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7.6.23

Em defesa dos direitos das mulheres. Gabriel Oviedo é o vencedor da edição de abril

in Público


Aluno autor do texto de opinião premiado frequenta o 12.º ano na Escola Secundária Henriques Nogueira, em Torres Vedras.

Direitos das mulheres no Afeganistão: uma miragem?

Após a chegada dos Taliban ao poder no Afeganistão, as consequências socioeconómicas notaram-se rapidamente, com a galopante crise económica do país em conjugação nefasta com a crise humanitária.

Efetivamente, desde a tomada de Cabul, o mundo tem vindo a assistir às mais grosseiras formas de violação dos direitos humanos, com repercussões particularmente dramáticas para as mulheres, que foram impedidas de trabalhar e de estudar. Além disso, as mulheres não têm a possibilidade de visitar jardins, parques, piscinas ou ginásios e, em distâncias superiores a 70 km, podem apenas deslocar-se com um “guardião” masculino, como nos foi revelado no artigo da autoria de Sofia Lorena. Foram estas leis discriminatórias que levaram a que o staff feminino do Afeganistão na ONU deixasse de poder exercer as suas funções.

A injustiça escandalosamente gritante da situação exposta neste artigo levou-me a selecioná-lo como objeto de reflexão. Apesar da impotência que se sente perante o que nos é apresentado, importa continuar a dar destaque a este caso nos nossos órgãos de comunicação social. Tal como no caso da morte de Mahsa Amini no Irão, com as manifestações que se lhe seguiram, é imperativo que a opinião pública ocidental continue a mobilizar-se em torno do protesto contra as violações dos direitos das mulheres em qualquer parte do globo.

Está nas nossas mãos, enquanto cidadãos, a possibilidade de reivindicar aos nossos governantes o exercício de pressão política – pelas vias diplomáticas – sobre os regimes totalitaristas que procuram fazer da opressão das mulheres um estilo de vida. Não basta a indignação perante as decisões dos Taliban e catalogar o país como “o mais repressivo do mundo para o direito das mulheres”; agir não deveria ser uma escolha, mas um dever quando os direitos humanos são violados.

Importa, por isso, repetir as vezes que forem necessárias: os direitos das mulheres são, antes de mais, direitos humanos. Qualquer mulher, em qualquer parte do mundo, devia ver respeitados os seus direitos essenciais. Estes não podem ser uma realidade para uma parte da Humanidade e, para a outra parte, apenas uma miragem.

Gabriel Oviedo
Escola Secundária Henriques Nogueira, Torres Vedras
12.º ano

​[“Taliban proíbem as funcionárias afegãs da ONU de trabalhar”. Era este o título da notícia do PÚBLICO, da autoria da jornalista Sofia Lorena, que levou Gabriel Oviedo a escrever o texto de opinião distinguido na edição de abril de 2023 do “Isto também é comigo!”, o concurso mensal promovido pelo PÚBLICO na Escola e pela Rede de Bibliotecas Escolares (RBE). O aluno vencedor recebe uma coleção de livros do PÚBLICO e vê o seu texto publicado. A escola ganha uma assinatura digital anual do PÚBLICO ou uma coleção de livros para a biblioteca. Do júri fizeram parte: Carolina Franco, jornalista, colaboradora do PÚBLICO na Escola; Cláudia Sá, professora de Português e coordenadora do Clube de Jornalismo da Escola Básica António Correia de Oliveira, em Esposende; Cristina Lin, aluna do Agrupamento de Escolas Emídio Navarro, em Almada; e Raquel Ramos, elemento da equipa do Gabinete Coordenador da RBE.]

22.5.23

Tajala quer trazer 11 mulheres para Portugal

Marta Gonçalves, in Expresso


Até chegar a Lisboa, Tajala Abidi nunca tinha caminhado pela rua à noite. Mais impensável seria tê-lo feito sozinha, sem um homem ao lado a acompanhá-la. Sempre assim foi nos 23 anos em que a vida que conheceu foi no Afeganistão. “Há muitas coisas que fiz pela primeira vez desde que vim para cá.” Viu o mar, viajou pela Europa, começou a ter aulas de pintura, está a aprender uma língua nova e a viver sozinha. Acabou de fazer 25 anos, trabalha e faz o que quer sem restrições. A mais de oito mil quilómetros do lugar onde nasceu — porque Portugal já se tornou a sua casa —, a cada dia que passa mulheres e raparigas têm as suas liberdades e direitos cancelados. Tajala fugiu nos primeiros meses de um regime que se impôs e forçou um retrocesso social e quer ajudar mais 11 mulheres e raparigas a fazerem o mesmo. Já imagina a chegada delas.


As últimas semanas de Tajala têm sido passadas em frente ao computador a conversar com as 11 candidatas que vêm para Portugal já no próximo ano letivo (nove para mestrado e duas para licenciatura, de áreas tão diferentes como Engenharia, Economia ou Biologia). Algumas são suas amigas, outras são conhecidas de amigas. Foi por aí que tudo começou: jovens mulheres que, conhecendo a história de Tajala, que teve uma oferta de emprego via Twitter, começaram a perguntar se não haveria outras empresas à procura de mais colaboradores. “Mandavam e-mails a questio­nar e foi assim que surgiu a ideia. Infelizmente, o que estamos a fazer não chega para toda a gente.” Com um objetivo definido, foram alinhados esforços para arrancar com o plano ainda antes de existir uma organização formal. A Associação Setare, de que Tajala faz parte, nasceu oficialmente há um par de dias para este efeito; após este primeiro grupo, quer estender a oportunidade ainda a mais pessoas.

As 11 mulheres devem chegar a Lisboa nos meses de verão, algures entre junho e julho, para facilitar o processo de integração. A parte académica já está garantida, os estágios também. Encontrar casa para todas elas é o maior obstáculo por estes dias, o que parece tornar tudo “um bocadinho mais impossível”.

“Primeiro, quero levá-las a um restaurante, dar-lhes a provar a comida portuguesa. Depois iremos passear à noite, talvez ali para os lados de Belém, ao pé do rio. Muitas delas nem conheciam o país, tal como eu quando vim. É engraçado perceber que, a cada nova conversa que temos, elas começam logo a dizer que entretanto já descobriram isto ou aquilo”, conta. “Fazem muitas perguntas e tenho a certeza de que não me perguntam tudo aquilo que querem.” Tajala sabe o que é estar do outro lado à espera de sair, reconhece-lhes as ânsias e as dúvidas.

A Tajala que se senta hoje na sala de reuniões da empresa que a contratou no final de 2021 é muito diferente daquela que o Expresso conheceu assim que chegou a Portugal, resgatada de Cabul pouco depois de os talibãs terem tomado o poder. Está mais tranquila e segura nas palavras que usa, sorri bastante. Tem os cabelos soltos, caídos pelos ombros, veste uma camisa de linho branca e umas calças de ganga. “Também nunca tinha estado fora de casa sem o hijab, mas agora nunca o uso.” Foi decisão sua deixar de pôr o lenço que, desde que se lembra, lhe cobria a cabeça quando saía à rua. “Eu quis, nunca me senti obrigada a fazê-lo. Aliás, nunca notei que os outros me tratassem de forma diferente porque tinha ou não o hijab. Antes as pessoas já me tratavam bem.”

CERTAMENTE LISBOA

A vida parece que correu mais rápido do que nunca nos últimos meses. Talvez porque tanto lhe aconteceu, diz Tajala. “Estou mais familiarizada com a sociedade, com as pessoas. Até com a comida, que também é uma parte importante.” Faz uma pausa para ganhar balanço. “Deixa-me cá ver se consigo dizer bem.” Hesita na primeira sílaba e depois, num empurrão, tudo de uma só vez: “Bacalhau à Brás é o meu preferido.”

Mora em Lisboa, trabalha no centro da cidade como consultora na S317, uma empresa de consultoria e engenharia de gestão, a mesma com que assinou contrato para fugir de Cabul. Ao final da tarde tem aulas de português e de pintura, ao fim de semana vai passear com os amigos. Quer voltar a estudar, continuar nas engenharias e especializar-se, mas ainda não sabe bem em quê. “Estou a ver.” A certeza é apenas uma: será certamente em Lisboa. “Não quero voltar ao Afeganistão. Claro que penso em estar com a minha família. Terá que ser algures a meio caminho, viajarmos todos para nos encontrarmos num outro país, por exemplo. Voltar seria muito arriscado.”

Os telefonemas e videochamadas para a família nunca têm dia nem hora certa, dependem de quando no lado de lá há acesso à internet. O que lhe contam é que nada está melhor, que mulheres e raparigas estão isoladas em casa e foram completamente banidas de escolas e universidades. “O pior de tudo é a normalização do que está a acontecer. A situação meio que se estabilizou e as pessoas estão a vivê-la sem perspetiva de mudança.”

RESGATE ATRIBULADO

Tajala tinha acabado de sair do aeroporto de Cabul quando, a 26 de agosto de 2021, um ataque suicida matou pelo menos 180 pessoas. Nesse dia, enquanto milhares de pessoas tentavam entrar no Aeroporto Internacio­nal Hamid Karzai para assegurarem um lugar num voo que os levasse para bem longe, a jovem regressou a casa. O caos era de tal ordem que seria impossível alcançar os militares portugueses que a esperavam, apesar de estar munida de uma espécie de livre-trânsito emitido pela NATO e de o seu nome constar na lista de pessoas autorizadas a embarcar com destino a Portugal. Só dois meses depois, em outubro, e acompanhada por outra mulher que ainda lhe era desconhecida e com quem hoje divide casa, chegaria a Lisboa. Saiu pela fronteira terrestre para o Paquistão e voou para Portugal.

Foi nos primeiros dias que o Expresso a conheceu, num passeio pelos pontos turísticos de Lisboa. O dia pôs-se cedo e Tajala, logo ali, comentou: “Lá, quando começa a escurecer, não se veem raparigas na rua. O que vejo aqui é diversidade. Aqui posso usar o lenço e ninguém me pergunta porquê. Gosto disso.” Tal como agora, nunca ninguém lhe perguntou porque deixou de o usar.

3.5.23

Mulheres jornalistas presas no Irão distinguidas com prémio de liberdade de imprensa da UNESCO

Por Lusa, in SIC



Niloofar Hamedi, Elaheh Mohammadi e Narges Mohammadi foram distinguidas pelo “trabalho corajoso” que conduziu a “uma revolução histórica liderada por mulheres”, afirma a presidente do júri, Zainab Salbi.


A UNESCO atribuiu este ano o Prémio Guillermo Cano para a Liberdade de Imprensa a três mulheres jornalistas presas no Irão: Niloofar Hamedi, Elaheh Mohammadi e Narges Mohammadi.


"Agora, mais do que nunca, é importante prestar homenagem a todas as mulheres jornalistas que são impedidas de fazer o seu trabalho e que enfrentam ameaças e ataques à sua segurança pessoal", declarou a diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Audrey Azoulay, em comunicado divulgado esta quarta-feira.

A presidente do júri, Zainab Salbi, afirmou que "o trabalho corajoso das mulheres jornalistas iranianas" conduziu a "uma revolução histórica liderada por mulheres", pela qual pagaram "um preço elevado".

Salbi reiterou o compromisso de "honrá-las e garantir que as suas vozes continuem a ressoar em todo o mundo até que estejam seguras e livres".

Noloofar Hamedi trabalhava para o principal diário reformista iraniano, Shargh. Foi ela quem deu a notícia da morte da jovem Masha Amini, enquanto estava sob custódia policial, depois de ter sido detida a 16 de setembro de 2022 por não respeitar o uso do véu islâmico.

Hamedi está detida em regime de isolamento na prisão de Evin, em Teerão, desde setembro de 2022.

Elaheh Mohammadi, que escreve para o jornal reformista Ham-Mihan, fez a reportagem do funeral de Masha Amini e está também detida na mesma prisão.

As duas foram galardoadas com o Prémio Internacional de Liberdade de Imprensa 2023 dos Jornalistas Canadianos para a Liberdade de Expressão e com o Prémio Louis M. Lyons para a Consciência e Integridade no Jornalismo da Universidade de Harvard.

A revista Time incluiu-as na sua lista das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2023.

Narges Mohammadi, que trabalhou durante anos para várias publicações, é também diretora-adjunta da organização não-governamental Centro de Defensores dos Direitos Humanos em Teerão.

Está a cumprir uma pena de 16 anos de prisão em Evin, de onde tem continuado o trabalho como jornalista, incluindo o livro de entrevistas com outras prisioneiras intitulado "White Torture".

Em 2022, Mohammadi recebeu o Prémio Coragem dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Em 1997, a UNESCO criou o prémio para a liberdade de imprensa em homenagem ao jornalista colombiano Guillermo Cano, assassinado em dezembro de 1986 à frente da redação do seu jornal, El Espectador.

A organização recordou que as mulheres jornalistas e outros trabalhadores dos meios de comunicação social em todo o mundo enfrentam cada vez mais ataques e ameaças "desproporcionadas e direcionadas".

27.4.23

Sem acesso à Internet 90% das mulheres jovens de países pobres

Por Lusa, in RTP


Cerca de 90% das adolescentes e das mulheres jovens de países mais pobres não acedem à Internet, indicou um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla em inglês).


Esta percentagem é mais elevada quando comparada com a dos rapazes e dos homens da mesma idade, referiu o documento do Fundo, que salienta o papel da educação nestas desigualdades, depois de analisar dados de utilização de inquéritos realizados em 54 países, principalmente de baixos rendimentos e alguns de rendimentos médios.

"Nos países de baixo rendimento, 90% das adolescentes e mulheres jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos (cerca de 65 milhões de pessoas) não estão 'online', em comparação com 78% dos adolescentes e homens jovens da mesma idade (quase 57 milhões) que não utilizam a Internet", de acordo com o estudo agora divulgado.

Em 2020, a UNICEF e a União Internacional das Telecomunicações estimaram que apenas 37% dos jovens entre os 15 e os 24 anos em todo o mundo tinham acesso à Internet em casa.

Mas esta estimativa "esconde disparidades de género impressionantes no acesso ao hardware (equipamento), na utilização da Internet e nas competências digitais dentro de casa", salientou a a agência da ONU.

"Diminuir o fosso digital entre raparigas e rapazes não é apenas proporcionar acesso à Internet e à tecnologia", disse o diretor de educação da UNICEF, Robert Jenkins, num comunicado.

"Trata-se de capacitar as raparigas para se tornarem inovadoras, criadoras e líderes", sublinhou.

O relatório indicou que, embora as raparigas tenham geralmente melhores competências básicas de leitura, tal não se traduz na esfera digital.

Nestes países, "as raparigas adolescentes e as mulheres jovens são esquecidas e deixadas de fora do quadro da literacia digital", lamentou a UNICEF, destacando a importância do ambiente familiar e da educação nesta situação.

"Se quisermos combater a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, especialmente nas áreas da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática, temos de começar agora por ajudar os jovens, especialmente as raparigas, a adquirirem competências digitais", afirmou Jenkins.

O relatório apontou também para uma grande lacuna no acesso aos telemóveis. Em 41 dos países inquiridos, as raparigas e as mulheres com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos estão "em grande desvantagem", com uma probabilidade média de 13% de possuírem um telemóvel, "limitando o acesso ao mundo digital", que é tão vital na economia do século XXI.