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30.8.21

“Nós dependemos de vocês para sobreviver”

Ana Dias Cordeiro (Texto), João Pedro Pincha (Texto), Rui Gaudêncio (Fotografia) e Nelson Garrido (Fotografia), in Público on-line

Nasir fugiu de Cabul em 2015 e pediu asilo a Portugal. Está bem integrado e isso permitiu-lhe apelar ao Governo português para não deixar para trás a sua irmã Lida e a mãe Roshan. Há 11 anos neste país, também Mohammad Yusuf Taheri só pensa em tirar do Afeganistão os familiares que ainda lá estão.

O terror no Afeganistão chegou em diferentes vagas à família de Nasir Ahmad: primeiro em 2015 quando ele começou a ser perseguido e recebia ameaças num país profundamente marcado por atentados e outras armadilhas; e agora, desde 15 de Agosto com os taliban no poder, quando a mãe de 75 anos e a irmã de 31 anos lutam para sair da capital entre as multidões de civis afegãos​.

No primeiro dia em que saíram de casa desde a chegada dos taliban a Cabul para chegarem ao aeroporto internacional, a irmã Lida e a mãe Roshan estavam a menos de um quilómetro quando um bombista suicida se fez explodir no local que era o destino das duas mulheres.

O atentado desse dia, quinta-feira, foi reivindicado pelo Daesh, e condenado pelos taliban, matou pelo menos 110 pessoas e deixou 150 pessoas feridas num balanço que ainda pode ser revisto em alta. “Elas escaparam, graças a deus”, diz Nasir.

Mas por ter trabalhado e contribuído para a defesa dos direitos humanos e das mulheres no Afeganistão, a irmã Lida sabe que não escapa a uma sentença à morte. É ela própria que o diz na exposição emocionada que faz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), traduzida para português pelo irmão: “Nós dependemos de vocês para sobreviver.”

“Peço por clemência que salvem as nossas vidas e nos tragam para Portugal. Nós dependemos disso para sobreviver e poder passar a levar uma vida com o mínimo de dignidade, como mulheres e cidadãs”, diz Lida no texto que acompanha o pedido ao MNE e que Nasir mostrou ao PÚBLICO.

“Eu sempre costumava ser uma activista contra a ideologia dos taliban e pela defesa das mulheres, e agora estou sofrendo ameaças à minha vida. E a minha mãe também está comigo, já que, como é idosa, depende de mim para lhe prestar cuidados. Ela tem dificuldades para caminhar e também não está com uma saúde boa; eu temo muito pela sua vida”, escreve Lida.
"Um mínimo de dignidade"

“Agora que os taliban tomaram o poder, o acesso à saúde e à educação, e a segurança da população vai deteriorar-se ainda mais. Também sinto muita falta do meu irmão Nasir, que está extremamente preocupado connosco. Por todas essas razões supracitadas, gostaria de solicitar ao Governo português que nos traga a Portugal, que salve minha vida me trazendo para Portugal, para que eu possa viver no Porto junto do meu irmão.”

Nasir não imagina como seria se não estivesse bem integrado neste país. “Nós candidatámo-nos junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros porque eu estou integrado em Portugal, porque tive asilo e, apesar de todos os obstáculos, consegui integrar-me, acabei agora um mestrado em Business na Católica do Porto. Isso permite ao Governo português ter toda a nossa informação, a minha informação pessoal e da minha família. Conhecem-me, sabem quem eu sou.”

“Peço por clemência que salvem as nossas vidas e nos tragam para Portugal. Nós dependemos disso para sobreviver e poder passar a levar uma vida com o mínimo de dignidade, como mulheres e cidadãs”, diz Lida no pedido dirigido ao MNE traduzido pelo irmão Nasir Ahmad (na fotografia)

As autoridades portuguesas estão a tentar tirar os cidadãos afegãos com ligações a Portugal “mas podiam fazer mais”, diz. “Eu peço que o façam porque ainda há esperança e possibilidade. Eu só peço o mesmo ao Governo português que as coloquem num lugar seguro antes de as colocarem no avião porque ir para o aeroporto agora é impossível.”

O pedido escrito com data de 20 de Agosto é um dos muitos que chegaram directamente ao MNE nos últimos dias, de pessoas vulneráveis, em perigo de vida pela actividade que exerceram até agora no Afeganistão ou por terem ligações profissionais a empresas portuguesas ou parte da família em Portugal, como Lida e Roshan.

Contactado, o gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garante que “terminada esta fase mais imediata, em que as prioridades estão centradas nos cidadãos nacionais e nos afegãos que colaboraram com as forças nacionais destacadas, a prioridade passará a ser apoiar afegãos vulneráveis, incluindo o favorecimento de processos de reagrupamento familiar”.

Em declarações ao Expresso, o ministro Santos Silva sublinhou que as condições para se chegar ao aeroporto “são muito difíceis”, agora agravadas pelo atentado de anteontem. “Uma coisa é haver mulheres, activistas ou jornalistas a pedir asilo a Portugal. Outra é conseguirem entrar no aeroporto. Quem controla é o poder afegão”, acrescentou na mesma entrevista.
Os homens da família

A viver no Porto, Nasir trocou as horas do dia pelas da noite para acompanhar os passos inseguros de Lida e da mãe Roshan Noori na “corrida contra o tempo” (de que fala o ministro). Desde que o pai morreu é o único homem da família, aquele que poderia fazer as compras e levar a mãe ao hospital, agora que as mulheres não podem sair sozinhas à rua por imposição dos taliban.

Também a família Taheri não tem saído de casa desde que os taliban entraram em Cabul. Não duvidam do que lhes aconteceria. “Quem sai é o mais novo, se apanham os outros matam-nos”, resume o patriarca que habita há 11 em Portugal​. A mais de oito mil quilómetros de distância, nada preocupa mais neste momento Mohammad Yusuf Taheri do que tirar do Afeganistão os familiares que ainda lá estão.

"Quando as pessoas saem do Afeganistão não é fácil chegar à Europa. As pessoas vendem tudo o que têm para pagar a ida, mas de 200 que saem, talvez 50 cheguem. Os que têm sorte." Mohammad Yusuf Taheri

São homens e mulheres que construíram a sua vida nas últimas duas décadas e estavam integrados no sistema social e político que acaba de ser derrubado: eram médicos, juízes, polícias, militares, tradutores. Vários trabalharam para os exércitos português, americano e francês. Algumas raparigas da família estavam na universidade. Agora todos se escondem.

Lidar com jornalistas já não é novidade para este afegão de 70 anos. Desta vez, porém, hesita em falar, tal é o desespero em que se encontra. A única coisa que o motiva é fazer chegar ao Governo a mensagem de que os países que invadiram o Afeganistão em 2001 não podem agora abandonar aqueles que os ajudaram. “A minha família só quer sair dali para ter uma vida digna”, diz Mohammad. “Estamos à procura de organizações a quem possamos dar informações sobre os nossos familiares”, apela.

No bar da União Atlético Povoense, na Póvoa de Santa Iria, está pendurada na parede a camisola de um Taheri, Hamid, que agora joga futebol no Bobadelense. Omed, o irmão mais velho, é guarda-redes no mesmo clube e acalenta o sonho de fazer uma carreira boa e longa. Por enquanto conduz um tuk-tuk por Lisboa. “Durante um ano trabalhei para outros, consegui juntar dinheiro e comprar um tuk. Hoje sou dono de mim mesmo”, sorri. Ao lado do pai, que não fala português, Omed vai traduzindo a indignação de Mohammad.
Casamentos forçados

Nenhum deles acredita que os taliban tenham mudado desde que saíram à força do poder. “Os vídeos que recebemos da nossa família são muito mais agressivos do que as coisas que têm passado cá na televisão”, diz o pai. “As raparigas e as mulheres viúvas são forçadas a casar com os taliban”, exemplifica o filho.

Em 1996, depois da primeira ocupação de Cabul pelo grupo extremista islâmico, Mohammad fugiu com a mulher e os oito filhos, receando pela vida por ter sido militar. É lacónico sobre esse tempo: “Saímos para o Paquistão pelas montanhas. Andámos sete dias e sete noites a pé.” Omed, que tinha cinco anos, tem uma recordação vaga. “Lembro-me de termos de nos deitar com neve por cima para não nos verem.”

"Onze anos depois, o meu estatuto ainda é o de refugiado. Portugal agora é o meu país, mas se não me ajudar a mim não tenho vontade de ajudar Portugal." Omed Taheri

Refugiaram-se na Ucrânia e foi lá que Hamid começou a dar os primeiros toques na bola, nas escolinhas do Shaktar Donetsk. “O meu pai conseguiu dar-nos uma vida boa, mas todos os meses tínhamos de renovar os documentos”, relata Omed. Ao fim de 12 anos, pediram recolocação ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e Portugal dispôs-se a acolhê-los. Chegaram em 2009.

“Quando as pessoas saem do Afeganistão não é fácil chegar à Europa. As pessoas vendem tudo o que têm para pagar a ida, mas de 200 que saem, talvez 50 cheguem. Os que têm sorte. Os outros morrem pelo caminho: com fome, com frio, na fronteira iraniana, na fronteira turca, nos barcos”, conta o patriarca. Para ele é claro que “o Irão e o Paquistão estão a ajudar os terroristas com armas e dinheiro.”

Dos oito irmãos, apenas Omed e Hamid continuam em Portugal. Os restantes emigraram e até Mohammad, para compor uma reforma de 275 euros, passa temporadas em Londres junto de familiares. Desde há dois anos que tem nacionalidade portuguesa. Omed fez o pedido em Novembro do ano passado, ainda não tem resposta. “Onze anos depois, o meu estatuto ainda é o de refugiado.” Não compreende. “Portugal agora é o meu país, mas se não me ajudar a mim não tenho vontade de ajudar Portugal”, diz.

Em 2013, durante alguns meses, a família esteve emigrada na Alemanha, onde todas as despesas da casa eram asseguradas pelo Estado, que ainda pagava uma semanada de 290 euros por pessoa. A intenção era ficar por lá, mas os refugiados que estão em programas internacionais têm de habitar no país em que são recolocados. “Quando voltámos, o Estado português não nos ajudou nada durante dois anos. Depois começaram a dar 152 euros para a família toda”, queixa-se Mohammad. “Os outros países ajudam os refugiados, o Estado português não ajuda ninguém”, completa Omed.

Tal como Hamid, Omed trabalhou em restauração até um amigo lhe falar dos tuk tuk. Ao princípio não acreditava que fosse rentável, mas quando experimentou ficou convencido. Parte do dinheiro que ganha serve para ajudar o pai e o seu filho. “Joga no Samouco, dizem que tem bons pezinhos! Já o filho do meu irmão é guarda-redes. Parece que houve aqui uma troca”, ri-se.

"Terminada esta fase mais imediata, em que as prioridades estão centradas nos cidadãos nacionais e nos afegãos que colaboraram com as forças nacionais destacadas, a prioridade passará a ser apoiar afegãos vulneráveis, incluindo o favorecimento de processos de reagrupamento familiar.” Gabinete do ministro Augusto Santos Silva

Sorrisos e desespero

Também Nasir começa com um grande sorriso uma entrevista telefónica em que se esforça por explicar tudo com detalhe e cuidado. Mas o seu olhar, através do visor da chamada por vídeo, não disfarça o desespero.“Embora nos últimos anos tenha havido conflitos e instabilidade no resto do país, em Cabul não se punha essa hipótese porque havia a presença dos helicópteros, dos militares, do equipamento militar.”

O mal não poderia chegar onde estava montado todo este aparato, acreditava. “Um dia acordamos e o país está entregue aos terroristas. Isto aconteceu tudo em seis dias”, diz sobre o rápido avanço dos taliban para Cabul assim que as tropas norte-americanas começaram a deixar o país.

“Tenho amigos, e sei que estão a perseguir pessoas que trabalharam para o governo, jornalistas, activistas e as mulheres que trabalham. Estudar é um crime. Ouvir música é um crime. Se for uma mulher, matam-na; se for um homem, provavelmente vai para a prisão. Estão a ir de casa em casa, à procura de pessoas que trabalharam para o governo. Essas pessoas tiveram acesso a muita informação confidencial.”

A serenidade com que pronuncia cada palavra contrasta com o horror contido em cada frase. Em 2015, com 25 anos e uma licenciatura, teve que fugir. Era funcionário de uma empresa de comunicações para a segurança do Estado num país em alerta permanente pela omnipresença dos vários movimentos combatentes e terroristas, o principal dos quais os taliban.

Nasir não está preparado para relatar essa fuga, não pelo receio de qualquer represália, mas para evitar reminiscências das tortuosas travessias por mar e terra que só os traficantes oferecem, sem condições de segurança, em troca de milhares de euros – memórias que fez por esquecer para seguir em frente.

Não concebe uma saída do país assim, como uma fuga cercada por perigos, para a irmã e a mãe. Os seus nomes estão entre as mais de 100 pessoas que o Ministério dos Negócios Estrangeiros português está a tentar trazer para Portugal. São, como todos os nomes da lista, pessoas ou familiares de pessoas que trabalharam com embaixadas, forças ou empresas de países da União Europeia ou da NATO, incluindo Portugal cujos militares saíram em Maio passado.

Nasir fala em particular das mulheres: “Estão em perigo todas as que trabalham e não apenas as que trabalharam com a NATO, Estados Unidos, outros países ou organizações internacionais.” Lida e Roshan nunca antes tinham tentado sair de Cabul.

“A minha mãe e a minha mãe quiseram ficar lá, não abandonar o país. A situação era difícil mas não impossível. Tudo foi inesperado, porque aconteceu de forma súbita”, diz Nasir. “Agora é impossível.”

16.6.21

Portugal ultrapassa a Grécia no ranking dos salários mínimos

in Negócios on-line

Com o aumento de 30 euros aplicado em 2021, o salário mínimo português ascendeu ao 11º lugar numa lista de 22 países europeus em que o valor é fixado por lei e que é liderada por Luxemburgo e Reino Unido.

Beneficiando dos cortes aplicados pela troika na Grécia e do congelamento do aumento que estava programado para este ano naquele país devido à pandemia – à imagem do que fizeram Espanha e Estónia –, Portugal ultrapassou os gregos na lista de países europeus em que o salário mínimo é fixado legalmente.

O ranking apresentado no mais recente relatório da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho (Eurofound), citado pelo DV, mostra que o salário mínimo português, que aumentou 30 euros em 2021, para 665 euros mensais (776 euros, considerando 14 meses), passou assim a ser o 11.º mais elevado num grupo de 22 países.

No topo desta lista, à frente de Portugal, estão o Luxemburgo (2.202 euros), Reino Unido (1.903 euros), Irlanda (1.724 euros), Países Baixos (1.685 euros), Bélgica (1.626 euros), Alemanha (1.610 euros), França (1.555 euros), Eslovénia (1.110 euros), Espanha (1.108 euros) e Malta (785 euros).

Em países como Áustria, Dinamarca, Itália, Finlândia, Suécia e Noruega, os patamares mínimos de retribuição são estabelecidos em negociação coletiva.

Em termos percentuais, o aumento aplicado este ano em Portugal (4,7%) é o sétimo maior. Destacam-se as subidas registadas nos países do Leste europeu, com a Letónia a liderar por larga margem, com um crescimento de 16,3% face ao valor que tinha sido praticado em 2020.

Compensação até 9 julho e nova subida em 2022

O Governo português já admitiu um aumento de cerca de 6% no salário mínimo nacional em 2022, o equivalente a cerca de 40 euros, que passaria o valor dos atuais 665 euros para 705 euros. A estimativa é que um universo de mais de 800 mil pessoas, isto é, cerca de um quinto dos trabalhadores por conta de outrem, receba o salário mínimo em Portugal.

Como anunciado em maio pelo ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, o Estado vai pagar às empresas 84,5 euros por cada trabalhador que estivesse a receber salário mínimo a 31 de dezembro de 2020 e que ainda se mantenha nos quadros. Contas feitas, dá cerca de 84% do aumento do encargo com a TSU decorrente do aumento do salário mínimo nacional em 2021. As empresas podem pedir o pagamento desta compensação até 9 de julho.


21.12.20

Governo quer refugiados empregados, a falar português e com habitação dentro de ano e meio

in Público on-line

Novo modelo de acolhimento será apresentada em breve, garante a secretária de Estado para a Inclusão e as Migrações. Este ano, Portugal recebeu já 71 jovens, oriundos de países como o Afeganistão, Síria ou Egipto, para quem estão a ser procuradas famílias de acolhimento.

O Governo quer que os refugiados chegados a Portugal ao abrigo de programas europeus consigam falar português, ter emprego e habitação ao fim de ano e meio, uma das medidas previstas no novo modelo de acolhimento.

Em entrevista à agência Lusa, a secretária de Estado para a Integração e as Migrações adiantou que a revisão do modelo de acolhimento está prestes a ser concluída e tem três pontos de destaque, entre a criação de um grupo operativo único para requerentes de asilo e refugiados, o acolhimento de menores não acompanhados e o modelo de autonomização destas pessoas.

Relativamente ao modelo de autonomização, Cláudia Pereira adiantou que a vontade do Governo é que no caso dos refugiados chegados ao abrigo de programas da Comissão Europeia, que têm uma duração de 18 meses, seja possível uma autonomização antes do fim desse prazo.

“O objectivo é que antes dos 18 meses, consoante os perfis, possam autonomizar-se para um emprego, já estarem a falar português, e estarem nas suas próprias casas, pagando através do seu salário. E é este o regime em que estamos a trabalhar e que em breve estará concluído porque o objectivo é sempre o de estarem integrados na sociedade portuguesa”, afirmou a secretária de Estado.

O novo modelo de acolhimento inclui também a criação de um grupo operativo único, “uma medida que já vinha a ser preparada” e no âmbito do qual já decorreu uma primeira reunião na segunda semana de Dezembro, para “tratar de forma conjunta” a entrada em Portugal de todos os refugiados ou requerentes de asilo, independentemente da forma como chegam ao país.

“Seja por aeroporto, seja por programas da comissão europeia, vindos da Grécia, ou do Egipto ou da Turquia, os reinstalados e os recolocados, seja os menores vindos da Grécia, todos são discutidos no mesmo grupo, com as mesmas entidades”, revelou a responsável, acrescentando que este é um grupo coordenado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM), em conjunto com o Instituto da Segurança Social e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Aposta no interior

Apesar de não avançar uma data para a conclusão do processo de revisão, a secretária de Estado confirmou que este mantém uma lógica de descentralização, para que os refugiados e requerentes de asilo não fiquem apenas nos grandes centros urbanos, mas possam também ir viver para as zonas interiores do país.

De acordo com a secretária de Estado, o novo modelo de acolhimento traz não só uma articulação reforçada entre o ACM e o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), como também a própria reestruturação da área do emprego dentro do ACM, já que muitos imigrantes se dirigem ao ACM para saber de propostas de emprego.

Um fenómeno com muita expressão durante os meses de pandemia, uma vez que todos os sectores de actividade foram afectados, com particular incidência no turismo e na restauração, onde muitos imigrantes trabalhavam. Nesse sentido, apontou que houve não só “centenas” de imigrantes que foram trabalhar para a agricultura, mas também para supermercados e outras empresas, um pouco por todo o país. Outros ainda foram “encaminhados” para cursos de língua portuguesa e para cursos profissionais em áreas “onde são necessários mais trabalhadores”, como serralharia ou marcenaria.


Em matéria de qualificações dos imigrantes, a secretária de Estado frisou que os cursos de português vão passar a ser leccionados nos centros Qualifica, além de no IEFP, sendo que está também previsto que possam ser feitos protocolos para que esses cursos aconteçam em empresas ou associações, com horários mais flexíveis e menos alunos por turma.


Por outro lado, garantiu que é também objectivo do Governo facilitar e desburocratizar os processos de reconhecimento de qualificações, seja “diminuindo o tempo de espera”, seja “diminuindo os obstáculos”. Obstáculos que Cláudia Pereira afirmou que também quer retirar à vinda de alunos estrangeiros para Portugal, adiantando que o compromisso do Governo é passar dos actuais 13% para 25% de alunos estrangeiros a estudar em Portugal.

Menores procuram família

O Governo está à procura de famílias de acolhimento para jovens refugiados que chegam a Portugal sem família, uma das respostas que está a ser preparada no âmbito da revisão do modelo de acolhimento prevista para breve.

A secretária de Estado para a Inclusão e as Migrações revelou, na mesma entrevista à Lusa, que a medida de protecção em acolhimento familiar “é uma das respostas que está a ser preparada” para integrar os 500 menores não acompanhados vindos da Grécia que Portugal se comprometeu a receber até ao final de 2021.

Este ano, Portugal recebeu já 71 jovens, 21 dos quais esta semana, na sua maioria rapazes, com idades entre os 15 e os 17 anos, oriundos de países como o Afeganistão, Síria ou Egipto, que estão dispersos por Lisboa, Braga, Nazaré, Covilhã e Maia.

“A questão é que normalmente [o acolhimento familiar] destina-se a jovens com menos idade e a maior parte dos jovens que se encontra na Grécia está nestas faixas etárias, mas sim faz parte das respostas as famílias de acolhimento e já foram entrevistadas algumas dessas famílias”, adiantou Cláudia Pereira.

Informação avançada posteriormente pelo gabinete da secretária de Estado dá conta de que o Instituto de Segurança Social não fez ainda qualquer selecção de famílias de acolhimento, uma vez que falta ainda a portaria que regulamente este processo. No entanto, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pode fazer essa selecção na zona de Lisboa e Vale do Tejo.

“Em todo o território nacional, 11 famílias manifestaram interesse, das quais seis foram entrevistadas pela SCML por se encontrarem em Lisboa, território da sua competência de intervenção”, refere o gabinete da secretária de Estado, acrescentando que só num caso foi manifestado interesse em acolher uma criança ou jovem não acompanhado.

18.12.20

Governo quer refugiados empregados, a falar português e com habitação dentro de ano e meio

in Público on-line

Novo modelo de acolhimento será apresentada em breve, garante a secretária de Estado para a Inclusão e as Migrações. Este ano, Portugal recebeu já 71 jovens, oriundos de países como o Afeganistão, Síria ou Egipto, para quem estão a ser procuradas famílias de acolhimento.

O Governo quer que os refugiados chegados a Portugal ao abrigo de programas europeus consigam falar português, ter emprego e habitação ao fim de ano e meio, uma das medidas previstas no novo modelo de acolhimento.

Em entrevista à agência Lusa, a secretária de Estado para a Integração e as Migrações adiantou que a revisão do modelo de acolhimento está prestes a ser concluída e tem três pontos de destaque, entre a criação de um grupo operativo único para requerentes de asilo e refugiados, o acolhimento de menores não acompanhados e o modelo de autonomização destas pessoas.

Relativamente ao modelo de autonomização, Cláudia Pereira adiantou que a vontade do Governo é que no caso dos refugiados chegados ao abrigo de programas da Comissão Europeia, que têm uma duração de 18 meses, seja possível uma autonomização antes do fim desse prazo.

“O objectivo é que antes dos 18 meses, consoante os perfis, possam autonomizar-se para um emprego, já estarem a falar português, e estarem nas suas próprias casas, pagando através do seu salário. E é este o regime em que estamos a trabalhar e que em breve estará concluído porque o objectivo é sempre o de estarem integrados na sociedade portuguesa”, afirmou a secretária de Estado.


O novo modelo de acolhimento inclui também a criação de um grupo operativo único, “uma medida que já vinha a ser preparada” e no âmbito do qual já decorreu uma primeira reunião na segunda semana de Dezembro, para “tratar de forma conjunta” a entrada em Portugal de todos os refugiados ou requerentes de asilo, independentemente da forma como chegam ao país.

“Seja por aeroporto, seja por programas da comissão europeia, vindos da Grécia, ou do Egipto ou da Turquia, os reinstalados e os recolocados, seja os menores vindos da Grécia, todos são discutidos no mesmo grupo, com as mesmas entidades”, revelou a responsável, acrescentando que este é um grupo coordenado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM), em conjunto com o Instituto da Segurança Social e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Aposta no interior

Apesar de não avançar uma data para a conclusão do processo de revisão, a secretária de Estado confirmou que este mantém uma lógica de descentralização, para que os refugiados e requerentes de asilo não fiquem apenas nos grandes centros urbanos, mas possam também ir viver para as zonas interiores do país.

De acordo com a secretária de Estado, o novo modelo de acolhimento traz não só uma articulação reforçada entre o ACM e o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), como também a própria reestruturação da área do emprego dentro do ACM, já que muitos imigrantes se dirigem ao ACM para saber de propostas de emprego.

Um fenómeno com muita expressão durante os meses de pandemia, uma vez que todos os sectores de actividade foram afectados, com particular incidência no turismo e na restauração, onde muitos imigrantes trabalhavam. Nesse sentido, apontou que houve não só “centenas” de imigrantes que foram trabalhar para a agricultura, mas também para supermercados e outras empresas, um pouco por todo o país. Outros ainda foram “encaminhados” para cursos de língua portuguesa e para cursos profissionais em áreas “onde são necessários mais trabalhadores”, como serralharia ou marcenaria.

Em matéria de qualificações dos imigrantes, a secretária de Estado frisou que os cursos de português vão passar a ser leccionados nos centros Qualifica, além de no IEFP, sendo que está também previsto que possam ser feitos protocolos para que esses cursos aconteçam em empresas ou associações, com horários mais flexíveis e menos alunos por turma.


Por outro lado, garantiu que é também objectivo do Governo facilitar e desburocratizar os processos de reconhecimento de qualificações, seja “diminuindo o tempo de espera”, seja “diminuindo os obstáculos”. Obstáculos que Cláudia Pereira afirmou que também quer retirar à vinda de alunos estrangeiros para Portugal, adiantando que o compromisso do Governo é passar dos actuais 13% para 25% de alunos estrangeiros a estudar em Portugal.

Menores procuram família

O Governo está à procura de famílias de acolhimento para jovens refugiados que chegam a Portugal sem família, uma das respostas que está a ser preparada no âmbito da revisão do modelo de acolhimento prevista para breve.

A secretária de Estado para a Inclusão e as Migrações revelou, na mesma entrevista à Lusa, que a medida de protecção em acolhimento familiar “é uma das respostas que está a ser preparada” para integrar os 500 menores não acompanhados vindos da Grécia que Portugal se comprometeu a receber até ao final de 2021.

Este ano, Portugal recebeu já 71 jovens, 21 dos quais esta semana, na sua maioria rapazes, com idades entre os 15 e os 17 anos, oriundos de países como o Afeganistão, Síria ou Egipto, que estão dispersos por Lisboa, Braga, Nazaré, Covilhã e Maia.

“A questão é que normalmente [o acolhimento familiar] destina-se a jovens com menos idade e a maior parte dos jovens que se encontra na Grécia está nestas faixas etárias, mas sim faz parte das respostas as famílias de acolhimento e já foram entrevistadas algumas dessas famílias”, adiantou Cláudia Pereira.

Informação avançada posteriormente pelo gabinete da secretária de Estado dá conta de que o Instituto de Segurança Social não fez ainda qualquer selecção de famílias de acolhimento, uma vez que falta ainda a portaria que regulamente este processo. No entanto, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pode fazer essa selecção na zona de Lisboa e Vale do Tejo.

“Em todo o território nacional, 11 famílias manifestaram interesse, das quais seis foram entrevistadas pela SCML por se encontrarem em Lisboa, território da sua competência de intervenção”, refere o gabinete da secretária de Estado, acrescentando que só num caso foi manifestado interesse em acolher uma criança ou jovem não acompanhado.


18.9.20

Quase metade dos refugiados de Moria já estão no novo campo

 in RR

Entre os 5.000 refugiados que já entraram nas novas instalações foram detetados 135 casos positivos de coronavírus.

Entre os 5.000 refugiados que já entraram nas novas instalações foram detetados 135 casos positivos de coronavírus.

Quase metade dos refugiados desabrigados após o incêndio no campo de Moria, na Grécia, já estão no novo campo, ainda em construção, na sequência da operação policial desencadeada esta quinta-feira de manhã, anunciou o Governo.

O ministro grego das Migrações, Notis Mitarakis, assegurou esta qinta-feira na ilha grega de Lesbos, fora do Kará Tepé – onde está a ser erguido aquilo a que muitos chamam como o segundo campo de Moria –, que pelo menos 5.000 pessoas já entraram nas novas instalações, enquanto a operação policial continua, até agora, sem incidentes.

Entre esses 5.000 foram registados 135 casos positivos de Covid-19, tendo essas pessoas sido transferidas para uma área especial do campo, onde foram colocados em quarentena.

“Faltam alguns dias para que todos entrem no campo e a estrada seja reaberta”, assegurou Mitarakis, que também afirmou que os negócios que fecharam por causa do bloqueio serão indemnizados.

O ministro da Proteção Civil, Mijalis Jrisojoidis, definiu a operação policial desta quinta-feira como “um dever humanitário”, apesar de muitos refugiados se recusarem ainda a entrar no novo campo, numa altura em que se está a passar “de insegurança à segurança sanitária e da desordem à ordem”.

Por volta das 07h00 (05h00 em Lisboa), centenas de polícias acordaram os migrantes, distribuíram panfletos e transferiram-nos para o novo campo onde, antes de entrarem, foram submetidos a um teste rápido para a Covid-19.

Os refugiados têm a garantia de que apenas aqueles que decidirem registarem-se no novo centro têm acesso a algum tipo de serviço ou procedimentos de asilo.

A polícia transferiu, na quarta-feira à noite, dezenas de polícias femininas com o intuito de facilitar a tarefa de convencer as mulheres e crianças da necessidade de se deslocaram para o novo campo.

No entanto, há muitas dúvidas de que o novo acampamento possa acolher todas as pessoas que o Governo pretende transferir neste momento, visto que não dispõe de tendas, casas de banho e saneamento.

Até quarta-feira, apenas 1.800 pessoas concordaram em instalar-se no novo campo, no qual a agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) montou 600 tendas, tendo, neste momento, capacidade para cerca de 3.600 pessoas.

Um responsável pela organização não-governamental (ONG) Médicos do Mundo afirmou à agência espanhola Efe que foram instaladas 80 casas de banho, até quarta-feira.

O novo acampamento está localizado à beira-mar, num antigo campo de tiro militar, quase sem sombra, onde as tendas, erguidas umas ao lado das outras, nem sequer têm camas. Daí que os primeiros refugiados a entrarem – os mais vulneráveis, doentes ou famílias com crianças – continuarem a dormir no chão.

A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) denunciou esta quinta-feira que, durante as primeiras horas que durou a operação policial, foram impedidos de aceder à nova clínica erguida numa área perto de onde dormem milhares de pessoas a céu aberto, sem acesso aos serviços básicos. Algumas horas depois, as equipas médicas conseguiram abrir a clínica.

“O que as pessoas pedem, o que elas necessitam, é de não serem fechadas noutro campo. Esta gente precisa de ser retirada e levada para um lugar seguro na Grécia ou noutros países europeus”, afirmou Francisca Bohle Carbonell, responsável de enfermaria dos MSF na ilha.

Além disso, outras oito ONG criticaram hoje a decisão do Serviço de Asilo de lançar, a partir de segunda-feira, o exame dos pedidos de asilo à distância para refugiados em Lesbos.

“Eles vão ser convocados para entrevistas por teleconferência sem que um assistente jurídico tenha o direito de acompanhá-los”, destacaram.

Enquanto a maioria dos grupos do Parlamento Europeu concordou em pedir que não se construam mais campos de refugiados como Moria, que durante cinco anos foi considerado por muitas organizações como o símbolo do fracasso europeu, na ilha de Lesbos é dado como certo que, se nada o impedir, este novo campo será uma continuação do anterior.

A proposta do governador do Egeu do Norte, Kostas Muntsuris, de realizar uma greve geral na ilha contra o campo e pedir a transferência de todos os migrantes e refugiados foi hoje aprovada, mas ainda não tem data.

O enorme campo de Moria, erguido há cinco anos no auge da crise migratória, foi totalmente destruído por um incêndio na madrugada de 9 de setembro.

Seis jovens afegãos são suspeitos de estarem envolvidos no desastre, quatro dos quais foram indiciados em Lesbos por incêndio criminoso, incitação à violência a uso ilegal de força.

Outros dois suspeitos, de 17 anos, já tinham sido transferidos para o continente num grupo de 400 menores desacompanhados de Moria, mas serão encaminhados para o Ministério Público em data posterior, indicou fonte judicial.

15.5.20

Grécia vai fazer "operação massiva" de testes a comunidade cigana

Por Notícias ao Minuto

As autoridades gregas de saúde anunciaram hoje terem dado início a "uma operação massiva" de testes do coronavírus covid-19 numa comunidade cigana da Grécia central, após o registo, na terça-feira, de 10 novos casos.

A operação ocorre quase um mês após o aparecimento, em 10 de abril, de 20 casos no campo Néa Smyrni, perto de Larissa, a 354 km de Atenas, onde mais de 2.000 ciganos moram em pequenas casas.

O local foi colocado em quarentena por duas semanas para precaver mais contágios, mas, na terça-feira, as autoridades anunciaram "10 novos casos, sete dos quais na mesma família", disse o assessor de imprensa da câmara municipal de Larissa, Aris Psyhas.

Alarmados com o surgimento destes novos casos, as autoridades de saúde decidiram realizar testes "em massa" entre a população cigana da região, algumas das quais poderão ser colocadas em quarentena novamente.

Desde abril, "um total de 60 pessoas deste bairro já testaram positivo para a covid-19 e foram isoladas numa clínica particular em Larissa", adiantou Aris Psyhas.

O assessor do município lembrou que um homem de etnia cigana de 50 anos morreu há 10 dias, enquanto uma mulher de 72 anos teve de ser ventilada no hospital de Larissa.

Menos afetada do que os seus parceiros europeus, a Grécia regista 152 mortes por covid-19 e 2.744 casos de infeção em todo o país.

Segundo país europeu, depois de Itália, com população mais envelhecida e com um sistema hospitalar enfraquecido após a crise da dívida soberana, no início da década passada, a Grécia adotou medidas precoces de restrição de tráfego para conter a propagação da pandemia.

Após seis semanas de confinamento geral, o "regresso gradual ao normal" começou, segundo as autoridades, em 4 de maio, com a abertura do pequeno comércio. As universidades, escolas secundárias e locais de escavações arqueológicas serão reabertos em 18 de maio, antes da retoma de restaurantes, cafés e bares, em 1 de junho.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 290 mil mortos e infetou mais de 4,2 milhões de pessoas em 195 países e territórios.
A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), encerraram o comércio não essencial e reduziram drasticamente o tráfego aéreo, paralisando setores inteiros da economia mundial.

Face a uma diminuição de novos doentes em cuidados intensivos e de contágios, vários países começaram a desenvolver planos de redução do confinamento e em alguns casos a aliviar diversas medidas.
Os Estados Unidos são o país com mais mortos (82.246) e mais casos de infeção confirmados (mais de 1,3 milhões).

Seguem-se o Reino Unido (32.692 mortos, mais de 226 mil casos), Itália (30.911 mortos, mais de 221 mil casos), Espanha (27.104 mortos, mais de 228 mil casos) e França (26.991 mortos, mais de 178 mil casos).

5.3.20

Grécia vai enviar para os países de origem os refugiados que a Turquia pôs na sua fronteira

in Público on-line

O ministro do Interior turco, Suleyman Soylu, anunciou que Ancara está a preparar um caso para apresentar ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos para denunciar o tratamento dado pela Grécia aos refugiados.

A Grécia já repeliu da fronteira cerca de 35 mil refugiados sem documentos que tentavam entrar no seu território, desde que a Turquia abriu as suas fronteiras, na quinta-feira passada, diz o Governo de Atenas, que se prepara para enviar para os seus países de origem os que tiverem conseguido entrar desde 1 de Março.
O ministro da Imigração grego, Notis Mitarachi, disse que quem entrou ilegalmente no país a partir de dia 1 será transferido para a cidade de Serres, no Norte, e daí será deportado para o seu país.

A partir dessa data não serão aceites mais pedidos de asilo e os migrantes que tenham entrado na Grécia antes de 1 de Janeiro de 2019 e que actualmente estejam nas ilhas gregas – sobrelotadas, e a viver numa situação de enorme tensão – serão transferidos para o continente nos próximos dias, acrescentou Mitarachi.

Segundo a Reuters, a situação está calma esta quinta-feira na fronteira de Kastanies, entre a Grécia e a Turquia. Os refugiados, vindos do Afeganistão e do Paquistão, bem como da Síria e outros países da região, mantêm-se nas suas tendas, em campos improvisados, no lado turco da fronteira.

Migrantes do Afeganistão chegam a uma praia perto da vila de Skala Sikamias (ilha de Lesbos), depois de atravessarem parte do Mar Egeu desde a Turquia Reuters/ALKIS KONSTANTINIDIS

Ancara acusou as forças gregas de terem morto a tiro quatro refugiados – o que Atenas nega, acusando, por sua vez, a Turquia, de estar a ajudar os migrantes a cruzar a fronteira. Ambos os lados têm usado abundantemente gás lacrimogéneo contra as pessoas que tentam fazê-lo.

O ministro do Interior turco, Suleyman Soylu, visitou a província de Edirne, que fica na fronteira com a Grécia, já esta quinta-feira, e anunciou que será enviado um destacamento de mil polícias da força de intervenção, para travar o rechaçar dos refugiados de volta para território turco.

Soylu anunciou ainda que a Turquia está a preparar um caso para apresentar ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos para denunciar o tratamento dado pela Grécia aos refugiados. Acusou as autoridades gregas de serem responsáveis por ferimentos em 164 refugiados e por terem forçado de volta para a Turquia cerca de 5000 pessoas.

A Grécia diz que os seus guardas fronteiriços impediram 7000 entradas ilegais naquela fronteira só nas últimas 24 horas, o que eleva a 34.778 o número de detenções ali feitas. Terão conseguido passar 244 pessoas, dizem fontes governamentais gregas.

A Comissão Europeia recusou-se a censurar o comportamento das autoridades gregas e a sua política de dissuasão dos migrantes que procuram aceder ao território europeu. E também se recusa a denunciar o acordo que foi assinado com o Governo da Turquia, em Março de 2016, para travar o acesso de refugiados ao território europeu.
“Compreendemos a situação difícil em que a Turquia se encontra mas consideramos que os últimos desenvolvimentos junto à fronteira europeia estão a exacerbar os problemas. Acções unilaterais não são positivas, não beneficiam ninguém, pioram a situação e dificultam a sua solução”, disse o alto representante da União Europeia para a política externa, Josep Borrell, de regresso de um encontro em Ancara com o Presidente da Turquia, Recep Rayyip Erdogan.

Portugal disposto a acolher refugiados sírios bloqueados pela Grécia

in zap

A Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) manifesta a disponibilidade de Portugal para acolher refugiados sírios que foram bloqueados pelas autoridades gregas, depois de a Turquia ter deixado de controlar as suas fronteiras com aquele país.

A situação na fronteira entre a Grécia e a Turquia complicou-se nas últimas horas, depois o Governo turco ter decidido abrir as portas da Europa aos refugiados sírios. Uma forma de pressão sobre as autoridades internacionais, após os bombardeamentos do regime sírio que vitimaram cerca de 30 soldados turcos na região de Idlib.

A Grécia reagiu à “invasão” de refugiados com força, impedindo a entrada de cerca de milhares de migrantes no país. A situação tensa provocou confrontos entre migrantes e polícias, com arremesso de pedras e de barras de metal e com as autoridades a responderem com gás lacrimogéneo.

Perante a situação complicada, a PAR mostra-se, desde já, disponível a acolher “os requerentes de asilo e refugiados que se encontrem em território grego e a colaborar com o Governo português na identificação de obstáculos e no reforço da capacidade de acolhimento portuguesa”, conforme comunicado enviado às redacções.


A Turquia acolhe no seu território cerca de 3,6 milhões de refugiados sírios. A decisão do governo do país de abrir as portas da Europa a estes refugiados preocupa a PAR que destaca que a “já frágil situação humanitária vivida na Grécia, em especial nas ilhas gregas de Lesbos, Quios Samos e Kos, onde mais de 56 mil pessoas aguardam uma resposta ao seu pedido de asilo”, pode agravar-se ainda mais.
A PAR entende ser “absolutamente urgente” que Portugal reforce a sua capacidade de acolhimento para que possa receber mais refugiados e garantir-lhes uma resposta rápida e digna, podendo isso ser feito através do Acordo Bilateral assinado entre Portugal e a Grécia, em Março de 2019.

“A PAR apela assim, mais uma vez, à efectiva transferência de requerentes e beneficiários de asilo ao abrigo do Acordo Bilateral para Portugal, onde sejam tratados como pessoas e encontrem a paz e a estabilidade que merecem e procuram“, aponta-se no documento.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), cerca de 13 mil pessoas abandonaram o território turco com destino à Grécia, país que se recusa a abrir-lhes as suas portas, prometendo reforçar o controlo das fronteiras.
A PAR ressalva que há famílias acompanhadas de menores e em situação de particular vulnerabilidade, que fogem de perseguições ou que procuram a paz que o seu país não lhes consegue garantir e critica a ausência de uma “resposta europeia concertada à recolocação destas pessoas em território grego pelo espaço comunitário”.

Cerca de 13 mil pessoas estavam no sábado junto da fronteira greco-turca após o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ter aberto as fronteiras para deixar passar migrantes e refugiados para a Europa, segundo a OIM.
O Presidente da Turquia adiantou que, nas próximas horas, entre 25 mil e 30 mil pessoas podem tentar chegar à Grécia.

Além de milhões de refugiados sírios, a Turquia acolhe ainda centenas de migrantes e refugiados da Ásia, África e Médio Oriente que usam o país como ponto de trânsito para alcançar a Europa através da Grécia.
ZAP // Lusa

22.1.20

Milhares protestam nas ilhas gregas contra campos de refugiados sobrelotados

in JN

Milhares de pessoas manifestaram-se esta quarta-feira nas ilhas gregas no Mar Egeu para exigir a transferência imediata dos muitos refugiados que vivem em campos sobrelotados naquela região e a suspensão do plano governamental de criar centros em regime de detenção.

As manifestações em Lesbos, Samos e Chios, onde ficam localizados os três maiores campos de processamento e de acolhimento de refugiados (conhecidos como 'hotspots') nas ilhas gregas no Mar Egeu (próximas da Turquia), realizam-se no âmbito de uma jornada de protesto e de paralisação geral convocada para esta quarta-feira pelas autoridades municipais locais.

Habitantes, empresários, comerciantes e funcionários públicos locais aderiram ao protesto, com as agências internacionais a relatar que a maioria das lojas e dos serviços públicos nas três ilhas estavam encerrados.
Em dezembro passado, as autoridades das ilhas já tinham convocado um protesto similar.

Sob o lema "Queremos recuperar as nossas ilhas, queremos recuperar as nossas vidas", as autoridades municipais exigem uma transferência imediata de milhares de refugiados para estruturas no território continental da Grécia, mas também contestam o plano do Governo grego de substituir os atuais campos de refugiados por centros em regime de detenção.

A par dos campos nas ilhas de Lesbos, Samos e Chios, existem outros dois 'hotspots' nas ilhas de Leros e Kos.

Todos estão sobrelotados e as pessoas ali acolhidas vivem em condições muito precárias, segundo as denúncias frequentes de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos.

No total, os campos nestas cinco ilhas no Mar Egeu acolhem atualmente mais de 40.000 pessoas em instalações com uma capacidade máxima para 6.300 pessoas.

Em novembro último, o Governo helénico anunciou um plano que previa a substituição dos atuais campos de acolhimento de refugiados nas ilhas gregas por novas estruturas em regime de detenção, ideia que suscitou na altura as críticas de organizações não-governamentais (ONG) e dos autarcas locais.
Segundo a proposta governamental, as novas estruturas terão capacidade para mais de 5.000 pessoas, número contestado pelos responsáveis locais que exigem instalações com uma capacidade limitada a 1.000 pessoas.
Esta reforma ainda não avançou.

Perante a sobrelotação dos campos nas ilhas gregas, o Governo helénico anunciou igualmente a transferência de 20 mil pessoas das ilhas para o território grego continental.
97% dos que chegam por mar à Grécia são refugiados

Mas, face à falta de vagas também verificada nas estruturas localizadas na Grécia continental, o número de transferências é, até à data, pouco expressivo.

Mesmo estando ainda longe da fasquia que atingiu em 2015, quando recebeu cerca de um milhão de refugiados, a Grécia voltou a ser em 2019 a principal porta de entrada para a Europa dos migrantes e dos requerentes de asilo procedentes da 'vizinha' Turquia.

As chegadas de migrantes por via marítima à Grécia ultrapassaram em 2019 a fasquia das 62 mil, segundo os dados mais recentes da Organização Internacional para as Migrações (OIM).
No ano anterior, as chegadas tinham rondado as 32 mil.

O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) apontou, por sua vez, que as chegadas por via terrestre à Grécia (através da fronteira com a Turquia) foram mais 14 mil durante o ano passado.

Apenas um pequeno número destes migrantes consegue chegar ao continente, com a maioria a ficar, durante vários meses, nos campos de acolhimento, enquanto aguarda que as autoridades gregas avaliem os pedidos de asilo.
Face ao crescente aumento das chegadas de migrantes e de requerentes de asilo à Grécia, situação que está a colocar o país sob pressão, o Governo grego decidiu, na semana passada, restabelecer o Ministério das Migrações, que tinha sido extinto há cerca de seis meses.

O responsável pela nova pasta ministerial é Notis Mitarakis.

18.3.19

Migrantes na Grécia: 862 dias à espera da burocracia europeia

por Sara Capelo, in Sábado

Três anos depois do acordo entre UE e Turquia, há marcações de pedidos de asilo a serem feitas para julho de 2021. E campos que deveriam acolher 648 pessoas e que têm seis vezes maior lotação

Vathy deveria albergar 648 refugiados e requerentes de asilo. Mas neste campo da ilha grega de Samos estão seis vezes mais pessoas, vindas de países tão distantes como o Afeganistão, e que ali aguardam por uma decisão sobre o seu pedido de asilo na Europa.


O alerta é feito pela associação Médicos Sem Fronteiras (MSF) no dia em que se assinalam três anos do acordo entre a União Europeia e a Turquia sobre o acolhimento de migrantes em cinco pontos (hotspots) das ilhas gregas.


E vem na sequência de uma petição assinada, entre outros, pela Amnistia Internacional, a Human Rigths Watch, Médicos do Mundo, Serviço Jesuíta para os Refugiados ou Oxfam e que refere que esta "política que aprisiona as pessoas nas ilhas gregas e as impede de alcançar o território europeu tem provocado um ciclo recorrente e interminável de sobrelotação, de condições de vida de má qualidade e de um acesso aos serviços extremamente débil".

O acordo, assinado a 18 de março de 2016, previa que todos os migrantes que, desde então, entrassem ilegalmente na Grécia fossem devolvidos à Turquia. O objetivo era reduzir as chegadas à Europa por esta rota do mar Egeu. Mas entre a intenção e a realidade, 12 mil pessoas ficaram retidas nestes campos gregos. E, avança a MSF, apesar de o número de chegadas ter diminuído desde a assinatura deste documento, só desde o início de 2019 foram 5 mil os novos migrantes que pisaram a Grécia, vindos de países em conflito, como o Afeganistão, da Síria, do Iraque ou da República do Congo.

"A Grécia tornou-se numa lixeira para deposição de homens, mulheres e crianças cuja proteção a União Europeia falhou", acusou numa nota enviada às redacções Emmanuel Goué, chefe da missão da MSF na Grécia.

E enquanto a burocracia não avança, a vida prossegue diariamente. Segundo esta organização humanitária, entre todos os hotspots gregos, Vahity é a situação mais grave porque o sobrelotação leva a que quem ali está "viva em tendas de campismo ou por baixo de plásticos e rodeada de lixo ou excrementos humanos", descreve Vasilis Stravaridis, diretor-geral da MSF na Grécia. Para os que já não conseguiram lugar no campo propriamente dito, resta-lhes viver nestas tendas ou sob os plásticos entre os arbustos. Chamam-lhe "a selva".

O regresso dos MSF ao campo
O afegão Mansoor, de 21 anos, partilha uma tenda com dois amigos. Mas nenhum tem acesso a água potável para tomar banhou ou lavar as suas roupas. As instalações sanitárias ficam a uma grande distância de, por exemplo, instalações sanitárias. À noite, sempre escura e sem qualquer iluminação pública, as mulheres e as crianças não se atrevem a sair à procura de uma, que fica lá ao longe.

"Eu não vou sem o meu marido, porque tenho medo", relata Farida, que ali chegou no início de março com os quatro filhos.

E depois há os bêbados, que as ameaçam e atacam. E as grávidas com pouco acompanhamento médico. E os idosos, os doentes crónicos, as pessoas que sofrem de distúrbios mentais que nestas condições de "desumanidade", como descreve a MSF, pioram. E 79 menores desacompanhados. Há um mês, a MSF voltou a enviar uma equipa médica para Vathy.

Outros exemplos de sobrelotação
E os problemas que ali detetaram também se têm repetido nos campos de Moria, na ilha Lesbos (onde vivem 5.225 pessoas num espaço previsto para 3.100) e Chios (sobrelotado com 1.361 pessoas, numa área para 1.014).

O palestiniano Shaker, de 35 anos, está há vários meses no campo de Vial, na ilha de Chios. As dificuldades que vivenciou em Gaza, depois a travessia para o Egipto, de barco até à Turquia e à Grécia, causaram na sua mulher problemas psiquiátrios, que Shaker sente estarem a agravar-se pela miséria que encontraram ali. Tem pesadelos e nem sequer consegue sair do contentor, que dividem com outra família, e onde a energia é limitada: só há entre as 2 e as 4 da tarde e depois entre as 6 e a meia-noite.

A iraquiana Iman, que tem diabetes, e o marido, com problemas respiratórios, partilham um destes contentores com os outros 12 membros da sua família. Queixou-se às autoridades que com estes problemas de saúde deveriam viver noutro local. "É o que temos", disseram-lhe. Iman não se resigna: "Viemos para a Europa para fugir à guerra, e é assim que a Europa nos trata".

No Inverno de Moria, diz esta organização, 60% das crianças que os médicos ali assistiram ficaram doentes devido às fracas condições de insalubridade que ali existem.
Excesso de pessoas, burocracia
Estes migrantes encontram ainda uma parede de burocracia difícil de escalar. Exemplo: um jovem chegou do Afeganistão no final do ano passado e foi instalado em Chios. Tem consigo uma folha A4 que lhe serve de documento de identificação enquanto está no campo. É nessa mesma folha que se lê a data em que o seu pedido de asilo estará terminado: 26 de julho de 2021.

São tantos os que, como ele, procuram asilo na Europa que as autoridades gregas só conseguirão terminar o processo dentro de 862 dias.

15.1.19

Condições no maior campo de refugiados das ilhas gregas “vão além dos limites da imaginação”

João Ruela Ribeiro, in Público on-line

O campo na ilha de Lesbos está sobrelotado com cinco mil pessoas a viver num clima de insegurança constante. Há mulheres que preferem dormir com fraldas do que arriscar uma ida à casa de banho de noite.

No campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos, o maior do país, quase cinco mil pessoas vivem praticamente sem espaço, sem acesso a cuidados de saúde e num clima de insegurança permanente, revela um relatório publicado esta quarta-feira pela organização humanitária Oxfam. Com a chegada do Inverno e das temperaturas baixas, tudo piora.
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“A situação em Moria está para além dos limites da imaginação”, disse Maria, uma funcionária do Conselho Grego para os Refugiados, citada no relatório. “Tenho visitado o campo desde 2017, e sempre que se pensa que não pode ficar pior fica.”

Os conflitos são frequentes no campo sobrelotado – com capacidade para 3100, em Moria estão quase cinco mil imigrantes e mais dois mil num campo informal nas suas imediações. “Moria é perigoso para as mulheres”, diz Clara, nome fictício de uma camaronesa de 36 anos entrevistada no relatório. “As lutas podem começar a qualquer momento. A qualquer momento podes esperar que te atirem uma pedra à cabeça, mesmo que estejas apenas a dirigir-te para a casa de banho ou para a tua tenda”, conta.

Em casos extremos, algumas mulheres preferem dormir com fraldas do que correr o risco de se deslocarem durante a noite às casas de banho e serem vítimas de violência. Dois terços dos imigrantes do campo de Lesbos dizem nunca se sentir seguros, segundo um estudo citado pelo relatório.

Na terça-feira, um camaronês de 24 anos foi encontrado morto em Moria, e as autoridades estão ainda a tentar apurar as causas da morte. Mas o caso parece estar relacionado com a falta de cuidados de saúde, associado às baixas temperaturas que se têm feito sentir nas ilhas gregas.

Presos na ilha
No ano passado, havia apenas um médico responsável por fazer diagnósticos a todos os imigrantes que chegavam a Lesbos e proceder a uma triagem. Em Novembro, apresentou a demissão e desde então a identificação de pessoas em situação de vulnerabilidade praticamente não é feita.

“Pessoas vulneráveis, incluindo sobreviventes de tortura e de violência sexual, são abrigadas em áreas inseguras. Mulheres grávidas e mães com recém-nascidos são deixadas a dormir em tendas, e crianças desacompanhadas, erradamente registadas como adultos, são colocadas em detenção”, descreve a Oxfam.

À falta de cuidados acresce a proibição, imposta pelo acordo entre a União Europeia e a Turquia, de os imigrantes poderem sair da ilha onde se encontram até que o seu pedido de asilo seja processado – muitos terão a primeira entrevista apenas em 2020. Mesmo entre as pessoas vulneráveis, que teriam autorização para se deslocar ao continente para ter acesso a cuidados de saúde, há vários casos de demoras.
Quentin, nome fictício de um costa-marfinense de 31 anos, diz estar quase cego do olho esquerd, e tem problemas nos rins e no joelho. Há cinco meses foi-lhe concedida autorização para ser transferido para Atenas por causa da sua condição clínica, mas permanece em Moria.

Existem apenas oito estruturas grandes, semelhantes a contentores, que abrigam cem pessoas cada. A maioria dos imigrantes está distribuída por tendas de campismo ou abrigos improvisados, ambos muito frágeis face à chuva e ao frio. Os meses de Inverno são frios e chuvosos, piorando ainda mais as já precárias condições de vida em Lesbos.

“Tudo fica molhado: roupas, lençóis, as poucas coisas que as pessoas têm. É assim que eles dormem de noite: debaixo de lençóis molhados e numa tenda que pode desfazer-se a qualquer momento”, diz a responsável do Centro Bashira para mulheres imigrantes, Sonia Andreu.

De que falamos quando falamos de solidariedade europeia, perguntam-se líderes em Salzburgo
O relatório aponta o dedo ao Governo grego pelas más condições no campo de Lesbos, mas também aos restantes Estados-membros da UE por não aceitarem partilhar responsabilidades com Atenas para receberem requerentes de asilo.
“As autoridades locais e os grupos humanitários têm feito esforços para melhorar as condições em locais como Lesbos. Infelizmente, isto torna-se quase impossível por causa das políticas apoiadas pelo Governo grego e pela UE que mantêm as pessoas aprisionadas nas ilhas por períodos indefinidos”, disse a chefe de missão da Oxfam na Grécia, Renata Rendón.

7.8.17

Meses ou anos sem receber: salários em atraso são marca da crise grega

Maria João Guimarães, in Público on-line

Supremo Tribunal decide que é possível as empresas não pagarem regularmente aos trabalhadores.

Os milhões de trabalhadores gregos que trabalham sem ganhar um salário é uma das marcas da crise que começou há sete anos e que se mantém até hoje. Este mês, o Supremo decidiu sobre o direito das empresas a não pagarem aos seus trabalhadores. O veredicto: é possível.
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O Supremo vem confirmar uma série de outras decisões sobre casos em que as empresas não têm pago: quando se trata apenas de atraso de salários não é crime. Para ser crime, é preciso que o atraso no pagamento esteja ligado a uma intenção do empregador afastar o trabalhador.

Histórias destes trabalhadores repetem-se, com consequências mais ou menos dramáticas. No mês passado, uma mulher de 42 anos matou-se. Era empregada numa das maiores cadeias de supermercados do Norte país e não recebia o seu salário há 15 meses. Os salários em atraso acontecem também no sector público: as trabalhadoras de limpeza dos hospitais públicos da ilha de Lesbos, contratadas em Fevereiro de 2015, denunciaram cinco meses de salários em atraso (ou seja, só um mês foi pago). O caso é ainda irónico porque se as contribuições não são pagas, não há acesso a cuidados de saúde (na Grécia é necessário ter seguro, a alternativa é pagar por inteiro os cuidados de saúde).

Os casos já só são notícia quando são especialmente graves, mas cada pessoa conhece alguém que passou por esta situação. Perguntando no Facebook a gregos se conhecem quem tenha salários em atraso, não demora nada até que alguém conte o seu caso.

Ariadne responde com a história do seu marido, que trabalhava para uma fundação, conta em curtas mensagens no chat da rede social. “Trabalhou durante um ano e meio sem receber”, diz. Acabou por ser despedido: deviam-lhe 38 mil euros. A família (de cinco filhos) foi – e é – sustentada por ela, que é professora, e o seu salário tem sido cortado.

A fundação propôs um acordo: pagar 5400 euros em seis prestações até à reforma do marido – já a poderá pedir no próximo ano. “Pagaram a primeira e a segunda tranche, mas atrasaram-se na terceira. Pagaram a terceira como se fosse a quarta”. O acordado pode afinal não ser cumprido.

A família decidiu aproveitar o lado positivo da situação (“assim ele pode estar mais com os miúdos”, diz Ariadne) e não se preocupar demasiado. Mas não é fácil, e há consequências à vista: “um dos meus filhos está com uma doença que se pensa ser provocada pela ansiedade”.

O problema dos salários em atraso é que as pessoas não querem deixar os empregos porque têm esperança de ainda vir a receber, porque sem o término do contrato não podem receber subsídio de desemprego, e porque não há grande esperança de virem a encontrar um novo emprego. A taxa de desemprego é de cerca de 22% — a mais alta da União Europeia e mais do dobro da média dos países da zona euro.

Um dos indicadores da escala do problema é a diferença entre o número de desempregados e o número de pessoas sem seguro de saúde, já que são os empregadores quem paga a contribuição no caso dos trabalhadores por conta de outrém. Há entre 1,9 e 2,4 milhões de gregos sem seguro, segundo o Ministério da Saúde – mais do que só o número de desempregados, que é de cerca de um milhão, de acordo com dados do Instituto de Estatística de Abril.

Outro problema são as reformas: o estado demora meses ou anos a pagar. As pessoas param de trabalhar e ficam sem receber até que a sua situação fique desbloqueada. Segundo os dados mais recentes, mais de 294 mil pensões foram adiadas, e há tempos de espera a chegar aos três anos e meio.

Enquanto os trabalhadores (e os reformados) recebem ou não, as contas vão-se acumulando. “Tenho uma amiga que acabou por ser paga depois de quatro anos de salários em atraso”, conta ainda Ariadne. “Esteve mesmo, mesmo quase a perder a casa.”

O número de lares com dificuldades em suportar as suas necessidades básicas passou de 28% em 2010 para 53,5% em 2015. Em 2010, 18,8% tinham dificuldade em pagar contas como água e electricidade, cinco anos depois, esse número subiu para 42%.

O facto de novos impostos terem sido incluídos nas contas da electricidade levou mais pessoas a não as conseguirem pagar, ou tentarem encontrar meios alternativos. Muitas pessoas obtêm energia eléctrica ilegalmente, e há mesmo equipas organizadas para fazer puxadas de fios dos vizinhos ou modificar os contadores. No ano passado houve 10.600 casos confirmados de roubo de electricidade, mas o número real será muito mais alto.

Ainda em 2015, segundo a organização não governamental Dianeosis, 15% da população ganhava abaixo do limiar de pobreza. Em 2009 esse número não ultrapassava os 2,2%. Muitos destes podem ser trabalhadores com salários em atraso, ou trabalhadores sujeitos a contratos em que ganham tão pouco que ficam abaixo do limite: muitos novos contratos são feitos em regime de part-time e assim os empregadores escapam a ter de pagar o salário mínimo. O salário médio bruto para um trabalhador em part-time é de 388 euros (bruto); em full-time de 1167 (também bruto).

13.7.17

Grécia: A dívida, o desemprego e a austeridade que prevalecem entre o "combate ideológico"

Diário de Notícias

A crise da dívida, o desemprego e a austeridade continuam a assolar a Grécia dois anos e meio após a tomada do poder pelo Syriza, e a desilusão perpassa pelas ruas da grande capital perante um impasse que parece não ter fim.

Em Atenas, esta grande metrópole onde se concentra quase metade dos 11 milhões de habitantes da Grécia, os sem-abrigo, os mendigos, os desempregados, os deserdados, continuam a povoar de dia as zonas mais movimentadas, em busca da esmola de um transeunte, de um turista, para depois se refugiarem no seu submundo, na sua solidão.

Os efeitos da profunda crise que assolou o país do sul dos Balcãs prevalecem, apesar as medidas sociais adotadas pelo Governo liderado pelo partido de esquerda Syriza, aliado a uma pequena formação de direita para garantir maioria parlamentar.

"De momento, apenas a população que estava na máxima pobreza, mais de dois milhões de pessoas, beneficiou com este governo. As restantes camadas não, sobretudo a classe média", indicou à Lusa um observador da política interna helénica.

"Nos jovens, há uma camada que desapareceu, que não está nas estatísticas, que teve de regressar a casa dos pais após o início da crise em 2009. Gente que se esforçou, estudou, gastou dinheiro na educação, mas as perspetivas são quase nulas. Não saem de casa, não têm possibilidade de partilhar um café, uma refeição. Não são sem-abrigo, não passam fome, mas em grande medida estão marginalizados, é um problema social muito grave", acrescentou.

O combate à extrema pobreza, uma herança dos anteriores governos, tem sido a prioridade dos governos liderados pelo Syriza, através de uma agenda política moderada, que tem promovido privatizações a "meio-gás" consideradas insuficientes pelos credores, tentando preservar alguns setores estratégicos, como a eletricidade.

"O Syriza nunca tentou aplicar um programa revolucionário, antes um programa onde não haverá corrupção, paternalismo, pelo reforço dos direitos dos trabalhadores, melhor política na saúde e educação, melhor Estado social. Uma agenda reformista social-democrata", entende Nicholas J. Theocarakis, presidente e diretor científico do Centro de Planeamento e Pesquisa Económica de Atenas.

"O atual governo não conseguiu inverter a situação, quem dirige a economia grega são as instituições internacionais. Mas houve muita resistência às mudanças que as instituições pretendem, em particular do FMI sobre o mercado laboral. No entanto, argumentam ser necessário legislar várias medidas...", prosseguiu o professor de Economia, que colaborou no primeiro governo do Syriza [janeiro-setembro de 2015] e liderou na qualidade de secretário-geral da política orçamental as negociações técnicas do ministério das Finanças grego com o Eurogrupo no primeiro semestre desse ano.

Nicholas Theocarakis garante que o 'Grexit', a saída do país da zona euro, nunca foi um objetivo do governo grego, mas refere que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendia essa opção.

"Queiram impor à Grécia uma espécie de 'Grexit' suave, mesmo que não tivessem a aprovação de [chanceler Angela] Merkel, que percebeu as implicações políticas dessa decisão".

De seguida, veio o referendo de 05 de julho de 2015 no qual a população rejeitou o plano de austeridade proposto pelos credores, e uma semana depois a assinatura do terceiro plano de resgate.

"Mas o plano não está a resultar. Os credores não se interessam que a Grécia fique melhor ou pior. Querem demonstrar à população da Itália, França ou Espanha, três atores principais da UE, 'vejam o que sucedeu se tentarem isso'. Foi por isso que a Grécia foi extremamente punida, por vezes com sadismo. Julgo que existe um ódio não pela Grécia, mas pela classe trabalhadora em geral. E isso é para mim espantoso".

As medidas aplicadas pelo Governo de coligação, ainda muito dependente dos ditames internacionais para obter as parcelas do empréstimo concedido pelas instituições, têm continuado a penalizar a classe média, que registou um súbito e acentuado empobrecimento.

"Está tudo igual, pago 60% de impostos, restam-me 40% do que ganho. Todas as promessas deixam de ser cumpridas quando sobem ao poder", desabafa um jovem ao conduzir o seu táxi pelas ruas da cidade, sempre com intenso trânsito.

Diversos quadros políticos do Syriza têm-se retirado discretamente, sem críticas públicas mas desiludidos com o rumo dos últimos dois anos e meio.

Sia Anagnostopoulou, professora universitária de História contemporânea, foi ministra-adjunta no ministro dos Negócios Estrangeiros para os Assuntos Europeus e ministra-adjunta da Educação, mas decidiu regressar ao lugar de deputada pelo Syriza e integrar o grupo parlamentar grego no Conselho da Europa.

A deputada assinala o período "muito difícil" para os partidos no poder desde janeiro de 2015, com "ameaças externas e internas até ao ponto de o país entrar em total colapso", mas onde também foi encontrada "a força de permanecer de pé", sobretudo após o referendo de julho de 2015.

"É a primeira vez que os gregos começam a elaborar uma consciência de cidadania, que os cidadãos devem pagar impostos. Não podemos ter um Estado-providência se não pagarmos os nossos impostos. É essa uma grande diferença. Temos outra ideologia. Demonstramos que existem ideologias, que existe um confronto de ideologias, e isso é muito importante", regista.

O "combate ideológico" tem-se exprimido, segundo a deputada, no setor dos 'media', com a prevalência de uma "parceria" entre o poder político, a banca e os detentores dos 'media'.

"O Syriza tentou cortar as ligações entre estes três setores, e não é possível imaginar a reação que existiu", sublinha, numa referência a uma recente lei sobre a regulamentação deste setor.

"A oposição também deveria dizer que os 'media' privados devem pagar os seus impostos. A luta não terminou, há uma guerra extraordinária... Mas o sistema é muito forte. De início não entendemos como o sistema tem raízes tão fortes. Estão com eles a justiça, os bancos, os grandes interesses económicos, para nós foi muito difícil e ainda é muito difícil".

Esta lei, considerada um emblema pelo atual governo, ainda não foi aplicada por ter sido considerada inconstitucional pelas corporações mediáticas abrangidas, que acusam o Executivo de censura, mesmo de pretenderem tornar a Grécia "numa Venezuela".

A deputada assegura: "Tentaram travar estas medidas, mas iremos até ao fim. O sistema tem receio que, com o Syriza no poder, todas as suas raízes sejam cortadas. A reação é grande...".

16.2.17

Cáritas Portuguesa visita refugiados na Grécia

Ana Lisboa, in RR

Uma equipa liderada pelo presidente do organismo, Eugénio Fonseca, parte esta quinta-feira.

A Cáritas Portuguesa vai visitar refugiados apoiados pela congénere grega a quem dão ajuda financeira.

“Mais do que conhecer, vamos viver melhor a situação que está a ser sentida por aquela pobre gente. Depois vamos também avaliar a aplicação que está a ser feita dos recursos que temos enviado até agora no programa da PAR, a Plataforma de Apoio aos Refugiados, que se chama 'Linha da Frente'”, afirma o presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca.

Nestas declarações à Renascença, garante que a Cáritas quer "criar condições às pessoas dos campos e também criar condições de maneira a que as pessoas fiquem no seu país, porque é isso que elas querem”.

Eugénio Fonseca adianta que já há uma ideia onde vai ser investido o dinheiro angariado na operação "10 Milhões de Estrelas", iniciativa que destinou 35% do total de donativos recolhidos.

“Já sabemos que em princípio, para além dos apoios nos campos, nós vamos ter que dar ajuda à Cáritas grega para manter os dois hotéis, a construção já existia, portanto, foi adaptado para refugiados, para que se possa fazer melhor a transição entre os campos e os países de destino. E esse trabalho é um trabalho que está a ser feito de excelência, faz-se um apoio psicológico mais contínuo, dá-se outras hipóteses de conforto, conversa-se com as pessoas para amenizarmos, muitas vezes, ressentimentos que esta situação injusta está a gerar nas pessoas”, descreve.

A equipa da Cáritas vai estar até segunda-feira na Grécia. No programa está, entre outras visitas, uma deslocação ao campo de Lesbos.

20.9.16

Plataforma de Apoio aos Refugiados prolonga missão na Grécia por mais seis meses

in RR

No âmbito do programa Linha da Frente, a PAR disponibilizou 32 voluntários e esteve em quatro locais: dois centros de acolhimento e dois campos de refugiados, chegando a mil pessoas

A missão da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) na Grécia vai continuar por mais seis meses. O anúncio foi feito esta tarde em conferência de imprensa pelo coordenador da PAR, Rui Marques, que diz que responde ao pedido dos parceiros que trabalham com os refugiados na Grécia e pedem que se mantenha a presença dos voluntários portugueses em Lesbos e Atenas.

"Foram muitas as actividades, o balanço é muito positivo, e foi decidido pela comissão executiva da PAR renovar esta missão por mais seis meses na Grécia", avançou o coordenador da PAR.

No final de Agosto, Rui Marques fez uma deslocação à Grécia para fazer a avaliação da missão e questionar as instituições no terreno sobre se "consideravam útil e necessário" a continuação da missão da PAR.

"O 'feedback' que obtivemos foi excelente no sentido que todos os nossos parceiros pediram que continuássemos o trabalho que estávamos a fazer e se possível o aumentássemos", contou à Lusa.

O trabalho da PAR foi realizado em parceria com organizações não-governamentais locais, como a Cáritas Grécia, o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) e a Elix.

"Com o exemplo destes parceiros foi possível desenvolver um conjunto de actividades muito diversificado" na área da saúde, da educação não formal e no apoio às famílias.

"Tivemos equipas de saúde, médicos e enfermeiros, que deram apoio ao programa de vacinação em Lesbos, para que todas as crianças fossem vacinadas" e asseguraram os serviços básicos de saúde no campo de Karatepe aos fins-de-semana, em Agosto, exemplificou Rui Marques.

Os voluntários desenvolveram também actividades com as crianças que estão nos campos de refugiados, e "infelizmente não podem ir à escola", trabalharem no Centro de Apoio de Emergência às Famílias" e ajudaram mulheres e jovens refugiados em Lesbos

Em parceria com a Elix, os voluntários portugueses criaram duas escolas de verão, cada uma com capacidade para 100 crianças, no campo de refugiados de Elleonas, em Atenas.

Em Agosto, geriram um centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados, em Atenas, que acolhe 40 refugiados.

"É um trabalho fundamental" para o qual "foi essencial" o apoio da sociedade de advogados Linklaters, do GRACE, da EDP, da EY Portugal, da Universidade Católica Portuguesa do Porto e da Universidade de Aveiro. "Apelamos a outras empresas que possam vir a apoiar os próximos meses de trabalho", frisou.

O coordenador da PAR salientou ainda o "contributo muito importante" dos voluntários que, além de darem o seu trabalho, pagam o custo da viagem. "O esforço e o trabalho" destes voluntários no terreno são "a imagem" de Portugal junto dos refugidos e das outras organizações internacionais.

E, sustentou, "deixaram uma excelente imagem do nosso país em termos de solidariedade e disponibilidade para ajudar".

Um dos objectivos é agora trabalhar com os refugiados para ajudarem outros refugiados e também promover a integração cultural das famílias que chegam a Portugal.

Até agora, no âmbito do programa Linha da Frente na Grécia, a PAR disponibilizou 32 voluntários, esteve em quatro locais: dois centros de acolhimento e dois campos de refugiados.

O trabalho das equipas portuguesas chegou a cerca de mil pessoas e a missão teve um custo de 25 mil euros.







14.6.16

Prostituem-se por dois euros para sobreviver na Grécia

in Jornal de Notícias

Fylis é o grande centro da prostituição de Atenas, onde se encontram cada vez mais homens sírios e afegãos a venderem serviços sexuais para conseguirem alimentar-se.

A investigação da rede de correspondentes "Global Post" dá conta de centenas de homens refugiados que acabam a prostituir-se nas ruas da Grécia depois de conseguirem chegar a terra. Muitos deles são ainda adolescentes.

Sem conseguirem continuar o caminho da fuga até à Europa do Norte, presos na fronteira, estes homens, que chegam do Afeganistão, Síria ou Paquistão, acabam nas ruas a prestar serviços sexuais de forma ilegal. Na Grécia, o trabalho sexual é apenas considerado legal se for realizado dentro de bordéis devidamente registados. O comércio sexual masculino está, de acordo com a notícia publicada, a crescer de forma exponencial.

Entre os homens refugiados entrevistados, cujos nomes foram alterados por proteção, está Abdullah. Relata que teve sexo por dinheiro duas semanas depois de ter chegado à Grécia : "Os meus amigos disseram-me que se tivesse relações sexuais com os homens que me procuravam eles me davam dinheiro".

O homem retrata uma situação dramática que parece ser comum para muitos dos refugiados : "Eu não tenho nenhum dinheiro. Podemos vender drogas, ou serviços sexuais, ou acabar a trabalhar para os contrabandistas arranjando-lhes clientes. Não há outro caminho".

As notícias sobre situações de prostituição em que acabam muitos refugiados têm sido constantes, tendo já levado a ONU a lançar diversos apelos sobre "a pior crise humanitária da nossa época".

20.4.16

Há 46 mil refugiados em risco de calamidade humanitária

Abel Coelho de Morais, in "Diário de Notícias"

46 mil refugiados estão em risco de "calamidade humanitária" na Grécia Amnistia internacional. ONG denuncia condições de acolhimento em território grego e responsabiliza dirigentes europeus. Travessia do Mediterrâneo volta a ser procurada após fecho da fronteira da Macedónia e acordo UE-Turquia. Mais de 46 mil refugiados e migrantes vivem atualmente "em condições horríveis e num estado de medo constante e incerteza" em diferentes locais do território continental da Grécia, denunciou ontem a Amnistia Internacional (AI) num relatório em que passa em revista a situação das pessoas obrigadas a permanecer naquele país, após o fecho da fronteira comum com a Macedónia.

Com o encerramento desta fronteira no passado dia 7 de março, aquelas pessoas, "maioritariamente mulheres e crianças", não têm forma de abandonar a Grécia e "arriscam-se a ser esquecidas pela comunidade internacional", lê-se no documento da AI.

A denúncia desta situação coincidiu com a notícia de que quatro embarcações teriam naufragado ao largo das costas egípcias, sendo referido como número provável de vítimas mais de "400 migrantes, a maioria somalis", segundo a edição em árabe da BBC. Os media italianos referiam, por seu lado, cerca de "200 vítimas", citando o ministro da Informação da Somália, Mohammed Abdi Hayir. Um número obtido através da "consulta à Embaixada no Egito", explicou o ministro à Reuters.

As embarcações deixaram o Egito e teriam como destino a Itália. As autoridades marítimas deste país afirmavam, por seu lado, não ter qualquer conhecimento do caso e garantiam, ao fmal do dia, não estar envolvidas em quaisquer operações de busca.
A notícia do naufrágio ao largo das costas egípcias coincidiu com o aniversário de uma outra tragédia em águas do Mediterrâneo, sucedida fez precisamente ontem um ano, quando naufragou um navio pesqueiro que partira da Líbia com cerca de 800 pessoas a bordo.
Destas, só 28 sobreviveram.

Ainda em relação a este caso, as autoridadeS italianas anunciaram estar em estado avançado as operações para o resgate da embarcação.
Esta será levada para um porto de Itália, onde se procederá à recolha dos restos mortais das vítimas ainda a bordo. O sucedido há um ano no canal da Sicília foi evocado pelo presidente italiano, Sergio Manarelia, que estabeleceu um Paralelo entre o "aniversário da ocasião em que 800 perderam a vida e a tragédia" de ontem, e como "os dois casos nos devem fazer pensar" sobre o tratamento que a Europa está a dar à questão.
Críticas à União Europeia Escreve-se no relatório da AI que se escreve que os "Estados da União Europeia estão a exacerbar esta crise com o seu fracasso em atuarem de forma real para ajudar a realojar as dezenas de milhares" de pessoas queestão "encurraladas na Grécia".
AAI considera que se os dirigentes europeus não se decidirem a atuar "de forma rápida e urgente" para mudar as condições daqueles refugiados e migrantes, "estão a criar com a sua atuação uma calamidade humanitária".

Ainda segundo as informações da AI, das 66400 pessoas que desde setembro de 2015 deveriam ter sido recolocadas apenas 61 5 o foram até 12 de abril, de acordo com informações fornecidas a esta ONG pela Comissão Europeia.

O relatório da Al recolhe testemunhos de inúmeros refugiados que transmitem uma imagem eloquente da realidade desoladora que se vive nas instalações, a grande maioria improvisadas e sem quaisquer condições. "Dormimos no chão; as mantas estão molhadas.
Não há casas de banho. Por tudo isto, as pessoas estão a adoecer", diz uma mulher síria em Idomeni.

AAI recenseou 31 destes campos, e, por exemplo, num deles, no porto de Pireu, passaram três mil a cinco mil pessoas entre o início de fevereiro e 13 de março do ano corrente, quando a missão desta ONG esteve no local.

Com o fecho da fronteira da Macedónia (Fyrom) e consequente encerramento da chamada "estrada dos Balcãs", os migrantes estão de novo a dirigir-se para Itália. Os números mais recentes ontem divulgados pela agência de fronteiras da UE, Frontex, o número de chegadas em março às costas italianas foram de 9600 migrantes, o dobro do verificado em fevereiro. Em relação a período homólogo do ano anterior, o aumento é ainda mais evidente. Em março de 2015 chegaram a Itália, via Mediterrâneo, 2283 migrantes. Então, como neste ano, a TRAVESSIA 9600 Migrantes Número de pessoas que chegaram a Itália em março, o dobro do verificado em fevereiro. Em março de 2015 tinham sido apenas 2283.
22900 Pessoas Entradas na Grécia nos primeiros 20 dias de março. Após fecho da fronteira com a Macedónia, o número caiu para 3500 até ao final do mês.

PRÉMIOS No ano que marca o 1002 aniversário dos Pulitzer, os prémios de excelência do jornalismo, a cobertura da crise de refugiados valeu ao departamento de fotografia da Reuters (juntamente com quatro fotógrafos do New York Times) a distinção de melhor trabalho de assuntos de última hora (na foto, uma imagem de outubro de 2015, captada pela agência norte-americana na ilha de Lesbos, Grécia). Outro destaque foi o prémio de serviço público da Associated Press sobre o uso de trabalho escravo na indústria da pesca no Sudeste da Ásia, bem como o atribuído à jornalista norte-americana Alissa R ubin, do New York Times, em reportagem internacional, pela voz dada V às mulheres afegãs.
maioria é proveniente de países como a Nigéria, Somália e Gâmbia.
Caso dos 108 africanos salvos no domingo ao largo da Líbia quando estava prestes a afundar-se o pneumático em que viajavam. O salvamento foi realizado por um navio da ONG SOS Méditerranée e, segundo esta organização, no início da viagem estavam a bordo 160 pessoas.
Evidência de que a travessia direta do Mediterrâneo está a sera via de escape para a Europa, os números da Frontex para a Grécia revelam que em março foram 26460 pessoas a chegar a este país-menos de metade do que no mês de fevereiro. A agência nota que esta diminuição está relacionada, além do fecho da "estrada dos Balcãs", com o início das patrulhas navais da NATO no mar Egeu e com a assinatura do acordo UE-Turquia, que prevê o retorno a este país daqueles que, aqui estando, tentem entrar no espaço europeu. Só para março, os números são eloquentes: 22900 chegadas nos primeiros 20 dias do mês e apenas 3500 nos últimos 11 dias.

12.4.16

António Costa na Grécia: é necessária “mais Europa” para resolver situação dos migrantes

Fábio Monteiro, in "Expresso"

Estão previstos encontros formais do primeiro-ministro com o seu homólogo Alexis Tsipras e com o Presidente Prokópis Pavlópoulos. Costa vai ainda visitar um campo de refugiados de Eleonas, em Atenas

A crise migratória só se resolve com "mais Europa", diz António Costa em entrevista ao jornal grego "Ekathmerini". Esta segunda-feira, o primeiro-ministro português vai estar na Grécia. Estão previstos encontros formais com o primeiro-ministro Alexis Tsipras e com o Presidente grego Prokópis Pavlópoulos.

"Acreditamos que a solução para as nossas preocupações comuns que enfrentamos requer mais Europa e não menos Europa, e, nesse processo, não deve haver frentes de alguns países contra ou a favor de outros", diz António Costa ao "Ekathmerini."

Questionado sobre se o anúncio da intenção de Portugal receber mais migrantes do que os que tinha inicialmente previsto foi feito para obter uma maior margem negocial com a Europa, Costa negou que essa fosse a razão, dizendo que se trata da "coisa mais correta a fazer".

"A complexidade dos problemas que o mundo está a enfrentar não permite que Portugal, Grécia ou até a Alemanha abordá-los de forma unilateral ou isolada", afirma.

Esta é a primeira visita oficial de António Costa à Grécia. Durante o dia irá deslocar-se ao campo de refugiados de Eleonas, em Atenas. Numa visita que tem como tema central a questão dos refugiados e que resulta de um convite feito por Tsipras, Costa estará na capital grega acompanhado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva e da Administração Interna Constança Urbano de Sousa.

Além de reuniões de carácter institucional com o Presidente e com o primeiro-ministro gregos, seguir-se-á uma conferência de imprensa conjunta com Alexis Tsipras. Ao início da tarde, Costa visitará o campo de refugiados de Eleonas, em Atenas, visita sugerida pelas autoridades gregas, tendo como razões principais questões de segurança e a proximidade face ao centro de Atenas, avança uma fonte do Executivo português.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o campo de Eleonas, a cinco quilómetros do centro de Atenas, criado pelo atual executivo grego, é considerado um dos melhores do país.

Apesar de Portugal estar geograficamente distante das principais rotas dos refugiados, António Costa tem vindo a colocar desde o início do seu mandato este tema no topo das suas prioridades, no que à política europeia diz respeito. Em fevereiro, durante a sua visita oficial à Alemanha, disponibilizou-se junto da chanceler alemã Angela Merkel, no apoio à integração de refugiados. Nesse mesmo mês, o primeiro-ministro português enviou também cartas a homólogos de alguns dos Estados-membros mais pressionados pelos fluxos migratórios (Grécia, Itália, Áustria e Suécia) disponibilizando-se para receber mais cerca de 5800 refugiados, além da quota comunitária.

Deste modo, Portugal poderá vir a acolher, no total, um número próximo de 10 mil refugiados.

5.4.16

Deportação de migrantes não trava chegada de refugiados

Félix Ribeiro, in "Público"

Antes das partidas, chegaram 339 pessoas à Grécia As primeiras deportações automáticas de migrantes e requerentes de asilo chegados às ilhas gregas depois de 20 de Março começaram ontem, tal como ? cou agendado no momento em que a União Europeia selou com a Turquia um polémico acordo para tentar conter o fluxo migratório no Mediterrâneo. Vigiados por dezenas de agentes da polícia europeia de fronteiras, 202 migrantes retirados de campos de acolhimento nas ilhas de Lesbos e Chios embarcaram ainda durante a madrugada em três ferries que os levaram sem incidentes para a pequena cidade turca de Dikili e para o mesmo país que deixaram nas últimas duas semanas em embarcações periclitantes.

O mecanismo de deportação automática é crucial para que a nova estratégia europeia para os refugiados funcione. Os 28 querem manter migrantes e requerentes de asilo do outro lado do Mediterrâneo, na Turquia, onde já vivem cerca de 2,5 milhões de refugiados sírios. A União Europeia encerrou por isso a rota do mar Egeu, por onde se dá a esmagadora maioria das entradas “irregulares” no continente. Não sendo possível travar completamente as novas chegadas — os Estados-membros prometem “destruir o modelo de negócio dos passadores” no futuro —, encerrar a rota do Egeu faz-se mandando de volta para a Turquia todas as pessoas que viajem para a Grécia sem autorização.

As operações de ontem foram um primeiro teste à capacidade de a Grécia e a Turquia processarem e expulsarem migrantes e requerentes de asilo que arriscaram a vida para chegar à Europa, e fazê-lo pelo menos ao mesmo ritmo que outras pessoas tentam a mesma viagem. A tarefa levanta sérias dúvidas sobre a viabilidade do acordo, e a própria data para o começo das deportações vinha sendo encarada como demasiado ambiciosa. As primeiras viagens deram-se na data marcada e sem incidentes — uma vitória para a chanceler alemã, Angela Merkel, que sofre a pressão da entrada de mais de um milhão de refugiados no seu país só em 2015. Apesar disso, as nas 24 horas que antecederam as viagens chegaram 339 pessoas por mar à Grécia. Em todo o caso, numa entrevista telefónica com Angela Merkel, o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, sublinhou “um dia importante” em que “se pôs em marcha uma parte central” do acordo.

“Um por um” Numa demonstração de que as operações de ontem são sobretudo simbólicas, aterraram na Alemanha dois aviões com 16 refugiados sírios cada e uma outra aeronave com 11 sírios na Finlândia. As viagens são o resultado da chamada “regra do um por um”, em que a União Europeia se compromete a receber um refugiado sírio vindo da Turquia por cada sírio reenviado desde a Grécia — é dada prioridade a famílias sírias na Turquia em condições particularmente vulneráveis. O acordo deixa de fora iraquianos e eritreus, a quem países como a Alemanha oferecem asilo em quase todos os casos, e todas as outras nacionalidades que, juntas, representam metade de todas as pessoas que fazem a travessia marítima para a Europa. Desde o início deste ano, já 171 mil pessoas o ? zeram.
Mais de 700 morreram.

A desproporcional chegada de 43 sírios à Alemanha e Finlândia — quando comparada com as duas pessoas da mesma nacionalidade que viajaram para Dikili — sugere um esforço da parte do Governo turco em demonstrar que o acordo que selou com a UE será e? caz e aplacará as críticas à maneira como trata os refugiados no seu território — Ancara foi recentemente acusada pela Amnistia Internacional de ter expulsado centenas de refugiados para a Síria só nos últimos meses.

Acordo para reduzir número de refugiados entrou oficialmente em marcha, mas nenhuma das primeiras pessoas deportadas pediu asilo na Europa e a maioria era do Paquistão e Bangladesh Acordo Félix Ribeiro na Grécia desde a data-limite de 20 de Março e quase todas serão deportadas se as autoridades fizerem valer o compromisso com Ancara.

Estão todos formalmente detidos, em centros de acolhimento que ameaçam ? car sobrelotados caso o ritmo das deportações não acelere.
As autoridades acabaram por expulsar apenas um terço das 600 pessoas que tinham planeado deportar ontem. A imprensa turca sugere que este número pode aumentar para a casa dos 700 até amanhã, mas só Foi “um dia importante” em que “se pôs em marcha uma parte central” do acordo UE-Turquia travessias de ontem continuam sem responder às principais inquietações sobre a estratégia europeia para os refugiados.
Os ferries transportaram sobretudo migrantes do Paquistão e Bangladesh, que em condições normais já seriam deportados da Grécia. Aliás: os dois únicos sírios que regressaram à Turquia tinham pedido para o fazer e nenhuma das 202 pessoas “expulsas” pediu asilo na Grécia durante a sua estada.

O caso será diferente para as cerca de 2000 pessoas que já pediram asilo e que chegaram ao país depois de 20 de Março, o que, em teoria, os forçará a ser deportados caso se prove que partiram da Turquia — a única possibilidade de um sírio ou iraquiano evitar a extradição é ter viajado para a Grécia de um país que a União Europeia não considere seguro.

Entraram cerca de 6000 pessoas

Acordo para reduzir número de refugiados entrou ofi cialmente em marcha p22 Deportação de imigrantes não trava refugiados

16.2.16

Plataforma dos Refugiados na Grécia para identificar problemas e dar apoio

Teresa Almeida, in RR

Deslocação da organização portuguesa tem três objectivos, entre os quais perceber razões da lentidão do processo de distribuição dos refugiados e procurar vias de apoio.

A Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) decidiu ir até a uma das mais importantes portas de entrada dos migrantes na Europa, para perceber que dificuldades existem no programa de recolocação dos refugiados e “saber em que medida pode haver uma contribuição para que possa funcionar melhor”.

Rui Marques admite, em declarações à Renascença, que são ainda muito poucos os refugiados que já chegaram ao país de destino. “Como sabemos, dos 170 mil que deveriam estar a ser recolocados, só ainda foram 470 e para Portugal só foram 24 pessoas”, esclarece o responsável da PAR.

Outro dos objectivos desta deslocação tem a ver com o apoio como “o que fizemos para o Líbano”. A ideia da Plataforma é constituir para a Grécia uma linha de ajuda “para apoiar muitas ONG que estão aqui no terreno e que podem vir a ter apoio idêntico ao que foi dado ao Líbano”.

Segundo Rui Marques, a Grécia é um dos países da Europa que está há muito sujeito a uma grande pressão por causa da crise dos refugiados, “estando nesta altura em contexto de inverno ainda chegam às ilhas gregas cerca de três a quatro mil refugiados por dia, e isso quer dizer que a Grécia precisa de apoio e que tipo de apoio é o que estamos a avaliar, se financeira, se de voluntariado ou de bens”.

A terceira dimensão desta visita, “também muito importante no contexto político em que vivemos é a manifestação de solidariedades aos gregos, sobretudo a um povo e às suas instituições”. Povo que tem sido chamado segundo Rui Marques “a um esforço enorme e que o tem feito de uma forma muito generosa”.

A viagem à Grécia termina na sexta-feira.