18.6.18

Crianças são mantidas em gaiolas na fronteira dos EUA

in Público on-line

Repórteres foram autorizados a visitar armazéns onde estão detidos os filhos de imigrantes retirado à força aos imigrantes e refugiados que tentaram entrar ilegalmente no país. E saíram indignados.

Centenas de crianças filhas de imigrantes e refugiados que tentaram entrar ilegalmente nos Estados Unidos foram postas em gaiolas, dentro de armazéns no Sul do Texas, enquanto esperam pelos seus pais, diz a Associated Press.

Numa dessas gaiolas metálicas aglomeram-se 20 crianças. Segundo a agência noticiosa, estão entre garrafas de água, sacos de batatas fritas e grandes folhas de papel que servem de cobertores.

De acordo com os jornalistas que foram autorizados a visitar as instalações, na sequência das críticas e protestos contra a política de “tolerância zero” do Presidente Donald Trump, mais de 1100 pessoas estão dentro de um armazém que foi dividido em alas separadas para crianças desacompanhadas, adultos sozinhos e mães com filhos.
As gaiolas de cada ala abrem-se para áreas comuns, onde estão instalações sanitárias portáteis. A iluminação geral fica acesa 24 horas por dia. Os jornalistas não foram autorizados a entrevistar os detidos ou a tirar fotografias.

Duas mil crianças retiradas
Quase duas mil crianças foram retiradas dos pais desde que o attorney general (equivalente a ministro da Justiça) Jeff Sessions anunciou a política de "tolerância zero" que visa desencorajar a imigração sem documentos e que leva a que todos os imigrantes sejam acusados criminalmente.

Melania Trump "não gosta" de ver famílias separadas na fronteira
Grupos religiosos e de defesa dos direitos humanos têm criticado duramente a medida de Trump que qualificaram como “desumana”, sobretudo desde que se foi percebendo que as crianças estavam a ser tiradas aos pais à entrada nos Estados Unidos.

No Vale do Rio Grande, no Texas, o “corredor” mais movimentado para os migrantes que tentam entrar nos Estados Unidos, os responsáveis pela patrulha da fronteira dizem que separar os adultos das crianças é uma forma de reprimir a imigração e dissuadir novas entradas ilegais. Garantem que todos os detidos recebem alimentação adequada e têm acesso a assistência médica, chuveiros e roupa lavada.
De acordo com a lei, a detenção é temporária. As crianças devem ser encaminhadas para outro tipo de serviços de apoio num prazo de três dias e, segundo as autoridades policiais da fronteira, as crianças com menos de cinco anos foram mantidas com as respectivas famílias, na maior parte dos casos.

Uma responsável pela Women’s Refugee Comission, uma associação de defesa dos direitos dos imigrantes, Michele Brane, passou várias horas nos armazéns onde estão alojados os imigrantes e disse estar “profundamente chocada” com o que viu. Contou ter conhecido uma adolescente de 16 anos que durante três dias tomou conta de uma criança de quatro anos originária da Guatemala. Brane relatou ter visto os responsáveis pelas instalações a repreenderem um grupo de crianças de cinco anos por estarem a brincar na cela, dizendo-lhes para se acalmarem.

Sessions cita Bíblia para justificar retirada de crianças às famílias nas fronteiras
“O Governo está mesmo a retirar as crianças dos pais, deixando-as em condições impróprias”, declarou Brane, acrescentando que se um dos pais deixasse um dos filhos numa gaiola sem supervisão com outras crianças seria responsabilizado por tal comportamento.

EUA já separaram 1.995 crianças dos pais na fronteira com o México

Gustavo Sampaio, in Jornal Económico

Nas primeiras seis semanas da nova política de imigração de “tolerância zero” nos EUA, as autoridades norte-americanas já separaram 1.995 crianças dos respetivos pais, ou tutores legais, na fronteira EUA-México.

A nova política de imigração dos EUA, baseada em “tolerância zero”, entrou em vigor há seis semanas e, desde então, as autoridades norte-americanas já separaram 1.995 crianças dos respetivos pais, ou tutores legais, na fronteira a sul com o México.

Em causa estão imigrantes que atravessaram a fronteira e foram captura dos em território dos EUA, sem documentação. Ao serem detidos, podendo vir a ser acusados de “conduta criminal”, os adultos são separador das crianças, numa vertente na nova política anunciada pelo Procurador-Geral Jeff Sessions e que está a ser alvo de muitas críticas por parte de organizações de defesa dos direitos humanos.

Para reactivar o "elevador social" é preciso apostar no pré-escolar, sugere OCDE

Natália Faria, in Público on-line

Estudo da OCDE aponta Portugal como um dos países com menor mobilidade social. “As hipóteses de os jovens terem uma carreira de sucesso dependem fortemente das suas origens sócio-económicas e do capital humano dos pais”, criticam peritos.

Apostar numa educação pré-escolar capaz de compensar nas crianças o facto de provirem de meios sociais desfavorecidos; dotar os professores de ferramentas capazes de suster o abandono escolar; reduzir as iniquidades no acesso à saúde; garantir o desaparecimento de guetos na organização espacial das cidades: eis quatro das mais de duas dezenas de medidas sugeridas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) para fomentar a mobilidade social nos diferentes países.

No estudo Um Elevador Social Avariado – Como Promover a Mobilidade Social, divulgado esta sexta-feira, a OCDE aponta o agravamento da falta de mobilidade social, ascendente e descendente, na generalidade dos 35 países analisados, como se quer os tectos dos rendimentos mais altos quer os pisos dos que se enquadram nos rendimentos mais baixos tivessem levado uma camada extra de cola que impede as pessoas de subir e descer na escala social.

Como os perigos decorrentes da estagnação social não são nada negligenciáveis, nomeadamente porque reforça o risco de aparecimento de movimentos extremistas e populistas que põem as democracias em risco, os peritos da OCDE alongam-se numa série de sugestões que abarcam ainda a implementação de políticas fiscais progressivas e o reforço dos sistemas de protecção no desemprego. “Face à volatilidade do rendimento trazida pelas novas formas de emprego, [poder-se-á] vincular a protecção social ao indivíduo em vez de ao emprego”, precisam.

No conjunto de factores que promovem uma trajectória social ascendente, as origens sócio-económicas e o capital humano dos pais ainda são os principais determinantes. Na média da OCDE, uma criança cujos pais não tenham completado o secundário “tem apenas 15% de hipóteses de chegar à universidade”. Já as crianças com pelo menos um dos pais detentores de um diploma universitário vêem essa possibilidade aumentar para os 60%. E o passo seguinte é a constatação de que uma menor escolarização tende a traduzir-se em vidas mais curtas. Na prática, um universitário de 25 anos pode esperar viver mais quase oito anos do que alguém que não chegou à universidade. No caso das mulheres, a diferença é de 4,6 anos.

Quando aponta o foco a Portugal, a OCDE conclui que podem ser precisas até cinco gerações para que as crianças nascidas numa família de baixos rendimentos consigam atingir rendimentos médios. É uma espera acima da média dos países da OCDE, que se fixa nas 4,5 gerações. Nos países nórdicos, a média é de duas gerações.

Desde logo, Portugal não se sai bem quanto a indicadores como a educação e a ocupação profissional. “A mobilidade medida a partir da educação é a mais baixa dos países da OCDE”, apontam os peritos, para vincarem: “Apesar das reformas generalizadas que visam melhorar o nível de escolaridade e reduzir o abandono escolar precoce em Portugal, as hipóteses de os jovens terem uma carreira de sucesso dependem fortemente das suas origens sócio-económicas e do capital humano dos pais.”

Para o director do Observatório das Desigualdades, Renato do Carmo, este meio fechamento do percurso social ascendente deriva do facto de Portugal ter um nível de escolarização ainda muito abaixo da média europeia: "A educação, sobretudo ao nível secundário e superior, não está suficientemente generalizada."

O observatório publicou, anteontem, indicadores que mostram que Portugal era, em 2017, o país da União Europeia a 28 cuja população adulta tinha níveis de escolaridade mais baixos. Mais de metade (52%) dos portugueses entre os 25 e os 64 anos não tinham ido além do básico – contra uma média europeia de 22%. Por outro lado, a percentagem da população portuguesa que completou a universidade é 7,4 pontos percentuais mais baixa do que a média europeia, numa desigualdade que chega aos 22 pontos percentuais quando se compara a escolarização secundária.

No tipo de ocupação profissional, as desigualdades entre portugueses tornam-se mais vincadas. Mais de metade (55%) das crianças filhas de trabalhadores manuais tornam-se elas próprias trabalhadoras manuais – a média da OCDE é de 37%. Ao mesmo tempo, os filhos de profissionais em posições de chefia (gestores, directores…) têm cinco vezes mais hipóteses de ascenderem a posições de chefia do que os filhos de trabalhadores manuais.

“Fui eu que inventei o design democrático e fui eu que ganhei essa luta”
Quanto à mobilidade social ao longo da vida, é também limitada. No escalão de rendimentos do topo, 69% das pessoas que se enquadram nesta categoria tendem a permanecer nela ao longo dos quatro anos seguintes. E, quanto aos que estão entre os 20% da população com rendimentos mais baixos, 67% ficam encurralados nesse escalão, como se estivessem “colados ao chão”, na expressão dos peritos europeus.

O desemprego de longa duração pode ajudar a explicar o agravamento desta falta de mobilidade social nos escalões mais baixos. “A crise contribuiu para que esta mobilidade social ascendente não ocorra, nomeadamente por causa do aumento do desemprego de longa duração”, sublinha Renato do Carmo, para quem seria interessante analisar “a forma como a precarização dos vínculos laborais também está a limitar os processos de ascensão social”.

Rio aberto a colaborar com o Governo no combate à pobreza

Margarida Gomes, in Público on-line

Líder do PSD reuniu-se ontem com a direcção da Rede Europeia Antipobreza e admitiu incluir o tema da pobreza no programa eleitoral do partido.

No dia em que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revela que são precisas cinco gerações para se sair da pobreza em Portugal, Rui Rio declara que o PSD está disponível para colaborar com o Governo numa estratégia de combate à pobreza, admitindo mesmo incluir esta matéria no programa eleitoral do partido, onde constarão as linhas orientadoras desse combate.

"Se antes das eleições, este Governo quiser fazer alguma coisa de estrutural [no combate à pobreza], temos toda a disponibilidade para colaborar, porque ser oposição é também defender o interesse nacional, e não estar sempre a dizer mal de tudo", declarou o presidente do PSD, aos jornalistas, numa conferência de imprensa, que se seguiu à reunião que teve com o presidente da Rede Europeia Antipobreza, o padre Jardim Moreira, na sede do PSD, no Porto.
A propósito, o líder social-democrata revelou que, em breve, irá ocorrer uma outra reunião entre o presidente da Rede Europeia Antipobreza e os membros da área social do Conselho Estratégico Nacional do PSD, para que depois seja inscrito no programa eleitoral uma estratégia de combate à pobreza.

Referindo- se ao relatório da OCDE que revela que uma família pobre portuguesa precisará de cinco gerações para sair desse cenário, Rio considerou- o "inaceitável num país que se quer desenvolvido" e que "faz parte da União Europeia". Para Rui Rio, "qualquer programa de luta contra a pobreza tem de ter a participação muito activa das autarquias (câmaras e juntas de freguesia) e Instituições Particulares de Solidariedade Social", pois a sua execução – sublinha –"requer muita proximidade". Sublinhando que cabe ao Estado definir uma estratégia nacional, Rui Rio reafirmou a importância de envolver as autarquias neste combate, considerando-as “vitais" nessa execução.

Antes, o presidente da Rede Europeia Antipobreza, o padre Jardim Moreira, insurgiu-se contra a falta de empenho dos sucessivos governos em relação à pobreza, vincando trata-se de um problema que "só se resolve com uma intervenção estrutural e multidimensional". De outra forma, disse, "tal não é possível”. “Continua-se a gastar dinheiro para alimentar os pobres e manter os dependentes”.

E porque domingo se assinala um ano da tragédia dos incêndios em Pedrógão, os jornalistas quiseram saber se Rio considera que o país está agora mais bem preparado do que em 2016 em matéria de combate a incêndios. “O país está mais bem preparado do que no ano passado para combater incêndios", mas, ao mesmo tempo, observa que “não estamos com a organização que deveríamos e que poderíamos estar. Estamos um pouco entregues à nossa sorte”.

Relatório da OCDE: Alunos carenciados precisam dos professores mais qualificados e experientes


in o Observador


Portugal faz parte do grupo de 24 países onde o rácio professores/alunos varia consoante as características da comunidade: nas escolas mais difíceis há, em média, um docente para cada 10 alunos.
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Portugal é um dos países onde as escolas favorecidas empregam "significativamente mais professores seniores nas escolas mais carenciadas"

As escolas com alunos mais carenciados deviam ter os professores mais experientes e qualificados. Contudo, não é isso que acontece na maioria dos países, segundo um relatório da OCDE que acaba de ser divulgado, e e no qual Portugal também é analisado. E Portugal é um dos países onde as escolas favorecidas empregam “significativamente mais professores seniores nas escolas mais carenciadas”.

“Em tudo o mundo, as crianças de famílias favorecidas irão encontrar portas abertas para uma vida de sucesso, enquanto as crianças de famílias pobres terão muitas vezes apenas uma oportunidade na vida, e essa oportunidade é ter uma boa escola que lhes dê a oportunidade para desenvolver o seu potencial”, escreveu Andreas Schleicher, director de Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Focado nesta ideia, o estudo da OCDE (Effective Teacher Policies), tornado público nesta segunda-feira, analisou as diferentes políticas educativas relacionadas com os professores para tentar descobrir quais as medidas que podem fazer a diferença.

Uma das acções desenvolvidas pela maioria dos países foi reduzir o tamanho das turmas e ter “mais professores por aluno em escolas desfavorecidas, comparativamente com as escolas privilegiadas”. Uma situação que também aconteceu em Portugal.

Num universo de 72 países analisados, 38 acreditaram que era importante ter turmas mais pequenas nas escolas mais problemáticas. Portugal é um desses países: as escolas com resultados escolares mais fracos têm menos alunos por turma (24) quando comparados com os restantes estabelecimentos de ensino, que têm, em média, turmas com 27 estudantes, segundo dados de 2015.

Portugal também faz parte do grupo dos 24 países onde o rácio professores/alunos varia consoante as características da comunidade escolar: nas escolas mais difíceis há, em média, um professor para cada dez estudantes, enquanto nos restantes estabelecimentos de ensino a média é de um docente para 12 estudantes.

No entanto, “a lacuna no desempenho académico entre estudantes favorecidos e desfavorecidos parece não estar relacionada com o tamanho das turmas”, alertou Andreas Schleicher.

Já as qualificações, experiência e qualidade dos professores poderão fazer a diferença, mas a maioria dos países não consegue atrair os mais qualificados para as escolas mais desafiadoras. Portugal não é excepção: nas escolas com alunos de famílias mais carenciadas há uma média de 92 docentes mais qualificados, enquanto nas outras escolas a média é de 98 docentes.

Qualquer política de professores que vise lidar com a desvantagem do estudante deve-se esforçar para alocar professores de qualidade, e não apenas mais professores, para alunos carentes”, defende a OCDE.
Os próprios directores reconhecem que a falta de docentes qualificados é “uma barreira importante para superar as desvantagens e melhorar a aprendizagem”.

Portugal é apontado como um dos países onde as escolas favorecidas empregam “significativamente mais professores seniores do que as escolas mais carenciadas”, surgindo assim ao lado de países como a Espanha, Austrália, Itália, República Dominicana e Estados Unidos da América.

Para conseguir ter os mais talentosos a trabalhar nas escolas e salas de aulas mais difíceis é preciso dar condições especiais que atraiam estes profissionais, sublinham os investigadores.

“As condições de trabalho e o salário têm de ser reflectidos nos casos em que as tarefas são mais difíceis, porque assim (os directores) terão mais capacidade para atrair os professores mais talentosos para as classes mais desafiantes”, defende a OCDE.

Segundo os investigadores, as escolas com autonomia para contratar e estabelecer salários parecem conseguir responder melhor às necessidades dos alunos, mas o mesmo estudo alerta para o facto de não existir uma relação entre autonomia e equidade na colocação de professores.

Andreas Schleicher defende, precisamente, que é preciso proteger mais os professores e escolas que trabalham nas circunstâncias mais difíceis, criando condições para que se sintam “apoiados na sua vida profissional e pessoal quando enfrentam desafios adicionais”.

É preciso valorizar o esforço adicional e é preciso que esse trabalho seja reconhecido publicamente, defende o director da OCDE, lembrando que tal já acontece em alguns países, onde “até mesmo as crianças mais desfavorecidas têm alto desempenho”.

“Está ao nosso alcance entregar um futuro para milhões de alunos que actualmente não o têm”, concluiu Andreas Schleicher.

Portugal vai reforçar o combate ao tráfico humano

in RTP

A garantia foi dada pelo diretor de Investigações do SEF numa entrevista ao programa da RTP "Olhar o Mundo".

Gonçalo Rodrigues adianta que haverá um procurador a trabalhar com uma equipa especializada do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
Uma decisão que surge depois de ter sido detetado que os aeroportos portugueses estariam a ser utilizados no tráfico de crianças africanas.

15.6.18

São precisas cinco gerações para se sair da pobreza em Portugal

in Jornal de Notícias

Uma família portuguesa de fracos recursos socioeconómicos pode demorar 125 anos até que os descendentes consigam alcançar um salário médio.

A conclusão faz parte de um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre mobilidade social, divulgado esta sexta-feira.

"Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se na avaliação sobre Portugal.

Os dados da OCDE mostram que em Portugal, 33% das pessoas concordam que a educação dos pais é importante para ser bem-sucedido na vida, uma percentagem ligeiramente inferior à média da OCDE, com 37%, ao mesmo tempo que muitos se revelaram pessimistas sobre as suas hipóteses de melhorarem a sua situação financeira.

"Apenas uma minoria (17%) esperava em 2015 que a sua situação económica melhorasse no ano seguinte e há uma preocupação em relação ao futuro dos descendentes", diz a OCDE.

A instituição acrescenta que já em 2018 realizou um inquérito, "Riscos que contam", em que 58% dos pais portugueses colocaram no top três das suas preocupações o risco dos filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

Na comparação com os restantes países analisados (Austrália, Brasil, Chile, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia, México, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos), Portugal surge como aquele onde a "mobilidade medida em termos de educação é menor".

"Apesar das várias reformas para combater o absentismo escolar e reduzir o abandono escolar precoce, as hipóteses dos mais jovens terem uma carreira de sucesso depende fortemente da sua origem socioeconómica ou do nível de capital humano dos pais", lê-se no relatório.

A mobilidade social não é distribuída uniformemente ao longo das gerações e em Portugal 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter baixos rendimentos. No lado oposto, 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados crescem para também elas terem rendimentos elevados.

Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais trabalhadores manuais acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE. Ao mesmo tempo, os filhos de gestores têm cinco vezes mais probabilidades de serem também gestores.

Olhando para a mobilidade ao longo da vida, o fenómeno em Portugal é igualmente limitado, particularmente na base e no topo, sendo que entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos há poucas hipóteses de subirem durante quatro anos e 67% acabam por nunca sair.

"No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos", diz a OCDE.

Para a organização, a falta de mobilidade na base pode estar relacionada com os níveis elevados de desemprego de longa duração e a segmentação do mercado laboral.

A OCDE refere que a falta de mobilidade social não é uma inevitabilidade e que há margem para políticas que aumentem a mobilidade entre gerações e ao longo da vida, deixando três objetivos: apoiar as crianças de meios desfavorecidos, assegurando uma boa educação pré-escolar, combater o desemprego de longa duração e aumentar o nível de qualificações através da educação para adultos.

O relatório pretende mostrar os prejuízos da fraca mobilidade social, em que as pessoas mais pobres, na base da escada remuneratória, têm poucas hipóteses de subir, da mesma maneira que os que estão no topo permanecem lá.
De acordo com a OCDE, isto tem consequências negativas tanto em termos sociais, como económicos e políticos, já que a falta de mobilidade social implica que muitos talentos não estejam a ser aproveitados, o que diminui o potencial crescimento económico, além de reduzir o bem-estar e a coesão social.

Filho de pobre tem dificuldade em chegar a rico em Portugal

in Jornal de Notícias

Portugal surge como aquele onde a “mobilidade medida em termos de educação é menor” e 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam por ter baixos rendimentos enquanto 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados crescem para ter o mesmo futuro, segundo indica o relatório da (OCDE) sobre mobilidade social

A condição económica transmite-se “fortemente” de geração em geração, de tal modo que o filho de um pobre tem dificuldade em chegar a rico em Portugal. As conclusões constam de um estudo da OCDE, onde se mostra que uma família portuguesa de fracos recursos socioeconómicos pode demorar 125 anos até que os seus descendentes consigam alcançar um salário médio.

Segundo o trabalho da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), “tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se na avaliação sobre Portugal.

Os dados da OCDE mostram que em Portugal, 33% das pessoas concordam que a educação dos pais é importante para ser bem-sucedido na vida, uma percentagem ligeiramente inferior à média da OCDE, com 37%, ao mesmo tempo que muitos se revelaram pessimistas sobre as suas hipóteses de melhorarem a sua situação financeira.

"Apenas uma minoria (17%) esperava em 2015 que a sua situação económica melhorasse no ano seguinte e há uma preocupação em relação ao futuro dos descendentes", diz a OCDE.

A instituição acrescenta que já em 2018 realizou um inquérito, "Riscos que contam", em que 58% dos pais portugueses colocaram no top três das suas preocupações o risco dos filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

Na comparação com os restantes países analisados (Austrália, Brasil, Chile, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia, México, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos), Portugal surge como aquele onde a "mobilidade medida em termos de educação é menor".

"Apesar das várias reformas para combater o absentismo escolar e reduzir o abandono escolar precoce, as hipóteses dos mais jovens terem uma carreira de sucesso depende fortemente da sua origem socioeconómica ou do nível de capital humano dos pais", lê-se no relatório.

A mobilidade social não é distribuída uniformemente ao longo das gerações e em Portugal 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter baixos rendimentos. No lado oposto, 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados crescem para também elas terem rendimentos elevados.

Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais trabalhadores manuais acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE. Ao mesmo tempo, os filhos de gestores têm cinco vezes mais probabilidades de serem também gestores.

Olhando para a mobilidade ao longo da vida, o fenómeno em Portugal é igualmente limitado, particularmente na base e no topo, sendo que entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos há poucas hipóteses de subirem durante quatro anos e 67% acabam por nunca sair.

"No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos", diz a OCDE.

O que é ser pobre? Quantos pobres há? Somos mesmo menos pobres? E ter trabalho chega para não ser pobre?

in Expresso</i>


Retrato da parte do país que vive com menos de €454 mensais. Jornalismo de dados em dois minutos e 59 segundos. Para explicar o mundo

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14.6.18

Violência psicológica é a mais comum contra os idosos

in Correio de Oeiras

Violência psicológica é a mais comum contra os idosos Para assinalar o dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa que é celebrado no da 15 do Junho fornos perceber qual é o perfil da vitima idosa.

A violência contra os idosos nao é o tipo de violência mais comum no pais, ainda assim tem algum peso nas estatísticas principalmente quando se fala em violência psicológica que segundo Sinais de Violência Psicológica/ Verbal Se convive com pessoas idosas esteja atento aos sin ais de possível Violência PsicológicaNerbal e denuncie sempre que desconfiar de uma situaçao destas: A pessoa idosa encontra-se emocionalmente perturbada; Aparenta isolamento; Insónias: Medo das outras pessoas: a APAV 'é a segunda causa mais comum de violência sobre as pessoas idosas, imediatamente a seguir ã Negligência".

Segundo Monica Pereira, administradora da residência Aso, este tipo de violência é na sua maioria praticada por familiares próximos da vitima. Muitas vezes soo os próprios filhos que se tornam violentos para os pais com o objetivo de se apropriarem dos bens e poupanças destas pessoas. Esta violência é feita de forma manipuladora e provoca no idoso dor, angústia e isolamento social, sentimentos que as associações de apoio à vitima e aos idosos querem combater pela dignidade das pessoas, mostrando o outro lado, independentemente do que lhes possa ter acontecido, que ainda há vida para alem disso.

Deprossao nao habitual; Manifesta uma recusa inexplicável em participar nas atividades normais: Depreciaçao e/ou ameaças por parte de membros da família Falar sobre o assunto Para consciencializar a populaçao para este problema vao decorrer vários eventos. Na residência MO, por exemplo, haverá um fórum debate no dia 14 de junho, com entrada gratuita mediante insaiçao prévia. Neste evento estarao presentes a APAV e a GNR para explicarem como as pessoas podem reportar estas situações. O professor José Pinto da Costa, vai falar de casos de violência mais fisica, e no final falar-se-á sobre perspetivas futuras, nomeadamente tornar as questões mais humanizadas.

“Sou o Charlie e elas os anjos”. Acusações de machismo na conferência de media no Estoril

Rui Pedro Antunes, in o Observador

O presidente da Associação Portuguesa de Imprensa foi acusado de machismo durante conferência internacional dos Media, que alertou para os problemas de igualdade de género no jornalismo.

“Eu sou o Charlie e elas os meus anjos”.”Eu não sei se estou preparado para as partilhar com vocês”. “Vou dar um beijo a Christin em nome de todos vocês”. “Ela está envergonhada”. “Dê-me um beijinho, por favor”. “É uma mulher portuguesa, por isso, não é tão envergonhada”. As frases são todas do presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro, que foi acusado de machismo na intervenção que fez no palco durante o jantar de gala World News Media Congress, que se realizou entre 6 e 8 de junho no Estoril.

Vários representantes internacionais manifestaram-se indignados com este momento, o que levou Palmeiro a pedir desculpa no último dia do congresso. Em declarações ao Observador, Palmeiro admite que teve um “momento infeliz” e diz que não queria melindrar ninguém.

No vídeo, partilhado por Yusuf Omar, um dos participantes no congresso e fundador do Hashtagourstories.com, João Palmeiro começa por dizer, dirigindo-se às mulheres que, com ele, colaboraram na organização do evento: “Elas são os meus anjos. Eu não sei se estou preparado para as partilhar com vocês. É uma dream team. Eu sou o Charlie e elas são os anjos”. Pelo meio, o presidente da Associação Portuguesa de Imprensa — que incluiu os grandes grupos de media que existem no país — colocou algumas capas nas mulheres que estavam no palco.

Depois, em tom de brincadeira disse: “Agora, em nome de todos vocês, eu vou beijar Christin“. Como Christin Herger, da World Association of Newspapers, se mostrou um pouco desconfortável com a situação, Palmeiro comentou: “Ela está envergonhada“. E depois voltou a pedir enquanto se aproximava de Christin: “Dê-me um beijo, por favor“. Depois disso, quando se aproximou de outra das mulheres no palco, atirou: “Mulher portuguesa, por isso não é tão envergonhada, por isso um grande abraço e um grande beijo.”

Logo durante a conferência, questionado por Yusuf Omar, João Palmeiro admitiu que não refletiu “tanto como devia sobre o facto de todos não terem a mesma cultura” que ele. E o jornalista insistiu: “Na cultura portuguesa, a sua intervenção é aceitável?”. Ao que o presidente da API respondeu: “Absolutamente. É normal”. Depois do desconforto criado durante a conferência — que teve como um dos eventos paralelos um “Women In News Summit”, onde se discutiu os problemas de igualdade de género nos media — João Palmeiro pediu desculpa.

O presidente da API explicou ao Observador que, devido a esse desconforto, houve um encontro dos responsáveis da organização sobre se devia pedir desculpa e sobre a forma como o iria fazer. João Palmeiro explica ao Observador que esse pedido de desculpas foi “muito simples”: “Disse que se havia pessoas que se sentiam ofendidas, que pedia desculpa a essas pessoas”.

João Palmeiro justifica que “foi mal percebido” e que quis fazer algo diferente enquanto agradecia às pessoas. Achou que aquele registo de “humor” era melhor do que “agradecer às pessoas com cara de pau ou dizer ‘obrigado, passem bem'”. Lembrou ainda que trabalhou com aquelas pessoas durante meses. O presidente da API lamenta o sucedido e diz que, no limite, teve um “momento infeliz”.

Várias pessoas presentes na conferência ou que acompanharam os trabalhos mostraram-se indignadas por este momento. A investigadora da área do jornalismo, Julie Posetti, pergunta mesmo: “Foi este o momento #metoo das conferências de jornalismo?”

O tabagismo tem de ser eliminado. Mesmo o das mulheres

Fernando Leal da Costa, in o Observador

Portugal, a exemplo de outros países, deve estipular uma meta ambiciosa de tabagismo zero e definir um prazo para a atingir. Não, não é ficção, nem é impossível.

Existe um novo tipo de feminismo que está a prejudicar as mulheres muito mais do que a ajudá-las. Há umas supostas feministas que, em vez de procurarem enaltecer e aprofundar o que as mulheres, só elas, podem ter de melhor e diferente, tenta ativamente transformá-las em homens. Nada de mais errado. No dia em que as mulheres se “transformarem” em homens, aquilo que perderão é muito mais do que os possíveis ganhos. Só as mulheres têm a capacidade serem mães e a maternidade é muito mais do que a gestação e o parto. Só elas possuem uma insuperável delicadeza de modos, um inimitável bom senso e uma inesgotável capacidade de trabalho e sacrifício, para só referir algumas das magníficas características que o sexo feminino tem normalmente associadas e que devem ser valorizadas e reconhecidas por homens e mulheres igualmente. É certo que existem padrões culturais muitas vezes nefastos, frequentemente associados a religiões, que castigam as mulheres e lhes impede o direito de se realizarem plenamente. Há burkas, há inenarráveis violências como as vendas de filhas e os casamentos forçados, o horror da mutilação genital e há abusos e abusadores que nenhum nível de testosterona pode desculpar. Sejamos firmes na repulsa de todos os sistemas sociais em que haja exploração de seres humanos, independentemente do sexo, e muito mais empenhadamente no que concerne as práticas de humilhação e maus tratos dirigidos a mulheres. Mas não deixemos que obriguem as mulheres a serem homens ou, ainda pior, militantes assexuadas. Deixem-nas ser o que elas quiserem, para sua satisfação e realização.

Até nas sociedades pós-sufragistas, emergidas da revolução industrial, e mesmo nas civilizações denominadas de “ocidentais”, as democracias pós II Guerra Mundial, ainda há um longo caminho a percorrer quando se fala de salários para trabalho igual. Em boa verdade o trabalho das mulheres nunca é exatamente igual ao dos homens se ao que corresponde uma jornada normal de trabalho juntarmos as tarefas domésticas, quase sempre mal repartidas, e o desempenho da maternidade, área em que o sexo feminino é insubstituível por razões, antes de tudo, biológicas. Mas as mulheres também são mais vulneráveis a noxas ambientais e de formas diferentes das dos homens. Por mais que as novas feministas não queiram há uma condição biológica que é insuperável e condiciona riscos epidemiologicamente diferentes consoante os sexos. Por isso, apesar de linguisticamente estulto, é aceitável aquela repetição de género, senhoras e senhores, deputados e deputadas, portugueses e portuguesas. Antes isso que camaradas, apesar de dar para todos.

O excelente artigo de Alexandre Homem Cristo, “Princesas da Superficialidade” é um texto tão bom, em termos de saúde pública, que nada mais haveria a acrescentar sobre mulheres e tabaco. Ficou claro. As mulheres estão a fumar mais, de forma crescente em comparação com os homens, mais precocemente e, consequentemente, já houve anos suficientes sobre o início desta tendência, que se acelerou a partir dos anos 90 do século passado, para a mortalidade feminina por cancro não parar de aumentar, inclusivamente em cancros que matavam muitos mais homens do que mulheres. Para juntar à excelente coleção com que o Alexandre nos brindou cá vai mais uma referência bibliográfica que reforça a necessidade de montar campanhas específicas dirigidas a mulheres e a jovens mulheres.

Acresce que as mulheres fumadoras têm riscos específicos; maior probabilidade de AVC ou enfarte do miocárdio quando se associa o tabaco à pílula, maior probabilidade de menopausa precoce, maior risco de infertilidade, maior taxa de complicações na gravidez, maior incidência de problemas fetais, maior taxa de complicações vasculares em mulheres fumadoras que façam terapêutica de substituição hormonal, aumento de cancros como o da vulva. Além dos adoráveis dentes amarelos e das rugas que teimosamente aparecem mais cedo nas fumadoras.

Usem os estereótipos porque eles não existem por acaso e ainda bem que existem. É boa técnica em marketing, em especial em marketing social e é um dos pilares das campanhas de promoção da saúde e de prevenção das doenças. No caso do tabaco, como em outros vícios – termo que não deve ser escondido quando falamos de adições – o importante é impedir que se instale. No caso das mulheres até existem razões, como o medo de engordar, que tornam mais difícil a cessação e há diferenças entre os dois sexos na probabilidade de resposta aos medicamentos usados para facilitar a cessação. Logo, faça-se de tudo para as afastar do tabaco e, sobretudo, não facilitem o começo do hábito.

Conclusão: o Ministério da Saúde fez muito bem em ter autorizado esta campanha e a DGS foi, como em outras ocasiões, sábia na forma de procurar atingir o alvo neste tipo de campanhas na TV. Há uns anos, com outro anúncio excelente, procurou sensibilizar para os riscos da exposição ao tabaco fumado em veículos, com enfoque nas crianças que não têm como se proteger das baforadas dos pais. Quantos viram essa campanha? Quantos já viram este vídeo sobre os efeitos do tabaco em mulheres? Infelizmente, não os suficientes.

O que deveríamos estar a discutir, em vez dos comentários pindéricos sobre igualdade, neste caso igualdade no direito a deixarem-se matar, seria a falta de visibilidade de campanhas deste tipo que deveriam ser emitidas em horário nobre, antes dos telejornais e no meio das telenovelas ou do futebol, sem custos adicionais para o Estado, em todos os canais nacionais de televisão e, por maioria de razões, na RTP que é paga pelos portugueses. Esta seria uma iniciativa legislativa de grande impacto e que tarda em ser tomada. As televisões deveriam ter a obrigação contratual, para terem licença de emissão, de passar mensagens de promoção da saúde e de prevenção das doenças, sem custos adicionais para o governo.

Mas ainda há mais para fazer no que à eliminação do tabagismo diz respeito. Em primeiro lugar, Portugal, a exemplo de outros países, deve estipular uma meta ambiciosa de tabagismo zero e definir um prazo para a atingir. Não, não é ficção, nem é impossível.

Para isso, deve progressivamente aumentar os impostos sobre o tabaco, ainda demasiado baixos, abandonando a ideia de que eles sejam encarados como uma fonte de financiamento do Estado. Devem ser dissuasores e não financiadores. As empresas de manufatura de produtos de tabaco deveriam pagar um imposto de licenciamento de atividade que revertesse inteiramente para o SNS, independente dos impostos especiais a pagar pelos consumidores. Estes últimos devem ter um valor específico muito superior ao ad valorem.

O contrabando de tabaco tem de continuar a ser alvo de uma atenção especial, já que, havendo fronteiras abertas e enquanto não existir uma política de preço mínimo europeu, a fiscalidade elevada convida à candonga. A política fiscal não poderá permitir a substituição de tabaco queimado por produtos sem combustão ou vaporizadores, cujos riscos, desde que contenham nicotina, não são desprezíveis. Todavia, esta é uma área onde há investigação por fazer.

A venda de tabaco deveria ser limitada a máquinas de dispensa automática com controlo por chip do cartão de cidadão. Ao mesmo tempo que se deveria instituir um número máximo de unidades vendíveis/dia a cada cliente. O consumo de produtos com tabaco tem de ser proibido em todos os espaços de ensino, incluindo os de nível superior, mesmo nas áreas exteriores. As áreas de fumadores devem ser progressivamente eliminadas, começando por gares ferroviárias, centrais de camionagem, aeroportos, restaurantes, bares, casinos e estabelecimentos de diversão noturna. Em todos os perímetros de equipamentos de saúde, onde isso for possível estabelecer, não pode ser permitido fumar, aceitando que a ideia da distância mínima às janelas é muito mais difícil de impor e fiscalizar do que um conceito de proibição para dentro da “cerca” do hospital ou do centros de saúde.
Deve ser proibido fumar em veículos automóveis, como já acontece noutros países, porque a impregnação dos plásticos interiores é inevitável e conduz à libertação continuada de produtos tóxicos que serão respirados por quem lá seja transportado. Acresce que o risco de acidentes também é maior para condutores que estão a fumar, tal como se estivessem a falar ao telemóvel. E, como a fiscalização ao uso de telemóveis por condutores demonstrou, não é preciso multar todos os prevaricadores para que a medida de proibição tenha sucesso.

A exposição de produtos com tabaco ficará limitada ao que puder ser publicitado nas máquinas de dispensa automática. Com a tendência que já se desenha no mundo civilizado é expectável que os maços descaracterizados de marca e publicidade – plain packaging – venham a ser a regra. Ainda me lembro de quando apresentei o primeiro conjunto de alterações à Lei do Tabaco e ouvi alguns deputados da esquerda que nos governa a queixarem-se de que as imagens sobre os malefícios do tabaco, agora já exibidas em todos os maços de cigarros, eram demasiado “violentas”. Longos são os tentáculos da indústria tabaqueira e, pelos vistos, das feministas.
Seja como tiver de ser, preferivelmente mais depressa do que mais devagar, há que reduzir drasticamente o número de mortos, muitos deles antes dos 70 anos, devidos à exposição ao fumo do tabaco. O país não poderá ter o SNS de que precisamos com a carga de mortalidade precoce e incapacidade que o tabaco nos tem imposto. Por tudo isto, é fundamental que os partidos políticos tenham uma atitude construtiva, longe da direita vs esquerda, ambiciosa e consequente, para a eliminação do tabagismo. Deixem-se de demagogias e cálculos eleitorais de popularidade e defendam quem cá vive. Este é um assunto de pacto de regime. Não venham mais com teorias sobre a liberdade individual e os tradicionais sound bytes que só servem para tapar a cobardia de quem não se atreve, nem deixa que haja quem se atreva, a tomar decisões. Já chega da política para agradar a todos e que não agrada a ninguém.

Em qualquer caso, há uma coisa, entre tantas outras, que nunca se deve perder quando lidamos com pessoas, sejam elas mulheres ou homens; o respeito. O respeito por quem não fuma e não quer fumar o tabaco dos outros e pelos fumadores que, acima de tudo, devem ser ajudados a terminar a sua adição. Infelizmente não terão tido quem os ajudasse a não começar. Aí, o Estado falhou mas não pode continuar a falhar.

Menor seduzida na net for obrigada a prostituir-se

Óscar Queirós, in Jornal de Notícias

Foi atrás de “namorado” do Facebook e acabou explorada durante meses sob ameaça de morte

Aliciada por um homem no Facebook para fugir da instituição de Gondomar onde chegara há pouco, uma rapariga de Évora, com 16 anos, acabou abandonada nas ruas do Porto, cidade que desconhecia.

Esfomeada, sem dinheiro nem sítio para dormir, foi obrigada a prostituir-se sob ameaças de morte, durante meses. Foi há cinco anos, mas só agora os quatro indivíduos, mais o dono da pensão para onde a menor levava os clientes, começaram a ser julgados por crimes de lenocínio.

"Susana" (nome fictício) nasceu em Évora em janeiro de 1998, numa família tão problemática que, criança ainda, o Estado chamou a si a sua tutela. Mas a mudança não lhe deu felicidade. Fugiu das instituições para onde ia sendo empurrada, até chegar, em 2014 , a Gondomar, à "Coração de Ouro", uma instituição especializada em problemas comportamentais de crianças e jovens, onde a adolescente terá encontrado ajuda e carinho.

Mas durou pouco o aconchego. Com acesso ao Facebook, a menor foi seduzida por um tal "Fábio", que a convenceu a fugir. Foi a 5 de agosto de 2014. "Conseguiu passar entre as grades", disse uma educadora, para ir ter ao Porto com o "namorado" que, no mesmo dia, a apresentou a um casal - Mariana, 25 anos, e Aurélio, de 34. Apresentação feita, "Fábio" desapareceu (a Polícia nunca o encontrou), deixando "Susana" só, cheia de fome, sem dinheiro e sem teto para se abrigar. Decidiu pedir auxílio ao casal.

Embora soubessem a idade da rapariga e que estava fugida, diz a acusação do Ministério Público (MP) que o casal lhe ofereceu "alojamento sob condição de a mesma se dedicar à prostituição", em proveito deles. A adolescente, "sem alternativas", teve de "ceder e prostitui-se". Foi logo colocada "nas imediações da Residencial Sereia", na Rua Latino Coelho, e forçada a angariar clientes, a troco de 25 ou 30 euros cada. Ainda segundo a acusação, Joaquim Narciso, o dono da "Sereia", receberia cinco euros por cada subida aos quartos da menor com clientes. No final da noite, ela entregava o apuro - a rondar os 500 euros - ao casal.

Enganada de novo
"Susana", no constante "sobe e desce", viria a conhecer o filho do dono, Diogo, de 25 anos, por quem se apaixonou. Pediu-lhe ajuda para sair daquela vida e ele levou-a para a casa onde vivia com a mãe. Foi sol de pouca dura. Uma semana depois, diz a acusação, fez a menor "regressar às condições de vida anteriores, sob a alçada" do casal.

O inferno continuou até 31 de agosto de 2014, altura em que foi resgatada por um funcionário da "Coração de Ouro", regressando à instituição. Oito meses depois, a 5 abril de 2015, Diogo, que mantivera contacto com "Susana", via telemóvel, convenceu-a a voltar a fugir, garantindo-lhe que a receberia em sua casa.

Diz a acusação que mal chegou, ele "instou a ofendida para voltar a prostituir-se", passando a trabalhar por conta dele. E nem sequer a deixou ficar em sua casa, como prometera. Um amigo, Eduardo, de 40 anos, alugou-lhe um anexo, em Avintes, Gaia. Por uma divisão mobilada com cama e armário, a menor pagava 25 euros/dia, dinheiro retirado do "apuro" que entregaria a Diogo. Eduardo também transportaria e vigiaria "Susana", sendo pago com o dinheiro do sexo. O que sobrava era para Diogo.

E não valia a pena pensar em fugir. Segundo o MP, Diogo e Eduardo repetiam-lhe, "em tom sério, convincente e intimidatório", que se ela fugisse, "seria morta". Mesmo assim, acabou por telefonar a um educador a pedir ajuda. Mas não soube identificar onde estava. Foi localizada a 28 de abril de 2015 e resgatada com a ajuda da PSP.

i3S distinguido por investigação sobre Alzheimer

Júlio Borlido Santos, in Notícias.Up</i>

A equipa liderada por Isabel Cardoso, do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, acaba de ser contemplada com um apoio de 37,5 mil euros, pela Fundação Millennium bcp para, nos próximos 24 meses, aprofundar o seu trabalho na Doença de Alzheimer. Com este apoio, a investigadora vai estudar a influência e interação no cérebro de algumas proteínas que estão na base do desenvolvimento desta patologia e avaliar o efeito de compostos terapêuticos nessas interações.

A Fundação Millennium bcp, instituída em 1991, desenvolve a sua ação mecenática em várias áreas: Cultura, Solidariedade Social, Ciência e Conhecimento. É no âmbito desta última que a Fundação vai apoiar o projeto de Isabel Cardoso no estudo de uma doença progressiva que atinge o cérebro e se caracteriza pela perda de memória e das capacidades de pensamento, e “que afeta atualmente cerca de 47 milhões de pessoas”, segundo a investigadora.

Esta equipa do i3S dedica-se ao estudo de uma proteína, a Transtirretina (TTR), que está envolvida em várias doenças neurodegenerativas. Segundo Isabel Cardoso, “a TTR está presente no sangue e no líquido cefalorraquidiano, tendo uma ação protetora na Doença de Alzheimer”, cuja origem está associada à deposição progressiva de um fragmento proteico, o Peptídeo Abeta, que a TTR tem capacidade de capturar. Através de uma série de mecanismos, a TTR consegue transportar este peptídeo até ao fígado onde ele é naturalmente degradado e eliminado, evitando que ele se acumule no cérebro.

Nos doentes de Alzheimer a estabilidade da TTR está diminuída e essa função de limpeza do Peptídeo Abeta fica comprometida. Segundo Isabel Cardoso, “no caso da Doença de Alzheimer parece haver problemas de instabilidade na TTR”, mas acrescenta que “a equipa já demonstrou ser possível estabilizar a TTR com pequenos compostos químicos que a ela se ligam”. Os “pequenos compostos químicos” que a equipa do i3S está a explorar são anti-inflamatórios não esteroides e alguns parecem melhorar a memória e performance cognitiva de ratinhos transgénicos, usados como modelo de estudo da doença de Alzheimer.

Contudo, “é preciso ainda muita investigação para identificar quais dessa compostos conseguem estabilizar a TTR e, em simultâneo, aumentar a sua interação com o péptido Abeta”, explica Isabel Cardoso. Por isso, a equipa irá, com o apoio dado pela Fundação Millennium bcp, aprofundar o estudo dos fatores que influenciam a estabilidade da TTR e a sua capacidade de ligação ao péptido Abeta, bem como escrutinar quais os compostos que podem ajudar nessa tarefa.

Isabel Cardoso licenciou-se em Bioquímica, pela Universidade do Porto, tendo de seguida desenvolvido o seu projeto de doutoramento na área da paramiloidose (Doença dos Pezinhos), contribuindo para a compreensão dos mecanismos subjacentes a esta doença, bem como para a identificação de compostos terapêuticos. Mais tarde, interessou-se pelas alterações que ocorrem no cérebro, como consequência do desenvolvimento da Doença de Alzheimer, área em que continua a trabalhar. Atualmente, investiga a ação neuroprotetora da proteina Transtirretina no cérebro e na Doença de Alzheimer, e interessa-se também pelas alterações que ocorrem nas barreiras cerebrais, em contextos patológicos.

13.6.18

Parlamento debate projeto do PS e PSD para comissão independente da descentralização

in TSF

A criação de uma Comissão Independente para a Descentralização consta de um projeto de lei apresentado pelo PS e PSD que será debatido na sexta-feira, no parlamento, para estudar a reforma do Estado ao nível regional e intermunicipal.

Um projeto de lei subscrito por um grupo de deputado encabeçados por Carlos César (PS) e Fernando Negrão (PSD) propõe a constituição de uma comissão que terá por missão "proceder a uma profunda avaliação independente sobre a organização e funções do Estado".

"A comissão deve igualmente avaliar e propor um programa de desconcentração da localização de entidades e serviços públicos, assegurando coerência na presença do Estado no território", lê-se no documento.
A Comissão Independente para a Descentralização será "composta por sete especialistas de reconhecido mérito, nacionais ou internacionais, com competências no âmbito das políticas públicas e a organização e funções do Estado", a designar pelo presidente da Assembleia da República, ouvidos os grupos parlamentares.

Além do estudo sobre a organização e funções do Estado, "aos níveis regional, metropolitano e intermunicipal", e do programa para deslocalização de serviços públicos, a comissão deverá também como atribuições "assegurar uma análise comparativa de modelos em países da União Europeia e da OCDE" e organizar debates públicos.

Entre as entidades a consultar e a participar nos debates constam as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, comunidades intermunicipais (CIM), comissões de coordenação e desenvolvimento regionais (CCDR), Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e a Associação Nacional de Freguesias (Anafre).

A comissão deverá contar com o apoio de "instituições do ensino superior com reconhecidas competências académicas na investigação sobre as políticas públicas" e as entidades públicas e privadas estão obrigadas ao fornecimento das informações solicitadas, mas o acesso à informação "obedece às regras previstas na lei em matéria de segredo de Estado".

O mandato da comissão dura até 31 de julho de 2019 e, no final, os relatórios "devem conter as recomendações e propostas que entenda pertinentes, assim como, anteprojetos de diplomas" para iniciativas legislativas subsequentes.

Os membros da comissão são equiparados a dirigente superior de 1.º grau para efeitos remuneratórios e têm direito a ajudas de custo e despesas de transporte, assim como apoio administrativo, logístico e financeiro assegurado pela Assembleia da República.

Segundo salientou à Lusa a deputada social-democrata Berta Cabral, que coordena o grupo de trabalho parlamentar da descentralização, o projeto de lei conjunto visa assegurar que "a comissão estude os desenvolvimentos da descentralização, mas sem tomar decisões e deixar o trabalho preparado para a próxima legislatura".

O deputado Pedro Soares (BE) destacou que "é a primeira vez que aparece uma proposta de lei conjunta entre PS e PSD, o que tem um significado político".

Para o também presidente da comissão parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, os socialistas optaram "por não negociar à esquerda o pacote da descentralização" e lamentou que todo o processo "inquinado pelo desígnio da municipalização".

"Na prática já temos cinco regiões, que são as CCDR, mas que não têm legitimidade democrática própria que lhes é conferida por uma eleição direta, ao contrário do que acontece na generalidade dos países da Europa", apontou Pedro Soares.

O deputado sublinhou que a ausência de regionalização se traduz em "implicações ao nível da equidade do desenvolvimento do território" e que a comissão técnica independente, ao apresentar as suas propostas "em cima das eleições", não deixam margem para que o Governo assuma o que pretende "nesta legislatura".

Em relação à proposta da lei-quadro da descentralização, que o Governo quer ver passar no parlamento antes do fim da atual sessão legislativa, Pedro Soares concedeu que "há um acordo entre o PS e o PSD para essa aprovação", embora à esquerda o entendimento seja de que o processo "devia ser mais ponderado".

O acordo assinado a 18 de abril, entre o Governo e PSD, assumiu que a aprovação da lei-quadro da descentralização deve ser complementada pelos decretos-lei setoriais, pela revisão da Lei das Finanças Locais e pelos "envelopes" financeiros associados a cada autarquia, e a constituição da comissão independente.

Um em cada dez bebés nascidos em Portugal tem mãe estrangeira

in RR

Este dado, adianta o relatório do Observatório das Migrações, contribui para o abrandamento do envelhecimento demográfico em Portugal.

As mulheres de nacionalidade estrangeira foram responsáveis em 2016 por cerca de 9% do total dos nados-vivos em Portugal, cerca de um em cada dez, continuando os imigrantes a incrementar o volume de nascimentos no país, segundo um relatório estatístico divulgado esta quinta-feira.

Este dado, adianta o relatório do Observatório das Migrações, contribui para o abrandamento do envelhecimento demográfico em Portugal.

O relatório estatístico anual de 2017 sobre indicadores de integração de imigrantes refere que esta percentagem é particularmente significativa face ao facto de que a população estrangeira apenas representava 3,9% do total da população residente em Portugal em 2016.

Quando os resultados da taxa de natalidade feminina para o ano de 2016 são comparados, acrescenta o documento, conclui-se que as mulheres de nacionalidade estrangeira têm uma taxa superior (37,5) à das mulheres portuguesas (14,6), com efeitos positivos para o reforço do grupo etário mais jovem da estrutura etária.

Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, divulgados em abril deste ano, indicavam que a população em Portugal diminuiu em 2017 pelo nono ano consecutivo.
Segundo as "Estatísticas Vitais", do Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal teve um saldo natural negativo de 23.432 pessoas.

Em 2017, nasceram com vida 86.154 crianças de mães residentes em Portugal, menos 972 crianças relativamente ao ano anterior, o que representa um decréscimo de 1,1%.

Relatório da OCDE: Alunos carenciados precisam dos professores mais qualificados e experientes

in o Observador

Portugal faz parte do grupo de 24 países onde o rácio professores/alunos varia consoante as características da comunidade: nas escolas mais difíceis há, em média, um docente para cada 10 alunos.

Portugal é um dos países onde as escolas favorecidas empregam "significativamente mais professores seniores nas escolas mais carenciadas"

As escolas com alunos mais carenciados deviam ter os professores mais experientes e qualificados. Contudo, não é isso que acontece na maioria dos países, segundo um relatório da OCDE que acaba de ser divulgado, e e no qual Portugal também é analisado. E Portugal é um dos países onde as escolas favorecidas empregam “significativamente mais professores seniores nas escolas mais carenciadas”.

“Em tudo o mundo, as crianças de famílias favorecidas irão encontrar portas abertas para uma vida de sucesso, enquanto as crianças de famílias pobres terão muitas vezes apenas uma oportunidade na vida, e essa oportunidade é ter uma boa escola que lhes dê a oportunidade para desenvolver o seu potencial”, escreveu Andreas Schleicher, director de Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Focado nesta ideia, o estudo da OCDE (Effective Teacher Policies), tornado público nesta segunda-feira, analisou as diferentes políticas educativas relacionadas com os professores para tentar descobrir quais as medidas que podem fazer a diferença.

Uma das acções desenvolvidas pela maioria dos países foi reduzir o tamanho das turmas e ter “mais professores por aluno em escolas desfavorecidas, comparativamente com as escolas privilegiadas”. Uma situação que também aconteceu em Portugal.

Num universo de 72 países analisados, 38 acreditaram que era importante ter turmas mais pequenas nas escolas mais problemáticas. Portugal é um desses países: as escolas com resultados escolares mais fracos têm menos alunos por turma (24) quando comparados com os restantes estabelecimentos de ensino, que têm, em média, turmas com 27 estudantes, segundo dados de 2015.

Portugal também faz parte do grupo dos 24 países onde o rácio professores/alunos varia consoante as características da comunidade escolar: nas escolas mais difíceis há, em média, um professor para cada dez estudantes, enquanto nos restantes estabelecimentos de ensino a média é de um docente para 12 estudantes.

No entanto, “a lacuna no desempenho académico entre estudantes favorecidos e desfavorecidos parece não estar relacionada com o tamanho das turmas”, alertou Andreas Schleicher.

Já as qualificações, experiência e qualidade dos professores poderão fazer a diferença, mas a maioria dos países não consegue atrair os mais qualificados para as escolas mais desafiadoras. Portugal não é excepção: nas escolas com alunos de famílias mais carenciadas há uma média de 92 docentes mais qualificados, enquanto nas outras escolas a média é de 98 docentes.

Qualquer política de professores que vise lidar com a desvantagem do estudante deve-se esforçar para alocar professores de qualidade, e não apenas mais professores, para alunos carentes”, defende a OCDE.
Os próprios directores reconhecem que a falta de docentes qualificados é “uma barreira importante para superar as desvantagens e melhorar a aprendizagem”.

Portugal é apontado como um dos países onde as escolas favorecidas empregam “significativamente mais professores seniores do que as escolas mais carenciadas”, surgindo assim ao lado de países como a Espanha, Austrália, Itália, República Dominicana e Estados Unidos da América.

Para conseguir ter os mais talentosos a trabalhar nas escolas e salas de aulas mais difíceis é preciso dar condições especiais que atraiam estes profissionais, sublinham os investigadores.

“As condições de trabalho e o salário têm de ser reflectidos nos casos em que as tarefas são mais difíceis, porque assim (os directores) terão mais capacidade para atrair os professores mais talentosos para as classes mais desafiantes”, defende a OCDE.

Segundo os investigadores, as escolas com autonomia para contratar e estabelecer salários parecem conseguir responder melhor às necessidades dos alunos, mas o mesmo estudo alerta para o facto de não existir uma relação entre autonomia e equidade na colocação de professores.

Andreas Schleicher defende, precisamente, que é preciso proteger mais os professores e escolas que trabalham nas circunstâncias mais difíceis, criando condições para que se sintam “apoiados na sua vida profissional e pessoal quando enfrentam desafios adicionais”.

É preciso valorizar o esforço adicional e é preciso que esse trabalho seja reconhecido publicamente, defende o director da OCDE, lembrando que tal já acontece em alguns países, onde “até mesmo as crianças mais desfavorecidas têm alto desempenho”.

“Está ao nosso alcance entregar um futuro para milhões de alunos que actualmente não o têm”, concluiu Andreas Schleicher.

Cerca de 70 autarquias interessadas em ter Equipas de Mediação Intercultural

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Até quinta-feira devem encontrar parceiros, definir necessidades e entregar candidaturas.

Cerca de 70 autarquias manifestaram o interesse em criar Equipas de Mediação Intercultural facilitadoras da integração das Comunidades Migrantes e das Comunidades Ciganas. As candidaturas terminam na quinta-feira.
O número foi avançado pela secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro. Até quinta-feira, as autarquias interessadas em ter equipas de facilitadores da integração das comunidades migrantes ou ciganas, de preferência estas últimas, devem encontrar parceiros, definir necessidades e entregar candidaturas.

A medida estava prevista na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas 2013-2020, que está a ser revista, e no Plano Estratégico para as Migrações 2015-2020. Em Abril, foi aberta esta linha de financiamento para equipas a operar nos municípios das regiões Norte, Centro e Alentejo.
As equipas terão um número variável de elementos. Competir-lhes-á fazer a ponte entre estudantes, escolas e famílias, para combater o insucesso, o absentismo e o abandono escolar, sobretudo entre raparigas.

Nestes três primeiros anos, estima-se um gasto de três milhões e quinhentos mil euros. A comparticipação da despesa elegível deverá ser repartida pelo Fundo Social Europeu (85%) e pela contribuição pública nacional (15%).
Algumas autarquias têm tido dificuldade em encontrar pessoas com a formação adequada. O Alto Comissariado para as Migrações (ACM) fez algumas sessões de esclarecimento.

Por email, o ACM recorda que “apoiou e financiou vários projectos de mediação intercultural e municipal”. Um dos mais conhecidos foi feito numa parceria com o Conselho da Europa. Entende, por isso, que “os mediadores afectos aos vários projectos têm formação e experiência adequadas”. Como agora há novos municípios interessados, anuncia que “serão avaliadas hipóteses de formação” para que possam preparar outras pessoas.
O ACM não será o único. “Nós estamos em negociações com alguns municípios e já apresentamos planos de formação”, revela Bruno Gonçalves, da Letras Nómadas, uma das mais activas associações formadas por pessoas de etnia cigana.

5.6.18

“Acabou o recreio, façam as malas e partam”, diz Salvini aos imigrantes

Jorge Almeida Fernandes,in Público on-line

O ministro do Interior italiano abriu a campanha contra a imigração. No Senado começa hoje o debate da confiança no novo executivo. Servirá para verificar o estado da oposição.

Matteo Salvini, líder da Liga e novo ministro do Interior italiano, lançou no domingo na Sicília a nova campanha anti-refugiados, no mesmo dia em que naufragava mais uma barcaça com 180 pessoas a bordo. Ontem, tinham sido recolhidos 43 corpos sem vida, tendo sido salvos 68 fugitivos. As operações de busca continuavam. A principal mensagem de Salvini dirigiu-se à Europa: “Ou a UE nos ajuda ou escolheremos outras vias.”

O novo ministro não estará hoje presente no Luxemburgo na reunião dos seus homólogos europeus para debater a política de imigração. Mas a delegação italiana votará contra o projecto em análise, que acusa de penalizar a Itália e os países do Mediterrâneo. “Ou nos dão uma mão para controlar as fronteiras e pôr em segurança o nosso país ou teremos de escolher outras vias.” Anunciou também o encerramento dos portos italianos aos barcos das organizações não governamentais que realizam operações de socorro.

De resto, continua a pensar na expulsão de centenas de milhares de imigrantes ilegais. Mas este será um processo longo, caro e complicado, que exige fundos e negociações internacionais. A alternativa da “criminalização” faria rebentar o sistema prisional italiano. Paralelamente, Salvini mantém a pressão no terreno da propaganda. A imigração é o tema mais mobilizador para a sua base eleitoral e uma preocupação muito difusa. Disse num comício no Norte: “Acabou o recreio para os clandestinos. Façam as malas e partam.” Um editorialista disse que estas palavras estão no “limite da indecência”. O escritor Roberto Saviano apelou à resistência: “Desobedecer a este ministro do Interior que quer afogar pessoas.”

O último relatório da ONU sobre a população mundial prevê que o número de migrantes deverá continuar estável até 2050. Entretanto, o ex- ministro do Interior, Marco Minniti, conseguiu reduzir drasticamente o número de migrantes nos primeiros cinco meses do anos — 13.500 contra 60 mil no período homólogo de 2017 — na sequência de negociações com países como a Líbia. O controlo das migrações é uma questão chave para a Itália, na medida em que é um dos mais fortes factores da “lepenização” da opinião pública. Note-se que, mesmo para Salvini e para lá da retórica xenófoba, a prioridade das prioridades é reduzir o fluxo de migrantes. Significativamente, homenageou no domingo o trabalho de Minniti.

O que nos faz envelhecer? Stress, violência, pobreza e discriminação

David Marçal, in Público on-line

O modo como envelhecemos, com mais ou menos cabelos brancos, rugas e doenças está relacionado com o comprimento das pontas protectoras dos nossos cromossomas: os telómeros. Surpreendentemente, a forma como lidamos com o stress e o ambiente social em que vivemos influenciam o tamanho dos nossos telómeros e, com eles, o número de anos de vida saudável que poderemos esperar.

O envelhecimento já não é o que era. Se antes pensávamos que seria incontrolável, podendo apenas tentar-se alguma batota estética com cirurgias e cremes anti-rugas, a ciência tem vindo a mostrar que o envelhecimento é, pelo menos em parte, um processo possível de ser controlado. No livro A Ciência da Juventude (Elsinore, 2017) a bióloga Elizabeth Blackburn e a psicóloga Elissa Epel contam a história de duas mulheres imaginárias que tomam café numa tarde fria em São Francisco. Kara e Lisa têm a mesma idade, mas Kara parece muito mais velha. E sente-se muito mais velha. E provavelmente terá menos anos de vida saudável, mesmo que ambas vivam o mesmo tempo. O envelhecimento cronológico (o número de anos que passaram desde que nascemos) é diferente do envelhecimento biológico (o estado de envelhecimento que efectivamente as nossas células têm). Todos conhecemos Kara e Lisa com outros nomes. E quando pedimos a alguém que acabámos de conhecer para adivinhar a nossa idade estamos a tentar confirmar as nossas suspeitas de sermos Kara ou Lisa.

Há muitas pessoas que aos 50 anos gozam de uma excelente saúde. Mas há outras que nessa idade começam a sofrer com as doenças da velhice: problemas cardiovasculares e pulmonares, artrite, sistema imunitário enfraquecido, diabetes ou cancro. Têm tendência a surgir juntas e para muitos determinam o fim precoce da vida. Para outros a vida continua, limitada pela doença e pelo desconforto. O número de anos de vida saudável que temos é o nosso “intervalo de saúde”. Uma pessoa que viva até aos 100 poderá ter 50 ou 70 anos livre das doenças do envelhecimento (a diferença é grande). O restante é o “intervalo de doença”. O que a maioria de nós quer é ter muitos anos de vida saudável e não apenas prolongar a vida num estado de decrepitude.

A investigação científica tem vindo a demonstrar que o envelhecimento é um processo regulado pelos nossos genes. As raríssimas pessoas que vivem mais de 115 anos são oriundas de famílias com longevidades acima da média para a respectiva época. Por isso há quem estude os supercentenários para tentar perceber quais são as diferenças da sua herança genética (é o caso da empresa norte-americana Androcyte). Outros, como o investigador português João Pedro de Magalhães, professor da Universidade de Liverpool, tentam perceber quais são os truques das espécies que vivem muito, como o rato-toupeira-nu (30 anos, extraordinário se pensarmos que um rato doméstico vive apenas dois). A esperança é que no futuro seja possível criar medicamentos que imitem os efeitos dos genes que permitem viver mais tempo. Ou mesmo – e isto é muito mais arrojado – usar técnicas de edição genética (uma espécie de corta e cola com ADN) para modificar os nossos genes e prolongar a juventude.

Mas os processos de envelhecimento não são um destino traçado no momento em que cada um de nós foi concebido. Como Elizabeth Blackburn e Elissa Epel escrevem no seu livro: “Nascemos com um conjunto definido de genes, mas o modo como vivemos pode influenciar a forma como esses genes se expressam.” A nova ideia do envelhecimento é esta: em vez de apenas tratar cada uma das doenças relacionadas com envelhecimento, tentar travar o envelhecimento biológico. Esta ideia abre novas áreas de investigação médica e de negócios na saúde. Como escreveu João Pedro de Magalhães num artigo de 2017: “As doenças relacionadas com a idade são as principais causas de morte e de custos de assistência médica. Reduzir a taxa de envelhecimento teria enormes benefícios médicos e financeiros.” Há várias abordagens anti-envelhecimento. Aqui vamos focar-nos numa que já deu um Prémio Nobel.

Todos já fomos uma única célula. Essa dividiu-se em duas, que deram origem a quatro e depois a oito, até cada um de nós ser constituído por biliões de células. Todos os dias há muitas que morrem e são substituídas por outras, que se formam sempre da mesma maneira: uma célula divide-se em duas. É simples de dizer, mas na realidade é um processo bastante complicado. Cada célula tem um núcleo e lá dentro está o nosso material genético: 46 cromossomas. Cada cromossoma é uma longa serpentina de ADN, muito enrolada e compactada. É no ADN que estão escritos os nossos genes, que são as instruções para construir proteínas (como a hemoglobina, por exemplo, que transporta o oxigénio através do sangue até às nossas células). A linguagem dos genes tem apenas quatro letras (A, T, G e C), correspondentes às quatro bases que se repetem no ADN (adenina, timina, guanina e citosina). Por exemplo TTC significa fenilalanina, um aminoácido de que se calhar já ouviu falar. À correspondência entre uma sequência de três bases de ADN e um aminoácido chama-se código genético. Esse código é o mesmo para todos os seres vivos.

Os genes são sequências de ADN que são os planos de construção das proteínas. Uma proteína com 300 aminoácidos está codificada em 900 bases de ADN. O genoma humano, ou seja toda a sequência de ADN em todos os cromossomas, são cerca de três mil milhões de pares de bases, que codificam 20.000 genes. Mas nem todo o ADN tem genes. Esta história é sobre uma parte do ADN de cada um dos nossos cromossomas que não tem qualquer gene, mas que pode determinar o ritmo a que nós envelhecemos: os telómeros.

Os telómeros estão nas pontas dos cromossomas e funcionam como as cabeças dos atacadores: impedem os fios de se desfiarem. São sequências repetitivas de ADN, que têm como função proteger os genes durante a divisão das células. Cada vez que as nossas células se dividem, os telómeros perdem uns quantos pares de bases. Nos cromossomas de um bebé recém-nascido os telómeros têm 10.000 pares de bases. Aos 35 anos já só têm 7500. E aos 65 restam 4800. Enquanto o comprimento dos telómeros é sacrificado, os preciosos genes nas zonas interiores dos cromossomas ficam a salvo.

Com os telómeros curtos chegam os sinais da idade. Morrem algumas células da pele e dos pigmentos do cabelo, por isso aparecem-nos rugas e cabelos brancos. A morte de células do sistema imunitário torna-nos mais susceptíveis a doenças. Um menor comprimento de telómeros é um factor de risco para as doenças relacionadas com o envelhecimento. As pessoas com os telómeros mais curtos têm mais altas taxas de mortalidade decorrentes do cancro, doenças cardíacas e de todas as causas juntas. O comprimento mínimo dos telómeros atinge-se por volta dos 75 anos. Depois, há uma reviravolta final surpreendente: nas pessoas com mais de 75 anos o tamanho dos telómeros parece manter-se ou até aumentar. Mas esse alongamento provavelmente é apenas aparente: nesta idade as pessoas com telómeros mais curtos já morreram. São as pessoas com telómeros mais longos que chegam aos 80 ou aos 90 anos. Mas esta ainda não é a história toda.

O elixir da imortalidade?
Em 1975, Elizabeth Blackburn trabalhava num laboratório da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Usava grandes boiões de vidro para cultivar uma minúscula criatura que vive em lagos de água doce: a Teatrahymena. Não se consegue ver a olho nu, mas o núcleo da sua única célula tem 20 mil pequenos cromossomas. Isso torna-a ideal para estudar as pontas dos cromossomas. Blackburn determinou a sequência repetitiva dos telómeros da Teatrahymena e descobriu que o seu tamanho é variável. Três anos mais tarde, já na Universidade da Califórnia, em Berkeley, fez uma descoberta surpreendente, com a ajuda de Carol Greider, uma aluna de doutoramento com quem haveria de partilhar o Prémio Nobel da Medicina em 2009. Verificaram que os telómeros podem crescer. Isso acontece graças a uma enzima, uma proteína especial que é uma máquina de alongar telómeros. Chama-se telomerase. Mas ao longo da vida a telomerase vai perdendo a sua luta. Por isso os telómeros tornam-se mais curtos e os cromossomas ficam desprotegidos.

Portanto, tudo se parece reduzir a uma questão de “engenharia civil” do ADN, que poderemos eventualmente resolver usando a máquina adequada, a telomerase. Será que podemos prolongar a vida humana fazendo chegar ao núcleo das nossas células quantidades generosas desta enzima? Estará encontrado o elixir da imortalidade? Infelizmente não. Tentar prolongar a vida com métodos artificiais para aumentar a telomerase é muito arriscado. A telomerase em excesso pode provocar uma multiplicação descontrolada das células, ou seja, cancro.

Pensando ao contrário, há investigadores que tentam encontrar estratégias de tratamento de cancro que consistem em desligar a telomerase nas células cancerosas, de modo a impedir que estas se multipliquem (no dia 25 de Abril de 2018 foi publicada na revista Nature a estrutura em três dimensões da telomerase humana, o que poderá ajudar no desenvolvimento de aplicações médicas). Aumentar a telomerase reduz o risco de certas doenças, mas também aumenta o risco de alguns cancros. Então não podemos fazer nada para alongar os nossos telómeros? Não é bem assim.

É aqui que entra em cena a psicóloga Elissa Epel, especializada em stress psicológico grave e crónico. Ela estudava mães que cuidavam de crianças com doenças crónicas e tinha uma pergunta para Elizabeth Blackburn: o que acontece aos telómeros dessas mães? Muitas tinham um ar esgotado, será que os seus telómeros também se ressentiam do stress a que estavam constantemente sujeitas? Elissa Epel escolheu um grupo de mães que cuidavam de filhos com doenças crónicas e as duas investigadoras fizeram um primeiro estudo. Os resultados foram analisados ao fim de quatro anos e havia um padrão: quanto mais anos as mães passavam a cuidar dos filhos com doenças crónicas, mas curtos eram os seus telómeros, independentemente da sua idade. E quanto mais consideravam a sua situação como stressante, menos telomerase tinham. Quanto mais stress crónico sofremos, mais curtos são os nossos telómeros. Isto significa que temos uma maior probabilidade de ter as doenças do envelhecimento mais cedo e morrer precocemente. No entanto havia algo intrigante nos dados: algumas mães, apesar de cuidarem dos filhos durante muitos anos, conseguiam conservar o comprimento dos telómeros. Este resultado era surpreendente. Para o tentar compreender as duas cientistas fizeram mais um trabalho de investigação.

Vamos a isso!
“Por favor subtraia 17 de 4923, em voz alta. Depois, subtraia 17 à sua resposta e assim por diante, tantas vezes quantas puder nos próximos cinco minutos. É importante que execute esta tarefa rápida e correctamente. Iremos avaliá-la em vários aspectos do seu desempenho. O tempo começa agora.” Parece fácil? Na realidade não é nada fácil, especialmente com dois avaliadores a assistir com uma expressão glacial. Este procedimento não tinha como objectivo avaliar capacidades matemáticas e discursivas, mas simplesmente stressar as mulheres. Epel e Blackburn queriam perceber se era o tipo de resposta ao stress que fazia a diferença, se isso poderia explicar que algumas mães mantivessem o tamanho dos seus telómeros, mesmo depois de passarem muitos anos a cuidar de filhos com doenças crónicas e graves. Para isso basearam-se no trabalho da psicóloga Wendy Mendes, da Universidade da Califórnia (por curiosidade, foi Miss Califórnia em 1989) que examinou os diferentes tipos de respostas corporais a factores de stress.

Consideremos dois casos. No primeiro, reagimos às causas de stress como se elas fossem uma ameaça. Os vasos sanguíneos contraem-se, os níveis de cortisol (que é a hormona do stress) aumentam e mantêm-se altos. Preparamos o corpo e a mente para o trauma de um ataque. Isto não é bom para a saúde dos telómeros, porque níveis de cortisol persistentemente elevados diminuem a quantidade de telomerase. Por outro lado, se virmos a causa de stress como um desafio, o sangue flui pelo nosso corpo, criamos as condições físicas e psicológicas para nos empenharmos totalmente, ter o melhor desempenho possível e ganhar. Claro que ainda assim pode haver um aumento súbito de cortisol que nos dá a atitude “vamos a isso”, mas que baixa rapidamente e não afecta os telómeros.

Em geral as pessoas têm um misto das duas respostas. E é proporção entre as duas que importa para a saúde dos telómeros. No estudo liderado por Epel e Blackburn as mulheres que encararam a tarefa stressante mais como um desafio do que como uma ameaça tinham telómeros mais longos. E isso significa, segundo as duas autoras, que temos razões para ter esperança, pois há formas de treinarmos para reagir aos acontecimentos stressantes de modo a proteger os telómeros. No seu livro citam o psicólogo de desporto Jim Afremow, que trabalha com atletas olímpicos. Segundo ele, a pior coisa que os atletas podem fazer é tentarem livrar-se do stress: “Têm de pensar no stress como algo que os ajuda a prepararem-se para o seu desempenho. Têm de dizer: ‘Sim, eu preciso disto!’”

Para além do nosso tipo de resposta ao stress, que podemos tentar treinar, há também vários factores sociais que influenciam o tamanho dos nossos telómeros. Crescer em bairros pobres e violentos ou ser alvo frequente de bullying está associado com um comprimento menor de telómeros em crianças. O mesmo acontece em adultos que foram vítimas de maus tratos na infância ou sujeitos a vários tipos de adversidades (como desemprego dos pais ou doenças graves). A discriminação racial também pode acelerar o envelhecimento, assim como a violência doméstica. Isto significa que não só temos a capacidade de influenciar o tamanho dos nossos telómeros, mas também os dos outros. O que já fez pelos seus telómeros… e da sua família e da sua comunidade hoje?

Organização diz que “não se revê” em episódio de racismo que levou à interrupção de debate

in Público on-line

Segundo os relatos, ainda antes de acabar o debate, uma funcionária da entidade organizadora do evento dirigiu-se a um dos oradores dizendo “Vê lá se te despachas”, tendo tido uma atitude de desprezo ao longo da sessão. A APEL emitiu um pedido de desculpa aos intervenientes nesta segunda-feira.

O debate sobre activismo que decorreu na tarde de sábado na Feira do Livro, em Lisboa, a propósito do livro Racismo no País dos Brancos Costumes (que nasceu de um trabalho de investigação do PÚBLICO), terminou mais cedo do que o esperado, com a interrupção de uma funcionária da APEL, entidade responsável pela organização do evento. Alegando que já passava da hora estipulada, a funcionária interrompeu o debate e “começou a mandar calar directamente os intervenientes”, conta a responsável pela editora Tinta da China, Bárbara Bulhosa. A APEL “lamenta profundamente” o sucedido e emitiu um pedido de desculpa aos intervenientes nesta segunda-feira.

“É frequente nos debates fazerem-nos sinais de que estamos a ultrapassar o tempo ou perto disso”, começa por dizer a jornalista do PÚBLICO, autora do livro e moderadora do debate, Joana Gorjão Henriques, dizendo que sabia ter à mesa “palestrantes incisivos, directos, capazes de incomodar com o seu discurso”. O painel contava com a presença da activista Ana Tica, de Beatriz Dias, da Djass, Mamadou Ba, do SOS Racismo, e Raquel Rodrigues, da Femafro.

“O que não sabia era que as suas palavras iriam incomodar tanto ao ponto de alguém com a camisola da organização os querer silenciar, numa tentativa de humilhar e de querer afirmar que não pertenciam àquele espaço.” Num comunicado enviado ao PÚBLICO, a APEL diz que “não se revê de nenhum modo na atitude assumida pela sua colaboradora, que dava apoio logístico à sessão de apresentação”, referindo ainda que tomou medidas para “evitar a repetição de incidentes deste teor”.

“Vê lá se te despachas!”
A editora Bárbara Bulhosa descreve o que aconteceu: “O problema surgiu quando, às 14h49, começou a mandar calar directamente os intervenientes. Aproximou-se do palco e disse ao Mamadou Ba, que estava a falar: ‘Vê lá se te despachas!’” O episódio ganhou visibilidade precisamente quando foi relatado pela responsável da editora Tinta da China no Facebook, publicação que soma nesta segunda-feira mais de 800 partilhas.

“A senhora insiste em interrompê-lo de um modo que eu nunca vi alguém de uma organização interromper. De tal forma fiquei atónita e imobilizada com a cena que decidi, já depois de a editora ter ido reclamar com a senhora, que então iríamos terminar para não deixar os convidados ainda mais desconfortáveis ou armar uma discussão no palco”, explica Joana Gorjão Henriques.

Segundo os relatos de quem estava na plateia, a colaboradora tinha passado o debate a tecer comentários de desagrado com os intervenientes, chegando a referir-se a eles como “essa gente”. “Há ainda uma outra dimensão: a postura física, o olhar e a perversa agressividade tão características do racismo”, descreve a jornalista do PÚBLICO.

“Eu saltei da primeira fila e abordei a senhora voluntária dizendo-lhe peremptoriamente que não podia mandar calar um convidado que estava a falar para uma plateia cheia”, diz Bárbara Bulhosa. “Que não pode tratar por tu um desconhecido, que em 12 anos de Feira do Livro nunca tal me tinha acontecido”, acrescenta.

Falar de racismo em Portugal incomoda e é por isso também que importa

“Alguém que veste a camisola de uma organização sentiu que podia mandar calar e maltratar convidados, tentando exercer o seu pequeno poder”, prossegue Joana Gorjão Henriques. Segundo a jornalista, foram logo apresentadas 15 queixas no livro de reclamações da Feira do Livro.

“Que a lição sirva para que mais nenhum funcionário de qualquer feira do livro se sinta no direito de mandar calar alguém por ser negro”, conclui Joana Gorjão Henriques.

Antiga trabalhadora sexual foi distinguida pela rainha Isabel

Liliana Borges, in Público on-line

Da prisão à Universidade de Oxford, o percurso da activista Catherine Healy foi marcado pela luta pelos direitos laborais para os trabalhadores do sexo.

Nos anos 80, Catherine Healy foi presa durante uma rusga policial na Nova Zelândia a um bordel onde Healy trabalhava. Hoje, com 62 anos, foi reconhecida pela rainha Isabel II com a Ordem de Mérito pelos direitos conquistados para as trabalhadoras do sexo.

Em causa está o papel que a activista Catherine Healy desempenhou na conquista de direitos laborais para trabalhadores do sexo, nomeadamente na aprovação de uma lei que garantiu essa igualdade de direitos em 2003. Em 2010 chegou a ser convidada pela Universidade de Oxford para integrar um debate sobre a legalização da prostituição.

Anos antes, em 1987, já depois de ter estado detida, Catherine Healy formou o Colectivo de Prostitutas da Nova Zelândia, um organismo que visava a luta pelos direitos das trabalhadoras do sexo, com o objectivo de descriminalizar o trabalho sexual e tornar a profissão mais segura, quer em termos de violência, quer no que respeita às questões de saúde.

“É muito diferente pensar nisto hoje, onde nos podemos sentar numa mesa como iguais, com polícia e a pensar como tornar o ambiente de trabalho mais seguro, permitindo aos trabalhadores denunciar a violência sexual”, aponta.

“Não me passava pela cabeça que isto alguma vez pudesse acontecer, nem há apenas umas semanas imaginaria que fosse possível”, confessou ao Guardian Catherine Healy. “Creio que é indicativo da mudança na atitude das pessoas e é óptimo sentir esse apoio”, acrescentou a activista, em declarações à BBC.

“Éramos tratadas de uma forma muito desrespeitosa. Precisávamos de encontrar a nossa voz e ser compreendidas”, explicou. “Lembro-me de ler histórias sobre nós, mas os jornalistas não falavam connosco”, conta ao Guardian.
Ainda assim, e apesar de reconhecer que a sua distinção foi “muito significativa”, Catherine Healy vinca que existe muito por fazer. “Ainda existe muito estigma”, afirma a activista. “Acredito que os outros países deviam olhar para a Nova Zelândia. Devíamos ter a visão de não ostracizar e tornar o trabalho sexual mais perigoso”, cita a BBC.

Healy espera que a legalização do trabalho sexual seja um dia reconhecido como um marco semelhante a outros movimentos pioneiros na Nova Zelândia, como o direito ao sufrágio feminino em 1893.

1.6.18

Mulheres são mais que os homens, mais instruídas e mais pobres

in TSF

O "Retrato dos Homens e das Mulheres" elaborado pela Pordata revela dados sobre os portugueses em cinco áreas, desde população, casamento e família, conhecimento, trabalho, atividade e rendimentos.

As mulheres portuguesas representam 53% da população, 88% das famílias monoparentais, 54% do total de doutoramentos e 49% da população empregada, mas também 54% da população em risco de pobreza ou 51% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção.

Estes e outros dados estatísticos constam do "Retrato dos Homens e das Mulheres", elaborado pela Pordata, um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com informação estatística sobre a sociedade portuguesa relativa aos anos de 2016 e 2017.

A população portuguesa divide-se entre 4.891.983 homens e 5.433.469 mulheres, sendo que a percentagem mais elevada de mulheres (58%) regista-se no município de Porto Moniz, na Região Autónoma da Madeira, e a mais baixa no Corvo (43%), nos Açores.

Em comparação com a Europa a 28, Portugal tem 53% de mulheres, dois pontos percentuais acima da média europeia.

Mesmo entre os estrangeiros legalmente a viver em Portugal, 51% são mulheres, sendo que há 49% mulheres entre a população imigrante e 39% entre os emigrantes.

As mulheres têm uma esperança média de vida à nascença de 83 anos, contra 78 dos homens, havendo 178 mulheres idosas por cada 100 jovens, número que desce para os 121 nos homens idosos.

Elas são quem vive mais tempo, já que representam 52% dos indivíduos com 75 anos ou mais por cada 100 com mais de 65 anos.

Dentro do capítulo família e casamento, a Pordata aferiu que a idade média das mulheres para o primeiro casamento é de 31 anos, enquanto nos homens é de 33 anos, sendo que elas representam 88% das famílias monoparentais (387.320).

Na parte de conhecimento e redes, o registo vai para 49% de mulheres entre os alunos matriculados desde o pré-escolar ao ensino superior, e é precisamente nas universidades que elas estão em maior número, onde representam 54%.

Dentro dos doutoramentos, 1.587 são de mulheres, contra 1.382 de homens, relativos ao ano de 2015. Já entre os docentes no ensino superior, o número mais elevado pende para os homens, havendo registo em 2015 de 18.097, contra 14.483 mulheres.

Entre a população com pelo menos o ensino secundário, há 43% de homens e 52% de mulheres, números muito abaixo da média europeia, com 78% de mulheres e 77% de homens na União Europeia a 28.
No que diz respeito ao trabalho, dentro do total da população masculina, 53% tem o ensino básico, 26% o secundário e pós-secundário e 19% o ensino superior. Nas mulheres, essas percentagens variam para 39%, 27% e 32%, respetivamente.

No total da população empregada, 49% são mulheres e 51% são homens, sendo que, dentro do total de mulheres, 36% trabalham por conta própria e 51% por conta de outrem. Já entre os desempregados, 239 mil são do sexo feminino, contra 224 mil do sexo masculino. Entre as mulheres desempregadas, 52 mil têm o ensino superior.

Entre os homens inativos, 387 mil são estudantes, 10 mil são domésticos e 808 mil são reformados. Entre as mulheres inativas, 420 mil são estudantes, 377 mil são domésticas e 944 mil são reformadas.
Olhando para os rendimentos, elas são quem correm maior risco de pobreza, 54% contra 46% de homens, e são elas também quem mais recebe o rendimento social de inserção (51%).

A disparidade salarial entre homens e mulheres chega aos 18% em Portugal, número que sobe para os 26% nos quadros superiores, e anda nos 4% entre praticantes e aprendizes.

As mulheres que trabalham por conta de outrem têm um rendimento médio mensal de 982,5 euros, enquanto os homens chegam a ganhar 1.215,1 euros.

PR destaca “dezenas significativas” de sem-abrigo com alojamento

in o Observador

O Presidente da República revelou que "em menos de um ano" dezenas "significativas" de sem-abrigo encontraram alojamento temporário, mas só 20/30 pessoas com casas "definitivas", "ainda é pouco".

O Presidente da República (PR) revelou na quinta-feira que “em menos de um ano” dezenas “significativas” de sem-abrigo encontraram alojamento temporário, ao passo que existem 20/30 pessoas com casas “definitivas” em Lisboa e Porto, “o que ainda é pouco”.

“Há casos que, em termos de alojamento temporário, podem significar umas dezenas importantes de pessoas [a nível nacional]. São dezenas significativas. Quanto ao alojamento estável definitivo, entre a Grande Lisboa e o Grande Porto são duas ou três dezenas, o que ainda é pouco”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, depois de visitar o quarto de um sem-abrigo agora alojado “com o apoio da Câmara do Porto”.

Para o PR, “o que é positivo é, no espaço de menos de um ano, de uns meses”, encontrar “casos concretos de passos positivos que foram dados no sentido da estabilização — de alojamento, evolução do ponto de vista de saúde e num ou noutro caso de empregabilidade”. Marcelo, que estava acompanhado da secretária de Estado da Habitação, Ana Pinho, adiantou ainda que os casos dos sem-abrigo estão atualmente a ser acompanhados na Grande Lisboa e no Grande Porto, perspetivando-se uma futura monitorização em “Braga, Setúbal e Algarve, os outros pontos de mais incidência” de pessoas a viver na rua.
Marcelo Rebelo de Sousa falava à comunicação social na rua do Rosário, no centro do Porto, naquela que foi a segunda paragem da noite de uma “ronda por casos concretos” que já conhecia e que quis revisitar. O PR disse ter visitado a habitação onde dois sem-abrigo foram alojados com o apoio de “uma mutualidade” e seguiu para a rua Júlio Dinis para conhecer o “alojamento relativamente estável” de “um casal que costumava ficar na estação de São Bento”.

Segundo o chefe de Estado, o caso deste casal foi solucionado “com o apoio da Câmara do Porto em ligação com os Serviços de Assistência de Organizações de Maria (SAOM)”. “Há uma conjugação de esforços de autarquias e instituições de solidariedade e social”, frisou.

O PR assegurou na quinta-feira que a integração das pessoas sem-abrigo até 2023/2024 é “uma meta para cumprir” e identificou a “saúde” como a área onde é preciso “ir mais longe do que se tem ido”.

“A meta é para cumprir. É evidente que haverá sempre aqueles que queiram ficar na rua. Mas é uma minoria. A expetativa é que a grande maioria tenha até 2023, na minha meta, ou até 2024, na meta do Governo, condições de saúde, habitação e empregabilidade para deixar a rua”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, depois de jantar, com vários sem-abrigo, bacalhau gratinado “à avó” e duas taças de gelatina na Associação dos Albergues Noturnos do Porto (AANP).

A Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) 2017-2023 está orçada em 60 milhões de euros e engloba 15 objetivos, 76 ações e 103 atividades, incluindo medidas como o acolhimento residencial, o alargamento e integração na área da saúde e o incremento na criação de condições para a formação e emprego.

“A pobreza está na base de uma grande percentagem" das retiradas de crianças às famílias

Ana Dias Cordeiro, Público on-line

Advogada Paula Penha Gonçalves defende uma fiscalização do trabalho feito pela Segurança Social. "O que não é fiscalizado ou fiscalizável é sempre perigoso", diz.

Paula Penha Gonçalves foi uma das advogadas de Liliana Melo, a mãe a quem o Estado português retirou sete filhos tendo sido, por isso, condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em 2016. O tribunal considerou que a colocação das crianças em instituições “não foi apropriada” perante “a ausência de condutas violentas [na família], a existência de fortes laços afectivos e o falhanço dos serviços sociais em mitigar a privação material vivida” pela mãe destas crianças.

Paula Penha Gonçalves, advogada que trabalha com frequência nas áreas do direito das crianças e da família, acredita que "as motivações para a retirada das crianças são por vezes erradas”. Por exemplo: quando as carências económicas se confundem com negligência e as medidas de apoio aos pais previstas na lei são insuficientes para evitar uma retirada da família. Essa é a solução mais fácil para as autoridades, diz. “Retira-se e a criança vai para uma instituição, e ponto final.” É a sua percepção.

Decidir o que é melhor para proteger uma criança em perigo é por vezes objecto de críticas: não retirar pode deixar a criança em perigo e retirar pode não ser a solução certa. Quais os problemas que se colocam nestas situações?
A minha participação em actividades mais solidárias deu-me um conhecimento um bocadinho diferente da perspectiva que eu tinha, que era apenas da barra do tribunal. Apercebo-me que as motivações para a retirada das crianças por vezes serão erradas.

Porquê?
Cada caso é um caso, mas parece-me que a retirada é a decisão mais fácil para as autoridades judiciárias e não judiciárias. É mais fácil ir buscar uma criança e pô-la numa instituição do que estruturar as coisas de forma a que essa criança tenha outro apoio e possa ficar na sua família, com os pais ou com uma tia, uma avó, uma irmã. Não é sempre [o caso], mas parece-me que, por vezes, as crianças são retiradas por essa ser a decisão mais fácil. Daria mais trabalho ajudar com um apoio estruturado, um apoio consequente. Retira-se e a criança vai para uma instituição, ponto final. Depois logo se vê o que se faz à criança.

As medidas de apoio às famílias, decididas pelas comissões de protecção de crianças e jovens (CPCJ) ou pelos tribunais, estão a falhar?
De um ponto de vista legal, o sistema português é razoável. As leis são boas, são relativamente avançadas até comparativamente a outros países europeus. Porém, daquilo que eu conheço, na prática, o que se verifica é uma grande desorganização. A vertente fiscalizadora da Segurança Social é grande, embora também seja desestruturada. As visitas [às famílias] são muito pontuais: com uma visita de seis em seis meses ou um ano, dificilmente se consegue apreender a realidade de uma família. No caso da Liliana Melo, fez-me impressão, por exemplo, o facto de não haver esquentador ser um indício de negligência, e depois um fundamento para a retirada. Não havendo outras questões, na altura, fazia muito mais sentido comprar um esquentador e permitir que as crianças estivessem com a mãe em vez de as retirar. Sai muito mais caro ao Estado retirar as crianças para as institucionalizar. Esse dinheiro podia ser aplicado de outra forma.

Existem outros casos semelhantes a este?
Haverá muitos mais. Claro que tenho conhecimento de retiradas que são feitas como uma forma radical e rápida de resolver um problema que teria eventualmente outras soluções melhores para a criança.

Número de crianças retiradas de urgência às famílias caiu para metade
No entanto, as comissões de protecção dizem que se regem pela regra de que a retirada é o último de todos os recursos...
Do ponto de vista da legislação, a retirada é a última medida prevista na lei. Mas é tudo muito relativo. Neste caso [de Liliana Melo], que eu conheço melhor, aquilo que me chocou desde logo foi a inexistência de maus-tratos, a inexistência de violência quer física, quer psicológica, e a grande pobreza que ali havia. Nesse caso, como noutros de que tenho conhecimento, partiu-se dessa situação para uma institucionalização para confiança para adopção. Dizer que é a última medida é muito relativo.

A pobreza continua a ser um motivo para retirada?
Eu acho que sim. A pobreza está na base de uma grande percentagem das medidas de retirada para adopção. Aqui era preciso uma grande reflexão, uma grande estruturação. Ninguém me diz que uma criança com meios financeiros é mais feliz que uma criança que vive numa situação de pobreza – apoiada, provavelmente poderá fazer o seu caminho e ser tão feliz como uma criança que tem meios financeiros.
Podem existir aqui situações ilegais propositadas para que as instituições de acolhimento beneficiem dos subsídios?
Já ouvi várias vezes essa suspeita mas não me vou pronunciar sobre isso porque não tenho provas nenhumas de que isso seja verdade ou mentira. É uma coisa que devia ser esclarecida de uma vez por todas para as pessoas ficarem esclarecidas acerca dessa suspeita. Devia arranjar-se uma maneira de fiscalizar o trabalho feito pela Segurança Social. Devia haver protocolos e códigos de conduta, bem pensados e elaborados, para os técnicos da Segurança Social e da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Quer dizer que não se confia no trabalho feito?
Não quer dizer que não se confie. Acho é que o que não é fiscalizado ou fiscalizável é sempre perigoso. Tudo aquilo que é feito sem regras pode ser mau. Por isso devia haver fiscalização de todas as entidades que intervêm neste tipo de processos.