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7.9.23

Barómetro Europeu sobre Pobreza. Em Portugal "trabalha-se e empobrece-se", lamenta a CGTP

Por RTP

O salário de metade dos portugueses empregados não chega para as despesas, segundo o Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade. Em entrevista à RTP, a secretária-geral da CGTP frisou que, no nosso país, "trabalha-se e empobrece-se", o que é "inaceitável".
“Os salários dos trabalhadores no nosso país de facto são salários muito baixos que não dão garantia de dignidade de vida, de poder responder às necessidades que os trabalhadores têm – bem como as pensões, em relação aos reformados e pensionistas”, afirmou Isabel Camarinha.

“No nosso país trabalha-se e empobrece-se. Isto é inaceitável, porque efetivamente nós temos todas as condições para garantir a vida digna a todos”.

A secretária-geral da CGTP lembrou que “tem havido crescimento económico, tem havido crescimento da produtividade, mas isso tudo não tem sido acompanhado pelo aumento dos salários dos trabalhadores”.

“É um facto que os impostos sobre quem trabalha e trabalhou são demasiado elevados. Agora, quando se diz que os impostos em Portugal são demasiado elevados, isto não é verdade. Nós temos uma carga de impostos (…) abaixo da média europeia. A questão é quem é que os paga”, frisou a responsável.

O Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade, divulgado esta quarta-feira, revela que a situação dos trabalhadores europeus é muito preocupante, especialmente em Portugal e na Sérvia.

O estudo realça que ter um emprego não significa necessariamente ser capaz de sobreviver financeiramente, situação que afeta mais de um terço dos trabalhadores europeus.

A situação leva esses trabalhadores a renunciar a certas necessidades, como comer o suficiente, viajar ou aquecer as casas no inverno.

31.8.23

Luísa Lopes: “Falamos das quotas de género; e as quotas de idade?”

Teresa Firmino, in Público online

É neurocientista no Instituto de Medicina Molecular de Lisboa. A neurobiologia do envelhecimento é a área que Luísa Lopes investiga há mais de 20 anos. O café tem sido um dos alvos dos seus estudos.

Sabia que há cinco sítios bem identificados em todo o mundo, em continentes diferentes, onde as pessoas vivem saudáveis mais de 100 anos? Sabia que a solidão faz mal à saúde, em particular à saúde do cérebro? E que a cafeína protege do declínio cognitivo? Não, este não é apenas mais um estudo de nutrição pouco fundamentado: as provas do efeito benéfico da cafeína acumulam-se. Disto tudo e ainda do que cada um de nós pode fazer em prol da saúde, do idadismo (a discriminação pela idade), de quotas para quem é mais velho e até da região de Portugal que mais gosta nos fala Luísa Lopes, neurocientista do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa. “Não temos grande respeito pela idade no nosso país”, lamenta a cientista nascida há 48 anos no Bombarral.

[artigo disponível só para assinantes]

11.8.23

Mercado de trabalho resiste ao abrandamento da economia: desemprego recuou para 6,1% no segundo trimestre

Sónia M. Lourenço, in Expresso

Os dados publicados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística indicam que a taxa de desemprego recuou para o valor mais baixo desde o verão do ano passado, embora tenha ficado acima do registado na mesma altura de 2022. Descida do desemprego foi acompanhada por um aumento do emprego

O mercado de trabalho nacional resistiu ao abrandamento da economia no segundo trimestre deste ano e registou mesmo uma evolução positiva entre abril e junho. Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicados esta quarta-feira, apontam para uma descida da taxa de desemprego e um aumento do emprego.

No segundo trimestre - época do ano onde a sazonalidade joga tradicionalmente a favor do mercado de trabalho em Portugal, nomeadamente por causa das contratações para a época alta no turismo e na agricultura -, a taxa de desemprego recuou para 6,1%, o que compara com 7,2% nos primeiros três meses deste ano.

É o valor mais baixo desde o verão do ano passado, quando estava nos 5,8%, mas ficou acima dos 5,7% registados no segundo trimestre de 2022.

O INE estima que no segundo trimestre deste ano estavam 324,5 mil pessoas desempregadas em Portugal, o que traduz uma diminuição de 14,7% (menos 55,8 mil pessoas) em relação aos primeiros três meses do ano. Já na comparação com o segundo trimestre de 2022, há um aumento de 8,6% (mais 25,7 mil desempregados).

Olhando em particular para os jovens (16 anos aos 24 anos), a taxa de desemprego no segundo trimestre foi estimada em 17,2%, valor inferior em 2,4 pontos percentuais (p.p.) ao do trimestre anterior e superior em 0,5 p.p. ao do trimestre homólogo.
EMPREGO EM ALTA

Ao mesmo tempo, o INE dá conta de um aumento do emprego no país. Segundo a autoridade estatística nacional, a população empregada atingiu 4,9794 milhões de pessoas no segundo trimestre deste ano, ficando muito perto da fasquia dos cinco milhões.

Este número significa um aumento de 1,1% (mais 54,7 mil pessoas) em relação aos primeiros três meses de 2023 e uma subida de 1,6% (mais 77,6 mil pessoas) relativamente ao trimestre homólogo, ou seja, na comparação com o segundo trimestre de 2022.

Destaque ainda para o indicador da subutilização do trabalho, a que os especialistas dão muita atenção, já que nos dá uma medida do desemprego em sentido lato. Isto porque para além de incluir as pessoas classificadas como desempregadas, abrange ainda os inativos disponíveis para trabalhar mas que não procuraram ativamente um posto de trabalho - os chamados ‘desencorajados’ -, os inativos que procuraram emprego mas não estavam disponíveis no imediato para aceitar uma vaga, e os trabalhadores a tempo parcial que gostariam de trabalhar mais horas.

Ora, segundo o INE, a subutilização do trabalho abrangeu 625,3 mil pessoas no segundo trimestre deste ano, o que corresponde a um decréscimo de 8,1% (menos 55,4 mil pessoas) em relação ao trimestre anterior. Já na comparação homóloga, verifica-se um acréscimo de 4,1% (mais 24,6 mil pessoas).

Como resultado, a taxa de subutilização do trabalho, estimada em 11,5%, diminuiu face aos primeiros três meses do ano (menos 1 p.p.), mas aumentou em termos homólogos (mais 0,3 p.p.).

7.7.23

Portugal falha a integrar ciganos no mercado de trabalho

in Sapo.pt

Portugal tem das taxas mais baixas de integração de ciganos no mercado laboral.

Portugal tem, entre os Estados-membros da União Europeia (UE), uma das taxas mais baixas de emprego nos ciganos, de 31%, numa diferença de 45 pontos percentuais face à população em geral, revela um relatório hoje publicado.

Um relatório da Comissão Europeia sobre o Emprego e a Evolução Social na Europa em 2023 revela que “existem fortes diferenças no emprego entre a população em geral e os grupos vulneráveis, como as pessoas com deficiência e os ciganos”, nomeadamente em Portugal.

“Em 2021, as taxas de emprego mais elevadas para os ciganos foram estimadas na Hungria (62%, uma diferença de cerca de 17 pontos percentuais) e em Itália (61%, uma diferença de cerca de dois pontos percentuais), com as taxas mais baixas em Espanha (25%, uma diferença de cerca de 43 pontos percentuais) e Portugal (31%, uma diferença de cerca de 45 pontos percentuais)”, elenca o executivo comunitário no documento.

Ainda no que toca à integração de ciganos no mercado de trabalho, um inquérito da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia divulgado no ano passado indica que a taxa de emprego remunerado das pessoas ciganas com idades compreendidas entre os 20 e os 64 anos é inferior à taxa oficial de emprego da população em geral em países como Portugal, Espanha, Croácia, República Checa, Grécia, Hungria, Itália e Roménia.

Relativamente à integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho em 2022, a diferença de emprego face à população em geral diminuiu 1,7 pontos percentuais em relação a 2021, “mas permaneceu muito elevada, com 21,4%”, segundo o executivo comunitário.

Este relatório da Comissão Europeia revela em termos gerais que, apesar do impacto da invasão russa da Ucrânia que resultou num abrandamento económico no segundo semestre do ano passado, “os mercados de trabalho da UE demonstraram uma resiliência notável em 2022”.

No ano passado, a economia da UE cresceu 3,5% e as taxas de emprego atingiram um máximo histórico de 74,6%, com 213,7 milhões de pessoas empregadas no espaço comunitário esse ano, enquanto as taxas de desemprego alcançaram um mínimo histórico de 6,2%.

No entanto, o relatório dá conta de que persistem desafios com uma baixa representação no mercado de trabalho de certos grupos, como as mulheres ou as pessoas com deficiência.

Mencionada é ainda a situação económica dos agregados familiares, nomeadamente devido aos acentuados aumentos dos preços da energia, tendo-se verificado pobreza energética particularmente elevada na Bulgária (22,5 %), na Grécia (18,7 %), na Lituânia e em Portugal (ambos com 17,5 %).

26.6.23

"As previsões sobre a automatização e a perda de empregos ainda não se concretizaram"

Sandra Afonso, in RR

É o que defende Jan Lucassen, professor emérito da Universidade Livre de Amesterdão e autor de “História do Trabalho”, 600 páginas onde analisa a evolução do trabalho ao longo do tempo, com a perspectiva dos protagonistas. Em conversa com a Renascença, fala do que teve mais impacto no trabalho, mas também do que está a influenciar as alterações atuais: a revolução tecnológica, a crescente desigualdade salarial ou a migração.

Na primeira entrevista em Portugal depois do lançamento de “História do Trabalho – Uma Nova História da Humanidade” (Temas e Debates), o historiador holandês, Jan Lucassen, diz à RR que quis dar voz às pessoas, aos trabalhadores e aos patrões, quis que fossem eles, com as próprias histórias, a explicarem como o trabalho se foi transformando no tempo.

As 600 páginas podem intimidar, mas esta produção que espelha uma vida de ensino e investigação também pode ser lida como uma enciclopédia, por temas, se facilitar o leitor.

Nesta entrevista, Jan Lucassen fala de alguns dos temas que determinaram a evolução do trabalho, desde a evolução dos meios de pagamento à migração, passando pelo trabalho escravo até à valorização do trabalho doméstico e a emancipação das mulheres. Analisa ainda o último capítulo desta história, aquele que estamos todos a escrever, e que passa pela revolução tecnológica e um mergulho profundo na Inteligência Artificial.

Que balanço faz da relação do homem com o trabalho ao longo dos tempos? Há uma evolução positiva?

Durante muito tempo, 99,9% da população tinha de trabalhar, senão morria. Não havia a opção entre férias ou trabalho, ou trabalhavam ou morriam. E para grande parte da população mundial, isso ainda é um fato da vida.

Toda a discussão sobre a importância do trabalho e do tempo livre é um luxo, uma discussão que abrange uma parte muito pequena da população.

Isto não quer dizer que o trabalho tenha de ser doloroso, porque como seres humanos somos criadores e tentamos fazer algo com o trabalho. É um erro concluir que, porque é necessário para quase todos, é forçosamente um castigo.

O trabalho não é apenas para ganhar dinheiro. Desde muito cedo, também foi usado para definir classes sociais e estruturar a sociedade?

Sim, porque também desde os primórdios da humanidade não trabalhamos sozinhos, é uma atividade social. Em casa, por exemplo, há uma divisão de tarefas, mas também em quase todas as situações de trabalho, trabalhamos em grupo.

Começa com os caçadores-coletores, porque percebemos, como uma evidência biológica, que caçar é uma atividade de grupo. Podemos ter tendência a pensar na caça como um ato solitário de um grande caçador que mata um búfalo ou outro animal, mas se o pode matar é porque foi perseguido por um grupo muito grande de pessoas em determinada direção. Então a caça passa a ser uma atividade de grupo.

Há um aspeto social muito importante no trabalho, e acho que você mencionou a "relação de trabalho", que tendemos a ver como uma relação vertical. Há o patrão e o trabalhador e quando o primeiro explora o segundo o segundo tenta escapar, opor-se ou atacar. Isso é uma parte importante do trabalho assalariado.

Igualmente importante, é a relação entre os trabalhadores, que pode incluir gentileza, maldade, excluídos, etc.

Mas, em termos económicos, o trabalhador surge como uma unidade, isolado?

Na história económica, tendemos a pensar demais nos trabalhadores como indivíduos. Temos o trabalho real per capita, o salário real per capita, e outras expressões desse tipo.

Tendemos a pensar de forma muito individualista sobre o homem ou a mulher trabalhadora. Acho que a história do trabalho é muito mais rica.

Podemos dizer que as mudanças no trabalho ao longo dos séculos ocorreram muito lentamente?

A maioria dos desenvolvimentos na história ocorre lentamente.

A valorização do trabalho doméstico e a ocupação de cargos de poder por mulheres são exemplo disso?

Eu tento enfatizar muito no meu livro, que devemos pensar no trabalho independentemente de ser pago ou não. Criar filhos ou preparar uma refeição em casa, é tanto trabalho quanto o que é feito numa fábrica, por um salário.

Pode-se argumentar que a maior parte deste trabalho doméstico foi gratuito ao longo da história, não foi pago em dinheiro, como se faz agora. Eu uso uma definição muito abrangente de trabalho, independentemente de ser pago ou não, pago em dinheiro ou não - é tudo trabalho.

É por isso que a primeira imagem do meu livro é de uma dona de casa em Amsterdão a dar banho a crianças na rua, só para mostrar que o trabalho central é tratar da comida, das crianças, etc.

Esse tipo de trabalho, trabalho doméstico, é hoje muito mais valorizado.

Espero que sim. Pelo menos há uma tendência para apreciá-lo e, é claro, isso está relacionado com a emancipação da mulher. O que, automaticamente, chama mais a atenção para o trabalho não remunerado que muitas mulheres fizeram na história e ainda fazem. Os homens também o podem fazer.

Mas esta é apenas parte da história.

O que tem mais impacto no desenvolvimento do trabalho: a evolução natural ou fatores externos?

É uma questão quase filosófica! No meu livro vê que a maioria dos desenvolvimentos ocorre lentamente, o que pode ser interpretado como uma evolução natural.

A Revolução Russa, onde em alguns anos é decidido que o trabalho autónomo de sapateiros, açougueiros e afins, acaba e todos os trabalhadores pagos passam a assalariados, uma transformação assim tão drástica, num curto espaço de tempo, é muito raro.

Outro exemplo é o trabalho escravo dos inimigos dos nazis, na Segunda Guerra Mundial: de repente há uma lei que proíbe, por exemplo aos judeus, a ocupação de determinados trabalhos e envia as pessoas para campos de trabalho forçado.

Vemos acontecer o mesmo na China de Mao e, talvez, no século XX, onde há muitos estados poderosos com capacidade de introduzirem grandes mudanças num período muito curto.

Que mudanças marcaram o rumo da história?

Uma das mudanças mais importantes foi a introdução da economia de mercado e da economia monetária.

Significa a invenção dos pequenos trocos, em que os trabalhadores são pagos e podem ir ao mercado comprar algo com esse dinheiro. É um dos maiores desenvolvimentos da história, mais ou menos na mesma época, digamos 500 anos A.C., na China, no norte da Índia e no sudeste da Europa, no mundo grego. Mas também isto levou várias gerações, aconteceu durante algumas centenas de anos.

Se recuarmos ainda mais, encontramos a revolução neolítica da revolução agrícola. A mudança de caçadores-coletores para agricultores, um processo muito lento que leva milhares de anos.

Neste livro fala ainda da relação entre migração e trabalho. Hoje, uma das razões pelas quais os países facilitam a entrada de migrantes é a necessidade de mão de obra.

Atualmente, especialmente nos países da Europa Ocidental, devido ao envelhecimento da população e ao alastrar dos cabelos grisalhos, como eu, assistimos a mudanças na população: uma parte crescente da população é mais velha e uma parte menor é mais jovem.

Isso significa que aqui, na Europa Ocidental, mas ainda mais no Japão e na Coreia do Sul, e também vai acontecer agora na China, há uma procura crescente por pessoas de fora.

No século XIX isso significou um aumento da imigração, foi assim na América, mas também na Manchúria, na Índia e em todo o tipo de países.

A Europa era um continente parcialmente ascendente para a América e claro para a Austrália, Nova Zelândia, Canadá, etc. Mas a Europa também recebia, em particular se considerarmos a urbanização, e o século XIX é o século do crescimento das grandes cidades, o que implica muitos imigrantes, porque as cidades não crescem por crescimento natural, especialmente no século XIX. Qualquer crescimento das cidades significa imigração líquida.

A necessidade mantém-se, mas a imigração enfrenta hoje novos obstáculos.

O que temos agora é uma nova situação, em que há uma grande procura por trabalhadores, mas por razões políticas muitos países têm muito medo de permitir a imigração livre.

O Japão é um excelente exemplo, eles tentam evitar qualquer tipo de imigração. Mas também há o Golfo. O campeonato mundial de futebol do Catar foi preparado por milhares de trabalhadores do Bangladesh e das Filipinas, em trabalho quase forçado e condições muito duras. Mas a parte principal da história é que estes trabalhadores nunca serão cidadãos desses estados do Golfo, que têm uma ideia muito limitada sobre cidadania.

Na Europa Ocidental temos agora a "fortaleza Europa", com pessoas a afogarem-se no Mediterrâneo e nos mares da Europa.

Estas questões estão a ser resolvidas, parcialmente pela contenção da urbanização, parcialmente pelo mercado livre e pelo mercado laboral. Na Holanda há procura para a construção, na Bulgária participam em campanhas agrícolas, o mesmo acontece aqui em Portugal. Recentemente, a França introduziu legislação que permite trabalhadores agrícolas, sazonais, do norte da África, especialmente Marrocos, por um determinado número de meses, mas depois têm de regressar ao país de origem.

O trabalho pode ser usado para apoiar os mais desfavorecidos, mas acaba muitas vezes por acentuar as desigualdades. Porquê?

As desigualdades já existiam antes da economia de mercado, devo enfatizar.

Podem ser ampliadas? Onde os Estados permitem que os empregadores explorem trabalhadores, onde os Estados impedem os trabalhadores de se organizarem. A questão principal é saber quais são as regras do jogo?

Que tipo de exploração o Estado permite? Acabámos de falar do Golfo, onde a exploração é legalmente permitida. Na Europa Ocidental esteve em discussão se os trabalhadores se podiam organizar, porque podiam formar monopólios de trabalho e exigir aumentos salariais - foi o que os movimentos socialistas conseguiram.

Esta é uma parte importante da história moderna da Europa, o direito de organização não existia antes, em França só a partir da década de 1870 é que os sindicatos foram autorizados como tal. E depois temos a autorização de greves dos trabalhadores.

São todas estas condições que determinam atualmente o poder de empregadores e assalariados, onde a economia de mercado é a forma dominante de organização da sociedade, dependendo dos países, obviamente.

Esta economia de mercado também agrava as injustiças, quando não garante o mesmo pagamento, pelo mesmo trabalho, para todos.

Bem... Temos o caso dos agricultores europeus, eles também se organizaram e conseguiram apoios substanciais da União Europeia, esta é outra forma de aumentar a remuneração ou evitar que diminua. Não digo que está tudo bem, apenas descrevo o mecanismo.

No trabalho não remunerado, surge a questão das mulheres, da sua posição, do seu valor. Até há debates sobre se o trabalho doméstico deve ser pago ou, talvez menos radical, se cuidar de crianças deve ser pago pelos estados, para permitir que as mulheres com filhos pequenos trabalhem fora de casa.

Hoje as economias de mercado são dominantes, mas nem sempre foi assim, e a remuneração já acentuava ou determinava desigualdades. Na Mesopotâmia, por exemplo, foi através da escravidão, permitida e protegida pelo estado.

Hoje temos trabalhadores na pobreza, apesar de terem salário. O emprego não garante uma casa para morar ou o pagamento das contas básicas. A culpa é do capitalismo?

É o terrível problema dos trabalhadores pobres. Há dois tipos: as pessoas indocumentadas, que não têm nenhuma proteção da lei, e os trabalhadores pobres, que são legalmente mal pagos.

Sobre se a culpa é do capitalismo... Eu tenho reservas sobre a palavra capitalismo e capitalista, mas podemos usar um termo mais neutro, como empregador.

Se um empregador paga menos aos trabalhadores, significa que fica com grande parte dos lucros e isso é injusto. Mas é o Estado que permite que isto aconteça ou somos nós, cidadãos, que o permitimos? Todos enchemos a boca para falar de bem-estar, felicidade e afins, está nas Nações Unidas e temos imensas declarações, mas na realidade permitimos que isto aconteça.

Como podemos garantir a aplicação destas declarações?

Uma das soluções passa pela revisão completa do sistema, que foi tentada na União Soviética e em vários outros países socialistas, e que até agora se revelou um fracasso.

Ficamos, então, com este sistema único. Penso que é uma questão política, mas que não deve apenas ser resolvida por políticos, porque isso é muito fácil. Assim esquecemos todas as conquistas do estado social, porque felizmente a maioria dos assalariados são pagos razoavelmente. No entanto, uma parte crescente da população não é.

A consciência de que o estado social é algo pelo qual se tem de lutar, desapareceu de certa forma na sociedade de consumo. Acho que temos de voltar atrás. Claro que muitos também acham que tudo o que conquistámos tem de ser defendido, mas isso não é natural.

Há quem defenda um rendimento universal. Concorda?

Sou muito compreensivo, até determinado ponto. Pode-se dizer, em geral, que se as pessoas fazem o seu melhor, então merecem uma renda decente.

Ao mesmo tempo, também estou hesitante, porque assim que se concordar sobre uma renda universal, a questão passa a ser: quem vai organizar?

Agora, quem trabalha por conta de outrem, depende do patrão. Se não gosta dele, muda. Pode ainda organizar uma greve ou um sindicato e negociar com o patrão. Quem organiza uma renda universal? Está, inevitavelmente, nas mãos do Estado e não há outras opções.

Tivemos um escândalo aqui na Holanda, com as subvenções para os pobres, porque alguns burocratas abusaram do poder e estas pessoas não tinham como contestar. Lutar contra o estado é muito diferente de lutar contra o patronato.

Sou a favor de uma renda universal, como conceito, mas tenho muitas reservas sobre a forma de a organizar, de modo a garantir que as pessoas que se sintam tratadas injustamente possam contestar o sistema.

A discussão sobre o trabalho hoje centra-se na redução das horas de trabalho com o aumento da produtividade; as empresas preferem ainda trabalhadores jovens, que recebem menos e dominam melhor as novas tecnologias. A história repete-se?

Empresas ou empregadores, especialmente em grandes organizações, estão sempre a promover a iniciativa dos trabalhadores, porque ganham com essa criatividade. Também há argumentos históricos de que, um forte grau de autonomia, é bom para a produtividade.

É claro que está a falar da rápida mudança tecnológica e podemos converter tudo isto num argumento económico. Acho que a questão da autonomia ainda é muito válida e também, a experiência dos trabalhadores e também dos trabalhadores maduros.

Mas caminhamos para uma nova vaga de desemprego, como muito temem?

Até agora, todas as previsões sobre a automatização e robotização, ou o que lhe quiser chamar, e a perda automática de empregos, provaram estar erradas.

Obviamente, determinados empregos vão desaparecer. Quem cosia à mão vai acabar substituído por uma máquina de costura industrial. Mas, ao mesmo tempo, muitos empregos novos serão criados.

Talvez o resulto líquido seja a perda de empregos. Mas essas previsões ainda não se concretizaram.

A revolução tecnológica já começou, mas não diminuiu ainda a necessidade de mão-de-obra na Europa Ocidental. Porquê?

É muito estranho porque, enquanto uma das zonas do mundo tecnologicamente mais desenvolvidas, devíamos ter desemprego, em resultado da automatização. Mas não temos. Pelo contrário, a procura por trabalho é grande. Porquê? Porque, ao mesmo tempo, criámos muitos empregos.

A inovação tecnológica, que é cada vez mais rápida, também aumenta a necessidade de pessoas que ensinem as novas técnicas e novas maneiras de trabalhar.

Além do crescimento da formação e ensino, está também a aumentar o bem-estar, parte significativa da população trabalhadora está no sistema de saúde, muito acima do que acontecia há três gerações atrás. Por outro lado, a cadeia de abastecimento é hoje muito maior, o que significa mais intermediários, resultado da globalização e da especialização. Outra consequência é o aumento de controladores e de quem os controla.

Tudo isto faz parte da complicação do nosso processo económico, que ao mesmo tempo gera muitos empregos.

Sou historiador, não faço previsões, mas o que vemos hoje na Europa Ocidental, mas também na América do Norte, são casais com filhos, em que ambos passam mais horas a trabalhar do que os pais e os avós.

A Inteligência Artificial será a porta de entrada para a próxima revolução no trabalho?

Eu espero mudanças, claro. Mas também antecipo efeitos dos quais ainda não temos ideia. Especialmente, a necessidade de controlar o que são todos estes produtos da inteligência artificial. De onde vêm? Quem programou todo o software, etc.

Acho que vai envolver outro tipo de trabalho, que dificilmente encontramos hoje. Se eu achar que algo está errado no seu texto, posso falar consigo ou com o seu chefe, mas se esta entrevista for entregue ao Chat GTP e eu encontrar vários disparates, com quem falo?

Como conjugar envelhecimento ativo e trabalho?

in Expresso

As declarações dos protagonistas de nova webtalk do projeto do Expresso dedicado à Longevidade

“Vamos ver pessoas a permanecer nas empresas durante muito tempo porque precisam desse emprego”, admite Anabela Vaz Ribeiro, diretora executiva da United Nations Global Compact Network Portugal

Para João Castello Branco, presidente da associação dNovo, “todos nós conhecemos pessoas que a partir do momento em que deixaram de trabalhar, definharam”

“Aquilo que temos hoje são medidas [fiscais] duplamente limitadas” para ajudar as empresas a terem um papel ativo no envelhecimento ativo, considera o economista e consultor Luís Pereira da Silva

23.6.23

Número de desempregados inscritos nos centros de emprego cai 3,6% em maio

DN/Lusa

Em maio, o número de jovens desempregados inscritos nos centros de emprego também teve uma diminuição face ao mês anterior, recuou 5,8% (-1.861 pessoas).

O número de desempregados inscritos nos centros de emprego caiu 3,6% em maio em termos homólogos, para 285.855, "o valor mais baixo de sempre" nesse mês e 3,2% abaixo de abril, anunciou esta terça-feira o Governo.

Segundo um comunicado do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, "em maio estavam inscritas 285.855 pessoas no IEFP [Instituto do Emprego e Formação Profissional], o que representa uma diminuição de 3,2% (-9.567 pessoas) relativamente ao mês anterior e -3,6% (-10.539 pessoas) comparativamente ao nível observado em maio de 2022".

Já o número de jovens desempregados inscritos recuou 5,8% (-1.861 pessoas) face ao mês anterior, "atingindo o segundo valor mais baixo de sempre no mês de maio", mas ficou 1,2% acima (+359 pessoas) de maio de 2022.

Quanto ao desemprego de longa duração (116.729 pessoas), apresentou uma quebra em cadeia de 2,5% (-2.871 pessoas) e recuou 21,8% face a maio de 2022 (-31.784 pessoas).

Catarina terminou o estágio e recusou um emprego. Ainda não estava na hora: viajou pela Europa e focou-se em terminar o mestrado

Cátia Barros, in Expresso

Os jovens têm de aceitar um emprego porque essa será a única oportunidade que vão ter? Catarina Almeida viveu esse dilema no fim do seu estágio curricular e não deixou de lado o medo de “ser ingrata ou arrogante por não aceitar uma proposta de trabalho”, mas optou por recusar e se dedicar com foco aos últimos meses enquanto estudante

Catarina Almeida passou os últimos anos, enquanto estudante de psicologia, a ouvir que “é muito difícil arranjar trabalho na área”. Ainda assim, depois de um estágio “numa grande empresa nacional”, recusou aceitar uma proposta de trabalho que lhe foi feita para ali “realizar funções relativamente diferentes”.

“Não aceitei porque senti que não era a minha hora”, explica a estudante de 22 anos, que optou antes por conciliar a escrita de uma dissertação de mestrado e de um relatório de estágio, a participação em ações de voluntariado, a criação de conteúdo para as redes sociais e ainda tirar um curso de Inglês. Aquando da proposta, recusou, pegou nas malas e aventurou-se durante duas semanas num interrail.

MEDO DO DESEMPREGO LEVA JOVENS A QUEREREM “DESTACAR-SE DESDE O PRIMEIRO ANO”

Catarina Almeida entrou na universidade no ano letivo de 2018/19 e desde então que cresceu a ouvir que não ia ter emprego. “Sempre que digo a alguém que sou estudante de psicologia as pessoas respondem, com uma cara preocupada, que é muito difícil arranjar trabalho na área e que muitas pessoas acabam no desemprego ou a realizar funções em setores diferentes”, conta.

Esta “pressão gigantesca”, que diz ter sentido ao longo do seu curso, levou-a a tentar destacar-se. “Comecei a internalizar o discurso e senti uma pressão gigantesca para me destacar no mercado de trabalho desde o meu primeiro ano de curso”. Para tal, envolveu-se em diversas atividades extra curso, tendo chegado a estar, durante a pandemia, em cinco projetos diferentes. Admite que em alguns momentos foi difícil participar em todos. “Conciliar todas as minhas responsabilidades extracurriculares quase me levou a um estado de exaustão psicológica, porque os meus minutos do dia eram meticulosamente calculados”

Contudo, Catarina acredita não ser caso único. “Não deixa de ser curioso refletir sobre esta necessidade de me envolver em várias atividades fora do curso até porque já pude perceber um padrão semelhante noutros estudantes”, conta.

Entre a ambição de ser a “aluna perfeita” e sentir que a “cabeça não funcionava”: Lia teve um esgotamento aos 16 anos

Enquanto aluna do Mestrado em Psicologia das Organizações, Social e do Trabalho, Catarina Almeida teve a oportunidade de estagiar numa “grande empresa nacional” e que “é reconhecida em todo o país como uma escola”. Ao fim de seis meses, recebeu uma proposta para ficar na empresa, mas recusou. “Comecei a ponderar os prós e contras, de uma forma muito racional. Sei que sou privilegiada e não preciso trabalhar para ajudar os meus pais a pagar as contas, portanto pude considerar a opção de não aceitar a proposta”, explica Catarina.

Ao longo dos seis meses de estágio, Catarina continuou a escrever a sua dissertação de mestrado – jornada que ia partilhando nas redes sociais com outros estudantes. No entanto, a aluna admite que “os avanços na tese não foram significativos porque era extremamente difícil chegar a casa depois de oito horas de trabalho e pegar na tese”.

“Não me foi possível gerir o desenvolvimento da tese, realização do estágio e dinamização das redes sociais sem sentir, em diversos momentos, que estava a falhar, não em uma, mas em todas as áreas”.

Catarina admite que esta “primeira experiência” no mercado de trabalho “foi bastante desafiante”, por isso, sentiu que “precisava de recuperar energias depois dos seis meses intensivos”, para depois se dedicar novamente à dissertação. “Decidi fazer uma pausa e fazer um interrail porque acredito genuinamente que, por vezes, precisamos de parar para conseguirmos recarregar as energias e avançarmos novamente”, conta.

Catarina Almeida durante a sua viagem pela Europa

Esta não é, no entanto, a única opção para quem quer fazer uma pausa. Raquel Novais, da Associação Gap Year Portugal, realça que os jovens podem realizar “experiências fora da caixa”, isto é, “experiências que coloquem os indivíduos fora da sua zona de conforto e em situações que, dificilmente, estes poderiam vivenciar no seu dia a dia e, consequentemente, contribuem em grande escala, para o seu crescimento e desenvolvimento pessoal”. Entre essas experiências, Raquel destaca as viagens, os programas de estágio, a experiência e trabalho de voluntariado, a experiência de trabalho, a Integração em projetos de Erasmus+ e a aprendizagem ou melhoraria uma capacidade.

Catarina quase consegue fazer check na lista completa. A viagem pela Europa deixou-a “mais empoderada” e com mais “confiança”. “Passei duas semanas a conhecer várias cidades que já tinha interesse na Europa e como planeei e fiz a minha viagem praticamente sozinha percebi que era capaz de muito mais do que aquilo que imaginava”, refere.

Raquel explica que “estas experiências podem integrar o gap year, mas podem ser igualmente realizadas isoladamente e integradas no dia a dia destes indivíduos/as como trabalhadores e/ou estudantes”.

TRABALHO

Portugal: o país onde uma licenciatura vale cada vez menos, falta talento qualificado e a classe que o forma é a mais envelhecida da Europa


“SENTIA QUE ESTAVA A DESILUDIR ALGUMAS PESSOAS”

Apesar de tudo, Catarina não teve uma decisão fácil. “Alguns familiares fizeram questão de me dizer que estava a perder uma excelente oportunidade”, conta. “Sentia que estava a desiludir algumas pessoas importantes para mim, ao mesmo tempo que sentia que estava a ser ingrata ou arrogante por não aceitar uma proposta de trabalho num contexto instável como é aquele em que nos encontramos quando estamos perto de terminar o curso”.

Mas as redes sociais podem ser um fator importante para que um like se transforme na ‘síndrome do impostor’. “É muito fácil sentirmos que estamos a ficar para trás. Estamos expostos a variadíssimos relatos de pessoas com percursos profissionais de sucesso e acabamos por nos comparar com realidades que desconhecemos quase na sua totalidade”, diz a aluna, falando de uma comparação que “acontece à escala mundial”.

“Fala-se muito das questões associadas à beleza nas redes sociais, o quanto as fotos são manipuladas para se enquadrarem no padrão e quantos aspetos são omitidos para relatar a vida perfeita. Mas não acontece exatamente o mesmo no que diz respeito aos percursos profissionais e modos de vida?”, questiona Catarina. “Não podemos comparar-nos com a ponta do iceberg – o que a pessoa mostra nas redes sociais – e ignorar tudo o que não é partilhado”, acrescenta.

“Os 1001 casos de sucesso são simples fontes de angústia”: cinco histórias de jovens que procuraram outro equilíbrio entre vida e trabalho

A estudante considera que a sua geração, por consequência das redes sociais, ambiciona, “na sua grande maioria, um trabalho nómada e uma liberdade financeira numa idade ridiculamente prematura”.

“Eu tenho mais de 40 anos de trabalho à minha frente, como estudante só tenho mais uns meses. Será que recusar uma proposta de trabalho depois do estágio curricular vai ter um impacto assim tão negativo no meu percurso quando olhamos para a quantidade de anos que ainda tenho pela frente? Quando somos jovens temos a tendência de achar que tudo aquilo que decidimos neste exato momento vai impactar toda a nossa vida”. Mas Catarina, em resposta a si mesma, assegura que há mais que uma oportunidade na vida. “Como se fosse impossível escolher trocar de profissão a meio da vida”.

17.4.23

Lurdes “não encontrava trabalho por ser cigana”. Em Agosto, hotel voltou a chamá-la

António Pedro Pereira(texto) e Paulo Pimenta (fotografia), in Público online

As “negas” sucessivas – por causa da sua etnia, garante – acabaram quando o hotel onde tinha trabalhado lhe reabriu as portas. Saíra em 2018 para cuidar de um bebé abandonado que acolheu como filho.

Lurdes Dias diz que é “toda Guimarães”, desde o amor pela cidade ao clube de futebol mais representativo do concelho, o Vitória Sport Clube. E desata às gargalhadas quando confessa que nasceu na cidade rival, Braga. Esse “acidente” biográfico aconteceu em Janeiro de 1970, quando a mãe tinha ido visitar um familiar e já só saiu da capital do Minho com uma menina nos braços.

É muito assim, franca, directa e bem-disposta, esta mãe de quatro filhos, dois biológicos e dois “do coração” (adoptados), que esteve mais de dois anos em busca de trabalho e a levar “negas” sucessivas até voltar aonde já se tinha sido dado bem. Após a recuperação do sector hoteleiro da fase aguda provocada pela pandemia de covid-19, voltou a ser chamada, em Agosto passado, pelo hotel onde já tinha trabalhado como camareira entre 2014 e 2018.

Lurdes, de 53 anos, esteve enquadrada no conceito de desempregada de longa duração – para o Estado, desempregados de longa duração são as pessoas que se encontrem inscritas no Instituto do Emprego e Formação Profissional há 12 meses ou mais. Aliás, a vimaranense até poderia ser incluída noutra denominação mais recente: desempregados de muito longa duração, que engloba os desempregados com idade igual ou superior a 45 anos, e inscritos no centro de emprego há 25 meses ou mais.

No seu caso, foi importante o apoio do projecto Estação Guimarães Norte, uma iniciativa de intervenção social com o objectivo de capacitar e apoiar os grupos sociais mais vulneráveis no acesso e na integração no mercado de trabalho. Este projecto corre dentro da Fraterna – Centro Comunitário de Solidariedade e Integração Social, sediada na cidade berço.

“Não encontrava trabalho por ser cigana”, dispara Lurdes Dias, casada, com o companheiro de há 30 anos, desde o dia 1 de Junho de 2018. “A família do meu homem não é cigana e sempre me tratou muito bem”, acrescenta. A questão da etnia tem sido um obstáculo, às vezes intransponível, na vida de Lurdes. A família dela não aceitou muito bem, mas, “passado um ano” de alguma resistência, já estava de volta ao convívio com os pais e irmãos. “O meu homem não convive tanto com a minha família, mas em festas ou outras ocasiões [importantes] está sempre presente, como quando algum familiar está no hospital, ou assim”, comenta.

A questão do hospital veio forçosamente das marcas ainda muito fortes da perda recente da mãe, que morreu há dois meses. “O meu homem aceita muito bem os meus rituais e eu os dele. Sou evangélica cristã, ele é católico, mas não se importa que eu faça o luto [mais prolongado]. Para nós, pode ir até um ano. Eu entendo que devo respeitar as crenças dele e que devo fazer o luto pela minha mãe até Agosto, quando fizer seis meses que morreu. Disse-lhe que, se ele quisesse, podíamos abrir a porta ao compasso na Páscoa, mas não quis. Acho que já não liga muito à religião”, explica-se.

“Uma pessoa como as outras”

A questão familiar foi o primeiro de muitos grandes obstáculos sociais que Lurdes teve de ultrapassar durante a vida, desde assuntos mais pessoais até ao tratamento que lhe tem sido reservado pela sociedade, em geral. Ser cigana, diz, não é um cartaz: “Sou uma pessoa como as outras.”

A trabalhar novamente no hotel do centro histórico de Guimarães do qual saiu em 2018, para ser mãe pela quarta vez, esta vimaranense desfia um rol de situações em que se sentiu discriminada no acesso ao mercado de trabalho devido à sua etnia.

“Antes do hotel, tinha tirado um curso de Auxiliar de Acção Educativa e arranjei trabalho numa creche, mas as mães diziam-me que as crianças tinham medo de mim, por ser cigana. Mas as crianças não sabiam que eu era cigana, eram as mães que lhes diziam”, comenta. “As crianças adoravam-me e eu a elas, e tínhamos uma relação excelente”, junta.

“Estive lá quatro meses, mas depois tinha de andar escondida [das mães] e isso para mim não dava. Vim-me embora”, atalha, decidida.

A unidade hoteleira abriu-lhe as portas do trabalho duas vezes, a primeira em 2014. “Estavam a contratar camareiras. Fui lá, gostaram muito do meu trabalho e fiquei efectiva”, conta Lurdes.

Quatro anos depois, nasceu Adolfo Júnior, numa família vizinha de Lurdes com remotas ligações familiares. “Elas [mãe e avó] esqueceram-se do menino. Eu não o podia deixar na rua e aos dois meses foi viver comigo. Tive de deixar o hotel para tomar conta dele”, recorda.

“Ele” é “o Júnior”, hoje com quatro anos e filho mais novo de Lurdes e do marido, que conceberam biologicamente “uma rapariga de 28 anos e um rapaz de 23” e há uns anos já tinham adoptado o Samuel, agora com 15, e que tem problemas emocionais e psicológicos que parecem estar a ser finalmente bem diagnosticados.

“Uns médicos diziam que é hiperactivo, outros desconfiaram que era bipolar. Há pouco tempo, uma médica suspeitou que fosse depressão”, desabafa. Esta clínica mudou a medicação, que Samuel toma desde os seis anos, e “finalmente parece estar a dar certo”. “Anda muito melhor”, comenta.

De diagnóstico em diagnóstico, Samuel tem sido o grande desafio parental de Lurdes e do marido: tem causado uma série de problemas na escola e o cúmulo dessas situações em que “é agressivo”, como diz a mãe, colocou-o perante a justiça. “Ele vai para os tribunais e o procurador perguntou se queria desistir dele. Disse que nunca desistiria dele, ele é que tem de desistir de mim. Mas eu vou ganhar esta batalha”, garante.

Ser um exemplo “para os meninos”

A coragem que Lurdes demonstra nesta “batalha” tem sido um dos combustíveis que a fazem avançar na vida. Quando “o Juninho” entrou na sua vida, em 2018, tinha um trabalho certo no qual era apreciada profissionalmente. Fazia parte da equipa de camareiras do hotel, sentia-se realizada e estava feliz.

“Eu e o meu homem estávamos juntos havia 25 anos e casámos a 1 de Junho de 2018, no Dia Mundial da Criança. Os meus filhos mais velhos foram os nossos padrinhos de casamento. Foi tão romântico, foi tão bonito”, diz, entre a emoção genuína e o toque defensivo da ironia, por causa das diferenças de etnia, ela cigana, ele não. “No início, os outros olhavam admirados para nós. Mas o fruto proibido é sempre o mais apetecido, não é?”

Nesse ano, teve de deixar o trabalho para cuidar do filho mais novo. “Não conseguia arranjar infantário para o Juninho, mas depois lá consegui. Comecei a procurar trabalho, mas quando respondia a um anúncio, nunca era aceite”, recupera Lurdes. “Ia a um café que tinha um papel a dizer ‘precisa-se de empregada’ e diziam-me que já não precisavam, mas depois o papel continuava lá”, aponta.

Não era propriamente uma novidade para Lurdes, que desde cedo teve de conviver com o estigma de ser diferente dos outros. “Ligava para responder a anúncios e diziam-me para lá ir [às entrevistas]. Quando lá chegava, viam que era cigana e recusavam-me”, insiste. Estas recusas foram ocorrendo na procura de emprego em vários sectores, de empregada de limpeza a vagas na restauração e na indústria, área em que chegou a trabalhar há muitos anos.

“Há muito tempo, trabalhei numa grande fábrica de calçado. Um dia, faltou um aquecedor e eu fui a única chamada. Depois, o aquecedor apareceu num gabinete, mas eu vim-me embora. Fui eu que quis...”, exemplifica, sem perder tempo.

Entretanto, nunca se manteve imóvel. Além das responsabilidades parentais, foi-se qualificando com cursos de formação. Tirou um de Auxiliar Educativa, outro de Florista e um outro de Assistente de Geriatria.

Movia-se entre “negas” de vagas que, garante, só lhe eram vedadas por ser cigana e caminhos que descobria para se valorizar e encontrar o tão almejado trabalho. Andou nestes ziguezagues até ao Verão do ano passado.

“Sempre disse no hotel que, quando precisassem de mim, eu voltava. Mas quando veio a pandemia, ficaram apenas duas pessoas como camareiras. Entretanto, agora as coisas endireitaram e chamaram-me”, relata. Não se ficou por aí: “Estava a fazer o 9.º ano e, como ainda faltava cerca de um mês, acabei por fazer o resto do curso, os exames, online.”

Voltou a fazer limpezas e a arranjar quartos a 1 de Agosto de 2022, de volta à unidade com cerca de 100 quartos no centro histórico de Guimarães. “Éramos seis ciganas na equipa, mas uma saiu porque vai abrir um café e a outra foi embora porque era muito lenta”, regista, sublinhando que naquele lugar foi tratada como queria ser tratada nos outros onde lhe fecharam as portas. Como outra cidadã qualquer. E num sector em que as cargas horárias são particularmente pesadas, sem grandes descansos: horários de entrada definidos, jornadas de nove horas com uma hora para almoço, folgas alternadas e rotativas, um fim-de-semana de seis em seis semanas. Este é, aproximadamente, o caso das rotinas laborais de Lurdes.

Foto “Compensava-me mais ficar em casa do que ir trabalhar”, confessa Lurdes, fazendo contas à subida da renda de casa, em habitação social. “Gosto de trabalhar”, conta, “é importante para mim”. Paulo Pimenta
“Nós, ciganos, somos de trabalho como todos os outros”

Ainda a etnia, e um recado espontâneo — “Nós, ciganos, somos de trabalho como todos os outros” — num tom seco, indignado, acabando por virar a página rapidamente, em direcção às soluções práticas da vida do dia-a-dia, contornando uma das cavalgadas políticas na ordem do dia sobre a dignidade dos portugueses ciganos – a comunidade que, ainda há pouco, se insurgiu contra o Governo num manifesto assinado por um conjunto de associações ciganas sobre a forma de integração social e política adoptada pelo executivo.

No entanto, para Lurdes Dias, é já óbvio, neste ponto da vida, que os obstáculos não se desviam sozinhos. É preciso identificá-los, combatê-los, ultrapassá-los. Cada um por si, individual e colectivamente.

“Olhe, até lhe digo uma coisa: compensava-me mais ficar em casa do que ir trabalhar. Se calhar, até perdemos dinheiro. Mas o meu marido apoia-me, porque sabe que eu preciso de trabalhar”, começa por disparar. E vai explicando: “Nós vivemos numa habitação social e por causa do trabalho [do rendimento que passou a auferir] a nossa renda, que era de 80 euros, passou para mais de 300 euros mensais.”

“Eu gosto de trabalhar, gosto do que faço e do meu trabalho, é importante para mim”, continua Lurdes. E acaba a levantar valores que não costumam ter um valor facial no mercado de trabalho. “Apesar de tudo, trabalhar é importante. E eu não quero dar um mau exemplo aos meninos”, conclui a camareira de 53 anos, mãe de quatro “meninos”: dois maiores de idade e dois menores, os principais visados nesta declaração de princípios e modelos a seguir.

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

10.1.23

GRANDE REPORTAGEM: VIDAS DE TRABALHO SEM SAÍREM DA MISÉRIA

Joana Loureiro, Sónia Calheiros, in Visão

Ter emprego não é sinónimo de uma vida digna e refeita. Em Portugal, 500 mil trabalhadores vivem abaixo da linha da pobreza. Os restantes 1,8 milhões de pobres são pensionistas, crianças, inválidos, desempregados, excluídos… Mas as histórias que aqui lhe contamos são de quem, mesmo empregado, não consegue sair do patamar mais baixo da sobrevivência. Como se resolve este problema?

O que vale a António Grega e à sua mulher, Cátia, é serem organizados e saberem as prioridades. “Não fazemos futilidades, como ir ao McDonald’s”, exemplifica o operário. Só quando um dos sete filhos faz anos vai com os pais deliciar-se com a gulosa fast food. Os outros irmãos também hão de ir, mas à vez, cada um no dia do seu aniversário.

A morar num prédio de sete andares, o T3, que para quatro seria razoável, para nove é acanhado. À entrada, uma dezena de pares de sapatos todos alinhados na sapateira – não há margem para desarrumação. Num dos quartos dormem as quatro meninas; no do lado, os três irmãos. Há afeto em cada moldura com fotografias de momentos especiais.


[artigo na integra disponível só para assinantes]

Quase um quarto dos alunos abandona cursos superiores profissionais

Samuel Silva, in Público online

Falhas na orientação vocacional e atracção do mercado de trabalho ajudam a explicar fenómeno. “Via verde” para diplomados do ensino profissional continua com pouca procura.

Quase um quarto dos alunos inscritos em cursos técnicos superiores profissionais (Ctesp) abandonaram os estudos antes de concluírem estas formações, que duram dois anos e são oferecidas em exclusivo no sector politécnico. Os responsáveis das instituições e os estudantes concordam que há falhas na orientação vocacional e alguns alunos acabam em cursos de que não gostam. O mercado de trabalho é, para muitos, mais atraente do que a formação no curto prazo.

Os dados mais recentes dizem respeito ao ano lectivo 2020/21 e foram divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) no mês passado. Em 2020/21, 24% dos estudantes inscritos pela primeira vez no primeiro ano dos Ctesp já não se encontrava no ensino superior no ano seguinte. Este é o indicador oficial mais fiável e que tem sido usado para medir o abandono escolar no ensino superior. No mesmo ano, a taxa de abandono nas licenciaturas fixou-se nos 11%.

Os números da DGEEC revelam que houve um aumento do abandono nos dois anos lectivos atingidos pela covid-19: a taxa foi de 19% em 2019/20, ao passo que, nos dois anos anteriores, ficou em 17%. “Não se pode deixar de considerar os efeitos da pandemia”, contextualiza o presidente da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico (FNAEESP), João Pedro Pereira, mas o abandono nos Ctesp já antes era elevado.

O dirigente aponta falhas na orientação vocacional nas escolas secundárias e profissionais, que fazem com que muitos dos seus colegas “acabem em cursos de que não gostam”. “Alguns são quase empurrados pelos seus professores para fazerem um Ctesp só porque isso lhes dá acesso a mais um estágio”, comenta ainda o presidente da FNAEESP. Os dados da DGEEC mostram que, além dos 24% de alunos que desistem de estudar, há mais 9% que optam por mudar de curso um ano após o início da formação.

A presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Maria José Fernandes, concorda que existem problemas na orientação destes alunos. “Muitos deles não sabem ao certo o que pretendem fazer”, admite esta responsável, defendendo que as instituições de ensino superior devem trabalhar melhor no acompanhamento dos alunos.

O acesso aos Ctesp é feito por concursos locais. Ou seja, os alunos candidatam-se directamente junto do politécnico onde pretendem estudar, ao contrário do que acontece nas licenciaturas, às quais a maioria dos estudantes acede através do concurso nacional de acesso, que é centralizado.

As soluções para os problemas de orientação e abandono dos Ctesp devem, por isso, “ser tomadas localmente”, defende Maria José Fernandes. Por exemplo, o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, que dirige, colocou, na página de candidaturas aos cursos técnicos superiores do seu site, um questionário acerca dos interesses dos alunos, destinado a dar-lhes algum tipo de orientação nas escolhas.

Aos problemas com a orientação vocacional, junta-se a “concorrência” das empresas, sobretudo no caso dos alunos que chegam aos Ctesp com um diploma do ensino profissional nas mãos. “Da maneira que está o mercado de trabalho, é fácil arranjar um emprego e isso desvia estes estudantes”, considera a presidente do CCISP, uma posição secundada pelo líder da FNAEESP e também pelo presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES), Fontainhas Fernandes.
Competição interna

Os Ctesp, com a duração de dois anos, são uma oferta de ensino superior com uma componente prática, implicando sempre um período de trabalho em contexto de empresa. Foram introduzidos em 2014/15 e, desde então, não têm parado de crescer. No ano lectivo 2020/21, ao qual dizem respeito os dados divulgados pela DGEEC, havia 9394 estudantes inscritos nestas formações, mais 841 do que no ano anterior. No ano lectivo em curso, foram colocados 9840 alunos, segundo dados disponibilizados ao PÚBLICO pelo CCISP. Foram ocupadas 76,4% das vagas disponíveis num total de 507 cursos.

Ao contrário dos Ctesp, que têm tido procura crescente, o concurso especial de acesso para diplomados em vias profissionalizantes, introduzido em 2020 para facilitar ao acesso a uma licenciatura dos alunos do ensino profissional, continua a ter pouca procura.

Matricularam-se no ensino superior 874 estudantes por esta via, neste ano lectivo. Ou seja, foram ocupadas pouco mais de um terço (35,8%) das vagas existentes. Também este ano, houve cerca de 4500 diplomados do ensino profissional a entrar numa licenciatura através do concurso nacional de acesso, que os obriga a fazer exames nacionais sobre matérias que podem não ter estudado nos seus cursos.

A maioria dos alunos do Ctestp são provenientes do ensino profissional e muitos (cerca de 1600 no ano passado) acabam por prosseguir estudos para uma licenciatura, apesar de não terem sido originalmente criados com esse intuito. Por isso, o ingresso nos cursos técnicos superiores e o concurso especial para as vias profissionalizantes acabam por “concorrer entre si” pelos mesmos alunos, admite a presidente do CCISP, Maria José Fernandes.

A líder dos politécnicos entende, ainda assim, que as duas vias devem continuar a coexistir. Para isso, é necessário “melhorar a articulação do ensino secundário e profissional com o ensino superior” e fazer uma “maior divulgação” do concurso especial destinado aos diplomados dos cursos profissionais, entende.

Estas eram também as recomendações feitas ao Governo, no Verão, por um grupo de trabalho, nomeado ainda pelo anterior ministro, Manuel Heitor, sobre o acesso ao ensino superior, e que foi liderado pelo presidente da CNAES, Fontainhas Fernandes.

O ensino superior nacional “precisa de atrair mais alunos do ensino profissional”, até para compensar os efeitos da quebra demográfica no número de estudantes que fazem uma licenciatura, considera aquele responsável. O caminho deve “passar por uma especialização” das instituições de ensino superior, que tenha em conta as características das regiões onde se localizam.

15.11.22

Num país a perder população, o desafio é atrair trabalhadores

Raquel Martins, in Público online

Portugal terá de conseguir atrair e reter trabalhadores para sustentar o seu mercado de trabalho e o sistema de protecção social.

Num mundo que esta semana chegou aos oito mil milhões de habitantes, Portugal debate-se com uma perda acentuada da população e um acelerado envelhecimento. Esta realidade irá agravar-se nas próximas décadas, obrigando o país a delinear políticas de atracção de mão-de-obra imigrante e de retenção de trabalhadores, para conseguir alimentar o seu mercado de trabalho e sustentar o sistema de protecção social.

Dorothea Schmidt-Klau, investigadora e especialista em envelhecimento na Organização Internacional do Trabalho (OIT), começa por sublinhar ao PÚBLICO que o crescimento demográfico é assimétrico e há “discrepâncias enormes” entre as várias regiões do globo, com impactos muito diversos no mercado de trabalho.

Por um lado, “temos regiões que estão a ficar cada vez mais jovens, principalmente em África, onde há uma elevada proporção de jovens a entrar na força de trabalho”. E, por outro, temos “sociedades envelhecidas, especialmente na Europa”, em que há mais pessoas a sair do mercado de trabalho do que a entrar e os que saem vivem muito mais tempo.

“Uma criança nascida hoje na Europa tem 50% de hipóteses de chegar aos 100 anos de idade e isso tem um enorme impacto nos rácios de dependência da velhice”, alerta.

Portugal está na linha da frente dos países que estão a perder população, a envelhecer mais rapidamente e a ver a sua força de trabalho encolher. O número de residentes caiu 2,1% para cerca de 10,3 milhões em 2021, o país tem agora 182 idosos por cada 100 jovens e, entre 2008 e 2021, a população activa recuou 382,8 mil pessoas e é agora inferior a 5,2 milhões (no contexto europeu, só a Roménia, que teve um recuo de 1,7 milhões na população activa, e a Grécia, com perdas de 392,5 mil pessoas, estão numa situação pior).

Perante este cenário, problemas que hoje já se fazem sentir, como a falta de mão-de-obra em determinados sectores e a dificuldade em reter uma população jovem cada vez mais qualificada, tenderão a agravar-se.

Para Francisco Carballo-Cruz, economista e professor na Universidade do Minho, o principal desafio dos estados com o perfil de Portugal “é encontrar fórmulas que permitam delinear políticas de imigração adaptadas às características do país e às necessidades do seu mercado de trabalho”.

“Em Portugal, o défice de mão-de-obra é um problema transversal à maioria dos sectores da economia, que afecta quer ocupações pouco qualificadas, quer ocupações altamente qualificadas, especialmente em sectores ligados às novas tecnologias. Sem boas condições de trabalho e sem remunerações competitivas será difícil atrair mão-de-obra imigrante, porque no actual contexto, na União Europeia, existe uma elevada concorrência pela mão-de-obra em geral e pela mão-de-obra imigrante em particular”, alerta.

Outro desafio, acrescenta, é conseguir “manter os trabalhadores portugueses no país, especialmente em sectores onde o atractivo das remunerações noutras economias da União Europeia é um forte incentivo para emigrar”.

Paulo Marques, investigador e coordenador do Observatório do Emprego Jovem (OEJ), partilha destas preocupações. E além da falta de mão-de-obra em sectores como a hotelaria ou a agricultura, alerta para a necessidade de a economia portuguesa crescer em sectores mais intensivos em conhecimento, que permitam absorver uma população jovem cada vez mais qualificada. “Mesmo aí vamos ter de ser também capazes de atrair e reter pessoas e isso passa pela habitação, pelo acesso aos cuidados de saúde ou pela qualidade do emprego”, sublinha.
Olhar para os mais velhos e antecipar necessidades

Além da inclusão de trabalhadores vindos de outros países, Dorothea Schmidt-Klau considera que a falta de mão-de-obra nas sociedades a braços com um envelhecimento galopante pode ser ultrapassada recorrendo a grupos arredados do mercado de trabalho, através de uma maior participação das mulheres ou aproveitando o potencial dos trabalhadores mais velhos.

“Uma das coisas mais urgentes a fazer é superar a discriminação etária nos mercados de trabalho. As pessoas mais velhas têm a reputação de serem caras, muitas vezes doentes, menos inovadoras, mais lentas. Mas estudos mostram que, com organizações do trabalho flexíveis, muitos idosos estariam disponíveis para trabalhar por menos, que na verdade eles não têm mais dias de baixa em comparação com os outros trabalhadores e muitas inovações são, na verdade, o resultado da longa experiência de trabalho dos idosos”, recomenda.

Para Francisco Carballo-Cruz, há também muito a fazer no planeamento e defende que os países com défice de trabalhadores deveriam apostar na melhoria dos processos de ajustamento no mercado de trabalho, através do reforço dos mecanismos de antecipação de necessidades de mão-de-obra.

Ao mesmo tempo, “os instrumentos de fiscalização deveriam estar melhor dotados para evitar abusos e melhorar a organização dos fluxos de trabalhadores” e “as políticas sociais de facilitação da integração de imigrantes e suas famílias deveriam ser uma das principais prioridades” dos governos.

Nos países onde o crescimento demográfico se manifesta com maior intensidade, a principal dificuldade está em acomodar um elevado número de jovens no mercado de trabalho. Só para se ter uma ideia, nota o investigador Paulo Marques, as taxas de desemprego jovem podem chegar aos 64% na África do Sul, aos 50% na Líbia ou aos 34,3% em Cabo Verde.

“O que vemos nos países em desenvolvimento é que o crescimento populacional leva ao crescimento do emprego. Mas quanto mais pobre é o país e quanto maior é a pressão populacional, mais provável é que o emprego criado seja de baixa qualidade. Os empregos criados nestas circunstâncias são geralmente na economia informal, onde as pessoas são mal remuneradas, não têm protecção social, os seus direitos não são respeitados e não têm voz no trabalho”, lamenta a especialista da OIT, lembrando que “o crescimento populacional e as mudanças demográficas são um dos principais motores do emprego” para o bem e para o mal.

28.10.22

“Nunca foi tão difícil ser jovem”. Ou professor, ou músico, ou agricultor ou... empresário

Daniela Carmo, Patrícia Martins, Inês Matos e Carlos Dias, in Público online

Nas vésperas do Conselho de Estado, um trabalhador precário, um professor, um agricultor e um pequeno empresário contam como olham para o futuro próximo, com a crise no horizonte.

O planeta não tem plano B e, por isso, o agricultor António Tavares tem ainda mais receio da crise climática (e da falta de água), do que da crise económica. A primeira tem impactos sequenciais e a longo prazo que o deixam apreensivo, mesmo que a segunda esteja já a bater à porta e a pedir alguns ajustes. E a pedir também planos B, como o que o próprio agricultor alentejano desenhou para reduzir os custos da sua produção ou como o que o músico Luís Coelho, de Penafiel, procurou para fazer face à precariedade laboral.

O desassossego em relação ao futuro é transversal a várias áreas. André Torres, pequeno empresário no sector da restauração, em Gaia, tornou-se patrão e empregado para reduzir gastos. Mesmo assim, o seu receio é ser obrigado a “fechar” as portas. O optimismo não reina, nem quando quem fala é um jovem funcionário do Estado, com supostamente maior estabilidade laboral. Supostamente porque os 17 ou 18 mil euros que ganha por ano como professor (a andar pelo país) não dão para Tiago Leitão planear uma vida. “Nunca foi tão difícil ser jovem”, diz o docente de 27 anos.

Eis quatro casos que mostram como a degradação da situação socioeconómica do país, que Marcelo Rebelo de Sousa quer discutir no próximo Conselho de Estado, está a preocupar os portugueses. Mesmo com as ajudas anunciadas para famílias e empresas.

Precário, mesmo com plano B

Sempre sonhou ser músico, mas reconhece que, actualmente, a profissão que escolheu significa viver na precariedade. “Sendo músico profissional, a precariedade já faz um pouco parte da própria profissão. O mercado está muito cheio e não existe oferta em Portugal que consiga dar emprego a todos os músicos. Além do que, no caso do meu instrumento, não existe lugar de orquestra, logo aí tira também muito emprego”, descreve Luís Coelho, saxofonista, de 28 anos.

O sonho tornou-se realidade em 2018, quando o jovem concluiu os estudos superiores em Música, em 2018. Desde então, tem dado os primeiros passos na carreira, sem grande rentabilidade. “Enquanto músico tenho tido alguns concertos, mas se formos a ver quanto é que retiro desses concertos em termos monetários é muito reduzido, não dá nem para pagar os gastos. Estou formado há quase cinco anos e ainda estou a pagar para tentar singrar na minha profissão”.

Luís precisou de um plano B. Por isso, além de músico, inscreveu-se para leccionar actividades de enriquecimento curricular em algumas escolas de Penafiel. O ensino ajuda-o quando não há concertos — é um complemento. Mas, o plano B também não lhe dá estabilidade financeira. “Dou nove horas de aulas durante a semana e isso perfaz mais ou menos 400€ por mês. Para um jovem de 28 anos, a ganhar metade do ordenado mínimo, é uma loucura”, descreve.

Mesmo sendo músico e professor, Luís não consegue ter uma vida pessoal e financeira estável e não consegue ver o copo meio cheio em relação ao futuro próximo. “A minha profissão, para a qual estudei, a qual quero exercer, não me permite ter uma vida digna. Eu não consigo contrair um crédito, não consigo alugar uma casa, não consigo constituir família e ainda estou a viver em casa dos meus pais. E, se olhar para esta realidade e para o montante que me permite viver sozinho, tão cedo não consigo fazer isso”, afirma, desesperançado em relação ao que ouve dizer que aí vem: a crise inflacionária.

Os apoios do Governo, nomeadamente, o Estatuto dos Profissionais da Cultura, é algo com que o saxofonista também não pode contar. “Como músico, não tenho uma agenda programada. Neste momento, tenho mais dois concertos até Novembro e não sei quando é que vou ter mais. É uma coisa que vai surgindo. E nos últimos seis meses, tive quatro concertos, o que significa que não tenho acesso ao estatuto, porque não tenho uma actividade regular que me permita aceder a esse estatuto”.

Apesar do desânimo com que vê actualmente o estado da profissão, Luís considera que o aumento do Orçamento de Estado para a Cultura “mostra realmente que o Governo está a mudar uma página em Portugal, porque neste momento os artistas estão a trabalhar muito contra a corrente, e este aumento significa que ainda há alguma esperança para o futuro”. P.M.

A dupla crise na Agricultura

Pensar no futuro, mesmo a curto prazo, tornou-se para António Tavares, pequeno agricultor em modo de produção biológico, um exercício de gestão repleto de incertezas. “É muito complicado planear o futuro quando as alterações climáticas nos trazem tantos receios”, conjectura.

Nem mesmo o aumento desmesurado nos factores de produção (que em modo biológico são superiores aos que estão a ser sentidos na agricultura) o preocupam tanto como os efeitos das alterações climáticas que podem ser devastadores. “Assusta-me pensar que um dia me pode faltar a água de Alqueva”. É este o seu receio maior quanto ao futuro, mesmo comparado este cenário crítico com a diminuição no número de encomendas recebidas. “Nem foi preciso aumentar o preço dos nossos produtos” observa o agricultor. Outros encargos e restrições no orçamento familiar obrigam a optar por produtos não biológicos, porque estes são, inevitavelmente, mais caros.

A actividade da pequena empresa de António Tavares está baseada na entrega de cabazes com produtos hortícolas na casa dos clientes. “Nós produzimos e distribuímos”, acentua, realçando o “enorme esforço” que é feito para manter a autonomia, quando os combustíveis aumentam. “Quase de certeza vamos ter de subir os preços”, antecipa, embora ainda não se reflicta no que entrega aos clientes.

“Estamos a ser bastante afectados pela crise” reconhece o pequeno agricultor, admitindo que já foi forçado a fazer escolhas: os produtos que têm menos venda já foram retirados do cabaz e já negociou a partilha de encargos com a empresa do Oeste que fornece a fruta. “Eles transportam-na até Évora e nós vamos lá buscá-la” para assim dividir o custo da deslocação.

“Olhando para o futuro, honestamente e na parte agrícola, não é nada promissor”, salienta António Tavares, dando um exemplo: “Tenho um acordo com um pequeno produtor pecuário que traz o seu rebanho para a minha exploração para a limpar de ervas e matos e ao mesmo tempo fertilizar os terrenos”. Com a seca prolongada, associada às altas temperaturas ambiente e fraca precipitação atmosférica, os animais deixaram de ter pasto.

A situação que é recorrente tornou-se dramática para os donos dos rebanhos de ovelhas e cabras. Deixaram de ter fundo de maneio para a aquisição de rações que estão a um preço inacessível, uma situação que se tornou dramática devido à falta pasto para os animais. Sem condições para sustentar os rebanhos resta-lhes vender os borregos abaixo do preço do que gastaram com eles para que os animais não morram à fome.

“A agricultura, tal como está, passou a ser uma actividade muito complicada e vai obrigar-me a ponderar um plano B, para garantir a sustentabilidade da minha família”. C.D.
Professor com a vida em suspenso

A procura por um horário completo numa escola, capaz de garantir um ordenado digno e, ao mesmo tempo, contribuir para a progressão na carreira, fez Tiago Leitão, professor de História, rumar de Matosinhos — no distrito do Porto — a Lisboa no início deste mês. “Felizmente” tinha já familiares a residir na capital que o acolheram. “Foi-me mais fácil porque tenho esse suporte familiar, mas há muitos professores que não têm isso e é um problema porque é uma mudança muito grande, principalmente por estes dias” de crise, reflecte.

A maior despesa, que seria a da habitação, ficou assim adiada. Mas nem por isso o professor, de 27 anos, deixa de lado a hipótese de encontrar uma casa, ou um quarto num apartamento partilhado, para onde se possa mudar num futuro próximo.

“A expectativa seria, no máximo, sair de casa dos meus tios até Janeiro”, afiança, ao mesmo tempo que nota que “os preços são caríssimos”. “Viver aqui [em Lisboa] sem ajudas de custo é muito complicado e também não quero estar numa situação em que perco dinheiro, como acontece com colegas meus.”

Se, por um lado, o conforto de poder viver com familiares contribuiu para a mudança para Lisboa se efectivar, por outro lado, Tiago Leitão fê-lo também a pensar na poupança de algum vencimento. “A verdade é que nós, jovens, não conseguimos ter dinheiro suficiente para comprar e pagar uma casa e, por isso, andamos a pagar rendas exorbitantes a senhorios por casas partilhadas com desconhecidos, mesmo depois dos 30 anos”, explica. “Nunca foi tão difícil ser jovem.”

A subida da inflação sente-a principalmente no mercado imobiliário: “Sempre que faço uma pesquisa por casas ou quartos aquilo que se encontra são preços caríssimos e senhorios que pedem duas ou três cauções logo à partida, mais os três recibos de vencimento anteriores e outras tantos coisas que, para muitos jovens, não são fáceis de adiantar”.

Também no combustível sente o aumento dos preços. “É impensável para mim levar o carro nas viagens de fim-de-semana entre Lisboa e Porto. Vou de comboio ou de autocarro, principalmente de autocarro porque se comprar com alguma antecedência sai mais barato.”

Os gastos são, de facto, pensados ao pormenor na esperança de conseguir uma almofada financeira mais confortável e, no horizonte, mantém-se a esperança de um dia conseguir comprar casa.

“O objectivo agora é o de conseguir pôr algum dinheiro de lado e, juntamente com a pessoa com quem estou, mais tarde dar a entrada para uma casa. Só que as entradas de uma casa são de 10% ou 20%. Agora não há casas a 150 mil euros, mas 10% disso são 15 mil euros e para poupar 15 mil euros, num ano por exemplo, é complicado. Contas feitas, ao final do ano um professor ganha cerca de 17 ou 18 mil euros, isso significa que temos de trabalhar um ano praticamente sem qualquer despesa para poupar esse montante”, remata.

Quanto às medidas do Governo para combater o aumento dos preços, como o apoio extraordinário de 125 euros, o professor de História diz que “são suficientes durante um mês, até o dinheiro acabar”. “E depois?”, questiona. “As pessoas tiveram uma ajuda com a inflação, mas a inflação continua elevada. E depois? As pessoas, na sua maioria, estão a perder poder de compra. Os meus alunos mais novos foram capazes de me dar exemplos concretos de perda do poder de compra, situações que sentem que os pais estão a ter”, exemplifica.

“Reduzir os preços dos transportes” ou “comida para toda a gente” foram alguns dos exemplos de “acções capazes de mudar o mundo” dados pelos alunos de Tiago Leitão. “Eles não me disseram que passaram fome, mas sinto que, ao pensarem no assunto e ao terem essas questões, é porque já estão a ver alguém a passar por isso, se não forem mesmo eles.” D.C
A luta do patrão-trabalhador

Há meses que André Torres, pequeno empresário na área da restauração, repara nas consequências que a escalada de preços e a crise trouxeram ao seu negócio. “Em termos de facturação, as pessoas já não gastam tanto como gastavam, estão mais limitadas a gastar dinheiro. Isto está muito complicado”, desabafa. Dono do café e snack-bar Newglass, aberto há 12 anos em Vila Nova de Gaia, André receia os tempos que se aproximam devido ao impacto da inflação.

Para tentar amenizar as quebras, foi necessário fazer algumas alterações no funcionamento do café. Viu-se obrigado a dispensar um funcionário — agora, tem apenas dois, contando com ele, sendo que é um “patrão trabalhador” —, teve de “aumentar os preços” dos produtos, uma vez que também os compra a valores superiores, e de “alterar certos produtos” e “procurar os melhores preços” entre os diferentes fornecedores. Além disso, foi necessário “reduzir os dias de trabalho”, passando a fechar as portas do estabelecimento dois dias por semana. Também começou a “fazer promoções, para as pessoas poderem gastar um bocadinho mais”.

Após dois anos de pandemia, em que o negócio esteve limitado e foi preciso fazer um esforço para manter as portas abertas, André não está optimista. “A partir do início do próximo ano vai ser complicado, acho que vai ser ainda mais complicado. São os preços a aumentar, as pessoas têm medo de gastar e tudo isso conta, não há dinheiro para movimentar”, refere.

O proprietário de 34 anos considera que as medidas que o Governo tem vindo a anunciar para apoiar os portugueses não são suficientes. “Isto de dar os 125 euros, acho que isso nem cabe na cabeça de ninguém, é enganar…”, começa por dizer. “Agora, estão-nos a dar, mas a partir do ano que vem vão-nos tirar. O Governo também se aproveita um bocadinho com a guerra”, conclui.

Com o aumento dos gastos constantes e com a imprevisibilidade dos próximos meses, André Torres confessa que o seu “maior receio é fechar”. Para que isso não aconteça, considera que devia haver mais apoios para que as empresas não fechassem”, como por exemplo “reduzir os impostos, reduzir o IVA, reduzir essas coisas que realmente aumentaram muito e que têm muito peso”.

Assim, com as constantes oscilações dos preços e com o poder de compra dos clientes a diminuir, André está apreensivo quanto aos meses que se aproximam e ao início do próximo ano. Só aí considera que se poderão ver, ou não, “melhoras”. Até lá, é “lutar”. I.M.

6.10.22

Número de desempregados aumenta no fim de agosto em 100 concelhos do Norte e Centro

in Expresso

Norte foi a região atingida pelo maior aumento: entre junho e agosto, o número de pessoas em situação de desemprego subiu 3%

No fim do mês de agosto, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) contava com mais desempregados inscritos em comparação com o final do mês de junho. Este aumento foi registado, segundo o “Jornal de Notícias”, em 100 municípios do Norte e do Centro.

Entre junho e agosto deste ano, o Norte sentiu um aumento de 3% no número de desempregados, ao contrário do que aconteceu há um ano em que o desemprego tinha diminuído 1% nesta região. No Centro e no Alentejo o aumento de pessoas em situação de desemprego foi de 2% (há um ano diminuiu 1% e 5%, respetivamente).

Em Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e no Algarve registou-se uma diminuição do desemprego em ambos os anos. Este ano, em LVT a diminuição do número de desempregados foi de 2% (há um ano foi 1%). Já na região do Algarve, registaram-se menos 17% de desempregados, há um ano 18%.

EAPN Beja defende que é preciso dar condições para quem vem para o Alentejo

in a Voz da Planície

A EAPN Portugal/Rede Europeia Contra a Pobreza apresenta-se como “a voz” do cidadão em situação de pobreza ou exclusão social. O presidente do Núcleo de Beja considera que o Alentejo tem oportunidades, mas faltam-lhe meios para fixar pessoas, com condições vida.

João Martins, presidente do Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/ Rede Europeia Contra a Pobreza, explica que o núcleo engloba um conjunto de associados (particulares, individuais e institucionais) e conta com um técnico a nível nacional, que neste caso é Anselmo Prudêncio, que trabalha em permanência e faz a ponte e ligação com os diferentes parceiros que compõem a rede. A EAPN em Portugal está sediada no Porto.

Da equipa fazem igualmente parte outros parceiros voluntários, como é o caso do presidente, João Martins. Todos os anos recebem estagiários, numa colaboração com o Instituto Politécnico de Beja, bem como contam o apoio de cidadãos, por vezes já reformados.

No que diz respeito à pobreza, o responsável diz que os dados pós-pandemia apontam para um aumento da pobreza em Portugal, e consequentemente no distrito de Beja. De qualquer das formas, João Martins refere que o distrito sofreu transformações recentes em vários setores de atividade, sobretudo no agrícola, “o que estimulou diferentes domínios e novas necessidade de mão de obra”.

Em particular no Alentejo, continua-se a observar, à data de hoje, a difusão de ofertas de emprego semanais, enquanto que, por outro lado, a região confronta-se com falta de mão obra.

Dentro desta “falta”, João Martins distingue dois tipos de níveis mão de obra: uma que é sazonal e outra que é qualificada.

Do ponto de vista deste “tipo de pobreza”, da falta de emprego, “a região mudou muito”, sublinha. “O facto de sermos uma região de baixa densidade e hoje com novos desafios empresariais, faz com que haja uma grande pressão na procura de mão de obra”, sendo esta uma realidade que se vive no distrito.

Para além do mais, a região enfrenta grandes desafios, como o envelhecimento da população, é o distrito com mais presença de comunidades ciganas, e aqui é onde efetivamente existem fenómenos de pobreza. Lembra que “às portas de Beja” vive uma “comunidade que todos conhecem, com situações de condições de vida muito precárias, nada dignas para qualquer tipo de ser humano, um problema muito complexo que está por resolver”.

Nos dias que correm surgem outros problemas emergentes, relacionados com a falta de trabalhadores. Como há oportunidades, mas falta de pessoas em Portugal, recorre-se muitas vezes à imigração. No entanto, defende que é fundamental haver medidas de algum controle e de acolhimento, de forma a “dar condições de dignidade para quem vem para o nosso País trabalhar”.

“Ninguém concorda que exista mão de obra escrava ou que Portugal se transforme numa plataforma de tráfico de seres humano, como tem sido denunciado pelo órgãos de comunicação social”, impondo-se assim a necessidade de desenvolver “mecanismos de fiscalização” para uma situação que já tem vindo a ser reportada também à Rede Europeia.

Outra questão importante que João Martins defende é que não é só preciso pessoas para trabalhar, é preciso que se fixem no território, com dignidade, com trabalho que seja devidamente remunerado, com contratos de trabalho e com habitações condignas.

As habitações são um problema que preocupa bastante a EAPN. Verificam-se abusos e aproveitamento da situação de fragilidade destas pessoas, em que as casas são habitadas por um número muito superior à sua capacidade e em condições com pouca dignidade, indica o responsável.

Este é um “fenómeno novo”, que também se pode chamar de pobreza. Trata-se de uma “nova dimensão” que as entidades devem encarar e agir, envolvendo todo um conjunto de esforços e criar políticas a este nível.

Destaca que, em 2019, os indicadores mostraram que a taxa de pobreza tinha diminuído. Há oportunidades com “potencial económico incrível”, e nesse ponto de vista o Baixo Alentejo é “rico em recursos”, tem é tido dificuldade em captar e fixar esses recursos e em dar resposta a quem quer investir na mão de obra, o que leva a recorrer a mão de obra estrangeira.

Questionado sobre os impactos da pandemia covid-19 e agora, mais recentemente, das consequências económicas do conflito na Ucrânia, o presidente do Núcleo diz que a pandemia de facto já tinha colocado em situação de dificuldade muitas pessoas, empresas e negócios familiares, e por isso, depois de 2019 os números serão diferentes.

De seguida surge uma guerra que afeta a Europa, não há ainda dados distritais, contudo, de acordo com os parceiros da rede, há uma maior procura de alimentos e de outros bens, para a qual não há correspondência às necessidades que surgem, por parte das entidades que têm essas competências e que dão este tipo de apoio, frisa João Martins.

Alerta que podemos estar perante uma situação de “emergência alimentar”, e que, mesmo sem dados oficiais, “todos nós, até cidadãos comuns, sentimos na pele o que é o aumento dos preços diários, desde logo no supermercado, e a somar a isso, as faturas de energia, e consequentemente o aumento dos combustíveis, inflação, e das taxas de juro”.

“Se isto continuar nesta escalada crescente, tememos que os problemas que já se começam a sentir por parte de algumas famílias, possam trazer novos fenómenos de pobreza”, ressalta.

É uma situação à qual devem estar atentos e trabalhar na própria prevenção, onde, de acordo com o responsável, “o Alentejo tem a vantagem de capacidade produtiva, para além do regadio há uma superfície agrícola útil, e por isso temos de estar preparados, numa lógica tanto quanto possível, para termos capacidade de garantir alguma autossuficiência alimentar”.

A escalada do aumento dos preços é um fenómeno que a entidades têm de continuar a acompanhar e, em conjunto, encontrar soluções, apesar da região e do País estarem muito “reféns” de um contexto global, considerando que este não é um problema exclusivo de Portugal e que a Europa, principalmente, está a ser penalizada.

Sobre medidas e ações que a EAPN Portugal tem vindo a aplicar, o responsável destaca uma das políticas que a rede segue que é “ouvir as pessoas em situação de pobreza”, dando voz às pessoas que “melhor sentem” estes problemas, no sentido de encontrar soluções.

Com base nesta “consciência dos problemas”, a Rede Europeia tem sido uma peça importante na definição de políticas de combate à pobreza e exclusão social e na defesa de pessoas mais pobres. Neste âmbito, contribuiu para a Estratégia Nacional de Combate da Pobreza, “algo que o governo não tinha e que aprovou”, fruto do trabalho em rede da EAPN, na sua intervenção não só ao nível do distrito de Beja, como também da articulação entre os núcleos a nível nacional.

O Núcleo Distrital de Beja tem também ações no território de divulgação de informação diária, ao nível de emprego ou de ações de formação, e de uma forma geral faz a ponte entre pessoas e oportunidades.

Trabalham na área investigação, os diagnósticos estão sempre a ser atualizados, diz o presidente do Núcleo. “As coisas mudam hoje com uma velocidade incrível, e temos de ter capacidade de diagnóstico em permanência”, bem como “medidas que contrariem situações novas que surjam”, nomeadamente de exclusão social e pobreza.

Relativamente à Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, aprovada em dezembro de 2021, a Rede tem conhecimento de que foi apontada pelo Governo uma das medidas contempladas no documento, que visa tirar da pobreza 170 mil crianças até 2030, e congratula-se por a tutela ter começado a aplicar ações concretas e avançar com o que está definido.

“A voz da rede, que é, no fundo, a voz dos cidadãos e de todos os que querem combater a pobreza”, já tem essa estratégia aprovada e começa a ver a aplicação de medidas. João Martins aconselha, a quem tenha curiosidade, a ler a própria estratégia disponibilizada no site da EAPN Portugal e conhecer a profundidade da mesma.

12.8.22

Pressão do mercado de trabalho para subir salários não chega para compensar inflação

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Remuneração média dos portugueses registou, no segundo trimestre deste ano, uma queda de 4,6% em termos reais, a mais acentuada que é possível encontrar nas séries estatísticas do INE.

Com o desemprego ainda a diminuir e a escassez de mão-de-obra a ser uma queixa recorrente dos empresários de alguns sectores de actividade, o ritmo de crescimento do salário médio praticado em Portugal aumentou durante o segundo trimestre. Muito menos, contudo, do que aquilo que seria necessário para compensar a escalada da inflação, fazendo com que a variação real dos salários seja, neste momento, a mais negativa que é possível encontrar nas séries estatísticas deste indicador publicadas desde 1985.

Os dados revelados esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) não surpreendem. A taxa de inflação já supera neste momento os 9,1%, com subidas de preços significativas na generalidade dos produtos e para a grande maioria dos portugueses é evidente que o seu salário não está a crescer ao mesmo ritmo, nem sequer perto disso.

Através da informação proveniente das declarações de rendimento feitas à Segurança Social, o INE calcula que a remuneração bruta total mensal média por trabalhador em Portugal se cifrou, durante o segundo trimestre do ano, em 1439 euros. Este valor representa, em termos nominais, um crescimento de 3,1% face ao mesmo período do ano passado, uma ligeira aceleração face ao que tinha acontecido no primeiro trimestre do ano: uma variação homóloga de 2,5%.



O problema é que fica longe de conseguir acompanhar aquilo que está a acontecer ao nível da inflação, que no segundo trimestre já superou em média os 7% (e que em Julho já vais nos 9,1%). E, por isso, mesmo com os salários a crescer mais, o que os portugueses sentiram, em média, foi um acentuar da tendência de perda de poder de compra que já se registava nos primeiros meses do ano.

A remuneração bruta total média caiu, em termos reais (isto é, descontando o efeito da inflação) 4,6% no segundo trimestre deste ano, face ao mesmo período do ano anterior. No primeiro trimestre, a perda tinha sido de 2,2%.

A queda em termos reais das remunerações dos portugueses é a maior desde o início desta série estatística com dados trimestrais que o INE publica desde 2014. Além disso, a variação de -4,6% agora registada é também mais negativa que todas as variações presentes na série estatística que o INE publica com as remunerações médias anuais desde 1985 (não existindo dados para os anos de 1990, 1991, 2001 e 2002).

Até aqui, a maior perda de poder de compra do salário médio que se podia encontrar nestas séries estatísticas era a de 2011, o ano em que a troika chegou a Portugal, tendo-se verificado um aumento do salário médio de 0,7%, que, por causa da inflação de 3,7%, acabou por resultar numa perda em termos reais de 3%.

A situação actual, contudo, tem características completamente diferentes das de 2011. Nesse ano, a actividade económica estava em queda e o desemprego subia a alta velocidade, passando de 11,1% no arranque do ano para 14,6% no final.


Aumentar

Tal fazia com que não só houvesse mais portugueses a perderem rendimentos, pelo facto de deixarem de ter o seu emprego, como tornava a pressão que as empresas sentiam para subir salários quase nula, já que não havia um problema de falta de mão-de-obra disponível. O salário médio quase não subiu e os portugueses ainda perderam poder de compra por causa da inflação.

Agora, a taxa de desemprego não está a subir. Pelo contrário, voltou a descer no segundo trimestre para 5,7%, o valor mais baixo desde 2002. Isto faz, defende o economista João Cerejeira, com que neste momento se possa dizer que “os salários estão a subir por pressão do mercado”.

Isto é, perante alguma escassez de mão-de-obra disponível, as empresas de determinados sectores estão a ver-se empurradas a aumentar salários para garantir que contam com o pessoal que precisam.

É o que explica, diz o professor da Universidade do Minho, que “alguns dos aumentos mais relevantes no salário médio aconteçam em actividades com componentes tecnológicas mais elevadas, como as de consultoria, científicas e técnicas, ou em actividades com as da construção e da restauração, onde o emprego tem vindo a crescer bastante”.
O contributo do Estado

Outro factor importante por trás da subida da remuneração média – este resultado da intervenção do Estado –, é o aumento do salário mínimo nacional aplicado este ano, algo que é visível, diz João Cerejeira, na subida mais forte do salário médio registada nas empresas de menor dimensão, aquelas em que os salários mínimos são mais dominantes.

A pressão proveniente do mercado e o contributo dado pelas políticas públicas através do salário mínimo não estão, contudo, a ser suficientes para compensar a subida forte e brusca que se regista na inflação.


E, para isso, contribuem duas grandes razões. Se é verdade que o Estado ajudou os salários a subir com o aumento do salário mínimo, no que diz respeito à política salarial que segue com os seus próprios trabalhadores, o contributo que é dado vai no sentido de limitar os aumentos. Com uma actualização salarial de 0,9% este ano e com a substituição de funcionários com salários mais elevados (que se reformam) por outros com salários mais baixos, não surpreende que sejam as actividades de Administração Pública e Defesa, Segurança Social e nas actividades de saúde humana e apoio social aquelas em que o aumento da remuneração média é mais baixo.

Para além disso, assinala João Cerejeira, em comparação com o que acontecia nos anos 1980, num período em que as taxas de inflação em Portugal eram também muito elevadas, “a capacidade reivindicativa dos trabalhadores, através dos sindicatos, é agora muito menor”.

É isto que faz com que este economista não acredite que, nos próximos meses, se venha a assistir a uma subida dos salários que compense totalmente a inflação elevada.

“Não tenho dúvidas que, nas negociações salariais para 2023, vão aumentar as pressões para que se façam actualizações mais elevadas, mas não ao nível da inflação. Não consigo imaginar nas actuais circunstâncias entendimentos entre os parceiros sociais para aumentos acima de 5%”, diz João Cerejeira, que antecipa, do lado das empresas, o argumento de que, também elas, estão a ser vítimas de um aumento de custos, proveniente do exterior.

Sindicatos e patronato sem sintonia

De facto, entre sindicatos e associações patronais, há para já poucos sinais de sintonia na forma como os salários devem responder à inflação.

Para a CGTP, os dados publicados pelo INE esta quinta-feira confirmam que se está perante uma “emergência nacional” e que a “prioridade máxima” é aumentar no imediato os salários e as pensões.

“Os trabalhadores precisam de respostas aos seus problemas e não aceitam continuar a empobrecer”, critica a dirigente da CGTP Ana Pires.

Para a central sindical, a situação “exige medidas imediatas” que “ponham travão à perda de poder de compra e à degradação das condições de trabalho e de vida”.

Entre essas medidas está o aumento dos salários de todos os trabalhadores em 90 euros, o aumento extraordinário das remunerações que foram actualizadas e cujo aumento foi absorvido pela subida da inflação, assim como a subida extraordinária das pensões.


Já do lado dos empregadores, a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) frisa que as empresas “têm feito um esforço para aumentar os salários”, embora não acompanhem a inflação actual, algo que “dificilmente acontecerá” em algumas áreas.

Na perspectiva do presidente da CCP, João Vieira Lopes, para aumentar o rendimento das famílias, “o Governo tem de intervir em termos de IRS”.

Essa intervenção fiscal será também importante, acrescentou, para aliviar a situação das empresas. Vieira Lopes propõe que o Governo isente de IRS e de Taxa Social Única as empresas que, no último trimestre do ano, paguem aos seus trabalhadores um prémio correspondente a, pelo menos, meio mês. E retoma uma proposta que já tinha sido apresentada no ano passado e que passa pela isenção fiscal das horas extras até ao máximo de 200 horas anuais.

Já António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), começa por destacar que o contexto de subida da inflação “é muito difícil para todos”, uma vez que “pressiona o rendimento disponível das famílias e atinge em cheio os custos operacionais das empresas”.

“Neste sentido, é fundamental aguardarmos pelas medidas que o Governo decidirá para apoiar as pessoas e também defender as empresas – refiro-me ao Orçamento do Estado para 2023, mas também a um desejável pacote de políticas públicas a aplicar já neste último trimestre do ano”, disse ao PÚBLICO.

O dirigente da CIP alerta que a incerteza é enorme, mas a travagem da actividade económica é quase certa. “Devemos todos — empresas, governo e trabalhadores — fazer o possível para que a travagem não seja brusca e não se converta em recessão, isto é, em falências e no aumento do desemprego”, sublinha, acrescentando que “as empresas não afastam, para já, qualquer possibilidade que tenha em conta todos os riscos que enfrentamos”.

O PÚBLICO procurou a reacção das restantes confederações patronais e sindicais, mas até ao momento não foi possível obter uma resposta.

No caso dos salários da função pública, o Governo tem passado a ideia de que está disponível para realizar aumentos para 2023 superiores aos 0,9% de 2022. No entanto, os seus responsáveis também deixam claro que uma actualização próxima do valor da inflação que se vier a registar este ano, e que deverá ficar acima dos 6%, também não é um cenário provável.

Um dos argumentos usados, tanto por António Costa como por Fernando Medina, tem sido o da necessidade de evitar uma espiral inflacionista, em que uma subida forte dos salários conduza as empresas a reflectirem esse aumento de custos nos preços dos seus produtos, provocando ainda mais inflação.

Esse é também o receio dos responsáveis dos bancos centrais, as entidades que têm a tarefa de garantir a estabilidade de preços. Por isso, o governador do Banco de Portugal também tem sido uma das vozes a apelar a alguma moderação em Portugal na forma como as actualizações dos salários devem responder à inflação.

Em Maio, Mário Centeno alertou que “é preciso ter muita cautela naquilo que são as actualizações salariais”, afirmando que “os aumentos de salários e do rendimento disponível não podem ser avaliados numa perspectiva de curto prazo”. “Não nos podemos esquecer que os salários médios em Portugal cresceram nos últimos seis anos muito mais que a inflação. A inflação cresceu abaixo de 5% e os salários médios cresceram muito próximo de 20%. É uma avaliação que não pode ser feita apenas no momento que estamos a viver”, disse. com Raquel Martins