28.6.16

Juncker para eurocépticos: "É a última vez que aplaudem aqui"

in RR

O presidente da Comissão Europeia discursava no Parlamento Europeu e defendia que os resultados do referendo britânico deveriam ser respeitados, ao que se seguiram aplausos apenas do membros do partido euroceptico UKIP. Jean-Claude Juncker interrompeu o discurso e disse: "É a última vez que vocês aplaudem aqui". Admitindo que ficou triste, porque não é "um robô", defendeu que o Reino Unido tem de "clarificar a sua posição rapidamente"., Para que não haja "negociações secretas em quartos escuros".

Europa não deve "desistir" do Reino Unido, diz patriarca de Lisboa

in RR

Se a Europa insistir em abordar o futuro com uma perspectiva "economicista", vai pagar "caro", adverte D. Manuel Clemente à Renascença. Adriano Moreira diz que o "Brexit" pode constituir um risco à paz na Europa.

O patriarca de Lisboa acredita que a Europa não deve desistir do Reino Unido. D. Manuel Clemente afirma à Renascença que se vai pagar "muito caro" o facto de a primeira discussão do resultado do referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia ter deixado de fora vários Estados-membros, incluindo Portugal.

D. Manuel Clemente lamenta que a primeira reunião pós-Brexit tenha incluído apenas os seis membros fundadores da União Europeia, tanto do ponto de vista “cultural” como económico.

“Se for [uma decisão] económica ou, pior, economicista, acontece o que está a acontecer. Mas isso, depois, paga-se muito caro, e não com lucros”, afirma.

O patriarca sublinha que o lugar do Reino Unido deve ficar em aberto, à espera. “Temos de entrar todos no projecto europeu, não é só a Grã-Bretanha, que, por agora, quis ficar de fora. Mas o futuro está em aberto, não vamos desistir de ninguém, vamo-nos encontrar mais à frente", afirma à Renascença.

“Se me perguntassem pessoalmente, preferia que essa procura fosse feita com o Reino Unido mais dentro. Ele ficou de fora, mas o lugar está cá, à espera”, diz D. Manuel Clemente, à margem do lançamento do livro “Portugal e a Crise Global” de Adriano Moreira, esta terça-feira à tarde no ISCSP em Lisboa.

Adriano Moreira considera que a saída do Reino Unido da União Europeia pode constituir um risco à paz na Europa. Em declarações à Renascença, o especialista em relações internacionais lembra que “Inglaterra é o maior poder militar da Europa” e que o resultado do referendo “põe em perigo a coroa britânica, por causa dos movimentos separatistas”.

Elas trabalham mais 1h30m em casa e quase tanto como eles no emprego

Natália Faria, in Público on-line

Sete em cada dez mulheres acham que a parte que lhes compete das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos é justa, mesmo quando trabalham o dobro. Percepção das desigualdades é diminuta porque elas estão naturalizadas, aponta estudo.

Entre cozinhar, passar a ferro e cuidar dos filhos, as mulheres portuguesas afectam todos os dias mais de 1h30m ao trabalho doméstico do que os homens. Isto, mesmo nos casais em que ambos trabalham fora de casa e partilham as despesas. As desigualdades na distribuição das tarefas tornam-se ainda mais vincadas quando consideramos as diferenças do tempo que homens e mulheres despendem no emprego pago: em média, eles trabalham apenas mais 27 minutos por dia.

“Enquanto as assimetrias ao nível do trabalho pago são cada vez menores, no trabalho não pago subsistem, mesmo entre os casais mais jovens, onde continuam a ser as mulheres a orquestrar a vida doméstica, enquanto eles ficam num papel de retaguarda”, aponta Heloísa Perista, coordenadora do estudo Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, desenvolvido, desde Outubro de 2014, pelo Centro de Estudos para a Intervenção Social, em parceria com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, e que é apresentado nesta terça-feira, em Lisboa.

Feita a soma, e quando marido e mulher exercem uma actividade profissional fora de casa, as tarefas domésticas e com os filhos exigem em média às mulheres quatro horas e 17 minutos por dia, enquanto para os homens implicam apenas 2h37m. No grupo etário mais jovem (15-24 anos), a assimetria diminui ligeiramente, mas subsiste, com as jovens a registar mais 1h21m por dia do que os homens nas tarefas de casa e com os filhos.

De entre as tarefas domésticas rotineiras, 74,3% das mulheres declararam dedicar uma hora ou mais por dia a preparar refeições (contra 22,8% dos homens), 35,9% a limpar a casa (homens, 7,4%) e 10,5% a cuidar da roupa (1,4%). Antes como agora, eles dedicam-se mais a fazer compras, pagar contas, seguros e renda da casa e às reparações domésticas.

Não admira, assim, que 39,4% das mulheres inquiridas, contra 30,2% dos homens, subscrevam a afirmação “Na minha vida do dia-a-dia, raramente tenho tempo para fazer as coisas de que realmente gosto”. Ou, como explicita Ilda, numa família biparental, com filhas de 13 e 12 anos e um filho de nove: “[Tempo para mim] foi desse que abdiquei, claramente. O que me deixou algo desequilibrada. […] Leitura, trabalhos manuais, gosto de estar entretida de mãos, desde croché a jardinagem… portanto, tudo isso, ir ao cinema, ver televisão — tudo isso ficou para trás.”

“As mulheres abdicam muito mais do que os homens do tempo para si próprias e, portanto, deixam de fazer coisas que também lhes dariam gratificação, seja sentar-se no sofá a ler um livro ou fazer jardinagem, e projectam-nas para um futuro longínquo”
Heloísa Perista, investigadora

“Abdicar e ajudar são palavras-chave”, interpreta Heloísa Perista, numa primeira análise ao estudo que resultou de cerca de dez mil inquéritos e cujas conclusões serão ainda alvo de uma análise mais fina, lá para finais de Setembro. “As mulheres abdicam muito mais do que os homens do tempo para si próprias e, portanto, deixam de fazer coisas que também lhes dariam gratificação, seja sentar-se no sofá a ler um livro ou fazer jardinagem, e projectam-nas para um futuro longínquo”, prossegue.

Curiosamente, e apesar das assimetrias constatadas, o estudo mostra que cerca de sete em cada dez mulheres consideram que a parte que lhes cabe das tarefas domésticas corresponde ao que é justo. “Há uma naturalização, tanto de homens como de mulheres, relativamente ao que continua a ser socialmente esperado de si, no contexto das famílias. E daí este grau menos apurado de percepção das injustiças que rodeiam esta realidade”, aponta a coordenadora do estudo.
Trabalho pago invade tempo livre

Num aspecto, parece haver relativa paridade entre eles e elas: ambos se queixam de que o trabalho pago vai muitas vezes para além do horário de trabalho contratualizado: 34% dos homens e 28,3% das mulheres declararam que, nos 12 meses anteriores ao inquérito, trabalharam durante o seu tempo livre para dar resposta a solicitações do trabalho, pelo menos várias vezes por mês. Dá cerca de uma em cada três pessoas trabalhadoras.

Num aspecto, parece haver relativa paridade entre eles e elas: 34% dos homens e 28,3% das mulheres declararam que, nos 12 meses anteriores ao inquérito, trabalharam durante o seu tempo livre para dar resposta a solicitações do trabalho, pelo menos várias vezes por mês

Numa altura em que, a reboque da discussão sobre a natalidade, se discutem formas de flexibilização do horário de trabalho, como as jornadas contínuas, percebe-se que o horário fixo predomina, sendo o regime para 68,2% das mulheres e 74,1% dos homens. Não surpreende, assim, que quase quatro em cada dez pessoas (38,5% das mulheres e 36,9% dos homens) considerem que o seu horário de trabalho não se adapta aos compromissos familiares, pessoais ou sociais. Sem surpresas, esta queixa ouve-se mais alto entre os que têm filhos menores de 15 anos.

Curiosamente, apesar de cerca de metade dos inquiridos considerar ser fácil tirar uma ou duas horas durante o horário de trabalho para tratar de assuntos pessoais ou familiares, a percepção da existência dessa facilidade é menor nos grupos etários entre os 25 e os 44 anos, idades em que os constrangimentos de natureza familiar associados aos filhos tendem a ser maiores.

É também para as mulheres que o trabalho pago tem maiores implicações familiares e pessoais. São sobretudo elas que referem ter-se sentido algumas vezes demasiado cansadas após o trabalho para realizarem algumas tarefas domésticas (63,4%, contra 46,6% dos homens) ou para usufruírem da sua vida pessoal (64,2% face a 52,4% dos homens).

Mesmo assim, se fossem livres de escolher a sua duração de trabalho semanal, e tendo em consideração a necessidade de ganhar a vida, 43% das mulheres referem que trabalhariam o mesmo número de horas que trabalham actualmente. “O duplo emprego e o duplo salário são, no contexto de crise e de desemprego elevado em que nos encontramos, condição preferencial, nem sempre conseguida, para se ter uma vida condigna. Mas essa não é a única razão para a valorização do trabalho pago por parte das mulheres. Em Portugal, mais do que noutros países comunitários, as mulheres tendem a valorizar a continuidade da sua participação no mercado do trabalho por uma questão de valorização pessoal, mas sobretudo de autonomia e independência material”, conclui Heloísa Perista.

Elas trabalham tanto quanto eles, e em casa mais 1h30

Ana Margarida Pinheiro, in Diário de Notícias

Mulheres trabalham em média menos 27 minutos do que os homens no trabalho pago; em casa têm o dobro das tarefas e tempo gasto

As mulheres trabalham, em regra, mais uma hora e meia do que os homens, revela um Estudo do Centro de Estudos para a Intervenção Social. É que às horas normais de trabalho diário, que são praticamente iguais às cumpridas pelos homens, as mulheres têm chegam a casa e têm ainda uma série de tarefas que eles não acompanham da mesma forma.

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Ensino. Há alunos a passar com sete negativas

in Diário de Notícias

Escolas aplicam critérios diferentes na retenção de alunos


Há escolas do ensino básico que estão a passar os alunos mesmo quando estes têm sete negativas, enquanto noutros estabelecimentos escolares o chumbo a três ou mais disciplinas dá direito a retenção. De acordo com o jornal Público, o agrupamento de escolas Joaquim Serra, no Montijo, é um dos casos onde os alunos transitam de ano, mesmo com múltiplas negativas. "Todas as escolas do Montijo fazem o mesmo, porque o critério não é do estabelecimento escolar, mas sim do despacho ministerial que atribui à retenção com caráter excecional", diz o presidente da associação de pais daquele agrupamento, Mário Novais, citado pelo diário.

A retenção no ensino básico é "considerada excecional" nos anos não terminais de ciclo (o 2.º, 3.º, 5.º, 7.º e 8.º anos). Mas a expressão excecional é deixada à interpretação das escolas, provocando assim situações divergentes na avaliação dos alunos. A decisão compete ao professor titular no 1.º ciclo e ao Conselho de Turma.

Quatro portugueses vítimas de ataques racistas após referendo contam as suas histórias

in o Observador

Cidadãos estrangeiros, incluindo portugueses, foram vítimas de ataques racistas no Reino Unido após o referendo que determinou a saída da União Europeia.

Cidadãos estrangeiros, incluindo portugueses, foram vítimas de ataques racistas no Reino Unido após o referendo que determinou a saída da União Europeia, tendo as autoridades registado mais 57 por cento de queixas de crimes de ódio desde sexta-feira.

Os incidentes aconteceram em Londres, País de Gales ou Norfolk, disseram à agência Lusa vários membros da comunidade portuguesa, que acrescentaram que nem todos são divulgados por receio de reprovação ou represálias.
Fátima, Cuspida na cara e agredida com bandeira inglesa

Em Londres, Fátima Lourenço ainda está abalada com o que aconteceu na passada sexta-feira, quando um grupo de jovens com idades entre os 18 e os 20 anos lhe cuspiu na cara e agrediu na rua com uma bandeira inglesa.

“Houve pessoas que reagiram, que lhes chamaram nomes e vieram pedir desculpa. Eu não estava à espera, senti-me humilhada e tive de chorar para desabafar”, contou à Lusa.

O relato, que começou por fazer nas redes sociais, atraiu críticas de compatriotas, mas Fátima Lourenço, que faz trabalho doméstico e vive no Reino Unido há 13 anos, explica que só o fez para partilhar a experiência e para deixar o alerta para outros.

“Não acontece só a nós, o meu companheiro trabalha com polacos e eles também disseram que foram insultados”, acrescentou.
Iolanda ouviu já muitas vezes “vão-se embora”

Iolanda Banu Viegas, conselheira das Comunidades Portuguesas em Wrexham, no País de Gales, confirma bastantes situações semelhantes, nomeadamente de comentários maldosos de colegas nos locais de trabalho ou de abuso verbal junto a estabelecimentos portugueses naquela cidade.

“Só num dia vi vários casos de pessoas a chegar perto e a gritar ‘vão-se embora’. São provocações”, lamentou a portuguesa, que também trabalha para uma agência galesa de combate à discriminação para incentivar as pessoas a fazerem queixas formais.
Cláudia olhada de lado no autocarro

Não foi o que aconteceu com Cláudia Martins, motorista de autocarro em Wrexham, que se sentiu hostilizada no posto de correios local, onde foi pedir informação sobre o pedido de cartão de residência que o governo português aconselhou a pedir.

“O senhor olhou para mim, disse que não era ali que se fazia e riu-se para o colega. Senti-me mal. Mas, como faço sempre o mesmo serviço de autocarro, também tive pessoas a trazerem-me flores e chocolates e a dizerem-me que fique”, disse.
Joe Barreto também foi cuspido

Em Thetford, na região de Norfolk, na costa leste de Inglaterra, Joe Barreto, fundador da organização sem fins lucrativos Simple, confirma que ele próprio também foi vítima de um episódio de xenofobia.

“Um carro parou junto à minha família, cuspiu-nos e insultou-nos. Fiz queixa à polícia, mas muitos portugueses aqui não querem falar por medo de represálias”, revelou à Lusa.

Um emigrante português descreveu que o chefe o agrediu fisicamente, mas que nenhuma das testemunhas o defendeu e por isso não oficializou a queixa, e outros têm sido alvo de abusos verbais.

“Já há pessoas a prepararem-se para voltar para Portugal devido ao que estão ao passar e com receio do que se avizinha”, afirma Joe Barreto.

O conselheiro das Comunidades Portuguesas António Cunha e o vereador de Stockwell, no sul de Londres, Guilherme Rosa, confirmam ter conhecimentos de mais casos na região da capital britânica, nomeadamente através das redes sociais, nos dias após o referendo.

Porém, Cunha que vinca os portugueses não são alvo em particular deste tipo de incidentes e que não há “razão para alarme”.

Nem a Embaixada nem o Consulado portugueses de Londres receberam denúncias oficiais de ataques a portugueses, e a polícia britânica também não confirmou casos específicos nacionais.

Porém, o site de denúncia de crimes de ódio (que incluem discriminação racial, religiosa ou sexual) True Vision registou mais 57% de casos entre quinta-feira e domingo relativamente ao mês anterior.

Mesmo com a ressalva de que esta não é uma confirmação de um aumento deste tipo de crimes, a polícia disse estar a “trabalhar em proximidade com as comunidades para manter a unidade e tolerância e evitar qualquer tipo de crime de ódio ou abuso na sequência do referendo” à permanência britânica na UE.

No Parlamento, na segunda-feira, o primeiro-ministro David Cameron qualificou as situações relatadas na comunicação social britânica, nomeadamente contra polacos Londres e perto de Cambridge, como desprezíveis e valorizou o contributo dos estrangeiros para o país.

Mas Fátima Lourenço confessa ter receio de ser novamente confrontada, confiou à Lusa: “Vou continuar aqui, mas vou estar alerta. Adoro vestir a camisola da seleção nos dias dos jogos [de futebol], mas agora vou pensar duas vezes”, admitiu

“Não podemos ajudar crianças sem ajudarmos os adultos que cuidam delas”

in o Observador

O documentário tem 90 minutos, é apoiado pela Unicef, e parte da ideia de que o desenvolvimento dos bebés não depende só do ADN, mas da interação com o ambiente e com aqueles que o rodeiam.

Um filme apoiado pela UNICEF apela aos líderes mundiais que invistam na primeira infância, “o melhor investimento que pode ser feito na humanidade”, e sugere que o segredo está em apoiar os adultos que cuidam delas.

“A janela mais eficiente que temos de criar uma sociedade criativa, igualitária, democrática e livre é na primeira infância”, disse à Lusa Estela Renner, a realizadora do filme “O Começo da Vida”, que será divulgado na quarta-feira, para assinalar o Dia da Criança.

Filmado na Argentina, Brasil, Canadá, China, França, Itália, Quénia e Estados Unidos, o documentário, de 90 minutos, parte da ideia de que os bebés se desenvolvem, não apenas a partir do seu ADN, mas da combinação entre a carga genética e as interações com aqueles que os rodeiam: a mãe, o pai, os avós, os irmãos, mas também a natureza ou as brincadeiras.

Com base em entrevistas a especialistas e famílias de diferentes estratos sociais em todos os países abrangidos, o filme da brasileira Estela Renner lembra que “um cérebro forte acontece a partir das ligações entre os neurónios e essas ligações só solidificam, só ficam permanentes se tiverem acontecido dentro de uma experiencia de qualidade, afetuosa e significativa”.

Como diz no filme o economista Flávio Cunha, da Universidade Rice, em Houston, EUA, “o afeto é a fita isolante das ligações entre os neurónios”.

Logo, defende a realizadora, o investimento deve ser feito “na qualidade das interações nos primeiros anos de vida”, nomeadamente através de apoios à parentalidade e na qualidade da formação dos cuidadores em creches e instituições.

“Se o pai ou a mãe está quatro horas no transporte público, o que acontece em muitos países em desenvolvimento, ele não tem mais energia para dar para o seu filho”, exemplifica.

E acrescenta: “Muitas famílias que eu entrevistei sabiam muito bem o que os seus filhos precisavam, mas eles não tinham o que comer. Eles sabem que brincar é importante, que ouvir os seus filhos é importante, mas como ter uma mente tranquila para poderem interagir com os filhos?”.

No filme, o Nobel da Economia James Heckman diz que “cuidar dos bebés é o melhor investimento que pode ser feito na humanidade” e cita um estudo que realizou nos EUA e que concluiu que cada dólar investido nos primeiros anos de vida resulta num retorno de sete a dez dólares para o Estado ao longo da vida, nomeadamente em poupanças em centros de detenção e recuperação.

“O que descobrimos é que há um retorno de sete a 10% por ano, o que é um retorno muito grande, muito mais elevado do que a bolsa nos EUA”, diz o economista.

Também entrevistada no documentário, Leah Ambwaya, ativista pelo direito das crianças e presidente da fundação queniana Terry Children, defende que “um Governo que leve a sério o desenvolvimento das crianças ou o futuro das suas crianças é um Governo que investe na parentalidade, criando oportunidades para os pais que lhes permitam ter qualidade de vida com os filhos”.

O problema, diz Jack Shonkoff, diretor do Centro para a Criança em Desenvolvimento, da Universidade de Harvard, é que muitas vezes os políticos querem ajudar as crianças, mas não querem apoiar os adultos.

“Mas a ciência diz-nos que não podemos ajudar crianças sem ajudarmos os adultos que cuidam delas”, alerta.

Estela Renner vai mais longe: “Quando a gente diz que é preciso uma vila para cuidar de uma criança, precisamos de uma vila para cuidar do adulto que está a cuidar dessa criança”.

Para a realizadora, de 42 anos, essa responsabilidade não é só dos políticos e das instituições. É de todos.

“Dizer: eu faço um bom trabalho com os meus filhos, está suficiente. Não está. Tem de fazer um bom trabalho para todos os filhos. Somos todos responsáveis”, defende.

Ser criança em África ainda é sinónimo de ser (muito) pobre e ter poucos estudos

in o Observador

Quem nasce, já nasce pobre e, por norma, o casamento está mais próximo do que a escola. O relatório da UNICEF não é animador e fala de milhões de crianças com um futuro de poucas oportunidades.

A pobreza continua a ser um atestado colado às crianças na África subsariana mesmo antes de nascerem, a escola é mais ilusão do que realidade e as gravidezes acontecem pouco depois da primeira década de vida. A perspetiva pouco otimista é da UNICEF e está inscrita no relatório anual “A Situação Mundial da Infância 2016”, divulgado esta terça-feira pelo órgão da ONU.

O estudo aponta grandes dificuldades para as crianças mais desfavorecidas, sobretudo na África subsariana e no sul da Ásia. Na primeira região, 2 em cada 3 crianças vivem em pobreza multidimensional (nutrição, saúde e habitação), o que corresponde a 247 milhões de crianças. Cerca de 60 por cento das raparigas entre os 20 e os 24 anos, das franjas mais pobres da população, tiveram menos de quatro anos de escolaridade, aponta o relatório.

A organização destaca os progressos mundiais feitos na baixa da taxa de mortalidade infantil, na luta contra a pobreza e pela educação — a taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos baixou para menos de metade desde 1990, por exemplo. Mas o progresso não chegou a todos os países da mesma forma.

A pobreza em África continua a ser um fardo que pesa em tudo o resto. “As crianças mais pobres têm duas vezes mais probabilidades de morrer antes dos 5 anos e de sofrer de subnutrição crónica do que as crianças mais ricas”, lê-se no documento. As mais ricas também têm mais acesso à escola e ficam por lá mais tempo. A falta de estudos, por outro lado, condiciona as vidas seguintes: “As crianças filhas de mães não escolarizadas têm três vezes mais probabilidades de morrer antes dos 5 anos do que as crianças de mães que frequentaram o ensino secundário”, exemplificam. Os casamentos infantis vêm por arrasto — as meninas de famílias mais desfavorecidas têm duas vezes e meia mais probabilidade de casar na infância do que as de famílias com mais posses.

A ideia é que estes números não se transformem em bola de neve, até porque há objetivos a cumprir até 2030. O cronómetro começou a contar em setembro de 2015, quando foram definidos 17 novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para cumprir em 15 anos. “Acabar com a Pobreza” e “Atingir a Igualdade de Género” são dois dos 17 objetivos a que se comprometeram os países da ONU.

Também para alertar para as metas a atingir, os autores do relatório fizeram estimativas sobre o que vai acontecer em 2030 se os governos, as instituições, os investidores e os cidadãos comuns nada fizerem. São elas: até 2030, 750 milhões de mulheres terão casado durante a infância, as crianças na África subsariana têm 10 vezes mais probabilidade de morrer antes dos 5 anos do que as dos países desenvolvidos e 9 em cada 10 crianças que viverão em pobreza extrema estarão na África subsariana.

Cerca de 124 milhões de crianças não frequentam o ensino primário ou o primeiro ciclo do secundário e quase 2 em cada 5 que terminam o ensino primário não aprenderam a ler ou a escrever”, refere o relatório.

Quinze anos pode ser muito ou pouco tempo. Para o diretor-executivo da instituição que se dedica ao bem-estar infantil, quinze anos é o tempo suficiente para inverter estes dados: “A desigualdade não é inevitável. A desigualdade é uma escolha”, sublinha Anthony Lake no documento. “Promover a igualdade — e uma oportunidade justa para cada criança — também é uma escolha”, defende o responsável, convidando políticos, governos e organizações a mudar o cenário.

Dez anos, quinze parceiros sexuais

Laurinda Alves, in o Observador

Conhecer raparigas usadas e abusadas sexualmente que vivem a sua história no segredo ameaçador imposto pelos agressores carrega-nos de culpas. Somos culpados do silêncio e da apatia de não agir.

Uma coisa é falarmos de violações e agressões a raparigas que ainda são crianças; outra coisa é conhecer as caras destas crianças. Uma coisa é generalizarmos e conceptualizarmos sobre o abuso sexual de menores; outra coisa bem diferente é conhecermos os nomes e as histórias de vida de algumas destas raparigas menores.

São menores de idade, é certo, mas muitas delas revelar-se-iam maiores, se medíssemos o tamanho da sua coragem e a altura da sua estatura moral. Foram abusadas, mas não se converteram em castigadoras. Muito pelo contrário! Lutam e agem incansavelmente todos os dias para que outras raparigas não passem pelo mesmo que elas passaram.

Conheci numa semana muitas dezenas de raparigas vulneráveis que passaram ou correm o risco de passar por situações de abuso sexual. E também conheci a autora de um estudo que ainda está em fase de conclusão e validação, mas aponta para dados terríveis: em algumas zonas de Moçambique há raparigas com pouco mais de 10 anos já submetidas a 15 homens diferentes e forçadas a 3 contactos sexuais por semana. Parece demasiado brutal para ser real, mas infelizmente esta realidade ultrapassa qualquer ficção.

As estatísticas relativas à gravidez precoce em crianças moçambicanas são igualmente assustadoras, e tudo isto revela um cenário discricionário, no qual as mulheres têm um estatuto muitíssimo secundário. Podem até trabalhar mais que os homens e ter um papel essencial nas suas famílias e comunidades, mas isso não lhes dá estatuto nem direitos.

Sabemos que a realidade de que falo não é um exclusivo de certas zonas de Moçambique, pois em todo o continente africano alastram tremendas desigualdades entre homens e mulheres. Em mais de meio mundo é assim, aliás. As raparigas abandonam a escola ainda muito novas e são forçadas a casar cedo demais. Houve até há pouco tempo leis que protegiam os violadores, obrigando as raparigas a casar com o agressor. Arrepia, só de pensar.

Ser mulher é também estar em comunhão com as mulheres que sofrem, são maltratadas ou abusadas. Não é preciso ser feminista nem activista dos direitos das mulheres e, muito menos, defensora de quotas em contexto político-social para ter consciência de que a assimetria entre géneros é esmagadora para as mulheres em demasiadas latitudes do globo. Vivemos os mesmos séculos, os mesmos tempos de guerra e de paz, atravessamos juntos as mesmas crises e tempos de progresso, mas a história das mulheres é uma e a dos homens é outra, completamente diferente. E o fosso entre umas e outros é abissal.

Conhecedores de tudo isto, muitos homens e mulheres lutam pela igualdade de género e pelos direitos fundamentais, criando movimentos e organizações focados na educação das novas gerações, dando-lhes critérios e ferramentas para agirem de forma mais consciente, mas também para despertarem a consciência geral, pois a apatia que prevalece em muitos políticos e decisores chega a ser desumana.

Conhecer raparigas usadas e abusadas sexualmente que vivem a sua história no segredo ameaçador imposto pelos agressores carrega-nos de culpas. Somos culpados do silêncio, da indiferença e, porque não dizê-lo, da mesma apatia que identificamos nos que podem agir, mas não agem.

Escrevo a pensar especialmente numa dessas raparigas. Uma criança que podia ser minha filha, se eu tivesse nascido em África. Uma menina muito bonita, reservada e de olhos tristes, mesmo quando ri. Uma mwarusi, que na língua Macua significa donzela, rapariga que ainda não é mulher. Estavamos a chegar para uma sessão com as mwarusi (apoiadas por mentoras pós-universitárias do projecto Girl Move) numa comunidade rural da Província de Nampula, quando esta menina chegou. Trazia com ela apenas um caderno e vinha a conversar com duas amigas.

Durante um par de horas, as mentoras Girl Move orientaram uma sessão criativa, divertida e incisiva sobre a responsabilidade individual e o contributo positivo para o colectivo. Depois, as mwarusi dividiram-se em grupos para trabalhar um tema específico que tem a ver com básicos essenciais para elas: saberem defender-se, atreverem-se a dizer ‘não!’ e protegerem-se umas às outras para não serem agredidas e abusadas.

A última hora da sessão com as donzelas da comunidade de Napipine, perto de Nampula, foi passada a fazer teatro. Sob a supervisão das mentoras Girl Move, as raparigas improvisaram role-plays muito eloquentes dos seus medos e urgências, mas também dos seus anseios e sonhos de futuro. Todas se envolveram nas breves peças de teatro acabadas de ensaiar, e todas foram complementares acrescentarando muito umas à outras. Fizeram-nos rir às gargalhadas, mas também nos fizeram chorar lágrimas que tentamos a todo o custo conter e esconder.

Assisti a todas as peças, vi e ouvi os argumentos que usaram, e comovi-me profundamente com a verdade de cada uma, mas também com a aparente leveza com que falaram de temas pesados. Muitas delas estão no auge da sua catarse (a rapariga de que falo, de olhos bonitos mas trites, é uma delas) e, por isso, a teatralização de situações ameaçadoras, bem como a capacidade de nomear sentimentos permite essa purga, essa purificação interior. As raparigas servem de filtro umas às outras e as mentoras são essenciais para orientar essa catarse.

Nos teatrinhos improvisados, as raparigas dão sucessivos alertas umas às outras e reforçam noções e laços que as protegem dos perigos reais. Nada do que dizem é fútil ou acessório. Mantêm o foco nos temas essenciais porque sabem que dele depende a sua sobrevivência emocional, mas também a sua integridade física. No fim, em conversas mais íntimas, a duas, olhos nos olhos, soube que esta menina de que falo assumiu há pouco tempo que só está a conseguir sobreviver ao trauma da violação por estar a ser ajudada pelas outras mwarusi e pelas mentoras Girl Move.

Aquilo que vi e ouvi em Napipine, mas também na comunidade rural de Marrere, onde a sessão foi igualmente animada, mas desta vez sobre noções elementares relativas ao aparelho reprodutor feminino, feita a partir de danças e canções, mas também de desenhos infantis e pulseiras que as próprias miúdas fazem com missangas de várias cores, de forma a poderem usá-las sempre no pulso para perceberem o seu ciclo menstrual, bem como os dias em que correm perigo real de engravidar, deu para perceber o que fazem as mentoras do Girl Move no terreno. Ou seja, fora da Academia que frequentam em Nampula e onde cumprem um programa avançado de liderança pelo serviço e empreendedorismo social.

Estas raparigas foram, elas próprias, mwarusi e sentiram na pele essa mesma vulnerabilidade, mas tiveram a coragem de sonhar e lutar por um futuro diferente. O seu exemplo é altamente motivador para as mwarusis com quem trabalham actualmente, ajudando-as a ganhar coragem para procurarem elas mesmas o seu futuro. A forma como tocam a vida destas mwarusis vai fazer com que muitas se tornem líderes no futuro e é este sistema de vasos comunicantes e contagiantes que já está a colher muitos frutos.

Podia ter começado por escrever sobre a Academia Girl Move e tudo o que as jovens recém-licenciadas moçambicanas aprendem lá, mas acabei por deixar para o fim, pois a realidade-real que atravessam e sobre a qual se debruçam semestre após semestre é brutalmente urgente. Citando Maria Eitel, presidente e CEO da Fundação Nike, que serve de inspiração ao projecto Girl Move, “a educação das raparigas é transformadora e muda o curso da história. Se investirmos nos 72 milhões de jovens raparigas que estão fora da escola e elas passarem a estudar e a viver de acordo com o seu potencial, teremos um mundo totalmente diferente. É hora de actuarmos!”

Foi exactamente esta urgência que determinou a fundação e construção da Academia Girl Move, criada para promover a educação das mulheres. Na Girl Move só entram jovens licenciadas com potencial de liderança ao serviço das comunidades, porque a missão é essa mesma: liderar pelo serviço e transformar a realidade. “Quando melhoramos a vida de uma rapariga através da educação, saúde e segurança, dando-lhe mais oportunidades, estas mudanças têm sempre um efeito multiplicador na sociedade e quebram os ciclos de pobreza e exclusão” assume Alexandra Machado, portuguesa de Lisboa e fundadora do Girl Move que largou uma vida de sucesso como gestora de topo numa empresa multinacional para estar ao serviço desta causa, em Moçambique.

Num ciclo virtuoso de mentoria, de rapariga para rapariga e mulher para mulher, criou uma equipa sólida e uma rede de apoio, capacitação e mudança que transforma Nampula, em Moçambique, mas vida a vida poderá transformar o mundo. Preparar uma nova geração de mulheres que contribui para a mudança da realidade implica envolvê-las com o problema. Dotá-las de competências e forças para sonhar, tornar os sonhos realidade e fazer com que muitas mais mulheres se atrevam a sonhar.

Passei uma semana em Nampula, com a turma de raparigas Girl Move, na Academia onde têm aulas e recebem formação no âmbito do extraordinário Programa Avançado de Liderança e Empreendedorismo, mas também estive com elas no terreno, onde são mentoras de dezenas de Guias do projecto Mwarusi, que por sua vez trabalham com centenas de mwarusis. Fiquei impressionada com esta rede que toca mais de 600 raparigas só na Província de Nampula. Em apenas dois anos a Girl Move já está a fazer toda a diferença na paisagem a norte, num país como Moçambique, onde milhares e milhares de raparigas correm risco de abandono escolar, gravidez precoce, pobreza (miséria!) e exclusão social. Grande parte desta sucessão de conquistas deve-se ao envolvimento das próprias autoridades moçambicanas e também este contágio quase imediato acaba por ser muito inspirador e gratificante para todos. Trata-se da chamada win-win situation, em que todos ganham.

O programa parte desta ideia inovadora de mentoria em rede, e de um programa altamente inovador, inspirado por Paulo Freire, que recorre às metodologias pedagógicas mais recentes e experienciais como as comunidades de prática, os estágios de Vida, as tutorias de carreira, o service-learning, o dragon dreaming e o design thinking. Ou seja, metodologias mais que testadas no mundo das organizações, agora aplicadas também naquela latitude para transformar a sociedade.

Fui como voluntária participar na formação e voltei como se também eu pertencesse ao projecto. A paixão de alunas e professores, mentoras e guias, mwarussis e voluntários é absolutamente contagiante. Percebo a fundadora do Girl Move, quando assume que o seu sonho é formar formadoras, incentivar líderes e capacitar mentoras para chegarem a todas as raparigas em risco de abandono escolar e exclusão. Soa a utopia? Talvez, mas como dizia Sebastião da Gama, é pelo sonho que vamos. E é pelo exemplo que continuamos, na certeza de que são realmente as minorias que fazem avançar o mundo.

São alimentos feitos a partir de restos.. e são deliciosos

in Diário de Notícias

A maneira como estes alimentos são feitos é desconhecida para muita gente


A origem dos alimentos é algo a que muitas pessoas não prestam atenção na hora de comer. Alguns alimentos que consumimos no dia-a-dia são na verdade sobras e restos de outros e são obtidos por processos que nem imaginamos.

Um bom exemplo disso é a gelatina, um dos produtos mais recomendados para dietas equilibradas devido ao seu baixo número de calorias e por ter muita água. O que muitos não sabem é que a gelatina é feita de ossos, pele e cartilagem de animais, ou seja, as partes que não podem ser consumidas diretamente.

O primeiro passo para fazer esta sobremesa muito apreciada é ferver as sobras de pele e ossos de galinhas, vacas e porcos para libertar a molécula fibrosa de colagénio. A mistura é depois filtrada e posta a secar até se transformar em pó.

À temperatura ambiente, os filamentos de colagénio unem-se uns aos outros mas à medida que é adicionada água quente ao pó, as moléculas ganham novas formas e colam-se às moléculas de água.

Embora preparar gelatina seja agora um processo fácil e rápido, as primeiras receitas aconselhavam os produtores a ferverem especialmente com cuidado os pés de bezerro e a adicionarem bexigas secas de peixe, um produto conhecido como cola de peixe, e bocados de marfim, segundo a BBC.

Há vários sabores de gelatina de frutas disponíveis nos dias de hoje e nenhum deles deixa adivinhar a origem deste alimento.

Outro alimento que resulta dos restos de produção de outros é o melaço. Este produto escuro e viscoso é rico em ferro, cobre, cálcio e magnésio, para além de ser um adoçante natural e resulta do processamento do açúcar.

Para fazer melaço, a cana-de-açúcar é esmagada para libertar um líquido, que é depois fervido para a água evaporar. Enquanto o líquido coze, o açúcar começa a cristalizar, e a mistura é colocada numa centrifugadora. No final, os cristais de açúcar são retirados mas o líquido que sobra, que tem o aspeto de lodo, continua a ser tratado até ficar mais espesso e doce.

Depois de fermentado com água e levedura e destilado, o melaço pode ainda ser transformado em rum.

Estes dois produtos são utilizados principalmente para fazer lanches e sobremesas na cozinha portuguesa e quando chegam à mesa torna-se quase impossível adivinhar como são feitos.
Portugueses inventam aparelho que mede sal na comida em três minutos.

Despesa das famílias com a saúde aumenta

in Diário de Notícias

Segundo o Instituto Nacional de Estatística as despesas de saúde das famílias aumentaram


Despesas de saúde das famílias aumentou devido ao aumento das despesas em hospitais privados e de vendas de bens médicos

A despesa das famílias com a saúde aumentou 2,7% em 2014, devido principalmente ao aumento de gastos com privados, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), que estima que esta despesa tenha aumentado 2,4% em 2015.

Os dados da Conta Satélite da Saúde do INE hoje divulgados revelam que "em 2014, a despesa corrente das famílias cresceu 2,7% devido, principalmente, ao aumento da despesa em hospitais privados (10,3%), em outras vendas de bens médicos (7,1%) e em prestadores privados de cuidados em ambulatório (2,1%)".

"Em 2013 e 2014, em média, 89,6% da despesa corrente em saúde das famílias centrou-se no financiamento em prestadores privados de cuidados de saúde em ambulatório, em farmácias, em hospitais privados e em todas as outras vendas de bens médicos", especifica o INE.

Em 2014, e face ao período de 2000 a 2003, destacou-se o aumento do peso relativo da despesa em hospitais privados (mais 7 pontos percentuais) e em prestadores privados de cuidados em ambulatório (mais 5,7 pontos percentuais).

Em sentido inverso, observou-se uma diminuição do peso da despesa das famílias em farmácias (menos 10,7 pontos percentuais).

No âmbito dos prestadores de cuidados de saúde, em 2013 e 2014, ao nível dos principais prestadores, registou-se a diminuição da importância relativa da despesa em hospitais públicos (32,0% em 2013 e 31,3% em 2014) e em farmácias (15,5% em 2013 e 15,3% em 2014).

Por outro lado, registou-se um aumento do peso da despesa em prestadores privados de cuidados de saúde em ambulatório (19,4% em 2013 e 19,5% em 2014), em hospitais privados (10,2% em 2013 e 10,7% em 2014), em prestadores privados de cuidados auxiliares (4,2% em 2013 e 4,3% em 2014) e em todas as outras vendas de bens médicos (4,1% em 2013 e 4,2% em 2014).

Os dados da Conta Satélite da Saúde do INE indicam ainda que globalmente a despesa corrente em saúde aumentou 2% em 2015, sendo que o peso deste crescimento no Produto Interno Bruto (PIB) foi o mais baixo desde 2003, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) hoje divulgados.

Os dados da Conta Satélite da Saúde do INE mostram que a despesa corrente em saúde aumentou 2% no ano passado, ainda assim, uma taxa de crescimento inferior à do PIB (3,4%).

No entanto, o peso relativo da despesa corrente em saúde no PIB continua a diminuir, representando 8,9% em 2015, o valor mais baixo desde 2003.

O INE revela ainda que já em 2014 se tinha verificado um aumento da despesa corrente em saúde de 0,7%, invertendo a tendência de decréscimo que se registava desde 2011.

"Em 2013, a despesa corrente em saúde diminuiu 1,7%, atingindo 15.476,7 milhões de euros, correspondendo a 9,1% do PIB e a 1.479,99 euros per capita", indica o INE.

A partir desse ano, a despesa corrente em saúde inverteu a tendência de decréscimo que se registava desde 2011, tendo aumentado 0,7% em 2014, fixando-se em 15.582,7 milhões de euros (9% do PIB e 1.498,18 euros por pessoa).

O aumento de 2% da despesa corrente em saúde verificado em 2015, traduz-se num total de 15.887,7 milhões de euros (8,9% do PIB e 1.533,85 euros por pessoa).

"Em 2014 e 2015, a importância relativa da despesa corrente pública face à despesa privada voltou a baixar (66,2% em 2014 e 66% em 2015)", acrescenta o INE.

Mortalidade infantil até aos 5 anos diminuiu 94% desde 1970 em Portugal

in Jornal de Notícias

Portugal tem uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo, com quatro mortes de crianças até aos cinco anos em cada mil nascimentos, em 2015, valor que representa uma diminuição de 94% em 45 anos.

Os dados constam do relatório anual da Unicef -- Fundo das Nações Unidas para a Infância, divulgado hoje, e que revela, no geral, que quase setenta milhões de crianças morrerão antes dos cinco anos até 2030 se a comunidade internacional não investir já nas mais crianças pobres.

De acordo com a Unicef, e tendo por base dados do Eurostat para 2014, 19,5% da população portuguesa vivia em risco de pobreza.

Entre os adultos o risco de pobreza era de 18,1%, enquanto entre as crianças o risco era bastante mais elevado e chegava aos 25,6%, enquanto a média europeia foi de 16,3% e 21,1%, respetivamente.

Numa lista de 197 países, Portugal aparece na 166.ª posição, ex-aequo com mais 15 países que partilham uma taxa de mortalidade infantil até aos cinco anos de quatro crianças em cada mil.

O país mais mal classificado é Angola, em 1.º lugar, com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo: 157 em cada mil crianças morrem antes dos cinco anos no país.

Especificamente em relação a Portugal, a Unicef revela que a taxa de mortalidade infantil até aos cinco anos de idade teve uma redução de 94% desde 1970, ano em que morriam 68 crianças em cada mil nascimentos.

Esse número cai para 15 mortes em 1990, para sete em 2000 e para quatro em 2015, o que significa, de acordo com os dados da Unicef, que houve uma redução de 76% desde 1990 e de 50% desde 2000.

Em 2015, a taxa de mortalidade até aos cinco anos de idade por sexo era de quatro mortes entre os rapazes e de três mortes entre as raparigas.

Já a mortalidade infantil até um ano de idade era, no ano passado, de três mortes em cada mil nascimentos, contra 12 em 1990, o que representa um decréscimo de 75%.

No que diz respeito à mortalidade neonatal, ou seja, até aos 28 dias de idade, Portugal tinha uma taxa de duas mortes por cada mil nascimentos.

Segundo a Unicef, nasceram no ano passado 83 crianças e não se registou qualquer morte infantil até aos cinco anos de idade, sendo que a esperança de vida à nascença era de 81 anos.

Por outro lado, uma em cada 8.200 mulheres corria o risco de morrer durante o trabalho de parto.

Os dados para Portugal revelam que, em matéria de educação, a taxa de alfabetização dos jovens com idade entre os 15 e os 24 anos foi de 99% entre 2009 e 2014.

Para o mesmo período, 92% de rapazes e 89% de raparigas frequentaram o pré-escolar, ao mesmo tempo que apenas 1% das crianças não frequentou a escola primária, o que representou sete alunos.

Na escola secundária inscreveram-se 92% dos rapazes e 94% das raparigas.

Os indicadores demográficos revelam que, em 2015, Portugal tinha 10.350 mil habitantes, dos quais 1.782 mil com menos de 18 anos e 439 mil com menos de cinco anos. 1.072 mil pessoas tinham entre 10 e 19 anos, representando 10% da população.

A taxa de crescimento anual da população foi de 0,2% entre 1990 e 2015, prevendo-se um decréscimo de 0,3% entre 2015 e 2030.

Relativamente à saúde, a totalidade da população tem acesso a água potável, bem como a instalações sanitárias.

Brexit. O referendo deu autorização aos ingleses para serem xenófobos?

in RR

Vandalismo, insultos na internet e agressões físicas. Depois do referendo, aumentaram os crimes de ódio no Reino Unido. Portugueses também são alvo.

Multiplicam-se os episódios de racismo e xenofobia no Reino Unido, depois do referendo que ditou a saída do país da União Europeia (“Brexit”).

Uma reportagem da Lusa revelou, esta terça-feira, que cidadãos portugueses a viver no Reino Unido foram vítimas de ataques racistas. Os incidentes aconteceram em Londres, País de Gales ou Norfolk, disseram à agência Lusa vários membros da comunidade portuguesa, que acrescentaram que nem todos são divulgados por receio de reprovação ou represálias. Nem a Embaixada nem o Consulado portugueses de Londres receberam denúncias oficiais de ataques a portugueses e a polícia britânica também não confirmou casos específicos nacionais.

A sede da comunidade polaca em Londres foi pintada com a inscrição “vão-se embora”. Nas redes sociais multiplicam-se os insultos a minorias étnicas e os vídeos que mostram actos xenófobos

“O resultado do referendo parece que concedeu autorização às pessoas para expressarem racismo e xenofobia”, comentou um elemento do centro polaco de Hammersmith, em Londres, citado pela France Press.

O chefe do Conselho Nacional da Polícia disse que se registaram 85 casos de crimes de ódio através da internet entre quinta-feira (dia do referendo) e sábado da semana passada, correspondendo a um aumento de 57%, comparado com o que se verificou no mês de Maio.

Vídeos publicados na internet mostram insultos racistas nas ruas

Uma série de autocolantes com a frase “Deixem a União Europeia: não queremos aqui a bicharada polaca” foram espalhados na zona onde se concentra a comunidade em Huntingdon, perto de Cambridge, no passado sábado.

John O’Connell, do grupo anti-racista Far Right Watch disse que foram detectados mais de 90 incidentes nos últimos três dias, que incluem insultos verbais e agressões físicas.

O presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, disse na segunda-feira que colocou a polícia municipal em alerta, em virtude dos incidentes que se têm verificado. Khan sublinhou que encara com “seriedade e responsabilidade” a defesa da “fantástica mistura de pessoas, a diversidade e a tolerância”.

“Façam as malas e vão-se embora”

A sede da comunidade polaca em Londres foi vandalizada. A fase “Vão-se embora” chocou Joanna Ciechanowska, directora da galeria que funciona no interior das instalações do Polish Social and Cultural Association (POSK), em Hammersmith.

“Este sentimento é uma mistura entre o desgosto e o medo. Nós temos o centro a funcionar desde 1962 e nunca tivemos de nos confrontar com actos de racismo”, disse Joanna Ciechanowska à France Press.

A responsável pelo centro da comunidade polaca em Londres aponta como causa as mensagens que foram utilizadas durante a campanha do referendo.

“É muito preocupante. Ouço amigos que viajam de comboio e que dizem que as pessoas que se sentam ao lado, de um momento para o outro, lhes dizem directamente: ‘Façam as malas e vão-se embora’. Se as pessoas que tinham um grão de agressividade dentro delas, o referendo fez com que tudo saísse cá para fora", relatou Ciechanowska.

A embaixada da Polónia já manifestou “choque e preocupação” sobre os incidentes e “abusos” contra a comunidade polaca no Reino Unido.

Cameron denuncia “crimes” e “ódio

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, já criticou “a série de reprováveis” incidentes que se seguiram à decisão sobre o abandono do Reino Unido da União Europeia.

“Nos últimos dias, temos visto inscrições lamentáveis que atingem o centro comunitário polaco e elementos de minorias étnicas têm sido alvo de insultos verbais”, disse Cameron.

O primeiro-ministro demissionário afirmou também que é preciso ter presente que os membros das minorias estão no Reino Unido tendo contribuído de forma muito importante para a sociedade britânica. “Não vamos apoiar os crimes e o ódio ou qualquer tipo de ataques do género, que devem terminar”, concluiu.

“The Sun” alvo de críticas

Sayeeda Warsi, política conservadora que mudou de opinião a meio da campanha e votou pela manutenção do Reino Unido na União Europeia, tem também criticado abertamente os incidentes xenófobos dos últimos dias.

“Eu passei o último fim-de-semana em contacto com organizações, pessoas e activistas que estão atentos em relação aos crimes de ódio e que relatam situações preocupantes. Encontram pessoas na rua que lhes dizem: ‘Nós votamos pelo 'Brexit', por isso, chegou a hora de vocês se irem embora’”, relata Sayeeda Warsi à Sky News.

O popular jornal “The Sun”, assumido apoiante do 'Brexit' tem estado a ser alvo de críticas, depois de ter publicado o título: “As ruas estão cheias de lojas polacas, de miúdos que não falam inglês (…), mas agora as bandeiras britânicas foram hasteadas, outra vez”.

Shashank Joshi, membro do "think-tank" RUSI, disse que o artigo do “é totalmente vil” e acusou o “The Sun” de responsabilidade pelos incidentes e ataques que se têm registado no Reino Unido.
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FMI diz que é improvável que Portugal absorva o actual desemprego no médio prazo

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Fazer regressar os trabalhadores menos qualificados ao mercado de trabalho é uma das tarefas mais difíceis para Portugal nos próximos anos, avisa o FMI

Com as actuais taxas de crescimento e aplicando a mesmas políticas que foram seguidas até agora, Portugal tem poucas hipóteses de conseguir trazer, no médio prazo, a sua taxa de desemprego para os mesmos valores do passado, num cenário em que se revela particularmente difícil recuperar a mão-de-obra menos qualificada para o mercado de trabalho.

A conclusão é do Fundo Monetário Internacional, que, num livro agora publicado pelo departamento responsável por delinear o programa de ajustamento aplicado em Portugal, avalia aquilo que aconteceu no país desde a chegada da troika de credores e recomenda as políticas que devem ser seguidas nos próximos anos.

Em relação ao emprego, nomeadamente ao desencontro entre a oferta e a procura de postos de trabalho, o documento editado por Dmitry Gershenson, Albert Jaeger e Subir Lall (este último o chefe das missões do Fundo a Portugal) revela, com base em simulações, uma visão bastante sombria em relação ao que pode acontecer durante esta década. “Tendo em conta as actuais projecções de crescimento e as actuais políticas, não é provável que a criação de emprego seja suficiente para absorver o actual excedente no mercado de trabalho no médio prazo”, dizem estes responsáveis do FMI.

São identificados vários motivos para este pessimismo, mas o principal está centrado nos trabalhadores não qualificados. De acordo com o Fundo, Portugal é o país da União Europeia com o maior peso dos trabalhadores não qualificados no total dos empregados. E é precisamente para estes que, na actual conjuntura, é mais difícil encontrar agora um novo posto de trabalho.

Deste modo, se por um lado já é considerado provável que o ritmo de crescimento da economia não seja suficiente para absorver o excesso de oferta, por outro a situação agrava-se porque mesmo que o ritmo de crescimento económico seja mais satisfatório não existe a certeza de que os trabalhadores menos qualificados têm o apoio e os incentivos de que precisam para concretizar a transição para um novo emprego.

Os responsáveis do Fundo fazem, para enfrentar este problema, várias recomendações, que têm já constado de relatórios de avaliação a Portugal divulgados nos últimos anos. “Para apoiar a criação de empregos para os menos qualificados, as muito necessárias reformas estruturais no sector público e financeiro devem ser complementadas por uma política prudente para o salário mínimo, por políticas que aumentem o nível limitado de qualificações de gestão e por um diálogo mais inclusivo e transparente entre os parceiros sociais, que tenha em conta os interesses daqueles que estão fora do mercado de trabalho”, diz o documento.

No livro, que será apresentado por Subir Lall esta quarta-feira na Universidade Nova, o Fundo dedica capítulos a outros desafios que a economia portuguesa enfrenta. Se para manter o equilíbrio interno, a prioridade deve ser a de encontrar empregos para os trabalhadores menos qualificados, para manter o equilíbrio externo o Fundo diz que é essencial realizar reformas estruturais que aumentem a competitividade. Sem elas, defendem os autores do livro, o país arrisca-se a ver o défice externo outra vez crescer à medida que a procura interna começar a acelerar.

O Fundo insiste ainda na importância de as autoridades portuguesas prosseguirem com um ajustamento nas suas contas públicas, para combater o peso que constitui a dívida pública, um problema que é também relevante no sector privado empresarial.

27.6.16

Exposição fotográfica na U.Porto desmistifica comunidade cigana

in UP

Vinte pessoas. Vinte profissões. Vinte ciganos e ciganas que ajudam a “escrever” o “Singular do Plural”, título da exposição de fotografia que está patente de 3 a 30 de junho, na sala de exposições temporárias do edifício da Reitoria da Universidade do Porto, no âmbito da Campanha Nacional “A discriminação é falta de educação”.

Para outros vídeos, visite o canal oficial da Universidade do Porto no Youtube.

Prestação social única para deficientes simplifica modelo de proteção social

in RTP

O ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva, disse hoje que a nova prestação social única para pessoas com deficiência visa "simplificar, atualizar e tornar mais eficaz" o sistema de proteção social.

"Neste momento identificámos 24 perfis diferentes de cobertura pela proteção social da situação das pessoas com deficiência", o que é "uma situação complexa, pouco legível e pouco acessível", disse o ministro na Comissão de Trabalho e Segurança Social, onde está a ser ouvido.

Esta situação faz com que as pessoas com deficiência tenham "diferentes composições de apoios sociais, o que torna demasiado opaca" esta situação, que "é uma situação crítica do sistema de proteção social".

Nesse sentido, explicou, a nova prestação "visa simplificar, atualizar e tornar mais eficaz o modelo".

Segundo o ministro, a nova prestação terá três componentes: Cidadania, majoração em situações específicas que afetam estas pessoas e combate à pobreza.

A componente de combate à pobreza "permitirá retirar pessoas com deficiência de situações de pobreza extrema", que "infelizmente são demasiado frequentes", adiantou.

Ainda na área da deficiência, o ministro apontou a concretização da rede integrada de atendimento especializado, com a abertura de balcões em seis centros distritais da Segurança Social e que serão alargados a todo o país para "uma resposta eficaz às necessidades das pessoas com deficiência".

Vieira da Silva sublinhou que os primeiros resultados desta medida "são encorajadores" e avançou que, até ao final do primeiro trimestre de 2017, todos os centros distritais da segurança social terão estes balcões de atendimento.

Na sua intervenção na abertura da audição na comissão parlamentar, o ministro adiantou que uma das prioridades do orçamento do seu ministério é a participação na área da rede de cuidados continuados, que vai ter "um apoio suplementar financeiro de 40 milhões de euros", um crescimento significativo de 14%.

Esta verba destina-se a garantir, em conjunto com o Ministério da Saúde, a ampliação da rede em dimensão (mais camas e mais lugares) e profundidade, abrangendo novas áreas na rede de cuidados continuados, nomeadamente as áreas da saúde mental e a pediátrica.

Mais de 1200 refugiados morrem à fome na Nigéria

Filipa de Sousa, in Público on-line

Só no último mês morreram 188 pessoas em Bama.

Segundo a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), mais de 1200 pessoas morreram à fome ou vítimas de doença num campo de refugiados localizado no nordeste da Nigéria, em Bama. De acordo com o que foi relatado pelos MSF, cerca de 24 mil pessoas – 15 mil das quais são crianças e 4500 com menos de cinco anos – estão alojadas na cidade do estado de Borno, depois de terem fugido do grupo terrorista Boko Haram.

Na terça-feira realizou-se a primeira visita dos MSF à cidade de Bama após esta ter sido resgatada do grupo terrorista, em Março de 2015, relata o jornal The Guardian.

“Disseram-nos que pessoas de lá, incluindo crianças, morreram à fome. De acordo com as informações dadas à MSF por pessoas que vivem agora em Bama, novas campas aparecem diariamente. Foi-nos dito que em alguns dias mais de 30 pessoas morreram devido a fome ou doença”, explica Ghada Hatim, responsável pela missão nesta cidade nigeriana, através de um comunicado divulgado esta quinta-feira pelos Médicos Sem Fronteiras.

Nessa visita descobriram uma crise que caracterizam de “emergência humanitária catastrófica”. Dezasseis crianças com malnutrição aguda grave, em risco de morte, foram encaminhadas para um centro em Maiduguri para receberem tratamento. Foram ainda encontradas 1233 campas que foram escavadas no último ano - 480 pertencem a crianças.

Segundo a BBC, o Boko Haram já provocou 20 mil mortos e mais de dois milhões de deslocados durante a revolta que dura há sete anos, para além de terem sido os autores de milhares de sequestros, como o rapto de raparigas em Chibok de há dois anos.

Apesar de o exército nigeriano ter conseguido recuperar grande parte do território antes ocupado pelo grupo terrorista, que no ano passado jurou fidelidade ao Estado Islâmico, os ataques de bombistas suicidas continuam a acontecer com frequência, acrescenta The Guardian. Segundo um relatório publicado este ano pela UNICEF, o Boko Haram recorre cada vez mais a crianças para os ataques suicidas.

Texto editado por Ana Gomes Ferreira

Governo garante que controlo a desempregados com subsídio vai manter-se

in TSF

Na convenção do Bloco de Esquerda, Catarina Martins deu como certo que as visitas quinzenais dos desempregados aos centros de emprego vão terminar. Governo é menos taxativo.

A discussão está na mesa, mas para o Governo uma coisa é certa: o controlo dos desempregados com subsídio através de apresentações periódicas é para manter.

Em declarações ao jornal Público, o secretário de Estado do Emprego defende que o mecanismo é importante para controlar a fraude. A partir daqui já é muito vago. Deixa em aberto a periodicidade das apresentações, até agora de 15 em 15 dias, ou seja, pode ser a intervalos maiores e nada diz sobre a penalização a quem não comparecer.

A falta de comparência foi, no ano passado, a segunda maior causa de perda do subsídio de desemprego, com 61% dos desempregados a perderem a prestação social por não comparecerem à convocatória do centro de emprego e 22% por não se apresentarem para controlo quinzenal.

A mudança que aí vem, diz Miguel Cabrita, vai resultar num acompanhamento mais eficaz e menos burocrático dos desempregados. Com maior apoio à procura de trabalho e à formação para procurar trabalho. Isto vai implicar deslocações periódicas aos centros de emprego. Diz o secretário de Estado que as deslocações que vão ser intercaladas com a apresentação periódica.

‘A economia deveria servir às pessoas, não o contrário’, diz relator da ONU sobre ajuste europeu

in ONU

Especialista independente da ONU alerta que dificilmente a União Europeia conseguirá alcançar meta para 2020, que estipula diminuir número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social para 20 milhões. Atualmente o bloco contabiliza 21,4 milhões de desempregados e 121 milhões em risco de pobreza ou exclusão social.

Com cerca de 21,4 milhões de pessoas desempregadas, 4,7 milhões a mais que no início da crise econômica em 2008, a União Europeia (UE) corre o risco de não alcançar a meta estipulada de diminuir para 20 milhões o número de pessoas em risco de pobreza e exclusão social até 2020.

De acordo com Juan Pablo Bohoslavsky, especialista independente da ONU sobre direitos humanos e os efeitos da dívida externa, as recentes políticas de austeridade atingem aqueles que são mais vulneráveis, minando os direitos econômicos, sociais e trabalhistas nos países do bloco.

“Estou preocupado com uma mudança política que desfavoreça a abordagem anterior, balanceada em assegurar a estabilidade econômica, igualdade e coesão social, em favor de uma convergência desproporcional da estabilidade orçamentária”, alertou o especialista, encarregado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU de analisar e relatar os efeitos da crise financeira sobre os direitos humanos.

“A pobreza está em ascensão em uma das regiões mais ricas do mundo”, alertou Bohoslavsky. Na União Europeia, cerca de 121 milhões de pessoas estão em risco de pobreza ou exclusão social. Este número cresceu particularmente em países que enfrentaram crises financeiras e ajustes estruturais, como na Grécia e na Espanha.

Ao enfatizar as obrigações dos Estados-membros com os direitos humanos, o especialista afirmou que os órgãos e instituições da União Europeia tem que respeitar os tratados internacionais relacionados ao recomendar políticas ou condicionar empréstimos. Ele lembrou que essas instituições não estão fora do alcance do direito internacional dos direitos humanos.

Para o especialista independente, a avaliação das reformas econômicas passadas deve focar em como elas asseguraram a justa e igual distribuição da carga dos ajustes dentro da sociedade, e não apenas se elas conseguiram reduzir os déficts orçamentários ou crescimento econômico.

“É hora de recuperar os direitos sociais dentro da União Europeia. Espero que as mais recentes iniciativas da comissão europeia contribuam para se alcançar este objetivo”, concluiu o especialista.

Aumento da produção agrícola é essencial para fim da fome, alerta o Banco Mundial

in Diário Digital

O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, afirma que, nos últimos 25 anos, o percentual de desnutrição caiu quase pela metade no mundo, de 19% para 11%. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo.

Washington - O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, afirma que, nos últimos 25 anos, o percentual de desnutrição caiu quase pela metade no mundo, de 19% para 11%. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo hoje, a maior parte delas em países de baixa renda, como os da África Subsaariana.

O documento diz ainda que vai ser muito difícil acabar com a fome até 2030, cumprindo o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, se o ritmo atual de queda continuar o mesmo.

O relatório discute maneiras de alcançar os objetivos das Nações Unidas. Uma delas é elevar a produtividade das famílias rurais. Afinal, para 70% dos pobres do mundo que vivem no campo, a agricultura é a principal fonte de emprego e renda.

Além disso, em 2030, a população e a demanda por alimentos devem aumentar nos países mais pobres do mundo, onde a produtividade agrícola é menor e a vulnerabilidade às mudanças climáticas, mais alta.

Alterações na produtividade agrícola, principalmente na produção de cereais, influem nos números de pobreza e desnutrição, segundo o estudo do Banco Mundial.

Em períodos de estagnação na produtividade, como a ocorrida entre 1990 e 1999 nos países mais pobres do mundo, houve pouca melhora nos níveis de pobreza e saúde nutricional.

Já entre 2000 e 2012, quando o crescimento médio anual de produção de cereais nos países de baixa renda foi de 2,6%, a pobreza e a desnutrição caíram 2,7% ao ano.

O relatório do Banco Mundial também traz avanços nos indicadores de nanismo e desnutrição severa em crianças de até 5 anos, mas lembra que ainda há muito por fazer.

A prevalência de nanismo, por exemplo, diminuiu desde 1990, mas permanece perto de 40% nos países mais pobres do mundo. Até 2025, o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável visa reduzir em 40% o número de crianças de até 5 anos com nanismo.

Fome é tragédia silenciosa, mas pode resultar em imagens dramáticas - organizações

in Sapo24

Quase dois milhões de moçambicanos, cinco vezes mais do que no ano passado, precisam atualmente de ajuda alimentar devido à seca, disseram fontes das agências humanitárias.

"Por causa da seca, a estimativa de pessoas em insegurança alimentar [em Moçambique] está perto de dois milhões, depois de no ano passado ter sido de 375 mil", disse à Lusa o economista Jonathan Pound, da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma.

Moçambique está entre os países mais afetados pela seca provocada pelo fenómeno El Niño, que até agora deixou mais de 40 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar na África Austral.

Viúvas discriminadas pelas famílias

Texto Francisco Pedro, in Fátima Missionária

As viúvas encontram-se no grupo de pessoas mais marginalizadas e isoladas

Nações Unidas estimam que há cerca de 259 milhões de viúvas em todo o mundo e quase metade vive na pobreza. Muitas são vítimas de discriminação por parte das famílias e das comunidades

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lançou um alerta para situação de discriminação e pobreza em que se encontram milhões de viúvas em todo o mundo. Estima-se que existam cerca de 259 milhões e que quase metade vive na miséria, por falta de recursos económicos.

Numa mensagem a propósito do Dia Internacional das Viúvas, que se assinalou quinta-feira, 23 de junho, Ki-moon salientou, que mesmo em países desenvolvidos, o valor das pensões das mulheres pode ser cerca de 40 por cento mais baixo do que o dos homens.

Por outro lado, acrescentou o responsável, as viúvas mais novas enfrentam outros desafios, por terem à sua responsabilidade o cuidado das crianças e serem confrontadas com oportunidades económicas «muito limitadas».

Ban Ki-moon pediu, por isso, um compromisso sério para tornar as viúvas mais visíveis nas sociedades e ajudá-las a viverem as suas vidas de forma «produtiva, igual e gratificante», já que se encontram no grupo de pessoas «mais marginalizadas e isoladas».

Assinala-se hoje o Dia Nacional do Cigano

por Rádio F

O Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), da Cáritas Diocesana na Guarda, o Projeto “tu decides+…” do NDS da Guarda e o Núcleo Distrital da Guarda da EAPN Portugal vão promover o Dia Nacional do Cigano, que se comemora a 24 de junho. Aproveitando a feira de são joão que decorre na Guarda, os promotores da iniciativa vão estar presentes ao longo do dia no Jardim frente à PSP, com uma exposição que pretende retratar a comemoração do Dia Nacional do Cigano como referiu à Rádio F, Elisabete Pires do projeto “tu decides+…” do NDS.

Um dos principais objetivos desta iniciativa passa por desmistificar o estereótipo da comunidade de etnia cigana como salientou, Elisabete Pires. O CLAIM, O NDS e EAPN vão estar na Feira de São João hoje na Guarda, para assinalar o dia Nacional do Cigano.



Ativista ganhou prémio de "Cigana do Ano"

Helena Cruz Lopes, Manuel Salselas, Guilherme Terra, in RTP

"A discriminação é falta de educação" - este é o lema de uma campanha da Rede Europeia Anti-Pobreza.

Uma sensibilização contra a discriminação das comunidades ciganas em Portugal.

É isso mesmo faz Guiomar Sousa, uma ativista que ganhou o prémio de "Cigana do Ano".

Fome no mundo é um “escândalo”, diz Cáritas

in Diário de Coimbra

A Cáritas considera que a persistência da fome no mundo é «um escândalo», particularmente em África, o continente mais atingido pelo flagelo, apesar da existência de recursos naturais, disse o presidente da organização em Portugal, Eugénio Fonseca. «A Cáritas olha para esse problema como um escândalo, porque é uma expressão excessivamente dolorosa e incomensuravelmente indescritível que possa ainda, apesar dos recursos e da exploração que se tem feito desses mesmos recursos naturais, haver gente que passe fome no mundo», declarou o presidente da Cáritas Portugal, organização ligada à Igreja Católica que actua em dezenas de países.

Em defesa dos nossos idosos

António Ponces de Carvalho, in Público on-line

O trabalho com pessoas idosas poderá contribuir muito para o progresso de Portugal.

Portugal deve congratular-se: a Assembleia da República aprovou uma recomendação ao Governo para que, no prazo de 120 dias, regulamente o exercício da profissão de Gerontólogo.

Desde 27 de junho de 2006, ano em que a Escola Superior de Educação João de Deus propôs à Direção-Geral do Ensino Superior a criação, no País, da primeira licenciatura em Gerontologia, que tentamos mobilizar e incentivar o poder político para o reconhecimento desta tão importante profissão, essencial à defesa dos nossos idosos.

Fomos pioneiros quando, em 1920, instituímos o primeiro curso de Educadores de Infância, enquanto o Estado demorou 53 anos até criar curso análogo. Agora, felizmente, não será necessário tanto tempo para reconhecer o valor desta profissão.

Na Europa e em Portugal, existem mais pessoas idosas do que jovens, pelo que vai ser com certeza uma profissão de sucesso. O Gerontólogo estimula e organiza atividades, que ajudam os idosos a manterem as suas capacidades, destrezas e habilidades, o que é crítico para a qualidade de vida. O estímulo e o incentivo para manterem o cérebro ativo e treinado são fundamentais. As neurociências têm demonstrado que uma adequada estimulação retarda o aparecimento de um vasto conjunto de doenças e incapacidades, e prolonga a vida.

As pessoas idosas, com o apoio de um Gerontólogo, podem também desenvolver novas capacidades, destrezas e habilidades, descobrindo vocações que estavam apenas latentes. O Gerontólogo pode ajudar a melhorar a perspetiva que cada um tem sobre o seu envelhecimento e sobre as alterações que vão surgindo, assim contribuindo para uma vida mais autónoma, mais longa e feliz.

O trabalho com pessoas idosas é uma área de atividade que muito poderá contribuir para o progresso do nosso querido País. Por um lado, em resultado da satisfação proporcionada aos membros ativos da comunidade, por verem os seus entes queridos bem tratados, felizes e com vida própria. Por outro, por criarem novas empresas, por ajudarem a adequar os serviços e produtos para esta faixa etária. A título de exemplo, isso verifica-se nas indústrias de vestuário, calçado, mobiliário e turismo, e nos parques e residências, tendo em consideração as suas necessidades específicas.

Poder oferecer residências aos reformados de outras nações, com serviços especializados para as suas necessidades, constituirá um aliciante suplementar para que optem por vir habitar em Portugal, contribuindo financeiramente para o nosso desenvolvimento.

Portugal tem um património muito rico em termas; estas são, porém, ainda pouco exploradas no sentido de aparecerem programas aliciantes e próprios para as pessoas idosas e respetivas famílias, de modo a potenciar momentos ricos em vivências inter-geracionais. Também aqui o Gerontólogo poderá ajudar com atividades complementares aos tratamentos médicos.

Seria muito importante para a defesa da qualidade de vida dos nossos idosos que o conselho de administração da A3ES - Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, alterasse a sua ideia de não aprovar licenciaturas em Gerontologia, agora que se prepara a regulamentação desta profissão.

O envelhecimento ativo é fundamental, mas não se consegue sem o apoio de toda a comunidade, verdadeiramente envolvida e solidária em promover a ideia de “dar mais anos à vida e dar mais vida aos anos”.

Director da Escola Superior de Educação João de Deus

“Fotografia à la minute do distrito de Beja”

Ana Elias de Freitas, in Rádio a Voz da Planície

No âmbito das atividades da EAPN Portugal, o Núcleo Distrital de Beja em parceria com o Centro Social Cultural e Recreativo do Bairro da Esperança e os/as estagiários/as de Serviço Social do Instituto Politécnico de Beja dos anos de 2014/15 e 2015/2016 realizaram a compilação de um conjunto de dados sobre o distrito de Beja que denominaram de “Fotografia à la minute do distrito de Beja”.

Perda de população e envelhecimento foram os dois principais problemas detetados na fotografia efetuada, explicou João Martins, do Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti Pobreza.

João Martins deixou algumas sugestões que podem ajudar a solucionar os constrangimentos identificados, entre elas uma estratégia de políticas públicas que inverta a questão da perda de população. Acrescentou que as mesmas passam também, por permitir aos jovens da região serem os autores da mudança e cativar a vinda de mais gente jovem para o distrito.

Em funcionamento desde outubro de 2002, o Núcleo Distrital de Beja tem vindo a implementar um conjunto de atividades, que se espera poderem contribuir para informar e capacitar os recursos técnicos e institucionais com intervenção na região.

Projecto de investigação propõe índice municipal para a igualdade de género

Camilo Soldado, in Público on-line

Estudo envolveu cinco autarquias de vários pontos do país e elaborou guiões de boas práticas a adoptar pelos municípios.

Com o objectivo de medir as desigualdades de género no território nacional, um projecto de investigação do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (UC) em que participaram cinco autarquias propõe a criação de um índice municipal que classifique o trabalho dos municípios nesta área.

A coordenadora do projecto Local Gender Equality, Virgínia Ferreira, conta ao PÚBLICO que a criação deste mecanismo parte da necessidade de estabelecer linhas de intervenção. “Sem uma métrica, sem a possibilidade de medir como é que essa realidade se vai alterando de ano para ano, é difícil estabelecer objectivos”, justifica a investigadora.

Considerando que este “fenómeno muito complexo” não se pode “traduzir exclusivamente por um indicador”, Virgínia Ferreira explica que esta espécie de ranking contemplaria 20 indicadores de três tipos: os estruturais (que remetem para a existência ou não de instrumentos como os planos para a igualdade de género), os de resultados (se as políticas em vigor têm impacto) e os de processo (que têm em conta a existência ou não de serviços a nível local, como por exemplo os de apoio a vítimas de violência doméstica).

“Este índice poderia permitir que a câmara avaliasse ano a ano o seu desempenho e ter uma noção de melhores práticas a seguir por comparação com outros concelhos”, sublinha a também docente da Faculdade de Economia da UC.

Esta proposta é um dos resultados do projecto de investigação financiado pelo Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu através da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e que foi desenvolvido ao longo de 15 meses com vários parceiros. No processo, cujo objectivo era produzir instrumentos para que as autarquias promovam a igualdade de género, estiveram envolvidas as câmaras de Lagoa, Ferreira do Alentejo, Pombal, Mangualde e Póvoa de Lanhoso, bem como o Centro de Estudos e Formação Autárquica (CEFA) e uma consultora.

Sobre a monitorização deste índice, a investigadora menciona que esta poderia ser assumida pela CIG. “Aqui não haveria muito que fazer”, explica, afirmando que houve “uma preocupação fundamental de que os indicadores todos estivessem disponíveis em bases estatísticas nacionais comparáveis, acessíveis”, ou seja, os dados estão disponíveis, basta juntá-los e fazer um trabalho de ponderação.

A coordenadora do projecto refere que os resultados, que incluem também oito guiões que abordam várias áreas de actuação, traduzem o trabalho com os parceiros a nível municipal. Ou seja, estes documentos são fruto de reuniões e troca de ideias com os técnicos e líderes políticos dos municípios. Cada guião oferece “instrumentos de diagnóstico e sugestões de solução dos problemas sectorialmente” e é dirigido a “problemas de gestão que, necessariamente, qualquer tipo de câmara municipal tem”. Os documentos abordam oito temáticas tão distintas como mobilidade e transportes, violência no trabalho ou cultura, desporto, juventude e lazer.

Cada guião está dividido em quatro partes. Começam por enquadrar a importância da igualdade de género em determinada área, seguem-se os princípios e metodologias que devem ser observados, depois instrumentos práticos como questionários ou checklists e, por fim, os exemplos de boas práticas, tanto a nível nacional como internacional.

Foi também elaborado um livro branco que aborda “questões mais transversais” e visa oferecer “orientações de como os bons princípios podem ser postos em prática”. Os problemas abordados neste manual passam por questões como a da linguagem utilizada ao nível interno e da comunicação externa (utilização do masculino como representante dos géneros) ou pela elaboração de orçamentos sensíveis a género. “Por exemplo, em relação ao desporto, pode haver uma maior desagregação das despesas para que haja uma identificação de quem beneficia dessa alocação de recursos. Isto pode traduzir-se em constatar que há uma injustiça na alocação de recursos”, sugere.

Virgínia Ferreira distingue este tipo de documentos dos planos municipais para a igualdade. “A primeira leva de planos municipais para a igualdade no país foi toda virada para a própria estrutura autárquica”, analisa, sendo que apenas “só mais recentemente tem havido apoios para as câmaras fazerem planos municipais virados mais para o exterior”.

O projecto é apresentado nesta segunda-feira num colóquio em Lisboa com a presença do ministro adjunto Eduardo Cabrita, que tutela a secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade.

A prostituição diz muito sobre a sociedade

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

O manifesto das auto-intituladas “Mães de Bragança” fez José Machado Pais mergulhar num estudo que lhe levou uma dúzia de anos a concluir. O enfoque não tem de estar nas “mães” ou nas “putas”, pode estar nos maridos-clientes, prisioneiros na relação de submissão a que sujeitam as suas mulheres.

Lembra-se do movimento das “Mães de Bragança”? Absolviam os maridos. Perdoavam-lhes os desvarios, porque eles, “coitados”, eram “amarrados” pelas “sedutoras”, “macumbeiras”, “pecadoras” vindas de além-mar. As “brasileiras” valiam-se de “falinhas mansas”, “drogas”, “feitiços”, “rezas”, “mezinhas”, “bruxarias”, “pétalas de rosa”, “raízes de amor-perfeito” para os deixar “de cabeça perdida”.

Muito se escreveu sobre o assunto nos jornais e na Net. E aí a culpa era quase sempre das mulheres que eles tinham em casa. Era como se elas os empurrassem. “A maior parte das críticas partia das hostes masculinas”, afiança o sociólogo José Machado Pais. “Reivindicavam uma ‘entrega sexual mais activa’ por parte das mulheres, o ‘fim dos tabus sexuais’ e o abandono da ‘moral caduca’.”

Os homens nem precisavam de se redimir. As “danadas”, nota José Machado Pais, eram sempre as mulheres: ou se excediam na sedução e no fervor sexual ou, pelo contrário, ficavam muito aquém do desejado.

Até os homens se viam como vítimas. Eram uns machos. E “como entre os desejos sexuais e a sua satisfação se interpunham as persistentes dores de cabeça das mulheres, coitados, viam-se obrigados a satisfazer os défices sexuais noutro lado”. Estavam “carentes, confusos, necessitados”.
Capa do álbum "Espacial Popular Mix", do Duo Abelhudos

“Estas narrativas, dominantes no universo masculino, surgem em muitos CD de música popular”, explica o investigador. “Na feira de Bragança, mesmo ao lado do mercado, ouvi muitas dessas músicas, alusivas a carências sexuais. Por exemplo: ‘Ó Maria dá-me o bife/ Dá-me o bifinho agora/ Se me não deres o bife/ Maria vou jantar fora’.”

José Machado Pais chamou-lhe Enredos sexuais, tradição e mudança: as mães, os zecas e as sedutoras de além-mar. Não é um livro sobre trabalho sexual, imigração clandestina ou tráfico de pessoas, este que acaba de ser editado pela Imprensa de Ciências Sociais. É “um debate sobre os valores e as representações sociais que encapotam a sexualidade”. É que “a prostituição diz muito sobre a sociedade”.

O movimento “Mães de Bragança” começou quando duas mulheres descobriram que os maridos “padeciam de semelhante maleita”: chegavam a casa tarde, com desculpas duvidosas e restos de perfume. “A solidariedade feminina permitiu um trabalho de espionagem em rede”, diz o sociólogo José Machado Pais
Sexualidade reprimida

Em Outubro de 2003, quando Bragança fez capa da revista Time, o investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa sentiu uma “enorme tentação” de viajar até lá. Os amigos avisaram-no: “Não te metas nesses terrenos”; “arriscas-te a ser perseguido por mães, maridos, proprietários de casas de alterne, putas, polícias, bispos e até pela tua mulher.” Nada o impediu de fazer várias viagens de 400 quilómetros para, ao longo de 12 anos, observar, conversar com trabalhadoras do sexo, clientes, mulheres de clientes, donos de bares de alterne e de cafés, barbeiros, cabeleireiras, agentes imobiliários, e vasculhar arquivos de jornais. Queria “desvendar os mecanismos sociais de produção de estereótipos associados quer às trabalhadoras do sexo (tratadas por putas, brasileiras ou macumbeiras), quer às mães (apelidadas de beatas ou papa-hóstias)”.

Havia muita sexualidade reprimida por esse país fora. Não convém esquecer que, “entre 1926 e 1974, Portugal viveu numa ditadura conservadora que impunha uma forte moral de contenção sobre a sexualidade”. As mentalidades iam-se abrindo à força do desenvolvimento — indissociável da emigração e da adesão à União Europeia — e Bragança era um exemplo disso mesmo. Em 30 anos, o número de habitantes dedicados ao sector primário passara de 70% para 10%. A área urbana triplicara. O sector do comércio e serviços expandira-se. Na cidade reproduziam-se bares de alterne e cafés “de subir”, isto é, com quartos no piso superior que podiam ser arrendados à hora.
Em Outubro de 2003, Bragança fez capa da revista “Time”

Desde o desembarque das caravelas no Brasil, as brasileiras povoam as fantasias dos portugueses. Primeiro, eram as índias sedutoras. Depois, também as mulatas. Esse imaginário persiste “como uma herança colonial”. E, com o movimento das “Mães de Bragança”, ganhou força o estereótipo da brasileira como mulher acessível, disponível, erótica e sensual

Não era só o aumento do poder de compra. “A euforia masculina em torno dos bares de alterne foi também nutrida por uma espécie de mobilização sexual não de todo alheia à crescente influência dos media”, escreve José Machado Pais. O cinema e a televisão “concorriam com os sermões da paróquia no que às moralidades quotidianas dizia respeito”. Perante o afrouxar da ordem moralista ou repressiva, muitos homens deixavam-se levar pelos impulsos sexuais. Iam às casas de alterne para “beber um copo”, “lavar a vista”, “desenferrujar os zecas”.

O movimento “Mães de Bragança” começou quando duas mulheres descobriram que os maridos “padeciam de semelhante maleita”: chegavam a casa tarde, com desculpas duvidosas e restos de perfume. “A solidariedade feminina permitiu um trabalho de espionagem em rede.” Revoltadas, redigiram um manifesto e entregaram-no ao presidente da câmara, ao governador civil, ao comandante da polícia. Com isso, despertaram a atenção de meios de comunicação social dentro e fora do país. Bragança entrou na rota do turismo sexual. “Curiosos vindos de Espanha, mas também de outros países europeus, passaram a frequentar a pequena cidade e a desfrutar dos prazeres do alterne”, recorda o investigador. Apesar da fama, “nada se passava de diferente de outras regiões do país”.
As “meninas” do Brasil

Haveria 80 a 100 trabalhadoras do sexo, a maior parte oriundas do Brasil. Os clientes e os empresários da noite, mas também os comerciantes e os taxistas que com elas ganhavam dinheiro, chamavam-lhes “meninas”. As mulheres dos clientes, auto-intitulando-se “mães”, chamavam-lhes “putas”. Recatadas, fieis, trabalhadoras, sentiam-se “ultrajadas no seu estatuto de mães”, “desvalorizadas, traídas, trocadas”. Tinham medo de “perder os maridos, a estabilidade económica, a reputação”. E queriam recuperar o seu “estatuto fragilizado” e intimidar as trabalhadoras do sexo, expulsá-las.

As “Mães de Bragança”, na opinião de José Machado Pais, constituíram um movimento social. Havia nelas uma revolta que era um “reflexo de uma conquista de liberdade”, ainda que uma “liberdade não liberta das pendências do passado, como as idas à bruxa para quebrarem o feitiço do chá”.

“O meu marido estava cheio de porcarias dentro dele”, afiançou uma delas a José Machado Pais. “Pretos e brasileiros em bruxarias são terríveis”, disse-lhe ainda. “Elas também usam um chá de amarração.” Como livrou o marido disso tudo?, perguntou ele. “Através da oração”, respondeu ela.

Nada está como antes da capa da Time que indiciava a tomada de Bragança por trabalhadoras do sexo. Com o alarido que se seguiu ao manifesto, o despontar da crise económica, a intensificação das rusgas feitas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, muitas trabalhadoras do sexo instalaram-se do outro lado da fronteira

Quando um homem casado vai ao bar de alterne é sinal de quebra de estabilidade conjugal, diz o investigador. “Ou a crise desemboca em divórcio ou se busca o restabelecimento da ordem danificada.” Em vez de se revoltarem contra os maridos, de reconhecerem as suas escolhas, as mulheres acusam as trabalhadoras do sexo, dizem que elas lhos roubarem através de meios ilícitos. “A desculpabilização dos homens alimenta a esperança de se salvar o casamento.”

Desde o desembarque das caravelas no Brasil, as brasileiras povoam as fantasias dos portugueses. Primeiro, eram as índias sedutoras. Depois, também as mulatas. Esse imaginário persiste “como uma herança colonial”. E, com o movimento das “Mães de Bragança”, ganhou força o estereótipo da brasileira como mulher acessível, disponível, erótica e sensual. “Elas passaram a constituir uma figura dramática compósita, fonte de desejo e de maldição, de prazer e de dor”, menciona o investigador. Do outro lado do Atlântico também existem estereótipos sobre os portugueses. Os brasileiros vêem os portugueses como ingénuos, “burros”, avaros, exploradores, donos de incontornáveis apetites sexuais, a quem as mulheres poderiam dar a volta.
Cristo imóvel na cruz

Para muitos homens, em Trás-os-Montes, “‘ir às putas’ é um sinal de virilidade, uma marca de masculinidade”. Alguns até parecem ignorar que as trabalhadoras do sexo vendem ilusões, “fingem excitação para excitar os clientes”, despachar o serviço mais depressa, ganhar mais dinheiro.

No entender do investigador, “a sexualidade da mulher representada como ‘um Cristo imóvel na cruz’ revela muito mais do que uma rotina sexual. Representa, sobretudo, para muitas mulheres, uma rotina de vida, de uma vida sacrificada, que a crucifica nas suas labutas quotidianas”. “A dignidade conferida ao estatuto de esposa e de mãe exige a prática de uma sexualidade dominada”

Pelo que contaram trabalhadoras do sexo ao investigador, alguns não seriam capazes de grande desempenho. Por vezes, os “zecas” enferrujavam mesmo. Elas serviam-se então de todas as suas habilidades e estratégias, incluindo o uso de acessórios, como vibradores. Só que muitos dos que gostavam de ter novas experiências sexuais não aceitavam que as suas mulheres as tivessem.

José Machado pais dá o exemplo de um homem que se queixou que a sua mulher, na cama, parecia “um Cristo imóvel na cruz”. Ele lamentava-se, desse modo, “do carácter rotineiro e roteirizado da sexualidade, isto é, de um script sexual de natureza cultural, o sexo à ‘missionário’ ou à ‘papai-mamãe’”. Ora, quando os homens recorriam à prostituição era também porque se sentiam prisioneiros de si próprios na relação de submissão a que sujeitavam as suas mulheres, analisa.

No entender do investigador, “a sexualidade da mulher representada como ‘um Cristo imóvel na cruz’ revela muito mais do que uma rotina sexual. Representa, sobretudo, para muitas mulheres, uma rotina de vida, de uma vida sacrificada, que a crucifica nas suas labutas quotidianas”. “A dignidade conferida ao estatuto de esposa e de mãe exige a prática de uma sexualidade dominada”, nota. “Às mulheres exige-se abnegação, sacrifício, esquecimento de si mesmas.” Sobrecarregadas com tarefas, são “acusadas de histerismos, maus humores, feitios ruins”. “Alguns casais pouco mais partilham do que as rabugices, o rolo de papel higiénico e o leito conjugal.”

Nada está como antes da capa da Time que indiciava a tomada de Bragança por trabalhadoras do sexo. Com o alarido que se seguiu ao manifesto, o despontar da crise económica, a intensificação das rusgas feitas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, muitas trabalhadoras do sexo instalaram-se do outro lado da fronteira. Quando deixaram de valer “as malbaratadas justificações das voltinhas a Espanha para atestar o depósito de gasolina, algumas meninas montaram apartamentos em Bragança e redondezas”. Queixam-se de quebra de clientela.

Não será só falta de dinheiro. Algumas mulheres “começaram a deixar esturricar a comida, a tolerar os buracos nas meias dos maridos, a desleixar-se nas tarefas domésticas”, garante o sociólogo. Arranjaram tempo para frequentar salões de beleza, cuidar mais da sua imagem. E “a estabilidade matrimonial começou a ceder à influência de novas correntes socioculturais, propensas à valorização dos enlaces efectivos eróticos e não apenas à dos vínculos patrimoniais”.

Crianças presas em espaços fechados não aprendem nem crescem

in o Observador

Quanto mais protegemos as crianças mais as aprisionamos. De tal maneira que muitas acabam por passar menos tempo ao ar livre do que os detidos em estabelecimentos prisionais. A mudança é urgente.

E se lhe dissessem que 70% das crianças portuguesas passam menos tempo ao ar livre por dia do que os 60 minutos recomendados para os detidos em prisões? Provavelmente não acreditaria, mas é verdade. A conclusão é de um estudo levado a cabo pela marca Skip no nosso país e vem reforçar as convicções de vários especialistas, segundo os quais é necessário fazer algo para mudar a situação com urgência. Preocupada com o desenvolvimento infantil a marca publicou nas últimas semanas um vídeo online que alerta justamente para esta questão.

Uma das vozes que mais se tem feito ouvir nesta matéria é a de Carlos Neto, professor catedrático e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Nas suas palavras, esta tendência de manter as crianças em espaços fechados “retira-lhes a possibilidade de poderem viver uma infância feliz, por não experienciarem situações corporais que são próprias da idade e fundamentais na formação da sua personalidade e identidade”.

O Professor revela que “são crianças muito protegidas e aprisionadas corporalmente quanto a possibilidades de confronto com o espaço físico exterior”, lembrando ainda que esta não é uma situação exclusiva de Portugal: “Verifica-se de forma generalizada por todo o mundo e tem vindo a assumir dimensões muito preocupantes na perspetiva dos direitos e da saúde das crianças.”
Pandemia do controlo

Mas como é que se chegou a este ponto? Carlos Neto não hesita em apontar o dedo àquilo que designa por “pandemia do controlo adulto das experiências de movimento na infância” ou “terrorismo do não”. As consequências são as que se adivinham e o professor, a trabalhar com crianças há mais de quatro décadas, enumera-as: “Promove uma pobreza de cultura motora, criando condições para que se instale uma iliteracia física, prejudicial ao desenvolvimento de estilos de vida saudável nestas idades e ao longo da vida.”
Alterações nos últimos 20 anos em todo o mundo

– As crianças perderam 8 horas de brincadeira por semana.

– 30 mil escolas acabaram com o recreio.

– Menos 50% do tempo é passado na rua.

– As atividades desportivas e artísticas organizadas aumentaram até 180 minutos.

Embora admita a importância do estabelecimento de regras na educação dos mais novos, realça que “os pais atuais têm uma preocupação excessiva, e por vezes obsessiva, em não permitir que os filhos corram riscos em situações de movimento ou de atividade física”. O problema é que, ao impedirem o confronto com o risco físico, estão a “contribuir para um aumento do sedentarismo e analfabetismo motor na infância”. Sublinha ainda que “aprender a mover o corpo em liberdade e sem constrangimentos é uma necessidade crucial para o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social da criança”.
Desaparecimento da rua

Questionado sobre o contexto que levou pais e educadores a aprisionarem as suas próprias crianças, o professor elenca diversos motivos. Entre eles, o “desaparecimento da rua enquanto local de jogo”, muito por via da crescente urbanização das cidades, aumento do tráfego automóvel e ausência de políticas públicas dirigidas ao bem-estar na infância. Ao mesmo tempo, assiste-se ao “excessivo alarmismo dos órgãos de comunicação social sobre os perigos a que as crianças estão sujeitas”, levando à redução da permissão dada pelos pais para que se desloquem sozinhas.

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O que os pais não sabem – ou facilmente esquecem – é que esta via da proteção excessiva está longe de ser benéfica para os filhos: “Brincar é ganhar confiança em si próprio e é também o melhor caminho para evitar o acidente, ou seja, quanto mais risco mais segurança.”

Ainda assim, o fundador e antigo presidente da Sociedade Internacional para Estudos da Criança não tem dúvidas em afirmar que “hoje temos melhores pais, melhores famílias, melhores crianças e melhor sociedade do que há anos atrás. O que está em causa é o aparecimento de novos problemas associados à educação das crianças do nosso tempo que podem estar a colocar em perigo a sua identidade, autonomia e necessidades básicas de desenvolvimento biológico e cultural”, alerta.
Mudanças precisam-se

Para inverter a situação são necessárias mudanças urgentes. Entre elas, Carlos Neto destaca “mais políticas públicas dirigidas à infância” e também “mais coragem política” na adoção de modelos que permitam conciliar melhor o trabalho dos pais com a escola e a família.

Na sua perspetiva, “a angústia da gestão do tempo dos filhos instalou-se na vida quotidiana dos pais, tornando-se um dos fenómenos mais intrigantes do nosso século”. Como resultado, os mais novos estão a ser vítimas daquilo que designa como um “inconsistente modelo de organização da vida social”. Pais cansados e em stress por excesso de horas de trabalho, por um lado, e crianças com agendas excessivas de tempo escolar e extraescolar, por outro, não permitem pensar na existência de tempo disponível para uma relação equilibrada e saudável do tempo para brincar entre pais e filhos”, afirma. E acrescenta mesmo que “de forma paradoxal, no nosso tempo passeiam-se mais os cães do que as crianças”.

Defende que “as cidades devem ser amigas das crianças e desenvolver projetos adequados às suas necessidades de desenvolvimento”. Para tal, considera que é necessária uma “nova cultura governamental das cidades e do seu planeamento”, contribuindo para a qualidade de vida das populações. Algo que já está “em grande desenvolvimento em muitas cidades do mundo”, nomeadamente nos países escandinavos, sublinha.
5 motivos para brincar mais e melhor

Algumas razões por que brincar é importante desde os primeiros tempos de vida, segundo Carlos Neto:

– Os jogos e brincadeiras mais comuns na infância contribuem para a aquisição de conceitos de respeito mútuo, fair-play, cidadania e cooperação;

– Brincar é estimular o sentido de humor e a positividade do cérebro e do pensamento;

– A brincar desenvolve-se a capacidade de resolver problemas e a lidar com o incerto;

– Através do jogo e da brincadeira partilha-se o sentido da vida e promove-se a empatia com os outros;

– Crianças que brincam mais são mais ativas, felizes e empreendedoras.
Mais presos, menos atentos

Comparar o tempo de recreio dos detidos em estabelecimentos prisionais com o tempo de recreio escolar é, para Carlos Neto, uma “forma inteligente de demonstrar o que está a acontecer na infância atual”. Apoiado em diversos estudos sobre o assunto, lembra que está demonstrado que “crianças ativas no recreio são aquelas que aprendem melhor dentro da sala de aula”, revelando mais capacidade de atenção e concentração. Por esse motivo, entende que “necessitamos de valorizar o tempo de intervalo escolar no projeto educativo das escolas públicas e privadas” e os “recreios devem ser estruturados de forma a ser aliciantes para as crianças”.

Lamenta que o tempo de recreio escolar seja uma espécie de “terra de ninguém”, acabando por ser “pouco valorizado pelos adultos”. “É caso para dizer que as crianças aprendem muito no recreio e deveriam brincar mais dentro da sala de aula”, sintetiza, explicando que “cerca de 90% dos reclusos presos por homicídio foram privados de brincadeira na sua infância”.