suas estimativas de quanto é que realmente prevêem gastar durante o ano. Neste caso, contudo, a informação relativa à execução apenas é apresentada em contabilidade nacional, e esta informação ainda não está disponível (apenas será divulgada pelo INE no final de Março).

Contudo, quando apresentou o OE para 2021 em Outubro, o Governo também apresentou, para o ano de 2020, uma estimativa de despesa em contabilidade pública. Neste caso, não se está a falar de tectos de despesa mas da previsão do Governo que era, a apenas três meses do final do ano, de uma despesa total das Administrações Públicas de 96.586 milhões de euros. Isto é, mesmo assim, a despesa acabou por ficar 2149 milhões de euros abaixo daquilo que estava a ser previsto em Outubro, um número que dá argumentos aos que defendem que o Governo poderia ter ido mais longe nos apoios orçamentais dados durante a crise.

Em favor do Governo está o facto de o ano passado ter sido, a vários níveis, de constante incerteza, por causa da pandemia. E um dos factores de incerteza esteve precisamente na forma como seriam executadas as medidas criadas para enfrentar a crise económica provocada pela covid-19.

Esta sexta-feira, na sua análise aos dados da execução orçamental, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) da Assembleia da República fez uma comparação entre as previsões de despesa que o Governo apresentou no Programa de Estabilidade e no OE suplementar para as medidas anti-covid e a forma como essas medidas foram executadas. Não chegou a uma conclusão para o valor global (em muitas das medidas, as previsões ou não foram divulgadas ou eram de despesa mensal), mas assinala que, por um lado, se verificou “uma sobreestimação considerável nas medidas covid-19 anunciadas no Programa de Estabilidade de 2020”, e por outro, que no OE suplementar “encontra-se uma heterogeneidade considerável na magnitude dos desvios nas medidas para as quais havia esta previsão”.

Há medidas que tiveram uma execução próxima da previsão, como a do layoff simplificado, houve outras cuja despesa superou as expectativas, como o subsídio de doença por infecção através do coronavírus e o apoio ao teletrabalho. Mas houve outras, como as da protecção aos trabalhadores independentes e informais, do Rendimento Social de Inserção COVID-19 ou do apoio à retoma progressiva, cuja execução orçamental ficou claramente abaixo do estimado.

No relatório, a UTAO fala ainda daquilo que diz ser “o alargamento dos desvios entre execução e previsão verificado neste ano, por comparação com os que existiram no passado”, reconhecendo que “uma parte dos erros de previsão em 2020 tem explicação na pandemia e, portanto, tem justificação na incerteza associada à mesma”. Ainda assim, avisa, este desvio "deve servir como alerta para a necessidade de reconstrução do pensamento e da acção estratégicos nos serviços públicos”.


8.10.20

Aumento extra de dez euros nas pensões dado como certo à esquerda

Marta Moitinho Oliveira, in Público on-line

O Governo adiantou que haverá aumento extra nas pensões a partir de Agosto, mas não adiantou os valores em cima da mesa. Nas negociações para o Orçamento de 2021 é assumido como fechado o aumento de dez euros como em anos anteriores.

Duarte Cordeiro anunciou na semana passada que em 2021 haverá um aumento extraordinário das pensões a partir de Agosto, mas não disse de que subida estava a falar. O PÚBLICO apurou que, no âmbito das negociações à esquerda do Orçamento do Estado (OE) para o próximo ano, o aumento de dez euros é dado como fechado, seguindo o modelo dos anos anteriores.

“Já se tinha chegado aos dez euros em Agosto”, disse ao PÚBLICO um dos elementos presentes nas negociações do lado dos partidos à esquerda. Ao contrário do que aconteceu em alguns dos Orçamentos anteriores, desta vez a questão do aumento extra das pensões não tem sido uma medida-chave no debate político. Ainda assim, na sexta-feira passada, quando fez um ponto de situação do processo negocial, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares ​avançou com a garantia de incluir no OE um aumento extra a ser pago a partir de Agosto.

O pacote anunciado, e que incluía a disponibilidade para o aumento extraordinário de pensões, trouxe à memória os dez euros dos anos anteriores, mas o governante não anunciou o valor exacto do aumento. Ainda assim, nos bastidores das negociações não há dúvidas sobre o montante de dez euros. Esse foi, aliás, o único cenário pensado, com o mês de entrada em vigor a servir de variável de ajustamento para conter o impacto orçamental da medida.

No Orçamento de 2020, em vigor, foi aprovado um aumento extra de dez euros para pensionistas com um valor global de pensões até 1,5 vezes o Indexante de Apoios Sociais (IAS), ou seja, até cerca de 658 euros. É ainda pago um aumento de seis euros aos pensionistas com pelo menos uma pensão cujo montante fixado tenha sido actualizado entre 2011 e 2015.

O aumento extra das pensões serve para garantir uma espécie de complemento que acresce à actualização de Janeiro que decorre da aplicação da lei, assegurando os dez e os seis euros, conforme os casos.

O adiamento do pagamento da subida extra das pensões para Agosto permite aliviar a factura para as contas públicas, já que os actuais números da inflação — indicador que serve de base à actualização anual — apontam para valores negativos, o que aumenta o esforço orçamental da subida extraordinária. No OE 2020, o aumento extra começou a ser pago a partir de Maio.

O Orçamento será entregue pelo Governo no Parlamento a 12 de Outubro e votado na generalidade a 28 de Outubro. A votação final global está marcada para 27 de Novembro.

21.1.20

Governo quer criar condições “para que os jovens tenham capacidade de ter filhos mais cedo”

Natália Faria, in Público on-line

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, diz que o Governo tem 1524 milhões de euros destinados a apoiar a natalidade. Garantindo que o cheque para ajudar a pagar a creche vai chegar às famílias no último trimestre de 2020, avança que as baixas para assistência a filho, em caso de doença ou acidente, passarão a ser pagas a 100%.

As baixas para assistência a filho em caso de doença ou acidente vão passar a ser pagas a 100%, quando entrar em vigor o novo Orçamento de Estado. E, a partir do último trimestre de 2020, todas as famílias com um segundo ou mais filhos até aos três anos de idade vão ter direito a um cheque para ajudar a custear a factura da creche.

Os gritos de “mentira” de Joacine: “Senti a vergonha alheia”
O montante ainda está por definir, mas a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, assegura que todas as famílias terão direito, independentemente dos rendimentos. Passando em revista as medidas previstas para apoiar a natalidade e a parentalidade, a governante adianta que o país deverá ver criados 4500 novos lugares em creche, nomeadamente no Porto, Lisboa e Setúbal.

No somatório das medidas de apoio à natalidade, que aposta na capacitação dos jovens para terem filhos, nomeadamente com a isenção fiscal parcial de 30% no primeiro ano de entrada no mercado laboral, o Governo propõe-se investir 1524 milhões de euros.

Quando e em que moldes vai funcionar o complemento-creche previsto na proposta de Orçamento de Estado para 2020, cuja dotação ascende aos 30 milhões de euros?
Estamos neste momento a preparar a regulamentação para o complemento-creche. O objectivo é que entre em vigor já no ano lectivo 2020-2021, portanto, no último trimestre de 2020, e o princípio é criar uma prestação universal para todas as famílias, independentemente do rendimento. Neste momento, ainda não conseguimos avançar um valor em concreto do montante a atribuir a cada família, porque estamos a desenhar o modelo. Mas será um complemento destinado a todos os segundos e mais filhos que as famílias poderão utilizar em qualquer estabelecimento creche.

Quem tenha um primeiro filho não terá direito a este complemento?
É para segundos filhos e mais. Será uma prestação pecuniária que o Governo atribuirá aos pais por cada criança, a partir do segundo filho, que esteja a frequentar uma creche.
É possível ter já uma ideia, ainda que aproximada, do valor?
Não conseguimos determinar ainda os valores. É esse exercício que estamos a fazer neste momento, sendo que há uma dotação já prevista, com base em algumas simulações, mas os valores exactos não é possível ainda adiantar.

Sem estabilidade laboral vai ser difícil pôr portugueses a ter mais filhos
E isto será atribuído a pais de dois ou mais filhos em idade de frequentar uma creche, independentemente de a frequentarem ou não?
Não. O objectivo é que seja para todas as crianças que frequentem creches. O direito a este complemento suporá que os pais utilizem a creche, pública ou privada.

Que outras medidas se prevêem nesta lógica de apoio à natalidade?
Se compararmos com 2014, os últimos indicadores da natalidade apontam para um aumento de 4264 crianças, o que mostra também uma recuperação da capacidade de os jovens terem filhos. Uma das nossas preocupações, dentro do desafio demográfico que assumimos no programa de Governo, é criarmos as condições para que os jovens se autonomizem e tenham capacidade de ter filhos mais cedo, o que implica valorizar e aumentar os seus rendimentos.
E, além destes instrumentos, vamos apostar nos apoios sociais directos à natalidade e à parentalidade. Aliás, na proposta de Orçamento de Estado para 2020 temos previstos 1524 milhões de euros nestas medidas de apoio à natalidade e à parentalidade.

Em 2015, para as mesmas medidas, tínhamos mil milhões de euros. São mais 500 milhões de euros para os instrumentos de apoio à natalidade, concretamente para as licenças de parentalidade e para o abono de família, com a concretização plena do quarto escalão e o alargamento da abrangência das crianças dos 12 para os 36 meses. Isto reflecte um impacto financeiro de 37 milhões de euros a mais, ou seja, de acréscimo. Quanto às licenças, teremos o alargamento da licença obrigatória por parte do pai a seguir ao nascimento que passa para 20 dias úteis.

É nos distritos com mais crianças que a cobertura de creches é menor
Estas medidas deverão vigorar a partir de quando?
A partir da entrada em vigor do Orçamento do Estado. O mesmo se poderá dizer do aumento da licença para assistência a filhos com deficiência ou doença crónica, que passa a ser estendida às doenças oncológicas e que passa a ser prorrogável até ao limite máximo de seis anos, com direito a um subsídio igual a 65% da remuneração de referência do beneficiário.

Somados, o aumento da licença obrigatória do pai para 20 dias úteis e o aumento do subsídio por riscos específicos e de acompanhamento a filhos, representam um acréscimo de 69 milhões de euros face a 2019. O que significa se comparar com 2015 um aumento de 54%. Por outro lado, o subsídio nas faltas para assistência a filho, em caso de doença ou acidente, passa de 65% para 100% da remuneração de referência.
E vamos ter o aumento da dedução à colecta dos filhos a partir do segundo filho que é também uma medida fiscal. Basicamente, o que estamos a procurar é ter medidas integradas e articuladas que garantam respostas aos diferentes níveis de rendimento das famílias.

Parece haver aqui uma clara aposta no segundo filho ou subsequentes.

No fundo, o que queremos é um aumento do número de filhos por família. E depois também que os jovens atinjam a sua autonomização e independência e a capacidade de terem filhos que é o que se procura com esta aposta na valorização dos rendimentos dos jovens, quer através da isenção parcial fiscal de 30% no primeiro ano de entrada no mercado laboral quer através de medidas combinadas, nomeadamente aquelas que estamos a negociar em sede de concertação social.

Isto para responder aos dois principais problemas da demografia portuguesa: por um lado, o adiamento da idade em que se tem o primeiro filho, e, por outro, as dificuldades de transição para o segundo ou mais filhos?
O principal objectivo é, por um lado, garantir condições que tornem o país atractivo para os jovens, porque é fundamental termos jovens para que a natalidade aumente, e, por outro, dar-lhes mais capacidade para terem filhos. Isto sem esquecer o reforço dos apoios sociais às famílias e das condições de exercício dos direitos de acompanhamento dos filhos por parte dos pais. Insere-se nesta preocupação a medida do alargamento da licença obrigatória do pai para 20 dias úteis.

Os diferentes estudos insistem na ideia de que o mercado de trabalho português continua muito hostil relativamente a esta necessidade de conciliação da vida familiar com os encargos profissionais.
O “Programa 3 em linha” [lançado no final de 2018 e que prevê 33 medidas para a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar] já veio na sequência desta identificação da necessidade de nos mobilizarmos para garantir uma melhor conciliação, nomeadamente com o referido reforço da licença obrigatória do pai e, por exemplo, com a possibilidade de os pais terem uma dispensa de três horas no primeiro dia de aulas dos filhos.
A par disto, estamos a negociar com os parceiros sociais, em sede de concertação social, a implementação de medidas que procuram que essa conciliação seja cada vez mais eficaz. E continuamos a trabalhar na promoção da igualdade de género no mercado de trabalho, através de mecanismos de monitorização e garantindo a existência de indicadores que vão ser públicos para que as empresas consigam elas próprias avaliar o equilíbrio da presença de homens e mulheres no mercado de trabalho, nomeadamente quanto aos salários.

Os imigrantes também hão-de ter um papel importante no tocante à natalidade.

O terceiro nível de actuação relativamente ao desafio demográfico incide precisamente na preocupação em criar condições para atrairmos estrangeiros para Portugal, nesta lógica de país aberto que acolhe estrangeiros. E, neste momento, posso-lhe adiantar que, menos de um mês depois do lançamento do programa destinado a simplificar a vida aos estrangeiros que queiram trabalhar e viver em Portugal, já temos mais de dez mil números de Segurança Social atribuídos na hora.

É uma coisa extraordinária que mostra que estamos a criar formas de simplificação da vida dos estrangeiros, dentro dessa preocupação com o saldo migratório e da procura de termos pessoas em idade activa em Portugal.
E em relação aos equipamentos sociais, nomeadamente ao prometido reforço do número de lugares nas creches?
Eles são fundamentais para permitir esta conciliação entre a vida pessoal e familiar e a vida profissional e, em 2020, prevemos um orçamento dedicado à Segurança Social superior a dois mil milhões de euros, o que inclui o alargamento da rede de equipamentos sociais de apoio às famílias.

Quanto às creches, no âmbito do aviso de abertura de candidaturas ao PARES [Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais], que termina no final deste mês, e que foi lançado para responder àqueles concelhos que tinham uma taxa de cobertura inferior a 33%, como Lisboa, Porto e Setúbal, entre outros, já temos 87 candidaturas com uma previsão de 4500 novos lugares de creche. E estamos ainda a receber candidaturas.

Além disso, prevemos no Orçamento para 2020 abrir ainda mais “avisos” para alargar os lugares de creche em todo o país, a par dos equipamentos de resposta a pessoas idosas e com deficiência.

9.12.19

“As pessoas vão ter uma quebra abrupta nos seus rendimentos, mas não sabem disso”

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Miguel Coelho, economista e especialista em Segurança Social, defende que é preciso caminhar o mais rapidamente possível para um consenso, primeiro técnico e depois político, relativamente ao sistema de Segurança Social português.

O economista Miguel Coelho lançou o seu segundo livro sobre o tema da protecção social em Portugal, intitulado Segurança Social - Passado, Presente e Futuro, onde alerta que a sustentabilidade do sistema está posta em causa. Isto tem, afirma em entrevista ao PÚBLICO, implicações graves imediatas, já que “não se consegue convencer as gerações actuais a contribuírem quando a expectativa que elas têm é que no futuro não vão ter nada em troca”. Defende por isso um novo modelo, semelhante ao adoptado na Suécia, onde o valor da pensão é definido pelas contribuições feitas e capitalizadas virtualmente ao longo do tempo. Assim, diz, não só a sustentabilidade é maior, como as eventuais reduções dos rendimentos dos futuros pensionistas são apresentadas com maior transparência. Em relação à resposta defendida pelo governo de diversificação das fontes de financiamento, defende que “é uma forma de curto prazo de tentar resolver o problema” e que uma das coisas que faz é “desvirtuar o sistema”.

Porque decidiu escrever um novo livro sobre Segurança Social agora? É porque vê um ambiente favorável à realização da reforma que defende no sistema?
O primeiro livro que tinha escrito surgiu no contexto de intervenção da troika, era de certa forma um alerta para a situação do sistema. Hoje em dia vivemos uma aparente acalmia nas preocupações em relação ao sistema e, nesse sentido, pode haver aqui uma oportunidade.

As reformas, em particular na Segurança Social, não apareceram noutros países, como por exemplo a Suécia, em tempos de acalmia, foi mais nos momentos em que o sentimento de emergência se tornou demasiado forte...
Mas esse sentimento de emergência em Portugal conduziu a alguns cortes paramétricos e não a uma verdadeira reforma. Na Suécia, a reforma foi consensualizada entre muitos intervenientes, entre os partidos e com uma base técnica muito sólida e estudos muito profundos. Já aqui em Portugal parece que nunca há condições para realizar reformas. Desde o livro branco que não se faz uma análise global do sistema com profundidade, para que a partir dessa análise se implementem um conjunto de reformas.

Em Portugal parece que nunca há condições para realizar reformas. Desde o livro branco que não se faz uma análise global do sistema com profundidade

Em termos técnicos, entre os economistas que estudam estas matérias em Portugal, há consensos?
O que tem havido muitas vezes é que estamos a olhar simplesmente para o sistema de pensões e em particular de pensões de velhice. É esse o foco da generalidade das preocupações. Há muita discussão sobre o sistema de pensões de velhice, mas há pouca discussão sobre o sistema de segurança social como um todo, enquanto instrumento de protecção social. O sistema de Segurança Social cobre muitos riscos: de desemprego, de invalidez, de morte, de entrarmos numa situação de carência ou pobreza. É uma cobertura muito mais vasta do que aquela que nós discutimos diariamente, que é a das pensões de velhice. Estou totalmente convencido que todos concordamos que o Estado tem que ter um papel relevante na coordenação e no financiamento do sistema. Isto parece-me inequívoco. Relativamente ao sistema de pensões, eu diria que há aí mais divergências.

E é possível resolvê-las?
Em primeiro lugar, devemos olhar para as questões conceptuais do sistema. Um sistema de pensões de velhice tem três eixos para poderem ser configurados. Primeiro, o sistema pode ser de repartição ou de capitalização. Segundo, o sistema pode ser de contribuição definida ou de benefício definido. E terceiro, o sistema pode ter um benefício calculado com uma regra relativamente arbitrária ou com base em fundamentos actuariais. São estas três dimensões que nos permitem configurar um sistema. O sistema português é de repartição, um sistema em que o benefício está definido e em que esse benefício não foi calculado de acordo com regras actuariais. A única componente actuarial que ele incorpora é o denominado factor de sustentabilidade. Temos que perceber que este modelo que temos surgiu num contexto histórico muito específico. A passagem de um sistema de capitalização como foi iniciado nos anos 30 para esta ideia de repartição ocorre nos anos 60. E porquê? Por causa do “baby boom”, pelo surgimento de uma pirâmide etária muito favorável a esta ideia de repartição.

A pirâmide agora está a mudar...
Esse é que é o problema. Neste momento temos uma configuração que não favorece nada a sustentabilidade intertemporal do sistema. E por isso, sou defensor, no que respeita a esta componente das pensões de velhice, de caminharmos para uma solução mais próxima daquela que é a solução sueca. É um modelo que continua a ser de repartição, mas em que as contribuições capitalizam de uma forma virtual e, depois, na data em que a pessoa quer entrar na reforma, é convertida com uma renda vitalícia de acordo com pressupostos actuariais.
É preciso que a pensão seja adequada ao esforço contributivo realizado

Não chega mudar a fórmula de cálculo da pensão?
A fórmula de cálculo da pensão tem que estar muito mais alinhada com as contribuições que a pessoa realizou. Actualmente, uma pessoa só tem benefício se contribuiu e esta ligação parece-me inquestionável, mas temos de ir mais além. É preciso que a pensão seja adequada ao esforço contributivo realizado. E, portanto, não podemos ter uma fórmula relativamente arbitrária de cálculo. A actual fórmula não tem em conta a capitalização das contribuições efectuadas e até o crescimento económico que pode ser incorporado nesse processo de capitalização. Isto não significa que o Estado abandone as pessoas que, depois de calculada essa pensão, se vêem numa situação em que a pensão que vão obter não é adequada e não serve para responder às suas necessidades. Mas se digo que o Estado deve ter um papel importante, não estou a dizer que deve ser exclusivo.

Temos de poupar, é isso?
Cabe a cada um de nós um esforço no sentido de assegurarmos ao longo da nossa vida activa uma poupança suficiente para depois na velhice reduzirmos os riscos de entrarmos numa situação mais complicada. E o sistema sueco permite que, em cada momento, as pessoas saibam quanto é que poderão vir a receber na altura da reforma e, assim, tenham também uma ideia daquilo que terá de ser o meu esforço de poupança adicional. Isso é essencial para, no futuro, limitarmos a necessidade de transferências do Estado. Agora é preciso que tenhamos um sistema que nos diz exactamente o que nos espera e não o que temos agora em que aparentemente nos diz o que nos espera, mas se for preciso daqui 30 ou 40 anos corta abruptamente o valor das pensões.
As pessoas deviam saber que, com o actual sistema, em 2060 a pensão média será cerca de 30% a 40% do salário médio

As pessoas deviam saber que, com o actual sistema, em 2060 a pensão média será cerca de 30% a 40% do salário médio. As pessoas vão ter uma quebra abrupta do valor dos seus rendimentos mas não sabem disso. E deveriam saber.
O actual Governo defende que aquilo que é preciso ser feito é reforçar as fontes de financiamento do sistema, por exemplo, com as empresas a contribuírem com uma percentagem do seu valor acrescentado líquido. Isso não chegaria?
A diversificação das fontes de financiamento é uma forma de curto prazo de tentar resolver o problema. Eu não ponho em causa que possamos pensar noutras formas de financiamento, mas em certa medida vamos estar a desvirtuar o sistema. Se queremos manter esta lógica de relação entre contribuições do trabalho e prestações sociais, como temos no actual sistema, então temos de o reconfigurar. Eu até admito que, dentro de 30 ou 40 anos, podemos ter uma transformação de tal ordem no mercado de trabalho que deixe de permitir alimentar um sistema de protecção social como hoje o conhecemos, levando-nos a conceitos como o de rendimento básico incondicional. Mas aí estamos a falar de outra coisa, estamos a falar do Orçamento do Estado a assegurar um sistema de protecção social.

A reconfiguração de que fala não significa também uma redução das pensões?
Não gosto que se coloque a questão entre mais pensões ou menos pensões. No final do dia, as pensões resultam das contribuições e o que não chega resulta de transferências do OE. O que defendo é uma reconfiguração que permita tornar mais clara a relação entre contribuições e pensões. E as pessoas receberão uma pensão que é efectivamente função da sua contribuição.
Uma pensão mais baixa.
Em alguns casos será inferior àquela que teríamos se as regras actuais se aplicassem. É verdade que muitas pensões poderiam descer de valor, mas isso permitiria também libertar recursos para responder de forma mais eficaz às situações que são responsabilidade do Estado e que implicam redistribuição. Globalmente, eu não defendo uma diminuição da despesa.
Não se consegue convencer as gerações actuais a contribuírem quando a expectativa que elas têm é que no futuro não vão ter nada em troca

E no curto prazo, o que aconteceria? É aqui que os consensos muitas vezes desaparecem... O que se faria aos trabalhadores mais velhos?
Temos que ser muito pragmáticos relativamente a essa matéria e só no limite é que devemos quebrar compromissos que foram assumidos. E o Estado tem aí um papel relevante e deve dar o exemplo. Por isso, em relação às pensões que estão em pagamento, devemos preservar o mais possível. As pessoas continuam a receber o que estavam a receber. Depois, por exemplo, entre os 50 e os 65 anos poder-se-ia aplicar um mecanismo de transição muito progressivo. E as pessoas abaixo disso, entrariam no novo regime. Mas esta questão sobre quem transita e quem não transita é uma questão que pode ser discutida politicamente. Nós temos é de ter um calendário para podermos fazer a transição. Por exemplo, pode-se chegar a um consenso que apenas as pessoas que entram a partir de agora no mercado de trabalho é que vão ficar sujeitas ao novo regime. Admito essa possibilidade, mas temos de ter consciência que quanto mais tempo demorarmos a fazer esta transição, maiores vão ser os custos. E há uma coisa que não devemos esquecer: o sistema tem de ser sustentável porque se não houver essa sustentabilidade, a tal solidariedade intergeracional fica posta em causa. Não se consegue convencer as gerações actuais a contribuírem quando a expectativa que elas têm é que no futuro não vão ter nada em troca.

Diz que falta equidade ao sistema. Porquê?
Por exemplo, o complemento social, que serve para aqueles que, tendo respeitado um período contributivo legal não conseguem atingir a pensão mínima, consigam ver essa diferença coberta. Há milhões de portugueses a receber a pensão mínima e esse complemento social tem uma natureza de solidariedade e supostamente deve servir para as situações de carência ou de pobreza. Muitas pessoas que recebem a pensão mínima não são pobres. E portanto, parece-me óbvia a necessidade de sujeitar o complemento social à condição de recurso. As pessoas não deixavam de receber a pensão que tinha sido calculada de acordo com as regras, mas este complemento só seria atribuído em caso efectivo de necessidade do beneficiário.
Muitas pessoas que recebem a pensão mínima não são pobres

São muitos casos?
Há pessoas com rendimentos prediais, até pensões de outros sistemas, não estão em situação de carência e que recebem este complemento social. Não digo para se cortar o que já foi atribuído, mas a partir de agora poderíamos aplicar a condição de recurso. E, no novo modelo, a condição de recurso desempenha realmente um papel fundamental, porque se o papel do Estado é apoiar aqueles que mais necessitam, então temos que saber quem é que mais necessita e não podemos estar utilizar recursos de todos para situações que verdadeiramente não são necessárias.

Esta será mesmo a melhor altura para pensar em reformas na segurança social? Em França, estamos a assistir a manifestações nas ruas por causa das ideias do presidente Macron para o sistema de Segurança Social.
Os populismos, de esquerda ou de direita, são perversos e nocivos a qualquer ideia de compromisso e esforço conjunto no sentido do bem-estar global. O quadro actual é um quadro em que rapidamente se entra no pontual e episódico para pôr em causa questões mais globais e de interesse mais colectivo. Ainda assim, em Portugal, acho que há espaço para os partidos, não diria do eixo de governação porque isso já não existe, mas o PS, PSD e CDS e se calhar até algumas alas mais à esquerda chegarem a acordo em relação a alguns aspectos consensuais. Agora, há um aspecto importante que é a questão técnica. As discussões técnicas têm sido prejudicadas por questões políticas. Há uma espécie de facciosismo ideológico em relação a algumas matérias que têm condicionado a discussão técnica.

Mas isso dificilmente irá desaparecer...
Não sei. Por exemplo, vejo, discutindo com pessoas mais à esquerda, que não discordam da existência de componentes complementares. Aliás, muitas até defendem soluções de protecção no âmbito das mutualidades, das cooperativas, como complemento ao sistema de segurança social. Portanto, eu acho que há possibilidade de fazer esta discussão. Mas em primeiro lugar a discussão deveria ser técnica, para tentarmos chegar a um consenso técnico e depois é que deveríamos entrar na discussão política. Agora, se politicamente qualquer ideia que se coloque à discussão é colocada de um lado como a única solução e pelo outro lado da barricada como uma solução inviável, não há possibilidade de chegarmos a uma solução séria. Um problema grande é a negação da realidade. Essa negação é um entrave brutal à mudança. E o facto de dizermos que o modelo não tem sustentabilidade e que deve ser melhorado, não tem que ser uma crítica a quem produziu trabalho e tomou decisões no passado.
Um problema grande é a negação da realidade. Essa negação é um entrave brutal à mudança

Em termos práticos como é que acha que poderia decorrer esta negociação?
O que eu sugeria aos políticos é que promovessem uma espécie de novo livro branco da segurança social. Com pessoas de diferentes áreas, com diferentes pensamentos.
E conseguiriam entender-se?
Mais do que se entenderem, o que é preciso é mostrarem o que está em causa de uma forma clara e as potenciais alternativas. Se conseguíssemos fazer isto, então tínhamos uma base muito sólida para uma discussão política muito séria e que, acredito, teria resultados. Qualquer solução voluntarista que não assente num estudo técnico muito profundo e sério, é uma solução com poucas hipóteses de sucesso.

26.7.19

BE propõe consumo energético mínimo gratuito no inverno

in Público on-line

Medida custará cerca de 30 milhões de euros ao Estado, um número “que combate a doença, combate a pobreza e dá condições de vida às pessoas”.
Lusa 20 de Julho de 2019, 13:33

O BE propõe que nos meses de inverno os beneficiários de tarifa social de energia tenham direito a um consumo energético mínimo gratuito nos três meses desta estação do ano, anunciou este sábado a coordenadora do partido, Catarina Martins.

De barco afundado a escritório flutuante: aqui embarca-se todos os dias para trabalhar
“O que o Bloco de Esquerda propõe é que nos meses de inverno, quem tenha tarifa social de energia, ou seja, quem está numa situação de vulnerabilidade, tenha direito a um consumo energético mínimo de 5 kilowatts por dia gratuito”, anunciou Catarina Martins à margem de uma visita ao bairro da Quinta da Lage, na Amadora, distrito de Lisboa.

No entender da líder do BE, esta medida “custará cerca de 30 milhões de euros” ao Estado, um número “que combate a doença, combate a pobreza e dá condições de vida às pessoas”.
“Pode parecer um número muito grande, mas vos garanto que no âmbito do Orçamento do Estado é um número muito modesto” e com “impacto financeiro muito limitado”, considerou Catarina Martins, que crê “estar perfeitamente ao alcance do país garantir que as famílias mais vulneráveis conseguem aquecer a sua casa no inverno”.

Catarina Martins lembrou que Portugal é “um país em que um milhão e 700 mil pessoas ainda vivem abaixo da linha de pobreza”. Para o BE, segundo a coordenadora, “a energia é um bem essencial” e por isso “deve estar na taxa mínima do IVA”, de 6%, mas “o Partido Socialista e a direita opuseram-se” à votação dessa medida no âmbito do Orçamento do Estado para 2019 por terem “a ideia que Portugal tem de pedir a Bruxelas autorização para baixar o IVA”.

“Nós sabemos que noutros países o IVA sobre a energia é mais baixo, portanto temos que tomar a decisão primeiro e depois comunicá-la, não ficar à espera de autorização, e vamos propor isso mesmo”, acrescentou Catarina Martins.

A coordenadora do BE reagiu ainda à manifestação dos sindicalistas, na sexta-feira, na Assembleia da República, dizendo que tem “compreensão para quem sentiu a frustração da votação da legislação laboral”.
Uma série de diplomas de revisão do Código do Trabalho foi aprovada na sexta-feira em votação final global na Assembleia da República, com votos a favor do PS, abstenção do PSD e CDS-PP e votos contra de PCP, BE, Verdes e PAN.

Dezenas de sindicalistas da CGTP, envergando uma t-shirt vermelha, levantaram-se em protesto quando foram aprovadas, no parlamento, alterações à legislação laboral, votadas pelo PS, PSD e CDS, e gritaram “a luta continua” e “vergonha, vergonha”.

Ataque à Câmara da Amadora
Catarina Martins, apelou ainda, ao diálogo da Câmara Municipal da Amadora com os moradores do bairro da Quinta da Lage, para “parar as demolições”, acusando a autarquia de “autoritarismo”.
“A Câmara Muncipal da Amadora deve parar imediatamente o processo de demolições e começar um diálogo com a comunidade, para perceber que soluções se podem encontrar para este bairro e para esta comunidade sem a destruir, e isso é urgente”, disse.

Catarina Martins afirmou que “têm faltado à autarquia da Amadora capacidades básicas de diálogo”, falando inclusive num “autoritarismo que é absolutamente insuportável”.
Em 11 de Julho, a Câmara da Amadora demoliu seis casas no bairro da Quinta da Lage, justificando que as construções pertencem a agregados familiares que quiseram sair da zona, mas o PCP disse que os moradores foram surpreendidos.

A líder do BE lembrou que a Quinta da Lage “é um bairro autoconstruído há 60 anos" pelos habitantes, com “saneamento, luz, onde há muita gente que paga o seu IMI [Imposto Municipal sobre Imóveis]. “Nunca ninguém disse a estas pessoas que não podiam morar aqui”, reforçou, acrescentando que o processo de demolições “é de uma violência social absolutamente inaceitável”.

28.1.19

Portugal entre os países em que as prestações sociais mais pesam

Ana Cristina Pereira, in Púbico on-line

Novo relatório da OCDE indica que “Itália, Polónia e Portugal canalizam mais de 70% das despesas sociais para as prestações sociais”, como pensões.

As despesas com prestações sociais e serviços sociais e de saúde têm em Portugal um peso no PIB maior do que a média dos 36 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O país destaca-se pela porção que canaliza para prestações sociais, em particular pensões.

Neste prédio de “contornos finos”, a Foz do Douro esconde-se atrás de portadas
De acordo com o relatório publicado esta quarta-feira por aquela organização internacional, a França lidera a tabela, com a maior fatia de despesa pública nesta área (acima de 30% do PIB). A Áustria, a Finlândia, a Bélgica, a Dinamarca, a Alemanha, a Itália e a Suécia também atribuem um quarto do PIB ou mais.

No outro extremo, o México, o Chile, a Coreia do Sul, a Turquia, a rondar os 10% ou abaixo. Portugal ficou-se pelos 22,6% em 2018, acima da média estimada para o total de países da OCDE, fixada em 20%​.

Este conjunto de países gasta mais com prestações sociais (12%) do que com serviços sociais ou de saúde (8%). “Itália, Polónia e Portugal canalizam mais de 70% e a Grécia mais de 80% das despesas sociais para as prestações sociais”, refere o documento, como subsídios de desemprego, de apoio à família, de alívio da pobreza, mas, sobretudo, vários tipos de pensões.

OCDE vê sistemas de pensões mais fortes mas recomenda mais poupança
O pequeno relatório chama a atenção para o facto de a recuperação económica já ter conduzido a uma queda da despesa com as várias prestações de desemprego. Na prática, “caírem de 1% do PIB em média em 2010 para 0,7% do PIB, em 2015”. E isso nota-se, de forma mais acentuada, na Bélgica, na Alemanha, na Islândia, na Irlanda, na Espanha e nos Estados Unidos.
Pelo contrário, a despesa pública com serviços sociais, como lares de idosos ou centros ocupacionais para pessoas com deficiência, tem aumentado continuamente. E isso não será alheio ao envelhecimento da população.


19.11.18

Complemento Solidário para Idosos alargado a alguns pensionistas por invalidez

in Público on-line

A dotação prevista no Orçamento do Estado de 2019 para o Complemento Solidário para Idosos é de 265 milhões de euros, mais 45 milhões do que no ano passado

O Conselho de Ministros aprovou nesta quinta-feira o alargamento do Complemento Solidário para Idosos (CSI) aos pensionistas por invalidez que não beneficiem da Prestação Social para a Inclusão e tenham um grau de incapacidade igual ou superior a 80%, cuja certificação não tenha sido emitida ou requerida antes dos 55 anos.

A medida consta da proposta de Orçamento do Estado para 2019, o que obrigou ao reforço financeiro do Complemento Solidário para Idosos, tendo o Governo destinado 265 milhões de euros para esta prestação social, mais 45,5 milhões de euros do que no orçamento de 2018.

No comunicado à imprensa, o Governo anuncia que, "por motivos de equidade, o alargamento do CSI produzirá efeitos relativamente a todos os pensionistas de invalidez a partir de 1 de Outubro de 2018".

Pensões de invalidez diminuem para quase metade em duas décadas
Desta maneira, diz o Governo, fica garantido "um efectivo reforço dos recursos dos pensionistas de invalidez que vivam em situação de carência económica e insuficiência de recursos".

"Com a aprovação deste decreto regulamentar, o Governo alarga o âmbito de uma das medidas de maior relevo no combate à pobreza, o Complemento Solidário para Idosos, aos pensionistas de invalidez que não reúnam as condições de acumulação com a Prestação Social para a Inclusão e que importa proteger face ao risco de pobreza", lê-se no comunicado distribuído aos jornalistas.

26.10.18

Cinco mil milhões de euros destinados ao combate à pobreza

in JN

Ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Vieira da Silva

O Governo destinou mais de cinco mil milhões de euros no Orçamento do Estado para 2019 para o combate à pobreza, prevendo o reforço do abono de família, ou o aumento do Indexante dos Apoios Sociais (IAS).
O ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social está, esta quarta-feira, no parlamento a apresentar o Orçamento da Segurança Social (OSS), onde apontou que há uma preocupação com o combate à pobreza, desde logo com a melhoria da proteção social.

De acordo com a informação presente no documento apresentado aos deputados, e distribuído aos jornalistas, o OSS prevê 5.012,3 milhões de euros para o combate à pobreza, entre 30,4 milhões de euros para o aumento do valor do IAS ou 26,5 milhões de euros para o Orçamento Programa para novos lugares acordo.

Por outro lado, estão previstos 792,1 milhões de euros para o abono de família, mais 63,4 milhões de euros do que no OE de 2018, destinados ao reforço desta prestação social para crianças na primeira e segunda infâncias.
Nesta medida, o OSS pretende que os mais de 63 milhões de euros sirvam para chegar a mais 130 mil crianças por ano com a conclusão do aumento gradual do abono para as crianças entre os 12 e os 36 meses, de maneira a que em julho de 2019 o valor seja igual ao que é atribuído às crianças até aos 12 meses.

Por outro lado, haverá o aumento do abono de família para as crianças entre os quatro e os seis anos de idade, abrangendo 200 mil crianças por ano.

Ainda no abono de família, o Governo quer fazer a majoração para os segundos ou mais filhos, desde o nascimento e até aos 36 meses, o que deverá beneficiar mais 25 mil crianças por ano.

Já a Prestação Social para a Inclusão (PSI), destinada a pessoas com deficiência e um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, terá uma verba de 447,2 milhões de euros, mais 153 milhões de euros do que no ano passado, o que representa uma variação percentual de 52%, o maior aumento entre os orçamentos de 2018 e 2019.

No que diz respeito ao Complemento Solidário para Idosos (CSI), o Governo destinou 265 milhões de euros, mais 45,5 milhões de euros do que no orçamento de 2018, o que vai servir para "consolidar o alargamento do CSI no combate à pobreza dos pensionistas de invalidez que não beneficiem da Prestação Social para a Inclusão".

A ação social vai ter 1.919,4 milhões de euros, mais 125,2 milhões de euros do que em 2018, enquanto a cooperação tem destinados 1.531,7 milhões de euros, mais 28% do que o OSS de 2018.

Especificamente em relação aos acordos de cooperação social (PROCOOP), o Governo prevê que sejam estabelecidos 461 acordos, entre 89 novos e o alargamento dos outros 372, para os quais estão previstos 20,7 milhões de euros, que irão beneficiar 5.549 utentes.

Entre junho e julho, foram apresentadas 830 candidaturas ao PROCOOP 2018, das quais 562 foram admitidas.

24.10.18

Cáritas. Orçamento de Estado devia ter medida anti-pobreza

José Carlos Silva, in RR

Em entrevista à Renascença, o presidente da Cáritas afirma que mesmo com o emprego a aumentar, e a pobreza a cair, agrava-se a situação dos mais pobres dos pobres.

O presidente da Cáritas, Eugénio da Fonseca, afirma que falta ao Orçamento de Estado medidas anti-pobreza, afirmando que é um paradoxo que num ciclo de crescimento económico estarem a crescer o número de pessoas que recorre ao Rendimento Social de Inserção (RSI).

Eugénio da Fonseca cavalga os mais recentes números do Instituto da Segurança Social para lançar o apelo ao governo: "Tem de tomar medidas".

Os dados mostram que os beneficiários do Rendimento Social de Inserção aumentaram em 15 mil pessoas em apenas um ano.

"Sem prejudicar o aumento das pensões de reforma, os abonos de família, a revisão do IRS em algumas situações, devia haver também uma medida orçamental específica para o combate à pobreza", concretiza.

O Presidente da Cáritas Portuguesa diz ser fundamental a execução de "programas que ajudassem a eliminar as situações estruturais de pobreza em que algumas pessoas se encontram".
Para Eugénio da Fonseca o crescimento do número de beneficiários do RSI "é um paradoxo".

O RSI destina-se a situações de pobreza mais gravosas. É dirigida a pessoas sem recursos, que efetivamente são aqueles que permanecem na pobreza de forma mais persistente e mais profunda, porque não chegam a ter rendimentos para fazer face às necessidades mais básicas da sua subsistência.

Este responsável duvida da realidade de alguns números como os que apontam para o aumento do emprego.

Afirma ter reservas porque “os padrões que fazem medir a pobreza contam com um vetor fundamental que é a mediana do PIB de cada país, mas depois há outros vetores que não são tidos em conta como a questão do emprego precário, porque efetivamente as estatísticas apontam para um aumento do emprego, mas não dizem quanto tempo as pessoas permanecem nesse emprego."

Eugénio da Fonseca argumenta ainda que se o emprego aumentou, também cresceram os encargos com a habitação e os impostos indiretos que as pessoas no dia a dia não notam, mas que depois, no fim do mês, têm implicações no orçamento.

17.2.16

As famílias vão recuperar 700 milhões de rendimento, como diz o Governo?

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Num dos vídeos em que explica o Orçamento, António Costa faz a conta ao valor da reposição de rendimentos das famílias. Está certo?
O primeiro-ministro num dos vídeos publicados no Youtube no canal do Governo DR


No terceiro vídeo em que o primeiro-ministro surge em São Bento a explicar “pessoalmente” o Orçamento do Estado (OE) para 2016, António Costa esmiúça alguns números e compara o conjunto das medidas de reposição de rendimentos com o aumento de alguns impostos sobre o consumo. Objectivo: rebater o argumento, repetido pelo PSD e o CDS-PP, de que o Governo dá com uma mão e tira com a outra. O título do vídeo espelha a conclusão de Costa: “Primeiro-ministro diz como as famílias vão recuperar 772 milhões de rendimento”.
Os factos

António Costa afirma que, por um lado, o Governo devolve às famílias 1372 milhões de euros e que, por outro, o Estado tem um ganho de receita de 600 milhões por via do aumento da tributação. “Se fizermos as contas a todo o rendimento que é reposto e as novas receitas fiscais criadas, nós verificamos que aquilo que é reposto é muitíssimo mais do que aquilo que é cobrado”, sintetiza.

A comparação que o primeiro-ministro faz depende, à partida, do critério e do universo de medidas que ali são incluídas (ou excluídas) para se poder falar do pacote de reposição de rendimentos. Costa enumera algumas delas, mas não todas as que totalizam os 1372 milhões contabilizados pelo Governo.

No vídeo, o chefe de executivo refere como exemplos a sobretaxa de IRS, a diminuição das taxas moderadoras, o fim dos cortes na função pública, o aumento das pensões e a reposição das prestações sociais.

O relatório do Orçamento do Estado inclui uma lista de 11 medidas de “promoção do rendimento, equidade e crescimento”, onde estão aqueles pontos enumerados por Costa e ainda outras medidas, como a redução do IVA na restauração ou o aumento do salário mínimo. Excluindo uma dessas 11 medidas – uma que se dirige ao crescimento, a aceleração da execução dos fundos comunitários – o valor supera até 1380 milhões de euros. No entanto, esta informação diz respeito ao impacto orçamental (para os cofres do Estado) das medidas. No caso do salário mínimo, por exemplo, o valor ali previsto refere-se ao aumento receita da Segurança Social em cerca de 60 milhões de euros e não à devolução de rendimentos.

Quanto aos impostos, Costa fala num ganho para os cofres do Estado a rondar os 600 milhões. “É verdade que alguns impostos sobem: o imposto sobre veículos, o imposto sobre o tabaco, sobre o combustível [ISP], o imposto de selo no crédito ao consumo. Esses impostos de facto aumentam. Mas aquilo que aumentam é de cerca de 600 milhões de euros”, sublinha. No relatório do OE, o ganho previsto com o agravamento destes quatro impostos é de 655 milhões de euros.
Em resumo

O resultado depende do ponto de partida e, no vídeo, Costa não enumera todas as medidas que está a considerar para o cálculo da reposição de rendimentos. Porém, o valor que refere coincide aproximadamente com o “custo” orçamental inscrito no Orçamento, se forem somadas as medidas que o executivo inclui, no relatório, na tabela sobre a “promoção do rendimento, equidade e crescimento”.

30.10.13

Mota Soares assume que idade da reforma vai aumentar para lá dos 66 anos

Raquel Martins, in Público on-line

Durante o debate do Orçamento do Estado, o ministro da Segurança Social disse que, a partir de 2015, a idade da reforma vai aumentar todos os anos.

Pedro Mota Soares, ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, assumiu nesta sexta-feira que a idade da reforma vai aumentar todos os anos, de acordo com a evolução da esperança média de vida, ultrapassando os 66 anos previstos para 2014.

Mota Soares voltou a referir que no próximo ano a idade da reforma passa de 65 para 66 anos, mas “não haverá dupla penalização”. “O sacrifício que se pede aos portugueses é que trabalhem mais seis meses”, além dos 65 anos e seis meses que em 2013 é necessário trabalhar para receber a pensão completa. “Não é trabalharem mais seis meses e levarem ainda uma penalização no valor da sua pensão”, garantiu.

Na prática, o factor de sustentabilidade vai reflectir-se no aumento da idade da reforma e não implicará um corte no valor da pensão.

O deputado do PS, Vieira da Silva, confrontou o ministro com a situação dos trabalhadores que não têm 40 anos de desconto e que em 2013 são obrigados a permanecer no mercado de trabalho para lá dos 65 anos e seis meses. Porém, Mota Soares não esclareceu a questão.

Vieira da Silva acusou o Governo de estar a tomar uma “opção errada” que “coloca problemas no domínio do emprego”. “É uma má medida que não se justifica pela sustentabilidade, mas apenas para obter um corte de 200 milhões de euros em 2014”, frisou.

Mota Soares destacou ainda que as pensões mínimas terão um aumento de 1% no próximo ano


Cortes afectam pensões de sobrevivência da CGA a partir dos 600 euros

Raquel Martins, in Público on-line

O corte de 10% nas actuais pensões de sobrevivência pagas pela Caixa Geral de Aposentações vai começar nos 600 euros. Esta é uma das propostas de alteração ao diploma da convergência das pensões entregues nesta terça-feira pelos deputados da maioria.


Na versão inicial, a proposta de lei previa um corte de 10% nas pensões de sobrevivência acima dos 419 euros. O PSD e o CDS-PP acabaram por reformular o diploma e decidiram elevar esse limiar para os 600 euros, colocando as pensões de sobrevivência no mesmo patamar das pensões de velhice e de invalidez, que também serão sujeitas a um corte de 10% a partir dos 600 euros.

Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, confirmou que esta foi uma das alterações acordadas com o CDS-PP e que terá um impacto de 18 milhões de euros. A poupança estimada pelo Governo com a convergência dos regimes de pensões era de 728 milhões de euros.

Durante o debate do Orçamento do Estado para 2014, a maioria conta encontrar uma forma de compensar esta perda de receita de 18 milhões de euros, seja através de uma poupança adicional noutra despesa, seja através de um esforço adicional noutras áreas. Com esta alteração, o número de beneficiários de pensões de sobrevivência afectados pelo corte desce de 44 mil para 34 mil.

Alteração também nos escalões
Esta alteração implica também uma mudança nos escalões que fazem depender o corte da pensão de sobrevivência da idade do beneficiário. Para quem tiver menos de 75 anos, os cortes começam nos 600 euros; aos 75 anos, os cortes começam nos 750 euros; aos 80 anos, serão cortadas pensões a partir dos 900 euros; se os beneficiários tiverem pelo menos 85, a redução só afecta pensões a partir de 1050 euros; e quem tiver, pelo menos, 90 anos só será afectado se receber mais de 1200 euros de pensão de sobrevivência.

Esta é a segunda vez que muda a proposta para as pensões de sobrevivência. Na versão inicial do diploma, o Governo propunha cortes nas pensões em pagamento a partir dos 300 euros, mas acabou por subir para os 419 euros, valor que agora é novamente alterado.

Os deputados também propõem a alteração da fórmula de cálculo das pensões da CGA a atribuir a partir de 2014, tal como o PÚBLICO noticiou na passada quarta-feira. Assim, a primeira parcela das pensões dos trabalhadores admitidos até 31 de Agosto de 1993 terá como base o último salário de 2005 revalorizado por um índice baseado na inflação, em vez de ter como factor de revalorização a média dos aumentos salariais da função pública. Esta alteração tem um impacto significativo nas pensões, porque nos últimos anos os salários da função pública têm sofrido cortes.

23.10.13

Reações OE: corte de prestações sociais vai aumentar pobreza

Por: tvi24

Instituições de solidariedade alertam para efeitos do corte de 891 milhões

O presidente da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade Social (CNIS), Lino Maia, defende que o corte nas prestações sociais irá aumentar o nível de pobreza em Portugal e, consequentemente, sobrecarregar ainda mais as instituições.

«Os cortes nas pensões refletem-se num aumento da pobreza e isso afeta direta e indiretamente as IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social]», considerou o padre Lino Maia, em declarações à Lusa, e em reação a algumas das medidas incluídas na proposta de Lei do Orçamento do Estado (OE) para 2014.

De acordo com o relatório da proposta de OE para 2014, o Governo conta poupar 891 milhões de euros com o corte em prestações sociais, estando previsto cortes tanto na ação social, como no Rendimento Social de Inserção (RSI) ou no Complemento Solidário para Idosos (CSI).

Lino Maia lembrou que os utentes das IPSS «são os mais carenciados, mas vão pagando de acordo com os seus rendimentos».

«Se os seus rendimentos diminuem, automaticamente também diminuem as suas comparticipações ou tendem a ser gratuitas. Por isso, as instituições serão afetadas também», apontou.

Apontou, a propósito, que, entre 2011 e 2013, houve uma diminuição da comparticipação por parte dos utentes, em média, de cerca de 20%.

Defendeu, por outro lado, a necessidade de se «inverter o ciclo», passando do atual de empobrecimento para um ciclo de produção de riqueza.

«Penso que não se tem feito o suficiente neste país e era importante e possível apostar no crescimento», sublinhou, sustentando que há muitas zonas no país onde existe a possibilidade de criar emprego.

8.10.13

Cortes nas pensões de sobrevivência só avançam porque visados “não podem fugir"

Ana Rute Silva, in Público on-line

Miguel Beleza, economista e ex-ministro das Finanças, está contra os cortes anunciados pelo Governo.

Miguel Beleza, economista e ex-ministro das Finanças, não concorda com os cortes nas pensões de sobrevivência, anunciados esta semana pelo Governo e diz que uma medida destas só avança porque os beneficiários não podem escapar.

“Não acho bem os cortes nas pensões de sobrevivência. Esses não podem fugir e é por isso que se taxam”, disse nesta terça-feira, à margem do congresso da Ordem dos Economistas, que decorre entre hoje e amanhã em Lisboa.

As reduções incidem sobre as pensões de sobrevivência pagas pelo regime geral da Segurança Social e pela Caixa Geral de Aposentações e têm como objectivo poupar 100 milhões de euros na despesa do Estado, um valor que representa 3,5% do valor total das pensões de sobrevivência.

Questionado sobre as medidas fundamentais a incluir no Orçamento do Estado para 2014, Miguel Beleza defendeu que é “indispensável continuar a redução do défice”. “Temos professores a mais, muitos mais juízes do que é preciso. Temos transferências para os Açores e para a Madeira que não são justas porque o nível de vida médio lá é maior do que em muitos sítios no Continente e nós é que pagamos”, criticou.

O economista é favorável a uma taxa de IVA igual para todos, dizendo que “é preferível subsidiar directamente os que mais precisam”.

Reagindo às declarações de Pedro Passos Coelho, que alertou para um novo "choque de expectativas" provocado pelas medidas de austeridade previstas para 2014, Miguel Beleza disse que “as pessoas têm expectativas racionais”. “Posso enganar algumas pessoas o tempo todo, mas nunca será possível enganar sempre toda a gente”, disse, citando a célebre frase de Abraham Lincoln.

20.9.13

“Orçamento Cidadão” vai “trocar por miúdos” as medidas do Governo para 2014

in Público on-line

Documento de 15 a 20 páginas será elaborado por um think tank do Instituto Superior de Economia e Gestão.

O Governo vai lançar este ano o “Orçamento Cidadão”, um projecto para facilitar a leitura do Orçamento do Estado para 2014, simplificando em poucas páginas a linguagem técnica e os objectivos que constam da proposta de lei que o executivo tem de apresentar no Parlamento até 15 de Outubro.

A preparação do documento cabe ao Institute of Public Policy Thomas Jefferson-Correia da Serra, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), sendo do Governo a responsabilidade “técnica”, que decorre das opções do próprio orçamento.

A ideia, explicou durante a apresentação da iniciativa a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, passa por simplificar a linguagem para que cada um interprete mais facilmente todo o enquadramento da estratégia orçamental.

O novo think tank, dirigido pelo economista Paulo Trigo Pereira, adiantou em comunicado que o documento sintetiza os pontos essenciais do orçamento, com “quadros simplificados e linguagem objectiva” de modo a que os cidadãos percebam mais facilmente as “prioridades e decisões implícitas na política orçamental”. Objectivo: “trocar por miúdos uma coisa tão complexa” como o orçamento, disse o economista aos jornalistas no final da cerimónia de assinatura do protocolo.

Quando o OE é apresentado à Assembleia da República com a previsão de despesa e de receita do Estado para o ano seguinte, são anexados à proposta de lei dezenas de mapas orçamentais (desde as receitas e despesas dos vários serviços, fundos autónomos, programas, Segurança Social às transferências para os municípios e freguesias). Com o documento segue também um extenso relatório (o do orçamento deste ano tinha 276 páginas).

Já o “Orçamento Cidadão” terá 15 a 20 páginas e será um documento simples a apresentar “muito provavelmente” entre uma semana a 15 dias depois da apresentação da proposta do OE, em formato digital e disponível para consulta online.

A ideia base passa por “transmitir a um cidadão comum, que não percebe nada de economia – nem tem nada que perceber –, as opções e as orientações do Governo em relação ao OE; como se compara com o ano anterior e a trajectória para os anos vindouros”, acrescentou Trigo Pereira.

Segundo Maria Luís Albuquerque, a iniciativa pretende apresentar o documento “sem a especificidade técnica e o detalhe da informação que a proposta de lei exige, para que todos possam interpretar de forma autónoma as escolhas do Governo e o impacto que estas escolhas têm na economia e na sociedade”.

Na Europa, são ainda muito poucos os países que têm um “Orçamento Cidadão”, mas na Nova Zelândia e no Brasil, há já experiência na produção de um documento idêntico. E “os países que são melhor avaliados em termos de transparência têm um orçamento do cidadão”, reforçou Paulo Trigo Pereira.

28.6.13

Défice de 10,6% no primeiro trimestre

Sérgio Aníbal

Valor supera os 7,9% registados no mesmo período do ano passado. Governo fala de "sucesso"

O défice público disparou, nos primeiros três meses de 2013, para 10,6%, um ponto de partida do ano que torna mais difícil a concretização do objectivo final de défice de 5,5%.

Os números foram divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e representam a evolução das contas públicas em contabilidade nacional, a metodologia que é usada nos dados enviados a Bruxelas, nos relatórios do défice e da dívida.

No primeiro trimestre, o défice público ascendeu a 4167,3 milhões de euros, ou seja, 10,6% do PIB registado no mesmo período. Em 2012, também nos três primeiros meses do ano, o saldo negativo tinha sido de 3206,9 milhões de euros (7,9% do PIB).

Este agravamento teve como uma das principais explicações a necessidade de contabilização como despesa da injecção de capital de 700 milhões de euros feita pelo Estado no Banif. Ainda assim, mesmo sem contar com esse valor, registar-se-ia um agravamento do défice público em termos homólogos, um resultado particularmente preocupante, tendo em conta o agravamento fiscal que foi porto em prática.

Para o total do ano, a tarefa parece agora ficar ainda mais difícil. O objectivo para 2013 é de um défice de 5,5%, ou seja, cerca de 9000 milhões de euros. Será necessária uma melhoria de desempenho bastante significativa nos três outros trimestres do ano para que a meta seja cumprida.

No entanto, numa reacção imediata aos números divulgados pelo INE, o secretário de Estado do Orçamento mostrou bastante optimismo em relação à evolução das contas públicas.

“Estes dados indicam o sucesso do programa de ajustamento”, disse Luís Morais Sarmento.

Confrontado com o facto de o défice estar acima dos 7,9% verificados no mesmo período do ano passado, o secretário de Estado garantiu que “o perfil do défice não é idêntico ao do ano passado”, lembrando que o Estado está já a pagar “parte substancial dos subsídios” aos funcionários públicos. Morais Sarmento referia-se ao subsídio de Natal, cujo corte no ano passado foi chumbado pelo Tribunal Constitucional e que está a ser pago em duodécimos desde Janeiro.

7.6.13

Cortes nos subsídios de desemprego e de doença garantem valores mínimos

Raquel Martins, in Público on-line

Tal como esperado, o Orçamento rectificativo mantém cortes, mas salvaguarda os limites previstos na lei.

Os beneficiários de subsídios de desemprego e de doença que recebem os valores mínimos ficarão a salvo dos cortes de 5% e 6% que serão aplicados a estas prestações. O Orçamento rectificativo, entregue nesta sexta-feira na Assembleia da República, mantém as contribuições sobre estes subsídios, mas inclui uma norma que impede que o de desemprego fique abaixo dos 419,22 euros mensais e que o subsídio de doença seja inferior a 4,19 euros por dia.

A proposta de lei que rectifica o Orçamento do Estado (OE) para 2013 revoga o artigo 117º chumbado pelo Tribunal Constitucional (TC). Mas tal como já tinha sido anunciado, os cortes mantêm-se, desde que isso não prejudique “a garantia do valor mínimo das prestações, nos termos previstos nos respectivos regimes jurídicos”, refere a proposta.

O Governo ainda chegou a estudar uma alternativa que excluísse dos cortes os subsídios superiores a 600 euros, mas essa solução acabou por ficar pelo caminho, garantindo-se apenas os mínimos legais.

As alterações agora propostas pelo Governo no rectificativo terão efeitos ao nível das receitas da Segurança Social. Nas contas revistas, a Segurança Social terá menos 94 milhões de euros de receita com contribuições e quotizações, o que o executivo diz resultar do impacto da deterioração da actividade económica “quer no emprego quer no agravamento do desemprego” e da devolução “das contribuições sobre subsídios de desemprego e de doença que decorre da decisão do Tribunal Constitucional”.

No OE para 2013, o Governo decidiu criar uma contribuição sobre as prestações de doença e de desemprego, com o argumento de que o tempo em que as pessoas estavam nestas situações contava para efeitos de reforma, sem que na realidade fizessem qualquer desconto. Os beneficiários do subsídio de desemprego ficaram obrigados a descontar 6% para a Segurança Social, independentemente do valor da prestação. A salvo apenas ficaram os casais desempregados com filhos a cargo com direito a majoração do subsídio. Já as baixas por doença superiores a 30 dias levaram um corte de 5%. A norma não salvaguardava os limites mínimos previstos na lei.

Em Abril, o TC chumbou o artigo 117.º, por considerar que a ausência de uma cláusula de salvaguarda que impeça que os montantes dos subsídios de doença e de desemprego possam ficar abaixo do limite mínimo violava o princípio da proporcionalidade.

27.3.13

Corte de 2500 milhões em 2014 levará economia à estagnação, calcula o BdP

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Supervisor bancário calculou o impacto de cortes de 1,5% do PIB na despesa pública no próximo ano e concluiu que a economia teria um crescimento quase nulo.

A economia vai contrair-se mais este ano e, para 2014, o Banco de Portugal (BdP) não afasta um cenário de estagnação num quadro em que o corte na despesa pública ronde os 2500 milhões de euros e as exportações cresçam menos do que o previsto.

Nas previsões apresentadas nesta terça-feira, o supervisor considerou apenas as medidas de política orçamental já aprovadas ou “com elevada probabilidade de aprovação e especificadas com detalhe”.

Neste quadro, ou seja, deixando de fora eventuais novas medidas de austeridade e cortes na despesa no próximo ano, a instituição prevê um cenário de crescimento da economia em 2014, projectando uma subida de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Porém, se o corte na despesa pública a aplicar no próximo ano for equivalente a 1,5% do PIB, cerca de 2500 milhões de euros, isso terá um impacto negativo de 0,8% no PIB. Com isso, as perspectivas de crescimento baixam e, em vez de um crescimento de 1,1%, a economia estaria num cenário próximo da estagnação, progredindo apenas 0,3%.

Para chegar a este cenário, o BdP parte de “hipóteses técnicas” – em que são consideradas medidas adicionais de consolidação orçamental – para simular o impacto das medidas na evolução do PIB. Os técnicos do Banco de Portugal consideraram um cenário em que metade da redução da despesa (correspondente a 1,5% do PIB) vem de cortes nos gastos com pessoal e a outra metade de redução de despesas em prestações sociais, incluindo pensões.

O quadro traçado pelo Banco de Portugal agrava-se ainda mais se as exportações não alcançarem as previsões avançadas – crescimento de 4,3% no próximo ano. Nesse caso, assinala a instituição, cada ponto percentual de desvio corresponde a um impacto de 0,2 pontos percentuais no PIB. Se esse desvio for negativo em 1 ponto percentual, a economia estará a crescer 0,1%, mas a recessão poderá ocorrer se esse desvio for superior.