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25.9.23

Portugueses pedem menos comida, restaurantes começam a cobrar extras: “É para prevenir abusos, queremos ter clientes e não correr com eles”

Conceição Antunes Jornalista, in Expresso

Estabelecimentos alegam que o consumo médio por pessoa está a “diminuir drasticamente” e que a prática de divisão de pratos envolve custos. A Deco ainda não recebeu reclamações formais por taxas extra, frisando que devem corresponder a um serviço efetivo e comunicadas claramente ao consumidor - e que, apesar de legais, “não são uma boa prática”


É um sinal do impacto da inflação, em ambos os lados: os portugueses, confrontados com menor poder de compra, estão cada vez mais a partilhar pratos ou sobremesas destinadas a apenas uma pessoa quando vão a restaurantes – e os estabelecimentos, também a braços com aumento de custos, começam a cobrar taxas extra por uso de talheres ou de loiça. Apesar de poder ser impopular, esta cobrança é legal, desde que venha expressa no menu.

A procura por restaurantes mantém-se, o movimento não regista grandes quebras, mas o que está a “diminuir drasticamente” é o consumo médio por pessoa (chamado ticket, na gíria do sector), segundo avança a Associação Nacional de Restaurantes (Pro.Var), enfatizando a “tendência crescente” de cobrar extras para fazer face ao aumento de custos.

“As pessoas, em vez de pedirem uma refeição completa como faziam, abdicam da típica entrada, uma travessa para dois dá para três ou para quatro, a sobremesa é para dividir, ou pedem vinhos mais baratos”, exemplifica Daniel Serra, presidente da Pro.Var, frisando que “esta alteração mexe com todo o modelo de negócio dos restaurantes, feito em função de se fazerem refeições completas para pagar os custos”.

[artigo exclusivo para assinantes]

21.9.23

Estudo indica que classe média chinesa está a reduzir gastos com luxo

Por Lusa, in Expresso

Um estudo realizado na China mostra que apenas 28,5% dos mais de 4500 inquiridos estão a realizar despesas com bens de luxo, menos do que os 50% de um inquérito similar feito há cinco anos

A classe média chinesa está a reduzir gastos com luxos, face à incerteza que afeta a economia do país asiático, em particular o setor imobiliário, segundo um inquérito divulgado esta quinta-feira por um jornal de Hong Kong.

O inquérito, elaborado pela Universidade Jiaotong de Xangai e pelo grupo financeiro norte-americano Charles Schwab, revelou que apenas 28,5% dos mais de 4500 inquiridos estão a realizar despesas com bens de luxo, enquanto este valor ultrapassava os 50% há cinco anos.

A vontade de acumular capital com vista a abrir um negócio também é menor, fixando-se agora em 27,8%, quando era quase um terço, no ano passado.

O número de pessoas que dão prioridade a apoiar os pais ou a estarem preparadas para possíveis problemas de saúde, aumentou também, o que, segundo o relatório, parece indicar que a classe média chinesa está a "concentrar-se na segurança e na sustentabilidade a curto prazo, em vez de investir no futuro ou realizar gastos com bens de luxo".

O estudo abrange pessoas com rendimentos entre 125 mil yuan e um milhão de yuan (entre 16.350 e 131 mil euros) anualmente, em cidades de diferentes dimensões - mesmo aquelas consideradas de "terceiro nível" -- na China.

Este grupo é "muito importante" para o crescimento económico da China, disse Tu Guangshao, antigo vice-presidente da Câmara de Xangai e atual diretor executivo do órgão da Universidade Jiaotong responsável pelo estudo.

"Não importa em que setor estão, geralmente constituem a sua espinha dorsal. Além disso, são uma grande força de consumo, especialmente numa altura em que o Governo está a trabalhar para estimular os gastos", afirmou o especialista.

Após um início de ano promissor, a recuperação pós-pandemia da economia chinesa tem dado sinais de abrandamento nos últimos meses, crescendo menos do que o esperado no segundo trimestre (+6,3% homólogo).

A baixa procura doméstica e internacional, riscos de deflação, estímulos insuficientes, crise imobiliária e falta de confiança no setor privado são algumas das principais causas apontadas pelos analistas para explicar o abrandamento da segunda maior economia mundial.

A China representa cerca de um terço do consumo de gama alta do mundo, segundo diferentes análises.

14.9.23

IVA zero: frutas e carnes estão mais caras, legumes e peixes mais baratos

Rafaela Burd Relvas, in Público

IVA zero não teve um efeito homogéneo, registando-se baixas de preços nalguns produtos, mas aumentos noutros. A variação média dos preços é negativa, mas a queda fica aquém do esperado.


Vários dos produtos alimentares abrangidos pelo IVA de 0% subiram de preço imediatamente após a implementação da medida lançada pelo Governo para dar resposta à crise inflacionista e aliviar as despesas das famílias. Contudo, alguns meses depois deste corte fiscal que as principais retalhistas se comprometeram a reflectir nos preços finais, o custo destes produtos acabou por baixar e, em geral, estão hoje mais baratos do que o que se verificava no início deste ano. Mas há excepções, sobretudo nas carnes, azeite e frutas, que estão agora mais caros, mesmo sem IVA.

Os dados foram recolhidos pelo Observatório de Preços do sector agro-alimentar, uma iniciativa conjunta do Ministério da Agricultura e Alimentação e do Ministério da Economia e Mar. Criado ainda em Outubro do ano passado, oito meses depois do início da guerra na Ucrânia, que veio agravar a aceleração da inflação que já então se verificava, este observatório tinha como objectivo contribuir para uma "maior transparência" na cadeia de valor do sector agro-alimentar, permitindo às entidades competentes que monitorizem a evolução dos preços de um cabaz de produtos e definam políticas públicas com base nestes dados.


Já depois da criação deste observatório, o Governo lançou o IVA Zero para um conjunto de produtos alimentares, medida que entrou em vigor a 18 de Abril deste ano e que isentou de IVA um cabaz de 46 alimentos considerados essenciais, com o objectivo de mitigar o impacto da inflação sobre o rendimento disponível das famílias e fazer baixar os preços finais destes bens alimentares. Na altura, recorde-se, as principais cadeias de supermercados garantiram que iriam fazer reflectir esta medida nos preços, tendo mesmo lançado várias campanhas para identificar, nas suas superfícies, os produtos que eram abrangidos pelo IVA de 0% e que, portanto, passavam a ter preços mais baixos.


Desde então, a monitorização dos preços tem sido feita pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), que, periodicamente, tem divulgado dados sobre a evolução dos preços dos 46 produtos abrangidos pela medida.

Agora, há uma nova fonte onde essa evolução pode ser consultada, ainda que nem todos os produtos sem IVA estejam a ser analisados. Quase um ano depois da publicação em Diário da República do despacho que oficializou a criação do Observatório de Preços, a iniciativa do Governo chega, finalmente, ao terreno, com o lançamento, nesta quarta-feira, da plataforma online na qual pode ser consultada a evolução dos preços dos produtos observados. São 26 os produtos alimentares deste cabaz, incluindo carnes, peixes, azeite, lacticínios, frutas, hortícolas, cereais e ovos. Os dados são recolhidos pela empresa de análise de mercado Kantar, que disponibiliza, para cada produto, o preço médio apurado em períodos de quatro semanas, tendo em conta grandes superfícies, mas, também, pequenos comerciantes.

Preços sobem antes de cair

O PÚBLICO analisou 23 destes produtos, incluindo na análise apenas aqueles que são abrangidos pela medida do IVA de 0%: azeite virgem, carne de frango, carne de porco, arroz, esparguete, pão (bolas de carcaça), banana, laranja, maçã, pêra, alface, batata, cebola, cenoura, couve, curgete, tomate, leite UHT, manteiga, queijo flamengo, ovos, dourada e pescada. E concluiu que, ainda que a evolução dos preços seja díspar nas várias categorias de produtos, o padrão aponta para uma subida de preços no período imediatamente a seguir à implementação do corte de IVA, mas para uma posterior queda nas semanas que se seguiram.

Para esta análise, considerou-se como o período anterior à implementação do IVA de 0% o conjunto de quatro semanas terminado a 26 de Março, enquanto o período imediatamente posterior à medida é o conjunto de quatro semanas terminado a 21 de Maio (o período de quatro semanas que termina a 23 de Abril não foi considerado, uma vez que inclui dias com e sem a medida em vigor). Já o último período para o qual o Observatório de Preços tem dados disponíveis é o conjunto de quatro semanas terminado a 13 de Agosto.


Dos 23 produtos analisados, os preços médios aumentaram em cerca de um terço dos produtos logo após a implementação do IVA zero, em relação ao período anterior à entrada em vigor desta medida. Os maiores aumentos verificaram-se nas frutas, onde se registaram subidas superiores a 10%, mas também no azeite, que encareceu em 12%, e nas carnes, que sofreram aumentos, embora inferiores a 5%. Em sentido contrário, nessa altura, os preços dos hortícolas e dos peixes já caíam, sobretudo produtos como a curgete ou o tomate, cujos preços recuaram a dois dígitos.


Já nos meses seguintes, a trajectória de subida de preços inverteu-se em alguns dos produtos, ao mesmo tempo que a descida se acentuou noutros. É esse o caso, sobretudo, dos hortícolas, nos quais, entre Março e Agosto, os preços chegaram a cair mais de 40% (curgete e tomate) ou em torno de 20% (cebola e alface). Mas também nos lacticínios se verificam quedas em torno de 8%, enquanto o preço médio da dourada caiu perto de 10%. Por outro lado, o quilo de carne de frango ou carne de porco estava mais caro em Agosto do que antes da isenção de IVA nestes produtos (com o aumento a chegar quase aos 4% no caso do frango e 2% no porco), assim como o das frutas, com destaque para a laranja, que encareceu quase 40% neste espaço de quatro meses.

Mesmo assim, a descida geral de preços fica aquém do que seria esperado com o corte do IVA de 6% e 23% para 0%. Considerando todos os 23 produtos analisados, a variação média dos preços entre Março e Agosto deste ano foi de cerca de -5,5%.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]



13.9.23

Por Lusa, in Jornal Económico

Preço médio do azeite dispara 63% entre meados de julho e agosto, segundo Observatório de Preços
O preço médio do azeite subiu mais de 63% no período de 17 de julho a 13 de agosto face ao período homólogo de 2022, segundo indica a plataforma do Observatórios de Preços agroalimentar que ficou hoje disponível.


O preço médio do azeite subiu mais de 63% no período de 17 de julho a 13 de agosto face ao período homólogo de 2022, segundo indica a plataforma do Observatórios de Preços agroalimentar que ficou hoje disponível.

O Observatório de Preços compara a evolução dos preços de um cabaz de 26 produtos alimentares representativos das fileiras dos cereais, frutas, legumes, carne, peixe, ovos, azeite e laticínios, tendo em alguns produtos a comparação de valores na produção e no consumo.

De acordo com os dados disponibilizados na plataforma, o preço médio do azeite no consumo foi de 6,22 euros nas quatro semanas entre 17 de julho e 13 de agosto, valor que traduz uma subida de 63,68% (ou de 2,42 euros) em termos homólogos. Por comparação com as quatro semanas imediatamente anteriores, a subida foi de 0,94%.

Com uma subida homóloga do preço médio próxima dos 50% esteve a laranja, cujo quilo custou em média ao consumidor 1,44 euros no período considerado, refletindo um acréscimo de 47,26% do que no mesmo período de 2022 e de 15,73% face ao anterior.

O quilo de cebola e de cenoura no consumo registou, por seu lado, uma subida do preço médio de 44,9% e 42,7% respetivamente, em termos homólogos, ainda que face às quatro semanas imediatamente anteriores registem ambos descidas (-6,7% e 4,6%, pela mesma ordem).

De acordo com a mesma informação, os sete produtos hortícolas para os quais é fornecida a evolução do preço registaram subidas homólogas no consumo, exceto a alface cujos 1,99 euros por quilo representa um recuo de 13,5% face ao mesmo período do ano passado e de 2,11% face ao anterior.

O Observatório de Preços permite também verificar a evolução do preço de alimentos na produção, com os dados disponíveis a indicarem que, no caso da alface, este recuou 38,61% por comparação com o preço praticado no mesmo período de 2022 e caiu 3,5% em relação ao período anterior.

À semelhança do que se verificou nos legumes, também nas frutas (considerando novamente o consumo) a tendência do preço médio foi de subida no que diz respeito à comparação com o preço registado um ano antes, sendo esta mais expressiva (além do caso já referido do quilo da laranja) na pera (+32,86%) e na maçã (19,2%), ainda que na variação em cadeia haja a registar descidas nestes dois frutos ou no quilo de pêssegos, por exemplo.

No peixe, o preço médio das duas espécies disponíveis (dourada e pescada) aponta para descidas homólogas de respetivamente 13,32% e 6,9%, e em cadeia (ainda que de menor dimensão).

Na carne, o preço médio do quilo de frango inteiro rondou, naquelas quatro semanas de meados de julho a meados de agosto, 2,86 euros, o que reflete uma quebra de 0,34% em termos homólogos e uma subida de 2,75% em cadeia. Já o preço na produção registou uma quebra homóloga de 1,49% e de 0,7% em cadeia.

A compra de bifanas de porco também pesou no bolso do consumidor que pagou em média 5,04 euros por cada quilo, ou seja, mais 13,3% do que um ano antes e mais 2,9% do que nas quatro semanas imediatamente anteriores.

Já o esparguete, depois de ter registado um ‘pico’ de 1,72 euros a 07 de novembro do ano passado, custava no referido período de 17 de julho a 13 de agosto 1,52 euros, tendo recuado 11,4% em termos homólogos e 0,5% na comparação em cadeia.

O Observatório de Preços Agroalimentar foi hoje apresentado durante uma reunião dos ministros da Agricultura e da Economia na reunião da Plataforma para a Avaliação das Relações na Cadeia Agroalimentar.

Anunciado em maio de 2022, o Observatório foi criado com o objetivo de fazer uma “monitorização eficaz” dos custos e preços ao longo da cadeia de abastecimento agroalimentar.

 

O país está por um fio de azeite

Manuel Cardoso, opinião, in Expresso

Não tardará até dizerem que andámos a temperar acima das nossas possibilidades e que é imperativo cortarmos nas gorduras vegetais do Estado


Vivemos temperos conturbados. Nos supermercados, há garrafas de 750ml de azeite a serem vendidas a 13 euros. A produção deste óleo caiu nos países mediterrânicos e os preços dispararam nas últimas semanas. A falta de chuva, as temperaturas elevadas e o granizo estão a dizimar as produções de azeitona. Pura e simplesmente, está a deixar de haver produto para vender. Esta é claramente a notícia mais angustiante do momento. Ainda assim, passámos a semana a discutir, não a explosão do preço do óleo extraído da azeitona, mas a reunião do Conselho de Estado em que o primeiro-ministro estava com os azeites.


É o nosso modo de vida que está em causa. O azeite era, para os portugueses, o produto de luxo que não tinha um preço exorbitante. Agora, tudo mudará. Os galheteiros, por segurança, serão fixados às mesas dos restaurantes. O vinagrete tornar-se-á, sobretudo, vinagre. O polvo à lagareiro será proibido. O natalício “Bacalhau com Todos” passará a chamar-se “Bacalhau com Todos Menos Com o Azeite”.


Iniciar-se-á uma caça às bruxas. O Ministério Público abrirá inquéritos para investigar usos abusivos deste óleo. O leitor lembra-se daquela vez em que, ao fritar um bife do pojadouro, deitou demasiado azeite na frigideira, sendo obrigado a retirar o excesso? Irão certamente atrás de si. Pessoas que têm por hábito temperar peixe fresco grelhado com um dispensável fio de azeite? Livrem-se das provas, uma vez que arriscam pena de prisão efetiva.


Não sei se o Governo tem noção, mas o país está por um fio de azeite. Aumenta vertiginosamente o preço da gasolina? Anda-se mais devagar. Aumenta vertiginosamente o preço da eletricidade e do gás? Veste-se mais uma malhinha. Aumenta vertiginosamente o preço do azeite? O país entrará em profunda convulsão social, em estado de sítio, quiçá numa guerra civil que culminará com a subida ao poder de um líder autocrático que tenha Oliveira no nome.


O azeite está caro, o prémio do Big Brother aumentou, o preço no metro quadrado nos Olivais está em máximos. Com as alterações climáticas, previam-se as guerras da água, mas o azeite veio ao de cima. Neste momento, haverá milhares de famílias portuguesas a tentar reconectar com um tio-avô que costumava oferecer um garrafão de 5L. Em Espanha, há fundos de capital de risco a lucrar 20% ao ano com a escassez do produto. O óleo de azeitona tornou-se uma mercadoria tão valiosa que não seria absurdo criar a bolsa de valores de Valpaços e a Wall Street de Ferreira do Alentejo.


A responsabilidade política é, mais do que nunca, essencial: Marcelo Rebelo de Sousa terá de ter pudor ao visitar feiras de produtos regionais. Os portugueses não lhe perdoarão se for apanhado a molhar o pão no azeite. A verdade é que este problema não tem soluções fáceis. Ao contrário da Assembleia da República, o azeite não se dissolve.


Entretanto, já se fala em recessão. Não tardará até dizerem que andámos a temperar acima das nossas possibilidades e que é imperativo cortarmos nas gorduras vegetais do Estado. A crise grassará aqui, em Espanha, em Itália e na Grécia. Os países do centro e Norte da Europa culparão a dieta mediterrânica e tentarão forçar-nos a utilizar manteiga no refogado. Estamos completamente esturgidos. Valha-nos extra-virgem Maria.

Preços dos alojamentos turísticos continuam a pressionar a inflação

Sérgio Aníbal, in Público

Preços dos serviços de alojamento aceleraram em Agosto e são agora os que registam uma variação mais forte face ao ano passado.


Com mais uma subida de 10% só no mês de Agosto, os preços dos quartos de hotel ou do alojamento local passaram a ser, entre as diversas subclasses de bens e serviços utilizadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os que tiveram um maior agravamento face ao ano passado, contribuindo de forma significativa para que a inflação voltasse a subir em Portugal no mês passado.

Os dados definitivos dos preços suportados pelos consumidores ontem publicados pelo INE vieram confirmar que, em Agosto, se assistiu, pela primeira vez após nove meses seguidos de recuo da inflação, a uma nova aceleração dos preços. A taxa de inflação homóloga, que tinha sido de 3,1% em Julho, subiu para 3,7%.

E no ranking das subidas de preços no último ano passou a estar um novo líder: os serviços de alojamento. Este subgrupo de serviços inclui os preços suportados por quem utiliza um hotel, uma pousada ou qualquer outro tipo de alojamento temporário, e registou, só em Agosto, uma subida de preços de 9,9%. A taxa de inflação homóloga passou de 13,7% em Julho para 18,1% em Agosto – mês em que se realizou a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa.

A subida forte dos preços dos alojamentos ao longo do último ano ocorre numa conjuntura de crescimento forte do sector do turismo em Portugal, com taxas de ocupação elevadas, e um reforço do seu peso nas exportações nacionais muito significativo. A forte procura que se tem vindo a registar a partir do momento em que a crise pandémica deixou de afastar os turistas contribui para colocar pressão sobre os preços que são sentidos não só pelos turistas estrangeiros, como também pelos nacionais.

O contributo da subida de preços nestes serviços para o total da inflação é relevante. De acordo com o INE, o contributo do subsubgrupo “Hotéis, motéis, pousadas e serviços de alojamento similares” (que faz parte do subgrupo “Serviços de alojamento”) para a variação mensal de 0,3% registada no total dos preços em Portugal foi de 0,163 pontos percentuais.


O contributo é ainda maior para a evolução da taxa de inflação harmonizada, aquela que usa um critério uniforme ao dos outros países da União Europeia e que inclui os consumos feitos por não residentes no cálculo do peso de cada bem e serviço. É o facto de os preços dos serviços de alojamento serem dos que mais sobem que faz com que, neste momento, a taxa de inflação harmonizada em Portugal (5,3% em Agosto) seja substancialmente maior do que a taxa de inflação calculada pelo INE com os critérios apenas usados em Portugal (3,7%).


Combustíveis de novo a subir

A subida da inflação homóloga dos preços dos serviços de alojamento, no entanto, não foi o principal motivo por parte da aceleração da inflação total registada em Agosto.


O principal problema foi que, em Agosto, ao contrário do que vinha acontecendo desde a segunda metade do ano passado, os preços dos combustíveis voltaram a registar uma trajectória ascendente acentuada.


De acordo com os dados do INE, o preço do gasóleo subiu 10,5% face ao valor registado em Julho, contribuindo só por si com mais de 0,2 pontos para a variação mensal total do Índice de Preços no Consumidor (IPC) de 0,3%. Já na gasolina, a subida dos preços foi de 8,1%, com um contributo de um pouco mais de 0,1 pontos para a inflação mensal total.


Acrescentando a isto o facto de Agosto de 2022 ter sido um mês em que os preços dos combustíveis recuaram, criaram-se as condições para que se assistisse a uma retoma muito significativa da taxa de variação homóloga dos preços dos combustíveis. Se, em Julho, este indicador ainda era claramente negativo, revelando uma descida de preços face ao mesmo mês do ano passado de 18%, em Agosto a variação homóloga negativa passou a ser de apenas 2,6%.


Segundo o INE, os preços dos combustíveis “contribuíram em 0,7 pontos percentuais para o aumento da variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor”, que em Agosto foi de 0,6 pontos percentuais, de 3,1% para 3,7%.


O INE confirmou ainda, nos dados definitivos da inflação de Agosto publicados esta terça-feira, que a taxa de inflação homóloga subjacente, que exclui os preços da energia e dos bens alimentares, desceu de 4,7% em Julho para 4,5% em Agosto, tendo a inflação nos bens energéticos passado de -14,9% para 6,5% (com a ajuda decisiva dos combustíveis) e a inflação nos bens alimentares diminuído de 6,8% para 6,4%.

12.9.23

BCE prepara reunião decisiva, com alguns falcões a roçar a recessão: conheça os dilemas para subir ou travar os juros

Jorge Nascimento Rodrigues Jornalista, in Expresso


O conselho do Banco Central Europeu está numa encruzilhada: subir juros uma vez mais ou fazer uma pausa a 14 de setembro. Os ‘falcões’ têm larga maioria, mas há divergências entre eles. Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, recupera direito de voto até final do ano. Já Joachim Nagel, presidente do Bundesbank alemão, não vota esta quinta-feira


O Banco Central Europeu (BCE) volta a reunir o seu conselho para decidir sobre política monetária a 14 de setembro. Na próxima quinta-feira tem em cima da mesa, pela primeira vez, duas opções: subir pela décima vez os juros ou fazer uma pausa, pela primeira vez desde que iniciou o ciclo de aperto monetário em julho do ano passado.

Os analistas falam de uma encruzilhada, com o conselho do BCE pressionado, por um lado, pela continuação da inflação acima de 5%, e, por outro, pelos sinais cada vez mais fortes do risco de estagnação na zona euro. Nos mercados, os futuros apontam para uma probabilidade de 60% no sentido de uma maioria a favor da paragem no aumento dos juros na próxima quinta-feira.


Apesar das atas da última reunião em julho revelarem que foi aconselhado a que a estratégia comunicacional não atribuísse “demasiada importância” à reunião de 14 de setembro, o que é certo é que, mos mercados, é tida como decisiva este ano. Aliás, um dos ‘falcões’ do conselho do BCE, Klaas Knot, governador do Banco Central dos Países Baixos (Nederlandsche Bank), dizia na semana passada que “em certo sentido é uma reunião crucial” e que a decisão “vai ser muito renhida”.

Nas primeiras decisões tomadas por bancos centrais em setembro, o Banco da Reserva da Austrália e o Banco do Canadá optaram por manter a pausa na subida dos juros.

ENCRUZILHADA DE OPÇÕES

As três últimas reuniões do ano do BCE enfrentam uma encruzilhada: continuar a subir os juros ou, em alguma delas, optar por uma pausa, temporária ou mais prolongada. O conselho do BCE sofre duas pressões de sinal contrário. Por um lado, a inflação na zona euro continua elevada, tendo estabilizado em 5,3% em julho e agosto, integrando nove economias com os níveis acima dessa média. Mas, por outro, acumulam-se os sinais de que uma aterragem suave na zona euro é cada vez menos provável.

Nas previsões avançadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo BCE em julho, o crescimento este ano na zona euro abrandaria para 0,9% e a Alemanha, a principal economia da área da moeda única, registaria uma recessão ligeira de 0,3%.

Esta segunda-feira, a Comissão Europeia avançou com um crescimento de 0,8%, nas suas previsões intercalares de verão, cortando em três décimas a previsão avançada em maio. Bruxelas aponta para uma recessão de 0,4% na Alemanha e um crescimento muito fraco de 0,5% nos Países Baixos.

A expectativa centra-se, agora, nas novas previsões macroeconómicas que Philip Lane, o economista-chefe do BCE, vai apresentar na próxima quinta-feira.

A pressão de uma inflação mais alta que exige ainda mais aperto monetário domina seis economias do euro com taxas acima de 6% em agosto, entre elas, a Alemanha e a Áustria, com chefes dos bancos centrais que são tidos como parte do núcleo duro de ‘falcões’ mais intransigentes.

Por outro lado, oito economias do euro registam uma situação anómala na sua curva de juros da dívida pública, com as yields a 2 anos superiores às verificadas a 10 anos no mercado secundário, o que é tido como um sinal antecipado de recessão. Sete dessas economias com a ‘curva invertida’ (como é designada tecnicamente) têm bancos centrais chefiados por ‘falcões’ intransigentes, nomeadamente Alemanha, Áustria, Bélgica e Países Baixos. O que revela que a opção de voto a tomar por muitos ‘falcões’ não é fácil.

‘FALCÕES’ COM LARGA MAIORIA

No entanto, os ‘falcões’ estão em larga maioria no conselho do BCE. Só contando governadores e presidentes dos bancos centrais nacionais, a correlação de forças é de 14 ‘falcões’ para seis ‘pombas’ (nas quais se inclui Mário Centeno, governador do Banco de Portugal), segundo o levantamento regular feito pelo portal InTouch Capital Markets. Na reunião de 14 de setembro, contando apenas quem vota no grupo dos bancos centrais nacionais, a relação é de 11 ‘falcões’ para 4 ‘pombas’ (os governadores dos bancos centrais de Espanha, Chipre, Itália e Portugal).

No mercado, as probabilidades apontam para uma pausa em setembro (60%), seguida de um regresso a subidas nas duas reuniões seguintes, que colhem 55% de probabilidade para a reunião de 26 de outubro e 58% para a de 14 de dezembro.


Na reunião de 14 de setembro, contando apenas quem vota no grupo dos bancos centrais nacionais, a relação é de 11 ‘falcões’ para 4 ‘pombas’ (os governadores dos bancos centrais de Espanha, Chipre, Itália e Portugal).

Nas declarações proferidas durante o verão pelos que votam em setembro, o holandês Knot avançou que “uma nova subida é uma possibilidade, mas não uma certeza”. Robert Holzmann, do Banco central da Áustria (Oesterreichische Nationalbank), um dos ‘falcões’ mais duros, adiantou que “ainda não tomei uma decisão, porque ainda não tenho todos os dados”. Mas logo adiantou que “não excluo que me decida por uma subida”, ou mesmo “por mais uma ou duas”.

O letão Martins Kazaks e o eslovaco Peter Kazimir inclinam-se para uma subida modesta (de 25 pontos-base) em setembro e depois fazer uma pausa. Entre os ‘falcões’ mais moderados, o governador do Banco de França, François Villeroy de Galhau, expressou a posição mais conciliadora: “Acredito que estamos perto ou muito perto do pico das taxas de juro. Manter as taxas por tempo suficiente conta mais do que as subir significativamente de novo”.

Nas posições mais vocais entre as ‘pombas’, destacaram-se Yannis Stournaras, do banco central helénico, e Mário Centeno, do Banco de Portugal. O grego repetiu que “não devemos continuar a subir as taxas”, admitindo “um período longo de pausa”. Contudo, Stournaras não vota a 14 de setembro. Entre os que votam, sobressaíram as declarações recentes de Centeno, onde em uma análise publicada pelo próprio Banco de Portugal, afirmou que “na dimensão monetária, o risco de fazer de mais começa a ser material”. Em português corrente: aumentar mais os juros começa a ser claramente um risco.

Com direito de voto permanente estão os seis membros da comissão executiva. Dois são tidos como ‘falcões’ (a alemã Isabel Schnabel e o holandês Frank Helderson) e outros dois como ‘pombas’ (o irlandês Philip Lane e o italiano Fabio Panetta). Na charneira, a autointitulada ‘coruja’ Christine Lagarde, a presidente do BCE, e o vice-presidente, o espanhol Luis de Guindos. A decisão final vai depender da capacidade de Lane, o economista-chefe, para sustentar tecnicamente as medidas que obtenham um apoio maioritário ou mesmo um consenso, e da gestão do risco e dos consensos políticos por Lagarde.






NÃO FALTAM ARGUMENTOS A FAVOR DE UMA SUBIDA DOS JUROS

Na balança de argumentos, as razões para manter o ciclo de aumento dos juros dominam largamente, explica o economista francês Eric Dor, diretor de estudos económicos do IESEG School of Management de Paris. Há ainda muitos factores inflacionistas em curso.

O nível ainda elevado da inflação e, em particular da inflação subjacente (excluindo as componentes mais voláteis da alimentação, energia, álcool e tabaco), acima de 5% é um argumento forte. A subida de preços na alimentação ainda está perto de 10%. A que acresce que nove economias do euro registam níveis de inflação acima da média da zona euro, entre elas a Alemanha, França e Itália.

Nas previsões avançadas esta segunda-feira pela Comissão Europeia, a inflação média anual este ano será de 5,6% e no final do próximo ano ainda estará em 2,9%, acima da meta de estabilidade de preços (2%) do BCE.

A incerteza sobre os preços da energia regressou, salienta Dor. A cotação do barril de Brent (de referência na Europa) subiu 21% entre 1 de junho e 11 de setembro. As decisões do novo cartel OPEP+ liderado pela Arábia Saudita e pela Rússia em cortar na produção estão, de novo, a pressionar os preços do petróleo em alta. “O que, depois de um certo atraso, provocará uma subida nos preços do óleo de aquecimento e dos combustíveis na bomba”, refere o economista francês.

Continua a acelerar-se a queda da produtividade na zona euro. No primeiro trimestre, medida em termos reais por hora trabalhada, caiu 0,9% em termos homólogos (em relação ao mesmo trimestre do ano passado), segundo o Eurostat. “Isto é inflacionista, pois uma descida do crescimento da produtividade implica que, para a mesma taxa de crescimento dos salários nominais, a subida do custos unitário do trabalho é superior”, explica Eric Dor.

A desvalorização do euro face ao dólar a que estamos a assistir no segundo semestre também não ajuda. O euro depreciou-se em 1,7% desde o final de junho. “Isto também é inflacionista, pois aumenta o preço em euros das importações cuja cotação é determinada em dólares”, adianta o economista.

Finalmente, a subida dos salários na zona euro no primeiro semestre deste ano está a ter um efeito de aceleração do aumento dos custos unitários de trabalho: o aumento trimestral saltou de 5% entre outubro a dezembro do ano passado para 6,83% entre abril e junho deste ano. No caso de Portugal, o aumento é superior à média da zona euro.

No outro prato da balança, podem elencar-se: o horizonte de franco abrandamento da economia da zona euro (reforçado pela previsão avançada esta segunda-feira por Bruxelas), o aperto monetário acumulado de 425 pontos-base com efeitos já visíveis no recuo do crédito à economia (empresas e famílias), a turbulência bolsista nos últimos três meses (com o índice para a zona euro a cair 5%), particularmente acentuada na Alemanha e nos Países Baixos, e os níveis altos de prémios de risco para a dívida pública de nove economias do euro com spreads acima de 100 pontos-base (1 ponto percentual em relação ao custo de financiar a dívida alemã).
COMO SE VOTA NO CONSELHO DO BCE

O sistema de votações no conselho do BCE é complexo. Há uma regra de rotatividade para o voto mensal para os governadores e presidente dos bancos centrais nacionais. As cinco maiores economias - Alemanha, França, Itália, Espanha e Países Baixos - têm quatro direitos de voto por mês e as restantes 15 - onde se inclui Portugal - podem usar 11 votos por mês. Os membros da comissão executiva votam sempre.

No entanto, as reuniões de política monetária - onde se decidem as taxas de juro e as medidas de aquisição ou venda da carteira de títulos - não são mensais, realizam-se oito vezes por ano, pelo que há uma matriz de votações.

Por exemplo, na reunião de 14 de setembro vota Mário Centeno, do Banco de Portugal, que não votou nas duas reuniões anteriores de junho e julho, mas não vota Joachim Nagel, do banco central alemão. Centeno vota também nas duas últimas reuniões do ano em outubro e dezembro.

7.9.23

Descida de inflação é improvável sem aumento do desemprego

in JN

O mercado de trabalho continuou a recuperar em 2022

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) considera que a descida da taxa de inflação é improvável sem algum aumento do desemprego, segundo o relatório de análise económica à zona euro e União Europeia (UE), divulgado esta quarta-feira.

Segundo a OCDE, a redução da inflação é "mais complicada pelo forte mercado de trabalho e a baixa taxa de desemprego", historicamente baixa, tanto na UE como na zona euro. A organização considera mesmo, citando estudos, que a "descida da inflação é improvável sem o correspondente aumento da taxa de desemprego a curto prazo".

O mercado de trabalho continuou a recuperar em 2022, sendo que o emprego superou os níveis pré-pandémicos e os salários têm vindo a aumentar.

A OCDE prevê que o aumento dos salários nominais continue, já que a inflação põe pressão sobre as negociações entre trabalhadores e patrões.

Apesar da expectativa sobre aumentos salariais, a OCDE diz que, como a decomposição do deflator do Produto Interno Bruto (PIB) sugere um aumento dos lucros unitários, há "alguma margem para aumentos salariais não inflacionistas".

A OCDE espera que a taxa de desemprego se mantenha em 6,7% este ano, e baixe para 6,6% em 2024.


Sem poupar e a cortar despesas. Um retrato da pobreza e precariedade em Portugal

João Pedro Quesado, in RR

Oito por cento dos portugueses inquiridos dizem que chegam ao fim do mês sem dinheiro. Mudar os comportamentos é a solução de muitos para combater a crise, mas isso leva a evitar refeições ou optar por não aquecer a casa quando têm frio.

Mais de seis em cada 10 portugueses não têm possibilidade de poupar dinheiro ao fim do mês, uma situação semelhante à da Roménia e que é pior apenas na Sérvia, na Moldávia e na Grécia. Esta é uma das conclusões do Barómetro Europeu sobre a Pobreza e Precariedade, lançado esta quarta-feira, que aponta que o salário de metade dos portugueses não cobre as despesas.

Portugal foi incluído na segunda edição deste estudo, uma sondagem da Ipsos realizada para a Secours Populaire Français, uma organização não-governamental que retrata uma situação social preocupante em dez países europeus - Alemanha, França, Grécia, Itália, Moldávia, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia e Sérvia.

A dificuldade em poupar dinheiro ao fim do mês anda de mão dada com o sentimento de que os salários não chegam para as despesas mensais. Entre os portugueses inquiridos, 8% não consegue chegar ao fim do mês sem ficar sem dinheiro. Têm cada vez mais dificuldades em chegar ao fim do mês e têm medo de cair na precariedade – onde 2% dos portugueses já estão.

Mas a precariedade pode ser mais abrangente do que simplesmente ter dinheiro suficiente para chegar ao fim do mês. Quando questionados sobre a situação financeira atual, 35% dos portugueses dizem que estão numa situação precária, e que uma despesa inesperada pode desequilibrar a balança.

A somar a isto, 40% dos portugueses sentem-se em risco alto de entrar numa situação de insegurança financeira nos próximos meses – um sentimento semelhante - em proporção - às populações francesa e alemã.

Assim, os portugueses, como os restantes europeus, estão preocupados com a sua capacidade de lidar com a inflação nos produtos alimentares (69%), manter um padrão de vida “decente” depois da reforma (64%) e lidar com despesas inesperadas (67%).

Metade dos portugueses também estão preocupados com a capacidade de pagar as contas todos os meses.

Portugueses cortam nas despesas para sobreviver

Em resposta a uma situação em que 35% dos portugueses consideram que o seu poder de compra diminuiu bastante e 88% apontam o aumento de preços como principal razão, os comportamentos também se alteram.

Nos últimos seis meses, 48% dos portugueses já viveram situações como optar por não aquecer a casa, desistir de tratar um problema de saúde, saltar refeições e pedir dinheiro emprestado.

Em Portugal, 12% dos pais de crianças e jovens até aos 18 anos também dizem que já tiveram dificuldades em corresponder às necessidades básicas das crianças, como a alimentação, a saúde, as despesas escolares e comprar roupa.

Mais de um quarto dos pais - 27% - diz ainda que nem sempre comem o suficiente para poder alimentar os filhos, enquanto 28% dos portugueses deixaram de fazer três refeições por dia pelo menos algumas vezes.

93% dos portugueses inquiridos dizem que procuram sempre preços baixos e descontos quando fazem as compras. 11% pede o apoio de organização como a Cáritas para a alimentação.

Barómetro Europeu sobre Pobreza. Em Portugal "trabalha-se e empobrece-se", lamenta a CGTP

Por RTP

O salário de metade dos portugueses empregados não chega para as despesas, segundo o Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade. Em entrevista à RTP, a secretária-geral da CGTP frisou que, no nosso país, "trabalha-se e empobrece-se", o que é "inaceitável".
“Os salários dos trabalhadores no nosso país de facto são salários muito baixos que não dão garantia de dignidade de vida, de poder responder às necessidades que os trabalhadores têm – bem como as pensões, em relação aos reformados e pensionistas”, afirmou Isabel Camarinha.

“No nosso país trabalha-se e empobrece-se. Isto é inaceitável, porque efetivamente nós temos todas as condições para garantir a vida digna a todos”.

A secretária-geral da CGTP lembrou que “tem havido crescimento económico, tem havido crescimento da produtividade, mas isso tudo não tem sido acompanhado pelo aumento dos salários dos trabalhadores”.

“É um facto que os impostos sobre quem trabalha e trabalhou são demasiado elevados. Agora, quando se diz que os impostos em Portugal são demasiado elevados, isto não é verdade. Nós temos uma carga de impostos (…) abaixo da média europeia. A questão é quem é que os paga”, frisou a responsável.

O Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade, divulgado esta quarta-feira, revela que a situação dos trabalhadores europeus é muito preocupante, especialmente em Portugal e na Sérvia.

O estudo realça que ter um emprego não significa necessariamente ser capaz de sobreviver financeiramente, situação que afeta mais de um terço dos trabalhadores europeus.

A situação leva esses trabalhadores a renunciar a certas necessidades, como comer o suficiente, viajar ou aquecer as casas no inverno.

6.9.23

Salário de metade dos portugueses não chega para as despesas

Por Lusa, in SIC

Um em cada dois portugueses atualmente empregados sente que o seu salário não cobre todas as suas despesas. Estudo revela que situação dos trabalhadores europeus é "muito preocupante, especialmente em Portugal e na Sérvia".


Um em cada dois portugueses atualmente empregados sente que o seu salário não cobre todas as suas despesas, de acordo com o primeiro Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade, divulgado esta quarta-feira.

O relatório do estudo realizado pela empresa Ipsos referiu que a situação dos trabalhadores europeus é "muito preocupante, especialmente em Portugal e na Sérvia".


"Ter um emprego não significa necessariamente ser capaz de sobreviver financeiramente", escreveu num comunicado o autor do estudo, Etienne Mercier, sublinhando que esta situação afeta mais de um terço (36%) dos trabalhadores europeus.

O estudo, encomendado pela organização não governamental francesa Secours Populaire Français, ouviu 10 mil indivíduos, com 18 anos ou mais, em 10 países (Alemanha, França, Grécia, Itália, Polónia, Reino Unido, Moldávia, Portugal, Roménia e Sérvia).

Quase três em cada dez europeus, incluindo 49% dos gregos disseram que se encontram numa situação precária, o que os leva a renunciar a certas necessidades, como comer o suficiente ou aquecer as suas casas, alertou o barómetro.

Um em cada dois portugueses atualmente empregados sente que o seu salário não cobre todas as suas despesas, de acordo com o primeiro Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade, divulgado esta quarta-feira.

O relatório do estudo realizado pela empresa Ipsos referiu que a situação dos trabalhadores europeus é "muito preocupante, especialmente em Portugal e na Sérvia".


"Ter um emprego não significa necessariamente ser capaz de sobreviver financeiramente", escreveu num comunicado o autor do estudo, Etienne Mercier, sublinhando que esta situação afeta mais de um terço (36%) dos trabalhadores europeus.

O estudo, encomendado pela organização não governamental francesa Secours Populaire Français, ouviu 10 mil indivíduos, com 18 anos ou mais, em 10 países (Alemanha, França, Grécia, Itália, Polónia, Reino Unido, Moldávia, Portugal, Roménia e Sérvia).

Quase três em cada dez europeus, incluindo 49% dos gregos disseram que se encontram numa situação precária, o que os leva a renunciar a certas necessidades, como comer o suficiente ou aquecer as suas casas, alertou o barómetro.

5.9.23

Inflação e escassez de talento obrigam empresas a assumir benefícios

António Freitas de Sousa, in Jornal Económico


Segundo o Benefits Trend Survey da WTW, o investimento em benefícios continua a ser uma prioridade importante para atrair e reter talentos.

A grande maioria dos empregadores (78%) em Portugal identifica a competição por talento como um dos principais fatores a influenciar a sua estratégia de atribuição de benefícios aos colaboradores, estando este indicador alinhado com os resultados registados na generalidade dos países Europeus (78%), segundo um estudo da consultora WTW.

De acordo com o estudo Benefits Trends Survey, um estudo global sobre as tendências na estratégia de benefícios que consultou 94 grandes empregadores portugueses com mais de 55 mil colaboradores, “a este fator juntam-se as políticas de trabalho flexível e o aumento dos custos, igualmente identificados, por 53% e 45% das empresas inquiridas, respetivamente”. Os três fatores, no seu conjunto, mostram que, “se por um lado os empregadores precisam de oferecer um pacote de benefícios cada vez mais competitivo para atrair e reter talento, por outro é cada vez mais difícil garantir o seu financiamento e a sua sustentabilidade”.

Os resultados deste estudo revelam que a atração e retenção de talento é, de facto, o problema número um enfrentado pelos empregadores em 2023, “sendo que apenas 5% consideram que o seu portfolio de benefícios atual é eficaz, ou altamente eficaz, para atrair e reter talentos”.

Para cerca de metade das empresas em Portugal (49%) uma das principais áreas de foco é garantir que os planos de benefícios satisfazem as necessidades de todos os colaboradores, da mesma forma que cerca de 47% das empresas procura concentrar-se no bem-estar dos seus profissionais.

Encontrar um equilíbrio entre a abordagem a estes objetivos contraditórios pode revelar-se um desafio, afirma o estudo. Mais de dois terços (69%) dos empregadores preveem que os orçamentos de benefícios nos próximos dois anos sejam impactados pela persistência de uma inflação mais elevada, enquanto mais de metade (52%) esperam um impacto do enfraquecimento da economia e do atual ambiente empresarial.

O relatório da WTW revela igualmente que os empregadores, para controlar os custos, “estão a focar-se na adoção de medidas mais agressivas para melhorar as condições contratuais com os fornecedores e agrupar os serviços – 86% dos empregadores portugueses tentaram melhorar os termos dos seus contratos com os fornecedores de benefícios, ou irão fazê-lo brevemente”. Por outro lado, um quarto (24%) assegurou um orçamento adicional para o seu programa de benefícios e um terço (33%) planeia fazê-lo.

O estudo revelou ainda que ao nível do portfolio de benefícios, 64% dos empregadores em Portugal consideram que os benefícios de saúde são uma das três principais prioridades. Metade (50%) destacou a formação e o desenvolvimento e 36% os benefícios relacionados com políticas de trabalho flexível.

Alexandre Falcão, Associate Director – Health & Benefits da WTW, afirma: “Os empregadores estão numa posição difícil. Por um lado, necessitam de recrutar e reter os melhores talentos, pelo que têm de manter os seus benefícios atrativos. Mas, ao mesmo tempo, a inflação e o contexto económico menos positivo estão a exercer uma grande pressão sobre os orçamentos dos benefícios”.

31.8.23

“A que preço é que os pobres vão comer a sopa?” Inflação volta a aumentar em agosto para os 3,7%

in CNN

A inflação voltou a subir em agosto para os 3,7%, muito por causa dos combustíveis. A complicar as contas das famílias, a alimentação também sobe 6,5%.

Queijo, carapau e massas foram os produtos “IVA zero” que mais subiram na última semana

Joana Morais Fonseca, in ECO

Na última semana, o cabaz monitorizado pela Deco de produtos "IVA zero" ficou 22 cêntimos mais barato. Queijo, carapau, massas e arroz agulha foram os produtos que mais subiram de preço.


O preço do cabaz de bens essenciais de um conjunto de produtos alimentares abrangidos pelo “IVA zero” voltou a ficar ligeiramente mais barato na última semana, tendo registado uma descida de 22 cêntimos, passando a custar 127,75 euros, segundo os cálculos da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco).

Em causa está a monitorização de 41 dos 46 alimentos — que inclui o peru, frango, carapau, pescada, cebola, batata, cenoura, banana, maçã, laranja, arroz, esparguete, açúcar, leite, queijo ou manteiga –, que desde 18 de abril passaram a estar isentos de IVA, na sequência do acordo tripartido entre Governo, distribuição e produção.


Se a 23 de agosto o cabaz “IVA zero” monitorizado pela Deco custava 127,97 euros, esta quarta-feira custava 127,75 euros. Contas feitas, trata-se de uma redução de apenas 22 cêntimos (-0,17%). De notar que, no que toca ao mês de agosto, semanalmente o preço deste cabaz tem oscilado entre subidas e descidas. Esta quinta-feira, o INE adiantou que a taxa de inflação terá acelerado para 3,7% em agosto, após nove meses a abrandar, à boleia dos preços dos combustíveis.

Já se a comparação for feita com o dia anterior ao arranque da medida, 17 de abril, a diferença é mais expressiva: nesse período o cabaz monitorizado pela Deco ficou cerca de 11 euros mais barato, o que se traduz numa quebra de cerca de 8%.

Queijo, carapau, massa e arroz tiveram as maiores subidas

Na última semana, o queijo curado fatiado embalado foi o produto que mais subiu de preço, tendo registado um aumento de 9% (mais 20 cêntimos) face à semana anterior. Seguiu-se o carapau (+8%), as massas espirais e o arroz agulha (ambos +5%), a cenoura (+4%), o esparguete, a cebola, a carne de novilho para cozer e a maça gala (todos +3%) e a carne de lombo de porco sem osso (+2%).

Já no que respeita às categorias de produtos, os congelados foram a categoria de produto que mais beneficiou com a entrada em vigor desta medida, dado que uma cesta deste produto recuou 17,32% (menos 62 cêntimos), passando a custar 2,97 euros. Segue-se o peixe, que baixou 12,57% (menos 4,38 euros), para 30,49 euros; a mercearia cujo preço recuou 8,18% (menos 1,82 euros), passando a custar 20,47 euros; os laticínios, que baixaram 7,58% (menos 1,07 euros) para 13,03 euros; a carne, que desceu 5,50% (menos 2,25 euros) para 38,64 euros; e, por fim, as frutas e legumes, cuja cesta recuou 3,81% (menos 88 cêntimos), passando a custar 22,15 euros.

Paralelamente, a Deco faz ainda a monitorização ao habitual cabaz de bens essenciais, que engloba 63 produtos e que inclui alguns produtos também abrangidos pelo “IVA zero”. Na última semana, este cabaz estabilizou, tendo ficado apenas um cêntimo mais barato e passado a custar 211,93 euros. Já se a comparação for feita com o início deste ano ficou cerca de seis euros mais barato (-2,77%).

Bruno tem dois empregos e não é caso único. São cada vez mais os jovens que acumulam trabalhos

Isabel Patrício, in ECO

Depois de um dia de trabalho a conduzir ambulâncias, Bruno trabalha ainda num bar para conseguir fazer face às suas despesas mensais. Número de jovens com dois empregos está a aumentar.


Sobrava-lhe cada vez mais mês ao fim do seu salário. A expressão é brasileira, mas ilustra bem a situação para a qual foi atirado Bruno com o aumento do custo de vida. “Houve alturas em que não tinha dinheiro para comer a meio do mês”, conta. E foi assim que este jovem decidiu ter mais do que um trabalho: além de conduzir ambulâncias numa unidade hospitalar de referência em Lisboa, passou a trabalhar também num bar para conseguir dar respostas a todas as suas despesas.

Bruno, 27 anos, não é, contudo, caso único. Num ano apenas, o número de profissionais da chamada geração millennial (nascidos entre 1982 e 1994) com dois empregos passou de cerca de dois em cada dez para em torno de três em cada dez. E entre os profissionais da geração Z (nascidos entre 1995 e 2004), esse aumento foi ainda mais pronunciado, mostra um estudo recente da consultora Deloitte.

Os baixos salários e o disparo dos preços da habitação são identificados pelos economistas ouvidos pelo ECO como duas das possíveis causas dessa evolução do universo de jovens que, para honrar os seus compromissos financeiros, acumulam ocupações profissionais.

Mas voltemos a Bruno. Com o 12.º ano feito num curso profissional de Técnico de Arquitetura, nunca conseguiu trabalhar na sua área. Ainda assim, o emprego que encontrou permitiu-lhe começar a morar sozinho “sem qualquer apoio”. Até que a “subida brutal da inflação” fez o caso mudar de figura. “Ia ao supermercado e tinha de abdicar de alimentos para poder conseguir pagar as outras contas e dívidas”, relata. Passou a fazer, por vezes, mais horas no centro hospitalar onde trabalha, mas nem isso foi suficiente. E teve mesmo de arranjar mais um emprego.

“É bastante difícil conciliar [os empregos]”, confessa. “Chegamos ao ponto de abdicar da nossa vida e de fazer o que gostamos”, assinala este jovem.

Por exemplo, há oito anos que era bombeiro voluntário no ativo, mas teve de passar à reserva, uma vez que, com a “sobrecarga dos empregos”, já não tinha tempo para essa atividade. “Tenho vontade de ter apenas uma ocupação, mas para isso é preciso que valorizem o meu trabalho, repondo a minha carreira de auxiliar de ação médica, aumentando o meu salário sem que isso aumente também as minhas horas de trabalho, e que ajustem o custo de vida, porque está insuportável”, apela Bruno.

E assegura que conhece “bastante jovens” na mesma situação em que se encontra, havendo mesmo, diz, quem, depois do horário laboral, faça ainda serviço de estafeta nas plataformas de entregas, como a Glovo, para “ganhar uns trocos por dia”.

Inflação fez emagrecer salários


Por efeito, também, do conflito em curso no leste europeu, a inflação atingiu em 2022 o nível mais elevado desde 1992: 7,8%. E apesar de terem aumentado em termos absolutos, os salários não conseguiram acompanhar essa evolução: em termos reais, caíram, pois, 4%, emagrecendo o poder de compra dos portugueses. Isto num país que, mesmo antes desta crise, já estava a braços com baixos vencimentos.

Não espanta, assim, que o número de jovens que acumulam empregos para honrar os seus compromissos financeiros, à semelhança de Bruno, tenha crescido significativamente. No estudo “Gen Z and Millennial Survey 2023”, da consultora Deloitte, é indicado que o número de profissionais em Portugal que têm, pelo menos, dois empregos aumentou de 23% para 31%, no caso dos millennials, e de 32% para 44%, entre a geração Z, apenas num ano. E quase metade dos inquiridos apontam como razão para essa acumulação de ocupações a necessidade de ter uma fonte de rendimento adicional para garantir o cumprimento dos seus compromissos financeiros.


“A subida do custo de vida obrigou a procurar rendimentos extras. E a inflação é sentida, em termos médios, de forma diferente pelos jovens do que pelos demais indivíduos, por causa da habitação”, sublinha João Cerejeira, economista e professor da Universidade do Minho.

Também Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade, vê o disparo do custo de vida, com grande destaque para a habitação, como uma das explicações para a tendência em questão. “Os jovens que têm ambição de ter casa própria são obrigados a trabalhar bastante mais”, assinala.


Precisamos de baixar drasticamente o preço da habitação para toda a gente. Neste momento, é uma loucura.
Pedro Braz Teixeira

Fórum para a Competitividade

Para ambos os economistas, as medidas preparadas pelo Governo no pacote Mais Habitação em nada contribuem para a resolução desta crise do mercado habitacional. “Até podem ter o efeito inverso”, alerta João Cerejeira. “Precisamos de baixar drasticamente o preço da habitação para toda a gente. Neste momento, é uma loucura. O pacote Mais Habitação não vai resolver problema nenhum. Sabemos que todos os anos o problema vai agravar-se, porque não há construção”, salienta Pedro Braz Teixeira.

Além da habitação e da subida dos preços, este último especialista identifica os baixos salários como razão para o crescimento do número de jovens com vários trabalhos.

Mas realça que podem estar em causa também, nalguns casos, outros motivos. O inquérito da Deloitte mostra que, “apesar de a principal razão ser económica, muitos jovens fazem-no [acumulam empregos], porque desejam prosseguir uma paixão ou passatempo além do seu trabalho principal”. “Esta juventude, em vez de ficar num emprego chato, prefere ter um emprego que é para ganhar dinheiro e outro para alimentar uma paixão, na vida profissional”, sugere Braz Teixeira.

Já João Cerejeira atira que o mercado de trabalho tem hoje à disposição mais oportunidades de trabalho, depois do período complicado da pandemia, o que pode também justificar o aumento da procura de trabalho.

Motivos à parte, o diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade reconhece que pode até haver um “lado relativamente positivo” nesta evolução, na medida em que mais horas trabalhadas significam mais rendimentos e, por conseguinte, mais contribuições para a Segurança Social e mais Produto Interno Bruto (PIB).

“Mas acho, no conjunto, negativo, se aquilo que motiva estes jovens é o facto de não conseguirem ter uma vida digna com apenas um salário”, garante, avisando que há risco de diminuição da natalidade, de agravamento dos problemas de saúde mental (como esgotamentos) e até de imigração.

Soluções, precisam-se


Neste cenário, como pode, afinal, Portugal criar condições para que os jovens escapem à “obrigação” de ter dois empregos em prol da sua sobrevivência? As sugestões são diversas.

Bruno, por exemplo, defende que é preciso que o Governo tenha “noção de que os lucros exorbitantes das grandes empresas” são devidos ao “trabalho e esforço redobrado” dos trabalhadores. “Por isso é que o Governo tem de tomar medidas, para fazer uma justa distribuição da riqueza, que é produzida por nós, trabalhadores”, entende.


O que fazer para aumentar os salários? Melhorar a produtividade das empresas. Depois, há também um conjunto de políticas de apoio, como isenções fiscais e políticas de redistribuição.
João Cerejeira

Universidade do Minho

Já João Cerejeira declara que é preciso melhorar a produtividade das empresas para aumentar os salários, bem como aplicar políticas de apoio, como isenções fiscais e outras políticas de redistribuição de riqueza. O abono de família, por exemplo, deixa de ser aplicado a famílias “com níveis de rendimento relativamente baixos” e isso poderia ser revisto, indica o professor.

Já Pedro Braz Teixeira frisa que é preciso, por um lado, aumentar o potencial da economia e, por outro, “atuar de forma decisiva na habitação, aumentando muitíssimo a construção, acima dos 60 mil fogos por ano”.

Enquanto essas propostas não saem da gaveta, Bruno, como tantos outros jovens, vão gastando as suas horas sobretudo no trabalho, para fazer com que, quiçá, sobre salário ao fim do mês. Hoje começou a trabalhar às 8h00. Só terminará quando o relógio bater as 20h00.

Para este estudo, a Deloitte ouviu 22.856 jovens. Destes, 400 residem em Portugal.


Isabel Patrício
Editora do Trabalho by ECO

29.8.23

“É uma vergonha”. Indignados com os preços, portugueses vão a Espanha abastecer

Olímpia Mairos, in RR

A Renascença comparou os preços em dois postos de combustíveis da mesma marca em Portugal e em Espanha e constatou uma diferença de 14 cêntimos no litro de gasolina e 14,5 no diesel.


Com os preços dos combustíveis a subir em Portugal, são cada vez mais os portugueses residentes junto à fronteira com Espanha a deslocar-se ao país vizinho para atestar os depósitos.

António Manuel Rodrigues veio de Pedras Salgadas abastecer a Feces de Abajo. Apesar de ter percorrido mais de 40 quilómetros, diz que compensa.

“O nosso Governo é uma vergonha. Não se percebe como os combustíveis estão a subir todas as semanas e aqui são sempre mais baratos”, lamenta, acrescentando que sempre que abastece, em média duas vezes por mês, poupa “à volta de 10 euros”.


Já Maria Cecília conta que o seu automóvel não conhece outra gasolina que a de Espanha, porque há muitos anos que “compensa abastecer aqui”.

Também para esta habitante de Chaves, “é incompreensível o preço dos combustíveis no nosso país”.

Na sua opinião, o Governo “tinha obrigação de fazer mais pelos portugueses e devia por mão a tanta subida”.

António Costa vive em Chaves. É um entre os muitos flavienses que cruzam a fronteira para tirar partido da diferença de preços. “É muito mais barato. São 15 cêntimos de diferença por litro. Como opto por encher sempre o depósito, poupo muito. E o que poupo dá para comprar outras coisas. A vida está má de mais”, conta.

Manuel Carlos, outro dos portugueses que a Renascença encontrou a abastecer nas bombas de Feces de Abajo, diz que “a poupança é muito grande, sobretudo para quem anda com uma carrinha nas mãos todos os dias” e desafia o Executivo a “olhar para a vida das pessoas, porque com tanto aumento ninguém aguenta”.
“Quase não ganhamos para combustível”

Segundo este empresário da construção civil, “ao preço que os combustíveis estão no nosso país, quase não compensa trabalhar”.

“Quase não ganhamos para o combustível. Não sei o que vai acontecer”, lamenta.

Joaquim Ferreira vai com a família até Astorga e acabou de atestar com 50 euros de gasóleo, o que lhe permite fazer a viagem de ida e volta. Algo - diz - “não teria sido possível em Portugal, onde o gasóleo está, outra vez, quase a dois euros”.

Na sua visão, “o Governo português devia contentar-se com um bocadinho menos de impostos e pôr os olhos no que faz o país vizinho e baixar os preços dos combustíveis, porque o que se passa é uma vergonha”.

A Renascença comparou os preços em dois postos de combustíveis da mesma marca em Portugal e em Espanha e constatou uma diferença de 14 cêntimos no litro de gasolina e 14,5 no diesel. Em Portugal, o litro de gasolina simples está a 1,919 euros, e em Espanha a 1,779 euros. Já o litro de gasóleo em Portugal custa 1,794 euros, e em Espanha 1,649 euros.

É esta diferença de preços que leva os portugueses a abastecerem no país vizinho.

Neuza Gonçalves, funcionária do posto de combustíveis de Feces de Abajo, garante que “os portugueses nunca deixaram de abastecer, mas, nos últimos dias, nota-se uma maior afluência”.

“Com estas últimas subidas em Portugal, tem havido uma procura muito maior porque, de facto, compensa tanto no combustível como no gás”, diz.

A par dos combustíveis, o gás butano é outro dos produtos que regista uma grande procura. E percebe-se porquê. A mesma botija de gás butano, a mais utilizada para consumo doméstico, custa 19,00 euros, já do lado português, a garrafa é vendida a 32 euros, mais 13 euros do que em Espanha.

Neste posto de combustível, não são só os clientes portugueses que são em bem maior número que os espanhóis. Também os funcionários, num total de 13, são, na maioria, portugueses.

Depois da APETRO avisar que os combustíveis vão continuar a subir e defender o regresso do desconto no ISP, o movimento “Os Mesmos de Sempre a Pagar” também pede essa medida de volta.

Este movimento, que desde que começou a guerra organiza manifestações contra o aumento do custo de vida, lamenta que abastecer o carro esteja a voltar a ser muito caro.

25.8.23

Salário mínimo não chega para as contas reais

Bruno Contreiras Mateus, in DN

O número de trabalhadores por conta de outrem que recebem o salário mínimo nacional (SMN) desceu, no segundo trimestre, para o valor homólogo mais baixo desde o início da governação de Costa. Comparando apenas 2022 com 2023, são menos 98 mil trabalhadores a auferirem o SMN. Hoje, a diferença entre homens e mulheres é de apenas cerca de cinco mil, o que a ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, enaltece ao DN. Acontece que, num período mais recente, saídos da pandemia, com a recuperação do turismo e do comércio, dada a escassez de mão de obra e a inflação a comer praticamente o valor real do aumento do SMN, conforme aponta o especialista em Economia do Trabalho, João Cerejeira, "as empresas sentiram-se pressionadas a aumentar mais os salários".

Entre 2006 e 2023, os aumentos sucessivos do SMN geraram uma subida do poder de compra acumulado de 43%, enquanto o salário real médio nacional se ficou por um crescimento de apenas 4,2%, nota o economista João César das Neves no mais recente livro, escrito em conjunto com Luís Valadares Tavares, Portugal: porquê o país do salário abaixo de mil euros?, da D. Quixote. "Para o Governo é excelente, porque parece que melhora a situação dos trabalhadores sem gastar um cêntimo. Quem paga o salário mínimo são as empresas, não o Estado, que, no entanto, fica com os louros políticos. Por outro lado, a medida beneficia evidentemente todos os trabalhadores que, no fundo da escala, mantêm o emprego", explica. Estando a evolução dos salários estritamente ligada à evolução da economia, é inegável a sua enorme dependência da produtividade do trabalho, em que o nosso desempenho é mau, nota César das Neves: "Ora, o que é especialmente grave é o desafio da produtividade estar ausente da agenda nacional, pois é tema que não surge no quotidiano nacional!" - dispara.

O problema é estrutural e as medidas governativas devem ser consequentes. Senão, continuaremos a assistir ao fenómeno da emigração de jovens talentos que procuram melhores condições lá fora. Continuaremos a assistir a greves e manifestações dos médicos, que apontam para fragilidades gritantes do Serviço Nacional de Saúde. Vemos os professores em luta pela recuperação da carreira. E vemos tudo isto a acontecer há demasiado tempo. A subida do salário mínimo não deixa de ser boa, não se pode é nivelar um país por baixo, com o valor dos salários médios reais ainda muito abaixo daquilo que é o custo real de vida dos portugueses. O País tem de nivelar por cima!

Subdiretor do Diário de Notícias

22.8.23

Inflação abranda, mas dois em cada cinco produtos do cabaz alimentar aumentou

in CNN

A inflação em Portugal está a abrandar há nove meses consecutivos, mas isso não evita que na maioria dos produtos o preço tenha continuado a subir em julho. E em muitos casos acima dos 10%.


Oh, o Algarve não tem portugueses…

Pedro Gomes Sanches, opinião, in Expresso


O problema não é o Algarve, o problema não são os algarvios, o problema não é "o sector do turismo", o problema não são os portugueses. O problema são os bolsos dos portugueses, que estão cada vez mais curtos e apertados. Uma família não gasta menos de 1.400 euros por uma semana. Coincidência ou não, da última vez que reparei, o salário médio bruto mensal de um português (repito: médio; repito: bruto; repito: mensal) era de 1.411 euros.


As gentis almas lusas descobriram que há poucos portugueses no Algarve este ano, e trataram logo de especular sobre as razões. Lamento, mas não tenho boas notícias: o problema não tem, fora do empobrecimento estrutural dos portugueses, bodes expiatórios sobre quem o governo possa lançar os anátemas do costume.


O problema não é o Algarve, o problema não são os algarvios, o problema não é "o sector do turismo", o problema não são os portugueses. O problema são os bolsos dos portugueses, que estão cada vez mais curtos e apertados.


E, como não há eleições à porta, Costa não deu a esmola do costume e as pessoas ficaram, compreensivelmente, em casa.


Imaginem uma família composta por um jovem casal com um filho menor, a iniciar férias hoje no Algarve. Seguindo o célebre e útil conselho do Eng. Guterres, fui fazer as contas. Fui ao AirBnB e encontrei uma casa "barata" para os albergar: 123 euros por noite em São Bartolomeu de Messines, a 24 km da costa. Quanto mais perto do mar, mais caras, claro.


Na mesma plataforma, uma pesquisa feita ontem (quando escrevi este artigo), sem grande critério, para a semana de 21 a 28 de Agosto, para dois adultos e uma criança, devolve 480 alojamentos. A média do custo por noite é 568 euros, e o valor com mais ocorrências é 278 euros. Repito: por noite. "Fiquemos", portanto, em São Bartolomeu de Messines. Feita a reserva, com baixa de tarifa e taxa de limpeza: 858 euros por uma semana. A casa não tem piscina, mas não vou contabilizar o custo do combustível para deslocações mínimas de 50 kms diários, para a praia e regresso. Também não vou contabilizar os custos da deslocação de casa para o alojamento de férias e regresso. Nem as portagens.


Passando para o Tripadvisor e procurando restaurantes no Algarve apenas com um € nos filtros, encontram-se algumas hipóteses, e nessas abundam hamburguerias. Uma refeição, para 3 pessoas, não custa menos de 35 euros. Sem sobremesas e com parcimónia nas bebidas, claro.


Admitamos, apertando o cinto - esse velho mas sempre actual conselho Soarista -, que o almoço são sandes compradas num supermercado qualquer e o jantar é na hamburgueria. Considerando a bola de berlim de manhã, o café depois de almoço, o gelado para a criança e a imperial para os adultos à tarde, e a mesma dose à noite, depois do jantar, o dia não acaba, com muita contenção e pouco relaxamento, sem se gastar pelo menos 75 euros. Nada disto inclui gins de final de tarde com vista de mar nem almoçaradas com couvert e sobremesa. Também não inclui duas refeições em restaurante. É tudo à pele: 525 euros por 7 dias.


Em síntese, descontando custos de deslocações, com combustíveis e portagens, para umas férias no Algarve, a 24 kms da praia, e com grande contenção de despesas, consumindo porventura menos e pior do que se consumiria em casa, esta família não gasta menos de 1.400 euros por uma semana. Uma semana.


Coincidência ou não, da última vez que reparei, o salário médio bruto mensal de um português (repito: médio; repito: bruto; repito: mensal) era de 1.411 euros (em 2022). Parece que aumentou, "mas a subida esconde uma queda real de 4% da remuneração média em Portugal se for tido em conta efeito da inflação". Se a família tiver crédito à habitação com taxa variável indexada à Euribor, a coisa é pior.


Claro que houve quem procurasse outras paragens fora do país, nos tais charters. Mas não foram "resmas". Claro que houve quem aproveitasse para "descobrir" outro Portugal, das praias fluviais e das aldeias perdidas. Mas o destino a Sul preferido dos portugueses não ficou mais ventoso nem as suas águas ficaram mais frias.


A explicação é que os portugueses vivem pior. Podiam, claro, ir como na década de 90 do século passado - esse tempo cavaquista que a esquerda deplora -, de Renault 5 carregado de mercearia e grelhador para preparar ao almoço o peixe comprado diariamente no mercado local, dirão alguns. Não teria mal nenhum, e encontro nisso grandes virtudes. Mas enquanto que em 90 esse movimento - com o carro comprado num auto-grupo e as primeiras férias fora de casa - era sinónimo de ascensão social, hoje significa exactamente o contrário. Já para não falar no preço a que está o peixe, que talvez não permitisse grandes poupanças. É claro que, dessa década e do Algarve, os que dizem isso já só se lembram da Kadoc e das festas no Castelo. Portanto, siga a festa!



Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

11.8.23

Preços ainda superam salários desde o início da crise inflacionista

Sérgio Aníbal, in Público online

Com a ajuda do abrandamento dos preços, a queda do salário médio real em Portugal foi interrompida. Mas a perda de poder de compra sentida ao longo da crise não foi totalmente compensada.

Nos últimos dois anos, desde o início da crise inflacionista, entre aquilo que subiram os preços dos bens e serviços e a actualização do salário pago em média, quem tem saído a perder é o poder de compra das famílias portuguesas. Nos últimos meses, contudo, os salários estão a recuperar algum do terreno perdido.
[...]

Em fase de recuperação

De notar, contudo, que esta perda de poder de compra já foi bastante mais acentuada no início da crise inflacionista, numa altura em que a inflação disparava e os salários demoravam a reagir. Em Junho de 2022, um ano após o início da crise inflacionista, os preços suportados pelos consumidores portugueses já tinham subido 8,7% face a Junho de 2021, enquanto a remuneração regular média apenas tinha aumentado 2,3% no mesmo período de tempo.

Na realidade, os salários apenas responderam à escalada de preços no final de 2022 e início deste ano, altura em que o Estado e muitas empresas fazem as suas actualizações salariais. A partir desse momento, não só o ritmo de crescimento das remunerações médias aumentou como os preços na economia começaram progressivamente a abrandar.

Isso permitiu que os salários recuperassem uma parte do terreno perdido, mitigando o efeito negativo que se tem vindo a sentir no poder de compra. Esta recuperação recente tornou-se mais clara nos dados publicados esta quinta-feira pelo INE. Pela primeira vez nos últimos 12 meses, a remuneração média bruta real (a que desconta já o efeito da inflação) foi, no segundo trimestre deste ano, 2,4% superior ao valor registado no mesmo período do ano passado. Isto acontece num cenário em que a remuneração média em termos nominais (de 1539 euros) registou uma variação anual de 6,7% no segundo trimestre, ao passo que a inflação homóloga foi caindo ao longo da primeira metade deste ano, chegando aos 3,4% em Junho (e tendo descido entretanto para os 3,1% em Julho).

A evolução dos salários médios é também bastante diferente consoante o sector de actividade que se está a analisar, havendo ainda áreas do mercado de trabalho em Portugal em que se continuam a acumular perdas de poder de compra.

Assim, no segundo trimestre, a remuneração média bruta continuou a cair em termos reais no sector da “Electricidade, gás, vapor, água quente e fria e ar frio”, com uma perda homóloga de 4,3%, no sector da “Agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca”, diminuindo 1,2%, e no sector das “Actividades financeiras e de seguros”, onde se registou uma descida de 0,7%.

No sentido oposto, as maiores subidas do salário médio real face ao ano passado ocorreram na “Administração Pública e Defesa; Segurança Social Obrigatória” e nas “Actividades dos organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais”, com aumentos de 4,7%, seguindo-se as “Actividades de consultoria, científica, técnicas e similares” e o “Alojamento, restauração e similares”, ambos com subidas de 4,2%.

A política salarial na Administração Pública é um exemplo claro da forma como os salários em Portugal reagiram à subida dos preços. Com a crise inflacionista já a começar a fazer-se sentir, o Governo avançou com uma actualização salarial para os funcionários públicos em 2022 indexada à inflação total do ano de 2021, que tinha sido ainda bastante moderada. Só na actualização feita para 2023 é que o impacto da escalada dos preços em 2022 se reflectiu nos salários.

De notar que, antes da crise inflacionista, Portugal atravessou um período de cinco anos seguidos em que o aumento do valor do salário médio superou a subida dos preços. Um ganho do nível salarial em termos reais que não foi eliminado durante a presente crise.

[artigo na íntegra disponível apenas para assinantes]