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7.9.23

“Sem vagas.” Há mais lugares gratuitos nas creches, mas muitas famílias continuam sem resposta

Patrícia Carvalho, in Público online

Governo diz que espera ter creche gratuita para 85 mil crianças ainda este ano mas faltam muitos mais lugares para garantir a universalidade da medida. Trabalho das mães é o que mais sofre.

Francyelle Monteiro, de 29 anos, tirou esta terça-feira para calcorrear as ruas, com o marido, de creche em creche, a ver se consegue encontrar uma resposta diferente da que tem ouvido constantemente desde que começou a procurar um lugar numa creche para o filho, de 14 meses: “Sem vagas.” Já ficou sem emprego e a família teve de deixar a casa e ir viver com os pais dela, pela perda de rendimentos. Uma vaga numa creche mudava-lhe de novo a vida. “Preciso de voltar ao mercado de trabalho, tenho oportunidade de trabalho, mas não tenho com quem deixar o meu filho. Isto está a causar-nos bastante transtorno”, diz. É um dos muitos casos a quem a Creche Feliz ainda não bateu à porta.

Antes de o filho nascer, Francyelle trabalhava como auxiliar de laboratório, mas o contrato a prazo não foi renovado assim que foi mãe. De dois salários, o casal passou a um e tudo se complicou. “Tivemos de abrir mão do lugar onde vivíamos e de dividir casa com os meus pais”, conta.

A primeira procura por creches foi ainda antes de o menino nascer, mas disseram-lhe que tinha de esperar, porque, sem registo do bebé, não era possível colocá-lo sequer numa lista de espera. A procura foi retomada “assim que ele nasceu”, recorda, e conseguiu deixar uma inscrição em três creches perto de casa, na altura, na zona de Alverca. A resposta, contudo, foi sempre a mesma: “Sem vagas.” Com a perda de emprego e a mudança de casa, a família passou para São João do Tojal, em Loures, mas os resultados não são melhores. “Não há vagas em nenhum lugar, ficamos sempre em listas de espera. O único sítio onde há vagas são lugares clandestinos, mais complicados”, lamenta.

Nos últimos dois meses, Francyelle colocou o bebé num local “informal”, graças ao apoio da igreja de que faz parte e que garante o pagamento da mensalidade. Mas também isso está a acabar. “Por causa da nossa situação financeira, eles estão a fazer o pagamento, mas só fazem durante três meses. Tenho mais um mês e depois não tenho mais o pagamento deles. Não tenho como mantê-lo nesse local.” A conclusão, por mais voltas que dê, é sempre a mesma: precisa de uma creche gratuita. “Preciso de voltar ao mercado de trabalho urgentemente”, desabafa.

Garantir que as mulheres têm igualdade de direitos no acesso ao mercado de trabalho é, precisamente, um dos objectivos da Creche Feliz, que ainda nesta terça-feira foi recordado ao PÚBLICO pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, após uma visita a uma creche no Montijo em que foi feito um balanço do programa de acesso a creche gratuita.

Os dados do Governo apontam para um aumento de nove mil vagas nos últimos dois meses, graças a uma portaria que simplificou a reconversão de salas vazias de locais já com serviços de apoio às crianças em salas de creche. Este ano, a expectativa da ministra é a de que o programa chegue a 85 mil crianças, um número que deverá aumentar no futuro, ajudado pela criação de mais oferta, incluindo a abertura de 20 mil novos lugares projectados até 2026, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência e do Pares.

“Temos intensidade máxima, trabalho máximo, para uma medida que gera um aumento da procura”, disse Ana Mendes Godinho, reconhecendo que o programa está longe de chegar a todos — não só não há vagas suficientes, como a procura cresceu muito. “Há famílias que não pensavam pôr as crianças numa creche e que agora assumem isso como prioridade. As pessoas todas querem colocar as crianças na creche, a medida induziu uma procura que só mostra que é acertada. Muitas crianças que não estavam com capacidade de acesso a creche, mais vulneráveis, passaram a estar, porque o custo deixou de ser um factor.”

Quarenta e duas creches contactadas

Tânia Vargas, de 33 anos, tinha essa expectativa de conseguir encontrar uma creche para o mais novo dos seus três filhos. Gabriel tem apenas 20 dias, uma irmã com três anos e um irmão com seis, e 95% de deficiência, de quem a mulher de Amares, Braga cuida diariamente.

Antes do programa Creche Feliz não teve dificuldade em encontrar vaga em creches: inscreveu os filhos mais velhos com antecedência, pagava as mensalidades até as crianças irem efectivamente para a creche, garantindo assim um lugar. Com a gratuitidade, isso deixou de ser possível, assim como fazer uma inscrição antes de o bebé nascer. “Comecei a procurar cedíssimo. O primeiro email que enviei a pedir uma pré-inscrição foi em Janeiro de 2023, estava grávida de seis, oito semanas”, diz.

Ao todo, Tânia Vargas contactou 42 instituições em Amares e em outros três concelhos vizinhos: Vila Verde, Braga e Barcelos. Até agora, não conseguiu uma vaga gratuita. “Já tinha noção de que as coisas estavam complicadas, não sabia é que estavam tão complicadas”, ironiza.

Mandou mensagens para a Assembleia da República, ministério, Provedoria de Justiça a expor o seu caso. Sem solução e com o filho mais velho a exigir cuidados permanentes, acabou por encontrar um lugar numa creche privada que não se inclui na rede da Creche Feliz. Um peso financeiro difícil de suportar para um orçamento familiar já muito sobrecarregado com as terapias e todos os tratamentos de que a criança de seis anos precisa.

Mas Tânia Vargas ainda não desistiu. “Estar a pagar mais uma mensalidade quando se tem direito a uma creche gratuita é um bocadinho injusto, um bocadinho desolador. Vamos tentando arranjar solução [gratuita], mas, não havendo, temos esta retaguarda. Estamos a pagar já a mensalidade. Não deveria ser preciso, estando a gratuitidade universalizada, nas IPSS e afins...”, lamenta.

Aos 39 anos, Bianca Ribeiro não tem ideia do que vai ser a sua vida nos próximos tempos, se não conseguir uma creche para a filha, nascida em Abril de 2022. Procurou vagas em seis creches, na área de Belém, em Lisboa, onde vive, e conseguiu ficar em lista de espera, mas sem resultados. “Renovei [pedido], mandei mensagem para todas as creches da minha área, não tinham vaga, continuam não tendo, mesmo com o Governo ampliando [o programa] dentro do sector privado. Não há, pelo menos por aqui”, diz.

Com uma família monoparental — o pai da bebé é inglês e não vive cá —, Bianca Ribeiro, que é brasileira, diz não ter família em Portugal, nem qualquer apoio. E, para piorar tudo, perdeu o emprego de analista administrativa, que tinha há quatro anos. “Sempre trabalhei em teletrabalho, desde a pandemia”, conta, mas “a política da empresa mudou e quem quiser trabalhar tem de ir para o escritório”.

Não adiantou de nada o seu argumento de que não tinha com quem deixar a filha e os pedidos para continuar em teletrabalho. A mulher diz que a empresa lhe começou a marcar faltas sucessivas e que a pressão para que se demitisse foi tanta que acabou por chegar a acordo com eles. Está, desde esta terça-feira, desempregada e com a filha em casa. “Tenho de continuar reconstruindo a vida”, diz.

Marta Esteves é advogada especialistas em questões relacionadas com os direitos da parentalidade e diz que casos relacionados com famílias — “95% são mães” — que a procuram em busca de uma ajuda, por não terem com quem deixar os filhos bebés, como o de Bianca, aumentaram desde o início da Creche Feliz. “As vagas já eram um problema em 2021, mas o problema aumentou, porque elas não aumentaram em proporção ao aumento da procura”, diz. “As mães procuram-me para as ajudar a encontrar soluções, porque têm de regressar ao trabalho e não têm com quem deixar o bebé. A primeira coisa de que se lembram é que têm de se despedir. Mas há outras soluções, e é com isso que as ajudo”, diz a advogada do Porto.

As alternativas são, basicamente três. O teletrabalho, que é permitido para todos os pais de crianças até aos três anos, desde que a actividade seja compatível com essa modalidade e a empresa disponha de meios para o efeito; o pedido de uma licença para assistência ao filho; e a licença de parentalidade alargada, para lá dos 180 dias.

Só que, nas duas últimas soluções, há perda de rendimentos — a licença para assistência aos filhos não é remunerada e a licença alargada, para lá de 180 dias, prevê uma remuneração de apenas 30% do salário ou 40%, se for partilhada por ambos os progenitores. “A vantagem é que permite acompanhar pelo menos o primeiro ano de vida do bebé em casa”, diz a advogada.
Teletrabalho pode ajudar

O teletrabalho aparece assim como a medida mais apetecível, enquanto não aparece um lugar numa creche. Mas nem sempre é fácil. Bianca acabou por “não resistir à pressão” da empresa e ficou desempregada. Sónia X., 32 anos, de São João de Madeira, conseguiu que a empresa o aceitasse, mas não foi fácil.

O filho nasceu em Outubro do ano passado e desde Maio desse ano que ela andou à procura de uma vaga numa creche. “Inscrevi-o em três creches, mas avisaram-me logo que dificilmente iria conseguir uma vaga. Ele devia ter entrado em Março deste ano e como era a meio do ano lectivo deram-me logo a entender que iria ser muito difícil”, conta.

Em Janeiro começou a insistir no pedido, de novo, mas nada mudou. “Chegou a altura de ele entrar na creche e não havia vaga. Não tenho apoio familiar perto, por isso ou fazia prolongamento da licença parental, o que a minha entidade patronal não aceitou, ou ficava em teletrabalho. Acabaram por aceitar esta alternativa, mas não foi muito bem visto”, diz a engenheira química.

Sónia X. (pede para ser identificada apenas assim) esperou alguns meses, mas conseguiu resolver o problema. O filho conseguiu, finalmente, vaga numa creche do sector social. “Entrou hoje [nesta terça-feira] na creche. Estive em casa com ele até agora. Agora vou voltar ao trabalho normalmente.”

A “saga”, como Tânia se refere ao processo de tentar encontrar uma vaga gratuita numa creche, terminou para Sónia. Mas não para muitas outras famílias. Bianca admite mesmo sair de Portugal, se não conseguir “adaptar e mudar” a situação actual, como já fez noutras alturas da vida. “Posso ter de dar início a outros caminhos”, diz. Uma creche gratuita ajudava muito.

5.9.23

Quase 5% das famílias em risco de gastar mais de metade do salário com crédito à habitação

Rafaela Burd Relvas, in Público online

A percentagem de famílias em sobrecarga financeira para suportar os custos do crédito à habitação permanece baixa, mas está a aumentar de forma significativa, em resultado da subida das taxas de juro.

Quase 5% das famílias com crédito à habitação correm o risco de chegar ao final deste ano a ter de desembolsar mais de metade do seu rendimento disponível para suportar os custos com o empréstimo, em resultado da subida das taxas de juro. Ao todo, serão perto de 70 mil famílias nessa situação, praticamente o dobro daquilo que se verificava há dois anos, segundo as estimativas do Banco de Portugal (BdP).

Os alertas do regulador da banca quanto aos riscos que a subida das taxas de juro acarreta para as famílias já vêm sendo feitos há vários meses. No último Relatório de Estabilidade Financeira, publicado no passado mês de Maio, o BdP apontava que "os encargos mais elevados com o serviço da dívida dos empréstimos à habitação" deveriam contribuir para uma subida do rácio entre a prestação do crédito e o rendimento disponível (o chamado "loan service-to-income", ou LSTI) de 16,3% em Junho de 2022 para 22,3% em Dezembro de 2023. Na prática, significava isto que o regulador antecipava que, no final deste ano, com o crédito à habitação, as famílias teriam de desembolsar, em média, mais de um quinto do rendimento disponível para pagar a prestação da casa.

Segundo estimava ainda o BdP nessa altura, a larga maioria das famílias (cerca de 75%) deveria continuar a suportar uma taxa de esforço igual ou inferior a 30% este ano, mas 18,6% das famílias passariam a suportar uma taxa de esforço superior a 40% no final deste ano (muito acima da proporção de 7,7% das famílias que se encontravam nessa situação em Junho do ano passado).

Mais: perante este cenário de "inflação elevada e de subida rápida das taxas de juro", o regulador via um risco mais elevado de incumprimento no crédito, sobretudo entre os "clientes mais vulneráveis", que têm agora menor capacidade de poupança. Assim, no relatório publicado em Maio, o regulador já considerava ser "expectável" um aumento das perdas por imparidade de crédito e dos empréstimos classificados em stage 2 (a classificação atribuída aos contratos cujo risco de crédito aumentou significativamente desde o início da contratação, mas para os quais ainda não existe evidência de que venha a existir uma perda associada).

Agora, o governador do BdP vai mais longe e aponta mesmo para o número de famílias que se espera que venha a ser mais afectado pela subida das taxas de juro.

"A encruzilhada traz maior aperto financeiro a famílias e empresas em resultado do ciclo de política monetária. No final de 2023, cerca de 70 mil famílias poderão vir a ter despesas com o serviço do crédito à habitação permanente superiores a 50% do seu rendimento líquido", escreve Mário Centeno, numa análise pessoal ao actual momento da economia, a primeira daquela que deverá tornar-se numa série com periodicidade anual. E acrescenta: "O reforço da poupança e a redução do endividamento, bem como os apoios públicos e o papel do sector bancário na prevenção do incumprimento, podem mitigar estes riscos."

Este é um número que está a aumentar desde há dois anos, quando as taxas Euribor (às quais está indexada a larga maioria dos contratos de crédito à habitação em Portugal) iniciaram a actual trajectória de subida: em Dezembro de 2021, de acordo com os dados agora disponibilizados na análise assinada pelo governador do BdP, havia 35,6 mil contratos de crédito à habitação com uma taxa de esforço superior a 50%, um número que cresceu para 45,8 mil no final do ano passado e que, por fim, se estima que aumente para 69,6 mil em Dezembro deste ano.

De acordo com os dados mais recentes do BdP, relativos a 2022, existiam, no final desse ano, à volta 1,5 milhões de contratos de crédito à habitação activos. Cerca de 92,6% destes contratos tinha taxa variável, enquanto outros 5,7% tinham taxa mista e só 1,7% tinham taxa fixa. Este é um retrato que poderá vir a alterar-se em breve, tendo em conta as dinâmicas mais recentes do mercado: em Julho deste ano, os novos empréstimos à habitação com taxa fixa ou mista já representaram, em conjunto, 49% do total de novos empréstimos à habitação, ainda de acordo com dados do BdP.

Considerando estes números, significa isto que, no final deste ano, em torno de 4,6% das famílias com crédito à habitação poderá estar a pagar prestações que representam mais de 50% do seu rendimento disponível. Há dois anos, só cerca de 2,5% das famílias se encontrava nessa situação.

Assim, ainda que permaneça baixa, a percentagem de famílias em sobrecarga financeira aumenta de forma significativa. Em Portugal, de acordo com a definição disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), considera-se que estão em "sobrecarga das despesas em habitação" aqueles que vivem em agregados familiares onde "o rácio entre as despesas anuais com a habitação e o rendimento disponível (deduzidas as transferências sociais relativas à habitação) é superior a 40%".

E os indicadores mais recentes não apontam para um desagravamento desta tendência: ainda que as taxas Euribor já estejam a mostrar alguns sinais de estabilização, o valor das prestações dos créditos à habitação deverá continuar a subir nos próximos meses, já que as revisões periódicas ocorrem a cada três, seis ou 12 meses, conforme o prazo da taxa fixada nos contratos.

19.7.23

Novo apoio à eficiência energética das casas dá 100 milhões de euros

Por Lusa,  in Idealista


O Governo anunciou esta terça-feira, dia 18 de julho, um novo programa de apoio à eficiência energética dos edifícios residenciais, com dotação total de 100 milhões de euros, para financiar a 85% a substituição de janelas e instalação de painéis fotovoltaicos, entre outros.

“Gostava de anunciar que se inicia, com a publicação do respetivo aviso, um novo programa de apoio à eficiência energética dos edifícios residenciais, dedicado às famílias. O Programa de Apoio Edifícios Residenciais + Sustentáveis 2023, o programa 3C 2023, terá uma dotação total de 100 milhões de euros e, este primeiro aviso, mobilizará 30 milhões de euros, para candidaturas a submeter até 31 de outubro”, avançou o ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, que está a ser ouvido no parlamento, em audição regimental na comissão de Ambiente e Energia.

Segundo o governante, este aviso vai financiar a 85% a substituição de janelas, a instalação de painéis fotovoltaicos e isolamentos de base natural, entre outros, tendo sido definida uma majoração geográfica para famílias residentes fora dos distritos de Lisboa e do Porto.


Adicionalmente, só serão considerados elegíveis imóveis de habitação permanente.

Duarte Cordeiro sublinhou que o anterior aviso no mesmo âmbito contou com cerca de 71.000 candidaturas elegíveis e apoios de 122 milhões de euros, “tendo contribuído para evitar a emissão de 38.000 toneladas de dióxido de carbono, acrescentado 152 Megawatts (MW) de capacidade de produção de energia renovável e poupado 486 Megawatts-hora (MWh) de consumo anual”.


O ministro do Ambiente registou o balanço positivo dos preços da energia, apontando os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística, que deram conta de que os produtos energéticos tiveram uma queda homóloga de 18,77%, contribuindo para a desaceleração da inflação no país. Em maio, os produtos energéticos já tinham tido uma descida de 15,47%.

Edifícios localizados fora dos distritos de Lisboa e do Porto têm majoração de 10% no apoio à eficência energética

De acordo com o aviso de abertura de concurso publicado na página do Fundo Ambiental na internet, podem ser apoiadas intervenções de substituição de janelas não eficientes por janelas eficientes, de classe energética igual a A+, a aplicação ou substituição de isolamento térmico em coberturas, paredes ou pavimentos, sistemas de aquecimento e/ou arrefecimento ambiente e de águas quentes sanitárias (AQS) que recorram a energia renovável, de classe energética A+ ou superior, a instalação de sistemas fotovoltaicos e outros equipamentos de produção de energia renovável para autoconsumo com ou sem armazenamento e ainda intervenções que visem a eficiência hídrica.


De acordo com o aviso de abertura de concurso publicado na página do Fundo Ambiental na internet, podem ser apoiadas intervenções de substituição de janelas não eficientes por janelas eficientes, de classe energética igual a A+, a aplicação ou substituição de isolamento térmico em coberturas, paredes ou pavimentos, sistemas de aquecimento e/ou arrefecimento ambiente e de águas quentes sanitárias (AQS) que recorram a energia renovável, de classe energética A+ ou superior, a instalação de sistemas fotovoltaicos e outros equipamentos de produção de energia renovável para autoconsumo com ou sem armazenamento e ainda intervenções que visem a eficiência hídrica.


Cada beneficiário está limitado a um incentivo total máximo de 7.500 euros, por edifício unifamiliar ou fração autónoma, descontando-se os montantes apoiados na segunda fase do anterior Programa de Apoio a Edifícios mais Sustentáveis.

Adicionalmente, conforme referido pelo ministro, as candidaturas relativas a edifícios localizados fora dos distritos de Lisboa e Porto têm uma majoração de 10% no limite máximo de incentivo por tipologia de intervenção.

Segundo o aviso, caso o montante apoiado por beneficiário neste primeiro aviso seja igual ou superior a 5.000 euros, o candidato tem obrigatoriamente de apresentar o certificado energético do imóvel intervencionado, antes e após execução.

O Fundo Ambiental disponibiliza toda a informação sobre as condições do apoio aqui.

7.7.23

Mais crianças por sala, menos burocracia na reconversão: Governo a correr contra a falta de lugares nas creches

Patrícia Carvalho, in Público online

Portaria prevê mais duas crianças por sala e possibilidade de abertura à noite e fins-de-semana. Debate parlamentar contou com exemplos de pais desesperados, um casal chegou a pensar emigrar

Com Setembro quase a chegar e muitos pais de cabelos em pé sem saberem ainda se vão ter uma vaga gratuita para os seus filhos ao abrigo do programa Creche Feliz, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), Ana Mendes Godinho, publicou uma portaria que permite o aumento de crianças por sala e a desburocratização na reconversão de espaços para novas salas, na tentativa de, ainda este ano, acrescentar seis mil novos lugares à parca oferta existente. A portaria foi publicada esta semana e prevê também maior flexibilização de horários.

A pedido do Bloco de Esquerda, a escassez de vagas nas creches, que está a impedir o real acesso à gratuitidade a todos os que a ela teriam direito, voltou esta semana ao Parlamento. Às críticas lançadas por Joana Mortágua e praticamente toda a oposição, a ministra ia respondendo com os resultados obtidos, em concreto, o facto de 58 mil crianças estarem já a beneficiar do programa Creche Feliz, quando, nesta primeira fase, o que tinha sido avançado como previsão pelo Governo, disse, é que se chegasse às 40 mil.

Mas Ana Mendes Godinho não pôde ignorar o óbvio: as cerca de 119 mil vagas que existem não chegam para todos e encontrar uma vaga disponível em distritos como o Porto, Lisboa ou Setúbal é uma verdadeira lotaria. Durante a tarde de quarta-feira foram dados exemplos de pais desesperados, como uma mãe de Almada, que inscreveu o filho em 12 creches e não teve vaga em nenhuma. E de uma outra mãe de Guimarães, cuja família até ponderou abandonar a casa que comprou há cerca de um ano para se mudar para outro local onde conseguisse encontrar uma vaga para o filho, depois de ver recusadas todas as tentativas para lhe encontrar um lugar naquele concelho, na Maia e na Póvoa do Varzim.

A ministra ia consultando a aplicação que indica as vagas existentes ao abrigo da Creche Feliz, e garantia que havia oferta nos locais indicados, mas André Almeida, o pai da criança de Guimarães dada como exemplo, confirma o que já outras famílias têm vindo a dizer: “Consultámos a app várias vezes, mas quando ligávamos para os sítios onde supostamente existiam vagas, diziam-nos que já estava ocupada e todas as creches tinham uma lista de espera enorme”, diz.

Com 32 anos e o filho prestes a fazer um ano, André conta a saga para tentar encontrar uma creche para o bebé, e que começou poucos meses depois de ele e a mulher terem descoberto que iam ser pais. Nada de vagas nos inúmeros locais para onde ligaram, falta de informação por parte da Segurança Social quando, já desesperados, tentaram encontrar uma ama. Depois, o alívio, com a indicação de que existia uma vaga numa ama da Segurança Social a cinco minutos de casa, para logo a seguir chegar a desilusão: “Disseram-nos que afinal não podia ser, por causa dos nossos rendimentos e de outros requisitos”, conta. Ironia: nesse mesmo dia, a mulher de André soube que iria ser despedida.

A família ponderou abandonar Guimarães, passou-lhes pela cabeça emigrar. Até que nesta quarta-feira, na tarde em que decorria o debate parlamentar e em que o seu caso foi abordado, chegou uma nova chamada da Segurança Social: “Disseram-nos que, afinal, conseguiam uma vaga para nós numa ama aqui perto de casa. Ficámos satisfeitos, esperamos que isto esteja finalmente resolvido”, diz André Almeida.

Um alívio que não será sentido por todas as famílias que ainda não sabem se terão direito a uma vaga gratuita no próximo ano lectivo. A escassez é reconhecida por todos - uma análise recente refere que seria necessário duplicar o número de vagas existentes para abranger todas as crianças com direito à gratuitidade -, e o aumento de vagas vai demorar.

Ana Mendes Godinho foi várias vezes questionada sobre quando estariam disponíveis mais lugares, nomeadamente, os 26 mil que serão abertos graças ao financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e do programa Pares, mas a ministra só conseguiu garantir que espera ter, ainda este ano, seis mil novos lugares, graças às alterações publicadas esta semana em portaria, depois de terem sido negociadas com os parceiros.
Abertura à noite e fins-de-semana

Segundo o documento, publicado em Diário da República na passada quarta-feira, o Instituto da Segurança Social pode autorizar o aumento de crianças por sala, até ao máximo de duas, desde que o espaço tenha condições para isso. Ou seja, em vez de 10 crianças nas salas até à aquisição de marcha, será possível haver 12, assim como as 14 crianças permitidas entre a aquisição de marcha e os 24 meses poderão passar a ser 16.

Outra alteração introduzida pela portaria - e que tinha sido várias vezes pedida pela Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular (ACPEEP) - é a desburocratizarão na reconversão de espaços em edifícios já dedicados às crianças, mas que não estavam até agora a funcionar como salas de creche. “Assinei uma simplificação transformadora para facilitar a reconversão automática de espaços previamente dedicados à área de infância para salas de creche, desde que salvaguardadas naturalmente as questões de segurança e conforto, bastando uma comunicação ao Instituto da Segurança Social para o efeito”, disse no Parlamento, Ana Mendes Godinho.

A portaria confirma-o, dizendo que “a reconversão de espaços, previamente licenciados ou isentos de licenciamento, dedicados à infância ou o aumento de capacidade das salas não está sujeito a licenciamento” e que para avançar nesse sentido basta “uma mera comunicação prévia da reconversão ou o aumento ao ISS”.

O documento acrescenta ainda, à portaria anterior que estabelecia as normas de instalação e funcionamento das creches, que estas “podem ser instaladas [...] em edifícios existentes ou em espaços integrados em universidades, estabelecimentos hospitalares, empresas e entidades públicas”, sendo dispensadas regras como a que diz que estes espaços devem ser preferencialmente instalados no rés-do-chão e com contacto directo com o exterior, desde que esteja salvaguardado o conforto e segurança das crianças. A portaria também indica que as creches podem ser instaladas em “construções modulares”.

As novas regras, já em vigor desde esta quinta-feira, permitem ainda que as creches possam “funcionar em permanência, incluindo período nocturno e fins-de-semana, desde que exista a necessidade de frequência, por motivos relacionados com a actividade laboral de ambos os pais ou de quem exerce as responsabilidades parentais, ou motivos de força maior devidamente justificados e limitados no tempo”.

Apesar destas alterações, na tentativa de alargar urgentemente a rede disponível, há cerca de três mil lugares de creche que não podem, por enquanto, ser abrangidos pela gratuitidade. São espaços que estão sob a alçada de municípios e que a Lei de Bases da Segurança Social estipula não podem ser alvo de acordos similares aos que foram feitos com os parceiros sociais e a ACPEEP. Uma “regra absurda”, segundo o deputado bloquista Pedro Filipe Soares, que Ana Mendes Godinho disse estar disponível para alterar. “Estamos completamente disponíveis, nos mesmos moldes do que foi feito com o sector privado, para que façamos o mesmo com as creches dos municípios. Isto implica uma alteração da Lei de Bases, é uma questão estrutural, mas estamos aqui para fazer esse caminho”, disse a ministra.

O programa Creche Feliz entrou em vigor para o sector social e solidário a 1 de Setembro do ano passado, e a 1 de Janeiro deste ano para o sector privado, prevendo a gratuitidade para todas as crianças nascidas após 1 de Setembro de 2021.

O programa é faseado e no próximo ano lectivo deverá abranger “todas as crianças que ingressem no 1.º ano da creche e as crianças que prossigam para o 2.º ano”. Em 2024, este alargamento incluirá também as que frequentem o 3.º ano, com o Governo a prever que a abrangência, nessa altura, chegue às cem mil crianças.

Para concretizar o programa, o Estado paga às creches 460 euros mensais por cada criança abrangida. Um investimento que, neste momento, segundo Ana Mendes Godinho, implica o pagamento de 27 milhões de euros por mês às creches aderentes.

23.6.23

Se juros apertam demais, haverá famílias a gastar 70% do orçamento em comida, energia e dívidas

 Luís Reis Ribeiro, in DN


Governo português tem de fazer esforço adicional até 2028 para manter as "contas certas". Fundo pede cortes de 640 a 840 milhões de euros por ano nos próximos cinco anos.

Se as taxas de juro da zona euro subirem mais do que hoje se espera porque a inflação muito elevada não recua, as famílias portuguesas (metade delas) podem ser conduzidas a uma situação limite, sendo forçadas a gastar 70% do seu orçamento em comida, luz, água e dívidas, avisa o Fundo Monetário Internacional (FMI) no estudo anual (Artigo IV) sobre a economia portuguesa, ontem divulgado (quinta-feira, 22 de junho).


Nesta nova avaliação do antigo credor de Portugal há elogios à condução da política orçamental (o FMI alinha com as previsões do governo e parece acreditar nas metas do défice e da dívida), a instituição também reviu em alta a previsão de crescimento deste ano, mas deixou um aviso: é preciso mais para reduzir o défice e, sobretudo, a dívida pública.


Pelas contas do Fundo, o governo vai ter de fazer um forço "discricionário" adicional entre 2024 e 2028 (para segurar o saldo orçamental numa posição de "equilíbrio") equivalente a 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB) ou até 0,3% do PIB. Dá entre 640 a 840 milhões de euros por ano a preços correntes (de 2023) em novos cortes ou poupanças orçamentais adicionais.

Mas para já, apesar da recuperação melhor que o esperado, muito apoiada no turismo, e da "resiliência" do mercado de trabalho português, o FMI diz que está preocupado com um cenário mais agressivo para o lado das famílias, sobretudo as mais vulneráveis, as mais expostas ao aumento do custo de vida e à crise de oferta de habitação.

"A análise da missão [os economistas do FMI que estiveram em Portugal em maio] sugere que, em cenários adversos (assumindo taxas de juro mais elevadas e um crescimento mais lento do rendimento bruto das famílias), quase metade delas poderá ser obrigada a gastar mais de 70% do seu rendimento em alimentação, serviços de utilities [como gás, eletricidade, água] e nos pagamentos das suas dívidas, trazendo isto efeitos mais acentuados para as famílias de baixos rendimentos", diz o FMI.

"Esta situação poderá também ter efeitos macrofinanceiros mais alargados, ligados à redução do consumo das famílias e a perdas no crédito [incumprimentos bancários, malparado]. No entanto, o recente apoio por via de medidas do governo e a força do mercado de trabalho são fatores atenuantes importantes", acrescenta a instituição liderada por Kristalina Georgieva.

Como referido, a previsão de crescimento para a economia portuguesa, este ano, foi revista em alta pelo FMI face ao cenário avançado pela instituição em abril passado.

E o défice público deverá ser substancialmente inferior ao previsto há quase três meses, no Outlook económico da primavera. O peso da dívida pública também. Com isto, o FMI alinha com os números do governo em ambos os indicadores das contas públicas referentes ao ano em curso.


Assim, em vez de uma retoma de apenas 1% este ano, o FMI, no novo estudo anual e abrangente, prevê que a economia portuguesa avance 2,6% em termos reais, em 2023, a segunda melhor previsão até agora divulgada pelas principais instituições. O governo, no Programa de Estabilidade de abril, diz estar à espera de um crescimento de 1,8%. Portanto, o FMI está mais otimista.

Segundo o novo Artigo IV, o défice público deve permanecer em 0,4% do PIB em 2023, o mesmo valor do ano passado. O FMI alinha assim com a previsão do governo e do ministro das Finanças, Fernando Medina. No Outlook de abril, o FMI previa que o défice subisse de 0,4% em 2022 para 1,2% este ano.

Quanto ao peso da dívida pública, a instituição também está notoriamente mais otimista, prevendo agora que o rácio desça de 113,9% do PIB em 2022 para 107,9% no final deste ano. Também está mais em linha com a previsão das Finanças, que aponta para um nível de dívida de 107,5% em 2023.

Diz o FMI que "apesar das novas medidas de apoio orçamental, o défice diminuiu significativamente até atingir 0,4% do PIB em 2022, refletindo principalmente receitas fiscais mais fortes". E acrescenta que "a dívida pública caiu abaixo do nível pre-pandémico para 113,9% do PIB", sendo que em 2023, "prevê-se que a situação orçamental seja globalmente semelhante à de 2022" e que "a dívida pública se mantenha numa trajetória descendente em 2023 e no médio prazo".

Quanto à inflação, um dos indicadores mais seguidos atualmente por causa do seu valor anormalmente elevado e da forma como tem penalizado o poder de compra e pressionado em alta algumas atualizações salariais, o FMI está praticamente na mesma. No Artigo IV, a previsão para o andamento dos preços é revista em baixa ligeira, para 5,6%.

"Procura arrastada pelo custo de vida elevado"

Seja como for, o FMI alerta que "a forte recuperação de Portugal manteve-se até ao início de 2023, mas prevê-se agora que o crescimento abrande no curto prazo", diz o estudo do Fundo. "O crescimento da procura interna deve ser arrastado para baixo pelo elevado custo de vida e o crescimento das exportações abrandar", refere.

Embora diga que "os riscos são equilibrados", o FMI sublinha que "as condições financeiras mais restritivas - potencialmente acompanhadas de uma correção acentuada dos preços da habitação, ou um abrandamento mais profundo a nível mundial ou regional, e preços da energia persistentemente mais elevados - podem prejudicar ainda mais o crescimento, aumentando os riscos". "Em contrapartida, a continuação da forte dinâmica do turismo e a resiliência do mercado de trabalho constituem os principais riscos positivos".

O FMI insiste, como sempre, na importância da consolidação orçamental e recomenda que o governo mantenha freio nas contas públicas e aposte numa política "restritiva".

"Do lado das receitas, a simplificação do sistema fiscal e a eliminação das distorções, a revogação das taxas reduzidas de IVA, a reintrodução de impostos sobre o carbono e a melhoria da administração fiscal são reformas fundamentais".

Na despesa, são necessárias mais "reformas para conter as pressões sobre os gastos do envelhecimento da população com pensões e cuidados de saúde". "São prioridades de longa data", relembra o FMI.

luis.ribeiro@dinheirovivo.pt

22.6.23

Famílias financiam Estado com 8,5 mil milhões até abril sobretudo através dos Certificados de Aforro

História de Luís Leitão, in ECO

O financiamento das administrações públicas continua em terreno negativo. De acordo com dados divulgados esta quinta-feira pelo Banco de Portugal, o financiamento acumulado das administrações públicas foi de negativo em cinco mil milhões de euros nos primeiros quatro meses do ano.

Este valor compara com um financiamento positivo de 1,7 mil milhões de euros registados em igual período de 2022.

De acordo com dados do regulador, o financiamento concedido às administrações públicas pelos bancos e pelo exterior foi negativo em 8,3 mil milhões de euros e em 5,2 mil milhões de euros, respetivamente. Mas, em contrapartida, as famílias financiaram as administrações públicas em 8,5 mil milhões de euros, sobretudo através da aquisição de Certificados de Aforro e de Certificados do Tesouro.


Um financiamento líquido negativo indica que as aquisições líquidas de ativos financeiros pelas administrações públicas foram superiores às emissões deduzidas de amortizações dos passivos, ou seja, “as administrações públicas utilizaram parte dos fundos obtidos para financiarem outros setores da economia”, lê-se no comunicado do Banco de Portugal.

Os dados mais recentes do IGCP e do Banco de Portugal sobre os títulos de dívida da República para o retalho mostram que, entre janeiro e maio, último mês de comercialização da Série E de Certificados de Aforro, as subscrições líquidas de Certificados de Aforro atingiram os 12,9 mil milhões de euros.

Em contraciclo estiveram os Certificados do Tesouro que, nos primeiros cinco meses do ano, tiveram subscrições líquidas negativas de 2,7 mil milhões de euros.

Só em maio, enquanto os Certificados de Aforro registaram subscrições líquidas de 2,2 mil milhões de euros, 32% acima do registado em abril, os Certificados do Tesouro contabilizaram o 19.º mês consecutivo de subscrições líquidas negativas, com a saída de mais de 510 milhões de euros.
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Famílias com taxa de esforço acima de 100% excluídas do apoio à renda

Salomé Pinto, in DN


Autoridade Tributária está a enviar e-mails, alterando o critério da lei que indica apenas que mais de 35% do rendimento mensal tem de ser afeto ao pagamento da renda da casa para se beneficiar da ajuda. Casos serão avaliados depois, garante o governo.


Todas as famílias com taxa de esforço igual ou superior a 100% estão a ser excluídas do apoio à renda, de valor máximo de 200 euros por mês, mesmo que preencham todos os critérios de elegibilidade previstos no decreto-lei que cria a medida, segundo notificações que os inquilinos estão a receber do Fisco. O governo já garantiu, contudo, que estes casos serão avaliados mais tarde, à medida que sejam analisadas as declarações de IRS entregues este ano e relativas aos rendimentos de 2022. Recorde-se que a campanha declarativa termina a 30 de junho.


Face aos milhares de pedidos de informação de inquilinos que ainda não receberam o subsídio, a Autoridade Tributária (AT) já começou a responder, através do endereço rendasapoio@at.gov.pt. Num e-mail, a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, a AT começa por citar o Decreto-Lei n.º 20-B/2023 de 22 de março, que define o apoio extraordinário, elencando todos os requisitos que os arrendatários devem preencher para serem elegíveis. Os mesmos constam do n.º1 do artigo 4.º do diploma. Assim, podem beneficiar dos apoios à renda os agregados familiares que, cumulativamente, "a) tenham residência fiscal em Portugal; b) sejam titulares de contratos de arrendamento ou subarrendamento de primeira habitação, devidamente registados junto da Autoridade Tributária (AT)", segundo o mesmo texto legal. Nestes pontos, a informação do Fisco bate certo com a lei. Mas, depois, são alteradas as alíneas c) e d) do decreto, no seguimento das orientações emanadas do despacho interno das Finanças, assinado pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Nuno Félix, a 1 de junho.

O rendimento a ter em conta passa a ser o bruto somado aos ganhos sujeitos as taxas especiais, como pensão de alimentos e rendas de imóveis, em vez da matéria coletável, já depois do abate da dedução específica de 4104 euros e sem os rendimentos de taxas especiais, caso não tenham sido englobados. Ou seja, é elevada a fasquia do rendimento apurado, o que dita apoios mas baixos ou mesmo a exclusão da medida, tal como o DV noticiou.

O último critério para acesso ao apoio também tem uma redação diferente. Em vez de referir que o beneficiário, para ser elegível, deve "ter uma taxa de esforço igual ou superior a 35 % do seu rendimento anual com os encargos anuais de pagamento das rendas", como dita a lei, o e-mail da AT indica que as famílias devem "ter uma taxa de esforço igual ou superior a 35% (e igual ou inferior a 100%) do rendimento do seu agregado familiar".

Face aos milhares de pedidos de informação de inquilinos que ainda não receberam o subsídio, a Autoridade Tributária (AT) já começou a responder, através do endereço rendasapoio@at.gov.pt. Num e-mail, a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, a AT começa por citar o Decreto-Lei n.º 20-B/2023 de 22 de março, que define o apoio extraordinário, elencando todos os requisitos que os arrendatários devem preencher para serem elegíveis. Os mesmos constam do n.º1 do artigo 4.º do diploma. Assim, podem beneficiar dos apoios à renda os agregados familiares que, cumulativamente, "a) tenham residência fiscal em Portugal; b) sejam titulares de contratos de arrendamento ou subarrendamento de primeira habitação, devidamente registados junto da Autoridade Tributária (AT)", segundo o mesmo texto legal. Nestes pontos, a informação do Fisco bate certo com a lei. Mas, depois, são alteradas as alíneas c) e d) do decreto, no seguimento das orientações emanadas do despacho interno das Finanças, assinado pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Nuno Félix, a 1 de junho.

O rendimento a ter em conta passa a ser o bruto somado aos ganhos sujeitos as taxas especiais, como pensão de alimentos e rendas de imóveis, em vez da matéria coletável, já depois do abate da dedução específica de 4104 euros e sem os rendimentos de taxas especiais, caso não tenham sido englobados. Ou seja, é elevada a fasquia do rendimento apurado, o que dita apoios mas baixos ou mesmo a exclusão da medida, tal como o DV noticiou.

O último critério para acesso ao apoio também tem uma redação diferente. Em vez de referir que o beneficiário, para ser elegível, deve "ter uma taxa de esforço igual ou superior a 35 % do seu rendimento anual com os encargos anuais de pagamento das rendas", como dita a lei, o e-mail da AT indica que as famílias devem "ter uma taxa de esforço igual ou superior a 35% (e igual ou inferior a 100%) do rendimento do seu agregado familiar".

Nesta notificação, a AT conclui que "não se encontram preenchidos os requisitos para beneficiar do apoio, atendendo à proporção entre os rendimentos auferidos e declarados relativamente ao ano de 2021 e o valor da renda". Ou seja, este inquilino foi excluído do subsídio por apresentar uma taxa de esforço com o pagamento mensal da renda superior a 100%.

O governo já sinalizou, porém, que estes casos serão avaliados posteriormente. "Quando os dados dos rendimentos transmitidos pela AT e pela Segurança Social ou IHRU não sejam coerentes com os dados constantes dos contratos de arrendamento, evidenciando taxas de esforço superiores a 100%, o pagamento do apoio deve depender da verificação daquela taxa de esforço, desde logo, em face do rendimento declarado relativamente ao período de 2022, nas declarações de IRS entregues já em 2023", segundo uma nota de esclarecimento conjunta dos ministérios das Finanças, Habitação e Trabalho, que são responsáveis pela gestão e atribuição do apoio.

Fiscalistas e Deco Proteste alertam para a ilegalidade do despacho das Finanças, nomeadamente quanto à fórmula de cálculo do rendimento. Sofia Lima, jurista da Deco, afirma que "esta situação está a gerar uma situação de grande injustiça, porque, de acordo com a interpretação da lei, não há dúvidas de que deveria ter sido considerado o rendimento coletável". "Ao ter em conta o rendimento bruto mais os ganhos tributados a taxas especiais, está-se a afastar um universo muito significativo de famílias que poderiam ter recebido, além de diminuir o montante do apoio". Por isso, a Deco considera "o despacho ilegal, na medida em que se está a sobrepor à lei".

A mesma opinião é partilhada por Luís Leon, cofundador da consultora Ilya. "Não faz sentido alterar uma lei através de um despacho, porque um decreto tem de passar pelo Presidente da República e um despacho não. Isto é uma ilegalidade. O governo, se queria mudar as condições do apoio, devia ter revisitado o decreto" colocando-o novamente sob escrutínio de Belém, defende o fiscalista.

De igual modo, Ricardo Borges, sócio da sociedade de advogados Ricardo da Palma Borges & Associados, critica "a interpretação dada pelas Finanças em relação ao apuramento do rendimento", sublinhando que "rendimento para apuramento da taxa", como se lê no diploma, "diz respeito a matéria coletável". Para o fiscalista, "o despacho é ilegal".

Perante esta onda de indignação junto de peritos e, sobretudo, de famílias com contrato de arrendamento que se sentiram lesadas, o governo já admite clarificar o decreto-lei. Porque a norma interna da AT, só por si, não é suficiente e, na opinião de vários especialistas, é ilegal. "O despacho uniformizou e clarificou a aplicação do apoio extraordinário, em tempo útil de este chegar ao terreno quando as famílias mais precisam e no pressuposto de não estar a ser ultrapassado qualquer limite legal", justificou o Ministério das Finanças, numa resposta enviada ontem à Lusa, precisando, no entanto, que, "subsistindo dúvidas, e a bem da segurança jurídica, promover-se-á por via legislativa tal clarificação".

Mais de 185 mil famílias vão receber o apoio à renda. Destas, cerca de 36 mil têm de atualizar o IBAN na Segurança Social Direta (o valor será transferido no pagamento seguinte à atualização), e cerca de 20 mil têm prestações inferiores a 20 euros, o que significa que o pagamento pode ainda não ter sido processado, indicou o governo ao DN/DV.

salome.pinto@dinheirovivo.pt

19.6.23

Habitação. Apoio extraordinário às rendas chega a cerca de 150 mil famílias

in RTP

Cerca de 150 mil famílias começam esta segunda-feira a receber o apoio extraordinário às rendas.
A maioria das famílias recebe o apoio pela primeira vez e junta-se aos beneficiários da Segurança Social que já o tinham recebido no mês passado.

Este apoio tem um valor máximo de 200 euros e vai ser atribuído durante um período máximo de cinco anos, com retroativos a janeiro de 2023. A medida faz parte do Programa Mais Habitação e tem um custo anual de 240 milhões de euros.

A ministra da Habitação relembrou, na edição desta segunda-feira do Bom Dia Portugal, que as famílias terão de possuir dados atualizados na Autoridade Tributária e na Segurança Social, de forma a poderem receber o apoio.

14.6.23

Ensino profissional ainda se associa a baixo desempenho e contexto familiar

Por Lusa, in DN

Com 45% dos estudantes a frequentarem cursos profissionais, Portugal está entre os países europeus onde menos jovens optam por aquela via de ensino.

A opção dos alunos pelo ensino e formação profissional ainda está associada a um baixo desempenho académico e a contextos familiares e socioeconómicos mais desfavorecidos, em que dominam níveis de escolaridade inferiores.

As conclusões constam do estudo "Como valorizar o Ensino Secundário Profissional? Dilemas, Desafios e Oportunidades", divulgado esta quarta-feira pela Edulog - iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo - em colaboração com a Universidade de Aveiro.

Com 45% dos estudantes a frequentarem cursos profissionais, Portugal está entre os países europeus onde menos jovens optam por aquela via de ensino. A escolha continua ainda associada a desempenhos académicos mais baixos e contextos desfavorecidos.

"O contexto socioeconómico é visto como determinante para a escolha do ensino secundário profissional, designadamente porque, para as famílias mais carenciadas, esta tipologia de ensino oferece perspetivas de uma integração mais rápida no mercado de trabalho após a conclusão do nível de ensino obrigatório", refere o relatório.

Em comparação com os colegas do chamado ensino regular, há também diferenças em termos do histórico profissional e académico das famílias. Enquanto um terço dos alunos de cursos científico-humanísticos provêm de famílias em que o ensino superior é dominante, apenas 9% dos jovens a frequentar cursos profissionais têm contextos familiares semelhantes.

Nas famílias da maioria desses estudantes, dominam níveis de ensino inferiores e as profissões mais frequentes incluem operários e trabalhadores não qualificados.

O contexto familiar influencia igualmente o caminho dos estudantes quando terminam o ensino obrigatório. Aqueles que prosseguem os estudos têm, habitualmente, tutores mais escolarizados, uma escolha que está também ligada a médias mais altas e faixas etárias mais jovens.

Por outro lado, no que diz respeito ao perfil dos alunos, apesar do historial de baixo desempenho, os professores ouvidos pelos investigadores referem uma grande evolução de competências ao longo dos três anos do secundário e vantagens relativamente ao ensino regular.

"Os estudantes são descritos como mais resilientes, com maior capacidade de resolução de problemas e maior capacidade de trabalho em equipa do que os colegas do ensino regular", lê-se no relatório.

Ainda assim, os investigadores reconhecem que "a imagem geral do ensino secundário profissional é tendencialmente negativa" e sublinham a necessidade de aumentar o reconhecimento do seu valor dentro das escolas, um trabalho que deve contar, desde logo, com os professores.

À agência Lusa, David Justino, do Conselho Consultivo da Edulog, explicou que esse preconceito decorre, por um lado, da reprodução da imagem criada durante o Estado Novo em torno do ensino técnico-profissional, para onde eram empurrados os alunos com maiores dificuldades, mas também da ideia de que o ensino profissional é uma via mais acessível e menos exigente para a conclusão da escolaridade obrigatória.

Por outro lado, acrescenta que há casos "em que a orientação vocacional tende a encaminhar os alunos para cursos menos apelativos de forma a garantir o seu funcionamento".

Para o investigador e antigo ministro da Educação, a valorização do ensino profissional deve, no entanto, passar sobretudo por um 'upgrade' curricular, maior facilidade de contratação de técnicos especializados em cooperação com as empresas e pela promoção de uma rede de escolas profissionais de referência, selecionadas em função da qualidade da oferta e empregabilidade.

"Não creio que o problema resida no 'encaminhamento' dos alunos, mas antes na qualificação da oferta de ensino profissional que permita superar o seu atual estatuto", disse Justino em resposta escrita à Lusa.

12.6.23

Renegociação de crédito à habitação pode travar acesso à bonificação de juros

Rosa Soares,  in Público


Clientes que renegociaram os contratos e ficaram com uma taxa de esforço inferior a 35% estão excluídos da medida que demorou mais de dois meses a chegar ao terreno.

As primeiras respostas aos pedidos de acesso à medida que pretende garantir a bonificação parcial de juros no crédito à habitação estão a confirmar aquilo que já se antevia. A medida tem uma abrangência muito limitada, porque considera apenas o encargo da prestação da casa para o cálculo da taxa de esforço das famílias (peso do crédito no seu rendimento). Mas também porque, constata-se agora, acaba por excluir quem teve necessidade de renegociar as condições dos contratos para baixar prestação, reduzindo a taxa de esforço abaixo dos 35%, mesmo que depois desse processo o valor a pagar continue elevado e acima do valor fixado aquando do início do empréstimo.

A renegociação dos empréstimos da casa por parte de quem não conseguiu acomodar o aumento das taxas Euribor foi incentivada por um diploma do Governo, o Decreto-Lei n.º 80-A/2022, de 25 de Novembro, que criou condições especiais para os clientes com taxas de esforço igual ou superior a 36% e empréstimos até 300 mil euros, poderem alterar as condições do contrato, como o alargamento do prazo ou o estabelecimento de períodos de carência de capital, entre outras. Isto, com o objectivo de baixar as prestações.

Depois daquela iniciativa, o Governo aprovou outra medida de apoio a agregados familiares com menores rendimentos, a bonificação parcial de juros, criada pelo Decreto-lei n.º 20-B/2023, de 22 de Março, cuja aplicação efectiva se arrastou por mais de dois meses, com as primeiras respostas a chegar aos clientes que a pediram apenas nos últimos dias. Para além da demora em chegar às famílias, as respostas estão a surpreender alguns clientes pela negativa, uma vez que estes estão a ser informados de que não cumprem os critérios de admissibilidade.

Estão em causa clientes que se viram forçados a renegociar os empréstimos da casa nos últimos meses, por não conseguirem suportar o aumento muito significativo das prestações, na sequência da forte subida das taxas Euribor, mas que no âmbito desse mecanismo ­— que tem custos a prazo, como o pagamento de mais juros­ — acabaram por ficar com uma taxa de esforço abaixo de 35%. O que os exclui, agora, do acesso à bonificação de juros, uma situação para que não foram alertados, segundo alguns casos que são do conhecimento do PÚBLICO.

Para esta situação contribui o facto de os critérios de acesso à medida, apesar de se destinar a famílias com rendimentos modestos, no limite até ao sexto escalão do IRS (ou rendimento bruto anual até 38.632 euros do agregado), serem muito restritivos. Como o PÚBLICO já noticiou, e ao contrário do que inicialmente se previa, a bonificação parcial de juros acabou por ficar limitada a quem apresente uma taxa de esforço igual ou superior a 35%, mas considerando apenas a prestação do empréstimo da casa, excluindo outros créditos, incluindo alguns complementares ao crédito à habitação e ao consumo, mesmo que representem um peso significativo no orçamento familiar. A bonificação também é aplicada apenas a partir de um determinado patamar da taxa Euribor — acima dos 3% em boa parte dos casos, nível em que se encontram já todos os prazos utilizados no crédito à habitação.

Para a associação de defesa do consumidor Deco, as respostas que estão a chegar aos clientes confirmam os alertas feitos sobre a restritividade dos critérios. “Em alguns casos, as instituições financeiras nem sequer detalham o motivo da exclusão dos particulares, limitando-se a dizer que não cumprem os requisitos de elegibilidade”, adianta ao PÚBLICO Natália Nunes, directora do Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da associação.

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6.6.23

Apoio à renda chega este mês a mais 154 mil famílias e ronda os 100 euros mensais

 Por Lusa, in ECO


Os apoios às rendas vão chegar a 154.212 agregados este mês, que vão receber um valor médio mensal de 100 euros, e que se juntam aos cerca de 32 mil antes identificados, num total de 186 mil.

Estes dados foram referidos esta terça-feira à Lusa pela ministra da Habitação, numa entrevista que será divulgada na integra posteriormente e em que Marina Gonçalves refere que o valor anual de despesa associado a este apoio vai rondar os 240 milhões de euros.

“Há uma primeira leva de contratos de arrendamentos, que já foi identificada, em que o apoio já foi pago a cerca de 30 mil contratos de arrendamento, e agora teremos a segunda fase que nos vai permitir chegar a cerca de 180 mil contratos de arrendamento, o que significa cerca de 186 mil famílias“, precisou a ministra.

Nos primeiros pagamentos efetuados, e que corresponderam a 32.115 agregados, o valor do apoio mensal (pago com retroativos a janeiro) rondou os 86 euros. “Agora nesta segunda leva [o valor do apoio mensal] é à volta de 100 euros“, precisou a ministra.

Em causa está o pagamento de um apoio aos inquilinos cuja taxa de esforço com o pagamento da renda supera os 35% até ao valor máximo mensal de 200 euros.

No total — entre os 32 mil agregados identificados inicialmente e os cerca de 154 mil agregados agora identificados — o apoio vai chegar a cerca de 186 mil famílias. Um número que supera os 150 mil inicialmente estimados pelo Governo e que faz também a despesa anual associada à medida avançar dos 200 milhões de euros estimados inicialmente para 240 milhões de euros.

“Este é um programa a cinco anos e, por isso, mantendo-se a elegibilidade nos termos atuais estamos a falar à volta de 240 milhões de euros por ano”, precisou a ministra.

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Mais pobres com mais dificuldades nas despesas, sobretudo nos medicamentos

Por Lusa, in Dinheiro Vivo


As famílias com menores rendimentos tiveram em 2022 mais dificuldades em fazer face às despesas habituais, sobretudo a comprar medicamentos, que ainda representam a maior fatia das despesas associadas aos cuidados de saúde primários ou urgências.


Segundo o relatório "Acesso a cuidados de saúde, 2022 -- As escolhas dos cidadãos no pós-pandemia", da autoria dos investigadores Pedro Pita Barros e Eduardo Costa e que será apresentado esta terça-feira, a proporção de famílias que pede a substituição de um fármaco de marca pelo respetivo genérico aumenta com o acréscimo das dificuldades económicas, passando de 33% em 2019 para 56% em 2022.


"É um efeito que não é surpresa que exista, mas foi até certo ponto surpresa a magnitude do efeito, [o facto de] ser tão forte", admitiu, em declarações à Lusa, o investigador Pedro Pita Barros.

O especialista lembrou ainda que os mais pobres são afetados de duas formas distintas, "que se reforçam mutuamente".

Por um lado, devido ao tipo trabalho que têm, "muitas vezes não têm as mesmas facilidades para estar em teletrabalho ou poderem evitar transportes públicos, como outras pessoas de profissões que dão rendimentos mais elevados", ficando mais expostas ao risco de doença.


Por outro lado, são também provavelmente profissões em que o impacto económico da redução da atividade durante a pandemia terá sido maior.


"Acabam por ter maior exposição, mas também provavelmente menor disponibilidade financeira, ou maior incerteza financeira do que teriam fora da pandemia. (...) São apanhados numa tenaz, em que um dos lados é o económico e do outro a saúde", explicou.

Em termos de intervenção pública, Pita Barros diz que esta situação deveria preocupar os decisores para "perceber melhor como é que se pode tentar recuperar essas situações e garantir agora um acesso melhor" a estas pessoas.

"A parte económica, em princípio, estará a recuperar com a recuperação da economia. A parte de saúde, terá de se perceber se são precisas medidas especificas de proteção financeira adicional, em particular no campo do medicamento", insistiu, lembrando que é nos medicamentos associados à prescrição que está o maior peso financeiro para estas famílias.

O relatório "Acesso a cuidados de saúde, 2022 -- As escolhas dos cidadãos no pós-pandemia", da autoria dos economistas Pedro Pita Barros e Eduardo Costa, será apresentado hoje, no auditório BPI All in One, no Saldanha, em Lisboa.

5.6.23

Quase 80% das creches privadas “a caminho” de aderirem à gratuitidade

Patrícia Carvalho, in Público


Há 58.400 crianças a beneficiar da gratuitidade, mas insuficiência de vagas continua a ser o grande entrave à universalidade do programa Creche Feliz.

Ao fim de cinco meses de ter sido estendido aos privados, o programa Creche Feliz, destinado à aplicação da gratuitidade nas creches, já conseguiu cativar a adesão de 70% dos estabelecimentos lucrativos existentes em Portugal. E há mais 40 processos em análise que, quando estiverem concluídos, vão fazer esse número saltar para os quase 80%. Com 58.400 crianças abrangidas pelo programa, há evoluções positivas e problemas que tardam em ser resolvidos.

Susana Batista, da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular (ACPEEP), não se mostra surpreendida com os níveis de adesão dos estabelecimentos privados, que foram revelados, esta semana, pela secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, numa audição parlamentar. “Em boa verdade, já esperava esta adesão, porque neste momento a maior parte das creches privadas são pequenos espaços em áreas em que as pessoas não podem pagar mensalidades muito elevadas. Por isso, os valores que praticam já estão enquadrados com os valores que a Segurança Social se propõe a pagar”, disse ao PÚBLICO.

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31.5.23

Prestação num crédito de 200 mil euros sobe 57% e passa mil euros

Rosa Soares, in Público

Taxas fecham Maio nos valores mais altos desde 2008. Subida em cadeia abrandou, mas impacto nos créditos continua a ser elevado.



Há uma boa notícia na evolução das taxas Euribor em Maio: o ritmo de subida abrandou ligeiramente face aos meses anteriores. Mas continua a manter-se a má notícia, a do agravamento significativo das prestações do crédito à habitação, especialmente nos contratos associados aos prazos a seis e 12 meses, porque são os que estão em níveis mais elevados e são revistos em intervalos de tempo maiores.


A situação é particularmente mais grave na Euribor a 12 meses, a mais utilizada (41%) nos empréstimos contratados entre 2015 e 2021, período em que os três prazos usados no crédito à habitação estiveram em valores negativos.



A média mensal das Euribor de Maio serve de referência para as revisões de créditos que venham a ocorrer em Junho, bem como para os novos empréstimos a contratar durante o próximo mês.


Apenas a uma sessão do fecho do mês, a Euribor a 12 meses foi a que menos subiu. A média desta taxa avançou para 3,859% até 30 de Maio, mais 0,102 pontos percentuais do que em Abril, em linha com a variação em cadeia que se tinha verificado também nesse mês (mais 0,110 pontos face a Março). Apesar de ter sido a que menos subiu no mês, numa comparação com a evolução da Euribor a três e seis meses, é esta taxa que mais vai agravar os créditos a rever brevemente, uma vez que apresenta uma diferença de 3,572 pontos percentuais face ao valor de há um ano.

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23.5.23

Nascimento do primeiro filho aumenta despesa das famílias em 20%

Por Lusa, in Público



Instituto Nacional de Estatística publicou informação sobre as mudanças no padrão de despesa das famílias com o nascimento do primeiro filho.

Subida nas despesas de saúde

No mês do nascimento, há um pico nas despesas de saúde do agregado familiar, que representam "cerca de duas vezes mais do que o observado no período anterior ao início da gravidez", referiu o INE, acrescentando: "A magnitude do efeito nas despesas com saúde diminui nos seis meses seguintes ao nascimento, observando-se, em contrapartida, um aumento de 51,5% nas despesas em estabelecimentos do sector do retalho".


A partir do primeiro ano de vida, as despesas de saúde e no retalho estabilizam em torno de um aumento permanente de 26,9% e de 16,1%, respectivamente.

Nos meses que antecedem o nascimento do primeiro filho, observa-se uma tendência para o aumento das despesas com gás, electricidade, água e actividades financeiras e seguros, que se torna "expressivo" nos meses seguintes ao nascimento. Nos seis meses posteriores ao nascimento, as despesas com gás e electricidade aumentam, em média, 15,9%.

As despesas com transportes, alojamento e restauração começam a diminuir progressivamente a partir do terceiro mês de gravidez, "reduzindo-se drasticamente", segundo o INE, no mês de nascimento e no mês seguinte, quando a despesa com transportes se reduz 52,9%. Os gastos com alojamento e restauração sofrem um corte de 55,6%, comparativamente ao período pré-gravidez.

Alojamento e restaurantes

A partir do segundo mês de vida da criança, as despesas com transportes, actividades recreativas, alojamento e restauração começam progressivamente a aumentar, "nunca atingindo, contudo, os níveis observados nos meses anteriores ao início da gravidez", sendo as despesas com alojamento e restauração nos 12 meses seguintes ao nascimento a única excepção.

"Momentaneamente, aumentam 4,2% em relação ao período anterior ao início da gravidez, provavelmente em resultado de despesas relacionadas com a celebração do primeiro ano de vida do filho", constatou o instituto.




22.5.23

Quase metade das famílias avalia como encargo pesado despesas com saúde

Por Lusa, in Observador


Quase metade das famílias portuguesas avaliaram as despesas com cuidados médicos como "um encargo algo pesado ou muito pesado", sendo maior no caso das famílias em risco de pobreza.


Quase metade das famílias avaliaram em 2022 as despesas com cuidados médicos como “um encargo algo pesado ou muito pesado”, 49,7% no caso dos medicamentos e 51,7% nos cuidados dentários, apesar da diminuição destas proporções relativamente a 2017.


“A avaliação negativa do peso dos encargos financeiros com os cuidados de saúde é maior no caso das famílias em risco de pobreza, sobretudo para os cuidados dentários (59,4% de famílias em risco de pobreza) e para os medicamentos (61,6% de famílias em risco de pobreza)”, revela o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2022 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e divulgado esta sexta-feira.


De acordo com o INE, 75,5% da população com 16 ou mais anos consultou um médico de clínica geral nos 12 meses anteriores à entrevista, o que significa uma descida de 5,8 pontos percentuais (p.p.) comparando com 2017.


No ano passado, apenas 57,4% dos entrevistados referiram ter consultado um médico dentista ou ortodontista, o que segundo o INE reflete uma melhoria em relação a 2017 (53,4%).

De acordo com os dados, 52,5% consultaram médicos de outras especialidades (exceto dentistas e ortodontistas e medicina geral e familiar) nos 12 meses anteriores à entrevista, proporção ligeiramente inferior à estimada para 2017 (53,1%).

As mulheres referiram ter tido mais consultas médicas e com maior frequência do que os homens, com proporções de 80,6% de consultas de medicina geral, 59,7% de consultas com cuidados dentários e 57,8% com outros especialistas, e com 69,8%, 54,8% e 46,6%, respetivamente, para os homens.

O INE salienta que “não existem diferenças substanciais no acesso às consultas de clínica geral entre a população em risco de pobreza e a restante população, mas mais de metade da população que vivia em situação de risco de pobreza não fez qualquer consulta de saúde oral ou de outras especialidades médicas nos 12 meses anteriores à data da entrevista”.


19.5.23

Custos com medicamentos e dentistas são um encargo pesado para metade das famílias

Ana Maia, in Público


Situação torna-se mais pesada quando estão em causa famílias em risco de pobreza, revela Inquérito às Condições de Vida e Rendimento. Metade da população com 18 ou mais anos tem excesso de peso.


As despesas com a saúde são um encargo pesado para muitas famílias, sobretudo quando se fala de medicamentos e cuidados orais, revela o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2022, divulgado esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). A situação torna-se ainda mais pesada quando estão em causa famílias em risco de pobreza.


De acordo com os resultados, a avaliação que as famílias fazem do peso dos encargos financeiros na saúde não é igual para todos os tipos de cuidados. E apesar de ter havido uma diminuição destas proporções em relação a 2017, os números de 2022 ainda representam uma fatia importante das famílias. “Varia entre 45,8% no caso das que avaliam os cuidados médicos como um encargo algo pesado ou muito pesado, 49,7% no caso dos medicamentos e 51,7% no caso dos cuidados dentários”, nota o INE. Em 2017, estas percentagens eram, respectivamente, de 48,4%, 54,5% e 54,7%.


Para avaliar esta realidade, a questão foi dividida em três “pesos”: encargo muito pesado, algo pesado e não é um encargo pesado. No caso dos cuidados médicos, onde se incluem consultas, exames e tratamentos médicos, de medicina geral ou especializada, 12,7% das famílias disseram que representava um encargo muito pesado e 33,1% algo pesado. Já os medicamentos representavam um encargo muito pesado para 16,1% das famílias e algo pesado para 33,6% e os cuidados dentários um encargo muito pesado para 17,5% das famílias e algo pesado para 33,7%.

“Como seria expectável, a avaliação negativa do peso dos encargos financeiros com os cuidados de saúde é maior no caso das famílias em risco de pobreza, sobretudo para os cuidados dentários (59,4% de famílias em risco de pobreza) e para os medicamentos (61,6% de famílias em risco de pobreza)”, refere o documento, que acrescenta que foi na Madeira que se registaram as proporções mais elevadas de agregados familiares que avaliavam como pesados os encargos financeiros com os cuidados de saúde.

Numa avaliação ao acesso aos cuidados de saúde, segundo os resultados do inquérito, no ano passado 75,5% da população residente com 16 ou mais anos referiu ter consultado um médico de clínica geral nos 12 meses anteriores à entrevista. Em 2017 tinham sido 81,3%. Mas dos que foram ao médico de família em 2021/2022, quase 47% fizeram-no uma ou duas vezes e 28,6% três vezes ou mais.

Foram os mais velhos aqueles que mais consultaram um médico de clínica geral, assim como aqueles que têm menos escolaridade. “A população reformada foi a que mais consultou um médico de clínica geral, em proporção (92,4% referiu ter consultado) e em frequência de consultas (58,9% consultou pelo menos três vezes)”, aponta o documento, referido que “não existem diferenças substanciais no acesso às consultas de clínica geral entre a população em risco de pobreza e a restante população”.

O mesmo não acontece em relação aos cuidados dentários, com o INE a referir que “a proporção de pessoas em risco de pobreza que tinham consultado um médico dentista ou ortodontista era bastante mais baixa (44,2%) do que a obtida para a restante população (59,9%)”. Em termos gerais, em 2022, 57,4% da população residente com 16 ou mais anos referiu ter tido uma consulta de cuidados dentários nos 12 meses anteriores à entrevista. Uma percentagem maior à de 2017, que foi de 53,4%.

“Dos que tiveram uma consulta de saúde dentária em 2021/2022, 34,4% fizeram-no uma ou duas vezes e 23% fizeram-no três vezes ou mais”, mostra o relatório, acrescentando que as consultas com dentistas ou ortodontistas foram mais frequentes na população dos 16 aos 44 anos (entre 65% e 68%). Foi a população com ensino superior que mais procurou cuidados de saúde oral. Alentejo e Algarve (entre 49% e 51%, respectivamente) foram as regiões com percentagens mais baixas.

Relativamente a outras especialidades – que não as três identificadas anteriormente -, nos 12 meses anteriores à entrevista 52,2% da população consultaram um médico (em 2017 foram 53,1%).
Mais de metade com excesso de peso

O excesso de peso continua a ser um problema para mais de metade da população com 18 ou mais anos: 37,3% tinha excesso de peso e 15,9% obesidade. “O excesso de peso afectava mais os homens (43,0%) do que as mulheres (32,3%) e a obesidade apresentava proporções semelhantes para ambos os sexos (cerca de 16%)”, lê-se no documento, que refere que era a população a partir dos 45 anos a mais atingida, a com menos nível de escolaridade e a reformada.

“A prevalência de excesso de peso ou obesidade atingia o valor mais elevado na Região Autónoma dos Açores, com 61,8% (38,4% com excesso de peso e 23,5% com obesidade). As regiões Norte, Algarve e Área Metropolitana de Lisboa eram as menos afectadas pela condição de excesso de peso ou obesidade, com valores da ordem dos 51% - 52%”, salienta o relatório.

“Os resultados obtidos através da aplicação da escala da insegurança alimentar (FIES) permitem concluir que, em 2022, 4,1% da população residente em Portugal se encontrava em situação de insegurança alimentar moderada e/ou grave, valor ligeiramente inferior ao obtido no ano anterior (4,3%). A insuficiência alimentar grave afectava menos de 1% da população”, refere o INE.
Consumo de álcool e tabaco

O inquérito avaliou também o consumo de álcool e tabaco. Perto de um quinto da população com 16 ou mais anos disse ter consumido bebidas alcoólicas diariamente durante os 12 meses que precederam a entrevista. A percentagem altera-se com a frequência do consumo: 18,4% disseram algumas vezes por semana; 12,3% algumas vezes por mês e 14,2% mais raramente. Mais de um terço disse não ter consumido.

Os homens (31,5%) consumiram “significativamente mais” que as mulheres (8,5%) e também existem diferenças importantes de acordo com a escolaridade. “A proporção de pessoas que consumiam álcool diariamente e com nível de escolaridade até ao ensino básico representava mais do dobro das que tinham completado o ensino superior”. Também os reformados (33,7%) indicaram ter consumido bebidas alcoólicas todos os dias, “valor bastante mais elevado que o referido pela população activa (15,7% no caso dos empregados e 15,4% no caso dos desempregados)”.

Já o consumo de tabaco de forma regular (diariamente) foi indicado por cerca de 14,1% da população com 16 ou mais anos, “resultado ligeiramente inferior ao obtido com base no Inquérito Nacional de Saúde realizado em 2019 (14,2%)”. “A distribuição do consumo regular de tabaco era mais frequente no caso dos homens (19,7%) do que nas mulheres (9,2%), nas pessoas dos 25 aos 64 anos (entre 18% e 21%) e na população que tinha completado o ensino secundário (17,2%)”, lê-se.

16.5.23

“É uma bizarria”: estudo refere que 67,4% das crianças até aos três anos das famílias mais pobres não vão à creche

Por Lusa, in Expresso


Em entrevista à agência Lusa, a propósito da apresentação do relatório anual "Portugal, Balanço Social 2022", Susana Peralta, uma das autoras do documento, considerou ser "muito difícil" que o país alcance as metas a que se propôs de combate à pobreza até 2030


A economista e investigadora Susana Peralta defendeu que a pobreza poderia ser mitigada com políticas públicas "mais musculadas" e "mais bem direcionadas", apontando que a educação pré-escolar é essencial, apesar de neste aspeto o país estar "muito mal".

Em entrevista à agência Lusa, a propósito da apresentação do relatório anual "Portugal, Balanço Social 2022", Susana Peralta, uma das autoras do documento, considerou ser "muito difícil" que o país alcance as metas a que se propôs de combate à pobreza até 2030.

Estas medidas incluíam, entre outras, 80% das pessoas entre os 20 e os 64 anos empregadas e menos 750 mil pessoas em risco de pobreza, entre as quais menos 170 mil crianças.

"Estamos no caminho, mas o caminho é muito vagaroso, é muito mais vagaroso do que aquele que seria necessário para chegarmos a 2030 com os objetivos atingidos", afirmou, apontando que as metas "são aspiracionais".

Susana Peralta salientou que será "muito difícil" alcançar as metas "sem alterar de maneira substancial os Estados Sociais".

"E sem alterar de maneira substancial um problema gravíssimo de desigualdade de oportunidades que há em todas as economias desenvolvidas e que tem a ver com mecanismos que se instalam desde a pequena infância", considerou.

De acordo com a investigadora, o relatório "Portugal, Balanço Social 2022" denuncia "indicadores preocupantes" em matéria de educação, salientando a importância desta área "na construção do capital humano" e das competências que vão permitir que as crianças sejam depois "adultos funcionais" e tenham maior probabilidade de aceder ao mercado de trabalho ou de ter melhor saúde.

"Sabemos que os anos pré-escolares são essenciais. Estamos mesmo a falar de competências que se constroem nos primeiros anos de vida e nós continuamos a ter, e isso está no nosso relatório, uma frequência de pré-escolar em Portugal que está invertida", apontou.

Classificou como "bizarria", por comparação com os restantes países da União Europeia, o facto de, em Portugal, não haver uma frequência do pré-escolar universal e de a cobertura destes estabelecimentos não abranger todo o país.

"Do ponto de vista da construção das competências para dar a essas pessoas instrumentos para saírem da pobreza quando são mais velhas, isto é catastrófico", alertou.

Denunciou também a inversão que existe no acesso, tendo em conta que a maior percentagem de crianças a frequentar creche e pré-escolar é de famílias mais ricas.

De acordo com o relatório, 67,4% das crianças até aos três anos que vivem em famílias mais pobres não vão à creche, o mesmo acontecendo com 37,2% das crianças entre os quatro e os sete anos, que não frequentam o pré-escolar.

Um facto preocupante tendo em conta, referiu, que a literatura demonstra que as competências que as crianças adquiririam na escola podem ser aprendidas em casa quando as famílias têm níveis de educação superiores, o que não se verifica, genericamente, nas famílias mais pobres.

Além da dimensão da igualdade de oportunidades, a investigadora destacou a questão das transferências sociais e questionou até que ponto os apoios sociais atuais dão tranquilidade às famílias ou algum tipo de planeamento a médio prazo, apesar de admitir que sem esses apoios "a taxa de pobreza aumentava para mais do dobro".

Susana Peralta salientou que Portugal é "uma pequena economia aberta", tão interligada com o resto do mundo que a forma de estar mais protegida dos efeitos gravosos das várias crises é tendo "maior robustez" e uma "economia mais sólida".

Ainda assim, a economista defendeu que "o problema da pobreza é primordialmente uma questão de políticas públicas", já que haverá sempre situações de pobreza que não se resolvem pelo facto de haver melhores salários.

"É preciso dar dinheiro aos pobres, em primeiro lugar, e, em segundo lugar, políticas de promoção da igualdade de oportunidades que mitiguem a maior lotaria que as pessoas têm na vida, que é a lotaria do nascimento", defendeu.

Referiu que os apoios sociais criados para combater a pobreza -- como o Rendimento Social de Inserção (RSI) e o abono de família -- não respondem às necessidades das pessoas, dando como exemplo que o valor de referência do RSI ronda os 200 euros mensais quando o limiar da pobreza está acima dos 600 euros mensais.

11.5.23

Desemprego e inflação levam mais famílias às cantinas sociais – Misericórdias

João Moura Lacerda, in Lusa


O desemprego e a inflação estão a levar mais famílias a recorrerem às cantinas sociais, alertou hoje a União das Misericórdias Portuguesas (UMP), referindo que o aumento dos pedidos de ajuda, contudo, “não é exponencial”.


“É contínuo, mas não é exponencial. Não tem nada a ver com a crise de 2011/2012. Aí foi exponencial. Há sítios onde é mais acentuado, mas não posso usar a palavra exponencial”, disse à Lusa o presidente da UMP.

De acordo com Manuel Lemos, o aumento dos pedidos de ajuda alimentar tem sido mais lento, mas é uma realidade.

“Temos em cantinas sociais (…), em Lisboa ou no Porto, um aumento. Em alguns casos tem expressão”, adiantou, explicando que os principais fatores que levam as pessoas a pedir ajuda são o desemprego, mas também o aumento do custo dos bens alimentares.


À Lusa, o presidente da UMP recordou que o aumento dos bens alimentares tem feito com que as famílias comprem menos quantidades do que antes.

“Nós movemo-nos no quadro das cantinas. Normalmente damos a refeição, mas, num caso ou noutro, também damos bens alimentares. É mais raro”, anotou.

A taxa de desemprego aumentou para 7,2% no primeiro trimestre, valor superior em 0,7 pontos percentuais à do trimestre anterior e em 1,3 pontos percentuais à do trimestre homólogo de 2022, divulgou na quarta-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE).

De acordo com o INE, entre janeiro e março, a população desempregada, estimada em 380,3 mil pessoas, aumentou 11,0% (37,6 mil) em relação ao trimestre anterior e 23,3% (71,9 mil) face ao trimestre homólogo.

A população empregada foi estimada em 4.924,7 mil pessoas e aumentou 0,4% (21,8 mil) em relação ao trimestre anterior e 0,5% (23,8 mil) relativamente ao trimestre homólogo.

JML (PD) // FPA

Lusa/Fim

Um em cada três empréstimos à habitação é feito à taxa mista ou fixa

Rosa Soares, in Público online

Forte subida das Euribor dificulta novos empréstimos, apesar da opção pelas taxas mistas e fixas ser mais cara.

Com a Euribor a subir, faça as contas à subida da prestação da casa

O novo crédito à habitação está a registar uma alteração significativa face ao que se verificava praticamente até ao final de 2022, mas esta mudança não está a acontecer pelas melhores razões. Apesar de as taxas Euribor continuarem presentes em 90% do stock dos empréstimos para compra de casa, a opção por taxas fixas e mistas tem registado um crescimento muito expressivo, representando já 35% dos montantes concedidos nos primeiros três meses do corrente ano.

Os dados constam do Relatório de Estabilidade Financeira, de Maio, divulgado esta quarta-feira pelo Banco de Portugal (BdP), que dá ainda conta que a concessão de crédito à habitação com taxa de juro fixa ou mista difere entre as instituições de crédito. “Em alguns bancos, o peso dos novos empréstimos à habitação com taxa de juro fixa ou mista foi residual, enquanto para outros, foi superior a 70% das novas operações, sobretudo no caso da taxa mista e com prazo de fixação inicial de taxa superior a cinco anos”.

Mais do que uma estratégia para fugir à incerteza do comportamento das taxas Euribor, a mudança corresponde, em boa parte dos casos, à única forma de garantir acesso ao crédito pretendido. Esta segunda razão prende-se com as limitações impostas pelo supervisor na medida macroprudencial para o crédito, criada num período em que as taxas Euribor se encontravam em terreno negativo, e que agora impede a concessão de muitos empréstimos, ou limita consideravelmente o seu montante.

Está em causa a obrigatoriedade de os bancos, nos empréstimos associados à Euribor, calcularem a taxa de esforço – percentagem do rendimento líquido das famílias necessário para o pagamento da prestação do empréstimo – com a taxa actual (Euribor actual + spread) e com um acréscimo de mais três pontos percentuais (Euribor actual + spread + 3%), o que atira o valor para mais de 6%, com a taxa de esforço a ficar muito acima dos 35%, impedindo um grande número de operação.

No caso de taxas fixas ou mistas, apesar de estas apresentarem um valor superior às Euribor, não é necessário somar os três pontos percentuais e, nessa medida, é mais fácil obter a aprovação do montante necessário para a aquisição de habitação.

A percentagem de créditos a taxa fixa no conjunto dos contratos continua, ainda assim, muito reduzida. “No período de 2011 a 2022, Portugal apresentou uma percentagem de novos empréstimos à habitação concedidos com prazo de fixação da taxa de juro superior a 10 anos bastante inferior à média da área do euro. Em 2022, esta proporção cifrou-se em 9% em Portugal, face a 59% na área do euro, tendo aumentado nove pontos percentuais face ao valor muito residual observado em 2011”, refere o Relatório de Estabilidade.

De acordo com um inquérito realizado pelo BdP a uma amostra representativa de 10 instituições bancárias, correspondendo a 94% deste segmento de mercado, 60% delas contrataram crédito à habitação com taxa fixa e 70% concederam-no com taxa mista.

Apesar da quase totalidade das instituições da amostra deter crédito à habitação com taxa de juro fixa e mista, a sua relevância na carteira das instituições varia muito. “A quota máxima do stock de crédito à habitação com taxa de juro fixa era 11% em Dezembro de 2022 (média 2%), enquanto a proporção máxima de crédito à habitação com taxa de juro mista era 42% (média de 8%)”, com a maioria das instituições (60%) a prever que “a procura de crédito com taxa de juro fixa e mista aumentará em 2023, enquanto 20% consideram que irá diminuir”.
Risco da carteira aumentou

O BdP refere, por outro lado, que os indicadores de qualidade da carteira de crédito às famílias e empresas registaram uma evolução positiva no último ano, mas admite que “subsiste alguma incerteza quanto aos potenciais impactos associados à subida acentuada das taxas de juro e ao ainda elevado nível de inflação”. Por essa razão, o supervisor bancário recomenda aos bancos que “mantenham uma gestão proactiva desse risco e que continuem a desenvolver esforços para identificar os contratos de crédito que justifiquem uma re-adequação das condições à capacidade de servir a dívida dos mutuários, por via da sua renegociação e reestruturação”.

Para a instituição liderada por Mário Centeno, a subida das taxas de juro, a inflação e a menor capacidade de poupança das famílias torna “expectável um aumento das perdas por imparidade para crédito e dos empréstimos classificados em stage 2 [de risco médio] em 2023, revertendo a dinâmica observada nos últimos anos, interrompida no período de pandemia”.

O regulador refere que a transmissão do aumento das taxas de juro aos contratos de crédito é gradual, já chegaram aos contratos indexados a Euribor a três e a seis meses, e a uma boa parte dos contratos indexados a Euribor a 12 meses, um processo que deverá manter-se até Setembro de 2023, ainda que mais acentuado para os empréstimos indexados à Euribor a 12 meses e mais moderado nos indexantes com prazos inferiores.

O regulador destaca que “a proporção de empréstimos reestruturados [maioria deles em situação de incumprimento] no total de empréstimos manteve a tendência de descida iniciada em 2017”, como este rácio a diminuir 0,4 pontos percentuais face ao final de 2021, para 3,4%.

No entanto, o BdP não avança quantos empréstimos foram renegociados - para alteração de condições de pagamento, mas sem entrada em incumprimento – ao abrigo do Decreto-lei 80-A, de 25 de Outubro, criado para facilitar esse processo num contexto de taxas de juro elevadas, justificando que “ainda não há informação suficiente que permita um tratamento sistematizado dessa realidade”.

Sobre a medida governamental de bonificação de juros a partir de um determinado nível da taxa de juro, para agregados de menos rendimentos, o governador do BdP admitiu ter "dúvidas sobre a sua eficácia". Ainda sobre esta medida que estará disponível a partir do próximo dia 16, Mário Centeno adiantou não ter dados que permitam estimar com precisão o número de pessoas, contratos, mutuários, que possam vir a beneficiar dessa medida.

Já o novo crédito à habitação está a diminuir – e o stock também, com o contributo do aumento das amortizações antecipadas. Em particular, no primeiro trimestre de 2023, observou-se um aumento das amortizações antecipadas de empréstimos para habitação própria permanente de cerca de 40% face ao período homólogo de 2022, representando 0,9% do stock de crédito à habitação própria permanente, com um contributo das amortizações antecipadas totais ligeiramente superior às amortizações parciais. Este é um desenvolvimento considerado normal num contexto de aumento acentuado do custo dos empréstimos e que é potenciado pelo diferencial significativo face às taxas de remuneração de depósitos, as quais têm aumentado de forma menos expressiva. Com Rafaela Burd Relvas