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31.8.23
Luísa Lopes: “Falamos das quotas de género; e as quotas de idade?”
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14.7.23
Idosos, uma maioria menorizada exposta ao risco de pobreza
António Pedro Pereira, in Público online
Com apoio familiar, Delfina consegue evitar sobressaltos, ao contrário dos amigos em dificuldades. Serzedelo diz-se “privilegiado”, mas luta contra o idadismo e por uma vida digna para a sua geração.
Junto à Sé de Braga, no Centro de Dia da Associação de Solidariedade Social, Cultural e Recreativa de Santa Maria, Delfina Ferreira Mouta, de 79 anos, está limitada fisicamente devido a um problema na coluna cervical que a impede de grandes movimentações. Tendo trabalhado décadas como vendedora de uma loja de máquinas de costura, mais alguns anos na limpeza de um estabelecimento comercial, está reformada há cerca de 15 anos. “Reformei-me aos 66”, conta Delfina, que tem uma reforma de 370 euros. “É muito baixa. As reformas deviam ser aumentadas”, alerta.
Com a ajuda da família, Delfina tem uma vida sem grandes sobressaltos. “Fui educada a poupar e só gasto no essencial”, recupera. Esse exemplo de aforro vindo dos pais ajuda-a, mas é o apoio familiar que lhe permite escapar a um quadro de indignidade que afecta, pelo menos, um em cada cinco pensionistas em Portugal (são cerca de três milhões). “O meu marido morreu há pouco mais de um mês, chamava-se José Dias Ferreira e trabalhou a vida toda na Casa Salsa [fábrica de ferragens]. Com a reforma do meu marido, que é de 450 euros, a coisa compõe-se”, explica. Com pouco mais de 800 euros mensais, Delfina teve uma grande ajuda que lhe resolveu um dos grandes problemas para os idosos – a habitação. “O meu filho comprou a nossa casinha”, diz, com orgulho.
No entanto, sabe que a sua situação é bem diferente da de muitos da sua geração. “Tenho amigos que vivem com muitas dificuldades. O problema é o dinheiro, as reformas são muito baixinhas...”, sublinha.
Com uma reforma acima da média, António Serzedelo, por seu lado, centra as suas preocupações na luta contra as discriminações da sua geração – das “reformas pequeninas” à “solidão”, é o idadismo (tratamento negativo baseado na idade, especialmente em relação às pessoas mais velhas) que o leva a redobrar a força cívica por entre as várias frentes de combate social que marcaram e ainda marcam a sua vida.
“Tenho plena consciência dos enormes problemas que os idosos enfrentam, das dificuldades básicas em pagar contas ou ter acesso a cuidados de saúde, ao isolamento e exclusão a que são votados”, afirma António Serzedelo, de 78 anos, rosto do activismo político e cívico – é o conhecido fundador da Opus Gay, associação de defesa dos direitos LGBT. Tendo uma vida digna e complementada por uma “boa reforma” de professor do secundário em Lisboa durante mais de 40 anos, não se conforma com a sua situação de privilégio por comparação com uma larga fatia de idosos que mal consegue pagar as contas médicas, lutando por melhores condições para todos e acolhendo, durante largos períodos, pessoas em sua casa que passam por situações de grande fragilidade e exposição ao risco – afinal, um quinto dos cidadãos com 65 ou mais anos está em quase ruptura social e sem condições para chegar ao fim do mês.
“Seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado”, dispara. “A minha reforma anda à volta dos 2000 euros mensais”, revela, acrescentando que sabe perfeitamente que é um valor, face ao panorama das pensões, “de rico”.
“Sim, seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado face aos problemas que afectam os idosos. Porque tive uma boa educação, porque viajei, enfim, conheci mundo e grandes figuras da cena mundial”, complementa.
Enquanto Delfina divide o seu tempo entre a sua casa, os filhos (o mais velho com 55, a mais nova com 49) e o centro de dia, condicionada pelo problema na cervical, António Serzedelo continua activo. Tem uma vida plena de acção, entre o activismo político, pela cidadania, pelas mulheres, pela comunidade LGBT+ (foi fundador da Opus Gay em 1997), pelas pessoas com deficiência. Tem uma reforma que, “para a pobreza de Portugal”, “é quase de rico”, vive num bairro que “agora é da grande burguesia”, não enfrenta dificuldades de maior no acesso à alimentação, aos cuidados médicos, à energia para se manter protegido. Ou seja, tem quase tudo o que lhe permite evitar cair numa situação crítica de exposição ao risco de pobreza e exclusão social que afecta mais de um quinto deste grupo etário (20,5 por cento, de acordo com números de 2022 do Instituto Nacional de Estatística).
Vive dignamente, mas não alienado. “Noto os preços a subir, nas contas e no supermercado. E tento comprar coisas mais em conta. Gasto mais com os dois gatos e com o cão do que comigo. Eles são mais esquisitos, eu adapto-me a qualquer coisa”, conta o antigo militante do PS (“com o cartão número dez”), às voltas com um processo “demoradíssimo” de refiliação no partido a que aderiu há 44 anos. Foi vereador suplente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-vogal e conselheiro da Junta de Freguesia de Arroios.
António Serzedelo, que foi também jornalista no Diário de Notícias e na revista Telesemana, tem colaborado com associações cívicas contra o idadismo – termo que em Abril deste ano entrou no Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa como definição de “atitude de discriminação e preconceito com base na idade”. Particularmente, o que atinge os idosos.
“Trabalho com algumas associações anti-idadismo. E estamos a propor algumas medidas, como, por exemplo, uma Secretaria de Estado dos Idosos, que concentre num só edifício a gestão de todos os departamentos para este grupo etário. Cheguei a propô-la a uma alta figura do Governo, porque este grupo é o que mais recursos gasta ao Estado, mas disse-me que ia pensar e, alguns anos depois, ainda está a pensar”, revela Serzedelo.
Segundo o relatório Portugal, Balanço Social, “em 2021, 20,9% dos indivíduos com mais de 65 anos encontravam-se em situação de privação material e social (38,8% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza). Nesta faixa etária, 8,7% da população estava em situação de privação material e social severa (19,9% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza)”, sendo que este é, actualmente, de 551 euros mensais.
Joaquina Madeira socorre-se de dados do Instituto Nacional de Estatística, mas de 2022, para sublinhar que “o risco é, no entanto, claramente mais elevado quando olhamos especificamente para os mais velhos, nomeadamente para a população com 75 ou mais anos cujo risco de pobreza ou exclusão social foi de 22%”, regista a vice-presidente da EAPN Portugal (Rede Europeia Antipobreza). “A privação material e social severa é outro indicador que devemos sublinhar, devido a forte vulnerabilidade da população mais velha. É na população com 65 anos ou mais que encontramos a maior taxa de privação material e social severa: 7,1% da população nessa faixa etária comparativamente com 4,9% das crianças e 4,7% dos adultos entre os 18 e os 64 anos”, acrescenta.
“Tento continuar a ser activo e activista, na área da cidadania, na área do idadismo e na área LGBT”, prossegue o também radialista, que teve durante anos, a partir de 1999, um programa sobre temáticas LGBT na Rádio Voxx – Vidas Alternativas – e participa actualmente numa conversa semanal, às segundas-feiras (17.00 de Lisboa) no Alternativas Brasil Portugal, uma rádio online do Recife, Brasil.
“Tenho 78 anos e há 20 anos já estaria morto, porque a esperança média de vida era mais baixa. Estive na origem da Opus Gay, defendendo os direitos dos homossexuais, mas depois passei a defender as mulheres, e sobretudo as mulheres lésbicas, porque eram ainda mais discriminadas, e a organização mudou para Opus Diversidade, para abranger outras populações, como os transexuais. Eu já morei com duas ‘trans’, que até no meio homossexual são discriminadas”, alerta António Serzedelo.
“Vivo um pouco angustiado com a exclusão social que certos grupos estão a pregar [aos portugueses]. Se um quarto dos estrangeiros fosse embora, Portugal parava. E não é uma metáfora, é literal”, acusa o homem que viveu em várias cidades de Angola e de Moçambique (por causa das comissões de serviço do pai, engenheiro civil especialista em portos e docas secas) ou em Setúbal.
“Vivo num apartamento que aluguei há cerca de 40 anos e que renovei e modifiquei para um dúplex. Vivo sempre com alguém, amigos ou amigos de amigos. E acolho conhecidos, alguns recomendados por amigos, que estão em situação de fragilidade até poderem retomar a vida”, conta.
Ainda assim, não está imune aos problemas que afectam o seu grupo etário. “Sinto alguma solidão também, embora seja visitado por muita gente, até do estrangeiro. Alguns visitam-me só para se associarem ao meu nome, por ser activista e defender as minorias, mas recebo muitos amigos ou pessoas indicadas por amigos que me fazem alguma companhia”, admite o frenético António Serzedelo.
Há décadas um dos rostos mais conhecidos da luta contra a discriminação LGBT (“Fui bissexual durante um tempo, em part-time, mas depois fui gay a tempo inteiro”), Serzedelo fala ainda de uma dupla discriminação: “A maioria na comunidade gay é constituída por jovens, que, por sua vez, discriminam os mais velhos”.
A pobreza na infância e nos mais velhos, as privações materiais e sociais, as diferenças regionais e os desafios do custo de vida. Nesta série editorial, o PÚBLICO faz um “raio X” ao impacto da pandemia de covid-19 em Portugal, com o apoio da Fundação ‘la Caixa’, BPI e Nova SBE, promotores do estudo Portugal, Balanço Social 2022, publicado em 2023.
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6.2.23
A juventude como elogio?
A aparência jovem é elogiada na esfera pública, mas razão para condescendência e desvalorização no trabalho corporativo, um sinal de inexperiência logo à partida
Dei por mim a questionar-me sobre a minha resposta automática de “aw, obrigada”, sempre que me diziam, com tom de elogio, “pareces mais nova”. Tendo-me apercebido disto, perguntei às minhas seguidoras do Instagram o que sentiam quando lhes diziam que pareciam mais novas, em contexto pessoal e laboral. Esta crónica é pontuada e foi organizada segundo esses testemunhos.
Mas por que raio é que ter aparência jovem pode ser um elogio? Estou bem conservada? Conservada de quê? Envelhecer é assim tão mau? Não é só uma coisa natural, humana?
“Lately, I look in the mirror, and I’m so afraid I’m going to look like my mother.”, jovem citada por Betty Friedan em Feminine Mystique, publicado em 1962.
Se acham que eu pareço mais nova, como imaginam alguém de 45 anos? Com as bochechas nos ombros?
Há fortes estereótipos de idade, especialmente para as mulheres. Atiram-nos à cara prazos de validade, relacionados com a fertilidade, como se as mulheres a partir dos 40 fossem velhas. Além disso, categorizam as mulheres, põem-lhes rótulos: se são mães já não podem vestir roupa sensual; a partir de certa idade não fica bem frequentar certos sítios; ou com determinado peso já não é apropriado usar certos modelos de roupa. Esta questão foi levantada por vários testemunhos, dos quais realço o seguinte: “Tenho 32 e dão-me 20. É o quê? A aparência? Porque a partir de certa idade tenho de me vestir assim e assado? Ou é o comportamento? Porque a sociedade dita o que devemos ser em todas as faixas etárias?”
Uma mulher não é só uma coisa, é muitas coisas! A vida dela é só dela, o corpo dela só a ela diz respeito. Um exemplo satirizado da categorização das mulheres pode ser visto no sketch “Baby Shower” do Saturday Night Live, em que as amigas mães de uma mulher grávida introduzem o “corte de cabelo de mãe” e outros estereótipos de comportamento de uma mãe que ela vai, sem sombra de dúvida, acabar por adotar.
Atente-se que isto em nada invalida que haja mulheres que gostem que lhes digam que parecem mais novas — tive alguns testemunhos que o afirmaram —, mas antes explora as ligações sociais entre beleza, idade, contexto e preconceito.
Há desigualdade de género na exigência de uma aparência mais jovem?
Temos uma sociedade que fala de dad bodies e de sexy grey, como algo com potencial de ser sensual no masculino, porém, ao mesmo tempo, pede a mulheres com 50 para parecerem que têm 30. Uma sociedade que comenta como o Reynaldo Gianecchini ficou tão melhor com a idade, mas, por outro lado, quer saber o segredo da Jennifer Lopez para continuar a parecer tão jovem aos 53 anos. A mesma intensidade de interesse para movimentos opostos. O que muda? O género da pessoa em questão.
Acham que 50 Shades of Grey teria tido o mesmo sucesso se a Anastacia fosse uma estudante com 27 anos do BDSM e o Mr. Grey fosse um empresário de 21 anos, virgem, inocente, inconsciente da sua beleza e sensualidade? Parece que nem faz sentido, não é? Porque não é este tipo de relação que vive nas fantasias de pessoas que crescem, quer queiram quer não, expostas a estereótipos.
Neste campo de desigualdade de tratamento entram também as indústrias de cosmética e dietética, de grandessíssimo valor, tão focadas no público feminino. Alimentam-se maioritariamente das inseguranças das mulheres, expondo-as a estereótipos de corpos que devem almejar. Hoje em dia, já não há só moda na roupa, há moda na aparência corporal. Recentemente, houve uma crise de falta de medicação para diabéticos porque essa medicação estava a ser usada para pessoas não diabéticas emagrecerem muito rápido, para cumprirem a trend do heroin chic que, pelos visto, voltou.
A meu ver, a existência de produtos e tratamentos de cuidado de pele não é o problema em si. (Claro que tratamentos como o branqueamento anal ou o peeling vulvar já é todo um outro patamar). Eu própria adoro ter bons cremes e séruns para cuidar do que é meu e faço tratamentos de pele. Aqui o problema é serem maioritariamente direcionados para mulheres, alimentando-lhes e criando-lhes inseguranças. “Tens celulite? Não é bonito que tenhas. Tens rugas na testa aos 28? Não estás a cuidar bem de ti. Tens pêlos nos braços? Que inestético.” E por aí fora. Claro que é difícil amarmos a nossa celulite, mas podemos aceitar que é natural. Se uma ruga nos irrita e temos a possibilidade de fazer botox, não há problema em fazê-lo, mas importa que reflitamos nessa necessidade e procuremos uma clínica de confiança para o fazer. Ainda, pode ser relevante perceber quais são as empresas detentoras dos produtos, ou seja, para quem vai o nosso dinheiro.
No campo da indústria dietética, a mesma narrativa: quantas publicidades a emagrecimento já se viu com homens? Quantas publicidades de dietética pretendem subentender que há corpos prontos para o Verão e outros não conforme o peso?
Esta unidirecionalidade de mercado conforme o género traz ainda mais dois problemas do outro lado da moeda: a falta de variedade produtos para homens e a estigmatização de um homem que queira cuidar da sua pele.
Muita gente associa o uso de maquilhagem num homem e a preocupação com cuidar da pele com homossexualidade. Isto para além de ser excludente é prejudicial para que os homens cuidem da sua pele, graças à masculinidade tradicional nociva. Quantos homens não põem sequer protetor solar na cara?
Talvez se houvesse mais publicidade de produtos de higiene tendo homens como público-alvo, houvesse menos inflamações penianas por acumulação de smegma, menos escavações possíveis no cotão de umbigos e menos cuecas com selo.
Parecer mais nova: o elogio pessoal que vira condescendência no trabalho?
“[quando me dizem que pareço mais nova em contexto profissional] sinto-me diminuída, como se me colocassem um rótulo de inexperiente.”
“Eu gosto quando me dizem isso [parecer mais nova], talvez por estar associado àquela ideia de ‘mais nova é mais bonita’. Mas já tive a necessidade de mudar de visual para parecer mais experiente e profissional.”
Querem-nos mais novas em casa, na vida pública, mas no escritório temos de parecer mais velhas ou ninguém nos leva a sério. A aparência jovem é elogiada na esfera pública, mas razão para condescendência e desvalorização no trabalho corporativo, um sinal de inexperiência logo à partida.
Repare-se que não é em todos os trabalhos que querem que as mulheres aparentem a idade que têm ou que pareçam mais velhas para serem tidas como mais profissionais e eficientes. Quando se trata de atrizes, apresentadoras de TV, modelos nas passerelles e em capas de revista, querem-nas eternamente jovens, ou então já não correspondem aos ideais de beleza, já não servem de recortes para o moodboard de adolescentes que odeiam o seu corpo à custa de estereótipos de beleza inalcançáveis sem intervenções estéticas e edição de imagem.
Sobre este contexto específico, uma seguidora escreveu-me o seguinte: “[quando me dizem que pareço mais nova] penso ‘quando chegar aos 40 parece que tenho 30’. Para uma atriz isso é maravilhoso.”
A verdade é que no ano em que Meryl Streep fez 40 anos, recebeu três propostas para papéis de bruxa. Isto mostra como a sociedade acha que a partir de certa idade uma mulher já não tem grande leque de opções para continuar a sua vida de forma interessante. Por si só, este preconceito idadista, já faz da sequela de “Sexo e a Cidade”, intitulada “And Just Like That”, não só relevante, como necessária, já que mostra como a vida das mulheres continua a acontecer para lá dos 40, dos 50, dos 60, (...), independentemente do seu estado civil e de terem ou não descendência.
A que conclusão chegamos?
Beleza, idade e competência profissional são conceitos independentes e deveriam ser entendidos como tal. Além disso, a sociedade continua a exigir muito mais da aparência feminina do que da masculina e a ter dificuldade em ver para lá da binomia de género. Importa referir que a tão maldita sociedade é composta por todas as pessoas, por isso, se as pessoas mudarem, também a sociedade muda.
Concluo a dizer que esta crónica não é só uma ação de apontar o dedo às outras pessoas, mas também a mim mesma. Por algumas vezes já usei o “pareces mais nova” como elogio. Felizmente, estamos sempre a aprender e vamos sempre a tempo de evoluir, só é preciso querer.
Leituras para aprofundar diferentes afluentes deste tema, de várias épocas e contextos:
Bad Feminist, de Roxane Gay
Feminine Mystique, de Betty Friedan
The Beauty Myth, de Naomi Wolf
Trick Mirror, de Jia Tolentino
What a time to be alone, de Chidera Eggerue
6.5.22
Alternativa a envelhecer não é morrer, é envelhecer bem, com direitos de cidadania
Movimento Ibero-americano Stop Idadismo quer lançar o Selo Anti-idadismo: “uma distinção a atribuir a entidades públicas ou privadas que tenham práticas e linguagens que ajudem a construir uma comunidade amiga de todas as idades”.
O Movimento Ibero-americano Stop Idadismo nasceu há um ano (30 de abril de 2021) com um propósito: combater a discriminação em função da idade. É o terceiro preconceito mais grave, depois do racismo e do sexismo. Atinge todas idades, mas incide particularmente sobre os mais velhos, vistos por muitos como “um peso” para a sociedade. E sente-se, também, no mercado de trabalho.
José Carreira, a oessoa que coordena em Portugal o movimento liderado pelo médico e gerontólogo brasileiro Alexandre Kalache, considera que o balanço deste primeiro ano é muito positivo, especialmente tendo em conta os poucos recursos existentes.
“Conseguimos pôr o tema na ordem do dia, mas ainda há muito, muito trabalho a fazer, em Portugal e noutros países”. Passa também pela educação - na escola, a começar pelos mais pequenos - e pela formação, de líderes. Que não vejam os trabalhadores mais velhos como pessoas “a descartar”, mas como pessoas que, com a sua experiência, contribuem para o crescimento das organizações. São os próximos passos a dar.
O aniversário é assinalado esta quarta-feira na Casa do Povo de Santa Bárbara, na Ilha Terceira, Açores. “A primeira entidade que contactou o movimento para uma parceria e que mensalmente, organiza uma atividade de combate ao idadismo. Por isso, temos todo o gosto em celebrar com eles”, justifica José Carreira.
Velhice não é doença: uma vitória na OMS
A Organização Mundial de Saúde lançou o ano passado a “Década do Envelhecimento Ativo e Saudável 2021-2030. Estimula os países e as organizações a trabalhar pedagogicamente para desconstruir este preconceito em função da idade (idadismo), privilegiando ações educativas e intergeracionais.
“Por isso, ficámos estupefatos quando percebemos que a OMS queria incluir a “velhice” na lista internacional de doenças”, confessa José Carreira, em entrevista à Renascença.
Desde 2015 que havia uma tentativa para definir a velhice como doença. No seguimento do processo burocrático, em 2018, foi inicialmente incluída na lista internacional como código de extensão. E em maio de 2019, a classificação foi aprovada na 72ª Assembleia Mundial da Saúde. A classificação deveria ter entrado em vigor no da 1 de janeiro.
A contradição da OMS era manifesta e um pouco por todo o mundo, a sociedade civil manifestou-se contra e iniciou o movimento “Velhice não é Doença”, liderado pelo médico, gerontólogo e criador do conceito de envelhecimento ativo, Alexandre Kalache.
O movimento acabou por vencer e a Organização Mundial da Saúde retirou a velhice da lista de doenças. “Foi o resultado de uma grande pressão e movimentação da sociedade civil e temos muito orgulho de ter integrado esse movimento”, diz José Carreira. “Foi claramente um marco neste primeiro ano do Movimento Stop Idadismo”.
A partir de uma certa idade, as pessoas são invisíveis
Apesar das conquistas deste primeiro ano de atividade, o líder português do Movimento Stop Idadismo admite que ainda há muito trabalho a fazer. Considera que foi uma espécie de “ano zero” porque ainda há uma grande falta de consciência para esta questão na sociedade portuguesa. “Por via do estigma, a partir de uma certa idade, as pessoas tornam-se invisíveis. A sociedade, em geral, não tem a noção de como contribui para que as pessoas mais velhas ainda se isolem mais”.
José Carreira frisa que os nossos “mais velhos” continuam a ser desvalorizados. Lamentavelmente, a partir de uma certa idade, é como se estas pessoas fossem um peso para a sociedade. Ainda não conseguimos fazer ver às pessoas que envelhecer é bom. Morrer não é a única alternativa a envelhecer. O que temos é de envelhecer bem, com qualidade de vida e na posse dos nossos direitos de cidadania. Para o fazermos, temos nós próprios estar conscientes do nosso envelhecimento, lidar com ele o melhor possível e perceber que os outros também envelhecem”.
José Carreira diz que a pandemia “escancarou a velhofobia”: as pessoas têm medo de envelhecer e também não veem as pessoas mais velhas com bons olhos. Às vezes, isso acontece inconscientemente, o preconceito é aprendido desde tenra idade. Quantas vezes não dissemos já “estás bem, nem pareces ter a idade que tens?"
Por outro lado, há uma tendência para ter um olhar paternalista em relação a estas pessoas. “Ainda hoje, quando as restrições sanitárias já foram aliviadas, há idosos que continuam proibidos de sair dos lares, com o objetivo de os proteger de contágios. Decidimos o que é melhor para elas. Não pode ser”, diz o coordenador do Stop Idadismo.
Para José Carreira é claro que a pessoa mais velha tem que ser protagonista da sua vida, capaz de decidir e continuar a ser cidadã ou cidadão de pleno direito. “Muitas vezes isso deixa de acontecer porque os próprios (mais velhos) sentem - porque a comunidade também os empurra para esse pensamento, para esse isolamento não desejado – que já não são úteis e permitem que outros lhes vão retirando direitos. É isso que temos de combater”.
É preciso combater o descarte de trabalhadores mais velhos
O mercado laboral é uma das áreas em que se sente muito o idadismo. “Muitos trabalhadores, atingindo uma determinada idade são por vezes ‘descartadas’ – uso a palavra porque é isso mesmo que acontece. Sem uma avaliação séria e credível, como por um passo de mágica, passam a ser olhados como improdutivos, incapazes, inúteis para a organização. Sabemos que não é assim”.
É por isso que uma das apostas para o novo ano de trabalhos do Movimento Stop Idadismo é a Formação de Líderes: de entidades publicas e privadas; nacionais e internacionais. José Carreira diz que o objetivo é “lançar a semente e agitar as águas” de quem lidera as organizações, fazendo passar a mensagem de que é importante tirar partido da intergeracionalidade que existe nas empresas ou organizações. E explicar porque é importante contratar pessoas com mais idade: continuam a ser criativas, têm mais experiência, são válidas. “Como sabemos, alguém que fica sem emprego depois dos 50, tem muita dificuldade em voltar ao mercado de trabalho. Num país que envelhece tão rapidamente, que é dos mais envelhecidos do mundo, temos que ajudar a preparar as empresas para gerar equilíbrios intergeracionais”.
Combate ao preconceito começa na escola
Entre as ações pedagógicas desenvolvidas no último ano, o Movimento Stop Idadismo criou um calendário, distribuído pelas escolas para os alunos do 1º ciclo, com a família “dos 8 aos 80, que é cada vez mais dos 8 aos 108, felizmente”. O objetivo é desconstruir o preconceito em função da idade. O passo seguinte é o lançamento de um livro infanto-juvenil para crianças a partir dos 6 anos.
O foco neste ano inicial foram os mais velhos, mas o idadismo também se reflete nos mais novos, por exemplo, no acesso a um posto de trabalho ou a cargo político. “Lembro-me que nas últimas eleições autárquicas, um jovem de 18 anos concorreu à presidência de uma Junta de Freguesia e foi censurado, olhado com desconfiança sobre o que com aquela idade, poderia propor”. Por isso, no 2º semestre vamos lançar outras iniciativas que promovam o encontro de gerações e comunidades para todas as idades. Para que ninguém seja discriminado com base no critério idade”, explica José Carreira.
Além disso, o Movimento quer lançar o Selo Anti-idadismo: “uma distinção a atribuir a entidades públicas ou privadas que tenham práticas e linguagens que ajudem a construir uma comunidade amiga de todas as idades”.
7.10.21
Idadismo, o preconceito que afeta metade da população
As consequências do idadismo são altamente gravosasRejeitados no mercado de trabalho, discriminados no acesso à saúde e ao ensino, subtilmente proscritos no dia a dia. As várias formas do idadismo.
Elisabete Machado, viseense de 59 anos, deu aulas na área das artes plásticas durante 33. Primeiro em escolas públicas, depois num colégio, mais tarde numa instituição particular de solidariedade social (IPSS) que também tinha creche e ATL. Mais para o fim, quando percebeu que as vagas estavam a escassear, começou a desconfiar (e bem) que um dia deixaria de haver lugar para ela. Vai daí, com 45 anos, aventurou-se numa licenciatura em Serviço Social. “A ideia foi ter uma alternativa, para não ficar sem emprego.” A previdência serviu-lhe de pouco. Aos 52 anos, ficou desempregada e nem o curso lhe valeu. Hoje, com 59, vive com uns míseros 400 euros de pensão, porque, ao fim de incontáveis negas, viu-se obrigada a meter a reforma antecipada. Pior é pensar no argumento que lhe fechou as portas. “Às vezes, recorriam a subterfúgios, mas eu percebia que a questão era a idade. Noutras vezes, diziam-me mesmo: ‘Estávamos a pensar contratar uma pessoa um bocadinho mais nova, sabe?’.” Ao ponto de Elisabete ir interiorizando aquele discurso. “Cheguei a convencer-me de que tinha de dar lugar aos mais novos e que tinha mesmo que me encostar, apesar de não me sentir velha.” Para não dar lastro à revolta interior que lhe ficou, tenta manter-se ocupada. Faz caminhadas, vai ao ginásio, pratica ioga, começou a fazer voluntariado em hospitais. Entretanto, vai acalentando a esperança de conseguir “umas horitas” numa IPSS para complementar o ínfimo valor que lhe cai na conta no fim do mês. “Mas o meu marido já me disse para esperar até à morte.”
A história de Elisabete é a face mais visível do preconceito em função da idade, o chamado idadismo. O assunto foi o tema central de um relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em março deste ano. O documento concluiu que uma em cada duas pessoas no Mundo tem atitudes discriminatórias em função da idade. E chama a atenção para um “desafio global”. O idadismo já foi também considerado pela Organização das Nações Unidas a terceira forma mais grave de discriminação, depois do racismo e do sexismo. Mesmo que não ande nem perto de ser tão falado como os outros dois.
O brasileiro Alexandre Kalache, ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da OMS e visto por muitos como o pai do conceito de envelhecimento ativo, explica os quatro “is” em que assenta o conceito. “A ideologia de um grupo que se acha superior em relação a outro; a institucionalização, que é quando essa ideologia é adotada pelas instituições e acontece, por exemplo, quando se nega um serviço médico ou um transporte público adequado; a parte interpessoal – as piadinhas e os pequenos tropeços que forçam a pessoa a perder a sua autoestima – e a internalização, que é quando a pessoa acaba por acreditar que realmente vale menos do que o outro, que é um fardo, que deve sair de cena.” No fundo, o que acabou por acontecer a Elisabete Machado.
Da carta de condução aos provérbios
Alexandre Kalache, também epidemiologista e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, relata outros exemplos. Um deles vivido na primeira pessoa. “Tenho casa em Espanha e sempre que lá vou alugo um carro. Da última vez que lá estive não consegui, por ser muito velho [tem 76 anos]. Isto apesar de a minha carteira [carta de condução] não ter qualquer mácula e de ser válida a nível internacional.” Há outros casos. Relativos ao mercado de trabalho, sobretudo, como percebemos por Elisabete Machado. “Há uns anos era algo mais gráfico. Os anúncios diziam que só aceitavam pessoas até aos 45 anos. Agora já não é tanto assim, mas a política não desapareceu. Surge é muitas vezes de forma dissimulada.”
Kalache assegura que o mesmo acontece na área médica, por exemplo. Jura que há colegas que quando se deparam com pacientes mais velhos pensam duas vezes antes de fazer uma tomografia computorizada , por exemplo. Ou mesmo em relação ao ensino. Conta outro caso pessoal. “A minha mãe, há uns 15 anos, tinha uma funcionária doméstica, muito inteligente, mas com um nível de educação muito básico. Eu convenci-a de que deveria progredir nos seus estudos, mas a verdade é que não conseguiu ser admitida no curso, por ser considerada muito idosa. Lá está, a forma como as instituições expressam o idadismo nas suas políticas.”
José Carreira, um dos mentores do movimento Stop Idadismo em Portugal, aponta outras situações mais específicas. “Foi muito notório agora com a covid. Cá a questão não chegou a colocar-se, mas em Espanha as juntas autonómicas chegaram a dar diretrizes de que as pessoas com mais idade não deviam ser tratadas nos hospitais.” O ex-presidente da Alzheimer Portugal lembra ainda alguns casos concretos. “Os jornalistas Mário Crespo e Luísa Castel-Branco, por exemplo, já assumiram em entrevistas que foram excluídos do mercado de trabalho em função da idade.” Isto sem esquecer os “micro idadismos”. “Pequenas formas de discriminação que estão no nosso dia a dia e de que nem nos damos conta. O simples facto de estranharmos que alguém a partir de uma determinada idade use um dado penteado. A uberização dos avós, quando se assume que têm de ser o táxi da família, os ditados (‘todos conhecemos a velha máxima de que burro velho não aprende línguas’), a própria sinalética, em que nos sinais de trânsito os velhinhos aparecem curvados. Há uma imagem negativa que é transmitida.”
Foi por notar todas estas formas de discriminação, das mais colossais às mais subtis, e também por ter ficado de sobremaneira preocupado com o Estudo Portugal Mais Velho – conduzido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, em que se dava conta de que, apesar de termos cada vez mais pessoas mais velhas, “a idade continua a ser vista como um fardo” – que José Carreira, juntamente com outros dois colegas (um médico e um da área do marketing), decidiu pôr pés ao caminho. “Apesar de um quinto da população portuguesa ter 65 ou mais anos, pouco ou nada está a ser feito para que estas pessoas continuem a sentir-se incluídas”, alerta, como que a lembrar o mote para tudo isto. Assim, a 30 de abril, nascia o movimento Stop Idadismo Portugal, que se tem dedicado à realização de várias ações, entre as quais uma destinada à sensibilização em relação à violência contra a pessoa idosa e uma outra que decorreu durante a campanha para as eleições autárquicas do último domingo, 26 de setembro. “Contactámos todos os partidos dando conta da existência de uma resolução aprovada na Assembleia da República no sentido de promover o envelhecimento ativo [maio de 2021], perguntando-lhes que considerações queriam tecer sobre essas propostas e quais as medidas que tinham nos seus programas para contribuir para isso. Infelizmente, as respostas foram praticamente zero.” Estão ainda a apostar na criação de livros ilustrados sobre o tema para trabalhar junto das escolas.
“Uma peste à escala mundial”
José Carreira, que há 20 anos trabalha no setor social e tem estado particularmente atento ao tema do envelhecimento desde que em 2008 fez um trabalho académico sobre os maus-tratos às pessoas idosas, explica ainda que o movimento tem tratado, em parceria com organizações de outros países, de combater o que se considera ser um “paradoxo”. “No relatório divulgado no ano passado, a OMS concluiu que o idadismo está fortemente enraizado. Por outro lado, está proposto que a partir de 2022 a velhice seja considerada doença e incluída na Classificação Internacional de Doenças. Isto é surreal”, lamenta o também presidente das Obras Sociais Viseu.
Mas, afinal, o que pode ser feito para combater o idadismo que grassa e que leva Alexandre Kalache a falar numa “grande peste à escala mundial”? O especialista defende que é preciso fazer uma “ressignificação” do próprio processo de envelhecimento. “Pensarmos que quando somos mais velhos não fazemos o que fazíamos aos 30, mas que com 30 também não podíamos fazer coisas que fazemos hoje.” E apostar numa espécie de autoeducação, sublinha. “Pensarmos bem se queremos ser tratados da forma como estamos a tratar os mais velhos.”
Este será apenas o ponto de partida. Depois, claro, há todo um paradigma que é urgente mudar. A nível estatal, a nível institucional, a nível de políticas públicas. Até porque as consequências do idadismo são altamente gravosas. José Carreira realça isso mesmo. “Há danos ao nível da saúde e do bem-estar. Em muitos casos, a pessoa, fruto do estigma, interioriza que é um fardo para a família e acaba por se isolar. Muitas vezes, isto está de tal forma enraizado que acabamos a achar isso normal e não ativamos os nossos direitos. Há muita gente só, a viver numa solidão não desejada. E acho que em Portugal ainda não acordámos para isso.” O idadismo, frisa, tem por isso impacto na esperança média de vida. No limite, pode mesmo levar ao suicídio. José Carreira partilha até um exemplo internacional, bem ilustrativo da solidão a que os mais velhos podem acabar votados. “No Japão, já há quem cometa pequenos delitos para ir parar à prisão e ter com quem falar.”
9.8.21
Autárquicas. Estará o combate ao Idadismo nos programas dos candidatos?
É a terceira forma mais grave de discriminação, depois do racismo e do sexismo, segundo a ONU. O termo é ainda pouco conhecido em Portugal, mas o Movimento #STOPIDADISMO quer dá-lo a conhecer e esclarecer o seu significado.
Numa altura em que tanto se procura combater a discriminação, há uma de que raramente se fala: a discriminação em função da idade. O idadismo afeta sobretudo os mais velhos e os mais jovens – estes, por exemplo, na hora de procurar emprego.
Os grupos etários são atingidos a diversos níveis do quotidiano, umas vezes de forma mais visível, outras de modo mais inconscientemente.
Em vésperas de eleições autárquicas – e porque os municípios são os órgãos de poder mais próximos dos cidadãos – o Movimento #STOPIDADISMO contactou os partidos e os candidatos para saber se o tema está a ser contemplado nos seus programas e o que, na prática, pensam fazer.
O desafio “é tentar trazer o tema para a agenda mediática, perceber até que ponto é que os candidatos estão despertos para esta realidade e que propostas é que poderão ter para a construção de uma comunidade amiga de todas as idades”, justifica José Carreira, responsável do movimento em Portugal, em declarações à Renascença.
“Entendemos que os parceiros que são estruturantes e podem ajudar a coordenar as ações no terreno são os municípios. E eventualmente, têm capacidade de intervir mais rapidamente nas comunidades. É com base em programas comunitários que se pode fazer este caminho”, sublinha.
Da campanha global à ação local
No âmbito da Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem em curso uma campanha global contra o Idadismo. Assenta em três estratégias: política e legislação; intervenção educativa e intervenções intergeracionais.
Portugal aprovou, em 2016, uma Estratégia Nacional de Promoção do Envelhecimento Ativo Saudável, mas tarda a ser implementada no terreno. Face à nova realidade, já terá de ser reformulada. Isso mesmo admite a Resolução a Assembleia da República aprovada em maio e que recomenda ao Governo “a adoção de medidas de promoção do envelhecimento ativo e saudável e de proteção da população idosa no contexto da pandemia de Covid-19”.
Mais velhos são os mais atingidos
Há jovens que são discriminados no acesso ao emprego ou a determinadas funções, porque são considerados “demasiado novos” ou porque não têm experiência.
Muito frequentemente, têm contratos precários, ganham menos e sujeitam-se a piores condições de trabalho. Foi um dos grupos mais atingido pela pandemia, ao nível laboral.
Mas o idadismo torna-se mais fácil e recorrente em relação a pessoas mais velhas. Mesmo inconscientemente, muitos de nós acabam por considerar que já não têm idade para fazer determinadas atividades, ter responsabilidades maiores, para desempenhar determinadas funções.
Mais grave ainda, frisa José Carreira, é a autodiscriminação: “quando é a própria pessoa a achar que já não tem idade para isto ou para aquilo. Quantas vezes, influenciada pelo que ouve dos outros”.
Pandemia agravou discriminação
O líder do movimento #STOPIDADISMO em Portugal dá o exemplo da forma como os mais velhos foram tratados durante a pandemia: em diversos países, como Itália, os idosos com Covid-19 foram preteridos no acesso aos internamentos, o que aumentou o número de mortes nas faixas etárias mais elevadas.
Em Portugal, José Carreira refere a forma como foram tratados os idosos em lares. “Compreendo que era necessário tomar algumas medidas do ponto de vista da saúde, mas essas pessoas acabaram por ficar isoladas apenas e só porque têm determinada idade. Agora, já vacinadas, muitas continuam a estar fechadas e a ter as visitas bloqueadas porque já têm uma idade avançada e há risco”.
Para José Carreira, deviam ser criadas condições para que as pessoas, independentemente da idade, possam ser tratadas como pessoas a quem não são restringidos os direitos. “Por exemplo, neste período pandémico, querendo proteger os mais velhos, acabámos por prejudicá-los. Isso é evidente, pelo menos do ponto de vista mental, porque ficaram desconectados do mundo mais de um ano”.
Chama ainda a atenção para o facto de, através deste tipo de discriminação se fomentar a solidão e o isolamento, se perpetuarem práticas de maus-tratos a pessoas mais velhas, “exatamente porque perdem os seus direitos, a sua cidadania, o seu projeto de vida, ficam absolutamente vulneráveis. Todos os dias somos confrontados com vários exemplos de idadismo, uns são mais subtis; outros mais evidentes”, conclui José Carreira.
Para o dirigente do movimento esta é uma questão cada vez mais prioritária que exige discussão na sociedade. Portugal é um país cada vez mais envelhecido. Os primeiros resultados dos Censos 2021, recentemente divulgados, confirmam essa realidade: em dez anos o país perdeu 200 mil habitantes. “São necessárias decisões políticas e medidas que respondam a esta realidade”.
Combate ao idadismo tem de começar na escola
Para José Carreira, a mudança de mentalidade tem que começar bem cedo. “Desde o 1.º ciclo ou até no pré-escolar” é preciso trabalhar estas questões do ponto de vista da Educação para a Cidadania.
“Tendo em conta que as autarquias têm cada vez mais competências e responsabilidades quer na área da Educação quer nas Políticas Sociais, são parceiros privilegiados para mudar o paradigma, que prejudica tanto as vítimas como a própria comunidade”, defende.
Além disso, José Carreira considera que deviam ser lançadas campanhas de sensibilização para os direitos das pessoas de todas as idades, “eventualmente, ao nível nacional”.
E sublinha o papel dos media na denuncia das práticas idadistas e das formas de as evitar: “era muito importante ter os media como aliados na promoção de uma linguagem inclusiva e de uma comunidade amiga de todas as idades”.
Mas também a publicidade, que ainda tem – tendencialmente – um discurso idadista, associando os mais velhos às ideias de incapacidade, dores, de necessidade de produtos de higiene específicos ou cremes que reduzam as rugas, especialmente no caso das mulheres”, sublinha o responsável do Movimento #STOPIDADISMO.
Isto leva a outro combate a travar nos próximos tempos: o de tentar evitar que a velhice seja classificada como “doença”, como está previsto para a nova classificação internacional, a fazer em 2022.
“É certo que há algumas perdas, mas temos de festejar o aumento da esperança de vida, vê-la como uma conquista da ciência e da saúde e não como algo negativo e improdutivo”, salienta.
Das cartas enviadas aos partidos, o Movimento já recebeu resposta do PSD e da Iniciativa Liberal, garantindo que o pedido foi encaminhado aos candidatos dos respetivos partidos.
9.6.21
COMBATER O PRECONCEITO CONTRA OS MAIS VELHOS
O Presidente do Centro Internacional da Longevidade e ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), o brasileiro Alexandre Kalache afirma que o idadismo, preconceito contra as pessoas mais velhas, é “uma grande peste à escala mundial” que importa combater.
O Presidente do Centro Internacional da Longevidade e ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), o brasileiro Alexandre Kalache afirma que o idadismo, preconceito contra as pessoas mais velhas, é “uma grande peste à escala mundial” que importa combater.
Considera que o idadismo é mais frequente nos países ocidentais, mas está a aumentar nos países orientais, com o desaparecimento do respeito e reverência pelos mais idosos e reflete-se nas pequenas brincadeiras do quotidiano, na infantilização ou em estereótipos associados à idade que menorizam a importância do idoso. “A pessoa vai perdendo o autorrespeito, a autoconfiança, ao não se parar para ver o que é que aquela pessoa idosa quer, qual é o protagonismo que ela pode ter na sociedade“, criticou o médico e académico brasileiro.
Por isso é urgente promover um novo significado da velhice, dando bases e ferramentas ao idoso para ser autossuficiente, com comportamentos para um envelhecimento ativo, não abdicando dos seus direitos. Alexandre Kalache afirmou existir uma “ilusão da juventude eterna” que provoca uma falta de empatia para com os mais velhos.
Alexandre Kalache alerta estar em curso “uma revolução” que é o envelhecimento populacional, uma vez que as estimativas apontam para que, nos próximos 50 anos, o único grupo etário que vai aumentar é o dos maiores de 70 anos e a população com mais de 80 anos vai aumentar 27 vezes neste período. “A realidade do envelhecimento hoje é diferente, os sistemas de saúde já não podem contar com uma família cuidadora“, alertou o académico, afirmando que “quanto mais cedo melhor, mas nunca é tarde demais” para corrigir hábitos de vida que permitam “manter a capacidade funcional” e “estar acima do limiar da dependência“.
Para ajudar a mudar mentalidades, Kalache adiantou a intenção de lançar uma Liga Ibero-Americana Contra o Idadismo., com o objetivo de difundir campanhas que combatam o preconceito contra os mais velhos.Esta possibilidade foi abordada em março e o projeto está em desenvolvimento, aguardando o patrocínio de uma multinacional e com o envolvimento da Organização de Estados Ibero-Americanos com sede em Madrid, e organizações da sociedade civil. Em Portugal mostraram interesse a Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, a Gulbenkian, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e investigadores na área, com ligações a outras entidades.
3.5.21
Nasceu o Movimento que quer acabar com a discriminação pela idade
O #StopIdadismo pretende combater a discriminação dirigida, sobretudo, à população mais velha. ONU já considera a idade como a terceira forma de discriminação mais grave, depois da raça e sexo.
Vamos Falar de Idadismo foi o tema da Conferência Internacional que assinalou o lançamento do Movimento #StopIdadismo, em simultâneo, em dez países: além de Portugal (que organizou o evento online) Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, El Salvador, México, Panamá e Venezuela.
Mas foi em Espanha, pela mão da especialista em Inovação Social, Laura Cañete, da Fundação Asispa, que a iniciativa começou, no final do ano passado.
Na conferência de sexta-feira, referiu que o Idadismo, em Espanha, está muito enraizado, mas as pessoas nem têm consciência de que algumas atitudes – nomeadamente, o paternalismo excessivo, a infantilização as conversas com os mais velhos ou a ideia de que já não podem executar diversas tarefas – podem ser uma forma de discriminação, de os desvalorizar.
Por isso, a ações já adotadas passam por organizar encontros ou participar em programas na comunicação social em que se dá a conhecer essa realidade. Laura ambiciona que este movimento se torne “planetário” e tão conhecido como o Me Too.
Por enquanto, mais dez países ibero-americanos aderiram. Em Portugal, o Movimento “StopIdadismo é liderado por José Carreira, antigo presidente da Alzheimer Portugal, especialista nas questões do envelhecimento e diretor da revista “Envelhecer”.
Espera que o número de adesões cresça rapidamente, porque o problema é global. Isso mesmo sublinhou o Presidente da República, que enviou uma mensagem de apoio e incentivo ao movimento.
“A discriminação em função da idade atinge toda a sociedade e não apenas aqueles que são vítimas. É um problema global, que o momento veio tornar mais real. A pandemia veio agravar as perceções negativas e os estereótipos sobre a idade. E enquanto sociedade, é fundamental nos mobilizemos para os combater, valorizando a experiência dos mais velhos e promovendo o diálogo intergeracional”, referiu Marcelo Rebelo de Sousa na sua mensagem.
O #StopIdadismo é o nome do movimento que pretende combater a discriminação em função da idade e que atinge, sobretudo, a população mais velha. As Nações Unidas consideram que é a terceira forma de discriminação mais grave, depois da raça e sexo.
Vamos falar de Idadismo
Este é o desafio e mote da campanha que José Carreira lançou. É um convite a que, quem quiser, faça um pequeno vídeo com o telemóvel, respondendo a três perguntas simples:
Alguma vez foi discriminado pela idade?
Que razões podem motivar essa discriminação?
Como podemos combater o Idadismo?
Depois deverá ser enviado para info@Stopidadismo.pt
É uma forma de conhecer as práticas e de cada um conhecer melhor as nossas atitudes discriminatórias, conscientes ou não. “É a melhor forma de pôr termo a esse tipo de preconceito e construir uma sociedade para todas as idades.
Um relatório recente das Nações Unidas revela que, pelo menos, uma em cada duas pessoas já teve atitudes idadistas. A ONU recomenda que os governos adotem políticas públicas e sociais para combater este preconceito já que esta discriminação contribui para o aumento da pobreza e da insegurança económica das pessoas na velhice, aumentando o isolamento social e a solidão dos idosos.
António Ferrari, assessor de comunicação da ONU para Portugal frisou que, além disso, este tipo de marginalização custa muitos milhares de milhões de dólares aos países. No caso dos Estados Unidos, são cerca de 63 mil milhões de dólares/ano. E calcula-se que há cerca de 6 milhões de casos de depressão associados ao Idadismo.
No início da década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), as Nações Unidas consideram também muito preocupante a falta de estatísticas credíveis em relação aos idosos.
Para António Ferrari, nunca foi tão urgente falar de Idadismo e de o colocar no topo das prioridades políticas.
Ainda assim, a ONU recomenda também ações educativas e atividades que reforcem a solidariedade intergeracional.
Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade do Brasil e antigo diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), é considerado o “pai” do Envelhecimento Ativo e foi outro dos participantes no evento.
Kalache manifestou uma “inveja sadia” dos portugueses, que receberam apoio do seu Presidente, ao contrário do que acontece com Bolsonaro e o seu Governo, no Brasil, que desprezam os mais velhos, nomeadamente no acesso aos cuidados de saúde em plena pandemia.
O gerontólogo diz que o Idadismo, à semelhança do que acontece na maioria dos países, também é um conceito pouco conhecido no Brasil. Mas frisa que leva à exclusão social e à desigualdade.
E, apesar de não ser exclusivo desses grupos, os pobres, negros, com baixo nível educacional, velhos e se, ainda por cima se forem mulheres e tiverem alguma incapacidade, estão numa situação mais vulnerável.
Para dar mais força ao movimento, e para começar, Alexandre Kalache popôs a criação de uma Liga Ibero-americana contra o Idadismo.
A discriminação mais frequente
Também a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade participou nesta conferência que lançou o Movimento #StopIdadismo. Rosa Monteiro considera que “este é um momento muito oportuno pra desconstruir este tipo de discriminação, uma das formas mais praticada, mas menos reconhecida”.
E lembrou que ela está presente em várias situações, nomeadamente, no mercado de trabalho, quando as empresas dispensam os trabalhadores mais velhos – normalmente porque ganham mais – desvalorizando a sua experiência e conhecimento. Os mais velhos ficam assim mais vulneráveis face ao despedimento.
Por outro lado, as mulheres, com maior esperança de vida, acabam por ter um menor número de anos com saúde. E estão sujeitas a outros fatores de desigualdade, como salários mais baixos e, por vezes, carreiras contributivas mais reduzidas, que levam a pensões que não lhes garantem o mínimo necessário a viver com dignidade.
Não é por acaso que o ano passado, cerca de 70% dos beneficiários do Complemento Solidário para Idosos foram mulheres. Elas, em média, têm pensões 27% mais baixas que as dos homens.
Rosa Monteiro referiu que o Governo tem diversas políticas públicas que tentam reduzir estes riscos e considera que o debate sobre o Idadismo é muito oportuno.
11.12.17
Marcelo diz que ainda existem importantes limitações nos direitos humanos, como a pobreza
O Presidente da República realçou hoje que Portugal tem “dos mais elevados níveis de respeito” pelos Direitos Humanos, mas existem ainda “importantes limitações”, como a pobreza, que merecem atenção, referindo também a morosidade do sistema judicial.
“Atingimos dos mais elevados níveis de respeito pela pessoa e pelos Direitos Humanos, em Liberdade e Democracia, mas há ainda importantes limitações, como a pobreza, e outras ameaças para as quais devemos estar atentos e vigilantes, cumprindo as exigências do Estado de direito democrático e social que nos orgulhamos de ser”, refere uma mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa divulgada no sítio da internet da Presidência da República.
Para assinalar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, que hoje se comemora, o Presidente da República escolheu igualmente falar do “problema da Justiça”.
“Saliento também o problema da justiça, da confiança dos Cidadãos e da morosidade do sistema judicial. Uma justiça tardia não é justa nem digna do país desenvolvido que somos e aspiramos a ser cada vez mais”, apontou.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, desde 10 de dezembro de 1948, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, “registaram-se progressos notáveis na salvaguarda dos Direitos Humanos em todo o planeta”, mas também “houve retrocessos inesperados, e surgiram novas ameaças à dignidade da pessoa humana em vários pontos do globo”.
Os avanços tecnológicos, por exemplo, “suscitam problemas quanto à defesa da privacidade e à intimidade de cada qual”, continuou.
Nos países mais desenvolvidos, onde o envelhecimento da população “é uma realidade incontornável, a sustentabilidade dos sistemas de apoios sociais encontra-se sob grande pressão, do mesmo passo que surgem novas formas de discriminação quanto à chamada ‘terceira idade’, a ponto de muitos falarem já de ‘idadismo’, um fenómeno de exclusão e marginalização dos mais velhos semelhante ao racismo, ao sexismo ou à xenofobia”, realçou ainda o Presidente da República.
Acrescentou que esta última “pode vir a aumentar nos países da Europa -- e não só --, mercê do afluxo de refugiados e do crescimento de movimentos radicais e lideranças populistas”.
O Presidente da República faz questão de agradecer a todos os cidadãos e organizações da sociedade civil que se empenham a favor dos Direitos Humanos.
1.8.17
Governo quer adaptar urgências dos hospitais aos doentes idosos
É preciso preparar os serviços de urgência para fazerem a triagem dos doentes idosos de forma adequada. ?E adaptar os tempos de espera, diz um dos responsáveis pela Estratégia para o Envelhecimento Saudável.
É preciso adaptar os serviços de urgência hospitalares aos doentes idosos, criando um sistema de diferenciação positiva no atendimento e adaptando a triagem logo à entrada. São medidas propostas na Estratégia Nacional para o Envelhecimento Activo e Saudável, um documento que foi divulgado nesta e que preconiza uma reorientação do sistema de saúde para o atendimento das necessidades das pessoas com 65 ou mais anos, que representam já mais de um quinto da população portuguesa.
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A ideia não é ter urgências específicas para as pessoas idosas, à semelhança do que desde há anos existe para as crianças (urgências pediátricas). “Não é necessário chegar a esse extremo, mas é preciso preparar as urgências para triar os doentes idosos de forma adequada, adaptar os tempos de espera e também nunca os deixar desacompanhados”, explicou ao PÚBLICO o coordenador da reforma nacional para os cuidados continuados, Manuel Lopes, que integrou o grupo responsável por este documento — que vai estar em discussão pública durante um mês.
São, sublinha, “medidas de diferenciação positiva para pessoas com necessidades diferentes”. O actual sistema de triagem nos serviços de urgência dos hospitais “é muito bom, mas foi pensado para adultos com doença aguda, não foi idealizado para doentes com comorbilidades [várias patologias]”, nota.
“Um idoso pode ter que esperar muitas horas na urgência e essas horas podem revelar-se fatais, porque ele se infecta mais, cai mais, desenvolve mais feridas”, sintetiza Manuel Lopes. Por isso se preconiza também na estratégia que os mais velhos possam ter sempre um familiar ou um cuidador a acompanhá-los nas urgências hospitalares.
No documento propõe-se ainda a criação de um programa de vigilância, que institua um registo de avaliação da funcionalidade e um sistema de “bandeiras vermelhas” que sirvam de alerta — por exemplo, sempre que há um recurso frequente às urgências, faltas sucessivas a consultas ou sinais de negligência.
A sinalização e a justificação dos casos de idosos que tomam mais do que cinco medicamentos é outra das medidas previstas no plano, que prevê ainda a criação de um programa de vigilância de saúde específico, que pode passar por “avaliações regulares para a detecção precoce de défices funcionais, défices psíquicos ou doenças crónicas” logo a partir dos 50 anos.
Médicos devem justificar casos de idosos que tomam mais de cinco medicamentos
Médicos devem justificar casos de idosos que tomam mais de cinco medicamentos
No caso de doentes com várias patologias sugere-se a adopção de um plano individual de cuidados. Um plano que deve ser delineado pelos profissionais de saúde (médicos ou enfermeiros) em conjunto com o cuidador informal e o próprio doente, explica Manuel Lopes.
Muito ambiciosa, esta estratégia inclui medidas que vão para além da Saúde e que passam pela Educação e a Segurança Social, entre outros sectores. “É preciso olhar para o envelhecimento não como um problema, mas como um desafio”, enfatiza o coordenador da reforma nacional para os cuidados continuados integrados, que destaca, a propósito, o papel das autarquias. Nomeadamente na preparação e adaptação de passeios e zonas pedonais, de maneira a facilitar a deslocação dos mais velhos, ou na criação de tempos de semaforização adequados, exemplifica.
Na Educação, propõe-se que os programas e metas curriculares incluam a valorização das pessoas idosas, de forma a combater o idadismo (discriminação pela idade) e os estereótipos. “O envelhecimento surge habitualmente associado à perda de capacidades, isolamento, solidão. O idadismo é favorecido também porque as relações intergeracionais estão prejudicadas e é complicado fazer com que os mais jovens compreendam que o envelhecimento é uma fase natural da vida. Portanto, é necessário actuar junto das escolas e junto do público em geral para que se torne claro que ser idoso não é uma calamidade. É preciso recuperar o respeito pelos mais velhos”, diz.
Para se promover uma imagem positiva, sugere-se até a aposta em projectos que juntem as várias gerações e o investimento em campanhas públicas. Outras propostas passam pelo investimento no movimento de universidades seniores, mas vai-se mais longe, sugerindo o desenvolvimento do “Erasmus Sénior”. “Por que não haver intercâmbios no espaço europeu”, à semelhança do programa que existe para os jovens? — pergunta Manuel Lopes.
26.1.17
"Ó cota, que estás aqui a fazer?"
Idadismo. Vem do inglês "ageism" e é o nome que se dá à discriminação de quem é considerado "demasiado velho para". A partir de que idade somos "demasiado velhos?" O que é "saber envelhecer"? O que sucede a quem resiste à norma? E porque é que, como Madonna denuncia, é tudo muito pior para as mulheres?
Quem frequenta o Lux-Frágil, a discoteca lisboeta junto a Santa Apolónia, já se habituou a vê-lo. O João dança, dança, dança, rodopia, salta, braços em desenhos ritmados abrindo, à volta, um círculo de admiração. Normal, as pessoas vão às discotecas para dançar - as que não vão para ficar ali a olhar quem dança. Mas nele toda a gente repara, os que olham e os que dançam, e não é só por dançar tanto e tão bem, por tantas mulheres virem ter com ele para duetos mais ou menos prolongados, ou por ao longo da noite ir mudando de roupa, de cada vez que o suor empapa a T-shirt, às vezes ali mesmo no meio da pista.
"Não há nenhuma noite em que não me perguntem dez vezes que idade tenho, de onde me vem a energia. Os mais ordinários dizem: "Ó cota, o que é que estás aqui a fazer?" Às vezes incomodam e dizem frases absurdas. E ao segundo incómodo chateio-me mesmo. No Lux sinto-me um bocado protegido, porque sou muito antigo lá. Mas não é muito frequente ter de recorrer à segurança."
O João tem 67 anos e Botelho de apelido. É um dos grandes realizadores de cinema do país (Conversa Acabada, Um Adeus Português, Tempos Difíceis, Os Maias), mas estas pessoas que o estranham não sabem disso, só que é um homem de cabelo branco e que podia ser, talvez, seu avô. "A ideia que eles têm, claro, é de que não pertenço ali. E como a envolvente muitas vezes são mulheres mais jovens e bonitas há quem fique incomodado. Tem a ver com não me comportar corretamente, de acordo com os códigos sociais. O comportamento dito correto das pessoas da minha idade: andar-se muito sisudo, triste, à espera de morrer... Ora eu acho que as pessoas não se devem comportar de acordo com o que se espera delas, devem fazer o que quiserem com um único limite: não incomodar os outros."
Invoca Nietzsche e o seu "só acredito num deus que saiba dançar": "É uma coisa de vitalidade. O Eros é mais forte do que o Tanatos. Não recomendo isto a ninguém, não é exemplo. Mas acho que as pessoas devem viver até ao fim, estamos na terra para fazer coisas. E quando deixam de fazer começa a ser um pesadelo."
"Não te esqueças de que és avó"
No Lux, ou noutros lugares de dança, não é comum ver pessoas da idade de João, mas ainda assim vão aparecendo uma aqui, outra ali. Homens. E mulheres? O cineasta reflete: "No outro dia vi duas senhoras, mas é raro." Uma mulher de quase 70 anos a dançar noite fora no Lux, como seria? A escritora e crítica literária Helena Vasconcelos, de 67 anos, não pode saber; há mais de uma década que ela, frequentadora de primeira hora do Frágil do Bairro Alto, deixou de fazer noitadas de dança. Mas sabe que às vezes as netas, de 14 e 16 anos, lhe dizem: "Não te esqueças de que és avó. Já és uma senhora de idade e estás aqui a dançar no meio da sala." Ri. "Elas se calhar têm a expectativa de que me comporte como uma velhinha. Mas outras vezes dizem-me: "Quero ser como tu." É complicado para elas perceber que sou uma pessoa que já foi fotografada nua, confrontarem-se com as fotos do Julião [Sarmento, artista plástico com quem Helena viveu e de quem foi modelo em inúmeras obras]. E até uma grande amiga já me disse: "Não estás a aceitar o envelhecimento, vestes minissaias." Muita gente, se calhar a maioria, conforma-se com o que é esperado. Mas essa imposição, essa pressão social, é sem dúvida muito mais violenta para as mulheres."
Uma imposição que é também uma exclusão: tens de te portar de acordo com a tua idade; portares-te de acordo com a tua idade é ficares invisível, desaparecer, abandonar certas atitudes, atividades, vestimentas, desejos, seres discriminada em determinadas profissões, até despedida; se não te portares da forma que é considerada adequada à tua idade diremos que não sabes envelhecer, que és patética. Aquilo que, sob a denominação de ageism ("idadismo"), mulheres como Madonna (58 anos) e a atriz de O Sexo e a Cidade Kim Cattrall (60 anos) têm denunciado com veemência.
Cattrall diz que o envelhecimento é um tabu, fala do desaparecimento das mulheres da idade dela nas séries e nos filmes e no facto de sentir que alguém que como ela "quer ser sexual até poder" é visto como uma aberração. No mês passado, no seu discurso de aceitação do prémio de mulher do ano da revista Billboard, um discurso em que pelo menos duas vezes alguém que nos habituámos a ver sempre tão dura e segura chega às lágrimas - Madonna falou do que é ser mulher, pop star e a caminho dos 60 (fez 58 em agosto): "Obrigada por reconhecerem a minha capacidade por continuar com a minha carreira por 34 anos desafiando a misoginia galopante, sexismo, bullying constante e agressão permanente. (...) Envelhecer é um pecado. Vais ser criticada, vais ser vilipendiada e, definitivamente, não passarás na rádio."
"É como se deixássemos de existir"
Na voz fresca e sorridente que é a sua marca, a cantora Lena d"Água, 60 anos, assente. "Nem é preciso as mulheres chegarem a uma certa idade para serem discriminadas. Ainda agora o Público, na edição sobre 2017, fez aquela capa com os cronistas só homens. Olhamos para os festivais de música e só vemos homens. E como as mulheres são coisificadas, a partir dos 35-40, quando deixamos de ser objetos de desejo, é como se deixássemos de existir. Nos homens o mau aspeto, serem gordos, carecas, não tem importância, continuam a encher salas. E isso irrita-me." Mas, prossegue, "com a Madonna tenho uma relação difícil. Tenho imensa admiração por ela por produzir, por controlar, pela atitude, pela duração da carreira. Mas ela faz playback nos concertos. E diz essas coisas sobre o envelhecer mas faz coisas à cara. Queixa-se de as mulheres serem discriminadas por causa da idade mas ela própria não lida bem com a idade".
Paradoxalmente, Lena d"Água vê-se "numa fase de súbito reconhecimento do meu trabalho, por músicos novos que dizem que os pais e os irmãos mais velhos tinham os meus discos". Está a preparar um disco com as bandas They"re Heading West e Benjamim e tem mais umas novidades excitantes em carteira (ainda são segredo). "Os meus pares da minha idade nunca quiseram saber de mim para nada, mas os miúdos descobriram-me. Tenho esta coisa, que as pessoas chamam maluquice, que é ser um bocado criança... Olho para o espelho e vejo uma mulher de certa idade, mas se não olhar não é assim que me sinto."
A tragédia de envelhecer não é sermos velhos, mas sermos novos, escreveu Oscar Wilde. Helena Vasconcelos sorri. "Quando envelhecemos não temos noção de como aparecemos aos outros. Mas alguém diz de Iggy Pop, que aos 69 continua de tronco nu nos concertos, que não sabe aceitar o envelhecimento? Ou do Keith Richards, dos Stones? Fosse uma mulher de tronco nu com aquela idade era apedrejada. Dir-se-ia "que nojo, cubra-se". É a ideia de que a mulher tem de ser respeitável. E uma mulher que deixa de ser fértil e continua a manter atitude e aspeto de jovem é alguém fora do sistema."
"A relação do mundo comigo mudou"
Mónica Calle, atriz e encenadora, 50 anos, está nesse lugar. Na peça atual, diz: "Estou na menopausa e continuo a sentir desejo e a querer ser desejada." É, explica, "um espetáculo que tem a ver com depoimentos pessoais, e esta é uma questão minha e aqui estou a trabalhar mais neste momento: o que é o envelhecimento? O meu trabalho passa por ir questionando a minha vida e ajudar-me a resolver algumas coisas. Estou na menopausa, decidi que não ia pintar mais o cabelo... E a minha relação com o mundo mudou. Sobretudo a relação do mundo comigo. Mas sou uma mulher que não deixou de sentir-se atraente, que continua a ter sexualidade, aliás sinto-me muito mais livre e sensível do que nunca. O que parece uma contradição, porque sempre nos disseram que a menopausa e o cabelo branco eram o fim".
A contradição existe também ou sobretudo no olhar dos outros: "Há o choque de ser óbvia a minha idade, de não estar a disfarçar, e ao mesmo tempo assumir a minha sexualidade, a minha liberdade. Separei-me, tenho relacionamentos ocasionais, amantes. É como se não encaixasse na ideia de uma mulher de 50 anos. Como se uma mulher continuar a afirmar-se sexual não fizesse sentido. Isso tem muito a ver com a ideia das mulheres como objetos de desejo e não seres desejantes. Porque é que, por exemplo, se acha normal ver homens com mulheres muito mais novas e ao contrário não? Ou por que é que uma mulher "conhecida" num site de encontros é um escândalo, quando aquilo está cheio de homens "conhecidos"? É a ideia de que as mulheres não procuram sexo ocasional, sexo porque sim, que não são autónomas nisso."
Mas o idadismo aplicado às mulheres não se atém a moralismos. Não poupa nem alguém como Patti Smith, inquestionavelmente uma das figuras determinantes do pop-rock do século XX, 70 anos feitos a 30 de dezembro, e o avesso da ideia do sex symbol e da "rapariga gira":"Quando ela foi receber o Nobel pelo Dylan vi um comentário em que se dizia que estava "velha e desgastada" e não devia aparecer. Fiquei estupefacta a olhar para aquilo", conta Calle.
"Devia haver workshops para isto"
Como se uma mulher devesse, a partir de "uma certa idade", desaparecer, ficar longe dos olhares. Foi o que fizeram, lembra Herman José, Dietrich e Garbo. "E temos o caso português da Maria de Lurdes Resende, uma artista que está de ótima saúde, mas que foi ao meu programa em 1994, disse que não gostou de se ver e nunca mais apareceu. Tinha 67 anos." Herman, de 62, dá uma gargalhada. "Não lhe apeteceu mais compartilhar a carcaça."
E se, diz, "há um estatuto de exceção para os humoristas e para os pândegos - ninguém se lembra de que o Quim Barreiros tem 70", assume que o tema o assombra. "Um dia, encontrei o meu pai muito triste a olhar para o espelho. Disse-me que não se reconhecia. Não tenho dúvidas de que daqui a uns anos vou olhar para o espelho e como o meu pai não me vou reconhecer." Como lidar com isso? "O envelhecimento é como uma pirâmide. À medida que se avança são cada vez menos os que resistem. Devia haver workshops para a arte de bem envelhecer. Sobretudo para os artistas, porque para nós é ainda mais penalizador. E mais ainda nas mulheres, porque o peso do lado físico nelas é percentualmente maior." O caso de Madonna, porém, parece-lhe simples de entender: "Não é uma música, é uma rapariga que canta. Quando abre a boca não espanta nenhum músico. As verdadeiras artistas não têm esse problema. Ela faz um esforço desmedido para se manter jovem, porque não é uma Martha Argerich ou uma Maria João Pires - quando se sentam ao piano, ninguém se lembra de que idade têm." E para o criador do "verdadeiro artista" Serafim Saudade, como é? "O palco é generoso. Sinto no palco o mesmo que no YouTube: ou se tem graça ou não se tem, ou se é giro e se tem força ou não. Ficamos todos com a mesma idade. Há artistas nos EUA em tournée com 90. A Elza Soares [cantora brasileira entre os 79 e os 86 - não se sabe] faz espetáculos sentada numa cadeira, o Jerry Lewis também. Já a TV é cruel; faz-se um grande plano e é "olha as rugas e o estado em que tem o pescoço"."
Talvez, afinal, não haja nenhuma maneira de "envelhecer bem"; talvez, como diz o protagonista de The Straight Story, de David Lynch, não haja nada, rigorosamente nada, de bom em envelhecer. Mas, já que tem de ser, ao menos que cada um, defende Helena Vasconcelos, possa sentir-se livre para decidir a forma, o ritmo, o modelo: "Continua a haver muitos preconceitos. Muito mudou mas muito continua na mesma. As pessoas devem poder escolher como querem viver, sem serem alvo de pressão e de uma brutal censura social."


