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1.8.23

“Estigmatizamos a pobreza e não quebramos o ciclo entre gerações” – Entrevista a Maria Joaquina Madeira, EAPN

in AMI

“O que ninguém quer falar sobre a pobreza”, desde os ciclos de vida repetidos de pais para filhos, à exclusão do contrato social, porque “quem vive na pobreza nada pode dar” é o que Maria Joaquina Madeira, vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza e impulsionadora da implementação do Rendimento Social de Inserção em Portugal afirma ser necessário colocar abertamente no debate público “sem eufemismos. Ainda estigmatizamos a pobreza e não quebramos o ciclo entre gerações. Maria Joaquina Madeira, vice-presidente Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN).

Que metas não foram alcançadas com o Rendimento Social de Inserção?

O Rendimento Social de Inserção [RSI] devia ser uma ferramenta eficaz na luta contra a pobreza, no entanto, ficou aquém do objetivo.

O RSI tinha como meta dar mais capacidade às pessoas na aquisição de bens e serviços, para viverem com mais dignidade, mas tornou-se insuficiente. Não podemos esquecer que grande parte dos beneficiários de RSI são idosos, doentes crónicos ou crianças. Beneficiários que não representam população ativa.

O RSI é insuficiente só pelo valor ou porque faltam políticas públicas complementares?

Hoje fala-se em mínimos adequados para ter uma vida digna, de acordo com recomendações europeias.

A sociedade caminha para outro patamar de rendimentos e a perspetiva é de que o RSI se mantenha apenas para as situações mais críticas. A meta agora passa por alcançar níveis de rendimento que vão ao encontro das despesas base das pessoas, para que reúnam condições de vida mais dignas.

Somos uma sociedade alimentada economicamente de forma desigual e por conveniência?

O melhor que pode acontecer a uma organização humanitária como a EAPN ou a AMI é deixar de ser necessária, afinal, elas trabalham para o seu fim e esse seria o mundo perfeito. Mas, a vida em sociedade é um contrato, damos para recebermos. As pessoas em situação de pobreza não entram no contrato social porque não têm nada para dar em termos de impostos e poder de compra.

É preciso colocar no debate público o que ninguém quer falar sobre a pobreza e fazê-lo sem eufemismos. A verdade é que ainda estigmatizamos a pobreza e mantemos um ciclo difícil de quebrar entre gerações.

O conceito de aporofobia criado pela filósofa Adela Cortina traduz-se como medo do pobre numa sociedade que estigmatiza a pobreza. Do estigma da pobreza nascem nichos de precariedade alimentar e habitacional e oportunidades para situações de vida à margem da lei, com vista a obter rendimentos ou ascensão social de forma rápida.

É bom ter essa palavra, apesar de pesada, porque ela concretiza o problema e a sociedade pode usar a palavra aporofobia como missão para erradicar a pobreza e não alimentar preconceitos.

Porque não se consegue quebrar a necessidade de assistência financeira ou alimentar?

Falha sobretudo a questão dos salários dignos. Temos salários insuficientes que comprometem toda a vida das pessoas, mas a pobreza não se esgota só na dimensão económica. A pobreza é multidisciplinar e complexa. Têm que se ter em conta todas as dimensões no processo de transformação e empoderamento das pessoas.

A falta de condições económicas prejudica o acesso à educação de qualidade, e, consequentemente, a uma profissão e trabalho digno.

Temos evoluído, no século XX usava-se mais o nome “pobre” do que o conceito “pobreza”. A responsabilidade de ser pobre era da própria pessoa, como se tivesse culpa. Hoje trabalhamos sobre todas as dimensões do conceito “pobreza”, desde a geográfica, à económica, saúde, educação ou acesso à cultura e lazer.

O salário mínimo nacional de hoje limita o futuro das próximas gerações?

É uma questão cultural. Temos uma população ativa de quatro milhões, há ainda muitas pessoas que por condição da sua vida, idade ou outro fator, não tem direito ao trabalho. Mais de 500 mil pessoas que trabalham e são pobres, a maior parte com família e crianças a seu cargo. Temos uma taxa de pobreza nas crianças demasiado elevada porquê? Porque os seus pais são pobres.

Pais pobres, filhos pobres?

Ainda há um ciclo de pobreza. Um aprisionamento das pessoas num ciclo de privações. A neurociência estuda os compromissos que a pobreza gera ao nível do desenvolvimento físico, mental, psicológico e social.

Quando as pessoas ficam extremamente comprometidas com ajudas materiais e afetivas mútuas ao longo da vida, a autonomia fica em causa e podem gerar outras famílias empobrecidas. O estado de privação é uma herança terrível.

Por isso afirma que “agora o trabalho das instituições e do Estado é feito com a pobreza e não com os pobres”?

Há algumas décadas o Estado e a sociedade não viam a pobreza como um problema deles. O problema era das pessoas e elas tinham que adaptar-se à vida.

Atrasado em relação à Europa, no pós-25 de abril, com a adesão à CEE [Comunidade Económica Europeia], Portugal assumiu um conceito que já circulava em outros países, o dos direitos sociais. A pobreza afinal existia porque a sociedade não garantia condições mínimas para uma vida digna.

O Estado assumiu a pobreza como um problema público e começámos a falar de integração. Vivemos um momento de empoderamento. Mas, ainda temos uma sociedade profundamente desigual e todos os dias infringimos direitos humanos.

Que políticas públicas podem quebrar o ciclo?

A Agenda do Trabalho Digno vai muito além do trabalho a nível remuneratório. Incide também sobre a precariedade e relação trabalho família. Uma agenda forte que vai ser uma política angular na transformação das condições de vida de muitos portugueses.

Depois, a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza incide precisamente sobre a questão da pobreza nas crianças.

Tudo isto se enquadra na recomendação europeia: pilar dos direitos sociais.

As políticas públicas estão no terreno, mas, continuamos sem conseguir implementar o idealizado, a começar pelo trabalho.

Há uma certa desvalorização do acompanhamento e avaliação das políticas públicas implementadas. Fazem-se as políticas, as leis, executam-se e depois não se avalia o impacto.

A grande novidade é que as novas estratégias estão submetidas a um sistema de avaliação do desempenho e do impacto na vida das pessoas.

Entramos numa nova Era e estou convicta de que tudo vai ser diferente, embora só consigamos ver resultados daqui a dois ou três anos.

14.7.23

Idosos, uma maioria menorizada exposta ao risco de pobreza

António Pedro Pereira, in Público online

Com apoio familiar, Delfina consegue evitar sobressaltos, ao contrário dos amigos em dificuldades. Serzedelo diz-se “privilegiado”, mas luta contra o idadismo e por uma vida digna para a sua geração.

Junto à Sé de Braga, no Centro de Dia da Associação de Solidariedade Social, Cultural e Recreativa de Santa Maria, Delfina Ferreira Mouta, de 79 anos, está limitada fisicamente devido a um problema na coluna cervical que a impede de grandes movimentações. Tendo trabalhado décadas como vendedora de uma loja de máquinas de costura, mais alguns anos na limpeza de um estabelecimento comercial, está reformada há cerca de 15 anos. “Reformei-me aos 66”, conta Delfina, que tem uma reforma de 370 euros. “É muito baixa. As reformas deviam ser aumentadas”, alerta.

Com a ajuda da família, Delfina tem uma vida sem grandes sobressaltos. “Fui educada a poupar e só gasto no essencial”, recupera. Esse exemplo de aforro vindo dos pais ajuda-a, mas é o apoio familiar que lhe permite escapar a um quadro de indignidade que afecta, pelo menos, um em cada cinco pensionistas em Portugal (são cerca de três milhões). “O meu marido morreu há pouco mais de um mês, chamava-se José Dias Ferreira e trabalhou a vida toda na Casa Salsa [fábrica de ferragens]. Com a reforma do meu marido, que é de 450 euros, a coisa compõe-se”, explica. Com pouco mais de 800 euros mensais, Delfina teve uma grande ajuda que lhe resolveu um dos grandes problemas para os idosos – a habitação. “O meu filho comprou a nossa casinha”, diz, com orgulho.

No entanto, sabe que a sua situação é bem diferente da de muitos da sua geração. “Tenho amigos que vivem com muitas dificuldades. O problema é o dinheiro, as reformas são muito baixinhas...”, sublinha.

Com uma reforma acima da média, António Serzedelo, por seu lado, centra as suas preocupações na luta contra as discriminações da sua geração – das “reformas pequeninas” à “solidão”, é o idadismo (tratamento negativo baseado na idade, especialmente em relação às pessoas mais velhas) que o leva a redobrar a força cívica por entre as várias frentes de combate social que marcaram e ainda marcam a sua vida.

“Tenho plena consciência dos enormes problemas que os idosos enfrentam, das dificuldades básicas em pagar contas ou ter acesso a cuidados de saúde, ao isolamento e exclusão a que são votados”, afirma António Serzedelo, de 78 anos, rosto do activismo político e cívico – é o conhecido fundador da Opus Gay, associação de defesa dos direitos LGBT. Tendo uma vida digna e complementada por uma “boa reforma” de professor do secundário em Lisboa durante mais de 40 anos, não se conforma com a sua situação de privilégio por comparação com uma larga fatia de idosos que mal consegue pagar as contas médicas, lutando por melhores condições para todos e acolhendo, durante largos períodos, pessoas em sua casa que passam por situações de grande fragilidade e exposição ao risco – afinal, um quinto dos cidadãos com 65 ou mais anos está em quase ruptura social e sem condições para chegar ao fim do mês.

“Seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado”, dispara. “A minha reforma anda à volta dos 2000 euros mensais”, revela, acrescentando que sabe perfeitamente que é um valor, face ao panorama das pensões, “de rico”.

“Sim, seria insultuoso se eu dissesse que não me sinto privilegiado face aos problemas que afectam os idosos. Porque tive uma boa educação, porque viajei, enfim, conheci mundo e grandes figuras da cena mundial”, complementa.

Enquanto Delfina divide o seu tempo entre a sua casa, os filhos (o mais velho com 55, a mais nova com 49) e o centro de dia, condicionada pelo problema na cervical, António Serzedelo continua activo. Tem uma vida plena de acção, entre o activismo político, pela cidadania, pelas mulheres, pela comunidade LGBT+ (foi fundador da Opus Gay em 1997), pelas pessoas com deficiência. Tem uma reforma que, “para a pobreza de Portugal”, “é quase de rico”, vive num bairro que “agora é da grande burguesia”, não enfrenta dificuldades de maior no acesso à alimentação, aos cuidados médicos, à energia para se manter protegido. Ou seja, tem quase tudo o que lhe permite evitar cair numa situação crítica de exposição ao risco de pobreza e exclusão social que afecta mais de um quinto deste grupo etário (20,5 por cento, de acordo com números de 2022 do Instituto Nacional de Estatística).

Vive dignamente, mas não alienado. “Noto os preços a subir, nas contas e no supermercado. E tento comprar coisas mais em conta. Gasto mais com os dois gatos e com o cão do que comigo. Eles são mais esquisitos, eu adapto-me a qualquer coisa”, conta o antigo militante do PS (“com o cartão número dez”), às voltas com um processo “demoradíssimo” de refiliação no partido a que aderiu há 44 anos. Foi vereador suplente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-vogal e conselheiro da Junta de Freguesia de Arroios.

António Serzedelo, que foi também jornalista no Diário de Notícias e na revista Telesemana, tem colaborado com associações cívicas contra o idadismo – termo que em Abril deste ano entrou no Dicionário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa como definição de “atitude de discriminação e preconceito com base na idade”. Particularmente, o que atinge os idosos.

“Trabalho com algumas associações anti-idadismo. E estamos a propor algumas medidas, como, por exemplo, uma Secretaria de Estado dos Idosos, que concentre num só edifício a gestão de todos os departamentos para este grupo etário. Cheguei a propô-la a uma alta figura do Governo, porque este grupo é o que mais recursos gasta ao Estado, mas disse-me que ia pensar e, alguns anos depois, ainda está a pensar”, revela Serzedelo.

No limiar da exclusão social

Segundo o relatório Portugal, Balanço Social, “em 2021, 20,9% dos indivíduos com mais de 65 anos encontravam-se em situação de privação material e social (38,8% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza). Nesta faixa etária, 8,7% da população estava em situação de privação material e social severa (19,9% para aqueles com rendimentos abaixo do limiar da pobreza)”, sendo que este é, actualmente, de 551 euros mensais.

Joaquina Madeira socorre-se de dados do Instituto Nacional de Estatística, mas de 2022, para sublinhar que “o risco é, no entanto, claramente mais elevado quando olhamos especificamente para os mais velhos, nomeadamente para a população com 75 ou mais anos cujo risco de pobreza ou exclusão social foi de 22%”, regista a vice-presidente da EAPN Portugal (Rede Europeia Antipobreza). “A privação material e social severa é outro indicador que devemos sublinhar, devido a forte vulnerabilidade da população mais velha. É na população com 65 anos ou mais que encontramos a maior taxa de privação material e social severa: 7,1% da população nessa faixa etária comparativamente com 4,9% das crianças e 4,7% dos adultos entre os 18 e os 64 anos”, acrescenta.

Solidão agravada para os gays

“Tento continuar a ser activo e activista, na área da cidadania, na área do idadismo e na área LGBT”, prossegue o também radialista, que teve durante anos, a partir de 1999, um programa sobre temáticas LGBT na Rádio Voxx – Vidas Alternativas – e participa actualmente numa conversa semanal, às segundas-feiras (17.00 de Lisboa) no Alternativas Brasil Portugal, uma rádio online do Recife, Brasil.

“Tenho 78 anos e há 20 anos já estaria morto, porque a esperança média de vida era mais baixa. Estive na origem da Opus Gay, defendendo os direitos dos homossexuais, mas depois passei a defender as mulheres, e sobretudo as mulheres lésbicas, porque eram ainda mais discriminadas, e a organização mudou para Opus Diversidade, para abranger outras populações, como os transexuais. Eu já morei com duas ‘trans’, que até no meio homossexual são discriminadas”, alerta António Serzedelo.

“Vivo um pouco angustiado com a exclusão social que certos grupos estão a pregar [aos portugueses]. Se um quarto dos estrangeiros fosse embora, Portugal parava. E não é uma metáfora, é literal”, acusa o homem que viveu em várias cidades de Angola e de Moçambique (por causa das comissões de serviço do pai, engenheiro civil especialista em portos e docas secas) ou em Setúbal.

“Vivo num apartamento que aluguei há cerca de 40 anos e que renovei e modifiquei para um dúplex. Vivo sempre com alguém, amigos ou amigos de amigos. E acolho conhecidos, alguns recomendados por amigos, que estão em situação de fragilidade até poderem retomar a vida”, conta.

Ainda assim, não está imune aos problemas que afectam o seu grupo etário. “Sinto alguma solidão também, embora seja visitado por muita gente, até do estrangeiro. Alguns visitam-me só para se associarem ao meu nome, por ser activista e defender as minorias, mas recebo muitos amigos ou pessoas indicadas por amigos que me fazem alguma companhia”, admite o frenético António Serzedelo.

Há décadas um dos rostos mais conhecidos da luta contra a discriminação LGBT (“Fui bissexual durante um tempo, em part-time, mas depois fui gay a tempo inteiro”), Serzedelo fala ainda de uma dupla discriminação: “A maioria na comunidade gay é constituída por jovens, que, por sua vez, discriminam os mais velhos”.

A pobreza na infância e nos mais velhos, as privações materiais e sociais, as diferenças regionais e os desafios do custo de vida. Nesta série editorial, o PÚBLICO faz um “raio X” ao impacto da pandemia de covid-19 em Portugal, com o apoio da Fundação ‘la Caixa’, BPI e Nova SBE, promotores do estudo Portugal, Balanço Social 2022, publicado em 2023.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes, aqui]


23.10.22

Há cada vez mais casos de pobreza envergonhada

in Antena 1

A Rede Europeia Anti-Pobreza encara o aumento do número de pessoas a roubar comida em supermercados como casos de pobreza escondida e envergonhada.
A vice-presidente da estrutura diz que muitas famílias da classe média estão pela primeira vez na vida a enfrentar dificuldades para comprar alimentos.

Joaquina Madeira explica que estas pessoas têm vergonha de pedir apoio alimentar e preferem realizar pequenos furtos para colmatar a falta de alguns produtos cada vez mais dispendiosos, mas elementares.

A vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza diz que são intoleráveis estes casos de incapacidade financeira para comprar alimentos e que é necessário mobilizar ajuda para estas famílias.

Também a presidente do Banco Alimentar, Isabel Jonet, assume que estão a aumentar os pedidos de ajuda quer da parte de famílias, quer de instituições.

Muitas das famílias que agora pedem ajuda trabalham e têm vindo a cortar nas despesas, mas já não conseguem esticar mais o ordenado.

O apoio de 125 euros traz algum alívio, mas a inflação é permanente e o apoio é único.

A presidente do Banco Alimentar explica também quais os passos que as famílias devem seguir, para pedir apoio alimentar.








11.7.22

Santa Casa volta a premiar trabalho de apoio e melhoria da saúde dos idosos

in Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

No valor de 12.500,00 euros cada, os Prémios Nunes Correa Verdades de Faria distinguem personalidades que se destacaram no cuidado a idosos e no progresso na área da saúde.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa entregou, esta quarta-feira, 6 de julho, os Prémios Nunes Correa Verdades de Faria, que distinguiram Diana Rita Costa Vilela Breda, presidente do conselho diretivo do Hospital Arcebispo João Crisóstomo, Ana Soraia Cardoso Rodrigues do Vale, enfermeira especialista em saúde mental e psiquiatria, e Francisco Garcia Pestana Araújo, licenciado em medicina e com um vasto percurso profissional na área da medicina interna. O júri entregou, ainda, três menções honrosas.

Criados em 1987, os Prémios cumprem a vontade expressa em testamento por Enrique Mantero Belard. São entregues, anualmente, a pessoas de qualquer nacionalidade que, em Portugal, tenham contribuído, pelo seu esforço, trabalho ou estudos, nos três âmbitos definidos pelo benemérito: cuidado e carinho dispensados aos idosos desprotegidos; progresso da medicina na sua aplicação às pessoas idosas; e progresso no tratamento das doenças do coração.

A cerimónia, presidida por Maria João Mendes, administradora da Santa Casa com o pelouro dos recursos humanos, decorreu no jardim da Residência Faria Mantero, no Restelo, em Lisboa. Na sua intervenção, a administradora começou por dizer que “foi com enorme prazer que aceitei, este ano, substituir o provedor na presidência deste júri.” E continuou: “É uma enorme alegria partilhar um processo com um júri tão ilustre e aprender através de todas as candidaturas que foram apresentadas. Estes prémios refletem as preocupações de Enrique Mantero Belard: ajudar os mais necessitados, nomeadamente os idosos mais vulneráveis.”

Galardoados

Diana Rita Costa Vilela Breda, presidente do conselho diretivo do Hospital Arcebispo João Crisóstomo, em Cantanhede, e responsável pela implementação do projeto “Hospital amigo dos + velhos”, recebeu o prémio da área A – “Cuidado e Carinho Dispensados aos Idosos Desprotegidos”. Foi distinguida pela sua intensa atividade de responsabilidade social por um envelhecimento mais ativo, saudável e justo.
Na sua génese, o projeto (reconhecido com vários prémios nacionais e internacionais) pretende dar resposta ao desafio social do envelhecimento enquanto problemática transversal aos vários sectores da sociedade, desenvolvendo várias ações que visam a promoção de um envelhecimento ativo, saudável e mais digno, através da implementação de um modelo de intervenção inovador, fundamentado na abordagem geriátrica multidimensional e disciplinar, centrado numa visão holística do idoso.

“Estou genuinamente agradecida e até um bocadinho esmagada com a dimensão das palavras”, disse Diana Breda, emocionada. “Uma das mensagens que queria trazer aqui é que a gestão hospitalar também pode ser e, do meu ponto de vista, deve ser humanizada. Por essa razão, resolveu testar “modelos de cuidados um bocadinho diferentes” num hospital onde a população é maioritariamente idosa.

Já na área B – “Progresso da Medicina na Sua Aplicação às Pessoas Idosas”, a premiada foi Ana Soraia Cardoso Rodrigues do Vale, enfermeira especialista em saúde mental e psiquiatria. O seu trabalho com idosos integra, além dos tradicionais cuidados de enfermagem, um conjunto de medidas que contemplam a estimulação cognitiva e o apoio psicoterapêutico prestado de múltiplas formas, o que permite uma avaliação mais rigorosa em áreas como a sintomatologia depressiva e o sentimento de solidão.

“Foi pela minha experiência profissional que me apercebi dos problemas e das necessidades dos mais velhos. Não estava à espera de ganhar este prémio. É uma motivação extra, algo que me dá força para continuar”, disse Ana do Vale.

Por outro lado, Francisco Garcia Pestana Araújo foi distinguido na área C – “Progresso no Tratamento das Doenças do Coração”. Licenciado em medicina e com um vasto percurso profissional na área da medicina interna, da prevenção e do risco vascular, tem dedicado a vida ao serviço público hospitalar, ao ensino, bem como à investigação e aos doentes.

Francisco Garcia sublinhou a sua dedicação a esta área desde que era aluno, defendendo que “a paixão quanto mais se usa menos se gasta. Por isso, é tão importante fazer-se aquilo que se gosta”.

Menções honrosas

Na área A – “Cuidado e Carinho Dispensado aos Idosos Desprotegidos”, o júri distinguiu Joana Sofia Santos Moreira pela apresentação do projeto “Reformers”, que tem como missão aumentar os índices de envolvimento das pessoas nas suas comunidades. Um projeto que está integrado no Movimento “Transformers”, que desenvolve projetos em 22 cidades portuguesas, em três áreas de intervenção: voluntariado, associativismo e consciencialização.

Diana Filipa Alves Vareta, doutorada em enfermagem, atualmente a exercer funções de enfermeira especialista na área médico-cirúrgica, foi reconhecida na área B – “Processo da Medicina na sua Aplicação às pessoas idosas” pelo projeto “Prática centrada na pessoa no quotidiano do cuidado à pessoa idosa com doença crónica hospitalizada”. Este trabalho académico decorre da sua experiência profissional em contexto de internamento hospitalar, e é focado na perceção de que a enfermagem assume um lugar determinante na garantia da qualidade dos cuidados da população idosa, procurando contribuir para a melhoria da prestação de cuidados de saúde aos idosos, que passam pela hospitalização.

Profundamente agradecida pelo reconhecimento, a enfermeira especialista sublinha que “o prémio servirá de incentivo para continuar a desenvolver um trabalho que pretende contribuir para a melhoria dos cuidados prestados aos mais idosos”.

Já na área C – “Progresso no Tratamento das Doenças do Coração”, o júri reconheceu o trabalho realizado pelos médicos que compõem o projeto EnRicH – Susana Lopes, Fernando Ribeiro, Alberto Alves, José Mesquita Bastos e Jorge Polónia – no âmbito da candidatura subordinada ao tema “Papel do Exercício Físico no Tratamento da Hipertensão”. Um estudo que reforça a evidência científica do papel do exercício físico como uma ferramenta essencial e de baixo custo no tratamento de doentes com hipertensão resistente.

Por indisponibilidade de agenda, não comparecerem na cerimónia Joana Sofia Santos Moreira (menção honrosa na área A) e os médicos que compõem o projeto EnRicH – Susana Lopes, Fernando Ribeiro, Alberto Alves, José Mesquita Bastos e Jorge Polónia (menção honrosa na área C).

O júri dos prémios foi constituído por Maria João Mendes, administradora da Santa Casa da Misericórdia, pelo médico-cirurgião Fernando Pádua, pelo padre Vítor Melícias, pelo especialista em cardiologia e medicina interna João Pedro Gorjão Clara e pela vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, Joaquina Madeira.

20.12.21

"Educação contribui para níveis elevados de desenvolvimento social e económico"

in JN

O Lidl Portugal explicou ao JN como surgiu a ideia de apostar na Educação como a área alvo da terceira edição do Programa "Mais Ajuda", que promove com a parceria da Rádio Renascença, RFM e Mega Hits, com a mentoria da Beta-i.

Como surgiu a ideia de direcionarem o foco do terceiro Programa "Mais Ajuda" para a Educação?

A pandemia veio agravar as desigualdades sociais e aumentar a taxa de pobreza em Portugal, e é sabido que quanto maior o nível de educação, maior a probabilidade de alguém estar empregado e ter melhores salários, pelo que o tema é altamente pertinente e atual. Adicionalmente, efetuámos um inquérito aos nossos clientes, através da nossa newsletter, e 47% dos mesmos considerou que os desafios mais preocupantes são o emprego e a pobreza/exclusão social, pelo que a escolha da Educação responde ainda a uma preocupação real.

Em que medida investir nesta área pode mitigar das diferenças sociais e económicas na sociedade portuguesa?

A Educação ao longo da vida não é apenas um benefício pessoal, contribui também para níveis elevados de desenvolvimento social e económico, nomeadamente a capacitação da população com competências e qualificações para o mercado de trabalho, permitindo assegurar empregos estáveis, de qualidade que as escudem e às famílias da pobreza e exclusão social.

Que tipo de projetos esperam que os candidatos apresentem?

Esperamos ver projetos inovadores, ambiciosos e estruturados, com uma clara visão do propósito a que se destinam, tendo a Educação - independentemente da faixa etária à qual se destinam - como ferramenta para reduzir assimetrias sociais.

15.11.21

Dia Mundial dos Pobres: «Remuneração do trabalho é demasiado baixa» em Portugal, diz responsável da Rede Europeia Anti-Pobreza

in Agência Ecclesia

Maria Joaquina Madeira elogia papel do Papa Francisco na sensibilização para as desigualdades e necessidade de protagonismo dos excluídos

Lisboa, 14 nov 2021 (Ecclesia) – A vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN)-Portugal disse que o país tem uma prática de remunerações “demasiado baixas”, pelo que “não basta ter trabalho para não ser pobre”.

“Isto é uma das situações que nos distingue da maior parte dos países da Europa”, refere Maria Joaquina Madeira, convidada da entrevista semanal conjunta Ecclesia/Renascença que é emitida e publicada a cada domingo.

A responsável sublinha que, dos 56% de pessoas dos 18 aos 64 anos em risco de pobreza, cerca de metade tinha um rendimento de 330 euros por mês.

“Não é admissível admitir – que entre nós haja pessoas que vivem com tantas dificuldades que não têm acesso aos direitos básicos”, aponta.

Para a entrevistada, todo o “tecido social” de Portugal precisa de ser revitalizado para “poder elevar o nível de vida das pessoas, de uma forma geral”.

Maria Joaquina Madeira espera que a instabilidade política do país não faça atrasar medidas e subscreve as palavas do Papa Francisco quando diz que a pobreza não é um “fatalismo” e que os pobres devem ser “protagonistas” das soluções.

“Que as próprias pessoas que experimentam os problemas, neste caso o da exclusão e da pobreza, sejam parte das soluções, porque têm um pensamento e são capazes de refletir sobre o tema”, apela.

A conversa abordou a mensagem do Papa para o V Dia Mundial dos Pobres, que a Igreja Católica assinala este domingo, na qual se alerta para as consequências sociais e económicas da pandemia.

A vice-presidente da EAPN- Portugal fala numa “situação de grande desigualdade” em Portugal e no mundo, onde a “pobreza passa de geração para geração”.

Maria Joaquina Madeira deixa votos de que o combate à pobreza seja mesmo um “desígnio nacional”.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

“Uma pessoa pobre, antes de ser pobre é pessoa”

Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

A vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza analisa a situação em Portugal, onde as remunerações são “demasiado baixas” e “não basta ter trabalho para não ser pobre”. Maria Joaquina Madeira espera que a instabilidade política não faça atrasar medidas que é preciso tomar, e subscreve as palavas do Papa Francisco quando diz que a pobreza não é um “fatalismo”, e que os pobres devem ser “protagonistas” das soluções.

A mensagem do Papa para o V Dia Mundial dos Pobres, que se assinala este domingo, alerta para as consequências sociais e económicas da pandemia, pede uma abordagem diferente da pobreza e respostas concretas. Maria Joaquina Madeira diz que é quase um “programa de ação”. A vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza considera muito relevante que Francisco relembre que não são os pobres os responsáveis pela sua situação, e que é fundamental serem envolvidos na busca de soluções, porque isso os dignifica.

Em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia a responsável pela EAPN Portugal fala da crise e da importância de o combate à pobreza ser mesmo um “desígnio nacional”.

Tem sido importante o papel do Papa Francisco na luta contra a pobreza?

O Papa Francisco é uma pessoa com uma lucidez extraordinária, um homem do nosso tempo, que pisou o terreno e se aproximou dos pobres. Todos os seus escritos e a sua palavra são caminhos que se abrem. É uma estrelinha que nos alumia relativamente a este mundo que produz pobres no seu funcionamento, em que a pobreza transporta as pessoas para uma situação de risco para a sua dignidade pessoal, para as suas condições de vida e para a sua sobrevivência. É uma palavra cheia de autoridade, genuinidade e verdade. Ele fala do que sabe e sabe do que fala, e temos só que agradecer que ele seja o profeta dos nossos dias.

Para quem está no terreno – independentemente de serem, ou não, instituições cristãs – o Papa é um aliado importante nesta luta?

Sim. O Papa Francisco é um grande embaixador e defensor da Declaração dos Direitos Humanos, o substrato da sua mensagem é o cumprimento dos direitos: todos somos iguais nas oportunidades, todos devemos participar, tomar parte nesta sociedade, e a pobreza é uma forma de não participar, de não estar incluído. É sempre um mal para as próprias pessoas que sofrem o problema da exclusão social e da pobreza, mas é também mau para a sociedade, porque a sociedade é um corpo vivo.

Todos fazemos falta à sociedade, todos somos produtores, consumidores, todos devemos, de uma forma coesa e unida, construir este mundo de uma forma participada, usufruindo dos direitos, mas também temos deveres relativamente à sociedade em que vivemos. Portanto, a palavra do Papa é sempre uma palavra muito assertiva, como agora se costuma dizer, muito dirigida ao que é essencial.

"Se tratarmos da família e das pessoas como se fossem o centro da nossa economia e desenvolvimento, poderemos, talvez, evitar esta situação de grande desigualdade em que o mundo está, e Portugal também"

Na mensagem para este Dia Mundial dos Pobres o Papa diz que a pobreza "não é fruto do destino", e que é decisivo aumentar a sensibilidade para esta realidade. Ainda há muitos estereótipos em relação à pobreza e aos pobres?

Sim, ainda existem muitos estereótipos. Aliás, esta mensagem, que li atentamente, é um programa de ação: está lá tudo dito, da forma bonita como o Papa Francisco sabe dizer, sempre ancorada em princípios, numa ética da cidadania e dos Direitos Humanos.

De facto, uma sociedade também se avalia pela forma como trata os seus cidadãos, e a pobreza tem uma razão de ser, não é uma fatalidade, não nos acontece porque o destino assim quis. Acontece porque a mão humana, nos seus deveres e obrigações – seja ao nível político, seja a outros níveis –, por vezes não é centrada no interesse e nas necessidades das pessoas, mas noutros interesses, do poder, do dinheiro, do ganhar mais, etc.

O Papa diz sempre que a prioridade são as pessoas, o centro são as pessoas, não podemos ter uma economia que mata – são palavras dele, bem fortes! Temos de ter, de facto, uma intervenção que a todos os níveis ponha a pessoa no centro, as pessoas e as famílias.

Eu gosto muito de ligar as famílias, porque as pessoas individualmente só são felizes se tiverem relações de afeto, elos de afetividade das famílias, que neste momento são multiformes. Mas, a relação de afetos, os apegos, a sua identidade, passa por aí, e a família e a pessoa andam sempre a par. Se tratarmos da família e das pessoas como se fossem o centro da nossa economia e desenvolvimento, poderemos, talvez, evitar esta situação de grande desigualdade em que o mundo está, e Portugal também.

O Papa insiste muito na necessidade de tornar os pobres protagonistas do seu próprio desenvolvimento, e não apenas destinatários de políticas de terceiros. É importante haver esta sensibilidade?

Sem dúvida, e mais uma vez o Papa tocou no ponto: as políticas, como as ações, os projetos e os programas, devem ser dirigidos às pessoas. Gandhi dizia 'tudo o que fizeres por mim sem mim é contra mim'. Eu acho que é lapidar esta forma de dizer quanto é essencial – não é importante, é essencial – que as próprias pessoas que experimentam os problemas, neste caso o da exclusão e da pobreza, sejam parte das soluções, porque têm um pensamento e são capazes de refletir sobre o tema, e porque sem a sua participação e envolvimento nas medidas e nos programas, poucos resultados se tem.

As pessoas são sujeitos, isto é: a pessoa pobre, antes de ser pobre é pessoa, e como pessoa, cidadão de corpo inteiro, tem direitos e deveres, também de participar.

Participar é uma obrigação e um direito, e isso faz toda a diferença relativamente até aos resultados que iremos alcançar nas nossas políticas, projetos e ações.

Os dados mais recentes indicam que há em Portugal cerca de dois milhões de pobres. O que é que está a faltar, ou a falhar, no combate à pobreza?

Esta situação da pobreza não é nova em Portugal, é uma situação que herdámos de um sistema político e administrativo que no seu próprio funcionamento excluía da sociedade – e quando digo sociedade, digo das decisões políticas, das políticas públicas, das organizações. Ao funcionar de uma forma limitada, acaba por excluir do acesso muitas pessoas.

Depois, o nosso nível remuneratório dos cidadãos é muito baixo, como sabemos. Ainda temos um salário mínimo de 665 euros.

Poderá aumentar para 705 euros no próximo ano.

Vamos ver. Mas, para se ter uma ideia: dos 56% de pessoas dos 18 aos 64 anos em risco de pobreza, cerca de metade tinha um rendimento de 330 euros por mês, isto em idade ativa. E estou a falar só da pobreza monetária, porque as estatísticas que existem ainda são muito só no aspeto material ou monetário. Mas, temos 330 mil crianças em situação de pobreza, que naturalmente pertencem a famílias em situação de pobreza, portanto, há uma insuficiência das nossas políticas públicas, das nossas organizações, e há falta de oportunidades.

Todos conhecemos aquela parábola tão simbólica que diz que para mudar a situação das pessoas “não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar”. Nós, às vezes, fazemos muito assistencialismo – aliás, o Papa fala disso – para resolver o problema das pessoas pobres, mas isso é transitório, gasta-se, consome-se. Não é por aí. Temos de encarar a situação da pobreza de uma forma multidimensional, com o envolvimento de todos os setores. Porque não basta só dar o peixe, tem de se ensinar a pescar. E mais: tem de haver rio e tem de haver peixe.

Os dados sobre a pobreza em Portugal mostram que há uma parte significativa das pessoas que mesmo tendo trabalho – mesmo pescando –, os rendimentos não são suficientes para sair da situação de pobreza.

São cerca de 11 por cento.

Como é que se inverte esta situação? Porque já nem sequer essa velha parábola parece estar a funcionar…

Não basta ter trabalho para não ser pobre, e isto é uma das situações que nos distingue da maior parte dos países da Europa. Isso significa que a remuneração do trabalho é demasiado baixa. Também será demasiado baixa porque não temos as qualificações necessárias, porque as nossas micro e médias empresas também não têm capacidade para poder pagar mais. Portanto, há todo um tecido social que precisa de ser revitalizado, de ter mais energia para poder elevar o nível de vida das pessoas, de uma forma geral.

Nos últimos meses foi definida uma Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, que esteve em consulta pública até ao final de outubro. No parecer que deu sobre este documento, a Rede Europeia Anti-Pobreza diz que a meta estabelecida até 2030 é "pouca ambiciosa". Podia ser mais? Em que sentido?

A Estratégia neste momento está em traços muito largos, são as grandes linhas que vão orientar e definir as prioridades dos problemas que vão ser considerados prioritários. Estamos à espera que haja um novo documento que concretize melhor, porque ali estão as linhas de orientação, precisamos de saber que medidas vão ser postas em prática para concretizar aqueles objetivos, e precisamos de saber as metas ao fim de dois, quatro ou cinco anos, para podermos ter uma ideia mais objetiva da forma como vamos atingir esses objetivos, e sabermos que recursos e meios vão ser postos ao serviço da implementação dessa Estratégia.

Os objetivos são sempre curtos relativamente às necessidades. Mas, a Estratégia identifica como prioritário o grupo das crianças e dos jovens adultos.

É um ponto positivo?

Claramente positivo, e vai haver muitas medidas nesse sentido. Inclusivé, a Comissão Europeia também está preocupada com esse grupo populacional, porque temos de apostar nas crianças para o seu desenvolvimento e bem-estar...

É uma intervenção que permite quebrar os ciclos de pobreza?

E é necessária, absolutamente, porque infelizmente a pobreza passa de geração para geração, está provado que assim é. Já se estudou que só ao fim de cinco gerações é que muitas vezes se quebra o ciclo da pobreza, por isso é necessário apostar nas crianças, porque ao apostar nas crianças estamos a apostar nas famílias com crianças. Aliás, as famílias com duas crianças e com mais do que três, são as famílias que neste momento são mais atingidas pela pobreza. Há aí, de facto, um foco incontornável para agir.

O Papa Francisco também diz muito que as pessoas são um poliedro de necessidades. Não é só ter materialmente, e do ponto de vista do rendimento, é ter acesso á educação...

O Papa insiste muito na ideia da dignidade...

Da dignidade. Um programa ou uma estratégia tem de ser multisetorial – educação, saúde, bem-estar, cultura, habitação, que é tão crucial, é o 1º direito. Não podemos atacar a pobreza só numa dimensão. É complexo, mas é absolutamente necessário, e a Estratégia diz claramente – vamos ver se isso depois se traduz na prática – que a pobreza é um desígnio nacional.

Acredita que será possível ter o combate à pobreza como um desígnio nacional?

Quero acreditar, sim, quero acreditar. Vamos ver, agora temos uma mudança de governo, também é preciso termos isso em conta. Há sempre uma quebra de continuidade, mas penso que neste momento é incontornável que já não é admissível admitir – como a questão do ambiente, da salvaguarda da natureza – que entre nós há pessoas que vivem com tantas dificuldades que não têm acesso aos direitos básicos. Como povo e sociedade não podemos ignorar, de maneira nenhuma.

Será uma questão de consciência coletiva?

E naturalmente que também aí tem de haver uma ação junto da sociedade, da sua mobilização para isso, porque como sabemos a tomada de decisão política também está muito condicionada pela consciência social da sociedade.


"já não é admissível admitir que entre nós há pessoas que vivem com tantas dificuldades que não têm acesso aos direitos básicos"

Falávamos há pouco de alguns aspetos da Estratégia de Combate à Pobreza, que prevê a subida do Complemento Solidário para idosos. Para além desta medida, o que é que é preciso para proteger os mais velhos de um contexto de pobreza económica e solidão, para que os seus últimos anos de vida sejam mais dignos?

Todos os dias vamos sabendo notícias que nos dão o retrato do que está a acontecer... Naturalmente que há aí uma ação muito cirúrgica dirigida às pessoas mais velhas, sobretudo as vivem sós, e com mais idade, que estão muitas vezes muito isoladas. Podem estar isoladas e não estar na solidão, mas o sentimento de solidão é um sentimento de abandono, de ter sido esquecida, de ser invisível.

Às vezes saber que é a única pessoa a viver numa rua, também não ajuda muito...

E se for às aldeias! Quem é que está nas aldeias a viver neste momento? Às vezes são três ou quatro pessoas. Há, de facto, um isolamento geográfico, que naturalmente acentua esse sentimento de solidão.

Eu acho que há tudo para fazer, mas muito já se tem feito. Tenho acompanhado o programa Radar na cidade de Lisboa, que ao longo do ano passado foi à casa das pessoas idosas com mais de 65 anos – aquelas que foram identificadas como vivendo sós – para fazer o diagnóstico. Foram à volta de 35 mil as pessoas que foram identificadas. Para esse trabalho fizeram-se redes comunitárias, no sentido de cada comunidade se responsabilizar pelos seus mais velhos: foi à farmácia, às lojas de bairro, aos atores da comunidade, à freguesia, que são parceiros deste projeto, para que ao nível local se acompanhe estas situações e se dê o apoio que for necessário.

Este é um trabalho que vai ser alargado a todo o país, desta forma organizada e sistemática, o que significa que todas as pessoas que estão identificadas passam a ser periodicamente contactadas, para se acompanhar as suas necessidades, estabelecer as suas ligações com os serviços sociais e de saúde, de maneira a que sejam assistidas no momento certo. O Papa Francisco diz-nos “vamos ao encontro”. Temos de ir ao encontro, estas pessoas não saem de casa…

O Papa fala muito da aliança entre gerações...

Sim, e não podemos esperar que as pessoas venham ter connosco, é necessário que vamos ao encontro delas, sintamos com elas estas necessidades. E também envolver os jovens nisto. Aliás, já muitas paróquias e IPSS têm movimentos de jovens, com escolas, já temos muito do que devemos fazer.

Eu costumo dizer que Portugal é um país que funciona em função das possibilidades, e não das necessidades. Só chegamos onde podemos chegar, do ponto de vista financeiro, das equipas, dos recursos humanos. Só podemos ir até ali, se sobrarem necessidades, não chegamos lá. Ora, temos de fazer ao contrário, temos de ver quais são as necessidades e tentar organizar os recursos e os meios, envolvendo a sociedade, porque os primeiros atores são os próprios cidadãos, somos nós. E podemos fazer tanto, cada um de nós, com o nosso vizinho... E já se faz, eu quero ser muito positiva e construtiva nisto! Mas tem de se fazer é de forma sistemática e mais organizada, para que não fique ninguém para trás. Este é um grande princípio que devemos levar à prática.

Mas será que as causas da pobreza em Portugal estão bem identificadas? Até que ponto o contexto e a região em que cada pessoa ou família vive estão a ser tidos em conta no diagnóstico e no combate à pobreza?

Aqui há vários níveis do combate...

E há muitas diferenças no país...

Muitas diferenças. Mas temos entidades que podem assumir essa responsabilidade. Somos um país que não é grande, não temos regiões muito díspares, e há um sistema público de proteção e ação que nos pode garantir que as coisas vão ao sítio certo, porque temos o Governo Central e temos as autarquias, que têm funções equiparadas ao governo nacional, ao seu nível.

Há que trabalhar muito no aumento dos rendimentos, quer na proteção social, quer na remuneração do trabalho, e isso é claro. Talvez qualificando mais as pessoas, mas também sabemos que há jovens muito qualificados que estão a receber o salário mínimo nacional… Há que fazer um grande esforço para a dignificação e a qualidade do trabalho. Depois há os serviços públicos indispensáveis da Habitação, que agora vamos ter também um programa específico para a dignificação da habitação, que envolve o PRR…

A Rede Europeia Anti-Pobreza lançou recentemente uma campanha de sensibilização das autarquias pelo direito à habitação digna. Como é que está a correr? É uma área de particular preocupação?

Está a começar. As autarquias foram desafiadas a fazer um diagnóstico das necessidades para definir uma estratégia para a habitação digna, e nesta fase já estão identificados os problemas. Tanto quando sei as coisas estão a correr dentro dos parâmetros.

Este programa destina-se à dignificação, ou seja, à melhoria e qualificação das habitações em todos os aspetos, desde a funcionalidade às questões térmicas, que são um problema muito grave no país. É mais a qualificação e remodelação do que propriamente construção, e é um programa que tem dois anos para ser concretizado, até 2023. Penso que vamos ser capazes de, num curto espaço de tempo, melhorar bastante as condições de algumas habitações. São 126 mil, não cobrirá todas as necessidades, mas será importante.

Já referiu o atual contexto político que vivemos: o parlamento vai ser dissolvido e haverá eleições antecipadas. Receia que isto possa comprometer e fazer atrasar a aplicação da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza?

Quero crer que não. O problema é reconhecido por todos, de que é necessário haver um fio condutor de intervenção. A Estratégia, mais do que aquilo que vai fazer é a forma como vai fazer, a ligação entre todas as intervenções. Vai com certeza haver um acompanhamento e uma avaliação sistemática, metas a atingir, um planeamento e uma intervenção organizada. Porque a noção que se tem, quem anda pelo país, é que há muita coisa a fazer-se, mas tão dispersas umas das outras que às vezes são redundantes. É preciso pôr um bocadinho de ordem em tanto que se faz por essas autarquias, pelo território, e a Estratégia pode vir a racionalizar as intervenções e a torná-las mais eficazes e eficientes.

Pode haver ajustes, mas quero crer que no seu essencial – até porque há que responder a determinadas obrigações relativamente à União Europeia, há compromissos assumidos –, a Estratégia vai ajudar à concretização do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, e corresponde a uma necessidade que todos reconhecemos no país.


28.10.21

Lidl apresentou "Mais Ajuda 3" vocacionado para a Educação

in JN

Edição 2021/2022 do programa de inovação social pede às IPSS e às Startups para criarem novas soluções de ensino que ajudem a combater a pobreza.

A sensibilização da sociedade para a importância da Educação na diminuição das desigualdades sociais e no combate à pobreza, bem como a criação de novas soluções para este problema é o grande desafio colocado às IPSS e Startups na terceira edição do programa "Mais Ajuda", promovido pelo Lidl e pelas rádios Renascença, RFM e Mega-Hits, com a parceria da consultora Beta-i, que foi apresentada ontem, em Lisboa.

A primeira fase do projeto arrancou esta segunda-feira nas lojas da marca alemã e prolongar-se-á até 31 de dezembro, com a ação de recolha de fundos: por cada talão de compras de produtos "Deluxe" 20 cêntimos revertem para o programa. Segue-se em janeiro de 2022 a divulgação do valor angariado e a abertura das candidaturas. Em meados de abril serão divulgados os dez projetos vencedores escolhidos pelo júri, composto por Diogo Teixeira (COO e co-fundador da Beta-i), Elena Aldana (diretora de comunicação do Lidl), Filipe Almeida (presidente da Estrutura Portugal Inovação Social), Isabel Figueiredo (adjunta do presidente do Conselho de Gerência do Grupo Renascença Multimédia), Luís de Melo Jerónimo (diretor dos programas Gulbenkian Coesão e Integração Social e Gulbenkian Sustentabilidade da Fundação Calouste Gulbenkian).

Em 2019 e 2020 as campanhas natalícias renderam 483 mil euros e permitiram desenvolver 16 projetos de inovação social. No primeiro ano, foram premiadas três IPSS e três Startups vocacionadas para as crianças, enquanto no ano passado a atenção foi para a população idosa, com dez projetos a serem selecionados (cinco de cada). Para a edição de 2021/22 não foi definido um público-alvo, mas uma área de ação: a Educação.

Segundo um estudo do Observatório Social da Fundação "La Caixa", da autoria do Center of Economics for Prosperity da Universidade Católica de Lisboa, a pandemia acentuou as desigualdades sociais, deixando mais 400 mil pessoas abaixo do limiar da pobreza, tendo o grupo com escolaridade até ao 9.º ano sido um dos mais afetados. Por isso, o Lidl propõe-se a apoiar projetos que, independentemente da faixa etária a que se destinem, possam fomentar a participação na sociedade e uma efetiva igualdade de oportunidades, para erradicar de uma vez por todas a pobreza em Portugal.

Factos e Números

Campanha Solidária
A ação de recolha de fundos nas lojas Lidl arrancou no dia de ontem, 25 de outubro, e terminará no dia 31 de dezembro.

20 cêntimos por talão
Por cada talão de compras com produtos da gama "Deluxe" a empresa alemã vai doar 20 cêntimos para o programa.

Abertura das candidaturas
O processo de inscrição dos projetos no programa "Mais Ajuda" principia em janeiro de 2022, após ser divulgado o valor acumulado durante a campanha solidária de Natal.

Vozes

Sara Fonseca, responsável da Comunicação Externa do Lidl:
"Esta edição insere-se numa área muito mais abrangente. Chegamos às pessoas que precisam ao apoiarmos estes projetos inovadores que dão resposta às necessidades das comunidades."

Isabel Figueiredo, adjunta do presidente do Conselho de Gerência do Grupo Renascença Multimédia:
"Os portugueses responderam mais uma vez com a enorme generosidade. A pandemia alertou para a verdade da situação da população e para a necessidade de nos ajudarmos uns aos outros."

Diogo Teixeira, COO e co-fundador da Beta-i:
"Todos os anos temos um elevado número de candidaturas, são mais de 700. Procuramos selecionar projetos com um impacto concreto e num curto espaço de tempo, mas duradouros no tempo."

Maria Joaquina Madeira, vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza:
"É importante o combate à pobreza estrutural, tratar dos sintomas e consequências para a vida quotidiana, mas é fundamental ir à raiz da causa que gera a pobreza e isso está na decisão política."

27.10.21

ERRADICAR A POBREZA

in FMS

O que está a faltar no combate à pobreza, em Portugal? Quais são as áreas críticas de intervenção?

Portugal conseguiu tirar 721 mil pessoas da pobreza, desde 2008, de acordo com dados da Pordata. E, segundo o INE, foi no final dessa década que o país atingiu a taxa de pobreza mais baixa de sempre: 16%.

Ainda assim, o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2020 revelou que o país tem 2 milhões de pobres. Um número que coloca Portugal entre os países da UE com mais pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, dados do Eurostat.


O que está a faltar no combate à pobreza, em Portugal? Quais são as áreas críticas de intervenção? Pode o alargamento do ensino obrigatório ajudar a reduzir os índices de pobreza? O trabalho é uma garantia ou será preciso aumentar-se o rendimento médio da população? São precisas mais ajudas sociais? E se sim, quais?

Neste Fronteiras XXI descobrimos se é possível erradicar a pobreza e como. Com o economista perito em desigualdades e exclusão social, Carlos Farinha Rodrigues, o sociólogo e investigador do estudo «A Pobreza em Portugal», Fernando Bessa Ribeiro, o especialista em políticas públicas, Daniel Carolo, e a vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal, Maria Joaquina Madeira.

A moderação deste debate esteve a cargo da jornalista da RTP Ana Lourenço.

Reveja o programa aqui!


19.11.19

Há um ano sem apoios, a família de Vanessa vive à espera do despejo iminente

Joana Bourgard (texto e fotos), in RR

Em novembro de 2018, a Renascença acompanhou o drama de uma mãe em situação de habitação ilegal na cidade de Lisboa. Passados 12 meses, Vanessa não encontrou uma instituição que a ajudasse nem quaisquer apoios sociais e vive ainda mais abaixo do limiar da pobreza. Este domingo assinala-se o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco.

Um ano depois, Vanessa ainda não conseguiu nenhum apoio social. Vive sem contrato de habitação, mas continua a pagar a renda por não ter alternativa de viver noutra casa na cidade de Lisboa.
Há um ano, Vanessa recebeu a carta que mais temia. O senhorio não pretendia renovar o contrato para poder vender o imóvel por 130 mil euros. Se Vanessa não o quisesse comprar, teria de deixar a casa no dia 31 de janeiro de 2019.

No mesmo mês, a mãe solteira de uma criança de cinco anos e de um adolescente de 16, juntamente com outras mães em risco de despejo, recorreu à Câmara de Lisboa no âmbito do apoio à habitação, mas a resposta, que não tardou em chegar, nada fez pela sua esperança: "Pela pontuação calculada [da candidatura], não se vislumbra a possibilidade de nos tempos mais próximos lhe ser atribuído um fogo municipal.”
Em 2017, a Renascença publicou a história de três mães solteiras que se viram forçadas a ocupar casas na sequência de não conseguirem suportar as rendas praticadas em Lisboa.

Crise na habitação
Mães ocupas. Quando viver com os filhos na rua não é opção
Retratos de três mães solteiras que ocupam, ocupar(...)

Após um ano de luta, a esperança desapareceu do rosto desta mãe de 31 anos. Continua a pagar a renda e a viver no mesmo T1 em Xabregas, com os dois filhos e um despejo prestes a bater-lhe à porta.
“Não há uma entidade que me ajude. Nem Segurança Social, nem a Santa Casa, Câmara de Lisboa, nada. Não me ajudam em nada, nem me perguntam. Mais depressa vocês [Renascença], ao fim de um ano, me procuraram do que qualquer pessoa que sabe da minha situação”, diz com tristeza e revolta.

Como consequência da ameaça de despejo, a mãe de dois filhos começou a ter ataques de pânico. Uma baixa médica, que se acumula com um empréstimo que pediu para liquidar um outro empréstimo, reduziram-lhe drasticamente o rendimento e colocaram-na ainda mais abaixo do limiar da pobreza.

Vanessa vive num pequeno T1 em Xabregas com os dois filhos. Pela renda paga 300 euros, restando-lhe pouco, ou nada em alguns meses, para as despesas.
“Gostava de perceber os critérios para ter uma habitação social. É despedir-me? Requerer o rendimento mínimo? Eu quero pagar a renda e quero continuar a trabalhar”, diz Vanessa, que dispõe de um rendimento mensal que varia entre os 300 e os 635 euros, sem qualquer ajuda dos pais dos dois filhos.

Em declarações à Renascença, Silvino Correia, presidente da Junta de Freguesia do Beato, explica que o caso da Vanessa está sinalizado e que já foram enviados vários e-mails à Câmara Municipal de Lisboa, com vista a facilitar o acesso a uma habitação social. Contudo, Silvino Correia reconhece que, com o atual sistema de pontuação de acesso à habitação, dificilmente Vanessa será elegível ao apoio à habitação.

Silvino Correia lamenta que as ferramentas que a junta de freguesia dispõe não consigam ajudar estes casos, mas acredita que o novo Regulamento Municipal do Direito à Habitação de Lisboa será um caminho para ajudar famílias como as de Vanessa. O novo regulamento, aprovado no final de outubro, dirige-se aos jovens de classe média e abriu, em novembro, as candidaturas para as primeiras 120 casas. Tratam-se de casas reabilitadas pelo município e dirige-se para pessoas que usufruam de um rendimento mínimo bruto de 8.400€ por ano, um valor que Vanessa não consegue garantir.

Segundo o Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza (ONLCP), está em situação de risco de pobreza quem usufrui de um rendimento inferior a 5 607€ anuais (467€ mensais).

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No caso de Vanessa, por ter uma criança e um adolescente a seu cargo, seriam precisos 841€ por mês para estar acima do limiar da pobreza.

É uma família que vem de um ciclo de exclusão. A mãe de Vanessa criou sozinha os quatro filhos e apenas conseguiu apoio para a habitação dez anos depois de ter recorrido à Câmara de Lisboa.

Decorrente desta situação precária de habitação, o filho mais velho de Vanessa deixou de ir à escola. “Diz-me que não consegue estar nas aulas e que tem a cabeça noutro sítio. Está abalado. Já deixou de ir às aulas e eu não sei o que mais posso fazer."

Há muitos meses em que Vanessa ganha pouco mais do que o valor da renda.

Mulheres e crianças mais vulneráveis à pobreza

Em 2018, 21.9% das crianças e jovens com menos de 18 anos estavam em situação de pobreza ou exclusão social e 19% estavam em risco de pobreza monetária.

Joaquina Madeira, membro da direção da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), explica à Renascença que a população mais envelhecida tem sido abrangida por algumas políticas de combate à pobreza, mas assume que “a situação das crianças não tem vindo a melhorar por via do baixo nível de rendimento dos pais”.

“Assistiu-se a um aumento da precariedade e de trabalhadores a receber o salário mínimo nacional”, explica a antiga presidente da Associação dos Profissionais de Serviço Social. "Estes fatores que atingem as famílias atingem diretamente as crianças."

A EAPN tem vindo a discutir, em conjunto com os deputados e com o Governo, uma estratégia nacional de combate à pobreza, com vista a atender às necessidades das populações por região e não a nível nacional.
“Na cidade, as questões das crianças são mais críticas do que no meio rural, que de certa maneira tem um ambiente mais protetor e com rendimentos mais ajustados às suas necessidades, porque há uma economia de subsistência associada", alerta Joaquina Madeira. "Nas grandes cidades, as crianças devem ser uma prioridade absoluta.”

Apesar da redução do risco de pobreza ser transversal a homens e mulheres, a população feminina continua mais exposta à pobreza. Em 2017 houve uma redução da taxa, mas esta foi superior na população masculina, evidenciando o aumento das desigualdades de género nesta dimensão da vulnerabilidade em Portugal.

Das 486 famílias apoiadas pelo Projeto Família, do Movimento Defesa da Vida, 35% são monoparentais femininas e apenas 3% são masculinas, denunciando a fragilidade e sobrecarga das mulheres em ambiente familiar.
Arrendatários são os mais expostos à exclusão social
Com a entrada em vigor, a 1 de outubro, da primeira Lei de Bases da Habitação em Portugal, o Estado deve ser “o garante do direito à habitação".

Joaquina Madeira alerta que a habitação tem sido “o parente pobre das políticas públicas”, um dos principais fatores que leva crianças e jovens a ficarem mais expostos a situações de exclusão social. “Há uma relação muito direta entre uma casa condigna, com espaço para estudar, em condições de proteção e salubridade, e o sucesso escolar.”

"O Estado é o garante do direito à habitação", lê-se no diploma da primeira Lei de Bases da Habitação, indicando que "todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar".

A ONLCP alerta para a vulnerabilidade dos arrendatários à pobreza e à exclusão social. Os portugueses que arrendam casa têm uma taxa de sobrecarga calculada em 25%. Os proprietários com crédito à habitação têm uma sobrecarga abaixo dos 5%. Contudo, o acesso a um empréstimo para comprar casa não está acessível a todos.

“Se a pessoa não reúne as condições de confiança para os bancos, não tem acesso a um bem que está à disposição da sociedade, colocando-a em exclusão social” e empurrando a família para um ciclo de pobreza, explica Joaquina Madeira.

“É para isso que servem as políticas públicas, para que uma pessoa que não está totalmente excluída da sociedade, porque trabalha e até tem capacidade de pagar uma renda baixa, mas que não tem acesso aos bens que a levem a fazer mobilidade social. Nesse caso, o Estado tem de entrar para dar igual acesso aos recursos e aos bens da sociedade”, remata.

Em 2017 houve um aumento de rendimentos da população residente em Portugal, levando a que o rendimento mediano tenha sido o mais elevado registado pelo Observatório. Contudo, Portugal permanece entre os países da União Europeia com rendimentos medianos mais baixos.
Em Portugal, é necessário estar entre os 40% mais ricos da população para ficar acima dos 20% mais pobres da União Europeia.

[Notícia atualizada às 16h00, do dia 18 de novembro, com as declarações de Silvino Correia, presidente da Junta de Freguesia do Beato].

23.3.18

Sindicatos e patrões concordam com combate à pobreza mas divergem na forma

in Diário de Notícias

Sindicalistas e confederações patronais concordam que é necessário combater a pobreza mas discordam na maneira de o fazer, com os primeiros a defender melhores salários e os segundos legislação laboral flexível e mais produtividade.

As duas visões do mesmo problema foram hoje debatidas num Fórum sobre "Estratégia de combate à pobreza e exclusão social: importância de uma responsabilidade coletiva", organizado pela Rede Europeia Anti-Pobreza e que decorreu n Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Numa mesa redonda sobre "o investimento social em linha com o pilar europeu dos direitos sociais", concordou-se que o facto de se ter emprego não significa que não se seja pobre, como também se concordou que esse pilar europeu dos direitos sociais é vago, embora seja uma tentativa de construir uma Europa mas solidária. Mas enquanto Gregório da Rocha Novo, da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) defendeu uma legislação laboral mais flexível, porque a flexibilidade "leva a menos exclusão", José Cordeiro, da União Geral de Trabalhadores (UGT) defendeu mais solidariedade e sindicatos mais fortes para combater a pobreza.

"Temos de conviver com a ideia de que não basta ter trabalho para se sair do ciclo da pobreza", disse o sindicalista, acrescentando que é preciso "pensar seriamente num rendimento básico universal" e sugerindo aos parceiros sociais a criação de um conselho informal que monitorize o pilar europeu dos direitos sociais. Se para a CIP a pobreza combate-se também com a luta contra o abandono escolar precoce, e a melhor maneira de melhorar a coesão social é aumentar a competitividade da Europa, para Arménio Carlos, da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a pobreza decorre "da continuada redução dos rendimentos dos trabalhadores e das alterações das leis laborais". "O modelo que temos em Portugal é o do trabalho precário e baixos salários. É o modelo que mais rapidamente acrescenta lucros a alguns mas deixa trabalhadores e o país em situação delicada", afirmou Arménio Carlos. João Vieira Lopes, que preside à Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), já tinha pedido "cuidado" em estabelecer regras que as empresas não possam cumprir, quando considerou preocupantes as taxas de pobreza em Portugal, "que atinge parte significativa de pessoas que têm emprego".

"A visão simplista é aumentar salários. Temos que olhar para 400 mil empresas com limitações claras de funcionamento", disse, admitindo que é necessário "evoluir na produtividade e nos salários, que são baixos", mas acrescentando que a questão da produtividade "é central". Na questão dos salários a mesma posição do presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Oliveira e Sousa, que a defendeu assim: "Temos reconhecido que o salário mínimo e baixo e é desejável que haja subida sustentada das condições que permitam às empresas acompanhar". E ainda na mesma linha, de colocar o acento no crescimento económico, esteve Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português (CTP).

"É mais fácil combater a pobreza com uma economia mais forte", disse, acrescentando que sendo Portugal o sexto país mais envelhecido do mundo, "por mais combate à pobreza que queiramos fazer é impossível". Arménio Carlos respondia no final que é a partir de um "salário digno" que as pessoas se organizam, que é preciso valorizar o trabalho, que a Europa esteve durante anos a impor políticas erradas, que levaram a redução de rendimentos, à recessão, a desemprego e a mais pobreza. E que o pilar europeu dos direitos sociais "não passa de generalidades" e de recomendações para quem as quiser aplicar, e que a "vertente social continua a ser secundarizada".

Joaquina Madeira, da Rede Europeia Anti-Pobreza Portugal, já tinha dito que o pilar reconhece que há pobreza mas que tem aspetos omissos e as medidas previstas não são de cumprimento obrigatório. Agostinho Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Ant-Pobreza Portugal, não falou do pilar europeu mas defendeu na sessão de encerramento que é necessário "recuperar a estratégia nacional de luta contra a pobreza". E sugeriu até a criação de uma secretaria de Estado de combate à pobreza. A ideia não mereceu do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que encerrou o Fórum, grande acolhimento. "Não sei se não é um mau principio" para lidar com a questão da pobreza, disse.