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31.7.23

Mais de um quarto dos jovens em Portugal está em risco de pobreza ou exclusão social

Edgar Nascimento, CM

Ganham menos que os europeus e saem mais tarde de casa dos pais. A maior parte dos que trabalham têm contratos temporários. Taxa de desemprego é de 19%.
Mais de um quarto dos jovens em Portugal, entre os 15 e os 24 anos, está em risco de pobreza ou de exclusão social. Os dados, revelados hoje pela Pordata, a propósito da Jornada Mundial da Juventude, revelam que o risco de pobreza ou de exclusão afeta 246 mil jovens.

Há 25 mil que recebem rendimento social de inclusão e 5 mil com subsídio de desemprego.

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14.7.23

Idosos, uma maioria menorizada exposta ao risco de pobreza

António Pedro Pereira, in Público online

Com apoio familiar, Delfina consegue evitar sobressaltos, ao contrário dos amigos em dificuldades. Serzedelo diz-se “privilegiado”, mas luta contra o idadismo e por uma vida digna para a sua geração.

Junto à Sé de Braga, no Centro de Dia da Associação de Solidariedade Social, Cultural e Recreativa de Santa Maria, Delfina Ferreira Mouta, de 79 anos, está limitada fisicamente devido a um problema na coluna cervical que a impede de grandes movimentações. Tendo trabalhado décadas como vendedora de uma loja de máquinas de costura, mais alguns anos na limpeza de um estabelecimento comercial, está reformada há cerca de 15 anos. “Reformei-me aos 66”, conta Delfina, que tem uma reforma de 370 euros. “É muito baixa. As reformas deviam ser aumentadas”, alerta.

Com a ajuda da família, Delfina tem uma vida sem grandes sobressaltos. “Fui educada a poupar e só gasto no essencial”, recupera. Esse exemplo de aforro vindo dos pais ajuda-a, mas é o apoio familiar que lhe permite escapar a um quadro de indignidade que afecta, pelo menos, um em cada cinco pensionistas em Portugal (são cerca de três milhões). “O meu marido morreu há pouco mais de um mês, chamava-se José Dias Ferreira e trabalhou a vida toda na Casa Salsa [fábrica de ferragens]. Com a reforma do meu marido, que é de 450 euros, a coisa compõe-se”, explica. Com pouco mais de 800 euros mensais, Delfina teve uma grande ajuda que lhe resolveu um dos grandes problemas para os idosos – a habitação. “O meu filho comprou a nossa casinha”, diz, com orgulho.

No entanto, sabe que a sua situação é bem diferente da de muitos da sua geração. “Tenho amigos que vivem com muitas dificuldades. O problema é o dinheiro, as reformas são muito baixinhas...”, sublinha.

Com uma reforma acima da média, António Serzedelo, por seu lado, centra as suas preocupações na luta contra as discriminações da sua geração – das “reformas pequeninas” à “solidão”, é o idadismo (tratamento negativo baseado na idade, especialmente em relação às pessoas mais velhas) que o leva a redobrar a força cívica por entre as várias frentes de combate social que marcaram e ainda marcam a sua vida.

“Tenho plena consciência dos enormes problemas que os idosos enfrentam, das dificuldades básicas em pagar contas ou ter acesso a cuidados de saúde, ao isolamento e exclusão a que são votados”, afirma António Serzedelo, de 78 anos, rosto do activismo político e cívico – é o conhecido fundador da Opus Gay, associação de defesa dos direitos LGBT. Tendo uma vida digna e complementada por uma “boa reforma” de professor do secundário em Lisboa durante mais de 40 anos, não se conforma com a sua situação de privilégio por comparação com uma larga fatia de idosos que mal consegue pagar as contas médicas, lutando por melhores condições para todos e acolhendo, durante largos períodos, pessoas em sua casa que passam por situações de grande fragilidade e exposição ao risco – afinal, um quinto dos cidadãos com 65 ou mais anos está em quase ruptura social e sem condições para chegar ao fim do mês.

“Seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado”, dispara. “A minha reforma anda à volta dos 2000 euros mensais”, revela, acrescentando que sabe perfeitamente que é um valor, face ao panorama das pensões, “de rico”.

“Sim, seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado face aos problemas que afectam os idosos. Porque tive uma boa educação, porque viajei, enfim, conheci mundo e grandes figuras da cena mundial”, complementa.

Enquanto Delfina divide o seu tempo entre a sua casa, os filhos (o mais velho com 55, a mais nova com 49) e o centro de dia, condicionada pelo problema na cervical, António Serzedelo continua activo. Tem uma vida plena de acção, entre o activismo político, pela cidadania, pelas mulheres, pela comunidade LGBT+ (foi fundador da Opus Gay em 1997), pelas pessoas com deficiência. Tem uma reforma que, “para a pobreza de Portugal”, “é quase de rico”, vive num bairro que “agora é da grande burguesia”, não enfrenta dificuldades de maior no acesso à alimentação, aos cuidados médicos, à energia para se manter protegido. Ou seja, tem quase tudo o que lhe permite evitar cair numa situação crítica de exposição ao risco de pobreza e exclusão social que afecta mais de um quinto deste grupo etário (20,5 por cento, de acordo com números de 2022 do Instituto Nacional de Estatística).

Vive dignamente, mas não alienado. “Noto os preços a subir, nas contas e no supermercado. E tento comprar coisas mais em conta. Gasto mais com os dois gatos e com o cão do que comigo. Eles são mais esquisitos, eu adapto-me a qualquer coisa”, conta o antigo militante do PS (“com o cartão número dez”), às voltas com um processo “demoradíssimo” de refiliação no partido a que aderiu há 44 anos. Foi vereador suplente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-vogal e conselheiro da Junta de Freguesia de Arroios.

António Serzedelo, que foi também jornalista no Diário de Notícias e na revista Telesemana, tem colaborado com associações cívicas contra o idadismo – termo que em Abril deste ano entrou no Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa como definição de “atitude de discriminação e preconceito com base na idade”. Particularmente, o que atinge os idosos.

“Trabalho com algumas associações anti-idadismo. E estamos a propor algumas medidas, como, por exemplo, uma Secretaria de Estado dos Idosos, que concentre num só edifício a gestão de todos os departamentos para este grupo etário. Cheguei a propô-la a uma alta figura do Governo, porque este grupo é o que mais recursos gasta ao Estado, mas disse-me que ia pensar e, alguns anos depois, ainda está a pensar”, revela Serzedelo.

No limiar da exclusão social

Segundo o relatório Portugal, Balanço Social, “em 2021, 20,9% dos indivíduos com mais de 65 anos encontravam-se em situação de privação material e social (38,8% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza). Nesta faixa etária, 8,7% da população estava em situação de privação material e social severa (19,9% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza)”, sendo que este é, actualmente, de 551 euros mensais.

Joaquina Madeira socorre-se de dados do Instituto Nacional de Estatística, mas de 2022, para sublinhar que “o risco é, no entanto, claramente mais elevado quando olhamos especificamente para os mais velhos, nomeadamente para a população com 75 ou mais anos cujo risco de pobreza ou exclusão social foi de 22%”, regista a vice-presidente da EAPN Portugal (Rede Europeia Antipobreza). “A privação material e social severa é outro indicador que devemos sublinhar, devido a forte vulnerabilidade da população mais velha. É na população com 65 anos ou mais que encontramos a maior taxa de privação material e social severa: 7,1% da população nessa faixa etária comparativamente com 4,9% das crianças e 4,7% dos adultos entre os 18 e os 64 anos”, acrescenta.

Solidão agravada para os gays

“Tento continuar a ser activo e activista, na área da cidadania, na área do idadismo e na área LGBT”, prossegue o também radialista, que teve durante anos, a partir de 1999, um programa sobre temáticas LGBT na Rádio Voxx – Vidas Alternativas – e participa actualmente numa conversa semanal, às segundas-feiras (17.00 de Lisboa) no Alternativas Brasil Portugal, uma rádio online do Recife, Brasil.

“Tenho 78 anos e há 20 anos já estaria morto, porque a esperança média de vida era mais baixa. Estive na origem da Opus Gay, defendendo os direitos dos homossexuais, mas depois passei a defender as mulheres, e sobretudo as mulheres lésbicas, porque eram ainda mais discriminadas, e a organização mudou para Opus Diversidade, para abranger outras populações, como os transexuais. Eu já morei com duas ‘trans’, que até no meio homossexual são discriminadas”, alerta António Serzedelo.

“Vivo um pouco angustiado com a exclusão social que certos grupos estão a pregar [aos portugueses]. Se um quarto dos estrangeiros fosse embora, Portugal parava. E não é uma metáfora, é literal”, acusa o homem que viveu em várias cidades de Angola e de Moçambique (por causa das comissões de serviço do pai, engenheiro civil especialista em portos e docas secas) ou em Setúbal.

“Vivo num apartamento que aluguei há cerca de 40 anos e que renovei e modifiquei para um dúplex. Vivo sempre com alguém, amigos ou amigos de amigos. E acolho conhecidos, alguns recomendados por amigos, que estão em situação de fragilidade até poderem retomar a vida”, conta.

Ainda assim, não está imune aos problemas que afectam o seu grupo etário. “Sinto alguma solidão também, embora seja visitado por muita gente, até do estrangeiro. Alguns visitam-me só para se associarem ao meu nome, por ser activista e defender as minorias, mas recebo muitos amigos ou pessoas indicadas por amigos que me fazem alguma companhia”, admite o frenético António Serzedelo.

Há décadas um dos rostos mais conhecidos da luta contra a discriminação LGBT (“Fui bissexual durante um tempo, em part-time, mas depois fui gay a tempo inteiro”), Serzedelo fala ainda de uma dupla discriminação: “A maioria na comunidade gay é constituída por jovens, que, por sua vez, discriminam os mais velhos”.

A pobreza na infância e nos mais velhos, as privações materiais e sociais, as diferenças regionais e os desafios do custo de vida. Nesta série editorial, o PÚBLICO faz um “raio X” ao impacto da pandemia de covid-19 em Portugal, com o apoio da Fundação ‘la Caixa’, BPI e Nova SBE, promotores do estudo Portugal, Balanço Social 2022, publicado em 2023.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes, aqui]


15.6.23

Portugal com risco de pobreza abaixo da média da UE



Portugal desceu da oitava para a 12ª posição

Dados do Eurostat revelam evolução muito positiva, que coloca o nosso país em melhor posição que a média da UE
O risco de pobreza e exclusão social baixou em Portugal, em 2022, e o nosso país encontra-se agora abaixo da média da União Europeia neste indicador, revela hoje o Eurostat.

Portugal regista o segundo menor risco de pobreza e exclusão social desde que há registos no Eurostat (2015), apenas suplantado pela taxa de 2020 (20%). Face a 2015, há atualmente menos 659 mil pessoas nessa situação.

De acordo com o organismo estatístico da União Europeia, 20,1% da população portuguesa estava em risco de pobreza ou exclusão social, em 2022, o que coloca Portugal na 12.º posição dos países europeus e abaixo da média da UE, que era de 21,6%.

No ano anterior (2021), a taxa portuguesa era de 22,4%, o que nos colocava em 8.º lugar na Europa e acima da média da UE, que era de 21,7%.

As taxas mais elevadas na UE, em 2022, ocorrem na Roménia (34%), na Bulgária (32%), na Grécia e Espanha (26%). A República Checa (12%) e a Eslovénia (13%) têm as taxas mais baixas.

Este indicador contabiliza a população que corresponde, pelo menos, a uma de três condições: pessoas em risco de pobreza, que vivem em agregados com intensidade laboral per capita muito reduzida, ou em situação de privação material e social severa.

17.4.23

Como integrar os jovens que não estudam nem trabalham? Para evitar problemas de saúde, pobreza e criminalidade é pedida mais prevenção

Rita Robalo Rosa, in Expresso



Jovens que não estudam nem trabalham. Quem são, por que nos devemos preocupar com eles e como podemos integrá-los na sociedade e no mercado laboral? É este um dos trabalhos da Fundação da Juventude


Um jovem ‘nem nem’ pode ser um problema, para si (a nível de saúde e pobreza) e para a sociedade (muitas vezes associados à insegurança). Este problema não é exclusivo de Portugal, sendo que, por cá, existem mais de 190 mil jovens ‘nem nem’. Do empreendedorismo, às formações de curta duração, passando por subsídios e muita prevenção - são estas algumas das respostas da Fundação da Juventude.

Mas o que é um jovem ‘nem nem’? Segundo explicou ao Expresso Carla Mouro, presidente executiva da Fundação da Juventude, é “um jovem que não se encontra nem a estudar nem a trabalhar nem em processo de formação ou capacitação para se enquadrar em alguma destas vias”, ou seja, também não se encontra inscrito no centro de emprego, por exemplo.

De forma geral, de acordo com a especialista, costuma-se falar de jovens entre os 15 e os 30 anos e Portugal conta com mais de 190 mil jovens que se encontram nesta situação.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), que considera para o mesmo efeito as idades compreendidas entre os 15 e os 34 anos, estavam, no ano passado, mais de 196 mil jovens nesta situação, menos 12,5% que em 2021. Assim, os dados do gabinete estatístico apontam para uma taxa de 9,4%, que é uma das mais baixas da União Europeia (UE).

Contudo, Carla lembrou que Portugal é um dos países mais envelhecidos da UE, o que acaba por influenciar a baixa percentagem de jovens que não se encontram nem a estudar nem a trabalhar.

QUAL O PROBLEMA?

Apesar de ser um problema transversal a todo o mundo - pior nas economias emergentes - olhando para o nosso pequeno ‘quadrado’ de terra, há problemas que se destacam, nomeadamente a saúde destes jovens, a segurança em sociedade e até a produtividade do país, pois a capacidade destes jovens não está a ser utilizada na sua plenitude.

“Um jovem NEET [siga da expressão inglesa, young people neither in employment nor education or training, equivalente à expressão ‘nem nem’] enfrenta mais desafios do que qualquer outro jovem”, começou por explicar Carla Mouro, acrescentando que “antes da pandemia era a faixa etária em maior risco de pobreza”.


“São também estes jovens que normalmente vemos associados nas notícias à insegurança vivida nas grandes cidades, na vida noturna, nos gangues”
Carla Mouro, presidente executiva da Fundação da Juventude


A nível de saúde estes jovens “normalmente têm problemas mais acentuados, isto porque têm menos acesso a informação” e mesmo o seu nível económico e a exclusão social a que estão sujeitos levam a que os seus consumos, “alimentares e outros”, tenham um maior risco, indicou a presidente da fundação. E nem é uma questão só de saúde física, mental também, sublinhou.

“São também estes jovens que normalmente vemos associados nas notícias à insegurança vivida nas grandes cidades, na vida noturna, nos gangues”, afirmou, explicando que tal acontece pois, sendo “vítimas de alguma exclusão social, associam-se entre si e criam a sua própria identidade dentro daquele gangue”.

De acordo com Carla, estes jovens estão associados a atividades ilegais, como a venda de droga e outros pequenos crimes. Aliás, numa das escolas de formação profissional da fundação, em Lisboa, onde estão cerca de 200 alunos, a grande maioria “está referenciada a esse nível”, notou.

E AS SOLUÇÕES?

Para solucionar o problema, a Fundação da Juventude reuniu uma série de parceiros e juntou-se com fundações de outros seis países europeus (Espanha, Itália, Países Baixos, Roménia, Noruega e Suécia) num projeto denominado YoPeVa (acrónimo para “Young People with Value”, ou em português, "Jovens com Valor"), financiado pela agência Erasmus+. O objetivo destes países foi tentar perceber que resposta se deve ter a nível europeu e a nível nacional para integrar estes jovens.

E já há um projeto piloto que a fundação quer implementar em Portugal — e que já avançou na Catalunha. A Fundação vai tentar, numa área metropolitana, juntar os vários municípios e fazer um levantamento entre as empresas desses concelhos “para saber que tipo de mão-de-obra ou de que características precisam para as suas empresas poderem empregar” jovens nesta situação que queiram integram o mercado de trabalho.

“O jovem até entrar num processo destes não tinha regras, não tinha horários, não tem sentido de compromisso, do respeito, não sabe o que são as regras daquilo que nós chamamos conviver com respeito e em sociedade.”
Carla Mouro


Para tal, pretendem criar formações curtas e dividir os jovens entre “as áreas que querem estudar e também as áreas que as empresas precisam”. Mas é importante que a formação seja de curta duração, pois aperceberam-se que “a duração das formações contribui para aquilo que é o abandono escolar por parte destes jovens”.

Contudo, como convencer um jovem a voltar a estudar ou mesmo a trabalhar quando, muitas vezes, através da economia paralela ou atividades ilícitas, se consegue “dinheiro rápido”? Para Carla Mouro é aí que reside o desafio. “O jovem até entrar num processo destes não tinha regras, não tinha horários, mesmo que esteja num gangue ou em algum tipo de atividade ilícita que traga benefícios económicos a curto prazo superiores do que ganharia se estivesse num mercado laboral, não tem sentido de compromisso, de respeito, não sabe o que são as regras daquilo que nós chamamos conviver com respeito e em sociedade.”

Mas é possível. Segundo a presidente da fundação, deveriam “existir apoios financeiros para estes jovens, mas também para as entidades [empregadoras] que os vão receber”. “Estes jovens movem-se pelo dinheiro fácil e rápido”, explicou Carla Mouro, confiando que, no momento em que fizerem um esforço para inverter a sua vida e perceberem que não precisam de correr riscos na atividade ilícita para receber dinheiro tudo se resolverá - ou, pelo menos, uma parte do problema.

Porém, a solução não começa quando o jovem já está nesta fase. A especialista defende que as soluções têm de começar antes de sequer serem chamadas de ‘solução’, ou seja, tem de haver prevenção. Esta prevenção deve começar logo na escola - com a sinalização de possíveis jovens em risco e seguimento do mesmo e da sua família. “Às vezes basta dar um pequeno apoio à família que se reflete numa mudança de paradigma naquela família e naqueles jovens”, disse, lembrando que o tal “dinheiro rápido” muitas vezes faz falta nestas famílias “para matar a fome”.

E é também no ensino que pode estar uma boa forma de prevenção. Na ótica de Carla deveria repensar-se a escola portuguesa. Acredita que falta flexibilidade curricular no ensino secundário, falta informação sobre as diversas saídas profissionais de cada área e há ainda um estigma relativamente aos cursos profissionais. Mas talvez mais importante seja uma proposta que saiu das Jornadas da Juventude: “os jovens propuseram que haja estágios cada vez mais cedo, mesmo no ensino secundário, porque isso leva a que haja um contacto precoce com o mercado laboral e com a responsabilidade”. De notar que, de momento, os estágios apenas estão acessíveis aos alunos do ensino profissional ou superior.

Outras das propostas dos jovens é que se crie o “IEFP [Instituto do Emprego e Formação Profissional] Jovem”, ou seja, um ramo desta instituição para que os jovens não estivessem só integrados nas “respostas em massa, mas sim haver uma resposta mais específica”. “Se for um jovem NEET, e for ao IEFP e lhe disseram ‘inscreva-se aqui e fique a aguardar’… o jovem não vai ficar aguardar, sabemos o que vai acontecer”, disse Carla.

Por fim, outra estratégia pode passar pelo empreendedorismo - uma estratégia que todos os países que fazer parte do YoPeVa se aperceberam que poderia funcionar. Inclusive avançaram com uma candidatura nova à agência Erasmus+ para dinamizar o YoPeVa Entrepreneur. A ideia é avançar com um curso que pode ser feito online, dirigido aos jovens, que enfoque as temáticas do empreendedorismo e que no final ofereça certificação. Este tipo de promoção tem como finalidade a “promoção do espírito empreendedor para criar empresas e startups e ser empreendedor da sua própria vida e do seu emprego”.

Seja qual for a estratégia a adotar é importante sublinhar a importância da prevenção e que, por várias vezes, um jovem que esteja nesta condição não significa que não queira trabalhar ou integrar-se, mas sim que não teve “o mesmo ponto de partida que a maioria dos jovens”.

29.3.23

Igreja/Sociedade: Soluções para habitação devem colocar «as pessoas no centro» e envolver quem está no terreno (c/vídeo)

in Agência Ecclesia

Organizações católicas subscreveram Carta, perante agravamento da crise

Lisboa, 27 mar 2023 (Ecclesia) – A diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) disse à Agência ECCLESIA que a crise da habitação continua a “agravar-se”, em particular com degradação em bairros que “deixaram de ser acompanhados” pelas instituições públicas.

“É um problema que se agravou, que estamos a destapar cada vez mais”, alerta Eugénia Quaresma, alertando para situações em que migrantes pagam “por um colchão”.

“Sabemos que há falta de fiscalização, de manutenção, que há falta de envolvimento ou dificuldade em dialogar com as comunidades, para as comprometer na manutenção destes espaços comuns”, acrescenta.

O tema esteve em debate na opinião pública após o incêndio que provocou a morte de duas pessoas, a 4 de fevereiro, em Lisboa, alertando para as condições de alojamento dos migrantes na capital portuguesa, entre outros locais.

A diretora da OCPM sublinha que a habitação é “um direito, consagrado na Constituição”.

“Temos de pôr as pessoas no centro, pensar nas famílias. Denunciamos a exploração que existe, desde o senhorio que pede um ano de caução ou valores exorbitantes. Isto afeta os migrantes que têm posses e os que não conseguem”, aponta Eugénia Quaresma.

O Governo aprovou a 16 de março um pacote de medidas para apoiar as famílias a suportar o aumento dos juros com a habitação e fazer face às rendas, através de uma ajuda na bonificação de juros, no caso dos empréstimos, e com o apoio mensal no caso do aluguer de imóveis.

“É fundamental promover a autonomia das pessoas, criar medidas que defendam essa autonomia”, sustenta a diretora da OCPM.

Em novembro de 2022, a Comissão Justiça, Paz e Ecologia da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), o Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos, a OCPM e o Centro Padre Alves Correia (CEPAC) escreveram a “Carta da Habitação”, como preocupação e proposta de organização para superar esta “exclusão social”.

Fernanda Reis, do Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos, refere que este problema esteve “escondido”, apelando ao envolvimento dos Municípios na construção de mais habitação social.

A responsável aponta a dificuldade de alugar uma casa, nas grandes cidades, para quem ganhe o salário mínimo nacional.

“É difícil, é impossível, porque a casa vai custar tanto ou mais do que o ordenado que recebem ao fim do mês. Mais o que lhes pedem de caução”, alerta.

As consequências desta situação, segundo Fernanda Reis, passam por casas “sobrelotadas”, sem privacidade nem respeito pela dignidade humana.

A entrevistada aponta o dedo a quem aluga “quartos em vez de casas”, ao aperceber-se da situação de necessidade das pessoas.

Daniel Lobo, da Comissão Justiça, Paz e Ecologia da CIRP, sublinha a importância do “diálogo com as entidades” que estão no terreno, antes de se tomarem decisões.

O arquiteto urbanista acompanhou a população do Bairro da Torre, em Camarate (Loures) e continua a estar junto das famílias que foram realojadas em novos locais.

“Foi um processo muito longo”, lamenta, falando em particular da demolição de casas que poderia servir para outras pessoas, em situações mais precárias.

O entrevistado alerta para respostas “desajustadas”, com pessoas realojadas em condições que “vieram a agravar a sua situação económica, familiar, de saúde”.

“O problema persiste, porque os bairros de realojamento têm múltiplos problemas, como a má qualidade da construção”, acrescenta Daniel Lobo.

O membro da Comissão Justiça, Paz e Ecologia da CIRP assume que a habitação será a “questão fundamental” da população portuguesa, no futuro, recordando o “direito à cidade” e não apenas a uma casa.

OC


27.3.23

Cascais mais forte sem complexos ideológicos

Carlos Carreiras, opinião, in Nascer do Sol

O problema da habitação é suficientemente sério para não nos digladiarmos em discussões estéreis.

Nas últimas semanas abordei o tema da habitação, não só por se tratar de um dos maiores problemas sociais com que nos defrontamos, e não faltam na atualidade fatores de exclusão social, como também pela discussão pública colocada pelo Governo de um conjunto de diplomas legais que têm por objetivo mitigar este verdadeiro drama social, uma obrigação a que governos durante décadas se demitiram.

O problema da habitação é suficientemente sério para não nos digladiarmos em discussões estéreis. Não é tempo para nos deixarmos cercar por interesses mesquinhos que colocam os princípios ideológicos à frente das necessidades básicas das pessoas, mas, sim, é tempo de resolver e executar políticas efetivas dada a sua pressão, dimensão e intensidade.

Terminei o último artigo referindo que ficavam «ainda por resolver dois recursos, o do tempo em que se cumpre os procedimentos legais e em que se constrói, aumentando a oferta, e as garantias de acessibilidade». Razão pela qual, nesta semana, aprovámos, por unanimidade, a abertura do aviso para que proprietários, individuais e empresariais, demonstrem disponibilidade, concorrendo, para vender fogos já construídos a preços máximos estipulados por lei.

No imediato, temos condições para adquirir 150 fogos até ao montante de 14,8 milhões de euros, para no curto prazo chegarmos ao objetivo total de 700 fogos, num valor de aquisição de 70 milhões de euros, resolvendo parcialmente o primeiro recurso, a escassez do recurso tempo, ou seja, em seis meses podemos acrescentar cerca de 33% ao parque habitacional público municipal.

Estes processos irão ainda induzir uma regulação de mercado, quer no preço de arrendamento, quer até no de compra e também em termos quantitativos e qualitativos, que permitirá obter um impacto positivo, e, por sua vez, resolver o segundo recurso, o de garantir uma maior acessibilidade na habitação.

Estas ações, complementares com outras, levam a que tenhamos a expectativa de que o Município de Cascais saia destes tempos complicados de sucessivas crises ainda mais atrativo, mais competitivo e mais coeso social e economicamente, com a complementaridade com os investimentos que estamos a realizar nas quatro áreas (saúde, educação, ambiente e cultura), que consideramos estratégicas, logo prioritárias.

São intervenções que permitem responder a questões levantadas pelo estudo que encomendámos ao ISCTE sobre ‘quanto custa não ter casa’ e que nos fez chegar à conclusão de que é muito mais dispendioso não ter casa do que a ter.

Com o finalizar da requalificação, ampliação e construção de novos centros de saúde e escolas, a par do investimento na cultura, com novos equipamentos, com a regeneração de outros e ainda com investimentos na área ambiental, com especial ênfase nas nossas ribeiras, fechamos um ciclo estratégico que impulsionará de forma determinante o desenvolvimento de Cascais.


18.1.23

Sandra Araújo: "A saúde mental sempre foi um parente pobre"

Domingos de Andrade, Inês Cardoso, in JN 

Até final de abril, Sandra Araújo terá de entregar a proposta de plano de ação que vai dar corpo à Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Para esse trabalho ser ajustado à realidade, aguarda com expectativa o que vão dizer as novas estatísticas de pobreza e exclusão social que o INE divulga na próxima sexta-feira.

Mesmo que a taxa de pobreza não se agrave, "mascarada" pelos apoios sociais e pelo aumento do salário mínimo, acredita que o verdadeiro retrato será dado pelos indicadores de privação material. Se a degradação das condições de vida se mantiver, o Governo terá de apresentar novas medidas de apoio, alerta, ao mesmo tempo que pede "um compromisso político forte" neste combate que é de todos os portugueses.

Depois de um arranque muito solitário, já tem neste momento constituída a sua equipa permanente?

Ainda estou numa fase de constituição da minha equipa de trabalho. Neste momento, estou eu e mais duas pessoas, à espera de uma terceira pessoa. Durante quase um mês e meio estive mais ou menos solitária, mas neste momento creio que já consegui reunir as condições para cumprir o objetivo de preparar um plano de ação para implementação desta estratégia. Esperemos que tenha condições de até ao final do mês de abril apresentar pelo menos uma primeira proposta de plano de ação.

Estava prevista para janeiro a primeira reunião interministerial, com os seis ministérios envolvidos na estratégia. Esta reunião já tem data?

A resolução que cria a estratégia prevê três órgãos e o primeiro é a comissão interministerial de alto nível (CIAN), que engloba seis ministérios. Estou a aguardar uma calendarização desta primeira reunião.

Tem sentido falta de resposta ou de vontade política?

Não, tive esta semana uma reunião de trabalho com a ministra do Trabalho e aquilo que ficou definido foi que até final de janeiro iria acontecer esta primeira reunião da comissão interministerial. Será muito importante para mim, na medida em que irei reportar o que estou a fazer e sobretudo perceber os grandes compromissos de cada área governativa em relação à estratégia e aquilo que já foi feito - porque, apesar de a estratégia estar a arrancar, há muitas medidas em curso ou programadas. O pacote de medidas é bastante alargado, 14 objetivos e 137 medidas de diferentes áreas governativas, embora o Ministério do Trabalho seja o que abarca o maior leque. O maior desafio é criar uma articulação de políticas públicas e um compromisso político forte.

Precisa também de peso político. Tem esse peso?

Preciso de um compromisso político forte. A criação da própria estratégia, e não apenas medidas mais ou menos paliativas ou pontuais, é um ganho. Todos nós enquanto país ganhámos em ter uma estratégia nacional.

Ainda assim, o Governo demorou um ano até à sua nomeação e operacionalização da estratégia, o que causou muitas críticas de IPSS e organizações no terreno. É um sinal de falta desse compromisso?

Acho que há explicações para isso. Estive do outro lado, do lado das organizações da sociedade civil, e a EAPN há muito dizia que era absolutamente essencial que as coisas avançassem. Creio que o facto de ter havido uma mudança governativa atrasou um pouco. Perdeu-se talvez um pouco o balanço. Mas fiquei até surpreendida pela positiva quando me dediquei a uma leitura apurada de todas as medidas que constam da estratégia, porque percebi que algumas coisas estão em marcha, embora enquanto cidadãos não tenhamos essa consciência. O meu caminho vai ser perceber em que medida se definem metas para estas medidas e avaliar e monitorizar o seu cumprimento.

Já se reuniu com organizações e investigadores?

A resolução prevê, além do CIAN, uma comissão técnica de acompanhamento e o fórum consultivo, que pode integrar organizações sociais, sindicatos, professores universitários. Reuni-me com a comissão instaladora desse fórum e é absolutamente fundamental haver uma ligação entre medidas organizativas e a essência da sua implementação, em primeiro lugar com os beneficiários das próprias medidas, e com quem está no terreno.

Que preocupações têm sido transmitidas por essas organizações?

Há preocupações acrescidas, que têm a ver com a conjuntura que estamos a viver.

Há dados objetivos que apontem para um aumento de carências alimentares?

São indicadores tempestivos, que temos a partir do que nos dizem as organizações, no trabalho direto de atendimento das que estão na primeira linha neste tipo de respostas. Obviamente que sim, o aumento dos preços dos bens alimentares afeta toda a população, mas especificamente afeta quem vive com menores rendimentos e está em situação de maior vulnerabilidade social. Isso é incontornável. Os preços de energia e da habitação são também um problema grave.


Quando a estratégia foi traçada, não havia o contexto de guerra e consequente inflação. Esta circunstância pode justificar reajustamentos ou comprometer as metas?

Diria que sim, tem de haver reajustamentos. A estratégia tem um conjunto de ações de longo prazo, de natureza mais estrutural, ações de curto e médio prazo, ações de mitigação e resposta emergente, e ações de caráter reparador e preventivo. A conjuntura atual já exigiu muito recentemente medidas de mitigação e provavelmente em 2023, se continuarmos no agravamento das condições de vida dos portugueses, vai ter de haver abertura para novas medidas de resposta imediata. Por outro lado, o diagnóstico que foi feito inicialmente, e no qual se baseou a estratégia, neste momento está desatualizado.

Agravou-se?

Houve um agravamento e creio que o primeiro passo é a atualização do diagnóstico. Na primeira reunião da comissão técnica e com os membros do fórum consultivo, uma das questões que suscitei foi o levantamento dos novos fatores de pobreza e dos novos perfis de pobreza. E creio que há abertura para tomar algumas medidas de caráter mais emergencial.

Manifestou recentemente particular preocupação com a habitação. Concorda com o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que esta semana disse que os portugueses conseguirão acomodar a subida das taxas de juro, desde que se mantenham os níveis de emprego?

A garantia do emprego é fundamental. Essa questão é mais ou menos verdade, porque o emprego é um fator protetor. Mas temos um problema de qualidade do emprego e de baixos salários. Está a ser discutida na Assembleia da República a agenda do trabalho digno, que visa dar dignidade ao emprego e combater a precariedade.

Deduzo que não concorde na totalidade com a declaração?

Não concordo no todo. Uma das agendas principais da estratégia está alavancada na questão do emprego e da qualidade do emprego. Elevar as qualificações dos portugueses, sobretudo os que estão mais afastados do mercado de trabalho, a questão da transição digital.

Os cheques diretos às famílias são uma medida adequada para atenuar o efeito da subida de preços?

É uma medida imediata e muito bem acolhida por quem recebeu os cheques. A generalidade das medidas, os 60 euros atribuídos logo no segundo trimestre e os 240 euros no final do ano, foram muito dirigidas a uma população muito vulnerável. Houve necessidade justificada de uma injeção, privilegiando aqueles que estão numa situação de maior carência. Obviamente que não chega.

O Governo deveria fazer reduções no IVA do cabaz básico, como aconteceu em Espanha?
Essa é uma medida corajosa, que abrange toda a gente, e sem dúvida é uma medida supergenerosa. Não sei se o Governo português irá ponderar algo semelhante. Queria focar-me naquilo que a estratégia prevê, em termos de grandes investimentos, porque a questão monetária é absolutamente essencial e podemos ter algumas surpresas. A 20 de janeiro, o INE divulga os grandes indicadores de pobreza e exclusão social.

Tem a convicção de que vamos assistir a um agravamento?

Eu convicção não tenho, é uma sensibilidade, vale o que vale e não queria estar a antecipar. Como houve um esforço de reposição de rendimentos e um aumento do salário mínimo em 2022, provavelmente a taxa de pobreza, que é uma taxa monetária baseada em indicadores de rendimento, pode não vir a ter um agravamento. Vamos conseguir apurar isso com outros indicadores, nomeadamente o indicador da privação material e da privação material severa. É um conjunto de nove itens em que conseguimos apurar a degradação das condições de vida. Estou à espera desses dados até para poder definir o plano de ação com base no que os indicadores nos revelarem.

A estratégia define metas ambiciosas para a infância, prevendo a redução para metade da taxa de pobreza nas crianças. Tem propostas adicionais às que já estão no terreno?
Há um conjunto muito variado de medidas na estratégia que visa a garantia de acesso a serviços básicos, nomeadamente respostas sociais, educação, saúde e habitação. Está previsto o alargamento faseado até 2024 da gratuitidade das creches e creio que será uma das medidas com um impacto muito imediato. Nós sabemos que as famílias com crianças são as mais vulneráveis ao risco de pobreza, sobretudo famílias monoparentais ou numerosas, e a gratuitidade das creches tem um impacto muito importante no rendimento das famílias e será absolutamente decisiva para combater a pobreza infantil. A par disto, e com investimentos do PRR, está previsto o alargamento das vagas em creches. Saliento também o grande investimento na saúde, como o aumento da rede dos psicólogos nas escolas. As questões da saúde mental, no contexto da crise, foram bastante impactadas e a saúde mental sempre foi um parente pobre.

E continua a ser?

Continua a ser, mas o que vejo na estratégia é um conjunto enorme de medidas que prevê um investimento na rede escolar para fazer uma triagem, uma deteção mais precoce dos problemas e uma intervenção cada vez mais precoce, bem como uma rede mais articulada para garantir que estas crianças e famílias têm os apoios de que precisam. Outra questão muito importante é reforçar, nos centros de saúde, as equipas de psiquiatria especializadas para a área da infância e juventude. Vai ser uma área muito necessária de intervenção e onde estão previstos investimentos muito importantes do PRR.

Nesta semana, o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas escreveu, em texto de opinião no JN, que o Ensino Superior como elevador social está "avariado": só 3% dos estudantes são pobres e essa percentagem é ainda mais baixa nos cursos de topo. O que pode ser feito para acelerar a mudança por via da educação?

Teoricamente, a educação é um fator protetor e os indicadores de pobreza revelam isso. Quanto mais qualificadas as pessoas são, menos probabilidade têm de ter empregos pouco dignos. A verdade é que a educação deve chegar a todos. Não podemos criar uma educação para pessoas mais pobres e para pessoas que têm condições para pagar apoios ao estudo. A estratégia tem essa preocupação. Há uma medida que prevê residências gratuitas para todos os alunos do Secundário deslocados, materiais de apoio ao estudo, nomeadamente digitais, para crianças vulneráveis e também apoios tutoriais. Estou convencida de que estas medidas vão fazer a diferença para que a educação funcione efetivamente como elevador social. É preciso garantir a sua implementação, a sua aplicação, e ir monitorizando. E essa é uma das vantagens da estratégia. Primeiro, há metas, há compromissos políticos. É possível montar um sistema de monitorização de todas as políticas públicas e perceber o seu impacto. Não tanto do ponto de vista processual, mas de resultados e de impacto verdadeiro nas condições de vida daqueles para quem a estratégia está dirigida. Essa para mim será sempre uma das premissas essenciais: garantir eficácia e eficiência.

A pobreza e a desigualdade económica e social são um problema persistente. Pela primeira vez em seis anos, o risco de pobreza aumentou em 2020. Este combate exige mais recursos financeiros?
Um dos objetivos do plano de ação é identificar a dotação financeira de cada um dos investimentos que estão previstos, junto das diferentes áreas governativas, e o respetivo financiamento. Isso não está feito.

Não sente a ansiedade de ter tão pouco tempo para pôr no terreno uma estratégia que tem de ser rápida e eficaz?
Com certeza que sim. Desde que aceitei este cargo, sinto essa responsabilidade, mas acredito que o benefício desta estratégia por um lado é o tal compromisso político, e fazer com que esta estratégia seja suficientemente ampla e conhecida por todos os cidadãos, por todos nós. Todos nós devemos estar comprometidos com a sua implementação e com a sua monitorização. Quero que esta estratégia deixe de ser um documento, um papel que está na gaveta.

O facto de não ter um orçamento próprio preocupa-a? Estará sempre dependente da boa vontade e eficácia de cada um dos ministérios.
Sim, não tenho orçamento próprio, pelo menos neste momento, a não ser que uma nova resolução o preveja. Eu acho que a estratégia mereceria uma boa campanha de comunicação. Era importantíssimo, e esse também vai ser um dos meus papéis logo que consiga divulgar a estratégia ao nível territorial. Sair, ir falar com as autarquias, com as CIM, com as CCDR, com as áreas metropolitanas. A estratégia tem um eixo que é o aumento da coesão territorial e o desenvolvimento local, e neste contexto de transferência de competências para os municípios em várias áreas - nomeadamente social, mas não só -, no contexto do novo quadro comunitário, há uma oportunidade muito grande de haver um compromisso político de alto nível, mas também ao nível mais micro, local. Um grande alinhamento relativamente às estruturas locais e à capacidade de fazerem leituras da situação nos seus territórios e elas próprias dinamizarem estratégias locais de combate à pobreza. O que implicará naturalmente alguma harmonização de instrumentos territoriais integrados e rever algumas medidas de política pública, dando impulso ao programa da rede social, que já existe há muitos anos, mas é preciso reforçar e qualificar estes sistemas e o trabalho colaborativo.

Aumento do custo de vida e pobreza são os assuntos que mais preocupam portugueses, diz o Eurobarómetro

por Lusa, in Observador

98% dos cidadãos nacionais identificou o aumento do custo de vida, por exemplo, através da subida do preço de produtos alimentares e da energia como o assunto mais preocupante.O aumento do custo de vida, como consequência da inflação exacerbada pela guerra na Ucrânia, assim como a pobreza e a exclusão social são as questões que mais preocupam os portugueses, de acordo com o último Eurobarómetro.

Segundo o último relatório estatístico europeu, divulgado esta quinta-feira, que inquiriu 1.028 cidadãos portugueses de um total de 26.431 cidadãos pertencentes a Estados-membros da União Europeia (UE), 98% dos cidadãos nacionais identificou o aumento do custo de vida, por exemplo, através do aumento do preço de produtos alimentares e da energia como o assunto mais preocupante, uma percentagem que é em cinco pontos percentuais superior à média dos 27.

Apesar da preocupação, 47% dos inquiridos nacionais respondeu que até ao momento está a viver com algum conforto com os rendimentos de que dispõe, enquanto 40% revelou que enfrenta algumas dificuldades atualmente e 9% disse que enfrenta bastantes dificuldades com os rendimentos atuais. Em comparação com a média europeia, 46% responderam que vivem confortavelmente com os rendimentos que têm, enquanto 36% dizem passar por algumas dificuldades.

O tópico seguinte que mais preocupa a população nacional é a pobreza e a exclusão social (95%). Aqui há um hiato maior para a média europeia, já que 82% responderam que esta era uma preocupação maior.





Mas a maior disparidade surge quando a questão é sobre a possibilidade de propagação de doenças infecciosas como a covid-19 ou a varíola dos macacos. Os portugueses são mais receosos do que a média europeia, uma vez que 83% responderam que estavam “preocupados” com essa hipótese, em oposição à média da UE, que é de 62%.

Com a guerra na Ucrânia a cumprir quase um ano e sem desfecho à vista continua a pairar o receio de uma escalada nuclear do conflito, que se refletiu na maioria dos mais de 1.000 cidadãos portugueses inquiridos. 89% respondeu que receia “incidentes nucleares” e apenas 9% respondeu que essa questão não levanta preocupações. Olhando para o conjunto dos países do bloco comunitário, 74% acredita que o risco é real, enquanto 25% descarta essa possibilidade

Questionados também sobre o estado da generalidade do país, 43% dos portugueses inquiridos considerou que está a ir “na direção errada”, mas aqui os portugueses estão abaixo da média europeia, que é de 62%. 30% dos cidadãos nacionais consideram que Portugal está no caminho certo, 16% não sabem e 11% consideraram que a situação do país continua igual.

Em relação ao estado da União Europeia, a percentagem portuguesa (35%) contrasta com a europeia (51%) quando a resposta é “as coisas estão a ir na direção errada. A mesma percentagem de portugueses considera que a União Europeia está no rumo correto.

Contudo, mais de metade dos portugueses (52%, no universo da amostra de 1.028) está otimista em relação ao futuro do bloco comunitário. Neste parâmetro, a população entre os 15 e os 24 anos e entre os 40 e os 54 anos é que apresenta uma fatia maior de otimismo em relação ao futuro da UE, 52% e 61%, respetivamente.

13.1.23

Custo de vida, pobreza e exclusão social são o que mais preocupa os portugueses

in RTP

O aumento do custo de vida, a pobreza e exclusão social são os assuntos que mais preocupam os portugueses. O Eurobarómetro mostra agora que o aumento dos preços de alimentos e da energia preocupa 98% dos cidadãos nacionais. A pobreza preocupa 95 por cento.

Veja a reportagem aqui

Eurobarómetro. Aumento do custo de vida e pobreza são as maiores preocupações dos portugueses


por Lusa, in RR


Com a guerra na Ucrânia a cumprir quase um ano e sem desfecho à vista continua a pairar o receio de uma escalada nuclear do conflito, que se refletiu na maioria dos mais de 1.000 cidadãos portugueses inquiridos no Eurobarómetro.

O aumento do custo de vida, como consequência da inflação exacerbada pela guerra na Ucrânia, assim como a pobreza e a exclusão social são as questões que mais preocupam os portugueses, de acordo com o último Eurobarómetro.

De acordo com o último relatório estatístico europeu, divulgado esta quinta-feira, que inquiriu 1.028 cidadãos portugueses de um total de 26.431 cidadãos pertencentes a Estados-membros da União Europeia (UE), 98% dos cidadãos nacionais identificou o aumento do custo de vida, por exemplo, através do aumento do preço de produtos alimentares e da energia como o assunto mais preocupante, uma percentagem que é em cinco pontos percentuais superior à média dos 27.

Apesar da preocupação, 47% dos inquiridos nacionais respondeu que até ao momento está a viver com algum conforto com os rendimentos de que dispõe, enquanto 40% revelou que enfrenta algumas dificuldades atualmente e 9% disse que enfrenta bastantes dificuldades com os rendimentos atuais. Em comparação com a média europeia, 46% responderam que vivem confortavelmente com os rendimentos que têm, enquanto 36% dizem passar por algumas dificuldades.

O tópico seguinte que mais preocupa a população nacional é a pobreza e a exclusão social (95%). Aqui há um hiato maior para a média europeia, já que 82% responderam que esta era uma preocupação maior.

Receio com a propagação de doenças infecciosas

Mas a maior disparidade surge quando a questão é sobre a possibilidade de propagação de doenças infecciosas como a Covid-19 ou a varíola dos macacos. Os portugueses são mais receosos do que a média europeia, uma vez que 83% responderam que estavam "preocupados" com essa hipótese, em oposição à média da UE, que é de 62%.

Com a guerra na Ucrânia a cumprir quase um ano e sem desfecho à vista continua a pairar o receio de uma escalada nuclear do conflito, que se refletiu na maioria dos mais de 1.000 cidadãos portugueses inquiridos. 89% respondeu que receia "incidentes nucleares" e apenas 9% respondeu que essa questão não levanta preocupações. Olhando para o conjunto dos países do bloco comunitário, 74% acredita que o risco é real, enquanto 25% descarta essa possibilidade.

Questionados também sobre o estado da generalidade do país, 43% dos portugueses inquiridos considerou que está a ir "na direção errada", mas aqui os portugueses estão abaixo da média europeia, que é de 62%. 30% dos cidadãos nacionais consideram que Portugal está no caminho certo, 16% não sabem e 11% consideraram que a situação do país continua igual.

Em relação ao estado da União Europeia, a percentagem portuguesa (35%) contrasta com a europeia (51%) quando a resposta é "as coisas estão a ir na direção errada. A mesma percentagem de portugueses considera que a União Europeia está no rumo correto.

Contudo, mais de metade dos portugueses (52%, no universo da amostra de 1.028) está otimista em relação ao futuro do bloco comunitário. Neste parâmetro, a população entre os 15 e os 24 anos e entre os 40 e os 54 anos é que apresenta uma fatia maior de otimismo em relação ao futuro da UE, 52% e 61%, respetivamente.

11.1.23

Imigrantes: entre a exclusão social e os vistos gold, num país que deles depende para crescer

Raquel Moleiro, in Expresso

No Dia Internacional dos Migrantes, que se comemora este domingo, a Pordata traça o perfil dos estrangeiros que vivem em Portugal. São já mais de 540 mil, 5% da população nacional, a tentar estancar a perda demográfica do país de acolhimento. 

Por ano, 32 mil tornam-se portugueses
Ultrapassam já o meio milhão de habitantes (542.165), são 5,2% da população residente, aumentaram 40% em dez anos, são tantos quantos todos os habitantes da cidade de Lisboa, mas nem assim os cidadãos estrangeiros conseguem atualmente inverter a perda demográfica em Portugal. Mas reduzem a inclinação do declive. De acordo com os indicadores compilados pela Pordata (base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos) a propósito do Dia Internacional dos Migrantes, que se comemora este domingo, nos últimos dez anos (2011-2021) o país perdeu perto de 196 mil pessoas. Apenas em 2019 e 2020 foi registado um aumento populacional, alimentado por um saldo migratório mais positivo.

Desde 2007 que entram em Portugal mais imigrantes do que saem emigrantes, mas a verdade é que só nesses dois anos o impacto foi suficiente para fazer crescer a população. Mas ao longo destes 15 anos também houve exceções. A crise económica ficou bem marcada em 2011 e 2014 quando deixaram o país mais do dobro das pessoas que entraram. O balanço negativo foi transversal a todas as faixas etárias entre os 20 e os 54 anos. A inversão sentiu-se a partir de 2015 e desde 2019 que os imigrantes representam mais do dobro dos emigrantes.

Mas há outros fatores a mandar para baixo a linha demográfica. Desde 2009, que em Portugal nascem menos pessoas do que aquelas que morrem, atingindo o valor mais baixo de sempre em 2021, quando se registaram mais 45,2 mil mortes do que nascimentos. Também aqui o aumento de imigrantes tende a atenuar o decréscimo de natalidade. Dos 79.582 bebés nascidos em 2021, mais de 10 mil têm mãe estrangeira (13,6%) e a proporção tem vindo a aumentar sucessivamente desde 2016.




Aliás, nunca os filhos da imigração pesaram tanto na natalidade, de acordo com o INE. O Expresso recuou até 1995, quando representavam apenas 2,2% (2361) dos 108 mil partos anuais. A Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, é o reflexo dessa evolução. Nos seus registos, há duas linhas que seguem em direções opostas há pelo menos seis anos. Se por um lado aumentam os bebés de mãe estrangeira, diminuem por outro, a um ritmo bem mais acelerado, os partos de cidadãs portuguesas. Em 2021 nasceram ali menos 866 crianças de mãe portuguesa do que em 2017, uma quebra de 30%. Os filhos de imigrantes subiram 14% e, este ano, até setembro, representam já 32% (731) de todos os partos (2319) da MAC.


O LADO DOURADO

Há, porém, um dado no perfil do imigrante atual que em nada contribui para o rejuvenescimento da população em Portugal. Nos últimos dez anos, os cidadãos estrangeiros com 60 ou mais anos têm vindo a aumentar, atingindo 12% em 2021. Chegam principalmente de França e do Reino Unido, para gozar a reforma num país com sol e custo de vida baixo para os rendimentos que amealharam ao longo da vida, e fixam-se no Algarve e grande Lisboa. E muitos chegaram a Portugal com um visto gold.

Desde o início do programa de autorizações de residência para atividade de investimento, foram atribuídos 10.254 vistos, que geraram 20 postos de trabalho, e captados 6 mil milhões de euros, cerca de 2% do total do investimento privado desse período. Grande parte desse valor foi aplicada na aquisição de bens imóveis, vendidos entre os 538 mil euros e os 603 mil euros.

Em 2021, foram atribuídos 865 vistos Gold em Portugal que resultou num investimento total de 461 milhões de euros, menos 186 milhões de euros que no ano anterior, confirmando uma trajetória de decrescimento verificada desde 2017. Nos últimos 5 anos (entre 2017 e 2021), destaca-se a perda de expressão de requerentes chineses (de 40% para 31%, - 268 pedidos) e brasileiros (de 17% para 8%, - 156 pedidos).

Não é, porém, essa a realidade da maioria dos imigrantes que dá entrada em Portugal: 35% vive em risco de pobreza ou exclusão social, principalmente se forem oriundos de países fora da UE a 27 (37%). O rendimento médio é inferior ao dos portugueses e a precaridade salarial também atinge com especial dureza os extracomunitários.

E parte junta às dificuldades económicas a fragilidade da situação humanitária: em 2021, Portugal recebeu cerca de 1300 pedidos de asilo. A guerra na Ucrânia mudou tudo. De acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), desde o fim de fevereiro de 2022, foram atribuídas 55.833 proteções temporárias a cidadãos ucranianos em fuga do conflito. Destes 32.709 são do sexo feminino, 23.124 do sexo masculino e 13.855 menores.

DE ONDE, PARA ONDE

Os dados compilados pela Pordata permitem também perceber de onde vêm e onde se fixam territorialmente os cidadãos estrangeiros em Portugal. A maioria chega do Brasil (37%) - há brasileiros em todos os concelhos portugueses - seguido de Angola (6%), Cabo Verde (5%), Reino Unido (5%) e Ucrânia (4%). Mas há outras origens entre os que mais aumentaram nos últimos dez anos: além do Brasil, surge o Nepal, Índia, Itália e Bangladesh. Em perda está Cabo Verde, Roménia, Moldávia e Guiné-Bissau. Face a 2011, o peso relativo dos estrangeiros dos continentes europeu e africano diminuiu, aumentando os que chegam da América e da Ásia.

Vivem principalmente no litoral (92%), quase metade (47%) mora na Área Metropolitana de Lisboa (AML), 13% concentram-se no Algarve e na região centro duplicaram em dez anos para 95 mil pessoas. Entre os dez municípios com maior proporção de estrangeiros no total de residentes, 9 são algarvios. O único que destoa é Odemira, no Alentejo, o que regista a mais elevada percentagem de imigrantes (28%), quase todos trabalhadores agrícolas nas estufas e campos de cultivo e azeitona.

O Brasil é a origem mais frequente entre a população estrangeira em todas as regiões, com exceção do Alentejo Litoral, em que ganham destaque o Nepal e a Índia, e da Região Autónoma da Madeira, dominada pelos venezuelanos.

NOVOS PORTUGUESES

De fora das estatísticas da imigração ficam os que adquirem nacionalidade portuguesa. Aliás, a descida de residentes de Cabo Verde ou Guiné-Bissau, que há mais anos migram para território nacional, pode não significar que partiram mas que tão somente deixaram de ser cidadãos estrangeiros. A análise dos dados por naturalidade mostra essa realidade.

Nos últimos 11 anos, foi concedida nacionalidade a mais de 347 mil cidadãos estrangeiros, uma média de 32 mil por ano. Em 2021, as aquisições mais do que duplicaram face a 2011. Em 2020, Portugal era o 4º país da UE a 27 que mais atribuía nacionalidade, quase o dobro da média europeia. No topo do ranking estão países como a Suécia, o Luxemburgo e os Países Baixos.

A naturalização é a principal forma de aquisição da nacionalidade: para os que vivem em Portugal, pelo facto de residirem no país há pelo menos 6 anos (61%), e para os que vivem no estrangeiro, é a descendência de judeus sefarditas (77%), como fez o bilionário russo Roman Abramovich. Os pedidos chegam maioritariamente de brasileiros (32%) e cabo-verdianos (12%). Entre os não residentes, destaca-se a nacionalidade israelita (65%).

19.12.22

Quase metade dos cidadãos extracomunitários em risco de pobreza ou exclusão

in o Observador

Apenas 24,2% dos cidadãos não comunitários possuía casa própria na UE, contra 35,0% dos cidadãos da UE residentes noutro estado-membro e 74,3% dos nacionais.

Quase metade (48,4%) dos cidadãos extracomunitários com 18 anos ou mais encontrava-se em risco de pobreza ou exclusão social em 2021 na União Europeia, contra 19,5% dos nacionais e 27,5% dos cidadãos da UE residentes noutro Estado membro.

No que diz respeito à habitação, apenas 24,2% dos cidadãos não comunitários possuía casa própria na UE, contra 35,0% dos cidadãos da UE residentes noutro estado-membro e 74,3% dos nacionais, segundo dados do Eurostat divulgados esta sexta-feira.

A taxa de desemprego na União Europeia foi de 15,5% para os cidadãos de fora da UE, cerca do dobro da verificada entre as pessoas de outros estados membro (8,7%).

“Entre as pessoas com idades compreendidas entre os 20 e os 64 anos que vivem na UE, 59,1% dos cidadãos não pertencentes à UE estavam empregados“, menos do que os cidadãos de outros estados membros da UE (74,4%) e nacionais (74,0%), destacou a mesma fonte.

Os cidadãos não comunitários com idades compreendidas entre os 25 e os 74 anos apresentam também maior probabilidade de terem um baixo nível de escolaridade (45,9%) do que os nacionais (22,1%) e os cidadãos da UE residentes noutro Estado membro (28,9%).

“Os nacionais registaram a percentagem mais elevada entre os que tinham um nível de escolaridade médio (46,5%), enquanto os cidadãos da UE residentes noutro estado membro representaram a percentagem mais elevada entre os que tinham ensino superior (32,0%)”, assinalou o organismo responsável pelas estatísticas na União Europeia

Em vésperas do Dia Internacional dos Migrantes, celebrado pelas Nações Unidas a 18 de dezembro, o Eurostat divulgou um conjunto de dados que tem disponível na base de dados.

A taxa de naturalização (dados de 2020) para os cidadãos não comunitários foi de 2,7%, enquanto para os cidadãos da UE residentes noutro Estado-membro foi de apenas 0,7%.

Imigrantes: entre a exclusão social e os vistos gold, num país que deles depende para crescer

Raquel Moleiro, in Expresso

No Dia Internacional dos Migrantes, que se comemora este domingo, a Pordata traça o perfil dos estrangeiros que vivem em Portugal. São já mais de 540 mil, 5% da população nacional, a tentar estancar a perda demográfica do país de acolhimento. Por ano, 32 mil tornam-se portugueses

Ultrapassam já o meio milhão de habitantes (542.165), são 5,2% da população residente, aumentaram 40% em dez anos, são tantos quantos todos os habitantes da cidade de Lisboa, mas nem assim os cidadãos estrangeiros conseguem atualmente inverter a perda demográfica em Portugal. Mas reduzem a inclinação do declive. De acordo com os indicadores compilados pela Pordata (base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos) a propósito do Dia Internacional dos Migrantes, que se comemora este domingo, nos últimos dez anos (2011-2021) o país perdeu perto de 196 mil pessoas. Apenas em 2019 e 2020 foi registado um aumento populacional, alimentado por um saldo migratório mais positivo.

Desde 2007 que entram em Portugal mais imigrantes do que saem emigrantes, mas a verdade é que só nesses dois anos o impacto foi suficiente para fazer crescer a população. Mas ao longo destes 15 anos também houve exceções. A crise económica ficou bem marcada em 2011 e 2014 quando deixaram o país mais do dobro das pessoas que entraram. O balanço negativo foi transversal a todas as faixas etárias entre os 20 e os 54 anos. A inversão sentiu-se a partir de 2015 e desde 2019 que os imigrantes representam mais do dobro dos emigrantes.

Mas há outros fatores a mandar para baixo a linha demográfica. Desde 2009, que em Portugal nascem menos pessoas do que aquelas que morrem, atingindo o valor mais baixo de sempre em 2021, quando se registaram mais 45,2 mil mortes do que nascimentos. Também aqui o aumento de imigrantes tende a atenuar o decréscimo de natalidade. Dos 79.582 bebés nascidos em 2021, mais de 10 mil têm mãe estrangeira (13,6%) e a proporção tem vindo a aumentar sucessivamente desde 2016.

Aliás, nunca os filhos da imigração pesaram tanto na natalidade, de acordo com o INE. O Expresso recuou até 1995, quando representavam apenas 2,2% (2361) dos 108 mil partos anuais. A Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, é o reflexo dessa evolução. Nos seus registos, há duas linhas que seguem em direções opostas há pelo menos seis anos. Se por um lado aumentam os bebés de mãe estrangeira, diminuem por outro, a um ritmo bem mais acelerado, os partos de cidadãs portuguesas. Em 2021 nasceram ali menos 866 crianças de mãe portuguesa do que em 2017, uma quebra de 30%. Os filhos de imigrantes subiram 14% e, este ano, até setembro, representam já 32% (731) de todos os partos (2319) da MAC.

O LADO DOURADO

Há, porém, um dado no perfil do imigrante atual que em nada contribui para o rejuvenescimento da população em Portugal. Nos últimos dez anos, os cidadãos estrangeiros com 60 ou mais anos têm vindo a aumentar, atingindo 12% em 2021. Chegam principalmente de França e do Reino Unido, para gozar a reforma num país com sol e custo de vida baixo para os rendimentos que amealharam ao longo da vida, e fixam-se no Algarve e grande Lisboa. E muitos chegaram a Portugal com um visto gold.

Desde o início do programa de autorizações de residência para atividade de investimento, foram atribuídos 10.254 vistos, que geraram 20 postos de trabalho, e captados 6 mil milhões de euros, cerca de 2% do total do investimento privado desse período. Grande parte desse valor foi aplicada na aquisição de bens imóveis, vendidos entre os 538 mil euros e os 603 mil euros.

Em 2021, foram atribuídos 865 vistos Gold em Portugal que resultou num investimento total de 461 milhões de euros, menos 186 milhões de euros que no ano anterior, confirmando uma trajetória de decrescimento verificada desde 2017. Nos últimos 5 anos (entre 2017 e 2021), destaca-se a perda de expressão de requerentes chineses (de 40% para 31%, - 268 pedidos) e brasileiros (de 17% para 8%, - 156 pedidos).

Não é, porém, essa a realidade da maioria dos imigrantes que dá entrada em Portugal: 35% vive em risco de pobreza ou exclusão social, principalmente se forem oriundos de países fora da UE a 27 (37%). O rendimento médio é inferior ao dos portugueses e a precaridade salarial também atinge com especial dureza os extracomunitários.

E parte junta às dificuldades económicas a fragilidade da situação humanitária: em 2021, Portugal recebeu cerca de 1300 pedidos de asilo. A guerra na Ucrânia mudou tudo. De acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), desde o fim de fevereiro de 2022, foram atribuídas 55.833 proteções temporárias a cidadãos ucranianos em fuga do conflito. Destes 32.709 são do sexo feminino, 23.124 do sexo masculino e 13.855 menores.

DE ONDE, PARA ONDE

Os dados compilados pela Pordata permitem também perceber de onde vêm e onde se fixam territorialmente os cidadãos estrangeiros em Portugal. A maioria chega do Brasil (37%) - há brasileiros em todos os concelhos portugueses - seguido de Angola (6%), Cabo Verde (5%), Reino Unido (5%) e Ucrânia (4%). Mas há outras origens entre os que mais aumentaram nos últimos dez anos: além do Brasil, surge o Nepal, Índia, Itália e Bangladesh. Em perda está Cabo Verde, Roménia, Moldávia e Guiné-Bissau. Face a 2011, o peso relativo dos estrangeiros dos continentes europeu e africano diminuiu, aumentando os que chegam da América e da Ásia.

Vivem principalmente no litoral (92%), quase metade (47%) mora na Área Metropolitana de Lisboa (AML), 13% concentram-se no Algarve e na região centro duplicaram em dez anos para 95 mil pessoas. Entre os dez municípios com maior proporção de estrangeiros no total de residentes, 9 são algarvios. O único que destoa é Odemira, no Alentejo, o que regista a mais elevada percentagem de imigrantes (28%), quase todos trabalhadores agrícolas nas estufas e campos de cultivo e azeitona.

O Brasil é a origem mais frequente entre a população estrangeira em todas as regiões, com exceção do Alentejo Litoral, em que ganham destaque o Nepal e a Índia, e da Região Autónoma da Madeira, dominada pelos venezuelanos.

NOVOS PORTUGUESES

De fora das estatísticas da imigração ficam os que adquirem nacionalidade portuguesa. Aliás, a descida de residentes de Cabo Verde ou Guiné-Bissau, que há mais anos migram para território nacional, pode não significar que partiram mas que tão somente deixaram de ser cidadãos estrangeiros. A análise dos dados por naturalidade mostra essa realidade.

Nos últimos 11 anos, foi concedida nacionalidade a mais de 347 mil cidadãos estrangeiros, uma média de 32 mil por ano. Em 2021, as aquisições mais do que duplicaram face a 2011. Em 2020, Portugal era o 4º país da UE a 27 que mais atribuía nacionalidade, quase o dobro da média europeia. No topo do ranking estão países como a Suécia, o Luxemburgo e os Países Baixos.

A naturalização é a principal forma de aquisição da nacionalidade: para os que vivem em Portugal, pelo facto de residirem no país há pelo menos 6 anos (61%), e para os que vivem no estrangeiro, é a descendência de judeus sefarditas (77%), como fez o bilionário russo Roman Abramovich. Os pedidos chegam maioritariamente de brasileiros (32%) e cabo-verdianos (12%). Entre os não residentes, destaca-se a nacionalidade israelita (65%).

2.12.22

“Não existe um fado que nos diga que nasce pobre tem de ser pobre”. Mas há “menos condições para sair”

in CNN Portugal

Elisabete Santos, da Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal, alerta que os “salários são insuficientes para sair da pobreza” em Portugal. Ainda não há dados relativos a 2022, mas os números que refletem os anos de pandemia apontam para mais de dois milhões de pessoas em situação de pobreza ou exclusão social.

Alexandra Manes | A inclusão ou exclusão das palavras

Alexandra Manes, opinião, in Jornal Açores 9

Leio com alguma consternação testemunhos, que reproduzem o que se ouvia e ouve pelos corredores das escolas. Os miúdos adoravam apontar aquele que sofria de obesidade, ou aquela que tinha uma doença de pele que lhe manchava a cara. Não se importam nada em chamar nomes ao que tem mobilidade reduzida e ao colega da turma ao lado, que tem Síndrome de Down, e que passa os intervalos sentado dentro da sala para não levar socos dos que se dizem amigos dele. Essas pessoas cresceram, e estão entre nós. Essas pessoas vão crescer e estarão entre outras pessoas.

Da minha juventude, lembro-me de ir ao café da esquina e sentir na pele o olhar curtido daqueles homens de pele rija, que murmuravam entre si palavras penetrantes, que me faziam sentir pequena. Encurralada. De certa forma, quase que violada. Era sempre o mesmo, quando passava pelos andaimes ou pelas portas abertas dos espaços comerciais onde se fumavam cigarros e olhavam as raparigas da minha idade. Menores, de espírito aberto. Prontas para eles as usarem. Essas pessoas continuam entre nós.

Recordo um amigo, que perdeu a sua identidade quando passou a ser um saco de pancada de uma parte da sociedade que não aceitava vê-lo a passear na rua, de mão dada com o seu namorado. E uma amiga que acabou por ser internada, depois de anos a combater problemas com álcool e drogas, porque a mãe expulsou-a de casa quando soube que ela estava apaixonada pela vizinha. Tenho nos meus lábios o nome daquele que suicidou no dia em que veio a público que estava numa relação de longa data, mas tinha também um gosto particular por participar em espetáculos Drag, aos fins de semana. Atirou-se do prédio, sem sequer pensar duas vezes. Antes isso do que sofrer as palavras daqueles que estão entre nós.

As palavras são pesadas. Magoam e danificam como que se de violência física se trate. Deixam cicatrizes, muitas vezes incapazes de serem curadas.

No passado dia 25 de novembro quem ainda não sucumbiu ao caminho do ódio honrou, uma vez mais, o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher. Por todo o país e um pouco por todo o mundo, juntaram-se grémios para discutir o exponencial crescimento dos crimes de género, mas também para falar dos que abrangem outras minorias e outros grupos perseguidos. Falamos das vinte e duas mulheres cujos assassinatos estão registados em Portugal como femicídio, só este ano, e de todas as outras que morreram ou sofrem em silêncio, com medo das palavras das pessoas, que lhes irão acusar de serem elas as culpadas.

As palavras podem matar. Ou deixar morrer.

O problema da violência contra o sexo feminino não é novo, e nunca foi desculpável. Antigamente não deveria ter sido assim. Nos países onde ainda é preciso autorização de um homem para sair à rua, nunca deverá ser assim. E por cá, de cada vez que um homem levanta uma mão contra uma mulher, abre a boca para projetar um conjunto de alarvidades ou simplesmente escreve um chorrilho de mentiras e insultos, deve de ser escrutinado e alvo de julgamento, ao abrigo da lei. Desenganem-se os que pensam que estão inocentes, mas não se esqueceram de ir lá gostar secretamente do que esses homens disseram. Ou aqueles que passam na rua por um casal em discussão explosiva e nem se dignam a prestar atenção, para saber se alguém precisa de ajuda. Sois culpados e coniventes. Aliados nunca serão!

As palavras são armas de destruição maciça. E os únicos escudos que conhecemos para as aguentar são outras palavras.

Um dos maiores problemas com que a linguagem inclusiva se depara é com o modelo patriarcal e machista da sociedade que modela os idiomas. Vejamos o caso de França. As fundações do absolutismo francês passaram pela estruturação e a normalização da língua francesa. Curiosamente, basta ler o que pensava um dos grandes arautos desse processo e perceber as suas intenções. Dominique Bouhours sustentava que, na gramática, “quando os dois géneros se encontram, o mais nobre deve prevalecer”, sendo obviamente da opinião que o género masculino era o mais nobre. Estamos conversados sobre a fraude que é a ideia de um suposto processo histórico neutro. Se tudo é político, por que é que algo tão importante como a linguagem deixaria de o ser? A língua tem história e ideologia.

A história portuguesa não é tão linear nesta matéria, não havendo um momento específico com a escolha deliberada de uma orientação masculina do idioma. Mas, há cinco séculos, já o primeiro gramático português, o aveirense Fernão de Oliveira, ironizava com a dominação do género masculino escrevendo que “marido e mulher ambos são bons homens”. E, até recentemente, Mulher significava a fêmea da espécie humana, enquanto Homem dava significado a cada um dos representantes da espécie humana.

A utilização do senso comum como a capa do politicamente correto, que permite as “piadas fáceis” ou dá cobertura a generalizações opressoras, é apenas mais uma faceta deste conservadorismo. Daí, cataloga a linguagem inclusiva de subversão gramatical e apela ao imobilismo social – regra geral, preferem chamar-lhe “tradição” – contra a evolução da língua.

Não precisamos de ir mais longe, em plena época de mundial de futebol, bastando referir o exemplo da ditadura salazarista que mudou o vermelho para encarnado, porque quem apoiava o Benfica não poderia gostar de comunistas avermelhados, claro está. E se tal requalificação linguística pode hoje até parecer absurda, à época foi uma ferramenta importante de sedimentação ideológica e mudança de mentalidades, que ainda carrega peso em alguns caminhos da nossa sociedade.

Esta é a nossa luta. A mutação. Para a igualdade. Para a inclusão. Para um caminho conjunto.

De todas as mulheres. Da comunidade LGBTI+. Das pessoas com necessidades especiais. Das minorias étnicas.

Não compete a um tipo sentado na sua mesa de esquina no café decidir se esta linguagem é ou não aceitável. Nem aquele que da sua secretária de poder debita palpites do topo da sua pilha de comportamentos tóxicos. Não caberá a uma Academia constituída exclusivamente por homens pronunciar-se sobre a veleidade de mudança de quem sofreu na pele desde sempre a opressão em todas as suas formas. Não é apenas um partido político ou um governo em exercício de funções, mas sim o povo, quem mais ordena.

E juntas e juntos, como deve de ser, chamamos o assunto à mesa de ordem. Para dizer que a violência nas palavras não pode continuar. Não é certa, nem legítima.

Como quem se esconde atrás de palavras e insultos para mascarar a sua incompetência. Como quem nunca soube tratar bem uma mulher, um irmão homossexual, ou um filho com necessidades especiais. Não podem continuar a passar impunes.

14.11.22

Câmara de Beja preparara novas responsabilidades sociais

in Rádio Pax

A Câmara Municipal de Beja assume, no início do próximo ano, novas competências na área social.

A autarquia está a preparar a entrada em funcionamento do Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS) de pessoas e famílias em situação de emergência, vulnerabilidade e exclusão social.

Marisa Saturnino, vereadora da Câmara de Beja, afirma que estão a ser desenvolvidas várias diligências e reuniões com os parceiros sociais.

O espaço físico está em preparação. Os concursos para recrutamento de recursos humanos deverão ser abertos no início do ano, revelou Marisa Saturnino na última reunião de Câmara de Beja.

É para dar tudo!

Claudia Guedes, opinião, in Jornal O Interior

Temos que dar tudo no combate à subida da inflação, ao aumento de preços, ao aumento das taxas de juro, à desaceleração económica, à pobreza. “

Ter um emprego não é garantia para não se ser pobre em Portugal e estamos, aliás, entre os países da Europa com maior risco de pobreza entre trabalhadores. Há mais pessoas no limiar da pobreza mesmo depois dos apoios sociais. A pandemia afetou todos os países europeus, mas teve um impacto mais negativo em Portugal. A guerra na Ucrânia veio piorar o que já não era bom. Os dados da Pordata revelam que o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou e Portugal é o segundo país da Europa com mais pessoas a viver em más condições materiais. Os supermercados colocam alarmes e aumentam as notícias de roubos de bens alimentares. É fundamental ajudar as famílias e estabelecer como prioridade o combate à pobreza. Como diria um instrutor de fitness: “É para dar tudo!”.

Sem os apoios sociais, mais de 4 milhões de portugueses são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza. Mesmo após as transferências sociais, há cerca de 2 milhões de portugueses em dificuldades. As pensões de velhice e sobrevivência, os apoios às famílias, à educação, à habitação, ao desemprego não têm sido, claramente, suficientes. Ainda segundo dados da Pordata, Portugal é o segundo país (dos 27 da UE) com mais pessoas a viver em alojamentos com más condições. É o quinto país a ter população incapaz de aquecer convenientemente a habitação. Seis em cada dez pessoas com rendimentos abaixo do limiar da pobreza não conseguem fazer face a uma despesa inesperada. A situação é ainda mais difícil para os agregados com crianças dependentes, daí que os menores de 18 anos estejam nos três grupos que correm um maior risco de exclusão social. Há mais famílias no escalão mínimo de IRS e mais beneficiários do Rendimento Social de Inserção. O aumento do custo de vida está a levar cada vez mais portugueses a procurar ajuda junto das instituições de apoio alimentar: pessoas com emprego, mas cujo salário deixou de chegar para as despesas; pessoas que trabalham, mas que não conseguem pagar a renda de casa, a prestação da casa, a luz, a água; pessoas que não conseguem comprar o básico. Este mês a inflação atingiu o valor mais alto desde há 30 anos (subiu para 10,2%) com impacto na vida da população. O preço dos medicamentos ameaça subir. A perda de poder de compra atinge a população sem trabalho mas também a população com emprego.
Portugal pode e deve fazer muito melhor. Mais do que medidas únicas e casuais precisamos de medidas mais abrangentes no tempo. Se as pessoas trabalham, deveriam ser capazes de pagar as suas despesas essenciais. A preocupação deve ser com as famílias mais carenciadas e em resposta a uma crise sem precedentes, é preciso concentrar esforços nos bens alimentares. Todos devemos funcionar como comunidade em entreajuda mas é preciso exigir medidas. O Estado tem acumulado muita receita fiscal em consequência da inflação e é urgente devolver parte desse valor aos portugueses. A taxa de IVA sobre os bens essenciais deve passar a ser de 0%, pelo menos até a situação melhorar. Alimentos considerados essenciais como fruta, pão, ovos, carne, peixe devem deixar de pagar IVA, para garantir o direito a uma alimentação adequada da população, numa altura de crise. Devemos valorizar o trabalho de cada categoria profissional e inverter o caminho de nivelamento por baixo que está a ser efetuado. Devemos ter um maior rigor na atribuição de subsídios e apoios sociais. Devemos exigir aos nossos políticos uma maior seriedade na gestão da coisa pública para que não seja a corrupção a delapidar muitos dos recursos deste país. Portugal encerrou as centrais termoelétricas a carvão que produziam energia e que poderiam ajudar na disponibilidade de energia elétrica na rede e reduzir os custos. Em ano de seca, não tivemos produção suficiente e tivemos que importar energia de Espanha (produzida em centrais a carvão). Não é o mesmo planeta? É também necessário combater o desperdício alimentar para que toneladas de alimentos sejam reaproveitadas e distribuídas por quem mais precisa.
Quase um terço da população portuguesa vive em risco de pobreza. Este risco afeta a população desempregada, mas também a população com emprego. As dificuldades económicas das famílias refletem-se em grandes privações materiais e sociais. O aumento dos preços tem-se feito sentir no setor da alimentação, no setor energético, na habitação (a prestação da casa sobe até 50% em novembro). Os indicadores nacionais mostram que o futuro é incerto mas a situação pode ficar ainda mais complicada e a previsão é que vai agravar-se. «Num país bem governado, a pobreza é algo que deve causar vergonha». (Confúcio) Temos que dar tudo no combate à subida da inflação, ao aumento de preços, ao aumento das taxas de juro, à desaceleração económica, à pobreza.

11.11.22

As pessoas não são objectos que se compram num bazar

Pedro Gomes Sanches, opinião, in Expresso 

Expresso | As pessoas não são objectos que se compram num bazar




As pessoas não são objectos que se compram num bazar




O Sebastião não era o "preto", o João não era o "maricas", e a Maria não era a "puta". Onde uns vêem objectos de exclusão os outros vêem objectos de inclusão. E a palavra a reter aqui é: objectos. As pessoas não são medalhas de diversidade para ostentar ante a turba politicamente correcta



Um homem branco, heterossexual, tatuado e carregado de pregos e alfinetes no corpo disse há dias ao Expresso: "Se eu disser que sou uma pessoa inclusiva e só tiver à minha volta pessoas brancas, heterossexuais e de uma certa idade alguma coisa não está a correr tão bem no meu processo de inclusão".



Exagerei no absurdo? Foi de propósito, para expor a exiguidade do seu, chamemos-lhe assim, "pensamento" sobre a inclusão. Acrescento: chama-se Bernardo, é filho da Helena e do Paulo e é mais conhecido por Agir. É casado com a Catarina e começam agora a pensar ter filhos.

O Bernardo é, na verdade, uma pessoa como tantas que se cruzam connosco no comboio, no autocarro, no café e na rua, repleto de singularidades que o tornam único. Como o Sebastião, o João e a Maria.

O Sebastião era o miúdo mais inteligente do bairro e tinha grande apetência pela matemática. Nos poucos dias de férias de que gozava, na Lousã, gostava de nadar no rio, ao pôr-do-sol, sobretudo naqueles dias em que o dia persiste em ser maior do que a noite. Sempre que podia, ajudava os vizinhos mais idosos a transportar as compras para casa, e aos Domingos ia à missa. Era do Sporting. O Sebastião era irmão da Emília.

O João arregalava os olhos sempre que os avós lhe diziam que o levariam ao monte, lá no Alentejo, onde podia ser tudo sem que ninguém o visse nem censurasse. A viver nos subúrbios sujos da grande cidade, ali num concelho onde se prometeram muitos amanhãs cantantes, mas onde só se ofereceram hojes lamacentos, João lia. Lia sempre. Lia sobre o mundo aberto, para lá do rio. Gostava de castanhas no Outono. E de dormir até tarde. O João era neto da Alice e do Joaquim.

A Maria subia a calçada, como a Luísa, carregada de sacos e de sonhos por cumprir. Pobre e maltratada por quem lhe prometeu que a amaria e respeitaria até que a morte os separasse, protegia os filhos com um amor e um querer maiores do que aqueles com que, até, alguma vez sonhou um futuro feliz para si. Maria gostava de pastéis de nata e de café sem açúcar. E de filmes românticos. A Maria era mãe da Margarida e do Ruben.



Sebastião vivia na Amadora, João no Seixal e Maria em Odivelas. Sebastião foi agredido até à morte, num "dia da raça", porque era negro, João suícidou-se porque era homossexual e porque lhe faltou a rede que o protegesse, e Maria foi mais uma trágica vítima da violência doméstica porque era mulher e estava casada com um animal ciumento.

O Sebastião não era o "preto", o João não era o "maricas", e a Maria não era a "puta". Mas o afunilamento cerebral dos canalhas que lhes ceifaram as vidas - ou contribuíram para isso - não os viu como eram, mas como uma simplória e violenta simplificação do que eles lhes pareciam ao seu grotesco olhar. Usaram, os biltres assassinos, um olhar redutor, desumanizador, para verem aquelas pessoas, não como pessoas, mas como objectos de exclusão.

Usar, em sentido contrário, ainda que movidos pela vontade de "inclusão" ou por um "amor" à diferença, uma lei de atracção por força dessas mesmas características é usar exactamente a mesma lógica dos assassinos: desumanizadora, coisificadora da pessoa humana, redutora da complexidade do ser a um traço de identidade. Digo a mesma lógica, porque onde uns vêem objectos de exclusão os outros vêem objectos de inclusão. E a palavra a reter aqui é: objectos.

As relações humanas, de afecto, não são um mosaico feito de peças adquiridas num bazar qualquer para satisfazer uma multicromática e polifórmica necessidade de exibição de virtude. E as pessoas não são medalhas de diversidade para ostentar ante a turba politicamente correcta.

Seria hipócrita não reconhecer que traços particulares de identidade são activadores de homofilia - leia-se: proximidade motivada por traços de similitude - e potenciadores de relacionamento. Mas, e então? Qual é o erro nisso? É verdade que as relações humanas, de afecto, resultam disso, claro, de homofilias, mas resultam também de curiosidades pelo desconhecido e pelo diferente. E de outras tantas insondáveis coisas que nos tocam, nos interpelam.

Já erro é considerar que a busca activa do diferente, objectivado em traços isolados de identidade, entrelaçados num patchwork simbólico, deve ser um fim em si mesmo e um garante de virtude. Voz amiga, a propósito das declarações do Agir, diz-me que este, para além de inclusivo, tem de ser muito metódico, já que arruma os amigos por cores. Coisa que eu, lamentavelmente, não consigo fazer, sequer, com as gravatas.



Concluo. Há uma tragédia neste debate, uma tragédia que une os do ódio aos deste tipo de "inclusão": olharem para as pessoas não como pessoas, mas como objectos, para uns de exclusão, para outros de inclusão. Uns para eliminar, outros para coleccionar. Nisto, passando ao lado do essencial. O que é o essencial? Santo Agostinho esclarece: "Na essência somos iguais, nas diferenças nos respeitamos." Lição de que, parece, estamos cada vez mais esquecidos.


* O Sebastião, o João e a Maria nunca existiram, mas representam demasiados que ainda hoje existem por aí.

Governo quer uniformizar avaliação de perigo de crianças e jovens

Ana Cristina Pereirain Público

Criado grupo de trabalho que terá de apresentar “um modelo uniforme de avaliação do perigo”.grupo de trabalho para aperfeiçoar o sistema de promoção e protecção de crianças e jovens em perigo. Concede-lhe 120 dias para apresentar “um modelo uniforme de avaliação do perigo”.

O despacho, publicado esta terça-feira em Diário da República, começa por explicar a estrutura piramidal em que assenta o sistema de protecção de crianças e jovens. Na base está a comunidade, a começar pela família alargada, a abranger as chamadas entidades com competência em matéria de infância e juventude, como escola, centros de saúde, serviços de segurança social, polícias. A seguir vêm as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, que só podem intervir havendo consentimento dos detentores da guarda da criança e a não oposição desta, se tiver doze ou mais anos de idade. Finalmente, os Tribunais de Família.

Considera-se que “a disseminação de um modelo de triagem, assente na avaliação do perigo, realizada a partir de uma matriz uniforme, de aplicação articulada pelas diversas entidades” é um “elemento-chave para a avaliação diagnóstica da situação de perigo a que criança ou jovem”. E que “importa garantir uma intervenção expedita bem como, sendo o caso, a judicialização, assegurando à criança ou jovem, sempre que possível, meio familiar idóneo”.

O grupo de trabalho será orientado pela coordenadora nacional da Garantia para a Infância, uma estratégia pensada para prevenir e combater a exclusão social na primeira fase da vida – Sónia Maria Cunha Ferreira de Almeida, nomeada em Outubro. Terá dois elementos indicados por representantes da área da justiça, dois pela área dos assuntos parlamentares, dois pela área do trabalho, solidariedade e segurança social e dois pela Procuradora-Geral da República.

De acordo com o caderno de encargos, deverá “fazer um levantamento de modelos de referência” que existam noutros países” e “identificar os principais factores de perigo associados às fragilidades/vulnerabilidades das crianças e jovens que permitam a subsequente criação de uma concreta proposta de ficha de avaliação do perigo a que se encontrem expostos”.

Terá de planificar “um modelo uniforme, visando a aplicação articulada pelas diversas entidades”. E de formular “eventuais propostas, incluindo de alteração legislativa, em conformidade com o propósito de aperfeiçoamento do sistema de promoção e protecção de crianças e jovens em perigo”.

Terá 120 dias para apresentar um relatório. Esse prazo poderá ser alargado até 180 dias, havendo “ponderosos fundamentos”.

Três mil e 346 idosos vivem sozinhos ou isolados no distrito de Beja

in Rádio Voz da Planície

A GNR realizou, durante o mês de outubro, a operação Censos Sénior 2022 e identificou 44 mil e 511 idosos a viver em situação de vulnerabilidade. No distrito de Beja estão três mil e 346 nesta situação.

Os resultados divulgados dizem que, a nível nacional, Beja está entre os primeiros quatro distritos com mais idosos a viver sozinhos ou isolados.

Vila Real de Trás os Montes tem o maior número, cinco mil e 353, seguida de Viseu, com três mil e 536 e de Faro com três mil e 527. Portalegre tem dois mil e 985 e Évora dois mil e 924. Com menos idosos sinalizados está o Porto, com 875, seguido de Leiria e Lisboa.

Estes números revelam que a maior parte dos idosos que vivem situações de vulnerabilidade e de insegurança estão em distritos do Interior do País, sendo que três deles, Beja, Portalegre e Évora são do Alentejo.

Durante a operação, os militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) realizaram uma série de ações que privilegiaram o contacto pessoal com as pessoas idosas em situação vulnerável, no sentido de sensibilizarem e alertarem este público-alvo para a adoção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente em situações de violência, de burla e furto.

Na edição de 2022 da Operação “Censos Sénior”, a Guarda realizou 305 ações em sala e 3.017 ações porta a porta, abrangendo um total de 26.527 idosos.