2.4.20

Metro do Porto reforça segurança para prevenir falta de civismo

in JN

A Metro do Porto revelou, esta quinta-feira, estar "particularmente atenta a eventuais fenómenos de incivilidade", determinando um "reforço de fiscalização e segurança", após receber "algumas queixas" de utentes, quando se verifica a redução de utilizadores devido à Covid-19.

"Mais ainda do que em circunstâncias normais, a Metro do Porto está particularmente atenta a eventuais fenómenos de incivilidade na sua rede, tendo determinado o reforço das equipas de fiscalização e de segurança", disse fonte oficial da empresa, numa resposta escrita enviada à Lusa a propósito de algumas denúncias sobre sentimentos de insegurança face ao uso do metro para realização de atividades alegadamente ilícitas, como o eventual tráfico de droga.

A empresa recusa falar em atividades marginais, referindo apenas ter recebido "algumas queixas" e "relatos" de "alguma incivilidade" na rede, num contexto em que verifica "uma quebra de cerca de 90% na procura", explicou à Lusa fonte oficial.

"Atendendo à quebra na procura dos transportes públicos que decorrem da situação de pandemia, e da consequente vigência do Estado de Emergência, verifica-se também uma diminuição nos níveis de utilização e ocupação do Metro do Porto", refere a Metro do Porto na resposta escrita.

Sem especificar números, fonte da empresa esclarece que, tendo em conta a redução de passageiros, o rácio de seguranças por cliente é, atualmente, mais elevado do que era antes da pandemia causada pelo novo coronavírus.

A Metro do Porto apelou na quarta-feira ao carregamento da assinatura mensal de abril dos clientes para ajudar a manter o serviço "operacional", apesar de os validadores da rede estarem desligados devido à Covid-19.

Numa nota informativa que tem sido divulgada aos utentes que questionam como proceder devido à suspensão das validações, a empresa pede responsabilidade: "Ajude-nos a manter o Metro operacional e a corresponder ao trabalho de quem, todos os dias, o põe a funcionar para si", refere-se na comunicação.


"Sabemos que podemos contar com a sua responsabilidade, com a sua atitude cívica e com o seu apoio. Temos que manter as distâncias, mas estamos juntos na mobilidade diária de todos os que precisam de continuar a deslocar-se. Carregue a sua assinatura mensal na rede multibanco ou na Loja Andante de Campanhã", acrescenta a empresa.

A empresa destaca que "a validação dos títulos de assinatura mensal continua a não ser possível nem obrigatória", mas "o metro permanece aberto e em funcionamento".

Isto, "todos os dias, 19 horas por dia, em todas as suas seis linhas e nos sete municípios em que opera".

"Com mais de três centenas de pessoas no terreno, a conduzir o Metro, a cuidar da manutenção, da limpeza, da desinfeção e da segurança", acrescenta.

O Metro do Porto começou a 23 de março a circular com veículos duplos em todas as linhas entre as 06:00 e as 20:00, reduzindo a frequência de passagem nas estações devido à pandemia de covid-19.

As frequências passaram a ser de "30 minutos em todas as linhas, exceto na Linha Amarela (D)", que tem uma frequência de "cerca de 15 minutos".

Na semana de 16 de março, altura em que o Governo decretou o encerramento das escolas, a empresa registou uma quebra de 80% na procura do transporte, passando de uma média de 270 mil clientes diários em janeiro e fevereiro para pouco mais de 50 mil.

Os validadores da empresa foram, entretanto, desligados a 18 de março.

No último dia em que os validadores estiveram ligados, a empresa registou "pouco mais de 50 mil" clientes.

Portugal, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 2 de março, encontra-se em estado de emergência desde as 00:00 de 19 de março, tendo a Assembleia da República aprovado hoje o seu prolongamento até ao final do dia 17 de abril.

Crianças e jovens vítimas de maus tratos enviadas de regresso a casa e sem visitas de rotina dos técnicos

Rita Penela, in O Observador

Visitas dos técnicos das CPCJ estão a ser substituídos por chamadas ou videochamadas e há instituições a devolver as crianças e jovens às famílias às quais foram retirados por ordem da Justiça.

O acompanhamento de crianças e jovens em risco feito através das visitas de rotina dos técnicos das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) cingem-se, neste momento, ao “estritamente necessário e urgente”. Os profissionais encontram-se em regime de teletrabalho, mas a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, respondeu por escrito ao Público que a proteção das crianças e jovens continua garantida.

“Os técnicos das CPCJ, sempre que possível, encontram-se em regime de teletrabalho, tal como o resto da sociedade, continuando a garantir a presença rotativa e assegurando em pleno as suas funções de proteção dos direitos das crianças e dos jovens”, afirmou Rosário Farmhouse.

Também os processos que dizem respeito a crianças que estão na alçada dos tribunais de família estão sujeitas ao mesmo tipo de restrições. Segundo o Conselho Superior de Magistratura são assegurados, pelas Equipas Multidisciplinares de Assessoria aos Tribunais, os “atos presenciais estritamente essenciais para salvaguardar a proteção das crianças e jovens”. Há “especial atenção às situações urgentes que careçam de intervenção imediata”, mas os restantes processos são acompanhados através de “telefone ou videochamada”, por exemplo.

As dificuldades na sinalização de novos casos são várias e os contactos através dos contactos à distância são um deles. Há responsáveis de instituições a reconhecer as limitações neste tipo de contacto que, “em bom rigor” não conferem às crianças o mesmo tipo de proteção. O facto de as aulas (os professores são muitas vezes os primeiros agentes a sinalizar qualquer tipo de alteração no comportamento das crianças e jovens que indiciem negligência parental) estarem a ser lecionadas à distância é também outro dos impedimentos para novas sinalizações de crianças e jovens em risco.

Covid-19: como ser solidário em tempos de pandemia
À Rádio Observador, Fernanda Salvaterra do Instituto de Apoio à Criança recorda que a linha de apoio à criança (SOS Criança) “está a funcionar em pleno”, através do número 116111, e que “sempre que há um alerta” as instituições são ativadas.

Salesianos de Mirandela devolvem 40 crianças às famílias a quem tinham sido retirados
As CPCJ receberam a informação na terceira semana de março, ainda que o documento dos Salesianos de Mirandela tenha sido assinado a 13 de março, mesmo antes de Marcelo Rebelo de Sousa decretar o estado de emergência para o país. as crianças foram devolvidas às famílias a que a Justiça tinha decidido retirar, avança o Correio da Manhã.

A instituição justifica a decisão de enviar para casa as cerca de 40 crianças como “medida preventiva” devido à pandemia e acrescenta que deu “formação às famílias” através do telefone tendo também entregue um panfleto sobre as medidas a adotar na fase de isolamento social, com especial enfoque nos cuidados de higiene que devem ser tomados pelas famílias das crianças.

O Observador tentou contactar os Salesianos de Mirandela, mas até ao momento não teve sucesso.

Relativamente à devolução de crianças às famílias, Fernanda Salvaterra frisa que devia ter sido encontrada “outra solução”. “Se essas instituições não conseguem dar apoio às crianças temos que pensar nas várias formas, o essencial é que as crianças têm que ficar protegidas”, afirmou notando que as crianças só são retiradas às famílias “em situações de perigo”.

“Quando a criança é retirada é uma situação de perigo, é grave. Se é retirada é porque não tem condições para viver na família. Teriam que ser encontradas outras soluções”, afirmou Fernanda Salvaterra.



"Ninguém fica para trás". Campanha em Lisboa quer ajudar os mais afetados pela pandemia

Paula Freitas Ferreira com Lusa, DN

Há cartazes pela cidade. Dizem: "Saúde para toda a gente", "Casas para toda a gente", "Gratuidade dos serviços essenciais", "Rendimento social de quarentena" e "Indulto de presos por crimes menores".

A campanha "Ninguém fica para trás" nasceu em Lisboa e pretende criar "uma vaga de fundo" que apoie os mais prejudicados pelas consequências socioeconómicas da pandemia da covid-19, em áreas fundamentais como a habitação e o emprego.

"O objetivo é mesmo não deixar ninguém para trás e, por isso, elegemos algumas áreas prioritárias, nas quais é necessário o apoio: saúde, habitação, gratuitidade de alguns serviços, emprego e o indulto para crimes menores", explicou Antonio Gori, um dos criadores do movimento, à agência Lusa. Gori é italiano, nascido perto de Florença e vive em Portugal há vários anos.

A campanha nasceu nos bairros lisboetas de Arroios, Areeiro e São Vicente, e junta cerca de 60 pessoas, a maioria das quais trabalhadores precários de call centers e das áreas do turismo e da cultura.

"Poucos dias antes da declaração do estado de emergência, percebemos que tudo isto iria afetar muita gente e, por isso, decidimos avançar com estas demandas, primeiro nas redes sociais e agora também com cartazes que colocámos na rua, quando interrompemos a nossa quarentena para ir ao supermercado ou ajudar alguém do bairro", explicou Antonio Gori.

Os cartazes que espalharam defendem algumas medidas assentes em seis áreas: "Saúde para toda a gente", "Casas para toda a gente", "Gratuidade dos serviços essenciais", "Rendimento social de quarentena", "Manutenção dos postos de trabalho" e "Indulto de presos por crimes menores e dignidade para todos".

Nas redes sociais Facebook, Twitter e Instagram, a campanha, que junta também várias associações culturais, está, segundo Antonio Gori, "a ter muito sucesso".

"Temos recebido muitas mensagens de apoio e de pessoas a perguntar como podem ajudar", contou o italiano, que vive em Portugal há vários anos, garantindo que o objetivo "é criar uma vaga de fundo para levar a mensagem a quem tem o poder de decidir".

Grupo começou por ajudar os sem abrigo
"Sabemos que as consequências socioeconómicas desta pandemia vão durar muito tempo, por isso, é preciso criar uma solidariedade global para os que mais precisam", explicou, admitindo que a "campanha pode juntar muitas pessoas na rua, quando isso for possível".

Durante alguns dias, os criadores da campanha prestaram ajuda aos sem-abrigo dos bairros onde vivem confecionando e distribuindo comida e, segundo Antonio Gori, só pararam com essa atividade quando perceberam que o "Estado e o exército estavam a dar-lhes o apoio necessário".

Atualmente, explicou, ainda existem "brigadas de solidariedade para apoiar os mais idosos".


Antonio Gori, que trabalha como freelancer na área da edição de livros, acredita que, no que diz respeito à pandemia da covid-19 Portugal tomou medidas "mais cedo do que a Itália", onde já morreram mais de 12.400 pessoas.

"Creio que isto não teria acontecido com esta dimensão se os nossos países não tivessem desinvestido no serviço nacional de saúde", afirmou o italiano.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou perto de 866 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 43 mil.

Dos casos de infeção, pelo menos 172.500 são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.


Em Portugal, segundo o balanço feito esat quarta-feira pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 187 mortes, mais 27 do que na véspera (+16,9%), e 8.251 casos de infeções confirmadas, o que representa um aumento de 808 em relação a terça-feira (+10,9%).

Proximidade em tempo de isolamento

Emanuel Câmara, Jornal da Madeira

Por muito que nos esforcemos e que mantenhamos a calma e a serenidade, essenciais em cenários como aquele a que atualmente assistimos, os tempos que se vivem são difíceis e exigem do nosso psicológico grande capacidade de resistência.

Por estes dias, para salvaguardar a nossa vida e a nossa saúde, ou não fossem eles os bens mais preciosos, vemo-nos privados de gestos banais e de tal forma entranhados no nosso quotidiano que à maioria de nós, há seis meses atrás, não nos passava pela cabeça que tal reviravolta pudesse suceder.

Em menos de nada, por imperiosa necessidade, vemo-nos mergulhados no silêncio e no isolamento, cenário paradoxal num concelho como o Porto Moniz onde, nos últimos anos, de forma dedicada, tem sido levado a cabo um trabalho sério, expresso num leque de atividades promotoras do envelhecimento ativo e cujos frutos já eram bem visíveis.

A população idosa do concelho do Porto Moniz estava fora de casa e convivia mais do que nunca, mas porque a sua saúde está em primeiro lugar nem hesitamos quando chegou a hora de aconselharmos os nossos séniores a se manterem em casa, e diga-se que a maioria tem cumprido tal pedido de forma exemplar.

Estamos desejosos por voltarmos a ver os nossos idosos nas ruas do nosso concelho e de sorriso no rosto. Estamos desejosos por voltarmos a abraçá-los e a recebermos as suas constantes manifestações de reconhecimento e agradecimento pelo trabalho que fazemos, tão simplesmente, por sabermos ser esse o nosso dever.

As novas tecnologias, que nos últimos anos nos separaram uns dos outros, invertem agora a sua função e são o meio privilegiado para mantermos contacto, embora sem a proximidade física.

Por incrível que pareça, sinto que o isolamento nos deixou, em alguns aspetos, muito mais próximos. Paramos para dar valor às coisas pequenas e para percebermos que nada é um dado adquirido. Fomos obrigados a parar e isso mostra-nos que a correria da vida, muitas vezes, nos impede de termos tempo para o que realmente importa.

As crianças e os jovens estão em casa, longe do tão saudável ambiente escolar, é certo, mas próximos dos seus pais, alguns mais próximos do que alguma vez estiveram.

Os nossos idosos estão em casa, mas continuamos em contacto com eles, sentem-nos presentes porque sabem que estamos e estaremos lá para o que precisarem. Nem poderia ser de outra maneira.

As ruas estão vazias, mas sabemos que há muitos que continuam a trabalhar para que nada falte a todos e quem sabe não seja este o tempo certo para que nos saia mais vezes da boca, de forma sincera e abnegada, um “Obrigado” dirigido a todos os profissionais de saúde, aos bombeiros, às forças de segurança, aos que viabilizam o funcionamento de farmácias e estabelecimentos de venda de bens alimentares, aos funcionários municipais que continuam a garantir os serviços básicos e que nos permitem que continuemos a ter conforto nas nossas casas.

Não nos esqueçamos, contudo, que a melhor forma de agradecermos a quem continua a trabalhar por e para nós é mostrarmos respeito pelo seu trabalho, e isso, nesta altura, apenas se manifesta de uma forma: ficando em casa.

As ruas estão vazias, mas é importante que continuemos de coração cheio, aguardando os dias em que tudo voltará ao normal, sabendo-se de antemão que muita coisa deixará de ser da mesma forma que era antes de nos vermos mergulhados nesta realidade avassaladora que nos desafia a todos, sem exceção.

Desemprego na Eurozona recua a 7,3% em fevereiro... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/04/01/desemprego-na-eurozona-recua-a-73-em-fevereiro.htm?cmpid=copiaecola

in UOLBrasil

Bruxelas, 1 Abr 2020 (AFP) - O índice de desemprego na Eurozona registrou um leve recuo em fevereiro a 7,3% (12 milhões de pessoas), o menor nível desde março de 2008, antes da adoção de medidas de confinamento para combater o novo coronavírus, anunciou a agência Eurostat.

A Holanda registrou o menor nível dos 19 países da Eurozona, a 2,9%, um décimo a menos que em janeiro, seguida pela Alemanha, a maior economia da Europa, que estável em 3,2%. O desemprego na Eurozona não para de cair desde setembro de 2016, quando voltou a ficar abaixo da barreira simbólica de 10%. De abril a junho de 2013 atingiu o recorde de 12,1%, em plena crise da dívida. O risco de recessão provocada pelo... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/04/01/desemprego-na-eurozona-recua-a-73-em-fevereiro.htm?cmpid=copiaecola

Associação avense dispobiliza equipamentos para combater a pandemia

in Santo Tirso TV

A Associação Portuguesa de Busca e Salvamento cedeu material e recursos próprios para ajudar os profissionais que lutam diariamente contra a Covid-19.

Como forma de dar resposta à pandemia da Covid-19, a Associação Portuguesa de Busca e Salvamento, sediada em Vila das Aves, está a colaborar com diversas bolsas de voluntariado, nomeadamente o Exército Português e a Proteção Civil.

Até ao momento, a associação disponilibizou:

- Dezoito camas ao Exército Português para montagem de um Hospital de Campanha;
- Dois geradores e respetivos sistemas de iluminação;
- Um sistema de ar condicionado para climatização,
- Um monitor de avaliação de sinais vitais para monitorização de doentes críticos com Covid-19;
- Dois operacionais de socorro que, visto serem profissionais de saúde, são essenciais no combate à pandemia;
- Um drone de captura de imagem e de transmissão de mensagens para a população.

Para além destes apoios, a Associação de Busca e Salvamento encontra-se em plena articulação com a bolsa de voluntários do serviço municipal de Proteção Civil de Santo Tirso, para auxiliar todos os que necessitarem de cuidados nesta pandemia.

Está ainda a ser finalizada a estrutura para ajuda no transporte e cuidado de animais domésticos pertencentes a doentes infetados no concelho.

Um milhão de euros destinado à inclusão social no concelho

in A Voz de Trás-os-Montes

O programa CLSD-4G de Mogadouro destinado à promoção da inclusão social entrou hoje em funcionamento, por um período de três anos, sendo um projeto promovido pelo município, coordenado pela Misericórdia e dotado de 500 mil euros.

"O Programa CLDS-4G tem por finalidade promover a inclusão social dos cidadãos através de ações, a executar em parceria, que permitam contribuir para o aumento da empregabilidade, para o combate das situações críticas de pobreza, especialmente a infantil, da exclusão social em territórios vulneráveis, envelhecidos ou fortemente atingidos por calamidades"m indicou à Lusa o provedor da Misericórdia de Mogadouro, João Henriques.

Este programa social criou quatro postos de trabalhos, "em altura de crise", destinados a técnicos qualificados.

"Os principais eixos do projeto passam por promover a inclusão social dos cidadãos, aumentar a empregabilidade e qualificação, combater situações críticas de pobreza, particularmente a infantil, da exclusão social e promover a inclusão ativa das pessoas com deficiência e incapacidade", o responsável.

O programa CLDS - 4G de Mogadouro, designado "MoGadouro, Gentes, Gestos e Garra" é financiado pelo Instituto de Segurança Social, que permitirá minimizar a exclusão social por ser um instrumento que visa intervir numa lógica de proximidade.

"Sendo um projeto para, e com, a comunidade, pretende-se potenciar parcerias e promover uma intervenção e ação integradas considerando os objetivos previstos, que abrangem áreas como o envelhecimento, desemprego, capacitação e empreendedorismo", vincou João Henriques.

Os principais eixos do projeto passam por promover a inclusão social dos cidadãos, aumentar a empregabilidade e qualificação, combater situações críticas de pobreza, particularmente a infantil, da exclusão social e promover a inclusão ativa das pessoas com deficiência e incapacidade.

O CLDS - 4G é considerado pelos seus promotores "uma nova geração contratos sociais", com um enfoque alargado aos territórios especialmente afetados pelo desemprego e em os territórios marcados por situações críticas de pobreza, em especial a pobreza infantil.

Os contratos têm vindo a ser implementados "de modo paulatino desde 2007" e durante este período foi possível identificar alguns "constrangimentos" à concretização das ações contempladas em plano de ação e que se prendem, sobretudo, com "a desadequação dos atuais normativos reguladores face à conjuntura socioeconómica contemporânea".

Estes instrumentos de política social, em funcionamento em mais de 60 concelhos, têm sido, por isso, ajustados às concretas necessidades das pessoas e dos territórios, sendo capazes de acompanhar os desafios sociais atuais.

Direitos e saúde de refugiados e migrantes devem ser protegidos em meio à pandemia

in ONU

Diante da crise de COVID-19, todos somos vulneráveis. O vírus mostrou que não discrimina – mas muitos refugiados, deslocados à força, apátridas e migrantes estão em maior risco.

O alerta foi feito em comunicado conjunto publicado na terça-feira (31) por Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Organização Internacional para as Migrações (OIM), Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Muitos vivem em acampamentos superlotados, assentamentos, abrigos improvisados ​​ou centros de acolhimento, onde não têm acesso adequado a serviços de saúde, água potável e saneamento.”

Segundo as organizações, a situação dos refugiados e migrantes mantidos em locais de detenção formais e informais, em condições de isolamento e insalubres, é particularmente preocupante.

“Considerando as consequências letais que um surto de COVID-19 teria, elas precisam ser liberadas sem demora. As crianças migrantes e suas famílias e as pessoas detidas sem uma base legal suficiente devem ser imediatamente libertadas.”

Para as agências da ONU, a doença poderá ser controlada apenas se houver uma abordagem inclusiva que proteja os direitos de cada indivíduo à vida e à saúde.

“Migrantes e refugiados são desproporcionalmente vulneráveis ​​à exclusão, estigma e discriminação, principalmente quando não documentados. Para evitar uma catástrofe, os governos devem fazer todo o possível para proteger os direitos e a saúde de todos.”

A proteção dos direitos e da saúde de todas as pessoas ajudará, de fato, a controlar a propagação do vírus, salientaram.

“É vital que todos, incluindo todos os refugiados e migrantes, tenham acesso igual aos serviços de saúde e sejam efetivamente incluídos nas respostas nacionais à COVID-19, incluindo prevenção, testes e tratamento.”

A inclusão ajudará não apenas a proteger os direitos dos refugiados e migrantes, mas também servirá para proteger a saúde pública e conter a disseminação global da COVID-19, afirmaram as organizações.

“Embora muitas nações protejam e hospedem populações de refugiados e migrantes, elas geralmente não estão preparadas para responder a crises como a de COVID-19.”

“Para garantir que refugiados e migrantes tenham acesso adequado aos serviços nacionais de saúde, os Estados podem precisar de apoio financeiro adicional. É aqui que as instituições financeiras do mundo podem desempenhar um papel de liderança na disponibilização de recursos.”

As organizações lembraram que, enquanto os países fecham suas fronteiras e limitam os movimentos transfronteiriços, existem maneiras de gerenciar tais restrições de uma maneira que respeite os padrões internacionais de direitos humanos e de proteção de refugiados, incluindo o princípio da não devolução, por meio de quarentena e exames de saúde.

“Mais do que nunca, como a COVID-19 representa uma ameaça global à nossa humanidade coletiva, nosso foco principal deve estar na preservação da vida, independentemente do status”, afirmaram.

“Esta crise exige uma abordagem internacional coerente e eficaz que não deixe ninguém para trás. Neste momento crucial, todos nós precisamos nos unir em torno de um objetivo comum, combater esse vírus mortal. Muitos refugiados, deslocados, apátridas e migrantes têm habilidades e recursos que também podem fazer parte da solução.”

“Não podemos permitir que o medo ou a intolerância minem os direitos ou comprometam a eficácia das respostas à pandemia global. Nós estamos todos juntos nisso. Só podemos derrotar esse vírus quando todos e cada um de nós estiver protegido”, concluíram as agências das Nações Unidas.

Em Estado de Emergência bancos públicos de Olhão estão assim

in Algarve Primeiro

Trata-se de uma iniciativa da Junta de Freguesia de Olhão, que apela à população para que respeite as ordens de isolamento social, reduzindo os efeitos da pandemia por Covid.19.

A interdição dos bancos públicos está assinalada em toda a Avenida da República bem no centro da cidade, mas serve para todos os outros bancos, sensibilizando para o cumprimento das normas vigentes da Direção-Geral da Saúde.

Também o Município de Olhão decidiu colocar pelo concelho, lonas com mensagens, alertando para os riscos de não ficar em casa. São várias as mensagens, algumas com recurso às lendas de Olhão e outras mais expressivas.

O Presidente da Câmara Municipal de Olhão, António Miguel Pina, diz que estas medidas são mais um alerta sobre a fase mais crítica da pandemia, e «aí todos nós somos uma fronteira, todos os cuidados são poucos e não vale a pena pedir aquilo que é o trabalho de cada um de nós».

O Autarca adiantou que houve o cuidado de reorganizar os serviços do Município com planos de contingência, garantindo os serviços mínimos, também a abertura de um centro de atendimento à Covid.19, no Centro de Saúde de Olhão, não esquecendo as respostas sociais do concelho. António Miguel Pina assegurou que está a ser criada uma rede de voluntariado para apoiar as IPSS's do concelho.

Enquanto presidente da AMAL, assinalou o apoio dado pelos 16 municípios do Algarve, «que juntaram 1 milhão e 300 mil euros para a compra de 30 ventiladores e material de proteção individual para os profissionais de saúde, e a aprovação de um plano de apoio à população e às empresas».

O edil agradeceu a postura cívica dos algarvios, referindo que «o sucesso para ultrapassarmos esta situação difícil, como povo e como nação, depende do respeito que devemos ter pela nossa fronteira e a do outro».

Sebenta para "alimentar a alma" dos idosos gratuita e online

in RR

"Não podemos preocupar-nos [só] com o estado de saúde, a alimentação, é preciso algo mais e daí surgiu a Sebenta da Quarentena, com 40 ideias para aproveitar o tempo."

A Sebenta da Quarentena, destinada a "alimentar a alma" dos idosos, numa altura em que o isolamento foi potenciado devido à pandemia da Covid-19, junta atividades criadas por 40 autores portugueses, é gratuita e está disponível 'online'.

A ideia partiu da plataforma artística Mistaker Maker, fundada por Lara Seixo Rodrigues, criadora dos workshops de graffiti para idosos Lata 65, que surgiram em 2012 em Lisboa e desde então têm chegado a várias localidades portuguesas do mundo.

"Aquilo que temos conhecimento, de fazer os workshops, é de um isolamento total, um abandono que existe em muitas famílias e com muitos idosos, e de repente vemos isto agravado. Decidimos que tínhamos de fazer qualquer coisa, porque já se estava a aproximar o estado de emergência, e queríamos fazer algo que os acompanhasse", contou Lara Seixo Rodrigues, em declarações à Lusa.

"Num dia estávamos a ter a ideia e no seguinte a convidar os artistas. O repto que lhes lançámos foi de criarem algo capaz de despertar empatia no idoso, que fosse capaz de arrancar um sorriso, de os levantar do sofá, de lhes firmar um pensamento positivo, de lhes alimentar a alma, porque também tem que ver com isto. Não podemos preocupar-nos [só] com o estado de saúde, a alimentação, é preciso algo mais e daí surgiu a Sebenta da Quarentena, com 40 ideias para aproveitar o tempo", disse.

Entre os 40 autores estão ilustradores como Tiago Galo, João Fazenda, Mariana a Miserável, Clara Não e Mariana Rio, e artistas urbanos como Catarina Glam, GonçaloMAR, Pantónio, Samina, Oker e Miguel Januário (±maismenos±), que criaram "um compêndio de ilustrações para pintar (com histórias, mensagens, conversas), charadas, quebra-cabeças, palavras ilustradas e sopas de letras", e "que tenta transmitir sempre, de uma forma muito leve e muito positiva, que é um tempo que pode ser bem passado".

Consciente de que "acima dos 65 anos há muita gente que não tem acesso a novas tecnologias, à Internet", a Mistaker Maker teve a preocupação de arranjar parceiros que conseguissem imprimir a Sebenta da Quarentena, para ser entregue em mãos. "Temos três parceiros - no Porto, em Lisboa e na Covilhã - que já estão a imprimir a Sebenta, que vamos entregar a partir da próxima semana a vários sítios. Estamos a fazer um reconhecimento dos sítios onde podemos ir entregar", referiu Lara Seixo Rodrigues.

Quem quiser ajudar neste projeto, pode entrar em contacto com a Mistaker Maker através do site www.sebentadaquarentena.com, que é também onde a Sebenta da Quarentena está disponível para ser descarregada.

Um Palácio só para eles: bicharada "ocupa" jardim deserto do Porto

Mariana Correia Pinto, in Público on-line

Habituamo-nos a vê-los por ali. Pavões, patos, galinhas e galos, gaivotas e pombas. Os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, são “casa” para muitos deles e a bicharada raramente estranha a presença humana. Por estes dias, no entanto, a “casa” não só é deles como é apenas deles.

Com o encerramento do jardim ao público por causa do surto de coronavírus, ficaram com a exclusividade do espaço e circulam mais livres do que nunca. Se alguém se aproxima, é possível que seja brindado com um passo no mesmo sentido. Talvez em busca do alimento a que alguns os habituaram, apesar de não ser aconselhável fazê-lo.

A Câmara do Porto sublinha que nada mudou: os bichos não eram alimentados antes e não o são agora. Simplesmente porque “sobrevivem pelos próprios meios, encontrando alimento nos recursos naturais”. Noutras cidades, como Madrid, Barcelona ou Roma, há relatos de “assaltos” da bicharada à cidade. No Porto, para já, pavões, patos e galinhas parecem satisfeitos com o espaço: um Palácio só para eles.

​Não há coronavírus que trave a solidariedade. Saiba como pode ajudar

Dina Soares, in RR

Da Rede de Emergência Alimentar a costureiras que fazem máscaras de proteção, passando por voluntários que ensinam os mais novos. Em tempos de pandemia de Covid-19, instituições, empresas e cidadãos não param na ajuda a quem precisa. E todos podemos contribuir, na medida das nossas possibilidades e disponibilidade.

Distrair as crianças enquanto os pais trabalham, fazer máscaras de proteção para as instituições da região, reinventar formas de fazer o auxílio chegar a quem precisa. Em tempos de pandemia, instituições, empresas e cidadãos não param na ajuda a quem precisa.

E que tal começar esta semana? Quinta-feira, 15h30: Inês Mendes Andrade, médica veterinária, vai fazer uma pausa no seu trabalho para ensinar os mais pequenos a viajarem sem saírem da sala de estar. A Inês é uma entre mais de 50 voluntários que desde o início da semana puseram em marcha o programa “Sharing is Caring”, uma iniciativa online da Porto Business School que desafia alunos e ex-alunos, professores e a comunidade em geral a darem um pouco do seu tempo para ajudarem os pais a organizar atividades para os seus filhos nestes tempos de confinamento.

O Miguel tem quatro anos e prefere o cantinho da leitura. “Ele gosta muito de estar a ouvir uma história e de ver todos os outros meninos que estão também em suas casas a ouvir a mesma história”, conta à Renascença o pai, Daniel. Muitas vezes, o Miguel partilha este momento com a irmã do meio, Isabel, que tem seis anos. As atividades estão organizadas por faixas etárias e algumas são adequadas para ambos.


Por que razão os astronautas parecem saltar em câmara lenta?
Já a Adriana, do alto dos seus 11 anos, procura atividades mais complexas. Por exemplo, no campo da Ciência, pode aprender por que razão os astronautas parecem saltar em câmara lenta, como funciona a gravidade ou porque é que ela é diferente na Terra e na Lua.

Também pode criar o seu próprio site, aperfeiçoar o xadrez, ou conhecer melhor o corpo humano. E quando chega a hora de fazer os trabalhos da escola, o site também providencia explicações a quem ficou com dúvidas sobre a matéria.

“Há atividades para todas as idades, entre os quatro e os 15 anos, por isso é fácil encaixá-los”, explica o pai Daniel, que reconhece que, como está a trabalhar em casa, esta ajuda é preciosa.

Por isso mesmo, já se inscreveu como voluntário para poder devolver aos outros pais o que tem recebido deles. “Vou ensinar a fazer um herbário com as folhas das plantas que eles têm em casa ou que possam apanhar em pequenos passeios. Recolher as folhas, secá-las, colá-las e, por fim, aprender a identificá-las.”

O atelier de Daniel começa na próxima semana. Tal como acontece com todos os outros, terá hora marcada, é gratuito, mas requer inscrição no site “Sharing is Caring”. Apesar de ser muito recente, este site já tem 150 pais inscritos e 87 atividades planeadas.

Costureiras unidas na confeção de máscaras
Em tempos de exceção, a vontade de ajudar não tem limites e a imaginação também não. Diana Pires é dona da Ihcare, uma startup de base tecnológica dedicada à investigação, desenvolvimento e comercialização de soluções na área da saúde.

Quando surgiu a pandemia de covid-19, estava a trabalhar com tecidos na área médica. A ideia de fazer máscaras surgiu de forma natural. “Lancei um apelo e apareceram logo 50 pessoas interessadas em fazer máscaras, entre costureiras e pessoas que sabem alguma coisa de costura e têm máquinas em casa.”

Como está sedeada em Penela, perto de Coimbra, Diana conseguiu de imediato o apoio da Câmara local para comprar os tecidos e um mecenas para fornecer o molde da máscara, que depois é seguido pelas costureiras. As primeiras 200 estão feitas e aguardam certificação para seguirem para a esterilização.

Mantém-se o apelo a mais apoios. “Já temos garantido o auxílio da Câmara da Lousã e acredito que vamos ter mais parceiros”, afirma à Renascença Diana Pires, que tem a ambição de chegar às 20 mil máscaras, todas destinadas às instituições sociais e de saúde da sua região.

Banco Alimentar reinventa-se
As iniciativas espontâneas de voluntariado vêm juntar-se às das instituições que, apesar de terem grande experiência no terreno, vivem agora uma situação inédita. É o caso do Banco Alimentar contra a Fome. Vocacionado para a ajuda às instituições que apoiam os mais desfavorecidos, ficaram de repente sem uma grande parte dos seus interlocutores quando as creches, ATL e centros de dias começaram a fechar para evitar a propagação do coronavírus.

Isabel Jonet, presidente da instituição, teve que procurar novas formas de fazer chegar a ajuda a quem precisa, uma espécie de reinvenção da rede.

“Procurámos que as juntas de freguesia assumissem o papel das instituições que tiveram que encerrar e que outras instituições, que se mantêm abertas, passassem a acolher mais pessoas”, explica à Renascença Isabel Jonet.

A Rede de Emergência Alimentar conta já com 487 voluntários, que atuam nas respetivas áreas de residência, para tentarem responder aos mais de dois mil pedidos de ajuda que se vão acumulando.

“A ajuda não pode parar” – garante a presidente do Banco Alimentar – “por isso, mesmo com meios diferentes, já conseguimos responder a 30% dos pedidos, sobretudo em Lisboa, Porto e Setúbal, e vamos responder aos outros.”

As doações, vindas sobretudo da indústria alimentar, mantêm-se. Só que, atualmente, são todas entregues no MARL, o mercado abastecedor de Lisboa, de onde são depois recolhidas.


Câmara de Lisboa cria "exército de voluntários"
O confinamento e o isolamento social provocaram uma grande redução no número de pessoas que habitualmente se dedicam ao voluntariado. Para tentar minorar esse problema, a Câmara Municipal de Lisboa criou uma bolsa de voluntários destinada a dar apoio às juntas de freguesia, serviços sociais do município e outras instituições que estejam impedidas de fazer o seu trabalho por falta de pessoas.

Manuel Grilo, vereador dos Direito Sociais, disse à Renascença que em apenas uma semana, receberam a inscrição de 1.200 voluntários.

“Inicialmente, destinavam-se apenas a auxiliar as juntas de freguesia da sua área de residência, agora com mais trabalho, em tarefas como a distribuição de refeições e medicamentos a pessoas idosas ou com problemas de saúde que vivam sozinhas ou não tenham que as ajude”, explica o vereador.

Só que, rapidamente, as necessidades aumentaram. “Neste momento, já temos uma centena de voluntários a trabalharem nos quatro centros de apoio às pessoas sem abrigo da Câmara de Lisboa – Pavilhão da Tapadinha, Casa do Lago, Pavilhão do Casal Vistoso e Pavilhão do Clube Nacional de Natação – que servem as refeições e se ocupam do tratamento e distribuição das roupas”.

Há também quem esteja a trabalhar em instituições que ficaram sem voluntários, como a Norfátima e o centro de apoio ao sem-abrigo Casa. Os restantes formam uma equipa de retaguarda e podem ser chamados a qualquer momento, por exemplo, para render as equipas no terreno.

As iniciativas de cidadãos, instituições e empresas crescem e multiplicam-se todos os dias. Os artistas oferecem a sua arte. Os restaurantes “mimam” os profissionais de saúde com uma refeição quente. As fábricas param o que estavam a fazer para produzirem material de combate ao vírus e a capacidade de organização de quem nunca se tinha aventurado no mundo do voluntariado ultrapassa os limites da imaginação.

Dar e Receber, dentro e fora da Escola

Ilda Rei Lima, in Observador

Eu acredito que, como professores, temos uma profissão única. E ver o sorriso estampado naquelas crianças irresistíveis deu-me uma energia extra para fazer mais e melhor.

Enquanto dormia - o Miguel Pinheiro ou a Filomena Martins preparam para si um guia resumido do que se passa, logo de manhã pelas 9h00, todos os dias úteis.

O clube ‘Dar e Receber’, que iniciei na minha escola, faz 10 anos. No início, havia apenas a ideia simples do voluntariado semanal. Mas rapidamente cresceu para todas as escolas do Agrupamento e tornou-se uma fonte de boa energia, com muita ajuda e com uma rede de parceiros em quem acreditamos. Que felicidade, sempre que mais alguém se junta ao clube! Mais alunos, professores, assistentes operacionais, pais, amigos.

Quando parece que estamos a cair na rotina, acontecem coisas lindas que nos enchem de vontade de continuarmos. Há dois anos, aderimos a um projeto, Living Peace International, pois acreditamos que a paz começa em cada um de nós e porque o seu percursor, Carlos Palma, cilindra-nos com a sua experiência de guerra e de esperança. No ano seguinte, a coordenadora do pré-escolar pediu para estar alguém do projeto na primeira reunião do ano, porque queriam trabalhar a paz. Como não ficar feliz quando, no final do 1º período, já se notavam mudanças nas crianças?

Em Março, fui contactada por dois pais de meninos do pré-escolar, que no ano anterior tinham participado na caminhada pela paz, que vão fazer de bicicleta a estrada n.º 2, do Norte ao Sul, com o objetivo de levar uma mensagem de paz e recolher material para ajudar uma causa. Tudo para dar o exemplo aos seus filhos e a todos os coleguinhas. Como não apoiar e perceber que só é preciso começar?

No decorrer da campanha para o Banco de Leite do Frei Ventura, fui a outro centro escolar recolher o material. Tive a oportunidade de falar com os meninos das 3 salas do pré-escolar, ouvir as suas canções e, mais importante, saber pela educadora que, dentro do projeto Living Peace, estas crianças apesar de pequenas fazem diariamente o minuto de silêncio pelas crianças que estão em países de guerra e vivem a paz, lançando o dado da paz. Saí dali com a certeza que estamos a contribuir para um mundo melhor e o coração quase a rebentar.

Recentemente, a coordenadora de um centro escolar do nosso agrupamento pediu para ir com os nossos amigos mais velhos do centro paroquial cantar para os 200 alunos. Que momento tão lindo e tão importante para os mais velhos e para as crianças. Vamos com certeza fazer isto mais vezes. Como não ficar de coração cheio?

Eu acredito que, como professores, temos uma profissão única. E ver o sorriso estampado naquelas crianças irresistíveis deu-me uma energia extra para fazer mais e melhor. Sempre que um colega vem ter comigo e partilha que a sua turma está empenhada numa campanha, tenho a certeza que valeu a pena começar.

Quando fui nomeada para o Global Teacher Prize Portugal 2019, diziam-me que este projeto só era possível por eu estar à frente. Não tenho essa opinião. Acho que qualquer escola pode pegar neste projeto, desenvolvê-lo e começar a ver a bola de neve a crescer. Ainda acho mais. Este projeto pode ser implementado num prédio, numa rua, numa aldeia, numa vila ou numa empresa. Aliás, valeria ainda mais a pena ter escrito este artigo se alguém, depois de lê-lo, o imprimisse e o pusesse no placar da entrada do prédio, da empresa, da junta, com algo como: “às quintas, das 18 às 19 horas, voluntariamente ensino a tocar guitarra, ou ensino a trabalhar com o computador, ou ofereço-me para ir às compras para algum vizinho que não consiga”.

São estes pequenos gestos que se transformam em algo muito maior. Nestes 10 anos, graças a uma pequena ideia, tive a honra de conhecer muitas pessoas especiais. Sou grata porque recebi muitos mais do que dei. E escrever este texto sobre o clube ‘Dar e Receber’ só é possível porque, há um ano, colegas com um coração do tamanho do mundo fizeram em segredo uma candidatura ao Global Teacher Prize. Ao ter ficado nos 10 nomeados, ficou a certeza de que o futuro da educação passava obrigatoriamente pela solidariedade, voluntariado e pelo cuidar e estar atento ao outro. A nomeação por uma razão tão simples e tão bonita serviu-nos de força extra para acreditarmos que estamos no bom caminho.

Professora. Finalista do Global Teacher Prize Portugal 2019.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Covid-19: numa semana, Raquel e 36 voluntários fizeram sete mil máscaras para 140 lares. Não estão sós

Rita Robalo Rosa, in Público on-line

Movimento Máscara Solidária faz cerca de 25 mil. O núcleo de Raquel Rodrigues assegurou máscaras para distribuir em lares de 22 freguesias de Lisboa, Porto e Beira Interior.

Tudo começou na Lourinhã, com Carlos Valeriano, formador em design e confecção, que desenhou um modelo de máscara, a pensar na covid-19 — ainda não há certezas sobre se o uso protege efectivamente do contágio. Depois da terra dos dinossauros, a Máscara Solidária chegou à vizinha Torres Vedras pela mão da associação Oceanos sem Plásticos. E foi assim que Raquel Rodrigues, em Lisboa, descobriu o projecto. No espaço de uma semana, reuniu 22 costureiras, de todo o país, e 14 voluntários para fazer a distribuição. As sete mil máscaras já feitas chegarão a 140 instituições. Esta terça-feira, foi a primeira entrega.

“Quando comecei a ver este trabalho através do Tiago Duarte [responsável da Oceanos sem Plásticos] pensei que alguém pudesse fazer o mesmo em Lisboa e decidi patrocinar as primeiras mil máscaras”, conta Raquel Rodrigues ao PÚBLICO.

No sábado passado começou a recolher o material — tecido não tecido (TNT) e elásticos — e esta terça-feira fez a primeira entrega na Casa Nossa Senhora da Vitória, em Lisboa, onde Raquel Rodrigues fez voluntariado durante seis anos. “Em conversa com a directora percebi que estão em ruptura do stock”, conta, revelando o desejo de fazer crescer este movimento até abranger todo o país. O mais importante é “defender os idosos” – população com maior risco de infecção pelo novo coronavírus.

Entrega de máscaras a um lar no Chiado, Lisboa. É a primeira entrega do grupo de Raquel Rodrigues - foto cedida ao PÚBLICO pela própria
Porém, fazer as máscaras acarreta algum investimento. Segundo o vídeo partilhado no YouTube por Carlos Valeriano é necessário: TNT, elásticos e atilhos ou arame para a máscara se ajustar ao nariz. Em nota partilhada no Facebook, a Câmara Municipal da Lourinhã, que recebeu as primeiras máscaras confeccionadas por Valeriano e mais 90 voluntários, indica que estas “são produzidas com TNT à base de polipropileno, impedindo assim a passagem de partículas ou gotas de fluidos contaminados, tornando-as reutilizáveis se lavadas a 90 graus”.

Segundo a nota, o município “pediu parecer à Direcção-Geral da Saúde, através da delegada de saúde da Lourinhã, que se mostrou favorável à sua utilização”. No entanto, até ao momento, não há dados suficientes para haver uma orientação oficial sobre as máscaras feitas em casa. A Organização Mundial de Saúde só recomenda o uso de máscara aos doentes de covid-19 ou aqueles que estiveram em contacto com algum caso de infecção.

Se há algo “menos mau” nesta pandemia é o ressuscitar da entreajuda, que muitos achavam estar perdida, considera Raquel Rodrigues que, embora esteja em teletrabalho, tem dedicado cerca de quatro horas por dia à Máscara Solidária. “Temos muita vontade de ajudar e de fazer chegar máscaras a toda a gente”, justifica.

Segundo o município da Lourinhã, entre os cerca de 90 voluntários estão alunos de Carlos Valeriano, do curso socioeducativo de costura, promovido pela autarquia. A Oceanos sem Plástico, na sua página de Facebook, fala-se em cem costureiras, sem contar com os voluntários que ajudam na distribuição das máscaras. O núcleo de Raquel é mais pequeno: são 22 costureiras por todo o país e 14 voluntários na distribuição. Ao todo falamos de cerca de 25 mil máscaras, entre as já feitas e as que estão no momento em fase de produção, calcula Raquel Rodrigues.

“Temos ainda o apoio voluntário de uma transportadora, a GLS, que nos está a facilitar a chegada de material ao Porto e à Beira Interior”, informa Raquel Rodrigues. As sete mil máscaras já feitas serão distribuídas por 140 lares e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), em diversas freguesias e concelhos da região de Lisboa e Vale do Tejo, Porto e Beira Interior.

PÚBLICO -Foto
Sónia Sousa, uma das costureiras que se aliou a Raquel, que patrocinou a produção de cerca de mil máscaras
A voluntária apoiou-se na sua rede pessoal de contactos para pôr de pé esta ideia. Queria chegar a mais sítios então pôs mãos à obra: “Desafiei cada responsável de freguesia ou de concelho a assumir a sua própria freguesia de residência, quer com voluntariado de costura ou com um investimento de 50 euros, e, depois a ligar para as juntas de freguesia para saber quais as IPSS e lares que existiam.”

Na Lourinhã, a autarquia indica estar em condição de entregar “500 máscaras [por dia] às juntas de freguesia, que irão articular a distribuição junto da população”, mas espera aumentar para mil unidades diárias. Em Torres Vedras, a Oceanos sem Plásticos afirma estar a produzir nove mil máscaras semanais, que já estão a chegar um pouco a todo o país. Entretanto, em Sintra, a associação Plano de Evasão também já se juntou à Máscara Solidária.

Suer a associação torriense, quer Raquel Rodrigues apelam não só ao voluntariado, mas também a donativos para continuar a produção. A voluntária explica ao PÚBLICO que o material para fazer as máscaras tem vindo a encarecer: O TNT custar dois euros o metro e a semana passada o preço era de 1,50 euros. O mesmo para os elásticos, que aumentaram cinco cêntimos, chegando aos 0,15 euros. Raquel Rodrigues começou com um investimento de 50 euros, depois mais 150, “sem contar com portagens”, já que o seu fornecedor é da Lourinhã. No total, com a ajuda de amigos, já contabiliza um investimento de cerca de mil euros.

Quem quiser ajudar pode contactar a Oceanos sem Plástico, a Plano de Evasão ou Raquel Rodrigues, que diz que não é preciso ter uma máquina de costura para ajudar, apenas vontade. A ajuda poderá ser monetária ou voluntariado na parte de recolha de materiais ou distribuição das máscaras.


Alijó disponibiliza 140 camas para situações de emergência

Agência Lusa, in o Observador

As camas estão distribuídas pelo pavilhão gimnodesportivo e pela pousada da juventude do município. Vai ainda ser disponibilizado um apoio financeiro anual a todas as IPSS do concelho.

A autarquia do distrito de Vila Real disse que continua a “ser proativa na adoção de medidas de combate à pandemia de Covid-19 e de apoio às entidades que estão na linha na frente em todo o território concelhio”. Nesse sentido, preparou 140 camas “para dar resposta a situações em que seja necessário assegurar o isolamento profilático, eventuais casos de contágio por Covid-19, que não necessitem de internamento hospitalar, e outros casos relativos às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) que necessitem deste tipo de apoio”.

As camas estão distribuídas pelo pavilhão gimnodesportivo e pela pousada da juventude, que se disponibilizou para colaborar com a autarquia. O município de Alijó decidiu também desbloquear os apoios financeiros às juntas e IPSS “para permitir uma atuação mais eficaz por parte destas entidades”.

Segundo informou, a partir desta quarta-feira vai “disponibilizar o apoio financeiro anual a todas as IPSS do concelho, eliminando a burocracia de instrução de candidatura” e, nos próximos dias, “será feito um adiantamento de 60% do apoio financeiro anual a todas as 14 juntas que desempenham um papel de proximidade junto de todas as aldeias”.

A Câmara referiu ainda que o FabLab – um laboratório de fabricação digital – antecipou a sua entrada em funcionamento e está a produzir viseiras de proteção, que serão disponibilizadas aos profissionais das IPSS, centro de saúde e corporações de Bombeiros, que estão na linha da frente no combate à Covid-19. A autarquia adquiriu também álcool gel, 10 mil máscaras cirúrgicas e 4 mil máscaras tipo FFP2, que serão distribuídas esta semana por aquelas instituições, “para fazer face a uma carência imediata deste material”.

Disse ainda que comprou máquinas de desinfeção de ar para espaços interiores, que utilizam um “sistema de ozonização”, que vai atribuir a cada uma das IPSS locais. A par destas medidas, a Câmara de Alijó criou um serviço de apoio à população mais vulnerável e sem retaguarda familiar, assegurando a entrega de alimentos e medicamentos, e abriu um banco local de voluntariado. Lançou também a aplicação “Alijó em Casa” que disponibiliza informação sobre os serviços com entrega ao domicílio no concelho.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, já infetou mais de 828 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 41 mil. Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Em Portugal, segundo o balanço feito na terça-feira pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 160 mortes, mais 20 do que na véspera, e 7.443 casos de infeções confirmadas.

Portugal, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 2 de março, encontra-se em estado de emergência desde as 0h de 19 de março e até às 23h59 de 02 de abril.

“Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda”. Uma viagem na noite dos sem-abrigo em Lisboa

Miguel Morgado, in Sapo25

A Comunidade Viva e Paz ajuda os sem-abrigo, que clamam que não os abandonem nestes dias de distanciamento social. Lisboa está deserta, sem viva alma. A não ser quem vive nas ruas num T0 de cartão, ao lado de carros de supermercado, enfiados em sacos cama, encostados a paredes, colados à linha férrea, debaixo de pontes e palas. Escutámos o Henrique, que foi médico e o Henrique que quer ser Uber. E a Maria, que conversa com Deus.

A sede da instituição Comunidade Viva e Paz (CVP), rua R. Domingos Bontempo 7, em Lisboa, quatro carrinhas são abastecidas com refeições. Divididas pelas letras de A a D, são preparadas para quatro rondas noturnas no apoio aos sem-abrigo.

Gestos mecânicos feitos por quem ali está voluntariamente. Dobram caixas de cartão, montam cestos, colocam sacos com comida e bebida, e transportam o “takeaway” para as viaturas. Há novos voluntários. “Viemos por causa de uma reportagem onde se falou que havia falta de apoios”, afirma Alexandre Vieira. “Achámos que era a altura ideal para arregaçar mangas e dar o nosso contributo”, refere Catarina Almeida.

Nuno Fraga, voluntário há mais de 10 anos, explica o grito de alerta. Com a declaração do estado de emergência a cidade fechou-se em si mesmo. “Algumas instituições não estavam a ir para a rua. Estávamos todos focados no Eu e em estar em casa de quarentena”, recorda. “Num dia normal, os sem-abrigo ganhavam uns trocos a arrumarem uns carros, teriam ajuda de supermercados, restaurantes, da Refood ... de um momento para o outro, tudo isso parou. Partilhei o meu sentimento de angústia”.

José Lopes inicia o briefing. Na palestra descreve a adaptação à “nova metodologia da rua”, em que passaram de “400 refeições para mais de 800”. Não esquece quem está na retaguarda que preparam o que será distribuído e deixam “mensagens e rebuçados”. Juntos, voluntários de casa e de rua fazem “toda a diferença”, relembra. “Não voltem com sobras. E em caso de alguém necessitar de ajuda, ligar 112. Não se mede pulsos, nem nada”, remata Margarida. Há luvas e máscaras para todos.

O SAPO24 seguiu na carrinha C. Nuno Fraga, José Rosinha e Sarah Pimenta, voluntários. Nuno roda a chave na ignição. “O nosso modelo é diferente. Mais do que dar comida, é ajudar a tirar pessoas da rua e mudarem de vida. Queremos conversa. Sporting, Benfica ou telenovela. Mas não só. O senhor Nélson fala connosco de Brexit. Não é só famílias desestruturadas que estão na rua. Há de tudo”, garante.

Primeira paragem: Olivais. Vítor é sem-abrigo. Está deitado, tapado por mantas e sacos cama. “Boa noite, comunidade Vida e Paz”, anuncia Nuno Fraga. Vítor, natural de Cabo Verde, levantou-se lentamente. Deixa metade do corpo a descoberto. Encosta-se aos vidros da loja que lhe serve de encosto. Vive debaixo das arcadas de um prédio.

Não fala. Não está para conversas. Abana a cabeça e sorri. Nuno Fraga tenta arrancar palavras. Recorda a visita que Carlos Mané, jogador de futebol, então ao serviço do Sporting Clube de Portugal, fez com a CVP. Promete voltar com a miss Cabo Verde. Uma promessa à qual Vítor respondeu com os braços ao céu e as mãos, que lentamente, desceram pelo rosto, destapando um sorriso.

A visita não demorou mais de dois minutos. “Uns falam, outros não. Num dia normal, há tendência para ficar a conversar. O nosso objetivo é criar empatia mais do que distribuir comida. É criar relação”, adianta. A atualidade dita outra realidade.

Olivais Velho. Duas casas sem luz e dois sem-abrigo numa habitação que não lhes pertence. Um abre a pequena janela. Acede a dois dedos de conversa. O Sporting poderia ser pano para mangas. A pedido, mostra placas e emblemas leoninos de outros tempos. O verde está demasiado esbatido. Recua com a refeição quente (bacalhau) e o amor da sua vida. Dois passos ao lado, Nuno Fraga anuncia. “Boa noite, Comunidade Vida e Paz”. Um rosto rasga o quadrado de vidro, estende a mão, solta “obrigado” e desaparece na escuridão. Sem mais comentários.

“Estamos todos os dias na rua. 354 dias, 96 pontos da cidade”, assegura Nuno Fraga. Dirigimo-nos para o Parque das Nações. Não há música no Altice Arena. Não há concertos, nem filas. Não há ninguém a não ser quem vive na rua. Nas imediações, um sem-abrigo, de cigarro na boca, pega no saco e deambula pela rua. Senta-se mais à frente para jantar. Há amontoado de sacos cama salpicados na paisagem.

Arrancámos. Estacionamos ao lado de duas carrinhas dos Paramédicos de Catástrofe Internacional, Unidade de Cuidados Intensivos. Estão equipados de fatos brancos, coletes amarelos identificativos ao corpo a que pertencem, luvas, máscaras, óculos e uma boina. Há algo de apocalíptico na indumentária. Preparam-se para servir sumos que receberam de outras instituições. E ajuda médica a quem necessite.

“Onde é que estão os meus amigos?”
No Pavilhão de Portugal são distribuídas “20 e tal refeições”, enumera. Uma sem-abrigo, de sacos na mão, pergunta pelos amigos. “Onde é que estão os meus amigos?”. Não sabe. Tinha encontro combinado. “Onde é que estão os meus amigos?”, repetiu.

À volta da pala de Siza Vieira há vários T0. 2 metros quadrados. Pé direito de um metro. Sem janelas, mas com paredes “ecológicas” feitas de cartão. Carrinhos de supermercado servem de dispensa. Multiplicam funcionalidades e serventias. Servem de ponto de nó para atar cobertores, que, por sua vez, funcionam como uma divisão.

Numa zona de restaurantes não há uma única porta aberta. “Obrigado, se não fossem vocês ... muito obrigado”, agradece uma voz anónima. Fala com um cigarro colado no canto da boca. Pede mais um saco para um “rapaz que deve estar a chegar”. Aponta para outros esconderijos. “Há ali, daquele lado, há ali mais uns”, alerta. Prossegue a conversa com os seus vizinhos que se juntaram à volta de uma garrafa de vinho.

Abastecimento feito. Seguimos. O interior da Estação do Oriente deixou de servir de teto. A Web Summit assim o ditou. A carrinha da Comunidade Vida e Paz estaciona perto de uma paragem de autocarro. Seres mutantes, saídos do nada, dirigem-se, em fila, para o porta-bagagem. São perto de três dezenas. É um “toca e foge”. O gesto é mecânico. Esticam braços e recolhem a comida. A maioria são homens. A maior parte move-se em silêncio. Pedem mais um saco para alguém que não está ali.

Antes da nossa viagem pela noite dos sem-abrigo, José Rosinha, voluntário com muitas voltas nos ombros, tinha avisado. “No Oriente, temos um médico na rua”. Lá estava ele. É o Henrique. “Médico de clínica geral e doenças infetocontagiosas”, informa. Não diz muito mais. “Não vale a pena falar”, avisa. Quebra o que disse e deixa escapar. “Fiz um acordo com Deus de não fumar e não beber”. O cigarro na boca contraria-o.

Caminha com a ajuda de muletas. Curvado. Sem conseguir olhar nos olhos de quem quer que seja. As roupas pertencem a outro corpo. Estão demasiado largas. Caem pelos ombros e cintura abaixo. O cabelo, não conhece mises, está enrolado e preso num carrapito. Parece uma palmeira em cima da cabeça.

Nuno Fraga não se cansa de avisar que o Casal Vistoso, pavilhão disponibilizado pela câmara municipal de Lisboa, está aberto a partir das 18h00. Aparecem dois interessados. Fraga liga para os virem buscar. Só um se desloca para o ponto de recolha. O outro desaparece sem deixar rasto.

Às 22h20 deixamos um Parque das Nações às escuras. No Beato e Xabregas o cenário é desolador. Lugar demasiado inóspito, ausência de sinais de vida a mais numa capital europeia. A monstruosidade de um futuro hub, em carcaça arquitetónica, à vista desarmada, não ajuda. Os semáforos funcionam indiferentes à ausência de carros.

Ao lado de restaurantes, perto do Instituto do Emprego e Formação Profissional, Nuno Fraga bate a uma porta. Vai entregar a refeição a um cliente habitual. “É fanático pelo Sporting”, diz, ele mesmo sócio do clube de Alvalade. A chegada a um prédio abandonado é feita ao som da buzina. Identifica a instituição e espreita para o fosso que separa um muro da casa à procura de sem-abrigo. Sem sucesso.

“Não é difícil vir parar a sem-abrigo. Basta não pagar a casa”
O navio cruzeiro MSC Fantasia, está atracado no Cais de Santa Apolónia. Está de quarentena e às escuras. Transportava 1338 passageiros.

Na estação de Santa Apolónia, assistimos a um remake do que se viu no Oriente. As luzes da carrinha anunciam a chegada. Há quem esteja já à espera, sentado, numa paragem de autocarro. Nuno Fraga aponta o local de estacionamento. Sobe o passeio e quase cola à estação de comboios. À esquerda e à direita, aparecem do nada. Segundos antes, eram cinco ou seis. Multiplicaram e são mais de 20.

“Olha, tem aí bacalhau”, exclama Sarah Pimenta, que se estreia no voluntariado. Pegam no saco e seguem. Uns aproveitam e entram no autocarro com o letreiro Oriente. Mais à frente viemos a saber que não andaram mais do que uma paragem.

Henrique aproxima-se. “Não é difícil vir parar a sem-abrigo. Basta não pagar a casa”, alertou. Deixa-se fotografar, sem vergonha de assumir a situação.

Sarah dá um conselho estético. “Tem de cortar a barba”. A barba farta encontra uma explicação na lei da vida. “É para impedir o bicho”, sorri. Promete mudanças quando “isto acabar”, antecipa-se. “Vou lavar-me com sabão azul e branco e faço pente 4”.

Lamenta não conseguir visitar a mãe, 85 anos, em Porto de Mós. Vive com o sobrinho, “filho do meu irmão que se separou cedo da mulher”. Recorda a aldeia que o viu nascer, onde “pais e a vizinhança tomavam conta de nós”. Fala da vida, da preferência clubística (“sou do Sporting”) e dos sonhos. “Queria ser Uber, mas agora deixo-me estar. Estou velhote e gostava de ter família”, atira. Despede-se e caminha para lado nenhum ao lado de um amigo da rua que promete ir ao Casal Vistoso “para a semana”.

“Falo todos os dias com o Deus e Ele fala comigo”
Na discoteca Lux não há filas para entrarem, nem porteiros a selecionar. Cinco pessoas vivem ali, debaixo da saliência do piso superior, num pequeno passeio que divide duas faixas de rodagem. Mais à frente, uma ponte rodoviária esconde mais de 15 pessoas. Há mesas-de-cabeceira, cadeiras, paletes, carrinhos de supermercado, tendas, bicicletas, candeeiros, caixas de cartão e cobertores num caos decorativo organizado. Coabitam num caldeirão cultural.

Um cidadão nepalês, de turbante na cabeça e chinelos nos pés, fala em língua inglesa e agradece com as mãos no peito. Um brasileiro pergunta, educadamente, entre risos, se há “lagostim, caviar e chocolate quente”. O romeno, que se apresenta como tendo feito parte da elite que circulava à volta do antigo líder, Nicolae Ceauşescu, recolhe o jantar, acena e deita-se. Maria, a portuguesa, fala até a deixarem falar. Das idas ao “banco” e ao “supermercado”. Mas o tema principal gira à volta da “praga lançada à terra pelo Diabo”, dos “milhares de Anjos no Céu” que foram enganados e da “outra peste, aquela de há 100 anos”. Sossega-nos. “Falo todos os dias com o Deus e Ele fala comigo.” Ele “sabe que 40% da população é religiosa (católica) e que virá à terra salvar-nos e às outras pessoas”. Entrelaça a conversa de Deus e o Diabo com citações bíblicas. “Nenhuma praga chegará à tua tenda”, solta. Sarah completa. “Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda” (Salmo 91:10,11).

Na zona da Fábrica da Nacional, do lado da linha de comboio, fomos em busca de pontos de passagem entre as carruagens de contentores. Subimos e descemos, subimos, de novo. Demos de caras com três sem-abrigo deitados num minúsculo balcão na parede à distância de metro e meio da montanha de ferro. Atmosfera é sufocante e claustrofóbica para quem vem fora, segura para quem ali dorme. “Há mais?”, questiona Nuno Fraga. Resposta afirmativa. O braço serve de GPS. Saltámos do comboio e demos a volta. Caixas de televisores XL servem de paredes de duas “casas”.

Em plena Ribeira das Naus, espaço de reencontro com o Tejo e com a história da cidade, não há registo de um movimento, exceção feita aos autocarros e à polícia municipal. Ninguém passeia. Não se vê ninguém. A Doca Seca esconde duas vidas. Um sem-abrigo acorda. Vive quase encostado à parede. Aproveitou um relevo daquele local quinhentista para montar casa. A cabeça de um cão mantém-nos a uma margem maior do distanciamento social recomendado. Ao lado, quatro pedras por cima de uma manta pendurada indiciam que o inquilino não está. Não foi deixado saco.

A Humanidade num Rossio abandonado às suas fontes
Uma vida dormia debaixo do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Os litros de vinho explicam o sono profundo. O jantar fica para quando acordar. O mercado da Ribeira impressiona. Deserto e limpo. Sem vestígios de copos da noite ou legumes da manhã. A Rua de São Paulo, Chiado e Sé parece um filme a preto e branco percorrido entre os carris do elétrico.

A rota faz uma pausa no Rossio, na praça abandonada às suas fontes. Sinais de vida só mesmo na entrada do Teatro Dona Maria II onde pernoitam quem não tem outro local para dormir. A palavra Humanidade nas arcadas ganha significado bíblico.

A Avenida da Liberdade é feita aos soluços. Há quem estenda as mãos a pedir como se estivesse num restaurante. Agradecem e seguem caminho. “O Saldanha é das zonas com mais gente”, lamenta Nuno Fraga. Sente-se que por lá andou outra equipa, mas há que cumprir o mandamento de não levar sobras. No Arco do Cego, à volta da escola Filipa de Lencastre, Fraga, sabe quase de cor todos os esconderijos onde pode ajudar.

0:59. Fim de ronda. Encontro fortuito com outra equipa. Os voluntários despendem-se.

“Ser voluntário em estado de emergência, ou fora deste estado, é de destacar. Não somos heróis. Somos humanos mais atentos aos outros”, elogia. “O maior ativo do país são as pessoas e empresas socialmente responsáveis. Sem saber o que será o dia de amanhã, as empresas apoiaram e as pessoas saíram para a rua”, refere contente e orgulhoso. “Não me sai da cabeça uma frase: não nos abandonem”, remata.

1.4.20

Sem clientes, sem dinheiro e sem tecto: a prostituição também sofre com a Covid-19

Sofia Marvão, in JN

Profissionais do sexo atestam uma grande dificuldade na obtenção de rendimentos ou de meios de subsistência, durante o período de quarentena

Com a saúde em risco e a crescente escassez de clientes, profissionais do sexo lutam pela sobrevivência face à ameaça que constitui a pandemia da Covid-19. Paralelamente, as plataformas de pornografia registam um aumento de visualizações por parte de quem fica em casa.

Pamela (nome fictício), prostituta de 46 anos, vive em Toulouse, França. Quando não trabalha na rua, tem de viajar para se encontrar com os clientes. Há mais de duas semanas que não trabalha, desde que o país fechou as fronteiras para impedir a disseminação do vírus. Apenas viagens essenciais são permitidas . "As solicitações não deixaram de existir completamente", explicou à agência AFP. Contudo, "comparando uma multa de 135 euros a 50 euros de um cliente", a profissional prefere ignorá-las, mas se o cenário resistir acredita que as suas economias não vão ser suficientes. "Vou ter que correr riscos"diz. "Mesmo que tenha dois clientes por semana, pagaria pelo menos a comida". No caso de prostitutas que já são mães, a situação agrava-se.

A agência francesa avança que os poucos profissionais do sexo registados como trabalhadores independentes não podem reivindicar o apoio de 1500 euros prometido pelo Governo aos trabalhadores independentes para compensar a queda de atividade provocada pelo surto. No sentido de dar resposta às suas necessidades, algumas iniciativas de angariação de fundos começaram a surgir no meio digital. A partir da página "tapotepute" (sua prostituta amiga), foram recolhidos cerca de 10 mil euros para ajudar pelo menos 30 trabalhadores do sexo. Os que continuam a trabalhar foram aconselhados pelo STRASS (Sindicato do Trabalho Sexual) a "evitar contacto com a saliva" ou "qualquer posição sexual cara a cara".

À semelhança do que acontece em França, o ato da prostituição em Portugal também não é considerado ilegal. Contudo, muitos trabalhadores do sexo, mulheres e homens, lutam pela descriminalização total, isto é, para que a profissão seja vista como outra qualquer, com sindicatos e todas as regalias sociais (como Segurança Social, seguro de saúde, vistos de trabalho para trabalhadores migrantes, locais de trabalho seguros, sem proxenetas e geridos pelos próprios trabalhadores sexuais).

A possibilidade de estes profissionais ficarem sem abrigo por falta de pagamento da renda ou pelo encerramento de alojamentos locais também preocupa alguns coletivos portugueses, entre os quais o Movimento dxs Trabalhadorxs do Sexo (MTS). "Os que nos contactaram a pedir ajuda já estão nas várias dezenas e aumentam todos os dias" diz Margarida Maria, que também ajudou a organizar uma campanha de angariação de fundos a nível nacional "para ajudar quem foi mais afetado pela pandemia, e que se encontra nas situações mais precárias e marginalizadas" como migrantes, transexuais, mães/pais, com problemas de saúde e em estado de habitação vulnerável.

Na quarta-feira passada, foi enviada uma carta aberta à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, onde eram solicitadas "medidas extraordinárias de apoio", alertando para a iminência de se atingir um "ponto crítico". "Atesta-se uma dificuldade severa na obtenção de rendimentos ou de meios de subsistência, bem como no recurso a modelos alternativos de trabalho" tais como o teletrabalho e as "webcams". O documento foi redigido com a participação das associações Rede de Trabalho Sexual (RTS), A Coletiva e Grupo de Partilha D'a Vida.

Aumento do consumo de pornografia

Depois de fornecer acesso gratuito ao seu conteúdo "premium" em Itália, França e Espanha para incentivar as pessoas a ficarem em casa, como forma de evitar o contágio do novo coronavírus, o Pornhub alargou a oferta para todo o mundo até 23 de abril. A ação faz parte da campanha "StayHomehub", com o intuito de contribuir para uma maior adesão ao distanciamento social

De acordo com a plataforma de conteúdos pornográficos, à medida que cada vez mais pessoas se submetem a quarentena, bem como ao teletrabalho, manifesta-se um aumento substancial na atividade da página. Aproximadamente 120 milhões de pessoas consomem diariamente os conteúdos disponíveis. Num dia, houve um aumento 5,7% maior do que o habitual, com preferência pela parte da manhã.


"Se não fosse esta refeição, morria." Como se protege os idosos da cidade da pandemia

Catarina Reis, in DN

Uma freira de 85 anos comanda a missão, os funcionários seguem-na. É assim que se continua a alimentar os idosos na Penha de França em tempos de pandemia. Uns na fila, com distância, outros em casa. O retrato do risco de uma capital envelhecida e pobre.

Dez minutos para as 12.00 e a fila já é longa na Rua Dr. Oliveira Ramos, na Freguesia da Penha de França, em Lisboa. A distância de segurança exigida torna mais silenciosa a espera destas dezenas de idosos - ao todo, são perto de 50. Todos se conhecem, porque estar aqui é um ritual diário, mas não trocaram palavra, nem sobre o sentimento de viver estes novos tempos que assolam Portugal e o mundo. Têm os olhos pregados ao chão ou atentos ao fundo da rua, tornando clara a tristeza destes dias.

Os idosos aguardam à porta do Centro Social Paroquial São João Evangelista de saco na mão. Dentro, os recipientes de plástico vazios que se hão de encher. À porta, Lúcia Moreira, 44 anos, rosto familiar a todos, vai recolhendo os sacos, três a três, e volta a trazê-los minutos depois com uma refeição quente - sopa e prato do dia -, fruta e laticínios. E é assim, nesta fila, que uma das zonas mais pobres e envelhecidas de Lisboa vai sobrevivendo ao coronavírus. Com as medidas de segurança exigidas. Mas mantendo a ajuda necessária.

A paróquia era o antigo centro de dia para muitos dos que esperam agora à porta. Aqui vinham conversar e estar. Mas agora as medidas de contingência fecharam as portas de espaços como este - sobretudo onde se aglomeravam vários grupos de idosos, considerados o maior grupo de risco do coronavírus. Não por acaso, os lares têm estado no centro da maior atenção por parte das autoridades de saúde e são os locais onde o vírus tem chegado em força. A maioria das vítimas mortais em todo o mundo tinham mais de 60 anos - sendo a taxa de mortalidade mais alta a partir dos 80.

O centro está a meio caminho entre o Bairro Horizonte e a Quinta do Lavrado, onde foram realojadas mais de 500 famílias da bem conhecida e já demolida Curraleira. Foi no verão de 2001 que o antigo bairro, um dos maiores aglomerados de barracas da capital, desapareceu do mapa. Alguns dos seus moradores estão agora nesta fila que se estende à porta do Centro Social Paroquial São João Evangelista. "Poucos são utentes e outros são apoiados com cabazes de alimentos", explica a Junta de Freguesia da Penha de França.

A maioria dos idosos que hoje procuram uma refeição quente em frente a estas portas são antigos vendedores ambulantes e ex-operários de fábricas de confeção de chapéus, luvas, roupas entretanto desaparecidas da cidade. "Realizaram muito do seu trabalho antes do 25 de Abril e, portanto, não fizeram ou fizeram poucos descontos para a Segurança Social", dependendo agora de "pensões baixas", esclarece o gabinete da presidência da junta. Uns vivem nas suas casas, mas grande parte dos que esperam nesta fila adormecem todas as noites num quarto alugado.

É o caso de Luís Santos, de 61 anos. Sem querer adiantar muito das voltas que a vida deu para aqui chegar, confessa que "se não fosse esta refeição não conseguiria mesmo sobreviver. A expressão é forte, mas sei que morreria à fome". Há sete anos que frequenta o centro de dia da paróquia, onde ia almoçar, "ficando para lanchar também". Por lá, mas a um canto, mais isolada, estava sempre Deolinda Coelho, 76 anos. "Gosto do meu espaço, de estar sossegada", diz. Por isso agora não lhe faz muita diferença a distância social que tem de manter na longa fila em que espera.

Cravando o olhar perdido ao fundo da rua, descai o ombro direito encostado à parede, com a mão esquerda agarra três sacos e com a direita apoia-se a uma grade de ferro preta. Debaixo do lenço axadrezado sobre os ombros leva uma manta lilás que esconde o topo da bengala canadiana em que ampara as mazelas que a vida lhe deixou no corpo: aos 72 anos, submeteu-se a uma mastectomia para travar um cancro feroz, há dois meses foi operada aos olhos, o que a obrigou a andar com uma pequena pala transparente e esburacada no olho esquerdo. Deolinda vive agora no quarto de um hostel "umas ruas acima". Faltam-lhe condições para mais e "daqui a uns dias" muda-se novamente.

Emanuel e as "cinco missionárias", projetistas da causa
"Ao que nada espera, tudo o que vem é grato", escrevia Fernando Pessoa. Uma máxima pela qual a paróquia se faz reger todos os dias. Os tempos de pandemia não são exceção. Enquanto a fila cresce e decresce lá fora, cá dentro fala-se de saudade: das mesas cheias, do burburinho das conversas cruzadas, do entra e sai de dezenas de seniores residentes na freguesia.

Sobre as mesas estão agora as cadeiras em que antes se sentavam. Falta o fado que se cantava depois da refeição, importado de uma antiga utente, "Fernanda, La fadista", vendedora ambulante de peixe e de boas cantigas quando de xaile ao ombro. Mas falta também o cantarolar do Bingo, as peças de dominó a tilintar umas nas outras na hora da competição.

"Faz falta", admite quem ainda fica cá. Mas "não era possível parar porque eles precisam tanto de nós", diz Lúcia. Vai até à sala quase vazia em passo apressado, com os sacos que recolheu na fila na mão. Dirige-se ao fundo da sala, onde se abrem duas largas portas para o cenário da cozinha do centro de dia. Lá dentro estão Carla e Tina, de 50 e 49 anos, respetivamente, as cozinheiras.

O relógio ainda não batera as 10.00 e já se preparavam as refeições quentes do dia: hoje é dia de sopa de grelos e esparguete com hambúrguer. "Fazemos tudo com muito gosto", sorri Tina, há quatro anos funcionária neste espaço. É este o menu, mas "eles gostavam era de uma feijoada ou de um cozido, isso é que era". E Carla acrescenta: "Antes ainda dava para fazer, agora já não, temos de pensar bem as refeições para que durem boas durante mais tempo."

Depois de encher os tupperwares, Lúcia continua a sua maratona. Não baixa a máscara, não descura o uso das luvas e atenta em cada passo, em cada toque, para garantir a máxima higiene no processo. Corre, corre para o dia acabar o mais cedo possível. De segunda a sexta, ergue-se todos os dias cedo da cama, para regressar muito perto da meia-noite. Em casa deixa cinco filhos e um marido acamado. "Tenho vivido de coração nas mãos, tenho de ter muito cuidado. Ando de máscara sempre que posso. Quando chego a casa descalço-me e dispo-me para ir logo tomar banho", conta. Os dias são passados 24 sobre 24 horas debaixo da máxima segurança: em casa ou aqui, Lúcia reconhece que todo o cuidado é pouco quando se vive perto daqueles para quem o vírus representa maior risco.

Antes de aparecer à porta onde devolve os sacos, faz uma paragem, passando o testemunho para Emanuel Sousa, 31 anos, auxiliar de serviços gerais do centro. O sol mal se tinha levantado nesta manhã e já o jovem guiava pelas ruas de Lisboa em direção à sede do Banco Alimentar, onde foi recolher "os frescos" - "porque na quinta-feira é dia de frescos" - e outros produtos que compõem o cabaz que entregam no saco que os idosos lhes trazem.

A parceria entre o centro e a instituição tem anos, "ainda era o Banco Alimentar uma pequena cozinha em Alcântara", conta. Uma embalagem de iogurte grego, outra de gelatinas, um queijo dos Açores, fruta. Emanuel vai enchendo os sacos e lembrando como um dia foi ele mesmo e a sua família quem precisou de sair daqui de saco cheio em direção a casa.

"Tinha 9 anos, a primeira vez que aqui vim", conta. A mãe trabalhava como funcionária num colégio "aqui perto" e depois das aulas, com ela, Emanuel vinha até à paróquia para almoçar a sua refeição quente. "Antes, juntavam-se aqui tanto novos como velhos", todos à procura de apoio alimentar para o qual raramente as finanças do mês chegavam. Entretanto, e durante vários anos, tornou-se voluntário no centro, onde há cerca de dois anos assumiu funções a tempo inteiro como braço direito da irmã Ângela Lopez, a maior responsável pela gestão diária do espaço.

De cabelo grisalho, bengala na mão, é do alto dos seus 85 anos que a irmã Ângela diz: "Não tenho medo deste vírus". Teme pelos outros, diz ter dobrado as rezas diárias por todos aqueles que já não entram pela porta todos os dias, mas a ela o vírus não assusta, garante num sotaque barcelonês. Talvez por "já ter visto tanta batalha". Nascida em Barcelona, Espanha, rumou a Portugal em 1955, de uma ditadura para outra. Estava "no Rato" quando a Revolução de Abril aconteceu. Nasceu em plena Guerra Civil Espanhola, e as marcas fizeram parte do seu crescimento nos primeiros anos de vida. Para cada conto da história, tem a resposta na ponta da língua e por isso, sublinha, a pandemia não a assusta.

É por ela que o centro continua aberto. "A irmã não suportava a ideia de deixarmos de dar a mão a estas pessoas", garante Carla. Por isso deu ordens para que "as cinco missionárias", além de Emanuel, ali permanecessem como engrenagens necessárias para que a causa aconteça. "Cinco missionárias", como decidiu chamar-lhes, um grupo integrado pela cabo-verdiana Lúcia, as portuguesas Carla e Tita, uma outra funcionária indiana e ainda a assistente social do centro paroquial, também portuguesa.

Depois de Emanuel encher os sacos, Lúcia pede a atenção da irmã Ângela, ditando-lhe nomes. Sentada ao canto de uma mesa, de caneta vermelha na mão, a irmã marca com uma cruz os nomes escritos na extensa lista. Fechadas as portas da hora de almoço, verifica se todos os que prometeram vir lhe bateram à porta naquele dia. Senão, faz-lhes uma chamada: "Tento perceber porque não vieram, se está tudo bem, se estão doentes, se podemos fazer alguma coisa por eles." Afinal, o fado ainda ecoa cá dentro.


É então que liga Armindo Lopes, 75 anos, cuja ausência ficou marcada no papel que a irmã preenchia durante a hora de distribuição do almoço. É um dos dois a quem o centro tomou a iniciativa de entregar a refeição ao domicílio. Emanuel agarra dois sacos e guia até umas ruas abaixo. Armindo já o espera à porta de casa. "Amanhã à mesma hora?", pergunta, enquanto Emanuel lhe entrega o saco através da janela da carrinha. "Exatamente. Tenha um bom almoço!" Armindo é utente do centro há vários anos, mas "anda muito devagar, tem dificuldade motoras", com compras "ainda pior", por isso, nesta altura da pandemia que pede resguardo, a equipa tomou a liberdade de lhe levar a refeição todos os dias.

Pé no acelerador e Emanuel arranca outra vez. Agora até à casa de um casal também conhecido de todos no centro paroquial. Emanuel prepara o terreno para o que vamos encontrar: "A esposa tem uma doença leve, é o tipo de pessoa que se sair da rotina fica perdida. Se o marido sai, ele fica aflita, por isso nós levamos a refeição. São pessoas que tiveram outro tipo de educação, não conseguem entender muito bem esta fase, a dimensão das coisas." É quinta-feira e no dia seguinte há almoço reforçado para todos, "para evitar que saiam de casa durante o fim de semana", adianta.

De regresso ao centro, é a vez de Lúcia dar por terminada a entrega de refeições. Todos os dias, de saco na mão, máscara, luvas e touca, se dirige a um prédio antigo com vista para o velho Cemitério de São João para entregar a refeição quente a uma idosa de 76 anos. Foi a pedido da sua irmã, utente do centro, que se passou a prestar este serviço ao domicílio, ainda antes de estes tempos de pandemia exigirem o cuidado. Lúcia dá-lhe de que agora a sala do centro ficou vazia para que todos estejam em segurança.

Escadas abaixo, as portas dos vários andares do prédio vão-se abrindo para dar as boas-vindas a Lúcia, presença a que já estão habituados. Quando não vem, assinalam-lhe logo a falta: "Ontem não foste tu", lembra um dos vizinhos, José Antunes. No rés-do-chão, vai preparar o almoço para a mãe. E dá o exemplo: antes de passar a porta de casa tira o robe escuro que ainda tinha vestido e muda de chinelos. No rés-do-chão, veste outro robe, descalça os chinelos e coloca uma máscara para cumprimentar a mãe, Constância, de 86 anos. "Tem de ser, temos de cuidar dos mais velhos, principalmente nesta altura."

José Antunes vai preparar o almoço para a mãe. E dá o exemplo: tira o robe escuro que ainda tinha vestido
José Antunes vai preparar o almoço para a mãe. E dá o exemplo: tira o robe escuro que ainda tinha vestido e muda de chinelos. © Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Como conviver com a pandemia quando a casa é um quarto
Foi a pensar no bem-estar da população mais vulnerável e carenciada que o Banco Alimentar decidiu criar neste mês uma rede de emergência alimentar, através da qual um grupo de voluntários se dedica à entrega de refeições ao domicílio a quem se inscrever para este apoio.

No dia 19 de março, o país entrou em estado de emergência. O primeiro-ministro falou aos cidadãos portugueses, sem fazer grandes exigências, apenas pedindo que todos fossem conscientes do que vivemos e do que ainda se avizinha. Para os maiores de 70 anos, considerados grupo de risco para o covid-19, o decreto prevê "um dever especial de proteção".

Os mais idosos só deverão circular em espaços e vias públicas ou em espaços e vias privadas equiparados a vias públicas para deslocações específicas: ao supermercado, a hospitais ou a centros de saúde, a bancos e para "passeios higiénicos" de curta duração. Mas são os que têm mais restrições os menos dispostos a aceitar as exigências dos novos tempos.

De acordo com um estudo da Nova SBE Health Economics & Management Knowledge Center da Universidade Nova de Lisboa (NHEM), através do qual uma equipa de investigadores acompanhou os hábitos dos portugueses durante a evolução do novo coronavírus no país, "são os idosos que dizem manter a sua vida mais normal do que os outros". Quem o diz é Eduardo Costa, investigador em economia da saúde no NHEM, em entrevista ao DN. "O inquérito em si não nos diz porquê, mas podemos ter algumas hipóteses, nomeadamente o facto de os mais velhos já terem passado por outras crises semelhantes, e portanto terem alguma suspeita em relação a esta situação. Efetivamente, alguns idosos podem não ter alternativas fáceis para continuar as suas vidas, e por terem continuado a sair à rua no início."

"Nada de andar na rua. Se o vir na rua, vou chamar a polícia." Foi assim que Emanuel Sousa se despediu do casal ao qual fez a última entrega ao domicílio do dia, na quinta-feira passada. São pessoas que "costumam sair quatro a cinco vezes por dia", por isso repete-se a recomendação as vezes necessárias. Vivem num quarto alugado, à semelhança de muitos idosos residentes na capital. Na Freguesia da Penha de França vivem lado a lado com "uma classe média bem estabelecida, sobretudo de pessoas que exerceram profissões liberais, comerciantes ou que tinham pequenas fábricas ou oficinas" e que "não necessitam do apoio alimentar do centro", explica a junta em resposta ao DN. "Há quem se ofereça para apoiar outros seniores com maior fragilidade apoiados pelo centro."

Luís Santos, um dos que esperavam na fila à hora de almoço, vive também num quarto alugado. E justifica a necessidade de continuar a passear pelas ruas da cidade, que apesar de mais vazias continuam movimentadas. "Menina, moro num quarto pequeno. Acha que vou ficar ali o tempo todo?", lança a discussão. Com o movimento que a casa que partilha com outros inquilinos tem, garante sentir-se mais seguro lá fora. "A frequentar o mesmo WC, a mesma cozinha... Em que ficamos? Ando a fugir das pessoas? Mais vale estar cá fora", diz.

A irmã Ângela responde e lembra: apesar das dificuldades, "temos todos de perceber que a nossa proteção é agora também a de todos os outros".

Sem-abrigo: Porto reergue a teia que ruiu

José Miguel Gaspar, in JN

Rede social: número de voluntários cai drasticamente; das 22 rotas de comida que havia na rua, só sobram agora quatro; 40 sem-abrigo já foram recolhidos, mas 100 recusam quarentena e resistem; antigo hospital Joaquim Urbano é o novo centro onde toda a gente vai comer. Retrato do Porto em tempo de emergência.

Celestino de Jesus acaba de ser recolhido pela carrinha branca de vidros escuros. Traz o saco dos parcos pertences, a cara fechada e uma expressão ilegível nos olhos que pode ser receio ou só muito cansaço. Tem 56 anos, é do grupo de risco: VIH positivo, cancro no pulmão, sem emprego, sem-abrigo.

Foi recolhido nos primeiros números da longa avenida em obras Fernão de Magalhães, no Porto, era quinta-feira, 21 horas, e seguiu com os dois técnicos de camisas vermelhas da Ordem de Malta que operam as duas novas rotas de recolha noturna, uma na Baixa, outra na Boavista, definidas pela Câmara do Porto e a rede social dos Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA).

Enluvado e mascarado, Celestino segue na carrinha e vai entrar, o trajeto é curto, nem cinco minutos, no antigo Hospital Joaquim Urbano que é desde há uma semana o Centro de Acolhimento de Emergência Covid-19 para pessoas em situação de sem-abrigo. Fará o teste, ficará em quarentena. Tem direito a uma cama, roupa lavada, um kit de higiene, acesso a duche e três refeições quentes por dia enquanto durar a permanência no local. Até ali, dormia nas ruínas da Escola do Cerco, um lugar ermo em decomposição, usado por consumidores de drogas e pessoas sem teto onde grassa o lixo, o frio, a escuridão e até o betão está em putrefação.

Os 140 sem-abrigo crónicos que há anos habitam nas ruas do Porto já são só 100, apurou o JN. Há 40 instalados no Centro de Acolhimento que abriu justamente 40 camas extra, lotadas desde sexta-feira. Há mais 10 camas no Hospital Conde Ferreira, mas permanecem vazias; são para infetados com coronavírus e não há ainda casos reportados nesta população.

100 recusam sair da rua

Os outros 100 resilientes resistem, recusam a quarentena, não trocam a independência da rua e com o confinamento da população geral emergem com cada vez mais nitidez - como Heitor, 45 anos, ex-recluso, que ocupa uma das soleiras impecavelmente limpas do Teatro S. João; como José António, 73 anos, alcoólico que prefere o frio chão de cartão das Antas, atrás da Loja do Cidadão; como Augusto, 66, que continua nas trevas húmidas do Cerco a vociferar liberdade; como Fernanda Silva, 52, que se aninha na Rua de Ceuta e todos os dias, até que há sol, se põe parada a pedir debaixo da Torre dos Clérigos, com um cartaz surrado e um copo vazio na mão, cheia de solidão; como Ricardo Cardoso, 31 anos, que bebia e deitou tudo a perder lá na França onde andou, hoje é sem-abrigo sem poiso certo e naquela noite foi dormir com o Samurai, que vai aparecer já a seguir.

Mas nesta hora, toda a rede deles acabou de ruir: com o país em estado de emergência, escasseiam rotas de comida de rua, cafés e restaurantes fechados, sem turistas, sem missa, não há a quem mendigar, não há sequer, agora que estacionar é grátis, carros para arrumar.

É disso tudo que se queixa Samurai, nome de guerra ou de pluma de Paulo Brás, que sonha ser escritor. Ele é alto, está no descampado à frente da fila da comida que engrossa e alastra até ao fundo da rua do Centro de Acolhimento Joaquim Urbano. Já pôs a máscara azul-céu e luta agora para calçar a segunda luva laranja de borracha, mas vai desistir da contorção - "deram-me luvas de mulher, olha-me esta!", e ele fica com uma mão calçada e outra ao léu, calejada, ligeiramente frustrado. Acabou de receber o kit do jantar quente takeaway que os voluntários do CASA, o Centro de Apoio aos Sem-Abrigo incapaz de parar, entreguem céleres à fila cá fora em sacos de papelão, aviando 400 pessoas por noite. O menu era empadão, um pão, uma banana e um Bongo - mas o kit não traz talheres e Samurai vai reclamar: "Hei!, como com quê?, as mãos?!", diz ele a agitar no ar a luva laranja engelhada que não consegue calçar.

Tem 52 anos, é ex-heroinómano, dorme literalmente debaixo da ponte. "Gosto de acordar ali, tenho o rio, os pássaros, é tudo meu, sozinho, sem ninguém a chatear", diz Samurai, que dorme num vão de 3x3 metros entre os pilares 1 e 2 da Ponte do Freixo, margem das Fontainhas, ali onde acima se eleva a bela vista do varandão e se avista a água azul-verde do rio a espelhar os fantasmas de barcos e turistas que deixaram de passar.

"Não vou largar a rua. Só a troco por uma casa, mas não me dão uma casa, nem tenho rendimento para a alugar.... Na rua sou livre. Livre! É a única coisa que ainda não perdi", diz Samurai, e desaparece rua abaixo com o Ricardo, que esperava ali deitado pela hora da refeição, e os dois internam-se na escuridão.

Só quatro rondas ativas

Raquel Rebelo, dos Médicos do Mundo, a única equipa médica que continua a cruzar as ruas do Porto, dá uma ótima sugestão: "Porque não se abre aqui, como Espinho vai fazer, um parque de campismo para os sem-abrigo? Era, se calhar, digo eu, algo que os convenceria a largar a rua, não acha?".

Há muito "a trabalhar no limite e agora ainda mais", Raquel mantém ativas as rondas de rua, o gabinete, a equipa de Barcelos e a outra que vai ao Centro Joaquim Urbano levar consultas, seringas e cachimbos aos consumidores inveterados. Ela apela: "Precisamos de máscaras, luvas, batas e desinfetantes". Alguém pode doar? E depois ela partilha esta aflição: "Voltamos a ter fome na rua. Sim, fome. Há utentes, sobretudo os dos bairros de tráfico e consumo, a quem não chega a comida. Não serão tão visíveis como os sem-abrigo, mas já estão a aumentar".

Com 400 refeições entregues por dias no Centro Joaquim Urbano, os voluntários do CASA não servem só refeições; mantêm as rondas de rua, terças, sextas e domingos, às 21 horas, atrás do Bom Sucesso. Sexta-feira, confirma Teresa Moreira, que trabalhou com mais dois voluntários, o Filipe e o Rui, e serviram 50 pessoas com kits de takeaway, a comida quente esfumou-se em menos de 10 minutos.

Natália Coutinho, outra coordenadora do CASA, corrobora: os seus 200 voluntários passaram a 70, "todas as estruturas estão a perdê-los, temos de os recuperar, o número caiu drasticamente". Das 22 equipas de comida de rua que operavam no Porto, sobram só quatro: o CASA, a LBV, o Café Convívio - Assembleia de Deus e os Missionários da Fundação Allamano.

Os privados também se eclipsaram da rua, há de confirmar o padre Rubens Marques, que dá de comer a 280 pessoas por dia na Porta Solidária da Igreja do Marquês, a única estrutura aberta, além da Casa Mãe Clara, na Boavista, que serve 200 refeições diárias no regime agora obrigatório de takeaway.

O padre Rubens revela: "Estamos outra vez com números perto dos da crise económica de 2009. Receio que os venhamos a superar".

Além de muito trabalho, o prelado vive o estado de emergência "com muita oração, seriedade, serenidade e esperança". E todos os dias, todos sem faltar, o padre reza uma missa. Mas ele nunca viveu nada assim nos 33 anos desde a sua ordenação: a igreja está desolada, ele ouve a sua voz a ecoar na assembleia, e vê-a todos os dias desalentadamente vazia de fiéis.

Radiografia breve do resto do país sem teto

Há 3400 pessoas sem-abrigo em Portugal

Lisboa concentra 44% do total nacional (3400) de pessoas sem-abrigo: Segue-se o Porto, com 24%, ou seja, 560 pessoas, entre as quais 100 a viver na rua e 460 já alojadas temporariamente. No Orçamento do Estado para 2020 constam 7,5 milhões de euros para a Estratégia Nacional de Integração dos Sem-Abrigo.

Guimarães lança apelo à sinalização
A Câmara de Guimarães e a CERCIGUI criaram um "espaço de alojamento para sem-abrigo, com todas as condições de higiene, segurança, conforto e acesso a refeições". A Autarquia apela à população que informe sobre casos de pessoas sem-abrigo a precisar de ajuda. Por telefone: 253421255, 969264803 ou 969264761. Ou por e-mail para: geral@cm-guimaraes.pt.

Coimbra está a monitorizar 40 sem-abrigo
Os 40 sem-abrigo de Coimbra estão a ser encaminhados para instituições de acolhimento, via Segurança Social. São monitorizados diariamente em relação à Covid-19, disse Jorge Alves, vereador da Ação Social.

Em Lisboa já há quatro centros de acolhimento
A Câmara de Lisboa ativou quatro pontos de acolhimento a sem-abrigo: no Pavilhão Casal Vistoso; no Pavilhão da Tapadinha, em Alcântara, cedido pelo Atlético Clube de Portugal; na Casa do Lago, em S. Domingos Benfica; e no Clube Nacional de Natação, já transformado em centro de acolhimento de emergência.

Espinho já os acolhe no parque de campismo
A Câmara de Espinho e o Grupos de Escuteiros de Anta montaram 17 tendas para acolher sem-abrigo no parque de campismo. Há apoio de comida e WC.

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Testes a idosos e funcionários em lares só para quem tiver infeção

in DN

São as unidades móveis da Cruz Vermelha Portuguesa que vão testar se funcionários e idosos dos lares de Lisboa têm infeção. Depois, será recolhida uma amostra para análise ao novo coronavírus. Chama-se "triagem smart" e começa esta terça-feira.

A Residência Pratinha, em Famalicão, foi dos primeiros lares onde se detetou a presença de covid-19, tendo recebido, então, uma equipa do INEM para a recolha de amostras para análise. © Miguel Pereira/Global Imagens

Os anunciados testes ao covid-19 nos lares de terceira idade vão começar por Lisboa e terão um formato diferente do habitual. Haverá uma primeira triagem rápida, feita pela Cruz Vermelha Portuguesa, e só depois de detetada uma infeção avançar-se-á para um teste mais específico à covid-19 fornecido pelo Insituto de Medicina Molecular. É o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) que centraliza toda a informação sobre este processo, embora o gabinete da ministra Ana Mendes Godinho não tenha respondido às perguntas do DN.

A medida anunciada pelo governo resulta de um protocolo com o Instituto de Medicina Molecular (IMM), que anunciou ter uma capacidade para a realização de 300 testes por dia, e da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), que irá deslocar-se às residências seniores e fará as zaragatoas para a recolha das primeiras amostras. Começam, para já, na Grande Lisboa, estendendo-se posteriormente a Aveiro, Évora, Guarda e Faro. O primeiro-ministro afirmou que o objetivo é alargar os testes a todo o país na próxima semana.

António Costa sublinhou que tal objetivo será alcançado com "o esforço", das universidades e politécnicos. Terá sido essa a razão pela qual os testes vão começar em Lisboa, Aveiro, Évora, Guarda e Faro, onde estão os centros de investigação que se disponibilizaram para fazer as análises ao vírus. Nesse sentido, estabeleceram-se já acordos com as universidades de Aveiro, da Beira Interior e do Algarve, além da Nova de Lisboa (IMM).

A diretora do IMM, Maria Manuel Mota, disse ao DN que têm capacidade para realizar dez mil no total, mas que nem todos se destinarão aos lares, uma vez que há outros acordos. O trabalho com a CVP estende-se às suas unidades de saúde, cujas análises já estão a ser feitas pelo instituto.

Nesta terça-feira, às 17.30, será feito o lançamento da "triagem smart" no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, com testes rápidos e que levam oito a dez minutos a obter um resultado. "É uma análise bioquímica e, nos casos em que há alterações (infeção), só a esses, faremos uma zaragatoa para o diagnóstico molecular da presença do vírus, cujas análises serão feitas pelo laboratório de biologia do IMM", explicou ao DN o diretor da CVP, Francisco George.

Adiantou que o programa de testes em lares arranca logo após o lançamento daquelas unidades móveis, onde se espera a presença dos ministros Ana Mendes Godinho e Manuel Heitor. Uma unidade móvel irá para o lar, entretanto indicado pelo MTSSS. Numa primeira fase, os técnicos da Cruz Vermelha apenas irão aos lares da Grande Lisboa.


Uma segunda unidade ficará junto ao hospital, para receber os utentes que, através da aplicação "triagem smart" e do preenchimento de um questionário, poderão fazer a mesma triagem.

94 mil utentes vivem em instituições públicas e privadas.

Sérgio Cintra, responsável da Ação Social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), ainda não teve qualquer indicação sobre a realização de testes aos utentes que apoiam: 497 pessoas nas 13 residências seniores da instituição e 1512 que estão em outras Instituições. "A indicação que temos é que, nesta primeira fase, os testes são canalizados para os locais onde há evidência de contaminação, para acautelar quem precisa de cuidados médicos e que deverá ser separado dos restantes. E nós, felizmente, não temos nenhum caso."

A SCML criou em finais de fevereiro um plano de contingência, com a implementação de medidas de higiene e o uso de equipamentos de proteção, além da disponibilização de quartos que permitem o isolamento dos utentes contaminados pelo vírus.

O relatório da Carta Social de 2018 indicava a existência de 94 067 residentes em lares, distribuídos por 1704 unidades apoiadas pela Segurança Social e 717 equipamentos privados. O objetivo é que, aos dez mil testes disponibilizados ao longo dos próximos meses pelo IMM, se juntem os de outros centros de investigação, seguindo os mesmos protocolos do Instituto da Universidade Nova de Lisboa.


O padre Lino Maia, que preside à Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade, em coordenação com os representantes das cooperativas, misericórdias e associações mutualistas, pediram ao MTSSS para ser informados da calendarização dos testes. "Numa primeira fase, serão examinados os locais onde existam suspeitas de covid-19, segundo uma ordem definida pela da Segurança Social. Penso que este será o método adequado", defendeu.

Também João Ferreira Almeida, diretor da Associação de Lares para Idosos, aceita aquele método, salientando que apenas têm conhecimento de três casos do SARS-Cov-2 em estabelecimentos privados.