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28.9.23

Talibãs consideram direitos das mulheres "pequenas questões" após debate na ONU

in JN

Os talibãs afirmaram, quarta-feira, que os direitos das mulheres do Afeganistão à educação e ao acesso ao trabalho são "duas pequenas questões locais", após o Conselho de Segurança da ONU ter discutido os dois assuntos na terça-feira.


Através da rede social X (antigo Twitter), o principal porta-voz do Governo talibã, Zabiullah Mujahid, afirmou que "as discussões e opiniões na ONU foram desviadas para apenas duas questões pequenas e locais, como a educação das mulheres e o seu trabalho".


O porta-voz talibã criticou, por isso, a intervenção da diretora executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous, a pedir a todos os membros do Conselho de Segurança para se consciencializarem para o "apartheid de género no direito internacional" em vigor no Afeganistão, devendo ser essa a resposta da ONU à "opressão em massa" organizada pelo Estado sob controlo dos talibãs.

Apesar das promessas iniciais de mudança face à primeira ocasião em que governaram o Afeganistão, entre 1996 e 2001, os talibãs impuseram restrições severas aos direitos das mulheres afegãs desde que voltaram a controlar o Estado afegão há dois anos.


Essas restrições incluem a proibição total do ensino secundário e universitário feminino às mulheres, após a introdução de alterações nos currículos escolares e nas regras de vestuário, a proibição de trabalho em organizações não governamentais nacionais e estrangeiras e ainda o condicionamento da sua presença em espaços públicos.

O porta-voz talibã vincou ainda que a ONU deveria remover os líderes fundamentalistas da sua lista negra, remover as sanções internacionais e reconhecer o governo interino dos talibãs, que assumiram o poder em agosto de 2021.

25.8.23

Os talibãs não as deixam estudar, mas elas não se dão por vencidas: 50 afegãs vão frequentar universidades portuguesas

Margarida Mota, in Expresso


O regresso dos talibãs ao poder encurralou as afegãs em casa. Para as estudantes universitárias, em especial, as perspetivas de futuro caíram por terra, mas para 50 delas o sonho continuará em Portugal, onde têm garantidas bolsas de estudo para frequentar instituições do ensino superior. Nas 1424 candidaturas recebidas, “todas as raparigas usaram a expressão ‘poder continuar aquilo que eu estava a fazer’”, diz ao Expresso Ana Santos Pinto, responsável da Nexus 3.0, a organização não governamental que está na origem do projeto


A15 de agosto de 2021, a retirada em contrarrelógio das tropas internacionais do Afeganistão e, em simultâneo, a avançada sem resistência dos talibãs sobre Cabul constituíram um enorme embaraço para quem acreditava que 20 anos de presença estrangeira no país tinham tornado a influência dos talibãs residual.

Nimroz, no sudoeste, foi a primeira província a cair, nove dias antes de as forças do Emirado Islâmico entrarem na capital. Nove dias depois, mais 32 regiões ficaram totalmente sob controlo talibã. Apenas a província do Panjshir, no nordeste, resistiu durante uns tempos.

Com igual rapidez, a autoridade dos talibãs impôs-se a todo o território, com o sector da educação a servir de montra do novo Afeganistão. Quatro dias após controlarem os edifícios governamentais em Cabul, as escolas secundárias reabriram para um novo ano letivo, mas apenas com professores e estudantes do sexo masculino.


A generalização da interdição do ensino às mulheres seria questão de tempo. A 20 de dezembro de 2022, foi proibido o acesso às universidades. Apenas as escolas primárias continuaram a ter estudantes do sexo feminino, uma cedência controversa num país tribal e conservador como é o Afeganistão.

Em junho passado, quase 80 meninas foram hospitalizadas na sequência de casos de envenenamento em duas escolas primárias do norte do país. Em causa estão raparigas nascidas já este século sem conhecimento nem memória do que é viver sob domínio talibã e andar invisível debaixo de uma burca.

Para muitas delas, agora sem direito a educação formal, resta correr riscos e procurar conhecimento em centros de aprendizagem clandestinos — ou então sair do país.
1424 CANDIDATURAS PARA VIR PARA PORTUGAL

É o que acontecerá a 50 universitárias afegãs que prosseguirão com os estudos em Portugal, ao abrigo de um programa que lhes garante uma bolsa com duração até três anos. “Recebemos 1424 candidaturas. Cada manifestação de interesse não é um número, é uma história, uma vida que está em causa”, explica ao Expresso Ana Santos Pinto, secretária-geral da Nexus 3.0, a organização não governamental (ONG) na origem do programa.

“A vida destas raparigas não parou, está fechada dentro de casa. Algumas delas continuam a ler e a procurar conhecimento, dentro dos limites que a casa e o regime lhes impõe. Isso é uma demonstração de resiliência e de esperança de que podem ter um futuro”, explica Santos Pinto.



Um primeiro grupo de 25 afegãs chegará a tempo de frequentar o ano letivo 2023/24. As restantes virão no próximo. “Bem sei que 25 é um número limitado, mas é aquilo que sabemos que conseguimos fazer com eficácia”, garante a responsável.

Todas as raparigas frequentavam universidades quando os talibãs as encurralaram dentro de casa. Em Portugal, tirarão o curso que escolherem, dentro das vagas disponibilizadas pelas instituições de ensino superior aderentes.
DUAS RONDAS DE ENTREVISTAS

“Elas candidatam-se àquilo que querem de acordo com uma listagem”, explica a fundadora da Nexus 3.0, realçando a recetividade “muito positiva” de universidades e politécnicos.



“Consoante as vagas que cada instituição disponibilizar, serão feitas duas rondas de entrevistas: uma mais pessoal, do ponto de vista da candidata, do seu percurso, das condições que dispõe e daquilo que já fez; e depois a própria instituição terá os seus critérios, do ponto de vista de exames e de provas de conhecimento.”

Desse trabalho cruzado entre as disponibilidades da academia portuguesa e os interesses pessoais das afegãs resultará a escolha dos 50 nomes. Selecionadas as estudantes, seguir-se-á uma etapa sensível.

Neste momento, a esmagadora maioria das candidatas está no Afeganistão. Outras já foram forçadas a sair do país e estão em países vizinhos, como o Paquistão e o Irão, “muito poucas ainda com o estatuto de proteção internacional”, diz a professora universitária.



As que estão no país terão de arranjar forma segura para atravessar a fronteira. “O primado é, naturalmente, a segurança destas raparigas. Temos de o fazer de uma forma o mais discreta possível, porque não se trata só da segurança delas, mas de toda a sua família”, que fica para trás.

“Estas raparigas nasceram após 2001”, o ano do 11 de Setembro, da subsequente invasão militar do Afeganistão e da deposição do primeiro governo talibã, punido por ter dado guarida à Al-Qaeda de Osama bin Laden.

“O que elas conhecem do país é um processo de presença internacional, dentro do qual houve uma abertura à educação, ao desenvolvimento de capacidades, uma esperança de construção de um futuro. E, subitamente, todo o planeamento de vida, tudo aquilo que imaginaram deixou de ser possível. As expectativas destas raparigas deixaram de poder ser concretizadas neste contexto”, diz Ana Santos Pinto.

“Os últimos 20 anos criaram uma noção de possibilidades diferentes daquela que existia há 40. Nas candidaturas, todas elas usaram a expressão 'poder continuar aquilo que eu estava a fazer”, prossegue. Segundo a UNESCO, se em 2001 cerca de 5000 afegãs frequentavam o ensino superior, em 2021 esse número era de 100 mil.

CRONOLOGIA DE UM DESASTRE HUMANO19.09.2021 — Escolas secundárias reabrem só com professores e alunos do sexo masculino. Escolas femininas ficam encerradas indefinidamente.
20.12.2022 — Mulheres são proibidas de frequentar as universidades.
06.06.2023 — Talibãs dão 40 dias às ONG internacionais para transferirem as suas operações relativas à educação para organizações locais.

Este programa da Nexus 3.0 — organização fundada em 2022, por três mulheres, focada na promoção da educação, ciência, artes e cultura em contextos de fragilidade, violência e conflito — é também uma resposta a duas posições recentes da Assembleia da República.A 10 de fevereiro último, um projeto de resolução recomendou ao Governo que avaliasse com urgência a criação de um estatuto de estudante específico para refugiadas impedidas de frequentar o ensino superior, tendo como prioridade as afegãs. Apresentado pelo Livre, foi aprovado com votos favoráveis de todas as bancadas e abstenção do partido Chega.
A 10 de março seguinte, outra resolução recomenda ao Governo que “incentive as instituições de ensino superior a implementarem programas de acolhimento e apoio a estudantes, investigadores e professores, provenientes do Afeganistão, que sejam impedidos de estudar, estejam em risco ou forçados à deslocação”. De iniciativa do PAN, foi aprovada por unanimidade.

“Não se pode apregoar a igualdade de género e não se tentar fazer alguma coisa quando no Afeganistão ocorre uma discriminação absoluta, um verdadeiro apartheid de género”, diz Ana Santos Pinto.

A expressão, que condensa a impossibilidade de exercício de direitos por razão de género, é usada atualmente pelas Nações Unidas para qualificar o tratamento dos talibãs às mulheres. “Com este nível de proibição absoluta não me ocorre outro exemplo” de regime político ao qual se possa aplicar este rótulo, diz a professora de Relações Internacionais.

CRONOLOGIA DO CERCO TALIBÃ ÀS MULHERES

26.12.2021 — Proibição das mulheres viajarem a mais de 72 km sem a companhia de “um familiar masculino próximo”.
07.05.2022 — Obrigatoriedade de as mulheres se cobrirem totalmente em público, incluindo o rosto. Doze dias depois, a medida é aplicada também às apresentadoras de televisão.
10.11.2022 — Mulheres proibidas de usar banhos comunitários, ginásios e parques públicos.
24.12.2022 — Proibição das mulheres trabalhar em organizações não governamentais. Cinco dias depois, os talibãs acedem a que continuem a trabalhar em ONG do sector da saúde.
04.04.2023 — Afegãs proibidas de trabalhar para as Nações Unidas. A 5 de maio, o secretário-geral António Guterres anunciou que as operações da organização continuam no país, apesar das mulheres não poderem trabalhar para a ONU e ONG.
05.07.2023 — Interdita a entrada em salões de beleza femininos, a quem é dado um mês para fecharem portas.


Outra frente do programa destinada a “criar capacidade no Afeganistão” será o ensino online. “Neste momento, o que as raparigas têm no Afeganistão para contactar com o exterior — seja da sua casa, seja do país — é essencialmente um telemóvel com acesso à Internet. É irregular e instável, mas existe. Gostaríamos de providenciar cursos de ensino superior com recurso ao online. Permitir-nos-ia chegar a mais raparigas”, diz a responsável.

Para garantir o financiamento do projeto, a Nexus 3.0 — que já coordena um programa de bolsas para refugiados oriundos da Ucrânia — bateu a várias portas, garantindo verbas públicas e comunitárias, bem como apoio de instituições particulares de solidariedade social (IPSS) e mecenas.

As bolsas estão garantidas, faltando ainda uma verba complementar, a ser angariada por recolha privada, para custear despesas com viagens e alojamento, a necessidade de equipamentos informáticos ou de uma consulta num dentista, por exemplo. Nesta ligação é disponibilizada informação sobre como contribuir.

“Independentemente da sua área científica, todas as raparigas que submeteram candidatura têm o desejo de transformar o contexto das mulheres no Afeganistão”, conclui Ana Santos Pinto, que participou no processo de análise das propostas. “Para elas, é aquilo que, obviamente, é mais sensível.”

7.6.23

Em defesa dos direitos das mulheres. Gabriel Oviedo é o vencedor da edição de abril

in Público


Aluno autor do texto de opinião premiado frequenta o 12.º ano na Escola Secundária Henriques Nogueira, em Torres Vedras.

Direitos das mulheres no Afeganistão: uma miragem?

Após a chegada dos Taliban ao poder no Afeganistão, as consequências socioeconómicas notaram-se rapidamente, com a galopante crise económica do país em conjugação nefasta com a crise humanitária.

Efetivamente, desde a tomada de Cabul, o mundo tem vindo a assistir às mais grosseiras formas de violação dos direitos humanos, com repercussões particularmente dramáticas para as mulheres, que foram impedidas de trabalhar e de estudar. Além disso, as mulheres não têm a possibilidade de visitar jardins, parques, piscinas ou ginásios e, em distâncias superiores a 70 km, podem apenas deslocar-se com um “guardião” masculino, como nos foi revelado no artigo da autoria de Sofia Lorena. Foram estas leis discriminatórias que levaram a que o staff feminino do Afeganistão na ONU deixasse de poder exercer as suas funções.

A injustiça escandalosamente gritante da situação exposta neste artigo levou-me a selecioná-lo como objeto de reflexão. Apesar da impotência que se sente perante o que nos é apresentado, importa continuar a dar destaque a este caso nos nossos órgãos de comunicação social. Tal como no caso da morte de Mahsa Amini no Irão, com as manifestações que se lhe seguiram, é imperativo que a opinião pública ocidental continue a mobilizar-se em torno do protesto contra as violações dos direitos das mulheres em qualquer parte do globo.

Está nas nossas mãos, enquanto cidadãos, a possibilidade de reivindicar aos nossos governantes o exercício de pressão política – pelas vias diplomáticas – sobre os regimes totalitaristas que procuram fazer da opressão das mulheres um estilo de vida. Não basta a indignação perante as decisões dos Taliban e catalogar o país como “o mais repressivo do mundo para o direito das mulheres”; agir não deveria ser uma escolha, mas um dever quando os direitos humanos são violados.

Importa, por isso, repetir as vezes que forem necessárias: os direitos das mulheres são, antes de mais, direitos humanos. Qualquer mulher, em qualquer parte do mundo, devia ver respeitados os seus direitos essenciais. Estes não podem ser uma realidade para uma parte da Humanidade e, para a outra parte, apenas uma miragem.

Gabriel Oviedo
Escola Secundária Henriques Nogueira, Torres Vedras
12.º ano

​[“Taliban proíbem as funcionárias afegãs da ONU de trabalhar”. Era este o título da notícia do PÚBLICO, da autoria da jornalista Sofia Lorena, que levou Gabriel Oviedo a escrever o texto de opinião distinguido na edição de abril de 2023 do “Isto também é comigo!”, o concurso mensal promovido pelo PÚBLICO na Escola e pela Rede de Bibliotecas Escolares (RBE). O aluno vencedor recebe uma coleção de livros do PÚBLICO e vê o seu texto publicado. A escola ganha uma assinatura digital anual do PÚBLICO ou uma coleção de livros para a biblioteca. Do júri fizeram parte: Carolina Franco, jornalista, colaboradora do PÚBLICO na Escola; Cláudia Sá, professora de Português e coordenadora do Clube de Jornalismo da Escola Básica António Correia de Oliveira, em Esposende; Cristina Lin, aluna do Agrupamento de Escolas Emídio Navarro, em Almada; e Raquel Ramos, elemento da equipa do Gabinete Coordenador da RBE.]

5.7.22

Talibãs rejeitam pedido da ONU para reverter restrições às mulheres

in JN

Os talibãs rejeitaram, esta sexta-feira, um pedido do Conselho de Segurança da ONU para reverter as restrições impostas às mulheres afegãs, considerando "infundadas" as preocupações expressas pela comunidade internacional.

O Conselho de Segurança pediu, na terça-feira, que os talibãs, no poder no Afeganistão desde agosto de 2021, "revertam de imediato as políticas e práticas que atualmente restringem os direitos humanos e as liberdades fundamentais das mulheres e das meninas afegãs", numa declaração adotada por unanimidade.

O texto do órgão da ONU, composto por 15 membros, cita "a imposição de restrições que limitam o acesso à educação, ao emprego, à liberdade de movimento e à participação plena, igualitária e significativa das mulheres na vida pública".

O Conselho de Segurança apelou, sobretudo, à reabertura das escolas para todas as meninas, expressando a sua "profunda preocupação" com a obrigação imposta às mulheres de cobrirem o rosto em espaços públicos e quando estiverem a ser gravadas pelas televisões.


Em comunicado divulgado esta sexta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros afegão considera as preocupações do Conselho de Segurança "infundadas" e "irrealistas" e reafirma o seu "compromisso" de garantir os direitos das mulheres afegãs.

"Dado que o povo afegão é predominantemente muçulmano, o Governo afegão considera o respeito pelo [uso] do 'hijab' islâmico consistente com os valores religiosos e culturais da sociedade e as aspirações da maioria das mulheres afegãs", acrescenta o comunicado.

No início de maio, o líder supremo dos talibãs emitiu uma ordem para que as mulheres se cubram totalmente em público, incluindo o rosto, de preferência com a burca, um véu que cobre o rosto por inteiro com uma grade de tecido nos olhos.

As restrições impostas às mulheres afegãs "descrevem um modelo de total segregação sexual e visam tornar as mulheres invisíveis na sociedade", denunciou, na quinta-feira em Cabul, o relator especial da ONU para os direitos humanos no Afeganistão, Richard Bennett.

A comunidade internacional fez do respeito pelos direitos humanos, especialmente das mulheres, um pré-requisito nas negociações de ajuda e reconhecimento do regime islâmico, que regressou ao poder no ano passado, 20 anos depois de ter sido afastado, na sequência da saída de militares norte-americanos e dos seus aliados do país.

As novas restrições impostas às mulheres confirmam a radicalização do talibãs, que inicialmente tentaram mostrar um lado mais aberto do que durante a sua passagem anterior pelo poder, entre 1996 e 2001.

Na altura, o regime privava as mulheres de quase todos os seus direitos, em particular impondo-lhes o uso da burca.

8.6.22

ONU alerta que mais de um milhão de crianças afegãs enfrentam risco de fome severa

 in TSF

No final de 2021, cerca de metade da população afegã - 38 milhões de pessoas - viviam abaixo do limiar da pobreza.No Afeganistão, 1,1 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade enfrentam riscos de má nutrição, de acordo com as Nações Unidas, que alertam sobre o aumento do número de crianças hospitalizadas devido à fome no país.

A ONU lançou no ano passado, após a tomada do poder pelas forças talibãs, um programa de ajuda alimentar destinado a milhões de afegãos que não têm acesso a alimentos.

O relatório que avalia a situação no Afeganistão indica que a pobreza está a aumentar fazendo com que muitos cidadãos precisem de ajuda de emergência.

Os preços dos alimentos estão a subir desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia e as promessas de financiamento internacional não estão a ser cumpridas, de acordo com o mesmo relatório de avaliação da ONU.

O documento indica que as pessoas mais vulneráveis são vítimas da situação, incluindo crianças e as mães afegãs que lutam para alimentar as famílias.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, reitera a gravidade da situação afirmando que 1,1 milhões de crianças podem vir a sofrer condições severas (fome severa) o que significa o dobro da situação relativa à falta de alimentos em 2018.

Entre os mais vulneráveis encontra-se o grupo de crianças afegãs com menos de cinco anos de idade cujo número está a aumentar: em março de 2020 mais de 16 mil crianças recebeu tratamento hospitalar devido às consequências provocadas pela falta de alimentos, mas em 2021 o número aumentou para 18 mil.

O Afeganistão, país afetado por duas décadas de guerra já enfrentava uma situação de emergência de risco alimentar, mas a situação agravou-se depois da tomada do poder pelos talibãs, no ano passado.

Paralelamente, muitas organizações não-governamentais afastaram-se do Afeganistão sendo que as sanções internacionais impostas por vários países contra o novo regime fizeram colapsar a economia local.

Milhões de afegãos enfrentam situações de penúria: até ao final do ano passado, mais de metade da população afegã (38 milhões de pessoas) viviam abaixo do limiar da pobreza, de acordo com os números das Nações Unidas.

23.5.22

Apresentadoras de TV do Afeganistão voltam a cobrir o rosto

in DN

No sábado, as apresentadoras desafiaram a ordem dos talibãs e optaram por apresentar-se em direto sem esconder o rosto. Mas este domingo já surgiram de cara coberta.

As apresentadoras das principais cadeias de televisão afegãs surgiram este domingo em antena com a cara coberta, um dia após desafiarem a ordem dos talibãs para esconderem o rosto, submetendo-se assim à visão austera deste grupo islâmico.

Depois do regresso ao poder no ano passado, os talibãs impuseram uma série de restrições à sociedade civil, grande parte das quais para limitar os direitos das mulheres.


No início do mês, o chefe supremo dos talibãs emitiu uma ordem segundo a qual as mulheres devem cobrir-se inteiramente em público, incluindo o rosto, idealmente com a burca tradicional.

Antes, bastava um lenço para cobrir o cabelo.

O temido Ministério para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício do Afeganistão ordenou às apresentadoras de televisão que cumprissem a norma até sábado.

Mas as jornalistas optaram por não acolher a ordem no sábado e apresentaram-se em direto sem esconder o rosto.

Hoje, apresentaram-se de burca, deixando ver apenas os olhos para apresentarem os jornais nos canais TOLOnews, Ariana Television, Shamshad TV e 1TV.

17.11.21

Mais 210 refugiados afegãos chegaram a Portugal

in Público on-line

Portugal já acolheu 476 refugiados afegãos, sobretudo pessoas que colaboraram com as forças militares portuguesas, com a NATO ou com as Nações Unidas no Afeganistão.

Mais 210 refugiados afegãos chegaram esta terça-feira a Lisboa, juntando-se aos 266 que se encontram em Portugal desde o início do processo de retirada do Afeganistão, em meados de Agosto, revelou à agência Lusa fonte governamental.

Segundo o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação português, Francisco André, os 210 refugiados, todos de nacionalidade afegã, chegaram a Lisboa cerca das 18h55, num grupo que integra um grande número de mulheres e crianças.

No total, relevou Francisco André, Portugal já acolheu 476 refugiados afegãos, sobretudo pessoas que colaboraram com as forças militares portuguesas, com as da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ou ainda com as das Nações Unidas no Afeganistão, bem como familiares de alguns que já estão em território português.

O grupo integra ainda aqueles que Francisco André considerou “vulneráveis” face ao regime taliban, que tomou o poder em Cabul em Agosto, como activistas dos direitos humanos, mulheres, mulheres jovens, juízes, juristas, jornalistas e ainda alguns familiares das jogadoras de futebol feminino afegãs que já se encontram em Portugal.

“Com a chegada dos 266 refugiados afegãos fica quase concluído o compromisso que Portugal assumiu no quadro da resposta ao apelo internacional para receber refugiados oriundos do Afeganistão”, referiu Francisco André à Lusa, admitindo que falta “um número reduzido” de cidadãos afegãos que “não ultrapassará as duas dezenas”.

Francisco André indicou que, à partida, todos estão bem de saúde e que há apenas uma mulher que se encontra na fase final da gravidez, pelo que está já a ser acompanhada pelas autoridades sanitárias.

As operações de retirada foram coordenadas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português, em parceria com a USAID (agência de cooperação dos Estados Unidos) e envolveu também o Serviço Jesuíta aos Refugiados e várias fundações, bem como uma organização não-governamental.

No aeroporto de Lisboa, os refugiados foram recebidos pela Alta-Comissária para as Migrações, Sónia Pereira, e serão enviados, para já, para diversos centros de apoio em Portugal, para que, depois, sejam divididos consoante os interesses de cada um, sobretudo no caso de familiares.

O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação adiantou que Portugal não tem um número definido de refugiados para acolher, indicando, porém, que, nas próximas semanas, deverá chegar “mais um número significativo” de outros, mas sem adiantar pormenores.

“Continuamos a trabalhar nesse sentido, para retirar afegãos do país. Já chegamos quase às cinco centenas e estamos a tentar adequar a nossa capacidade de acolhimento para responder às eventuais necessidades”, acrescentou Francisco André, salientando que todo o processo tem de ser feito com “discrição e segurança”.

“Com isto, não fica concluído, mas fica praticamente concluído o processo de retirada de quase todos os cidadãos afegãos que trabalharam com as nossas forças [no Afeganistão] e as suas famílias. Essa foi uma das prioridades que foi assumida por Portugal em meados do mês de Agosto. Mas ainda falta um número muito reduzido de pessoas para chegarem a Portugal. A grande maioria já está em Portugal”, concluiu.


8.11.21

ONU alerta para forte aumento de pessoas à beira da fome no mundo

Olímpia Mairos, in RR

O número de pessoas à beira da fome subiu de 42 para 45 milhões desde o início do ano. Segundo o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, a principal razão para esta subida está no facto de se terem registado mais 3 milhões de pessoas que sofrem com a fome no Afeganistão.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas alertou, esta segunda-feira, para a subida do número de pessoas à beira da fome, em 43 países. Atualmente serão 45 milhões de pessoas, o que significa um aumento 3 milhões de pessoas, em relação aos números divulgados no início do ano.

Números que são justificados pela situação que se vive no Afeganistão.

"Dezenas de milhões de pessoas estão a olhar para o abismo. Os conflitos, as mudanças climáticas e a Covid-19 aumentam o número de pessoas que passam fome", disse o diretor executivo do PMA, David Beasley, citado pela Agência France Press, acrescentando que “os dados mais recentes mostram que existem agora mais de 45 milhões de pessoas à beira da fome”.

Segundo David Beasley, “o custo dos combustíveis sobe, o preço dos alimentos dispara, os fertilizantes estão mais caros, e tudo isto alimenta novas crises, como a que acontece, agora, no Afeganistão, bem como emergências de longa duração, como o Iémen e a Síria”.

O responsável pelo PMA, sublinha que no Afeganistão, as famílias que enfrentam a insegurança alimentar aguda são "obrigadas a tomar decisões devastadoras", casando os seus filhos antes do tempo, retirando os mesmos da escola ou alimentando as crianças com insetos, folhas silvestres ou catos.

As secas no Afeganistão somam-se ao colapso económico e levam as famílias ao limite, enquanto, na Síria, 12,4 milhões de pessoas não sabem de onde virá a sua próxima refeição.

Segundo o PMA, para evitar a fome no mundo, são agora necessários seis mil milhões de euros, sublinhando que as formas de financiamento tradicionais estão saturadas.

Para além do Afeganistão, a fome também aumentou na Etiópia, Haiti, Somália, Angola, Quénia e Burundi.

1.9.21

Portugal confirma que está disponível para acolher “várias centenas” de refugiados afegãos

Rita Siza, Bruxelas, in Público on-line

Ministros da UE protelam discussão sobre quotas para o acolhimento e a redistribuição de refugiados. Eduardo Cabrita informou os parceiros europeus das condições de Portugal para receber populações vulneráveis: mulheres e crianças, jornalistas, magistrados e activistas dos direitos humanos perseguidos pelos taliban.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, confirmou aos seus parceiros europeus que Portugal está disponível para acolher de imediato “várias centenas” de refugiados vindos do Afeganistão, com prioridade para os grupos que a União Europeia designou como os mais vulneráveis: mulheres e crianças, activistas dos direitos humanos, jornalistas e magistradas e juristas, que correm um risco acrescido com o retorno dos taliban ao poder naquele país.

No final de uma reunião extraordinária do Conselho de Justiça e Assuntos Internos da União Europeia, convocada para discutir a situação no Afeganistão, esta terça-feira em Bruxelas, o ministro português garantiu que o país tem a capacidade financeira, no quadro do Fundo de Asilo e Migrações gerido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, para assegurar a instalação de “algumas centenas de pessoas” — e acrescentou que o Governo não deixará de ponderar qual pode ser a “capacidade adicional” para receber mais pessoas com estatuto de protecção internacional, através dos mecanismos europeus.

No encontro desta terça-feira, que coincidiu com o encerramento oficial da operação militar dos Estados Unidos da América e da NATO no Afeganistão, nem os Estados-membros, nem o executivo comunitário, quiseram discutir quotas de redistribuição ou comprometer-se com o acolhimento de um determinado número de refugiados afegãos: todos concordaram que é demasiado cedo para abordar um tema que é politicamente sensível e divide os governos da UE.

Aliás, nas declarações proferidas pelos vários responsáveis políticos, à entrada e à saída da reunião, ficou clara a divisão entre os países que estão disponíveis para apoiar a instalação de refugiados do Afeganistão no seu território, e os que defendem que os cidadãos que estão a ser perseguidos pelas novas autoridades e tentam fugir do país “não devem vir para a Europa, mas sim permanecer na região”, como insistiram vários ministros, nomeadamente o dinamarquês Mattias Tesfayer, filho de um imigrante etíope.

O ministro do Luxemburgo, Jean Asselborn, criticou abertamente esta posição, e defendeu a abertura de um programa europeu de reinstalação semelhante ao que foi anunciado pelo Reino Unido, que prometeu atribuir 20 mil vistos de residência a cidadãos em risco no Afeganistão. “Não podemos aceitar todos, já sabemos isso. Mas somos a região mais rica do mundo, onde a democracia e o primado da lei são valores fundamentais. Temos a obrigação de dar esperança àqueles que estão a ser perseguidos e deixaram de poder viver normalmente”, considerou,

No fim do dia, a questão do acolhimento de refugiados acabou por ser protelada. Segundo a comissária com a pasta dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, o executivo vai promover um fórum de alto nível para a reinstalação de cidadãos afegãos no próximo mês de Setembro, altura em que poderá já estar concluído um “exercício de redistribuição” que os serviços de Bruxelas já iniciaram.

Esse exercício poderá até nem terminar com a fixação de numerus clausus: como notou a comissária, nem a UE nem nenhuma organização internacional está em condições de garantir a saída de afegãos do seus país, pelo que não faz muito sentido definir um valor absoluto. “Ao contrário de outros países, como por exemplo o Canadá, a União Europeia também está a receber muita gente que chega de forma irregular. No último ano demos asilo a 300 mil pessoas”, apontou Johansson.

A mensagem politica que a comissária procurou passar foi a de que a União Europeia não pode esperar que os candidatos a asilo cheguem às suas fronteiras externas. “Não podemos esperar que as pessoas cheguem aqui para agir. Temos de ter uma resposta abrangente, e trabalhar com a comunidade e as organizações internacionais, no Afeganistão e nos países da região, para prevenir uma crise humanitária, uma crise migratória e uma crise de segurança, como aconteceu em 2015”, sublinhou. Mas Ylva Johansson fez questão de clarificar que “nem a Convenção de Genebra, nem o Tratado da UE ou o acervo comunitário, que reconhecem o direito de pedir de asilo, significam que todos aqueles que necessitam de protecção internacional podem vir para a Europa”.

Numa declaração conjunta aprovada pelo Conselho da UE, os Estados-membros pedem à Comissão para desenhar um plano de acção, em colaboração com os países vizinhos do Afeganistão, para “responder ao impacto das deslocações na região”. Segundo Eduardo Cabrita, todos os participantes na reunião (os 27 países da UE e os três países associados da zona Schengen) concordaram que deve ser dada “prioridade absoluta à dimensão humanitária, como melhor e única forma de prevenir o risco para a segurança da Europa” — o que necessariamente implica o diálogo e a cooperação com os países vizinhos, em particular o Irão e o Paquistão, onde já existem comunidades significativas de afegãos.

“Há uma predisposição da UE para trabalhar em conjunto com os países vizinhos de forma a estabelecer mecanismos que permitam a salvaguarda dos direitos de quem foi forçado a fugir, mas não há um modelo definido”, afirmou o ministro da Administração Interna.

Questionada no final da reunião, a comissária excluiu a hipótese de replicar o acordo que Bruxelas assinou com a Turquia no auge da crise migratória provocada pela guerra da Síria. “Não faremos copy paste do acordo com a Turquia, teremos soluções específicas para cada país em função das necessidades”, declarou Ylva Johansson. “Neste momento, não vemos um grande aumento do número de afegãos nos países vizinhos. Se esse movimento se verificar, veremos com esses países qual o tipo de apoio mais relevante para atender as pessoas em necessidade”, concluiu.

31.8.21

Mais 20 cidadãos refugiados chegam esta terça-feira a Portugal

in Público on-line

Segundo a governante, os cidadãos afegãos que chegaram a Portugal estão concentrados em dois centros e, seguirão, posteriormente para acolhimento.

Portugal vai receber esta terça-feira mais cerca de 20 cidadãos afegãos que se juntam aos 66 refugiados que já se encontram em território nacional, disse a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva.

“Nós recebemos até agora 66 pessoas e hoje chegará um grupo próximo de 20 pessoas. E, portanto, ficaremos já com um número significativo”, disse a ministra, na Guarda.

A governante falava aos jornalistas à margem da sessão pública de assinatura do contrato de financiamento da Nova Geração de Equipamentos e Respostas Sociais, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, entre o Instituto da Segurança Social e a Estrutura de Missão Recuperar Portugal, que também contou com a participação da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, e da secretária de Estado da Acção Social, Rita Mendes.

Segundo a governante, os cidadãos afegãos que chegaram a Portugal estão concentrados em dois centros e, seguirão, posteriormente para acolhimento.

“Nós temos, neste momento, uma situação de emergência, é preciso aguardar que as pessoas cheguem para que possamos completar os seus perfis. Elas estão, neste momento, em dois centros de forma mais centralizada, para depois seguirem para soluções de acolhimento mais estáveis. É esse o trabalho que está a ser feito”, explicou.

Mariana Vieira da Silva contou que as pessoas “vinham cansadas”, porque “foram dias muito difíceis até à saída do Afeganistão”.

“[Agora ] é o momento de as acolher... de lhes dar um quadro de estabilidade e de paz, para podermos prosseguir com o acolhimento que já deve ser dirigido em função das suas características (...) para procurarmos encontrar a melhor forma de as acolher em Portugal”, prosseguiu.

Muitas Câmaras Municipais, instituições do sector social, organizações da sociedade civil e também muitas famílias disponibilizaram-se “não apenas a acolher, mas também a contribuir para que o acolhimento seja mais bem sucedido.

“Isso é um excelente sinal que o nosso país dá neste momento difícil e, agora, é tempo de por mãos à obra nesse acolhimento”, admitiu a ministra da Presidência.

Os refugiados poderão ser distribuídos pelas várias respostas encontradas no território, de acordo com os perfis de cada um, e a saída dos centros de acolhimento está dependente das entrevistas e da “avaliação de situação”.

“Mas nós temos condições para rapidamente iniciar esse processo. Não significa que ele seja feito ao mesmo tempo para todas as pessoas. O importante é criarmos boas condições de acolhimento e de integração e é nisso que estamos a trabalhar”, garantiu.

Ainda de acordo com a ministra, há a perspectiva de Portugal receber mais cidadãos refugiados do Afeganistão que trabalharam quer nos programas da União da União Europeia quer da NATO e também através de organizações que estão no território e dos parceiros internacionais.

“Neste momento, nós temos capacidade de acolher mais de 400 pessoas. Agora, sabemos que o ponto mais difícil, neste momento, não é o acolhimento, é o que se passa no terreno, no Afeganistão. E, portanto, é daí que podem surgir mais limitações. Vamos continuar a acompanhar, disponíveis para acolher, para integrar, em conjunto com toda a sociedade”, disse.

Segundo os últimos números, cerca de 114.000 pessoas foram retiradas de Cabul, desde a tomada da cidade pelos talibãs, em cerca de 2.900 em voos militares ou da coligação internacional.

30.8.21

“Nós dependemos de vocês para sobreviver”

Ana Dias Cordeiro (Texto), João Pedro Pincha (Texto), Rui Gaudêncio (Fotografia) e Nelson Garrido (Fotografia), in Público on-line

Nasir fugiu de Cabul em 2015 e pediu asilo a Portugal. Está bem integrado e isso permitiu-lhe apelar ao Governo português para não deixar para trás a sua irmã Lida e a mãe Roshan. Há 11 anos neste país, também Mohammad Yusuf Taheri só pensa em tirar do Afeganistão os familiares que ainda lá estão.

O terror no Afeganistão chegou em diferentes vagas à família de Nasir Ahmad: primeiro em 2015 quando ele começou a ser perseguido e recebia ameaças num país profundamente marcado por atentados e outras armadilhas; e agora, desde 15 de Agosto com os taliban no poder, quando a mãe de 75 anos e a irmã de 31 anos lutam para sair da capital entre as multidões de civis afegãos​.

No primeiro dia em que saíram de casa desde a chegada dos taliban a Cabul para chegarem ao aeroporto internacional, a irmã Lida e a mãe Roshan estavam a menos de um quilómetro quando um bombista suicida se fez explodir no local que era o destino das duas mulheres.

O atentado desse dia, quinta-feira, foi reivindicado pelo Daesh, e condenado pelos taliban, matou pelo menos 110 pessoas e deixou 150 pessoas feridas num balanço que ainda pode ser revisto em alta. “Elas escaparam, graças a deus”, diz Nasir.

Mas por ter trabalhado e contribuído para a defesa dos direitos humanos e das mulheres no Afeganistão, a irmã Lida sabe que não escapa a uma sentença à morte. É ela própria que o diz na exposição emocionada que faz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), traduzida para português pelo irmão: “Nós dependemos de vocês para sobreviver.”

“Peço por clemência que salvem as nossas vidas e nos tragam para Portugal. Nós dependemos disso para sobreviver e poder passar a levar uma vida com o mínimo de dignidade, como mulheres e cidadãs”, diz Lida no texto que acompanha o pedido ao MNE e que Nasir mostrou ao PÚBLICO.

“Eu sempre costumava ser uma activista contra a ideologia dos taliban e pela defesa das mulheres, e agora estou sofrendo ameaças à minha vida. E a minha mãe também está comigo, já que, como é idosa, depende de mim para lhe prestar cuidados. Ela tem dificuldades para caminhar e também não está com uma saúde boa; eu temo muito pela sua vida”, escreve Lida.
"Um mínimo de dignidade"

“Agora que os taliban tomaram o poder, o acesso à saúde e à educação, e a segurança da população vai deteriorar-se ainda mais. Também sinto muita falta do meu irmão Nasir, que está extremamente preocupado connosco. Por todas essas razões supracitadas, gostaria de solicitar ao Governo português que nos traga a Portugal, que salve minha vida me trazendo para Portugal, para que eu possa viver no Porto junto do meu irmão.”

Nasir não imagina como seria se não estivesse bem integrado neste país. “Nós candidatámo-nos junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros porque eu estou integrado em Portugal, porque tive asilo e, apesar de todos os obstáculos, consegui integrar-me, acabei agora um mestrado em Business na Católica do Porto. Isso permite ao Governo português ter toda a nossa informação, a minha informação pessoal e da minha família. Conhecem-me, sabem quem eu sou.”

“Peço por clemência que salvem as nossas vidas e nos tragam para Portugal. Nós dependemos disso para sobreviver e poder passar a levar uma vida com o mínimo de dignidade, como mulheres e cidadãs”, diz Lida no pedido dirigido ao MNE traduzido pelo irmão Nasir Ahmad (na fotografia)

As autoridades portuguesas estão a tentar tirar os cidadãos afegãos com ligações a Portugal “mas podiam fazer mais”, diz. “Eu peço que o façam porque ainda há esperança e possibilidade. Eu só peço o mesmo ao Governo português que as coloquem num lugar seguro antes de as colocarem no avião porque ir para o aeroporto agora é impossível.”

O pedido escrito com data de 20 de Agosto é um dos muitos que chegaram directamente ao MNE nos últimos dias, de pessoas vulneráveis, em perigo de vida pela actividade que exerceram até agora no Afeganistão ou por terem ligações profissionais a empresas portuguesas ou parte da família em Portugal, como Lida e Roshan.

Contactado, o gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garante que “terminada esta fase mais imediata, em que as prioridades estão centradas nos cidadãos nacionais e nos afegãos que colaboraram com as forças nacionais destacadas, a prioridade passará a ser apoiar afegãos vulneráveis, incluindo o favorecimento de processos de reagrupamento familiar”.

Em declarações ao Expresso, o ministro Santos Silva sublinhou que as condições para se chegar ao aeroporto “são muito difíceis”, agora agravadas pelo atentado de anteontem. “Uma coisa é haver mulheres, activistas ou jornalistas a pedir asilo a Portugal. Outra é conseguirem entrar no aeroporto. Quem controla é o poder afegão”, acrescentou na mesma entrevista.
Os homens da família

A viver no Porto, Nasir trocou as horas do dia pelas da noite para acompanhar os passos inseguros de Lida e da mãe Roshan Noori na “corrida contra o tempo” (de que fala o ministro). Desde que o pai morreu é o único homem da família, aquele que poderia fazer as compras e levar a mãe ao hospital, agora que as mulheres não podem sair sozinhas à rua por imposição dos taliban.

Também a família Taheri não tem saído de casa desde que os taliban entraram em Cabul. Não duvidam do que lhes aconteceria. “Quem sai é o mais novo, se apanham os outros matam-nos”, resume o patriarca que habita há 11 em Portugal​. A mais de oito mil quilómetros de distância, nada preocupa mais neste momento Mohammad Yusuf Taheri do que tirar do Afeganistão os familiares que ainda lá estão.

"Quando as pessoas saem do Afeganistão não é fácil chegar à Europa. As pessoas vendem tudo o que têm para pagar a ida, mas de 200 que saem, talvez 50 cheguem. Os que têm sorte." Mohammad Yusuf Taheri

São homens e mulheres que construíram a sua vida nas últimas duas décadas e estavam integrados no sistema social e político que acaba de ser derrubado: eram médicos, juízes, polícias, militares, tradutores. Vários trabalharam para os exércitos português, americano e francês. Algumas raparigas da família estavam na universidade. Agora todos se escondem.

Lidar com jornalistas já não é novidade para este afegão de 70 anos. Desta vez, porém, hesita em falar, tal é o desespero em que se encontra. A única coisa que o motiva é fazer chegar ao Governo a mensagem de que os países que invadiram o Afeganistão em 2001 não podem agora abandonar aqueles que os ajudaram. “A minha família só quer sair dali para ter uma vida digna”, diz Mohammad. “Estamos à procura de organizações a quem possamos dar informações sobre os nossos familiares”, apela.

No bar da União Atlético Povoense, na Póvoa de Santa Iria, está pendurada na parede a camisola de um Taheri, Hamid, que agora joga futebol no Bobadelense. Omed, o irmão mais velho, é guarda-redes no mesmo clube e acalenta o sonho de fazer uma carreira boa e longa. Por enquanto conduz um tuk-tuk por Lisboa. “Durante um ano trabalhei para outros, consegui juntar dinheiro e comprar um tuk. Hoje sou dono de mim mesmo”, sorri. Ao lado do pai, que não fala português, Omed vai traduzindo a indignação de Mohammad.
Casamentos forçados

Nenhum deles acredita que os taliban tenham mudado desde que saíram à força do poder. “Os vídeos que recebemos da nossa família são muito mais agressivos do que as coisas que têm passado cá na televisão”, diz o pai. “As raparigas e as mulheres viúvas são forçadas a casar com os taliban”, exemplifica o filho.

Em 1996, depois da primeira ocupação de Cabul pelo grupo extremista islâmico, Mohammad fugiu com a mulher e os oito filhos, receando pela vida por ter sido militar. É lacónico sobre esse tempo: “Saímos para o Paquistão pelas montanhas. Andámos sete dias e sete noites a pé.” Omed, que tinha cinco anos, tem uma recordação vaga. “Lembro-me de termos de nos deitar com neve por cima para não nos verem.”

"Onze anos depois, o meu estatuto ainda é o de refugiado. Portugal agora é o meu país, mas se não me ajudar a mim não tenho vontade de ajudar Portugal." Omed Taheri

Refugiaram-se na Ucrânia e foi lá que Hamid começou a dar os primeiros toques na bola, nas escolinhas do Shaktar Donetsk. “O meu pai conseguiu dar-nos uma vida boa, mas todos os meses tínhamos de renovar os documentos”, relata Omed. Ao fim de 12 anos, pediram recolocação ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e Portugal dispôs-se a acolhê-los. Chegaram em 2009.

“Quando as pessoas saem do Afeganistão não é fácil chegar à Europa. As pessoas vendem tudo o que têm para pagar a ida, mas de 200 que saem, talvez 50 cheguem. Os que têm sorte. Os outros morrem pelo caminho: com fome, com frio, na fronteira iraniana, na fronteira turca, nos barcos”, conta o patriarca. Para ele é claro que “o Irão e o Paquistão estão a ajudar os terroristas com armas e dinheiro.”

Dos oito irmãos, apenas Omed e Hamid continuam em Portugal. Os restantes emigraram e até Mohammad, para compor uma reforma de 275 euros, passa temporadas em Londres junto de familiares. Desde há dois anos que tem nacionalidade portuguesa. Omed fez o pedido em Novembro do ano passado, ainda não tem resposta. “Onze anos depois, o meu estatuto ainda é o de refugiado.” Não compreende. “Portugal agora é o meu país, mas se não me ajudar a mim não tenho vontade de ajudar Portugal”, diz.

Em 2013, durante alguns meses, a família esteve emigrada na Alemanha, onde todas as despesas da casa eram asseguradas pelo Estado, que ainda pagava uma semanada de 290 euros por pessoa. A intenção era ficar por lá, mas os refugiados que estão em programas internacionais têm de habitar no país em que são recolocados. “Quando voltámos, o Estado português não nos ajudou nada durante dois anos. Depois começaram a dar 152 euros para a família toda”, queixa-se Mohammad. “Os outros países ajudam os refugiados, o Estado português não ajuda ninguém”, completa Omed.

Tal como Hamid, Omed trabalhou em restauração até um amigo lhe falar dos tuk tuk. Ao princípio não acreditava que fosse rentável, mas quando experimentou ficou convencido. Parte do dinheiro que ganha serve para ajudar o pai e o seu filho. “Joga no Samouco, dizem que tem bons pezinhos! Já o filho do meu irmão é guarda-redes. Parece que houve aqui uma troca”, ri-se.

"Terminada esta fase mais imediata, em que as prioridades estão centradas nos cidadãos nacionais e nos afegãos que colaboraram com as forças nacionais destacadas, a prioridade passará a ser apoiar afegãos vulneráveis, incluindo o favorecimento de processos de reagrupamento familiar.” Gabinete do ministro Augusto Santos Silva

Sorrisos e desespero

Também Nasir começa com um grande sorriso uma entrevista telefónica em que se esforça por explicar tudo com detalhe e cuidado. Mas o seu olhar, através do visor da chamada por vídeo, não disfarça o desespero.“Embora nos últimos anos tenha havido conflitos e instabilidade no resto do país, em Cabul não se punha essa hipótese porque havia a presença dos helicópteros, dos militares, do equipamento militar.”

O mal não poderia chegar onde estava montado todo este aparato, acreditava. “Um dia acordamos e o país está entregue aos terroristas. Isto aconteceu tudo em seis dias”, diz sobre o rápido avanço dos taliban para Cabul assim que as tropas norte-americanas começaram a deixar o país.

“Tenho amigos, e sei que estão a perseguir pessoas que trabalharam para o governo, jornalistas, activistas e as mulheres que trabalham. Estudar é um crime. Ouvir música é um crime. Se for uma mulher, matam-na; se for um homem, provavelmente vai para a prisão. Estão a ir de casa em casa, à procura de pessoas que trabalharam para o governo. Essas pessoas tiveram acesso a muita informação confidencial.”

A serenidade com que pronuncia cada palavra contrasta com o horror contido em cada frase. Em 2015, com 25 anos e uma licenciatura, teve que fugir. Era funcionário de uma empresa de comunicações para a segurança do Estado num país em alerta permanente pela omnipresença dos vários movimentos combatentes e terroristas, o principal dos quais os taliban.

Nasir não está preparado para relatar essa fuga, não pelo receio de qualquer represália, mas para evitar reminiscências das tortuosas travessias por mar e terra que só os traficantes oferecem, sem condições de segurança, em troca de milhares de euros – memórias que fez por esquecer para seguir em frente.

Não concebe uma saída do país assim, como uma fuga cercada por perigos, para a irmã e a mãe. Os seus nomes estão entre as mais de 100 pessoas que o Ministério dos Negócios Estrangeiros português está a tentar trazer para Portugal. São, como todos os nomes da lista, pessoas ou familiares de pessoas que trabalharam com embaixadas, forças ou empresas de países da União Europeia ou da NATO, incluindo Portugal cujos militares saíram em Maio passado.

Nasir fala em particular das mulheres: “Estão em perigo todas as que trabalham e não apenas as que trabalharam com a NATO, Estados Unidos, outros países ou organizações internacionais.” Lida e Roshan nunca antes tinham tentado sair de Cabul.

“A minha mãe e a minha mãe quiseram ficar lá, não abandonar o país. A situação era difícil mas não impossível. Tudo foi inesperado, porque aconteceu de forma súbita”, diz Nasir. “Agora é impossível.”

"Processo de acolhimento." Vão chegar 56 afegãos a Portugal até sábado

Por TSF

Ministra de Estado e da Presidência explica que o processo de acolhimento destes afegãos vai ter agora duas fases.

Até sábado vão chegar a Portugal 56 afegãos. O anúncio foi feito pela ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, ao início da tarde desta sexta-feira.

"Um primeiro grupo destas 56 pessoas chegará a Portugal hoje mesmo e, até ao dia de amanhã, todas estas 56 pessoas chegarão ao nosso país em segurança e pode então iniciar-se o processo de acolhimento", explicou, à RTP, Mariana Vieira da Silva.

A ministra explica que o processo de acolhimento destes afegãos vai ter agora duas fases.

"Uma primeira fase em que as pessoas permanecerão em centros de acolhimento temporário para que possa ser feito esse trabalho de contacto com aquelas famílias, de recolha de informação de diversas áreas, para depois se procurar uma segunda fase de acolhimento. Procurar encontrar soluções habitacionais, soluções escolares, de formação profissional e de entrada no mercado de trabalho. Nestes primeiros dias, e não sei dizer quantos porque isso também depende deste acolhimento inicial, ficarão concentrados em dois centros temporários aqui no distrito de Lisboa", afirmou a ministra de Estado e da Presidência.

Quanto à resposta da sociedade civil e à semelhança do que já tinha feito o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mariana Vieira da Silva destaca a grande disponibilidade para ajudar.

"Foi uma reação extraordinária. Por um lado, das instituições que habitualmente trabalham nesta área, tivemos mais de 31 instituições que se disponibilizaram para apoiar neste processo, mas também das pessoas individuais e empresas. Tivemos quase 4500 de famílias, empresas, das mais diversas organizações e com outras respostas que vão ser necessárias: apoio psicológico e no ensino da língua", acrescentou Mariana Vieira da Silva.

24.8.21

Papa: emergência climática e crise humanitária criam pobreza, urge solidariedade

Silvonei José, Amedeo Lomonaco, in Vatican News

Em um tuíter, Francisco compartilhou o tema do Dia da Ajuda Humanitária da ONU, lembrando que aqueles em situação de pobreza são mais vulneráveis a eventos climáticos extremos. Da Caritas Internationalis um apelo para garantir segurança e apoio à população do Afeganistão e do Haiti e o fornecimento de bens de primeira necessidade ao povo do Líbano.

O mundo, cada vez mais ameaçado pelas mudanças climáticas, está em uma encruzilhada e o Papa recorda isso com um tuíter no dia em que a ONU celebra o Dia Mundial Humanitário, o Dia da Ajuda Humanitária. A emergência climática", lê-se na breve mensagem de Francisco, "gera cada vez mais crises humanitárias e os pobres são os mais vulneráveis a eventos climáticos extremos". A solidariedade baseada na justiça, na paz e na unidade da família humana é urgentemente necessária".

Também para as Nações Unidas, a humanidade pode sair vitoriosa ou derrotada da encruzilhada representada pela mudança climática. É isto que o secretário geral, António Guterres, enfatiza em sua mensagem para o Dia, celebrado neste dia 19 de agosto para comemorar um ataque dramático: aquele que ocorreu em 19 de agosto de 2003 em Bagdá e custou a vida de 22 trabalhadores humanitários, incluindo o Representante Especial das Nações Unidas no Iraque, o brasileiro Sergio Vieira de Mello. O Dia de hoje pretende, portanto, incentivar a reflexão sobre a mudança climática que, como escreve o Papa Francisco em sua encíclica "Laudato si", é "um problema global com sérias implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas". Estima-se que até 2021, também devido à pandemia, mais de 235 milhões de pessoas precisarão de assistência e proteção humanitária.
Situações de emergência

São muitas as situações de emergência suscitadas por fenômenos naturais ou pelos homens que causam transtorno, sobretudo aos países mais pobres do mundo: pandemia da Covid-19, degradação ambiental, aumento do nível do mar, secas, inundações, incêndios florestais, e agora, a crise no Afeganistão e Líbano e o terremoto no Haiti.

Estas emergências confirmam que a “ecologia humana integral” evocada pelo Papa Francisco “é a única solução”. É o que afirma a Caritas Internacionalis por ocasião do “Dia Mundial da Ajuda Humanitária”, celebrado nesta quinta-feira, 19 de agosto.
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O organismo católico, que reúne 162 organizações caritativas que atuam em 200 países, exorta os responsáveis ​​políticos a "dar passos corajosos": "sem uma deliberação política determinada, a vida humana corre perigo. Se parte da humanidade sofre, toda a família humana também sofre”.

Neste dia, a Caritas Internacionalis faz seus prementes apelos:

1. Aos líderes mundiais pede, acima de tudo, para enviar verbas suficientes às comunidades locais, para realizar suas atividades de desenvolvimento comunitário, agrícolas e não agrícolas, que possam garantir meios de subsistência e segurança alimentar.

2. As comunidades locais devem ser envolvidas nas intervenções humanitárias, deixando-lhes um espaço prioritário na gestão dos desastres ambientais.

3. A Caritas Internacionalis, recorda a necessidade de incentivar os governos locais para agir, de modo eficaz, em estreita colaboração, com as organizações da sociedade civil e grupos religiosos, diante das consequências das mudanças climáticas.

4. Acesso à assistência básica da saúde integral aos mais vulneráveis, inclusive vacinas para doenças letais.

5. Os líderes políticos são convidados a se comprometer com a promoção de políticas econômicas e industriais globais, destinadas a minimizar o impacto do aquecimento global e a degradação dos ecossistemas.

Neste sentido, a Caritas exorta a COP-26 de Glasgow (26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) a tratar deste tema com urgente prioridade, propondo soluções concretas e adequadas, mediante recursos e meios suficientes.

Por fim, neste Dia Mundial da Ajuda Humanitária, a Caritas Internacionalis recorda os últimos desdobramentos da situação no Afeganistão e Líbano, reiterando a necessidade de "garantir a segurança da população afegã e o envio de verbas para suprir as necessidades básicas do povo libanês.

23.8.21

Metade dos afegãos vive abaixo da linha de pobreza e precisa de ajuda urgente

in SicNotícias

Um pacote de farinha pode custar quase 20 euros.

Enquanto milhares de afegãos tentam sair do país, a esmagadora maioria da população procura ajustar-se a uma nova realidade. Os talibãs prometem paz e estabilidade, mas o medo ainda prevalece.

Com as mulheres ainda muito ausentes do quotidiano da capital, aos poucos, a normalidade impõe-se nas ruas de Cabul. Reabrem lojas e mercados, onde os preços muito inflacionados refletem o medo latente, mas também muitos problemas estruturais, agravados por uma seca sem precedentes.

Um pacote de farinha pode custar quase 20 euros. Outros bens essenciais estão igualmente fora do alcance da esmagadora maioria da população. Metade dos 30 milhões de afegãos vive abaixo da linha de pobreza e precisa urgentemente de ajuda.

8.8.18

Afeganistão põe fim a exames de virgindade que levam mulheres à prisão

in o Observador

A nova política decretada pelo Ministério da Saúde afegão proíbe hospitais e clínicas de praticarem os exames que, até à data, sentenciavam centenas de jovens à prisão.

Uma nova política de saúde pública, apoiada por uma coligação afegã de líderes religiosos e ativistas e patrocinada pela organização Marie Stopes International, levou à aprovação pelo Ministério da Saúde de um decreto que exige a todos os hospitais e clínicas o fim dos testes de virgindade por questões de saúde.

Numa prisão da província de Balkh no Afeganistão, mais de 200 mulheres são confinadas em pequenas celas sem quaisquer condições sanitárias. O tempo das suas sentenças varia. Porém as condenações são muitas vezes as mesmas: são acusadas “crimes morais” por ter um resultado negativo nos testes de virgindade.

De acordo com um relatório de 2016 da Humans Rights Watch, de cerca de metade das mulheres presas no Afeganistão – e 95% das jovens em detenção juvenil – estão detidas por “crimes morais” como a prática de sexo antes do casamento.
Tem sido uma luta muito longa, mas nós vemos isso como um grande avanço porque a política de saúde pública no Afeganistão é forte e respeitada, tanto no governo quanto nas zonas controladas pelos Taliban, está acima da sharia e temos expectativas de que ela será respeitada e implementada todas as províncias ”, acredita Farhad Javid, o diretor da Marie Stopes International em declarações ao The Guardian.

Os testes de virgindade foram banidos em 2016, mas Javid afirma que a polícia continuou a deter mulheres suspeitas de terem feito sexo e a levá-las para os hospitais onde eram forçadas a fazer o teste.

A polícia acredita que entre os seus deveres está a prisão preventiva de raparigas que suspeitam ter tido relações sexuais fora do casamento. Tanto que o próprio presidente declarou publicamente que durante muito tempo as autoridades e pelas forças de segurança agiram de forma errada.

Para a organização, o próximo passo é fazer com que as mulheres presas sejam libertadas e exoneradas. No entanto, Javid afirma que “é muito difícil saber exatamente quantas mulheres estão presas por esse crime”.
“Também não temos ideia do número de mulheres e meninas que são mortas ou prejudicadas porque, depois do casamento, o marido ou a família dele decidem que ela não era virgem. Mas fazer com que os testes de virgindade banidos em instituições de saúde pública é um passo importante e começamos daqui. ”, concluiu.