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14.9.23

BCE sobe taxas em 25 pontos base e coloca juros em níveis históricos

Luís Leitão, ECO - Parceiro CNN Portugal

Apesar da decisão desta quinta-feira, o BCE abre a porta - e pela primeira vez - ao fim do ciclo de subidas das taxas de juro iniciado em julho do ano passado

As taxas de juro na Zona Euro voltaram a subir. De acordo com a decisão tomada esta quinta-feira pelo Comité de Política Monetária do Banco Central Europeu (BCE), as taxas diretoras do BCE vão aumentar 25 pontos base.

Trata-se da décima subida consecutiva desde que em julho do ano passado a autoridade monetária da Zona Euro iniciou um ciclo de subida das taxas de juro. Com esta decisão, a taxa de facilidade permanente de depósitos aumenta para 4%, situando-se no valor mais elevado de sempre.


Significa que, a partir de agora, os recursos depositados pelos bancos comerciais junto do BCE em overnight passarão a ser remunerados à taxa de 4%.
Ciclos de subida do BCE

Com a subida anunciada esta quinta-feira, o Banco Central Europeu coloca a taxa de juro de facilidade permanente de depósito no valor mais elevado desde a entrada em vigor da moeda única.



As restantes taxas diretoras do BCE também sofrem um aumento de 25 pontos base. Desta forma, a taxa de juro das principais operações de refinanciamento passa para 4,5% e a taxa de juro aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez aumenta para 4,75%.


A decisão anunciada pelo BCE não apanhou o mercado totalmente de surpresa, sobretudo depois de na quarta-feira a Reuters ter revelado que o BCE prepara-se para rever em alta as previsões da inflação para o espaço da moeda única para o próximo ano, colocando o Índice Harmonizado de Preços do Consumidor acima dos 3% em 2024.

“As projeções macroeconómicas de setembro para a área do euro elaboradas por especialistas do BCE indicam uma inflação média de 5,6% em 2023, 3,2% em 2024 e 2,1% em 2025, o que representa uma revisão em alta para 2023 e 2024 e uma revisão em baixa relativamente a 2025”, refere o BCE.

A autoridade monetária da Zona Euro liderada por Christine Lagarde justifica que a revisão em alta da inflação em relação a 2023 e 2024 reflete uma trajetória mais elevada para os preços dos produtos energéticos. “As pressões subjacentes sobre os preços permanecem altas, embora a maioria dos indicadores tenha começado a abrandar.”

O BCE considera também que as condições de financiamento tornaram-se mais restritivas e estão a refrear cada vez mais a procura, “o que constitui um importante fator para fazer a inflação regressar ao objetivo”. O efeito desta dinâmica é espelhado por um maior enfraquecimento do enquadramento do comércio internacional, que levou os especialistas do BCE a reduzirem significativamente as suas projeções para o crescimento económico. O BCE espera agora que economia do espaço do euro cresça apenas 0,7% em 2023, 1,0% em 2024 e 1,5% em 2025.

BCE perspetiva que não haverá mais subidas

Pela primeira vez, o BCE abre também a porta a que o ciclo de subidas das taxas de juro desde julho do ano passado tenha chegado ao fim. “Com base na sua atual avaliação, o Conselho do BCE considera que as taxas de juro diretoras atingiram os níveis que – se forem mantidos durante um período suficientemente longo – darão um contributo substancial para o retorno atempado da inflação ao objetivo.”

Na sua declaração, o BCE salienta que “as futuras decisões do Conselho do BCE assegurarão que as taxas de juro diretoras sejam fixadas em níveis suficientemente restritivos, durante o tempo que for necessário.”

No entanto, o BCE sublinha que continuará a seguir uma abordagem dependente dos dados na determinação do nível e da duração adequados da restritividade. “As decisões do Conselho do BCE sobre as taxas de juro continuarão a basear-se na avaliação das perspetivas de inflação, à luz dos dados económicos e financeiros que forem sendo disponibilizados, da dinâmica da inflação subjacente e da força da transmissão da política monetária.”


12.9.23

BCE prepara reunião decisiva, com alguns falcões a roçar a recessão: conheça os dilemas para subir ou travar os juros

Jorge Nascimento Rodrigues Jornalista, in Expresso


O conselho do Banco Central Europeu está numa encruzilhada: subir juros uma vez mais ou fazer uma pausa a 14 de setembro. Os ‘falcões’ têm larga maioria, mas há divergências entre eles. Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, recupera direito de voto até final do ano. Já Joachim Nagel, presidente do Bundesbank alemão, não vota esta quinta-feira


O Banco Central Europeu (BCE) volta a reunir o seu conselho para decidir sobre política monetária a 14 de setembro. Na próxima quinta-feira tem em cima da mesa, pela primeira vez, duas opções: subir pela décima vez os juros ou fazer uma pausa, pela primeira vez desde que iniciou o ciclo de aperto monetário em julho do ano passado.

Os analistas falam de uma encruzilhada, com o conselho do BCE pressionado, por um lado, pela continuação da inflação acima de 5%, e, por outro, pelos sinais cada vez mais fortes do risco de estagnação na zona euro. Nos mercados, os futuros apontam para uma probabilidade de 60% no sentido de uma maioria a favor da paragem no aumento dos juros na próxima quinta-feira.


Apesar das atas da última reunião em julho revelarem que foi aconselhado a que a estratégia comunicacional não atribuísse “demasiada importância” à reunião de 14 de setembro, o que é certo é que, mos mercados, é tida como decisiva este ano. Aliás, um dos ‘falcões’ do conselho do BCE, Klaas Knot, governador do Banco Central dos Países Baixos (Nederlandsche Bank), dizia na semana passada que “em certo sentido é uma reunião crucial” e que a decisão “vai ser muito renhida”.

Nas primeiras decisões tomadas por bancos centrais em setembro, o Banco da Reserva da Austrália e o Banco do Canadá optaram por manter a pausa na subida dos juros.

ENCRUZILHADA DE OPÇÕES

As três últimas reuniões do ano do BCE enfrentam uma encruzilhada: continuar a subir os juros ou, em alguma delas, optar por uma pausa, temporária ou mais prolongada. O conselho do BCE sofre duas pressões de sinal contrário. Por um lado, a inflação na zona euro continua elevada, tendo estabilizado em 5,3% em julho e agosto, integrando nove economias com os níveis acima dessa média. Mas, por outro, acumulam-se os sinais de que uma aterragem suave na zona euro é cada vez menos provável.

Nas previsões avançadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo BCE em julho, o crescimento este ano na zona euro abrandaria para 0,9% e a Alemanha, a principal economia da área da moeda única, registaria uma recessão ligeira de 0,3%.

Esta segunda-feira, a Comissão Europeia avançou com um crescimento de 0,8%, nas suas previsões intercalares de verão, cortando em três décimas a previsão avançada em maio. Bruxelas aponta para uma recessão de 0,4% na Alemanha e um crescimento muito fraco de 0,5% nos Países Baixos.

A expectativa centra-se, agora, nas novas previsões macroeconómicas que Philip Lane, o economista-chefe do BCE, vai apresentar na próxima quinta-feira.

A pressão de uma inflação mais alta que exige ainda mais aperto monetário domina seis economias do euro com taxas acima de 6% em agosto, entre elas, a Alemanha e a Áustria, com chefes dos bancos centrais que são tidos como parte do núcleo duro de ‘falcões’ mais intransigentes.

Por outro lado, oito economias do euro registam uma situação anómala na sua curva de juros da dívida pública, com as yields a 2 anos superiores às verificadas a 10 anos no mercado secundário, o que é tido como um sinal antecipado de recessão. Sete dessas economias com a ‘curva invertida’ (como é designada tecnicamente) têm bancos centrais chefiados por ‘falcões’ intransigentes, nomeadamente Alemanha, Áustria, Bélgica e Países Baixos. O que revela que a opção de voto a tomar por muitos ‘falcões’ não é fácil.

‘FALCÕES’ COM LARGA MAIORIA

No entanto, os ‘falcões’ estão em larga maioria no conselho do BCE. Só contando governadores e presidentes dos bancos centrais nacionais, a correlação de forças é de 14 ‘falcões’ para seis ‘pombas’ (nas quais se inclui Mário Centeno, governador do Banco de Portugal), segundo o levantamento regular feito pelo portal InTouch Capital Markets. Na reunião de 14 de setembro, contando apenas quem vota no grupo dos bancos centrais nacionais, a relação é de 11 ‘falcões’ para 4 ‘pombas’ (os governadores dos bancos centrais de Espanha, Chipre, Itália e Portugal).

No mercado, as probabilidades apontam para uma pausa em setembro (60%), seguida de um regresso a subidas nas duas reuniões seguintes, que colhem 55% de probabilidade para a reunião de 26 de outubro e 58% para a de 14 de dezembro.


Na reunião de 14 de setembro, contando apenas quem vota no grupo dos bancos centrais nacionais, a relação é de 11 ‘falcões’ para 4 ‘pombas’ (os governadores dos bancos centrais de Espanha, Chipre, Itália e Portugal).

Nas declarações proferidas durante o verão pelos que votam em setembro, o holandês Knot avançou que “uma nova subida é uma possibilidade, mas não uma certeza”. Robert Holzmann, do Banco central da Áustria (Oesterreichische Nationalbank), um dos ‘falcões’ mais duros, adiantou que “ainda não tomei uma decisão, porque ainda não tenho todos os dados”. Mas logo adiantou que “não excluo que me decida por uma subida”, ou mesmo “por mais uma ou duas”.

O letão Martins Kazaks e o eslovaco Peter Kazimir inclinam-se para uma subida modesta (de 25 pontos-base) em setembro e depois fazer uma pausa. Entre os ‘falcões’ mais moderados, o governador do Banco de França, François Villeroy de Galhau, expressou a posição mais conciliadora: “Acredito que estamos perto ou muito perto do pico das taxas de juro. Manter as taxas por tempo suficiente conta mais do que as subir significativamente de novo”.

Nas posições mais vocais entre as ‘pombas’, destacaram-se Yannis Stournaras, do banco central helénico, e Mário Centeno, do Banco de Portugal. O grego repetiu que “não devemos continuar a subir as taxas”, admitindo “um período longo de pausa”. Contudo, Stournaras não vota a 14 de setembro. Entre os que votam, sobressaíram as declarações recentes de Centeno, onde em uma análise publicada pelo próprio Banco de Portugal, afirmou que “na dimensão monetária, o risco de fazer de mais começa a ser material”. Em português corrente: aumentar mais os juros começa a ser claramente um risco.

Com direito de voto permanente estão os seis membros da comissão executiva. Dois são tidos como ‘falcões’ (a alemã Isabel Schnabel e o holandês Frank Helderson) e outros dois como ‘pombas’ (o irlandês Philip Lane e o italiano Fabio Panetta). Na charneira, a autointitulada ‘coruja’ Christine Lagarde, a presidente do BCE, e o vice-presidente, o espanhol Luis de Guindos. A decisão final vai depender da capacidade de Lane, o economista-chefe, para sustentar tecnicamente as medidas que obtenham um apoio maioritário ou mesmo um consenso, e da gestão do risco e dos consensos políticos por Lagarde.






NÃO FALTAM ARGUMENTOS A FAVOR DE UMA SUBIDA DOS JUROS

Na balança de argumentos, as razões para manter o ciclo de aumento dos juros dominam largamente, explica o economista francês Eric Dor, diretor de estudos económicos do IESEG School of Management de Paris. Há ainda muitos factores inflacionistas em curso.

O nível ainda elevado da inflação e, em particular da inflação subjacente (excluindo as componentes mais voláteis da alimentação, energia, álcool e tabaco), acima de 5% é um argumento forte. A subida de preços na alimentação ainda está perto de 10%. A que acresce que nove economias do euro registam níveis de inflação acima da média da zona euro, entre elas a Alemanha, França e Itália.

Nas previsões avançadas esta segunda-feira pela Comissão Europeia, a inflação média anual este ano será de 5,6% e no final do próximo ano ainda estará em 2,9%, acima da meta de estabilidade de preços (2%) do BCE.

A incerteza sobre os preços da energia regressou, salienta Dor. A cotação do barril de Brent (de referência na Europa) subiu 21% entre 1 de junho e 11 de setembro. As decisões do novo cartel OPEP+ liderado pela Arábia Saudita e pela Rússia em cortar na produção estão, de novo, a pressionar os preços do petróleo em alta. “O que, depois de um certo atraso, provocará uma subida nos preços do óleo de aquecimento e dos combustíveis na bomba”, refere o economista francês.

Continua a acelerar-se a queda da produtividade na zona euro. No primeiro trimestre, medida em termos reais por hora trabalhada, caiu 0,9% em termos homólogos (em relação ao mesmo trimestre do ano passado), segundo o Eurostat. “Isto é inflacionista, pois uma descida do crescimento da produtividade implica que, para a mesma taxa de crescimento dos salários nominais, a subida do custos unitário do trabalho é superior”, explica Eric Dor.

A desvalorização do euro face ao dólar a que estamos a assistir no segundo semestre também não ajuda. O euro depreciou-se em 1,7% desde o final de junho. “Isto também é inflacionista, pois aumenta o preço em euros das importações cuja cotação é determinada em dólares”, adianta o economista.

Finalmente, a subida dos salários na zona euro no primeiro semestre deste ano está a ter um efeito de aceleração do aumento dos custos unitários de trabalho: o aumento trimestral saltou de 5% entre outubro a dezembro do ano passado para 6,83% entre abril e junho deste ano. No caso de Portugal, o aumento é superior à média da zona euro.

No outro prato da balança, podem elencar-se: o horizonte de franco abrandamento da economia da zona euro (reforçado pela previsão avançada esta segunda-feira por Bruxelas), o aperto monetário acumulado de 425 pontos-base com efeitos já visíveis no recuo do crédito à economia (empresas e famílias), a turbulência bolsista nos últimos três meses (com o índice para a zona euro a cair 5%), particularmente acentuada na Alemanha e nos Países Baixos, e os níveis altos de prémios de risco para a dívida pública de nove economias do euro com spreads acima de 100 pontos-base (1 ponto percentual em relação ao custo de financiar a dívida alemã).
COMO SE VOTA NO CONSELHO DO BCE

O sistema de votações no conselho do BCE é complexo. Há uma regra de rotatividade para o voto mensal para os governadores e presidente dos bancos centrais nacionais. As cinco maiores economias - Alemanha, França, Itália, Espanha e Países Baixos - têm quatro direitos de voto por mês e as restantes 15 - onde se inclui Portugal - podem usar 11 votos por mês. Os membros da comissão executiva votam sempre.

No entanto, as reuniões de política monetária - onde se decidem as taxas de juro e as medidas de aquisição ou venda da carteira de títulos - não são mensais, realizam-se oito vezes por ano, pelo que há uma matriz de votações.

Por exemplo, na reunião de 14 de setembro vota Mário Centeno, do Banco de Portugal, que não votou nas duas reuniões anteriores de junho e julho, mas não vota Joachim Nagel, do banco central alemão. Centeno vota também nas duas últimas reuniões do ano em outubro e dezembro.

4.9.23

Juros, pensões, creches: 2024 não começou e já há uma mochila que pesa 3 mil milhões de euros

Diogo  Cavaleiro, in Expresso

Pensões e salários são os principais responsáveis pelas despesas de 6 mil milhões que vão estar no próximo orçamento, mas Christine Lagarde também dá um impulso relevante. Retirada de auxílios de combate aos efeitos da guerra tem impacto positivo nas contas


Mesmo sem nenhuma nova medida, o próximo ano contará com despesas adicionais para o Estado de 3,1 mil milhões de euros. É essa a estimativa do próprio Ministério das Finanças tendo em conta as medidas já tomadas até aqui e cujos custos vão transitar para o próximo ano.

Ou seja, quaisquer outras medidas – incluindo o pacote Mais Habitação, o apoio às rendas e ao crédito, ou eventuais mexidas nos impostos que o Governo tem remetido para a elaboração do próximo Orçamento do Estado para 2024 – vão fazer com que esta mochila seja ainda mais pesada.

A informação consta do Quadro das Políticas Invariantes, que esta sexta-feira, 1 de setembro, foi entregue ao Parlamento pelo gabinete de Fernando Medina. O quadro foi inicialmente noticiado este sábado pelo Público, Eco e Negócios, sendo que o Expresso teve também acesso ao documento.


Os 3,1 mil milhões de euros correspondem ao saldo entre as medidas de despesa adicionais (que criam pressão no próximo Orçamento do Estado) e as que resultam de novas receitas (que aliviam esse mesmo Orçamento). Para 2024, há 3,1 mil milhões de impacto negativo nas contas, porque é o saldo que resta de despesas por pagar, mesmo utilizando todas as novas receitas.

São várias medidas que têm impacto anual, num montante que quase ascende a todo o capital que foi injetado na TAP (3,2 mil milhões de euros) pelo mesmo Executivo. E é um peso adicional num ano em que Fernando Medina, apoiado pelo impacto positivo da inflação nas contas do Estado, já disse que vai dispensar as há muito mal-amadas cativações (dinheiro orçamentado, mas não executado devido a travões das Finanças).


PENSÕES E SALÁRIOS SÃO MAIORES PESOS

As pensões são a fatura que mais pesa nas despesas já assumidas para 2024. Esse custo ascende a 2,6 mil milhões de euros, devido sobretudo à atualização das pensões, bem como ao aumento intercalar deste ano.

É um peso superior ao dobro do encargo com despesas com pessoal do Estado, em que o aumento com base no acordo de rendimentos teve o maior peso – mas não exclusivo. A subida do salário mínimo (de 705 para 760 euros mensais) custou 132 milhões de euros, mas há que contar também para 2024 com as progressões e os aceleradores de carreira.

JUROS PESAM MIL MILHÕES, CRECHES 10% DISSO

A despesa com juros que as administrações públicas têm de pagar está nos mil milhões de euros, um valor que duplica aquele que era o peso da rubrica em 2022.

Foi em 2022 que o Banco Central Europeu (BCE), encabeçado por Christine Lagarde, inverteu a política monetária, elevando o custo do dinheiro de uma forma nunca antes vista, de forma a combater uma inflação que as autoridades foram sempre dizendo que era temporária. A taxa de juro está em 4,25%, há uma nova reunião do Conselho do BCE, que junta os governadores, que pode fazer variá-la. Há um ano, em setembro de 2022, estava em 1,25%, quando em junho seguia em zero. Uma evolução que pesará no financiamento do Estado e que terá impacto no Orçamento para 2024.

Entre as medidas comunicadas por Fernando Medina ao Parlamento, a gratuitidade das creches representa uma nova despesa de 110 milhões, quase 10% do custo com os juros. Esse efeito – que tem impacto desde o ano passado e que tem impacto faseado – tinha um custo estimado pelo Governo para 2023 de 40 milhões, o que quer dizer que quase triplica no espaço de um ano.

Mesmo assim, esta medida fica muito aquém dos 591 milhões de euros adicionais em consumos intermédios. Explica o Governo que são despesas “em particular as relacionadas com a Saúde e os gastos operacionais das diversas entidades, incluindo o aumento expectável de encargos motivados pelo aumento dos preços dos bens e serviços, nomeadamente energéticos”.
NOVAS RECEITAS SÃO MEDIDAS DE AUXÍLIO A SER RETIRADAS

Do lado das receitas, estão sobretudo medidas que o Ministério das Finanças chamou de “medidas do choque geopolítico”, que darão 1,77 mil milhões de euros às contas do próximo ano.

O Jornal de Negócios escreve que aqui encontram-se medidas como os apoios para redução do ISP, o IVA zero e a suspensão da taxa de carbono: medidas criadas para limitar o impacto da guerra que a Rússia iniciou na Ucrânia, e que têm prazo de validade, pese embora o conflito militar ainda se mantenha.

Também a receita que decorre de haver aumento das despesas com pessoal e pensões ajuda (o impacto é mais negativo, mas também tem bons resultados para os bolsos dos contribuintes).

COMO A MOCHILA VAI GANHAR PESO

Em causa aqui estão apenas os dados de medidas que já entraram em vigor, ou que terão impacto em 2024. Todavia, ainda podem ser atualizada até ao Orçamento do Estado, cuja entrega tem de ocorrer no início de outubro. Os números podem ser atualizados (por exemplo, no ano passado, o impacto com os juros foi bem superior ao depois concretizado).

Além disso, sublinha o Governo, “não são apresentadas medidas financiadas pelo Mecanismo de Recuperação e Resiliência, uma vez que não têm impacto no saldo das Administrações Públicas”.

Da mesma forma, o Governo excluiu o pacote Mais Habitação, “uma vez que o processo de aprovação do respetivo diploma ainda não se encontra finalizado”. O Presidente da República chumbou-o, devolvendo a uma Assembleia da República maioritária em que o PS já disse que vai reenviar para promulgação, agora sem hipótese de um travão.

“Serão ainda consideradas nas estimativas do Orçamento do Estado para 2024 as medidas de apoio à renda e bonificação de juros que já tiveram início em 2023 e terão continuidade em 2024”, diz o Governo. Neste ponto, as Finanças já assumiram que o impacto está a ser limitado (sobretudo nas medidas da bonificação), e que irão avançar com um alargamento das medidas.

Este peso de 3,1 mil milhões de euros que segue para 2024 é, ainda assim, inferior ao que existia no ano passado. Em 2023, o quadro equivalente tinha um saldo ainda mais negativo, de 3,9 mil milhões de euros, em que as pensões foram, mais uma vez, o principal fator de pressão.

Não houve propriamente grande diferença nas grandes medidas: salários, consumos intermédios (com saúde) e juros consumiam a maior parte das outras despesas.

30.8.23

Inflação da maior economia europeia continua acima dos 6%

in Público


Alemanha deverá finalizar este mês com uma inflação de 6,1%, mantendo a pressão sobre a decisão que o Banco Central Europeu (BCE) terá de tomar em Setembro sobre os juros.

A taxa anual de inflação na Alemanha deverá fechar o mês de Agosto em 6,1%, previu esta quarta-feira o organismo estatístico oficial do país, o Destatis.

A confirmar-se, é um um alívio face ao Índice de Preços no Consumidor (IPC) registado em Julho, que terminou com uma taxa de 6,2%, e face a Junho (6,4%). A inflação subjacente, que exclui os preços dos alimentos não processados e a energia, foi de 5,5%, igual a Julho. Em Junho, foi de 5,8%.


No comunicado divulgado agora, o Destatis explica que “em Agosto de 2023, os preços dos produtos alimentares continuaram a registar um crescimento acima da média (+9,0%) em comparação com o mesmo mês do ano anterior”. Os preços da energia também subiram 8,3% no mesmo período face ao mês homólogo, mas o instituto alemão afirma que há que contabilizar na comparação o efeito de base: em Agosto de 2022, recorda, o governo federal da Alemanha implementou o terceiro plano de apoio à economia e aos consumidores.

Em termos comparáveis com o resto dos Estados-membros da União Europeia, a maior economia da região registou um Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), de 6,4% (mais 0,4% face a Julho), aliviando dos 6,5% registados em Julho. O Financial Times adianta que os economistas consultados pelo jornal previam uma descida maior, para 6,2%.


Espanha também publicou hoje a primeira estimativa de inflação para Agosto, de 2,6%, prevendo que o IHPC seja de 2,4%. Portugal tem prevista a sua divulgação para esta quinta-feira, último dia do mês.


[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]


Que indicadores nos vão dizer (e quando) se os juros continuam a subir?

Sónia M. Lourenço, in Expresso

A 14 de setembro, o conselho do Banco Central Europeu volta a reunir-se para decidir o próximo passo na sua política monetária. Continuar a subir os juros ou fazer uma pausa é a pergunta para um milhão de euros. A resposta depende, em grande medida, dos últimos dados de vários indicadores. O Expresso explica-lhe quais são


Após nove subidas consecutivas das taxas de juro de referência no espaço de cerca de um ano, é grande a expetativa sobre qual será a decisão do conselho do Banco Central Europeu (BCE) na próxima reunião, agendada para o próximo dia 14 de setembro. “Podemos subir ou podemos fazer uma pausa”, apontou Christine Lagarde, presidente da instituição, na conferência de imprensa onde explicou o aumento dos juros decidido em julho. E frisou que a decisão será “dependente dos dados”, tanto para setembro, como para as reuniões seguintes. Ainda assim, no final da semana passada, no simpósio de Jackson Hole, nos Estados Unidos, Lagarde frisou que a “guerra” contra a inflação ainda “não está ganha”, apesar “dos progressos que têm sido feitos”. Com este pano de fundo, afinal, quais são os indicadores que nos vão dizer - e quando - se os juros continuam a subir? O Expresso explica-lhe em seis perguntas e respostas quais são os mais importantes e quais as últimas leituras.


1

QUANDO SERÁ TOMADA A PRÓXIMA DECISÃO DO BCE SOBRE AS TAXAS DE JURO DE REFERÊNCIA?

A próxima reunião de política monetária do BCE está agendada para 14 de setembro, em Frankfurt. Depois de nove decisões consecutivas de aumento das taxas de juro de referência no espaço de cerca de um ano - as reuniões decorrem com intervalos de seis semanas entre elas - está em cima da mesa uma nova subida ou, em alternativa, fazer um pausa nesta escalada. Na conferência de imprensa no final do último encontro, a 27 de julho, Lagarde salientou que “podemos subir ou podemos fazer uma pausa, e o que for decidido em setembro não é definitivo. Pode variar de uma reunião para outra". E vincou que “estamos deliberadamente dependentes dos dados”.


2

QUEM TOMA A DECISÃO DE SUBIR OU NÃO OS JUROS?

A decisão é tomada nas reuniões de política monetária do Conselho do BCE. O Conselho é formado pelos seis membros da comissão executiva da instituição, mais os governadores dos bancos centrais dos países da zona euro. Contudo, nem todos votam em todas as reuniões. Os membros da comissão executiva - Christine Lagarde (presidente), Luis de Guindos (vice-presidente), Frank Elderson, Philip R. Lane, Fabio Panetta, e Isabel Schnabel - têm direito de voto em todos os encontros. Mas, no caso dos governadores dos bancos centras nacionais o exercício desse direito é rotativo, tendo em conta o tamanho das economias e dos sistemas financeiros nacionais. Por causa deste regime, Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, não votou na reunião de julho, mas irá votar no encontro de setembro.


3

QUAIS SÃO OS DADOS DE QUE O BCE ESTÁ “DEPENDENTE” NESSA DECISÃO, COMO REFERIU CHRISTINE LAGARDE?

O primeiro e mais importante é o valor da inflação na zona euro, tanto o indicador global, como o indicador subjacente (que exclui os produtos energéticos e alimentares, com preços mais voláteis). Na reunião de 27 de julho, quando foi decidido o último aumento das taxas de juro de referência - em 25 pontos-base -, os últimos dados disponíveis eram os de junho, mês em que a taxa de inflação na zona euro, medida pela variação homóloga do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) tinha descido para os 5,5% (o que comparava com 6,1% em maio). Quanto ao indicador subjacente (excluindo energia, produtos alimentares, bebidas alcoólicas e tabaco) tinha subido em junho para 5,5%, quando estava nos 5,3% em maio. Valores muito acima da fasquia dos 2% que serve de referência para BCE, e que tem a estabilidade dos preços inscrita no seu mandato.


4

JÁ FORAM CONHECIDOS NOVOS VALORES PARA ESTES INDICADORES?

Sim, desde então o Eurostat publicou os dados da inflação na zona euro relativos a julho, que indicam uma nova descida no indicador total, para 5,3%. Contudo, o indicador subjacente (excluindo energia, produtos alimentares, bebidas alcoólicas e tabaco) manteve-se inalterado nos 5,5%. O BCE e outros bancos centrais dão muita importância a este indicador subjacente, já que sinaliza até que ponto as pressões inflacionistas - que no atual surto começaram na energia e produtos alimentares - se disseminaram pela economia, podendo tornar-se mais persistentes. E a informação disponível para o conselho do BCE não vai ficar por aqui. Esta quinta-feira, 31 de agosto, o Eurostat vai divulgar a estimativa rápida para a inflação na zona euro em agosto, embora o valor definitivo (e os detalhes) só sejam publicados depois da reunião do BCE.


5

O BCE TAMBÉM TEM EM CONTA PREVISÕES PARA A EVOLUÇÃO DA INFLAÇÃO NO FUTURO?

Sim. Na reunião de 14 de setembro serão divulgadas as novas projeções dos especialistas do BCE para a esperada descida da inflação nos próximos meses e anos. Números que irão pesar na decisão do Conselho de voltar a subir, ou não, as taxas de juro de referência. Outro fator que os membros do Conselho terão em conta passa pelas expetativas de inflação na zona euro, sobretudo a médio e longo prazos. Na conferência de imprensa após o encontro de julho, Lagarde destacou que a maioria destas medidas “estão atualmente em torno dos 2%”, mas “alguns indicadores permanecem elevados e precisam de ser monitorizados de perto”. Para avaliar essas expetativas sobre a inflação futura na zona euro, o BCE recorre a ferramentas como o inquérito às expetativas dos consumidores. No inquérito de junho (resultados publicados já em agosto), a mediana dessas expetativas para o valor da inflação nos próximos 12 meses voltou a recuar, para 3,4% (3,9% em maio), e para a inflação nos próximos três anos baixou para 2,3% (2,5% em maio). Novos dados serão divulgados a 5 de setembro, ou seja, ainda antes da reunião de dia 14.


6

HÁ OUTROS INDICADORES A TER EM CONTA?

O BCE presta muita atenção à transmissão das decisões de política monetária - subida das taxas de referência - aos mercados de crédito na zona euro. Uma forma de aferir essa transmissão passa pelos resultados do inquérito ao crédito dos bancos da zona euro. No final de julho, o BCE reportava que os critérios de concessão de crédito apertaram adicionalmente para todas as categorias de empréstimos, e que a procura de crédito diminuiu fortemente, tanto por parte das empresas, como das famílias (esta segunda-feira, por exemplo, o Banco de Portugal deu conta da primeira queda no montante do crédito à habitação em Portugal em quase cinco anos).

3.8.23

Crescimento da economia portuguesa em 2023 sob pressão

Sónia M. Lourenço Jornalista e Carlos Esteves Jornalista infográfico,  in Expresso
Segundo trimestre ficou abaixo do esperado e dados apontam para um arrefecimento da atividade em julho, no arranque do terceiro trimestre


Depois de sucessivas melhorias das projeções de crescimento em 2023, a economia portuguesa arrisca agora um movimento contrário, de revisão em baixa. O segundo trimestre ficou aquém do esperado pela maioria dos economistas — muito por causa das exportações, num contexto de estagnação económica da União Europeia (UE), com os juros em forte alta devido à política do Banco Central Europeu (BCE) para contrariar a inflação. E os primeiros dados sobre o terceiro trimestre apontam para um arrefecimento adicional da atividade. Conseguir crescer acima dos 2,5% este ano ficou mais difícil e mais longe.

Os economistas ouvidos pelo Expresso sobre o comportamento da economia portuguesa no segundo trimestre apontavam, em média, para um crescimento de 2,5% em termos homólogos (na comparação com o mesmo período de 2022), e de 0,2% em cadeia (em relação ao trimestre anterior). Mas, os dados da estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicados esta semana, ficaram pelos 2,3% homólogos e zero em cadeia.

Números que colocam o país entre os que mais cresceram na UE face a 2022 (considerando os Estados-membros já com dados disponíveis), embora ficando muito pior classificado na comparação com o primeiro trimestre.

Mas, que significam uma forte travagem da economia portuguesa face aos primeiros três meses do ano, quando o crescimento chegou aos 3,5% homólogos e aos 1,6% em cadeia.

Ainda assim, uma nota de análise da Católica-Lisbon aponta que “não deve ser interpretado como uma paragem no processo de crescimento em curso, mas como uma possível correção do registo surpreendentemente bom do primeiro trimestre do ano”.


EXPORTAÇÕES ARREFECEM

A explicação para esta travagem está, sobretudo, na frente externa. Ainda não há detalhes, mas o INE adianta que o contributo positivo da procura externa líquida para o crescimento homólogo do Produto Interno Bruto (PIB) foi inferior, com um abrandamento das exportações mais marcado que o das importações. Em sentido inverso, o contributo positivo da procura interna aumentou, graças a uma redução menos pronunciada do investimento, já que o consumo privado abrandou.

Quanto à variação em cadeia do PIB, o contributo da procura externa líquida foi negativo — tinha sido positivo no primeiros trimestres —, por causa das exportações. O que contrariou o aumento do contributo da procura interna, refletindo a aceleração do consumo privado.

Este enfraquecimento das exportações “resulta, muito possivelmente, de uma queda nas vendas de bens ao exterior”, aponta uma nota de análise do BPI, lembrando que a “informação da balança corrente (valores nominais) indica contração das exportações de bens, mas continua a indicar forte crescimento das exportações de serviços, nomeadamente turismo”.

Isto quando a economia europeia continua em dificuldades. A UE representa mais de 70% das exportações portuguesas de bens e estagnou em cadeia no segundo trimestre. E não se esperam grandes melhorias para breve, dada a inflação ainda elevada e a trajetória de subida dos juros.

“O caso mais problemático é a Alemanha”, salienta António Ascensão Costa, professor do ISEG. O motor da economia europeia continua gripado, com um crescimento zero em cadeia no segundo trimestre, depois de dois trimestres consecutivos de contração.

“Isto é mau para a economia portuguesa, diretamente através de exportações, e indiretamente porque o crescimento alemão pesa sobre outros países clientes de Portugal”, vinca o economista. “Dificilmente, se um período de estagnação ou fraco crescimento se prolongar na Alemanha, ele não se traduzirá em menor crescimento em Portugal”, alerta.

Ao mesmo tempo, “as exportações turísticas alcançaram e superaram o nível de 2019 e agora o seu crescimento começa a desacelerar”, diz António Ascensão Costa.

“Apesar do bom momento das exportações de bens e de serviços, começa a observar-se uma desaceleração, em especial considerando que em 2022 já houve máximos pós-2019”, aponta, por sua vez, Rui Constantino, economista-chefe do Santander em Portugal.


SINAIS MISTOS PARA O SEGUNDO SEMESTRE

Olhando para a segunda metade do ano, Rui Constantino considera que os sinais são “mistos”. Pela positiva, destaca os baixos níveis de desemprego — a taxa de desemprego manteve-se inalterada em junho nos 6,4% —, “reflexo de uma economia a operar no pleno emprego”, a recuperação da confiança dos consumidores e o seu reflexo nas vendas a retalho. Em sentido contrário, “é visível um abrandamento no turismo”.

A informação disponível sobre o terceiro trimestre é ainda escassa, destacando-se os indicadores de confiança apurados pelo INE. E o que nos dizem é que a confiança dos consumidores continua a recuperar, apoiada no baixo desemprego, mas a confiança dos empresários retrocedeu ligeiramente. “Os dados são consistentes com uma economia a crescer, mas de forma moderada”, diz Rui Constantino.


João Borges de Assunção, professor da Católica-Lisbon, é mais conservador, considerando que os dados “têm saído, em, geral, bastante fracos”. E destaca que o indicador diário de atividade económica, calculado pelo Banco de Portugal, “sugere até a possibilidade de uma contração”.


ara António Ascensão Costa, “na segunda metade do ano, o crescimento do PIB terá de ter maior peso da procura interna, nomeadamente investimento”. Caso contrário “dificilmente atingirá cerca de 2,5%” no conjunto de 2023, defende.

O economista lembra que um crescimento só baseado na procura externa líquida, como aconteceu em Portugal no primeiro trimestre deste ano, “é um caso invulgar”. Ainda assim, “pode acontecer que as Jornadas Mundiais da Juventude acabem por gerar um contributo do mesmo tipo” no terceiro trimestre.

Tudo somado, a Católica-Lisbon mantém a sua projeção de crescimento da economia portuguesa este ano nos 2,4%. O ISEG não mexe na previsão de 2,5%, mas António Ascensão Costa aponta “incerteza”. Quanto ao Santander, que aponta para 2,6%, Rui Constantino avisa que os dados sobre o segundo trimestre “teriam como impacto uma revisão ligeira em baixa”. Mas “iremos aguardar pelos detalhes, e por informação mais concreta sobre a atividade no decurso do terceiro trimestre”, diz.

Para o BPI, os números do segundo trimestre “colocam alguma pressão” sobre a projeção de 2,6%, até porque “o indicador diário de atividade do Banco de Portugal aponta para uma desaceleração significativa da atividade em julho”, lê-se numa nota de análise.

Acresce a “expectativa de que o endurecimento das condições de financiamento pesarão nas decisões dos agentes económicos durante o resto do ano”, aponta a mesma nota do BPI, salientando, pela positiva, que “o mercado de trabalho continua robusto, dando algum suporte ao consumo privado, e o comportamento da atividade turística”.

Recorde-se que a Comissão Europeia aponta para um crescimento da economia portuguesa este ano de 2,4%, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico espera 2,5%, o Fundo Monetário Internacional antecipa 2,6% e o Banco de Portugal projeta 2,7%.

6.7.23

Teixeira dos Santos: críticas de Marcelo, Costa e partidos a Lagarde “foram despropositadas”


Teixeira dos Santos, antigo ministro das Finanças, sublinha que política monetária do BCE tem tido efeitos positivos e que o momento não é o de questionar o “saber” da instituição liderada por Lagarde

Fernando Teixeira dos Santos foi ministro das Finanças de José Sócrates, ex-presidente da Comissão de Mercados e Valores Mobiliários e avisa que, neste momento, "um país com a dívida de Portugal não se pode iludir com a chamada folga orçamental". Em entrevista ao programa Hora da Verdade do PÚBLICO-Renascença, defende, porém, que o próximo Orçamento do Estado deve dar prioridade ao alívio do IRS. Pode ouvir esta entrevista na íntegra no site do PÚBLICO ou na Renascença esta quinta-feira pelas 23h. 



[entrevista disponível apenas para assinantes, aqui]

25.5.23

Duarte Alves: "BCE reconhece que a inflação e aumento de preços é consequência dos lucros"

Duarte Alves, opinião, in Rádio Voz da Planície


Depois de ouvir vários setores da sociedade, a Voz da Planície entrevista nesta quinta-feira, dia 30, Duarte Alves, economista, mestre em Economia e Políticas Públicas, comentador para esta área, que nos faz uma análise das novas medidas apresentadas pelo Governo.

Para este economista “é preciso percebemos se vai ser refletida a redução do IVA nos preços”.

Mesmo que num momento inicial esta redução se verifique, alerta para a ausência de garantias de que os preços voltem a aumentar nestes seis meses em que a medida governamental durará, e que os seis por cento não voltem a ser incorporados nos preços finais pelas empresas de grande distribuição.

“Quando o primeiro-ministro diz que este acordo foi feito com base na boa-fé, e falamos de grandes distribuidoras como a Sonae e a Jerónimo Martins, não nos convence de que não possa haver um aproveitamento para incorporar esses seis por cento na margem dos supermercados”, refere.

Duarte Alves deixa o alerta para que, além da possibilidade anterior, finalizado o período da medida, os produtos vão voltar a ter IVA e logo, vão aumentar outra vez mais seis por cento.

Para Duarte Alves, “o que se impunha, neste momento, era o controlo dos preços, pois pudemos estar perante uma situação de transferência de recursos públicos do Estado para as empresas da grande distribuição, sem que isso se reflita verdadeiramente numa redução dos preços para os consumidores”.

O fundamental, destaca, “seria que o Governo assumisse, neste conjunto de bens essenciais, a disponibilidade de efetivar um controlo de preços”.

A questão dos salários e das pensões é outro tema levantado, nomeadamente pelo “contraste” que existe entre estes e os lucros dos grandes grupos económicos. Mesmo com o aumento de um por cento nos salários da função pública, que “continua a não corresponder ao aumento da inflação, não se recupera a perda de poder de compra que, em 2022, para os funcionários públicos, foi praticamente de um salário ao longo ano”.

No caso das pensões, a questão vai mais longe pois “continuam a levar com o corte que o Governo aplicou” com a entrega de meia pensão, “e não houve nenhuma medida para compensar a perda de poder de compra dos pensionistas, que é provavelmente quem mais sofre com problemas sociais e económicos”.

Para a economia do País, Duarte Alves sublinha que não havendo disponibilidade financeira das famílias, que se sentem cada vez mais empobrecidas, também não haverá consumo, nem desenvolvimento do mercado interno e logo da economia do País.

Nos lucros das grandes empresas esta medida não terá qualquer influência, pois as margens nada sofrerão, ficando “os lucros exatamente na mesma”.

Este economista refere que “o Banco Central Europeu (BCE) já veio dizer que esta espiral inflacionista vem dos lucros”. E deixa uma questão: “Se é o próprio BCE que reconhece que a inflação e o aumento de preços não vem dos salários mais sim dos lucros, do que é que está à espera o Governo para intervir sobre os lucros e aumentar os salários e as pensões?”

O Governo, salienta, “devia ouvir o que diz o BCE sobre a forma como os lucros estão a impulsionar a inflação”.

Euribor a três e a seis meses sobem para novos máximos desde novembro de 2008

Por Lusa,  in RTP


A taxa Euribor subiu hoje a três, a seis e a 12 meses face a quarta-feira, nos dois prazos mais curtos para novos máximos desde novembro de 2008.


A taxa Euribor a 12 meses, que atualmente é a mais utilizada em Portugal nos créditos à habitação com taxa variável, avançou hoje, ao ser fixada em 3,943%, mais 0,011 pontos, mas ainda abaixo do máximo desde novembro de 2008, de 3,978%, verificado em 09 de março.

Segundo dados de março de 2023 do Banco de Portugal, a Euribor a 12 meses representa 41% do `stock` de empréstimos para habitação própria permanente com taxa variável. Os mesmos dados indicam que a Euribor a seis e três meses representam 33,7% e 22,9%, respetivamente.

A média da taxa Euribor a 12 meses avançou de 3,647% em março para 3,757% em abril, mais 0,110 pontos.

No prazo de seis meses, a taxa Euribor, que entrou em terreno positivo em 06 de junho de 2022, também subiu hoje, para 3,769%, mais 0,025 pontos do que na quarta-feira e um novo máximo desde novembro de 2008.

A média da Euribor a seis meses subiu de 3,267% em março para 3,516% em abril, mais 0,249 pontos.

No mesmo sentido, a Euribor a três meses, que entrou em 14 de julho em terreno positivo pela primeira vez desde abril de 2015, avançou hoje, para 3,457%, mais 0,042 pontos, também um novo máximo desde novembro de 2008.

A média da Euribor a três meses subiu de 2,911% em março para 3,179% em abril, ou seja, um acréscimo de 0,268 pontos percentuais.

As Euribor começaram a subir mais significativamente a partir de 04 de fevereiro de 2022, depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter admitido que poderia subir as taxas de juro diretoras devido ao aumento da inflação na zona euro e a tendência foi reforçada com o início da invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022.

Na mais recente reunião de política monetária, em 04 de maio, o BCE voltou a subir, pela sétima vez consecutiva, mas apenas em 25 pontos base, as taxas de juro diretoras, acréscimo inferior ao efetuado em 16 de março, em 02 de fevereiro e em 15 de dezembro, quando começou a desacelerar o ritmo das subidas em relação às duas registadas anteriormente, que foram de 75 pontos base, respetivamente em 27 de outubro e em 08 de setembro.

Em 21 de julho de 2022, o BCE aumentou, pela primeira vez em 11 anos, em 50 pontos base, as três taxas de juro diretoras.

As taxas Euribor a três, a seis e a 12 meses registaram mínimos de sempre, respetivamente, de -0,605% em 14 de dezembro de 2021, de -0,554% e de -0,518% em 20 de dezembro de 2021.

As Euribor são fixadas pela média das taxas às quais um conjunto de 57 bancos da zona euro está disposto a emprestar dinheiro entre si no mercado interbancário.

24.5.23

Vinte e cinco anos de unidade do euro

Christine Lagarde, opinião, in Público


Faremos a inflação regressar ao objetivo de 2% no médio prazo. Aumentámos as taxas de juro a um ritmo sem precedentes e vamos mantê-las em níveis restritivos durante o tempo que for necessário.


O Banco Central Europeu foi instituído em 1 de junho de 1998 para preparar o lançamento do euro – a maior transição monetária de sempre a nível mundial. Trabalhava na altura como advogada e recordo o ritmo frenético com que revimos contratos baseados em taxas de câmbio que em breve desapareceriam. Poderia a moeda comum funcionar realmente? Hoje, ao celebrarmos o 25.º aniversário desta instituição, sabemos que o euro não só funciona como conseguiu reforçar a coesão europeia.

Investidos pelos governos da União Europeia com a missão de zelar pelo euro, os nossos colaboradores em Frankfurt, juntamente com os colegas dos 20 bancos centrais nacionais da união monetária, trabalham incansavelmente para desempenhar o nosso mandato de manter a estabilidade de preços. Este trabalho é fundamental para a prosperidade dos cidadãos europeus.

[Artigo exclusivo para assinantes]

10.5.23

Presidente do BCE admite novas subidas das taxas de juro

in SIC



Christine Lagarde diz que o Banco Central Europeu vai estar "extremamente atento" aos fatores que pressionam a inflação e, em particular, ao crescimento dos salários em vários países europeus.


Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), admite novas subidas das taxas de juro e alerta que são ainda grandes os riscos de subida da inflação acima das previsões.

No topo das preocupações do Banco Central Europeu está a subida de salários que pode provocar um agravamento generalizado dos preços.

Christine Lagarde disse, por isso, ao jornal japonês Nikkei, que o BCE vai estar "extremamente atento" aos fatores que pressionam a inflação e, em particular, ao crescimento dos salários em vários países europeus.
Taxas de juro aumentaram na passada semana

As declarações da presidente da instituição surgem depois de na passada semana, ter sido anunciado que as taxas de juro vão voltar a aumentar, desta vez em 25 pontos base. Esta é, no entanto, a subida mais ligeira desde que as taxas de juro da zona euro começaram a aumentar para combater a inflação.

Para o verão, os economistas preveem que as mesmas cheguem a máximos dos últimos 22 anos e admitem que ainda poderá ser cedo para o BCE começar a ponderar acabar com este ciclo de aumentos, que já vai em sete subidas consecutivas

5.5.23

BCE desliga bazuca, exige fim imediato de apoios na energia e diz que não pode ajudar mais Portugal

Luís Reis Ribeiro, in DN



"Algumas famílias estão a sofrer porque os reembolsos aos bancos subiram com as nossas decisões", reconheceu Lagarde. "Mas isto é algo que, infelizmente, não podemos aliviar."


As taxas de juro centrais (diretoras) da zona euro subiram novamente, mas agora num registo de abrandamento, anunciou ontem (quinta-feira, 4 de maio) o Banco Central Europeu (BCE). Para compensar, a maior bazuca de dinheiro barato (o programa APP, concebido para terminar com a crise do euro, em 2014), será desligada em julho.

APP é a sigla inglesa para "programa de compra de ativos (asset purchase programme".


Terminam os reinvestimentos que têm permitido conservar no balanço do BCE quantidades monumentais de dívida pública, por exemplo.

À medida que as obrigações vencem, elas retornam ao mercado secundário, o que as pode fazer desvalorizar e assim agravar os juros dos Estados.


O BCE também mostrou grande impaciência com os apoios dos governos no campo da energia e exigiu aos governos que "suprimam já" os apoios públicos nesta área, porque ameaçam "intensificar as pressões inflacionistas".

Sobre as famílias endividadas e mais apertadas pela subida das taxas de juro (as portuguesas foram diretamente referidas pela presidente do BCE) também houve uma palavra e, descodificando, vão ter de se aguentar, porque o combate contra a inflação está primeiro. As taxas de juro vão continuar a subir durante muito tempo, reiterou Christine Lagarde, a presidente do BCE, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião sobre taxas de juro.


Aperto vai ser longo

Como referido, as taxas de juro diretoras da zona euro voltaram a subir, com a taxa central de refinanciamento a aumentar de 3,5% para 3,75%. A taxa de depósito, que até é a mais usada pelos bancos comerciais quando precisam de pedir emprestado ao BCE, aumenta para 3,25%.


Este novo aumento de 0,25 pontos percentuais (p.p.) traduz-se num abrandamento no ritmo de aperto monetário, mas o aperto continua.

E durante "muito tempo", porque o cenário para a inflação assim o diz. Vai continuar "demasiado alta" e não se vê fim à vista, diz a autoridade sediada em Frankfurt, na Alemanha.

Extinção gradual da bazuca

Em comunicado, o BCE afirma que "quer" terminar já em julho, o enorme programa de expansão monetária (compras de dívida pública sobretudo, mas privada também) que lançou para combater de forma mais musculada a crise que ainda pairava sobre a zona euro, no final de 2014.

A descontinuação da chamada fase de reinvestimento do gigante programa APP ainda estava em aberto. Mas agora o BCE é mais claro: acaba em julho.

Ou seja, vai começar a desfazer-se das obrigações do Tesouro que conserva no balanço por via do "reinvestimento", devendo os referidos títulos voltar ao mercado aberto, o que pode pressionar em alta as taxas de juro da dívida.

Seja como for, este processo de extinção do APP "deve durar 15 anos", disse a presidente do BCE, Christine Lagarde, em conferência de imprensa, já que estamos a lidar com títulos de maturidades longas, ou seja, vão vencendo gradualmente ao longo de muito tempo.

Mas as taxas de juro soberanas continuam a subir. Só para se ter uma ideia, há um ano, em abril de 2022, a taxa de juro média da dívida soberana portuguesa a dez anos estava em 1,76%, mas no mês passado era quase o dobro (3,2%), indica o Banco de Portugal (BdP).

Para países muito endividados, como Portugal, é um problema e pode aumentar a pressão nas contas públicas.

No campo das políticas orçamentais, Lagarde mostrou mais impaciência ainda com as medidas de apoio às famílias e empresas contra os custos da energia. Em março, Lagarde disse que "é importante começar a descontinuar essas medidas sem demora".

Ontem, trouxe tal exigência mais para cima no discurso e avisou: "com o desvanecimento da crise energética, os governos devem suprimir imediatamente e de forma concertada as medidas de apoio relacionadas, a fim de evitar intensificar as pressões inflacionistas a médio prazo, o que exigiria uma resposta mais forte da política monetária".

O momento Portugal

As famílias portuguesas, espanholas ou finlandesas que se endividaram junto dos bancos e assinaram contratos de crédito indexado a taxas de juro variáveis (Euribor) "estão a sofrer" diretamente o impacto das subidas de taxas decididas pelo BCE, mas "infelizmente, não as podemos aliviar", disse Lagarde.

Portugal, Espanha e Finlândia são países da zona euro onde a taxa de prevalência de novos empréstimos indexados a taxas variáveis bastante superior face aos pares.

Dados do próprio BCE obtidos pelo Dinheiro Vivo mostram que, atualmente, em Portugal, os novos empréstimos para compra de casa indexados a taxa de juro variável equivalem a 67% do total de novos contratos. O quinto maior valor da zona euro. A Finlândia lidera este ranking, com 98% do total de novos negócios hipotecários indexados a taxas variáveis. A média da zona euro está nuns meros 24%.

Lagarde foi questionada sobre isto e respondeu: "Claro que estamos cientes que há famílias que contrataram empréstimos a taxas variáveis." "Em países como Finlândia, Portugal, Espanha, é verdade que algumas famílias estão a sofrer, porque os reembolsos [amortizações e juros] que têm de honrar junto dos bancos subiram em resultado das nossas decisões em aumentar as taxas de juro diretoras", reconheceu a chefe máxima do BCE.

"Isto é algo que nós, infelizmente, não podemos aliviar ou atenuar, porque a nossa tarefa é alcançar a estabilidade de preços e reduzir a inflação", justificou a banqueira central. E não desarmou: "A nossa tarefa é reduzir a inflação e para isso temos de usar as taxas de juro".

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

4.5.23

BCE prepara a sétima subida de juros, mas pode abrandar ritmo

Sérgio Aníbal, in Público



Inflação, crescimento, emprego e taxas de câmbio dão sinais diferentes para o debate dentro do BCE sobre o que fazer às taxas de juro. Uma nova subida, contudo, é vista como certa esta quinta-feira.


Numa conjuntura em que vários factores apontam para diferentes caminhos para a inflação, os responsáveis do Banco Central Europeu (BCE) podem esta quinta-feira anunciar a sua sétima subida consecutiva das taxas de juro desde Julho. Ainda assim, desta vez, há a possibilidade de a autoridade monetária abrandar o ritmo a que está apertar a sua política monetária, dando sinais mais claros de que uma declaração de tréguas na guerra contra a escalada de preços pode estar já mais próxima.

As discussões dentro do conselho do BCE na manhã desta quinta-feira, contudo, prometem ser acesas. Os seis membros do conselho executivo, incluindo a presidente, Christine Lagarde, e os 20 governadores dos países da zona euro, incluindo o português Mário Centeno, têm dado mostras, nos últimos meses, de estar divididos em relação ao que deve ser a política monetária seguida na zona euro.

De um lado, um grupo do qual faz parte o governador do Banco de Portugal tem defendido que depois de ter subido, desde Julho do ano passado, a sua taxa de depósito de -0,5% para 3%, o BCE deveria esperar que esse abrandamento no custo de financiamento produzisse efeito, em vez de, com novas subidas de taxas precipitadas, empurrar a economia da zona euro para uma recessão profunda.

Do outro lado, um diferente grupo de governadores, até aqui a maioria, considera que o nível alto a que ainda está a inflação e principalmente a persistência da inflação subjacente (aquela que não inclui os preços dos produtos alimentares e energéticos) exigem que se continue a agir de forma agressiva, pondo o mais rapidamente possível as taxas de juro a um nível ainda mais alto.

Como que procurando agendar um maior entendimento para o futuro, as duas partes concordaram na última reunião realizada em Março, quando foi decidida pela maioria uma nova subida de 0,5 pontos percentuais das taxas de juro, que o BCE deve decidir reunião a reunião, de acordo com os dados económicos que forem sendo conhecidos.

O problema é que aquilo que os dados económicos mostraram nas semanas desde a última reunião aponta em tantos sentidos distintos que não deverá ser suficiente para permitir uma convergência de opiniões de todos os responsáveis do BCE.

Desde a última reunião ficou a saber-se que, em Março, a inflação na zona euro caiu pelo sexto mês consecutivo para 6,9%, mostrando estar no bom caminho. No entanto, depois, com os dados da inflação de Abril publicados esta semana, a notícia foi que se interrompeu esta tendência, com uma nova subida da variação de preços para 7%.

Por outro lado, a inflação subjacente teve o percurso inverso, com mais uma subida em Março e um sinal de abrandamento em Abril, o primeiro nos últimos dez meses.

A dar força àqueles que defendem que o BCE não deve abrandar no seu combate à inflação, surgiram também nas últimas semanas os dados do PIB e do desemprego, com a economia da zona euro a conseguir escapar a um cenário de recessão técnica e a taxa de desemprego a registar uma nova descida outra vez em Março. A expectativa de que o mercado de trabalho continuará sob pressão faz acreditar que se irão passar a registar aumentos salariais mais elevados, algo que começa a ser evidente nas últimas negociações laborais concluídas na Alemanha.

Em contrapartida, os inquéritos realizados pelo Eurosistema aos bancos da zona euro mostram que estes estão já, de forma clara, a endurecer os critérios de concessão de crédito, uma tendência que pode significar uma transmissão mais rápida à economia da política monetária restritiva do BCE.

E, além disso, também a dar argumentos aos que acham que o BCE deveria fazer já uma pausa, continuou-se a assistir, nas últimas semanas, a uma apreciação do euro face ao dólar e a outras divisas, algo que faz com que os bens importados, como, por exemplo, os energéticos e os alimentares, possam ficar mais baratos.

Pesados todos estes factores, a discussão promete ser animada e um consenso muito difícil. Entre os analistas, a dúvida está em saber se o BCE mantém o ritmo de subida de taxas, elevando já a sua taxa de depósito dos actuais 3% para 3,5%, ou se abranda, e se decide por uma subida de 0,25 pontos. A maioria das apostas vai para este segundo cenário, que seria uma espécie de compromisso entre as duas facções existentes dentro do BCE, havendo mesmo a expectativa de que o discurso da presidente, Christine Lagarde, comece a dar uma ideia mais concreta de até onde é que o BCE poderá ir com as suas taxas de juro.

Para os portugueses, mais do que para a maioria dos outros habitantes da zona euro, a decisão do BCE terá um impacto imediato nas suas finanças pessoais. O ritmo da subida dos juros e o ponto máximo a que deverão chegar reflectem-se de forma muito rápida nas taxas Euribor, que servem de referência para a grande maioria dos empréstimos contraídos pelas famílias e as empresas em Portugal.

De igual modo, para o Estado, os custos a que se financia, seja através de emissões de dívida nos mercados, seja através da subscrição de certificados de aforro, também são influenciados pelo nível a que o BCE põe as suas taxas.

21.4.23

Euribor sobe a três meses para novo máximo desde 2008

Por Lusa, in Público


As taxas Euribor a seis e 12 meses desceram ligeiramente face a quinta-feira.


Com a Euribor a subir, faça as contas à subida da prestação da casa

A taxa Euribor a três meses subiu esta sexta-feira para um novo máximo desde Novembro de 2008 e desceu a seis e a 12 meses face a quinta-feira.


A taxa Euribor a 12 meses, que actualmente é a mais utilizada em Portugal nos créditos à habitação com taxa variável, baixou hoje, ao ser fixada em 3,854%, menos 0,001 pontos — e contra o máximo desde Novembro de 2008, de 3,978%, verificado em 9 de Março.

Segundo o Banco de Portugal, a Euribor a 12 meses já representa 43% do stock de empréstimos para habitação própria permanente com taxa variável, enquanto a Euribor a seis meses representa 32%.


A Euribor a 12 meses está em terreno positivo desde 21 de Abril de 2022, após seis anos negativa. A média da Euribor a 12 meses avançou de 3,534% em Fevereiro para 3,647% em Março, mais 0,113 pontos.

No mesmo sentido, no prazo de seis meses, a taxa Euribor desceu hoje, para 3,601%, menos 0,011 pontos e contra máximo desde Novembro de 2008, de 3,612%, verificado em 20 de Abril.

A Euribor a seis meses esteve negativa durante seis anos e sete meses (até 3 de Junho de 2022). A média da Euribor a seis meses subiu de 3,135% em Fevereiro para 3,267% em Março, mais 0,132 pontos.

Em sentido contrário, a Euribor a três meses subiu hoje, para 3,261%, mais 0,050 pontos e um novo máximo desde Novembro de 2008.

A taxa Euribor a três meses esteve negativa entre 21 de Abril de 2015 e 13 de Julho último (sete anos e dois meses). A média da Euribor a três meses subiu de 2,640% em Fevereiro para 2,911% em Março, ou seja, um acréscimo de 0,271 pontos percentuais.

As Euribor começaram a subir mais significativamente desde 4 de Fevereiro de 2022, depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter admitido que poderia subir as taxas de juro directoras este ano devido ao aumento da inflação na zona euro e a tendência foi reforçada com o início da invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de Fevereiro de 2022.

Na última reunião de política monetária, em 16 de Março, o BCE voltou a subir em 50 pontos base as taxas de juro directoras, acréscimo igual ao efectuado em 2 de Fevereiro e em 15 de Dezembro, quando começou a desacelerar o ritmo das subidas em relação às duas registadas anteriormente, que foram de 75 pontos base, respectivamente em 27 de Outubro e em 8 de Setembro.

Em 21 de Julho de 2022, o BCE aumentou, pela primeira vez em 11 anos, em 50 pontos base, as três taxas de juro directoras.

As taxas Euribor a três, a seis e a 12 meses registaram mínimos de sempre, respectivamente, de -0,605% em 14 de Dezembro de 2021, de -0,554% e de -0,518% em 20 de Dezembro de 2021.

As Euribor são fixadas pela média das taxas às quais um conjunto de 57 bancos da zona euro está disposto a emprestar dinheiro entre si no mercado interbancário.


31.3.23

Cartões de crédito registam mais falhas no pagamento de prestações e acordos para regularizar estão mais difíceis

Diogo Cavaleiro, in Expresso

Nunca foram fechados com sucesso tão poucos processos de regularização de créditos ao consumo como em 2022, de acordo com o mais recente relatório do Banco de Portugal

Desde que a inflação começou a intensificar o seu agravamento, e desde que o Banco Central Europeu começou a subir os juros na zona euro, que os bancos têm vindo a ser confrontados com mais falhas no pagamento de prestações nos créditos ao consumo — em que cerca de metade (48%) dos casos se deve a dívidas advindas dos cartões de crédito.

À medida que 2022 foi avançando, foi aumentando o número de processos que são integrados no regime de regularização extrajudicial dos incumprimentos, designado de PERSI. Nos meses do primeiro semestre foram iniciados menos de 55 mil processos PERSI por mês, em média; já nos meses do segundo semestre a média subiu para mais de 63 mil casos, segundo dados divulgados esta semana pelo supervisor.

No ano foram iniciados 710 mil processos do crédito ao consumo neste regime, em que os bancos e os clientes tentam fechar o incumprimento com um acordo, evitando a ida para tribunais e as execuções judi­ciais. Desde que o Banco de Portugal divulga dados sobre este regime que nunca tinha havido um número tão elevado. Aliás, o próprio supervisor refere o facto de terem sido superados os números pré-pandemia de covid-19.

MENOS ACORDOS

De acordo com os novos dados, disparou também o peso dos casos fechados em que os bancos não chegaram a acordo com os clientes para regularizar os créditos — e especificamente do primeiro para o segundo semestre tal crescimento também se verificou.

A regularização do incumprimento pode ser feito por via do pagamento dos juros em mora, mas também de um acordo como o refinanciamento, a consolidação de créditos, a concessão de novo empréstimo. No último ano, foram mais de 400 mil aqueles que foram concluídos sem sucesso. Em 2021 essa regularização ocorreu em 43% dos PERSI concluídos; no ano passado esse peso desceu para 38%. Esta percentagem nunca tinha baixado de 40% desde a implementação deste regime, na altura da intervenção da troika.

“Em 36,4% dos processos concluídos registou-se o pagamento dos montantes em mora por parte do cliente, situação menos frequente do que em 2021 (40,6%)”, acrescenta também o relatório de supervisão comportamental.

Normalmente, os créditos ao consumo são os primeiros em que se verificam problemas em situações de maior exigência financeira, porque as famílias dão prioridade a manter regularizados os créditos à habitação.

Aliás, também houve um aumento dos processos de PERSI de créditos à habitação que foram iniciados em 2022, mas não superaram os valores pré-pandemia (ao contrário do crédito ao consumo). Também se nota que há sempre um maior espaço para entendimento entre as partes neste tipo de crédito: 69,1% dos PERSI foram concluí­dos com regularização, menos do que os 70% do ano anterior.

12.9.22

Prestação da casa pode subir mais de 100 euros para quem tem empréstimos elevados

Rosa Soares, in Público on-line

Taxas associadas ao crédito à habitação subiram de forma acelerada em Agosto e mantêm o mesmo ritmo em Setembro. Aumento das prestações pode obrigar famílias a recorrer à reestruturação de créditos.

Há motivos para as famílias com empréstimos à habitação, especialmente os mais recentes e de montantes mais elevados, começarem a refazer os seus orçamentos, dado o forte impacto da subida das taxas Euribor nas prestações futuras. Num contexto de subida de preços de boa parte dos produtos e serviços, muitos particulares poderão ter dificuldades para acomodar aumentos de várias dezenas ou mesmo acima da centena de euros, uma alteração radical face ao que pagavam quando as taxas ainda estavam negativas. Tendo em conta que não se vislumbra uma medida de apoio às famílias endividadas, como aconteceu com as moratórias durante a pandemia de covid-19, para quem tem algumas poupanças pode ter chegado a hora de as usar ou, nos casos em que não exista essa “almofada”, pode ser necessário recorrer à reestruturação de créditos.

As taxas Euribor têm vindo a subir de forma acentuada nos últimos meses, em todos os prazos, mas de forma mais acentuada a 12 meses, antecipando a subida de juros por parte do Banco Central Europeu (BCE). Mas a tendência será de novos aumentos, tendo em conta a perspectiva de novas subidas das taxas directoras do banco central – mais duas a quatro nos próximos meses –, que poderão ser novamente fortes (foi de 0,75 pontos percentuais na semana passada), para tentar frenar a inflação na zona euro.

Os valores actuais não são simpáticos. Na última sessão da semana, a Euribor a 12 meses ficou acima dos 2%, a de seis está muito perto de 1,5% e a de três meses de 1%. O prazo mais curto pode atingir 2% já em Dezembro, de acordo com o valor dos contratos de futuros para o último mês do ano, e as restantes taxas acima desse patamar, a menos que se verifiquem alterações substanciais na evolução dos preços ou outras, que possam conduzir a uma redução no ritmo de subidas das taxas do BCE.

Para já, a subida das Euribor têm um impacto directo nos novos empréstimos a contratar por famílias e empresas e vão chegando gradualmente aos contratos existentes, ocorrendo a cada três, seis ou doze meses, conforme o prazo utilizado. O valor utilizado é sempre a média mensal do mês anterior ao da contratação ou da revisão dos créditos.


Aumentar

A média da Euribor a 12 meses, o prazo mais utilizado nos empréstimos contratados na última década (quando as taxas começaram a cair e a entrar em terreno negativo), e que está presente em cerca de 30% dos contratos existentes em Portugal, fixou-se em Agosto em 1,249%, um salto face aos 0,992% verificados em Julho, e bem longe do valor negativo (-0,498%) registado no mesmo mês do ano passado.

Uma simulação simples demonstra que um empréstimo de 150 mil euros, a 30 anos, associado à Euribor a 12 meses, acrescida de um spread ou margem comercial do banco de 1%, a rever no corrente mês de Setembro, verá a prestação mensal subir 124,37 euros, passando de 448,9 euros (com a taxa de Agosto de 2021) para 573,20 euros. O acréscimo de custo é de 1492,44 euros num ano.

A mesma simulação para um empréstimo de 200 mil euros, um montante que pode corresponder a muitos empréstimos recentes – dada a subida muito elevada dos preços das casas em Portugal nos últimos anos –, eleva o acréscimo da prestação em mais 165,84 euros mensais (passando de 598,55 euros para 764,39 euros), quase mais dois mil euros num ano. Com a média mensal da Euribor em 2%, patamar que poderá atingir já este mês, o aumento da prestação num empréstimo de 200 mil euros seria de 244,66 euros, para 842,21 euros.
Taxa a seis meses

A taxa a seis meses, presente em 40% dos contratos existentes, regista médias mensais positivas há apenas três meses, mas o valor de Agosto já foi de 0,837%, quase o dobro do valor de Julho (0,466%), e muito longe dos -0,476% do passado mês de Fevereiro (quando ocorreu a última revisão).

O impacto do aumento numa revisão a ocorrer no corrente mês é igualmente “doloroso”, aproximando-se dos 100 euros. Mantendo as condições de base da simulação anterior, nomeadamente o montante de 150 mil euros e o spread de 1%, a aplicação da última média mensal do prazo a seis meses corresponderá 542,28 euros, mais 91,91 euros do que a prestação que pagava desde Maio (450,37 euros).

O acréscimo a pagar nos próximos seis meses (quando ocorrerá nova revisão) ascenderá a 551,46 euros, altura em que sofrerá nova actualização da taxa.

Para um montante de crédito de 200 mil euros, a prestação sobe 171 euros, para 723,04.
Taxa a três meses

A Euribor a três meses foi a última a entrar em terreno positivo, o que aconteceu apenas em Julho, e a subida foi mais lenta, situando-se a média de Agosto em 0,395%. Contudo, as últimas subidas diárias já a colocam em quase 1%.

Com a média de Agosto, o mesmo empréstimo de 150 mil euros terá um aumento de 53,83 euros, passando de 456,33 euros (em resultado da revisão ocorrida em Maio) para 510,16 euros.

Por se tratar de uma taxa de prazo mais curto, o aumento acumulado corresponderá a 161,49 euros nos próximos três meses.


Mas, em Dezembro, ocorrerá nova revisão, e com uma taxa de 2%, como antecipa o mercado, o mesmo empréstimo poderá sofrer nessa altura um aumento da prestação para 632,41 euros; ou para 842,21 euros, no caso de um empréstimo de 200 mil euros.

Estas simulações, contudo, não incluem valores dos seguros exigidos (vida e multirriscos), nem outras comissões, que agravam o valor a pagar pelos particulares.
Incerteza em medidas de apoio

A escalada dos juros afecta particularmente as famílias portuguesas, uma vez que cerca de 90% dos empréstimos, num total de 1,4 milhões, estão associados a taxas variáveis (Euribor), e apenas uma pequena fatia a taxas fixas. É uma realidade distinta da vizinha Espanha, onde a maioria dos empréstimos tem sido feito a taxas fixas, ou ainda de outros países, onde o endividamento dos particulares para comprar casa é menor.

A especificidade portuguesa torna mais difícil a criação de medidas globais, como aconteceu com as moratórias de crédito no período da pandemia de covid-19, criadas a nível europeu. Isso mesmo admitiu recentemente o ministro das Infra-estruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, ao considerar que uma eventual solução teria de ser tomada a nível nacional.

Recorde-se que as moratórias de crédito à habitação permitiram suspender o pagamento de capital e juros ao longo de mais de um ano, num enquadramento legal favorável para particulares, empresas e bancos, uma vez que essa possibilidade não foi classificada como crédito em incumprimento.

Assim, e como não é certa a possibilidade de criação de uma medida de apoio a famílias endividadas com crédito à habitação, por parte do Governo português - como, por exemplo, no mercado do arrendamento com o “travão” à actualização das rendas já anunciado para 2023 -, ou o seu impacto poder ser reduzido para empréstimos mais elevados, poderá ser necessário recorrer soluções alternativas.

Para quem tem alguma poupança, pode fazer sentido a amortização de parte do crédito, reduzindo o peso dos juros.

Para quem não tem, e não consegue absorver os aumentos, deve dirigir-se ao seu banco e equacionar uma reestruturação de crédito (aumento do prazo do contrato, criação de períodos de carência ou diferimento de capital), uma solução clássica que agrava o custo total dos empréstimos, mas que evita a entrada em incumprimento, o que acarreta consequências bem mais graves no futuro.

9.9.22

Taxas Euribor aceleram após subida de juros do BCE e a 12 meses supera 2%

Rosa Soares, in Público online

Prazos a três e a seis meses também registaram uma forte subida, agravando os custos dos empréstimos de particulares e de empresas.

A decisão de subida mais expressiva dos juros por parte do Banco Central Europeu (BCE), em 0,75 pontos percentuais, e a declaração de que está disposto a fazer mais dois a quatro aumentos nos próximos meses, provocou na sessão desta sexta-feira uma forte aceleração das taxas Euribor, que são utilizadas no crédito à habitação e às empresas. A Euribor superou a barreira dos 2%, após uma subida de 0,112 pontos, para 2,015%, atingindo num novo máximo desde Dezembro de 2011.

A taxa a seis meses também subiu de forma expressiva. Este prazo, o mais utilizado no conjunto dos empréstimos das famílias existentes em Portugal, atingiu quase 1,5%, ao subir mais 0,088 pontos, para 1,442%. Uma subida vertiginosa em pouco mais de três meses, desde 6 de Junho, quando passou de valor negativo para positivo.

Por último, a Euribor a três meses, está a subir há 18 sessões consecutivas, encostando praticamente a 1%. A subida desta sexta-feira foi de 0,098 pontos, para 0,934%.

A decisão do BCE de aumentar as taxas directoras em 0,75 pontos percentuais, acima do inicialmente previsto, que ficava em 0,5 pontos, já tinha sido, em grande parte, antecipada pelo mercado, mas a dimensão da subida, ontem anunciada, e a disposição de fazer novos aumentos para travar a inflação explicam a nova aceleração das taxas.

Para além da subida do custo do dinheiro, há ainda a perspectiva de uma recessão das economias europeias, por causa da crise energética e subida da inflação. Este contexto leva o conjunto de bancos que integram a pool onde são determinadas as taxas Euribor (através dos empréstimos que estão dispostos a realizar entre si) a serem mais cautelosos, cobrando mais juros.

A subida das taxas Euribor afecta os novos empréstimos às famílias e às empresas, mas também todos os já existentes com estas taxas, que são revistos periodicamente.

Depois de quase sete anos em valor negativo, a Euribor a seis meses entrou em terreno positivo a 6 de junho, e a Euribor a três está positiva desde 14 de Julho. A primeira a sair de valor negativo foi o prazo a 12 meses, a 12 de Abril, altura que que o BCE já tinha dada sinais de subida das suas taxas, tendo em conta a subida da inflação, que a guerra na Ucrânia, na sequência da invasão russa, agravou.


6.9.22

Queda do euro pressiona BCE a subir ainda mais os juros

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Os receios de uma travagem da economia europeia no Inverno, acentuados com o corte do fornecimento russo de gás, voltam a penalizar o euro nos mercados internacionais. BCE poderá acelerar subida dos juros

A três dias do início da reunião onde os responsáveis máximos do Banco Central Europeu (BCE) vão decidir que rumo dar à sua política monetária, o euro voltou a dar motivos para que as taxas de juro sejam elevadas de forma brusca numa tentativa de contrariar a inflação.

Esta segunda-feira de manhã, a moeda única europeia acentuou a tendência de forte depreciação face à divisa norte-americana que já regista há vários meses e chegou mesmo a dado momento a valer menos de 0,99 dólares, algo que já não acontecia desde 2002.

O euro tem vindo, nos últimos meses, a registar uma depreciação acentuada face ao dólar, baixando barreiras que já não eram atingidas há cerca de duas décadas.

Em meados do passado mês de Julho atingiu, pela primeira vez em quase 20 anos, a paridade face à divisa norte-americana, muito longe dos 1,6 dólares que chegou a valer em 2008 e mesmo dos 1,2 dólares que eram o seu valor há pouco mais de 12 meses.

Esta persistente e significativa quebra do euro face ao dólar representa uma pressão acrescida para que o BCE aja rapidamente e de forma ainda mais determinada para controlar a inflação.

De facto, um euro a valer menos face ao dólar significa que as importações europeias (por exemplo de bens transaccionados nos mercados internacionais em dólares como o petróleo e os cereais) ficam automaticamente mais caras. Isto representa uma inflação importada que contribui para a escalada dos preços a que se assiste na economia da zona euro, com a inflação a situar-se acima dos 9% em Agosto.

É por isso que restam poucas dúvidas que, depois de ter realizado a primeira subida das suas taxas de juro de referência desde 2011 em Julho, elevando-as em 0,5 pontos percentuais, a autoridade monetária europeia venha a realizar, na reunião do conselho de governadores agendada para a próxima quinta-feira, um movimento semelhante ou talvez até mais agressivo.

Inicialmente a expectativa, criada com as mensagens transmitidas pela presidente do BCE, Christine Lagarde, no início de Agosto, era a de que viesse a ser decidida uma nova subida de 0,5 pontos nas taxas de juro na reunião de Setembro.

Mas, agora, com o contributo decisivo da forte depreciação do euro face ao dólar, a maior parte dos investidores já está a assumir que a subida de taxas juro a realizar pelo BCE na quinta-feira pode ser de 0,75 pontos percentuais, o ritmo que tem vindo ser assumido pela Reserva Federal na sua própria viragem de rumo na política monetária.

Por seu lado, por trás da depreciação do euro nos mercados, estão as expectativas sombrias que se acumulam relativamente à evolução da economia europeia e que levam os investidores a virarem-se para o seu habitual refúgio em tempos de crise no outro lado do Oceano Atlântico.

A divisa norte-americana está a beneficiar, como é hábito, do seu estatuto de activo financeiro seguro num tempo de grande incerteza e instabilidade na economia mundial, vendo o seu valor a subir face a praticamente todas as outras divisas mundiais. E do lado do euro, a viragem de política monetária mais lenta do BCE (subindo menos as taxas de juro do que a Reserva Federal norte-americana),com continuados receios de uma travagem ou mesmo recuo da economia da zona euro já a partir do terceiro trimestre do ano, estão a contribuir para penalizar o desempenho da moeda única nos mercados.

No sábado, o anúncio russo de que a interrupção dos fluxos do gasoduto Nord Stream por alegados problemas técnicos teria um prazo indeterminado acentuou os receios que vários países da zona euro, como a Alemanha, não venham a ser capazes de reforçar as suas reservas de gás o suficiente para atravessar o próximo Inverno com escassez energética.

Isto cria um dilema a Christine Lagarde e aos seus colegas no BCE: ser mais moderado na subida de taxas de juro para não afundar ainda mais a economia ou aumentar radicalmente o custo do dinheiro, apostando tudo em limitar a queda do euro e a escalada da inflação, mesmo que isso custe à zona euro uma entrada em recessão.


3.8.22

Taxa de juro dos novos empréstimos à habitação acelerou para 1,47% em Junho

Rosa Soares, in Público on-line

Montante contratado caiu 93 milhões de euros para 1399 milhões de euros na habitação, mas subiu 14 milhões de euros no crédito para outros fins.

O montante de crédito à habitação contratado em Junho caiu ligeiramente, mas a taxa de juro média subiu de forma expressiva, para máximos desde 2018. De acordo com os dados divulgados esta terça-feira pelo Banco de Portugal (BdP), a taxa média subiu para 1,47% em Junho, acima dos 1,28% de Maio, e bem mais alta que os 0,81% fixados em Janeiro do corrente ano.

No total, os bancos concederam 2097 milhões de euros em novos empréstimos a particulares, menos 105 milhões face a mês anterior.

Para compra de habitação foram emprestados 1399 milhões de euros, menos 93 milhões que em Maio, um mês particularmente activo neste segmento, mas mais que os 1297 milhões de euros que no mesmo período do ano passado.

Nos outros créditos aos particulares verificou-se um comportamento misto, com o destinado ao consumo, como o crédito automóvel, a cair 27 milhões de euros, para 484 milhões de euros, e o crédito para outros fins a subir 14 milhões de euros, para 213 milhões.

Ao contrário do crédito à habitação, nos empréstimos ao consumo a taxa de juro média baixou ligeiramente, passando de 7,86% em Maio para 7,78% em Junho.

A subida da taxa média no crédito à habitação é explicada pela evolução das taxas Euribor, presentes na maioria dos novos empréstimos, que têm vindo a acumular valor praticamente desde o início do ano e já estão todas em terreno positivo.

A Euribor a 12 meses, que é praticamente o único prazo utilizado nos novos empréstimos para compra de casa, por ser a de valor mais elevado, fixou-se esta terça-feira em 0,926%, abaixo do máximo de 1,2%, registado em 22 de Julho. A de seis meses, ficou em 0,652%, e a de três meses a 0,260%.

As taxas Euribor, fixadas a partir das condições dos empréstimos que um conjunto alargado de bancos está disponível para realizar entre si, tem vindo a antecipar a alteração da política monetária do Banco Central Europeu (BCE). E confirmando ou mesmo superando as expectativas do mercado, o banco central aumentou as taxas directoras em Julho, em 0,5 pontos percentuais.

29.7.22

Risco de recessão na zona euro está a aumentar

Sónia M. Lourenço, in Expresso

Subida dos juros acentua abrandamento associado à guerra na Ucrânia. Eventual corte de gás russo é a maior ameaça

A possibilidade de a economia da zona euro entrar em recessão não é o cenário central para os economistas, mas o risco tem vindo a aumentar. É essa a mensagem ouvida pelo Expresso junto de vários especialistas.

“O aumento das taxas de juro tenderá a diminuir o consumo e o investimento da maioria das famílias e empresas, e desta forma contribuir para o abrandamento da economia”, aponta Pedro Brinca, economista e professor da Nova SBE, argumentando que “numa altura em que as taxas de inflação ainda não começaram a cair de forma pronunciada para o objetivo dos 2%, não será necessariamente um problema”. Contudo, “é preciso ser prudente para que o abrandamento da economia seja o necessário para retomar a normalidade dos valores da inflação, mas não mais do que isso”, alerta.

É um “caminho estreito” o que o BCE enfrenta, vinca o estudo “Hard or soft landing?”, publicado pelo Bank for International Settlements. “Apertar demasiado ou muito rapidamente pode resultar em stresse financeiro e uma aterragem dura, infligindo danos desnecessários à economia. Mas, apertar demasiado lentamente pode deixar as pressões inflacionistas tornarem-se persistentes, exigindo ações mais fortes e custosas mais à frente”, avisam os autores.

As projeções apontam para um abrandamento da economia europeia, mas não para uma recessão. A Comissão Europeia antecipa uma expansão da zona euro de 2,6% este ano — com Portugal a liderar o crescimento nos 6,5% — e de 1,4% em 2023 – com Portugal a abrandar para 1,9%.

“O cenário de recessão é possível, mas não parece ser ainda o central”, salienta João Borges de Assunção, professor da Católica-Lisbon, salientando que em caso de forte arrefecimento, “em particular associado a subidas do desemprego, será de esperar uma normalização mais lenta da política monetária”. Paula Carvalho, economista-chefe do BPI, aponta no mesmo sentido: “O cenário de recessão tem alguma probabilidade de ocorrência, não só pela subida dos juros e ambiente financeiro mais restritivo, como sobretudo pelas consequências da guerra na Ucrânia, e, em concreto, a incerteza relativamente ao abastecimento de energia à Europa. Não é o cenário central, mas a sua probabilidade tem vindo a aumentar.” Um corte definitivo do abastecimento de gás natural russo é a principal ameaça e “lançará a Europa numa recessão, disso tenho poucas dúvidas”, salienta Pedro Brinca. Mas, “tirando a questão energética, não me parece que uma recessão seja uma inevitabilidade”, remata.