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19.9.18

"Na Bulgária, caçar refugiados é um desporto"

Reportagem de Ricardo J. Rodrigues (texto) e Rui Oliveira (fotos), na Bulgária, in DN

Viagem à fronteira mais ignorada da Europa, no sul da Bulgária, onde há grupos paramilitares de patrulha, campos de refugiados que são um desespero, deportações e detenções inexplicáveis. Daqui percebe-se um continente inteiro. Os refugiados são para manter longe de vista. Custe o que custar

"Hoje é um bom dia para ir à caça", e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu de Yambol, no sul da Bulgária - está limpo. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder - e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.

"Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo-o-terreno. Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero." O que é que fazem exatamente? "Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto", diz. "Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que põem a Europa em perigo. Não os podemos, nem vamos, deixar entrar."

Dinko tornou-se famoso na Bulgária há dois anos quando, depois de entregar 12 sírios às autoridades, o canal de televisão bTV o apresentou como "o super-herói que está a lutar pela pátria." Dias depois, o primeiro-ministro veio agradecer publicamente a ajuda dos civis que apoiam a polícia na monitorização da fronteira: "O vosso contributo é bem-vindo", disse então Boyto Borisov.

Em 2016, Bruxelas pagou seis mil milhões à Turquia para travar o fluxo de refugiados para a Europa, depois de quase dois milhões de pessoas terem entrado na União no ano anterior. E foi nesse momento que os grupos paramilitares do país vizinho ganharam espaço para crescer. "A Bulgária construiu um muro e passou a impedir entradas sem atender a causas humanitárias nem a pedidos de asilo", diz Martin Dimitrov, jornalista do diário búlgaro 24 Horas e especialista em questões de imigração. "A palavra de ordem agora é expulsar, doa a quem doer."

Dinko Valev e o seu exército têm hoje carta-branca para caçar os refugiados que quiserem. Na sucata que também é centro de operações, o homem apressa-se nos contactos, amanhã é dia de ir ter com as patrulhas. Um bom dia para a caça, como ele disse antes. Há hoje menos gente a passar a fronteira? "Há cada vez mais." Mesmo com o muro? "Eles cortam o arame, mas nós não os deixamos entrar." O que fazem aos refugiados que encontram? "Entregamos à polícia, mas se resistirem damos-lhes uma sova." Já mataram alguém? Uma pausa, Dinko não responde. A conversa acaba aqui.

A fronteira mais esquecida
A aldeia de Rezovo não tem mais de uma vintena de casas, mas tem mais de uma centena de bandeiras búlgaras penduradas nas janelas, nos postes elétricos, nas árvores. Tem um monumento que assinala onde estamos: no extremo sudeste da União Europeia. Um pequeno ribeiro, altamente vigiado pela polícia marítima, separa a Bulgária da Turquia. Na margem norte, mesmo encostada à água, há uma enorme vedação, e essa é uma imagem estranha - um curso de água murado, para que ninguém o atravesse.

Há uma vedação ao longo de toda a fronteira com a polícia, há brigadas policiais a controlar a raia e milícias civis a travar o fluxo de entradas. Os refugiados não entram.
© Rui Oliveira/Global Imagens
"Temos a fronteira mais bem guardada da Europa", orgulhava-se em junho deste ano o primeiro-ministro búlgaro no Parlamento Europeu. "Proponho que a Europa feche todas as suas fronteiras como nós fechámos, para que mais nenhum refugiado possa entrar." Estes 267 quilómetros de raia com a Turquia estão vedados por arame farpado, de três a quatro metros de altura. Há unidades policiais em todas as aldeias do sul e há as milícias civis, toleradas pelo governo de Sófia.
Quando toda a gente estava a olhar para os refugiados que atravessavam o Mediterrâneo pela Itália e sobretudo pela Grécia, ou que eram travados por terra na Croácia e na Hungria, a Bulgária foi-se mantendo fora do radar - apesar de lhe pertencer a maior fronteira terrestre com a Turquia. Entre os refugiados, no entanto, aquela passagem era conhecida como a mais cruel.
"Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano"

Keyhan Yusefi, um jornalista curdo de 37 anos, decidiu há três anos que só tinha uma hipótese de se manter vivo: chegar à Europa. "Quando o Daesh chegou ao Iraque, os jornalistas tinham a cabeça a prémio e eu não era exceção", conta agora ao DN. "No dia em que fui à escola buscar o filho de um colega meu que tinha sido assassinado tomei uma decisão. Tinha chegado a hora."
Largou a pé de Duhok e atravessou a fronteira com a Turquia - 12 horas, sem problemas de maior. "Depois meti-me num autocarro para Istambul e acabei por ficar lá um mês, a preparar o salto." Na noite de 28 para 29 de dezembro de 2015 chegou ao norte do país, tentou entrar por Rezovo. "Lembro-me que nevava intensamente e que fui perdendo de vista as pessoas que tentavam passar comigo. Muitas foram apanhadas na fronteira e mandadas voltar para trás. Morreram de frio na floresta."

Ele e mais três rapazes conseguiram passar a rede. Começaram a subir os montes quando lhes apareceu um grupo de homens mal encarados - eram os guardas do Movimento Nacionalista de Dinko Valev. "Eu só gritava que era jornalista, mas fui espancado até não ter forças para resistir. Depois entregaram-me à polícia." Durante três noites não o deixaram dormir, conta, mantinham-no acordado à base de murros e pontapés.

"Depois prenderam-me dez dias num campo de refugiados, de onde não podia sair." Lembra-se que as casas de banho estavam imundas, que os chuveiros não funcionavam, nada. "Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano." No primeiro dia em que lhe foi dada permissão de saída do campo fugiu.

Keyan Yusefi, jornalista curdo, espera encontrar a salvação na Europa. Afinal encontrou um mundo onde faltam direitos e sobram abusos.
© Rui Oliveira/Global Imagens
Durante três meses percorreu o continente oculto até chegar à Suécia, onde tinha família. Aí, entregou-se às autoridades. "Mandaram-me de volta para a Bulgária porque era aqui que tinha o primeiro registo. Então voltaram a espancar-me e torturar-me. Mas o facto de ir para a Suécia permitiu que eu tivesse uma oportunidade de pedir de asilo." Se receber resposta positiva, garante, sairá imediatamente do país.

Em março deste ano, a comissão parlamentar europeia de Liberdades Civis visitou a fronteira da Bulgária com a Turquia. O relatório final é bastante claro: "Os abusos dos direitos humanos mantêm-se persistentes." Além dos casos de espancamento e tortura, "agora os refugiados veem-se empurrados para trás sem oportunidade sequer de fazer um pedido de asilo". Martin Dimitrov, jornalista búlgaro, resume o estado das coisas neste momento: "Batemos nuns quantos refugiados e deixamos que muitos morram. Os outros, simplesmente, tratamo-los mal."
Um campo para fantasmas
Muros altos com vedações eletrificadas. Três blocos de edifícios robustos, com as paredes descascadas. Um posto de vigia com vista para o enorme terreiro onde um rapaz sírio, vestido com uma camisola de Cristiano Ronaldo, e esta ainda é do Real Madrid, se torna todas as tardes estrela local de futebol. Isto é o campo de refugiados de Harmanli, o maior do país, a 40 quilómetros da fronteira turca. Isto também é uma antiga prisão, convertida em albergue improvisado em 2015. Isto continua a ser uma prisão, dizem os que lá vivem.

Crianças que perderam ou se perderam dos pais são uma boa parte dos que sobram em Hamanli. Os habitantes da vila chamam-lhe "os fantasmas".
© Rui Oliveira/Global Imagens
Até ao final de 2016, a Bulgária tinha acolhido oficialmente 60 mil refugiados (o governo calcula que um número dez vezes superior tenha atravessado o país sem registo) e mais de 25 mil pessoas foram colocadas aqui, apesar de as instalações não terem capacidade para mais de sete mil. Na vila de Harmanli, que não tem mais de dez mil habitantes, as tensões começaram a notar-se. Uma das medidas mais simbólicas foi o facto de os búlgaros proibirem os refugiados de pendurar publicamente - em árvores e em estações de autocarro - o anúncio dos seus mortos.

No outono de 2016, a extrema-direita organizou uma série de manifestações a exigir o encerramento do campo e a deportação dos estrangeiros. Em novembro, houve um motim entre os refugiados, que se queixavam da falta de condições sanitárias e de estarem presos sem culpa formada. A polícia marchou sobre a multidão, centenas de estrangeiros foram detidos e, depois, deportados.

Saleha Naimi é um dos 264 fantasmas que sobram em Hamanli. É essa a alcunha que os habitantes da vila dão hoje aos poucos refugiados que ainda permanecem no campo - são sobretudo crianças que chegaram aqui sozinhas e gente à espera de resposta a pedidos de asilo e reunificações familiares. Na Bulgária, em 90% dos casos, diz o relatório publicado no início de agosto pela Fundação de Acesso aos Direitos, uma organização não governamental que defende os direitos civis dos refugiados, esses pedidos são recusados.

Afegã, 60 anos, Saleha era professora e, precisamente por ser mulher, instruída e a ensinar outras mulheres a escrever, tinha a cabeça a prémio pelos talibãs. "Eu morava numa das zonas mais conservadoras do país e tive de mudar-me para Cabul. Nós chamamos-lhe Caboom, por causa das bombas e dos atentados." Ali, apesar de tudo, podia dar aulas. Mas as coisas complicaram-se no final de 2015, quando o marido quis casar a sua filha, de 16 anos, com um homem de 64.
Pegou imediatamente na rapariga e fez-se ao caminho. Com a ajuda de alguns trabalhadores internacionais chegou ao Irão e daí passou de autocarro a fronteira para a Turquia. "Depois estive quatro noites na floresta, sem qualquer comida e apenas um cantil de água, até conseguir entrar na Bulgária." Foi apanhada pela polícia na fronteira e nem quiseram saber a sua história. "Fiquei presa, em total isolamento, durante 22 dias." Só quando saiu percebeu que estava em Hamanli.

Sahena é professora, fugiu do Afeganistão para poder ensinar mulheres a ler e para impedir que o seu marido casasse a filha de 16 anos com um homem de 64. Dois anos depois, espera asilo.
© Rui Oliveira/Global Imagens
Como tinha uma filha menor pôde pedir asilo. Está há dois anos e meio à espera da resposta. No início de 2017, à medida que o campo se esvaziava, pediu para ocupar uma das salas livres e fazer ali uma escola para as crianças refugiadas. "Quando comecei tinha 200 alunos, agora não são mais de 20. Não tenho qualquer apoio ou materiais de trabalho. Mas, se não fizer este esforço, estas crianças - que estão sozinhas - não vão ter quaisquer ferramentas para se defender do mundo."
Ivan Cherescharov, presidente da Caritas búlgara, diz que não há hoje qualquer apoio para os três mil refugiados que sobram no país. "Somos nós que damos 100% das ajudas, mas o governo deixou de nos dar qualquer financiamento." O relatório da Fundação de Acesso aos Direitos também não deixa dúvidas: "Os refugiados não têm acesso a direitos básicos e estão a ser expulsos da Bulgária em total desrespeito pelos direitos europeus." O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados já condenou este abandono búlgaro. Ivan diz que está em marcha um plano europeu: "Se ninguém os vir, eles não existem."
Não voltarás
Hoje houve várias pessoas a receber resposta aos seus pedidos de asilo e o desespero toma conta dos fantasmas de Hamanli. Ahmad Waheed e a mulher, Shaimamuri, estão preocupados. Têm ambos 70 anos e o seu pedido de estatuto foi rejeitado. "Voltar ao Afeganistão não é uma opção", diz o homem num inglês sem mácula. "Mas também não temos forças para andar a tentar passar a fronteira outra vez."

Ahmad Waheed e a mulher, Shaimamuri, tiveram de fugir do Afeganistão porque o filho era tradutor das Forças Armadas britânicas. Têm a cabeça a prémio, mas receberam ordem de deportação.
© Rui Oliveira/Global Imagens
Muitos dos que são deportados tentam voltar a entrar na Europa, mas a maioria acaba por ficar na Turquia, onde há três milhões de refugiados. "O problema é que na Turquia entram grupos radicais que também nos perseguem", diz o homem. O seu crime não foi seu, foi do filho: foi tradutor das tropas britânicas durante dois anos. O rapaz foi morto pelo Daesh e os velhotes fizeram-se à estrada. Pensaram que Londres podia acolhê-los, mas nem o Reino Unido nem a Bulgária os querem. Agora não sabem o que fazer.
Num quarto ali ao lado há uma família que se abraça num longo choro. Hamid Mohammadi, um sírio de 35 anos, acabou de receber ordem de deportação para casa - consideraram que tinha imigrado por questão económica. Sumaya, 28, é a sua mulher. Ela vai poder ficar com os dois filhos do casal - Suhil, de 6 anos, e Avshia, de 3. Mas agora hesita: "Volto contigo, a nossa família lutou demasiado para se manter unida."

Fugiram da Síria, quando atravessaram a fronteira os passadores tentaram ficar com as crianças para pagarem a dívida. Conseguiram salvar-se e pedir asilo. As notícias que chegam são cruéis: o pai vai ser deportado, a mãe e os filhos podem ficar.

Vieram há dois anos, quando elementos do Daesh começaram a ameaçar Hamid por trabalhar para uma empresa de cimento ucraniana e, aos olhos do grupo terrorista, estava a compactuar com os infiéis. "Não foi fácil atravessar a Turquia com uma criança de 1 ano e outra de 4. Mas o pior foi chegar à fronteira." Pagaram três mil euros a um passador que os fez caminhar durante dez horas até passarem a vedação. "Quando chegámos à Bulgária, ele disse que afinal o preço era de oito mil euros. Disse-lhe que não tinha dinheiro e ele disse que ia ficar com os meus filhos para os vender." Ao seu lado, Sumaya chora e confirma tudo.

Hamid começou a gritar: "Help, help, help." E diz que teve uma sorte danada porque, passados uns minutos, apareceu um grupo de vigilantes - o homem não consegue determinar se era o movimento de Dinko Valev ou qualquer outro. "Deram-me uns pontapés, fiquei preso um mês, mas pelo menos a minha família permaneceu junta." Agora, a Europa que eles acreditaram poder mantê-los a salvo é a Europa que os obriga a separar-se. "Há um provérbio no meu país que diz que, se gritares, alguém acabará por te ouvir", diz Sumaya. "Mas como é que podemos ser ouvidos se nos em

8.8.18

Afeganistão põe fim a exames de virgindade que levam mulheres à prisão

in o Observador

A nova política decretada pelo Ministério da Saúde afegão proíbe hospitais e clínicas de praticarem os exames que, até à data, sentenciavam centenas de jovens à prisão.

Uma nova política de saúde pública, apoiada por uma coligação afegã de líderes religiosos e ativistas e patrocinada pela organização Marie Stopes International, levou à aprovação pelo Ministério da Saúde de um decreto que exige a todos os hospitais e clínicas o fim dos testes de virgindade por questões de saúde.

Numa prisão da província de Balkh no Afeganistão, mais de 200 mulheres são confinadas em pequenas celas sem quaisquer condições sanitárias. O tempo das suas sentenças varia. Porém as condenações são muitas vezes as mesmas: são acusadas “crimes morais” por ter um resultado negativo nos testes de virgindade.

De acordo com um relatório de 2016 da Humans Rights Watch, de cerca de metade das mulheres presas no Afeganistão – e 95% das jovens em detenção juvenil – estão detidas por “crimes morais” como a prática de sexo antes do casamento.
Tem sido uma luta muito longa, mas nós vemos isso como um grande avanço porque a política de saúde pública no Afeganistão é forte e respeitada, tanto no governo quanto nas zonas controladas pelos Taliban, está acima da sharia e temos expectativas de que ela será respeitada e implementada todas as províncias ”, acredita Farhad Javid, o diretor da Marie Stopes International em declarações ao The Guardian.

Os testes de virgindade foram banidos em 2016, mas Javid afirma que a polícia continuou a deter mulheres suspeitas de terem feito sexo e a levá-las para os hospitais onde eram forçadas a fazer o teste.

A polícia acredita que entre os seus deveres está a prisão preventiva de raparigas que suspeitam ter tido relações sexuais fora do casamento. Tanto que o próprio presidente declarou publicamente que durante muito tempo as autoridades e pelas forças de segurança agiram de forma errada.

Para a organização, o próximo passo é fazer com que as mulheres presas sejam libertadas e exoneradas. No entanto, Javid afirma que “é muito difícil saber exatamente quantas mulheres estão presas por esse crime”.
“Também não temos ideia do número de mulheres e meninas que são mortas ou prejudicadas porque, depois do casamento, o marido ou a família dele decidem que ela não era virgem. Mas fazer com que os testes de virgindade banidos em instituições de saúde pública é um passo importante e começamos daqui. ”, concluiu.

2.8.18

O Boko Haram transformou-as em “bombas humanas”, mas elas sobreviveram

Ana Marques Maia, in Público on-line

Membros do grupo radical islâmico Boko Haram fizeram delas “bombas humanas”, mas estas crianças e adolescentes sobreviveram. Em trabalho para o The New York Times, o australiano Adam Ferguson encontrou-as na Nigéria e fez os seus retratos.

Foi-lhes prometido “um lugar no céu”, mas com uma condição: deveriam fazer-se explodir no interior de edifícios governamentais, mercados, mesquitas, hospitais, postos militares, campos de refugiados, universidades. Aisha, Fatima, Maryam, Fiddausi, Maimuma S., Maimuma B., Falmata, Balaraba e Fati são apenas nove das 18 meninas sobreviventes que Adam Ferguson fotografou para o The New York Times. O autor da série fotográfica The Bombs They Carried conversou com o P3, por Skype, e aproveitou o momento para narrar a experiência no terreno e partilhar algumas das histórias das meninas feitas “bombas humanas” que quase perderam a vida. São histórias de sobrevivência.

Aisha tem hoje 15 anos. Após a invasão da sua aldeia pelo grupo extremista islâmico, o pai decidiu abalar com os dois filhos, Aisha e o irmão. Durante a fuga, foram interceptados por militantes do Boko Haram. O pai foi morto no local. O irmão, que tinha apenas dez anos, foi imediatamente armadilhado com uma bomba e levado, de mota, por dois membros do grupo. Aisha foi transportada para um dos esconderijos da organização, onde viria a permanecer sob sequestro. Os dois soldados que tinham carregado o seu irmão regressaram pouco tempo depois, sozinhos e rejubilantes. O menino tinha-se feito explodir junto a um quartel militar, percebeu. Disseram a Aisha que não chorasse. “Ele matou pessoas más”, argumentaram.

Pouco tardou até que chegasse a vez de Aisha. Ataram ao corpo da adolescente um cinto com explosivos. Deveria dirigir-se ao mesmo quartel onde morrera o irmão e fazer-se explodir, tal como ele. Foi deixada nas imediações do alvo, sozinha. Pensou que o melhor seria afastar-se e premir o gatilho num local isolado, onde não pudesse magoar ninguém. Mas pensou melhor e optou por pedir ajuda. Abordou “delicadamente” os soldados que estariam na mira do seu ataque. “Disse-lhes que o meu irmão tinha explodido no mesmo local e matado alguns dos seus colegas”, contou ao The New York Times. “O meu irmão não tinha maturidade para perceber que não tinha de fazer o que lhe pediam. Era apenas uma criança.” Os soldados confiaram em Aisha e removeram do seu corpo o cinto com explosivos, evitando o pior.

Aisha, 14 anos, foi "bomba humana", mas sobreviveu. Adam Ferguson
Após várias semanas em cativeiro, dez meninas e adolescentes armadilhadas foram libertadas por membros do Boko Haram no centro de Maiduguri, a capital do estado de Borno, a região onde se concentra, até à data, a maioria dos ataques com recurso a bombistas suicidas de toda a Nigéria. As meninas far-se-iam explodir separadamente, junto a diferentes alvos. Foi o último dia de vida de muitas delas, mas não para Fati. Então com 14 anos, a menina optou por dirigir-se a uma esquadra de polícia e pedir auxílio. Os agentes assustaram-se e abandonaram apressadamente o edifício, deixando-a sozinha. Só minutos mais tarde regressaram ao local e pediram à adolescente que se dirigisse a um descampado das proximidades e lá deixasse o engenho explosivo que trazia no saco.

Os pedidos de ajuda representam um risco para as crianças e jovens armadilhados. Há quem, perante a ameaça de explosão, prefira garantir que o bombista não prime o botão e opte por alvejá-lo. Um relatório de Abril de 2017, elaborado pela UNICEF, sugere que um em cada cinco bombistas suicidas do Boko Haram são crianças — e que dois terços dessas crianças são do sexo feminino. A população nigeriana, consciente desse facto, teme a presença de crianças, sobretudo de meninas, em locais públicos de grande afluência. Nos últimos três meses de 2016, garantem as Nações Unidas, 13 crianças — de idades compreendidas entre os 11 e os 17 anos — foram mortas após terem sido confundidas com bombistas suicidas.

Governo nigeriano negoceia cessar-fogo com Boko Haram
Fatima, que tinha 17 anos no momento em que esteve prestes a fazer-se explodir, gritou perante os soldados que deveria sacrificar: “Estou inocente! Não estou com eles! Eles forçaram-me!” Foi desarmadilhada. Maryam pediu ajuda a um idoso que descansava à sombra de uma árvore. O pedido de socorro foi feito a vários metros de distância, não fosse tratar-se de uma rasteira, e o homem conseguiu libertá-la do cinto-bomba. Maimuma, hoje com 15 anos, tem consciência de que muitas pessoas da sua comunidade suspeitam que colabore com o grupo terrorista. Mas também sabe que muitas compreendem a sua situação e a felicitam por ter tido coragem de desobedecer aos raptores. “Há quem me veja como parte do Boko Haram, mas há também quem me considere uma heroína”, disse ao jornal norte-americano.

“É uma história extraordinária”
As nove meninas cujos retratos Adam Ferguson partilhou com o P3 têm uma história em comum. “Todas foram raptadas, todas perderam a sua família às mãos do Boko Haram, todas foram incumbidas de missões suicidas, todas pediram ajuda e sobreviveram”, enumerou o fotógrafo.

“Em apenas dois dias fiz os retratos de 18 meninas que sobreviveram”, contou o fotógrafo australiano ao P3. Em trabalho para o The New York Times, Adam voou até à Nigéria com o intuito de retratar algumas das 276 estudantes que foram raptadas pelo Boko Haram em Abril de 2014. O governo e o exército nigerianos, porém, não permitiram o contacto de Adam com as vítimas, motivo pelo qual o fotógrafo se viu forçado a investigar uma história alternativa. Encontrou duas jovens mulheres que tinham sido vítimas de violação por parte de membros do exército nigeriano e decidiu fotografá-las. Mas, durante as sessões, percebeu que ambas tinham sido “bombas humanas”. “Era uma história extraordinária, que nunca tinha sido contada”, comentou. Convenceu o editor do jornal norte-americano a desistir da história anterior e a apostar em The Bombs They Carried. Assim nasceu o projecto.

Alunas raptadas pelo Boko Haram na Nigéria foram devolvidas às famílias
Ferguson fotografou-as de modo a ocultar as suas identidades, com recurso a iluminação de estúdio. “Não as queria fotografar de uma forma estereotipada. Todos associamos África a pobreza e a histórias dramáticas. Não achei que fotografá-las no seu ambiente quotidiano fosse acrescentar algo à história que pretendia contar. Quis, sim, retratá-las de forma a enfatizar a sua coragem e dignidade.” Todos os retratos foram cuidadosamente pensados. “Não alterei os locais, apenas os iluminei, mas fui muito cuidadoso. Posicionei as meninas em determinados ângulos em relação à luz, preocupei-me com as cores dos seus lenços e com o contraste que tinham relativamente à cor das paredes. Pretendia obter um efeito de mistério através do uso da luz artificial. Acho que as pessoas responderam bem às fotografias por esse motivo, por deixarem tanto em aberto.”

Boko Haram: porquê mulheres e crianças?
O perfil preferencial para este tipo de missão terrorista, por parte do Boko Haram, é muito particular, especialmente em comparação com outros grupos terroristas. De facto, o Boko Haram usou mais mulheres como bombistas suicidas do que qualquer outro grupo terrorista: 244 mulheres entre Abril de 2011 e Junho de 2017.

O recurso a mulheres pode ser explicado pelas longas vestes e lenços que compõem o traje feminino muçulmano e facilitam a ocultação de engenhos explosivos. A ausência de mulheres no sistema hierárquico do grupo terrorista torna-as menos necessárias e, por isso, dispensáveis. Além disso, não estão, em nenhum momento, sujeitas a buscas corporais por parte das forças de segurança nigerianas, compostas exclusivamente por homens (um homem não está autorizado a revistar uma mulher, seja qual for a circunstância). De sublinhar também que muitas das missões não são aceites voluntariamente pelas mulheres. Muitas são coagidas a levá-las a cabo.
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O recurso a crianças nestas missões tem diferentes explicações. A maioria das crianças que assumiu o papel de “bomba humana” foi sequestrada pelo grupo já tendo em vista a função a que se destinava, ainda que, residualmente, algumas tenham sido oferecidas ao grupo pelos pais, como prova de lealdade. As crianças são fisicamente mais pequenas — o que facilita a penetração em locais onde a segurança é mais apertada, através de entradas alternativas — e cognitivamente imaturas, o que facilita o processo de coacção ou manipulação para a execução da tarefa. Têm menos tendência a divulgar a missão a terceiros, por medo de serem repreendidas ou castigadas, e a aparência inocente torna-as, em teoria, menos suspeitas.

O primeiro ataque com recurso a bombistas suicidas levado a cabo pelo Boko Haram aconteceu a 8 de Abril de 2011. Entre essa data e o final de Junho de 2017, segundo o relatório Combating Terrorism Center at West Point, desenvolvido pela Academia Militar dos Estados Unidos da América e publicado em Agosto de 2017, foram tentados 434 ataques com recurso a "bombas humanas"; 85 não foram bem-sucedidos, o que representa uma taxa de insucesso de 19,6%. Os ataques bem-sucedidos mataram, durante esse período, pelo menos 2632 pessoas.

16.8.17

300 milhões de crianças africanas vivem na pobreza

in Rádio Vaticano


Nova Iorque (RV) – São as crianças que pagam o preço mais alto pelas crises, sobretudo na África, revela o relatório publicado pelas Nações Unidas segundo o qual, 60% das crianças africanas – cerca de 300 milhões – são pobres, obrigadas a viver com menos de 1,25 dólares ao dia. É a maior cifra já registrada.

Cifras preocupantes

“Estas cifras são preocupantes”, comentaram funcionários da ONU, citados pelas agências.

“Na África e na Ásia meridional a incidência da pobreza entre as crianças é respectivamente de 66 e de 50%, muito mais elevada do que em qualquer outra parte do globo”.

Em 39 países da África subsaariana, os jovens com menos de 18 anos, são o grupo social mais numeroso entre os pobres.

Crianças com menos de 9 anos

A condição pior – segundo os especialistas da ONU - é aquela vivida pelas crianças com menos de nove anos. No Sudão do Sul, Nigéria e Etiópia, ao menos nove crianças em cada dez vivem em condições de grave miséria.

África Subsaariana com maior percentual de crianças extremamente pobres

Esta análise soma-se àquela fornecida pelo Fundo para as Crianças do Banco Mundial, publicada em outubro passado, segundo o qual a África Subsaariana não somente tem o maior número de crianças que vivem em pobreza (49%), mas tem o maior percentual de crianças extremamente pobres (51%).

“As crianças – afirmou o Vice-Diretor Executivo do Unicef, Justin Forsyth – têm o dobro de probabilidade do que um adulto de viver em pobreza extrema, mas têm menos instrumentos do que um adulto para enfrentar a pobreza por causa das doenças, da mortalidade infantil e do carente desenvolvimento na primeira infância”.

Fome na rica República Democrática do Congo

Existem países, no entanto, em que a situação é mais dramática, como na República Democrática do Congo, que paradoxalmente, é um dos mais ricos do continente.

Mas é justamente devido à exploração indiscriminada dos recursos do sub-solo – em particular o ouro, o coltam e a cassiterita – que o leste do Congo continua a viver uma situação de grave instabilidade e violência, com consequências dramáticas para a população local.

Nigéria e terrorismo

Tem depois a Nigéria, onde o terrorismo do Boko Haram dilacerou o território e a população.

Nos primeiros meses de 2017 foram destruídos 53 povoados e mortas mais de 800 pessoas, sobretudo crianças.

E por trás da luta contra o terrorismo se escondem muitas vezes interesses de homens poderosos, que nestes anos especularam e se enriqueceram às custas da vítimas.

3.8.17

Comissão convida países a reconhecer genocídio cigano na II Guerra

in Notícias ao Minuto

A Comissão Europeia homenageou hoje as vítimas de etnia cigana que perderam a vida na Segunda Guerra Mundial e convidou todos os Estados-membros a reconhecer este genocídio, a propósito do Dia de Holocausto Cigano.

Numa declaração conjunta, o vice-presidente do executivo comunitário, Frans Timmermans, e a comissária da Justiça, Consumidores e Igualdade de Género, Vera Jourova, instaram a não esquecer "os crimes horríveis" cometidos contra os ciganos.

"As gerações mais jovens, para quem estes episódios parecem distantes, devem conhecer e compreender esta tragédia. A perseguição e a discriminação não cabem na União Europeia", afirmaram, através de um comunicado.

Timmermans e Jourova defenderam que recordar "os erros do passado" ajuda a "construir a Europa do amanhã sobre a base dos nossos valores comuns europeus".

A Comissão Europeia convida todos os Estados-membros a "reconhecer o genocídio cigano" e reiterou o seu apoio à resolução do Parlamento Europeu de 15 de abril de 2015, que estabeleceu 02 de agosto como Dia de Comemoração do Holocausto Cigano.

A 02 de agosto de 1944, mais de três mil homens, mulheres e crianças de etnia cigana foram assassinados nas câmaras de gás do campo de concentração de Auschwitz e Auschwitz-Birkenau (à data da ocupação da Polónia pela Alemanha nazi).

Para assinalar o 73.º aniversário deste genocídio, funcionários da União Europeia juntaram-se hoje a um grupo de sobreviventes do Holocausto e a jovens ciganos em Auschwitz.

Este reconhecimento é "um passo necessário" para que as comunidades ciganas "recuperem a dignidade e se lhes faça justiça", e, assim, preservar a memória destes acontecimentos, afirmou a Comissão, que indicou que continuará a apoiar os países da União Europeia a facilitar a integração dos ciganos.

19.4.17

Bombarral: "Tráfico Humano e Prostituição" em debate na Delgada

Paulo Jorge, Comércio e Notícias on-line

Em todo o mundo existe 40 milhões de pessoas prostituídas e só na Europa Ocidental são cerca de um milhão as mulheres e raparigas menores de idade traficadas. Foram estes os dados que serviram de abertura ao debate sobre "Tráfico Humano e Prostituição", que realizou na Delgada, concelho do Cadaval no passado dia 9 de abril.

Promovida pelo Clube Recreativo Delgadense (CRD), a iniciativa teve por finalidade alertar a comunidade para este flagelo, que é global, e que está, segundo os últimos dados, a crescer em Portugal, como foi frisado por Sandra Benfica, dirigente do MDM - Movimento Democrático das Mulheres, uma das oradoras convidadas.

Como salientou Sara Serra, dirigente do CRD, com a realização deste evento pretende-se contribuir para uma mudança de atitude, porque "fazer de conta é fazer parte e nós não queremos fazer parte"

O debate, moderado por Daniel Azevedo, dirigente do CRD, contou ainda com a intervenção do Cabo Ribeiro, adjunto do comandante do Posto da GNR do Bombarral que afirmou: "Esta é uma realidade que existe a nível mundial mas felizmente no nosso concelho não temos indícios que ocorra".

Neste seguimento, Sandra Benfica realçou "as grandes dificuldades que existem ainda em termos de intervenção e de desocultação" do crime de tráfico humano, nomeadamente no que se refere ao "tráfico de mulheres e crianças para fins de prostituição".

Como complemento, durante o evento foi possível tomar conhecimento dos números associados a esta problemática através de um conjunto de painéis que resultam de um trabalho realizado pelo MDM com o intuito de "conhecer melhor o crime no nosso país" e elaborar "propostas muito concretas para a melhoria do combate a este flagelo".

Olhando para o território português, a dirigente afirmou que "a situação não é diferente do contexto europeu". "Até ao ano de 2014 Portugal era considerado um país de trânsito e destino de vítimas de tráfico mas a partir dessa data ficou, clarinho como água, que é também um país de origem de vítimas", alertou Sandra Benfica.

Segundo afirmou Sandra Benfica, "os dados do último relatório sobre tráfico de seres humanos vem confirmar que Portugal é um país de tráfico crescente, sendo a esmagadora maioria das pessoas traficadas mulheres com destino à prostituição".

Voltando ao capítulo da investigação, a dirigente lamenta que nas rusgas que as autoridades realizam a espaços noturnos "apenas se procure saber se as pessoas que lá estão são legais ou não são legais, fechando-se muitas vezes os olhos em relação às condições em que as mulheres ali se encontram".

"Esta é uma das principais dificuldades com que se debatem os polícias, uma vez que só podem intervir em casos de flagrante delito", frisou.

Outra das dificuldades está na própria condenação por tráfico de seres humanos, sendo os arguidos, na maior parte das vezes, condenados apenas por imigração ilegal devido à dificuldade que as próprias vítimas têm em reunir provas.

Para o debate, Sandra Benfica lançou também a questão da legalização da prostituição. Reconhecendo-se que há uma "ligação, estreita e indissociável, entre o tráfico de mulheres e a prostituição", a dirigente considera "esta proposta completamente absurda", uma vez que "vai abrir espaço a que uma forma de violência contra as mulheres e as crianças seja institucionalizada".

A sessão prosseguiu com a intervenção de Conceição Mendes, técnica de ação social da associação O Ninho, que começou por fazer uma breve apresentação desta intuição que se dedica ao apoio das vítimas de prostituição. Com 50 anos de existência, a associação já apoiou ao longo deste período cerca de 9 mil mulheres.

Partilhou ainda um pouco da sua experiência e o impacto que lhe causaram as histórias que foi ouvindo das mulheres que recorrem a esta associação, afirmando que "a minha própria filosofia de vida mudou".

Conceição Mendes abordou também as formas como a associação chega ao contacto com as vítimas, sendo o envio de mensagens para os números publicitados nas páginas dos jornais uma delas. "Algumas mensagens vão parar aos telemóveis dos donos ou das donas das casas mas outras não", explicou.

A técnica da associação O Ninho falou ainda sobre a proposta de legalização da prostituição, apresentando os seus argumentos contra esta medida. "Se não queremos estas profissão para as nossas filhas, que direito tenho eu de achar que esta uma profissão como outra qualquer para as filhas dos outros", questionou Conceição Mendes.

A sessão finalizou com um período de debate, no qual este foi um dos temas que mereceu maior discussão.

13.3.17

Comissário europeu atento a racismo contra ciganos em Moura

in Correio da Manhã

Comunidade local tem sido alvo de ameaças e ataques.

Em março de 2016, a viatura de um dos membros da comunidade cigana foi incendiada

O comissário europeu para os Direitos Humanos, Nils Muiznieks, garantiu que está a acompanhar a situação em Moura, onde a comunidade cigana foi alegadamente alvo de manifestações racistas, afirmando que em causa estão "crimes de ódio muito sérios".

Nils Muiznieks esteve em Portugal entre 6 e 8 de março, cinco anos depois de ter visitado o país pela primeira vez, com o objetivo de ver o que tinha mudado desde 2012, em particular no que à comunidade cigana diz respeito e às políticas específicas de integração.

Em entrevista à agência Lusa, o comissário europeu explicou que parte do objetivo da sua visita era perceber se havia problemas sérios que precisassem ser resolvidos e que o Governo não os estivesse a resolver.

"Quero ver e perceber como é que este incidente em Moura está a ser resolvido porque, para mim, essa é uma situação muito séria", afirmou.

Em causa estão vários incidentes registados na aldeia de Santo Aleixo da Restauração, no concelho de Moura, denunciados pela associação SOS Racismo, no final de fevereiro, como manifestações racistas e xenófobas contra a comunidade cigana local.

Ameaças de morte pintadas nas casas, bombas lançadas para os quintais, caixões colocados à porta, um cavalo envenenado e habitações e carros incendiados são alguns dos exemplos de ameaças, segundo a organização.


"Um cavalo morto, uma igreja incendiada, várias pessoas forçadas a abandonar as suas casas por causa dos incêndios, ameaças feitas através de grafites, para mim são crimes de odeio muito sérios, que afetam toda a comunidade e têm de ser resolvidos de uma forma séria pelas autoridades", defendeu Muiznieks.

O comissário europeu disse ter ficado "muito aliviado e descansado" por saber que o Alto-Comissariado para as Migrações (ACM) apresentou queixa junto do Ministério Público e que este vai investigar.

"Cabe agora ao Ministério Público e à polícia encontrar as pessoas que estão a cometer estes crimes, detê-las e puni-las de uma forma muito firme porque estes são crimes muito sérios", apontou.

Nils Muiznieks garantiu que vai "acompanhar de perto" e "cooperar de alguma forma" com as autoridades nacionais para perceber quais vão ser os passos seguintes.

A queixa do ACM foi apresentada no início do mês de março, depois de a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) ter considerado que havia "indícios da prática do crime de discriminação racial em razão da etnia", em Santo Aleixo da Restauração, concelho de Moura.

Na mesma altura, a deputada do Partido Socialista Idália Serrão disse ter ficado preocupada com as alegadas manifestações racistas contra a comunidade cigana da aldeia e que já tinha questionado o município de Moura sobre o assunto.

Na altura, a deputada socialista deu conta de relatos sobre a "existência de inscrições xenófobas nas paredes do edificado, insultos a cidadãos de todas as idades, incluindo crianças e idosos, e ainda a destruição pelo fogo de habitações e viaturas e o envenenamento de animais".


27.10.16

Campo de migrantes de Calais evacuado a partir de segunda-feira

in Diário Digital

O campo de Calais, norte de França e perto do canal da Mancha, onde se concentraram milhares de migrantes, vai ser evacuado a partir de segunda-feira, referiram hoje as autoridades francesas.

Prometido desde há várias semanas pelo governo socialista, esta operação acentuou a polémica sobre o acolhimento dos migrantes em França, a alguns meses das eleições presidenciais. O assunto suscitou tensões entre Paris e Londres.

A partir da tarde de domingo, uma equipa de funcionários vai informar os migrantes do desenrolar detalhado da operação, que se prevê complexa e que deve prolongar-se por uma semana.

No local, os migrantes devem aguardar com resignação pela chegada das escavadoras, divididos entre o sonho de alcançarem a Inglaterra e a promessa de uma cama e um teto. A última estimativa oficial refere-se a 6.400 pessoas na "Selva" de Calais. A partir de segunda-feira, 145 autocarros devem assegurar o sue transporte em direção a 287 centros de acolhimento, segundo as autoridades.

"Teremos sucesso neste desafio humanitário", prometeram os ministros do Interior, Bernard Cazeneuve, e da Habitação, Emmanuelle Cosse, em artigo hoje publicado no diário Le Monde, enquanto as ONG no terreno alertaram contra os riscos de "catástrofe" de uma operação precipitada.

O destino de 1.290 menores que se encontram isolados no campo constitui um dos aspetos mais complexos desta operação, com muitos a referirem pretender alcançar o Reino Unido, onde dizem ter familiares.

Hoje, o diretor-geral da organização "France Terre d'asile" revelou que no sábado mais de uma centenas de migrantes menores vão deixar Calais em direção ao Reino Unido, no âmbito do reagrupamento familiar, estando previstas mais partidas no domingo.

Como é que as marcas não sabem dos sírios a trabalhar ilegalmente?

Maria João Guimarães, in Público

Como é que as marcas não sabem dos sírios a trabalhar ilegalmente? As roupas estão penduradas, imaculadas, numa loja da Marks & Spencer em Londres. Quem as passou a ferro? Terá sido uma criança síria, que está 12 horas por dia a lidar com ferros e vapores, ganhando pouco mais de um euro por hora? E quem deu o ar usado àquelas calças de ganga na montra da Mango ou da Zara? Terá sido um refugiado sírio a trabalhar, ilegalmente, as mesmas 12 horas, numa fábrica num beco em Istambul? Os casos são alguns dos apresentados pelo programa Panorama, da BBC, que denuncia o trabalho ilegal de refugiados sírios, muitos deles menores, em fábricas na Turquia que fazem roupa para marcas como as britânicas Marks & Spencer e Asos, ou as espanholas Mango e Zara.

Todas estas marcas, sublinha a BBC, dizem que supervisionam as suas cadeias de fornecimento e não aceitam trabalho infantil ou de refugiados a trabalhar sem papéis.

O problema, diz a organização Business & Human Rights Resource Center, que em Janeiro divulgou um relatório sobre o trabalho de refugiados nas fábricas de têxteis da Turquia, é que os mecanismos de supervisão das marcas, apesar de incluírem inspecções, não são sufi cientes.
Uma das razões é que as roupas não vêm todas das fábricas que a marca conhece e visita, havendo um sistema de subcontratação que passa sob o radar das inspecções, disse ao PÚBLICO, por telefone, Danielle McMullan, do Business & Human Rights Resource Center.

A Turquia, que é já o sexto fabricante de têxteis do mundo, recebeu um grande número de refugiados da Síria: cerca de três milhões, dos quais metade, segundo a UNICEF, são menores. Um estudo da Universidade de Hacettepe, em Ancara, citado pela emissora árabe Al-Jazira, dizia que um refugiado a trabalhar na Turquia será mais provavelmente um menor do que um adulto, até porque aprendem a língua mais depressa. A Turquia tem dado autorizações de trabalho a refugiados, mas aos mais qualifi Investigação da BBC encontra trabalho ilegal de refugiados sírios, alguns deles crianças, em fábricas de roupa na Turquia. Marks & Spencer, Asos, Mango e Zara defendem as suas inspecções. O
Para Danielle McMullan, as auditorias não são a melhor solução por causa da subcontratação, em que a própria marca nem sempre sabe quais as fábricas a trabalhar para si.

É essencial, diz a responsável, que as marcas colaborem com sindicatos e organizações locais, que têm melhor informação.
E deixa um outro alerta: “A chegada de um enorme número de refugiados à Turquia faz com que haja um conjunto de circunstâncias único.
Mas os problemas de trabalho infantil e ilegal na indústria têxtil acontecem noutros países: são problemas globais da indústria.” mguimaraes@publico.pt cados. Segundo o Alto-Comissariado da ONU para os refugiados, mais de dois milhões de sírios não têm autorização para trabalhar na Turquia.

A investigação do Panorama diz que apesar de a Marks & Spencer não ter encontrado um único refugiado sírio a trabalhar nas instalações dos seus fabricantes na Turquia, o jornalista do Panorama, Darragh MacIntyre, viu sete sírios num dos locais, a ganhar pouco mais de uma libra (1,12 euros) à hora. O mais jovem, de 15 anos, passava 12 horas a passar roupa a ferro antes de esta ser enviada para o Reino Unido. “Se alguma coisa acontecer a um sírio, deitam-no fora como a um pedaço de tecido”, disse um dos refugiados.

A marca reagiu dizendo que oferecerá emprego legal permanente a quaisquer trabalhadores ilegais sírios que estejam em fábricas que produzam para si.

Outra fábrica em que o repórter da BBC encontrou crianças sírias estava a fabricar roupa para a loja online Asos. A empresa disse que esta não era uma fábrica aprovada por si. Desde a denúncia, foram encontrados 11 adultos sírios e três com menos de 16 anos a trabalhar no local.

Noutra fábrica turca foram encontrados vários refugiados sírios a trabalhar com gangas, com químicos que dão ao tecido um ar gasto, para a Mango e a Zara 12 por dia, sem protecção para estes produtos.

A Mango diz que a fábrica era subcontratada; a Inditex, grupo da Zara, refere que encontrou irregularidades numa auditoria em Junho e O grupo Inditex, de Amancio Ortega, detectou irregularidades numa fábrica que trabalha para a Zara em Junho, deu-lhe até Dezembro para as resolver
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2.1.14

A pobreza é um atentado à dignidade humana

Colocado por Hermano Martins, in Notícias da Trofa

Antes de ser objeto das políticas sociais falhadas, a pobreza é sobretudo um problema das erradas políticas económicas que as diferentes governações têm tido ao longo dos anos. É verdade que a redução da pobreza (não a sua eliminação), tem sido um dos principais objetivos nos programas de governação, em vários países, mas sem qualquer efeito, pois os índices de pobreza têm aumentado vertiginosamente. Para sofrimento de muitos!

O conceito de pobreza, que é um fenómeno multidimensional, começou por estar relacionada com a falta de rendimentos necessários para a satisfação das necessidades alimentares e não alimentares básicas, mas tem tido alterações significativas. Nas décadas mais recentes, foi-se alargando o conceito de pobreza, para abranger outros aspetos, como a falta de acesso à saúde e à educação, a falta de água e saneamento, o isolamento, a exclusão social, a vulnerabilidade e também o acesso equitativo ao sistema judicial, a não existência de habitação e transportes públicos acessíveis.

A pobreza em Portugal é um problema estrutural gravíssimo, um atentado à dignidade humana, que nos deveria envergonhar a todos e deveria mobilizar toda a sociedade para a sua resolução, o mais rapidamente possível, pois é indigno que um ser humano possa estar privado do direito básico de participar plenamente na vida social, económica, cultural e política da comunidade em que está inserido.

As taxas de pobreza no nosso país são assustadoras. Mais de um quinto da população portuguesa é pobre. São mais de 2 milhões de pobres (gente como nós) e desses, quase metade são trabalhadores (no ativo ou reformados), pois mais de 1/3 são reformados e mais de 1/4 são trabalhadores por conta de outrem, com salários muito baixos e vínculos precários, mas também com contrato sem termo. Tem sido um abuso este tipo de contratação. Um abuso oportunista!

É verdade, e não pode ser escamoteada a ideia de que em Portugal existe uma cultura de dependência do Estado, mas também não pode ser esquecido o facto de que a pobreza reproduz-se, gera ciclos de vulnerabilidade social, processos de exclusão e de desfiliação social. A própria Cidadania está desligada, pois a pobreza condiciona os acessos aos direitos, à participação social e política. Infelizmente!

São muitas vezes os mais vulneráveis que são mais atingidos e atirados para a pobreza extrema, pois além da perda de postos de trabalho, muitos enfrentam dificuldades para cumprir os seus compromissos financeiros, ter uma habitação decente ou ter acesso ao crédito, para além de existirem muitos pensionistas e reformados, com as suas parcas pensões, a sustentar os filhos e os netos.

Para além do quadro triste da pobreza, ainda existe uma realidade chocante nas ruas das cidades, que são os sem-abrigo. Neste tempo de noites gélidas, o nosso quotidiano está povoado desses seres que se colocaram à margem da sociedade, dita civilizada. E já são alguns milhares! Estas constatações são uma violência que fazem partir o coração. São uma triste realidade, que não podem ser combatidas com indiferença, mas com a intolerância de quem considera a pobreza um atentado criminoso contra a dignidade humana. Que venha o Ano Novo com mais esperança. Para todos!

José Maria Moreira da Silva