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5.5.23

Banco Alimentar Contra a Fome. "Não é preciso dar muito, é preciso serem muitos a dar"

Ângela Roque, in RR

Isabel Jonet confirma à Renascença que as doações diminuíram, que a inflação fez disparar o pedidos de ajuda e que há cada vez mais pessoas que, mesmo trabalhando, precisam de apoio alimentar. Diz que a descida do IVA é uma medida mais política do que social, e duvida que chegue para mudar a vida das famílias. Mas confia na generosidade dos portugueses na campanha marcada para este fim de semana.


O Banco Alimentar Contra a Fome (BA) convida os portugueses a “alimentar a esperança” na nova campanha. Sábado e domingo - 6 e 7 de maio - decorre a chamada “recolha saco”, nos super e hipermercados, mas até dia 14 será possível contribuir online ou através da chamada “ajuda vale”.

Em entrevista à Renascença, Isabel Jonet confirma que a situação se agravou desde a última campanha, de há seis meses. Lamentando a falta de medidas estruturais de combate à pobreza, duvida que a descida do IVA chegue para mudar a vida das famílias. Mas, acredita na contribuição generosa dos portugueses, que confiam no Banco Alimentar para ajudar quem mais precisa. Neste momento são mais de 400 mil pessoas que recebem apoio através de 2 mil instituições.

Vai decorrer mais uma campanha do Banco Alimentar contra a Fome. É um dos dois momentos mais importantes do ano em termos de recolha de alimentos. Qual é a sua expectativa para esta campanha?

São realmente dois momentos muito importantes para os bancos alimentares, porque são muito congregadores de toda a sociedade para esta certeza de que, infelizmente, em Portugal, à nossa beira, existem ainda famílias que precisam de ajuda para se alimentar. E também porque há uma participação de voluntariado incrível!
Os bancos alimentares são, talvez, o maior movimento de voluntariado que há em Portugal: reúnem pessoas de todas as idades, de todas as opiniões políticas e de todos os credos, que lá, ombro a ombro, ajudam a levar alimento à mesa quem mais precisa.

As nossas previsões para todas as campanhas são sempre que a campanha é o melhor que pode ser naquele momento, face à conjuntura.

E sabemos que há muitas, muitas famílias que têm necessidades hoje, que têm uma vida mais difícil, seja porque a prestação do crédito aumentou, seja porque aquilo que levam para casa não chega para pagar a conta do supermercado, que tem vindo crescer, apesar de alguns balões de oxigénio que têm recebido, e que continuam a precisar do apoio alimentar.

O Banco Alimentar está nesta altura a ajudar quantos portugueses, através de quantas instituições?
Há 21 bancos alimentares em todo o território nacional – continente e região autónomas da Madeira e Açores, em São Miguel e na Terceira -, que em conjunto e parceria com cerca de 2 mil instituições de solidariedade social e algumas juntas de freguesia apoiam mais de 400 mil pessoas.

E estas pessoas recebem comida todos os dias, porque são famílias que têm que de ter apoio, alimentar diário. São famílias que recebem ou sacos de alimentos, que são entregues pelas instituições, ou que estão em lares ou recebem alimentação em creches ou jardins de infância que têm acordo com o Banco Alimentar da respetiva região.

Essas necessidades têm aumentado? Há mais pessoas a beneficiar da vossa ajuda?

Verificámos que nos primeiros quatro meses do ano houve um aumento dos pedidos através da rede de emergência alimentar, que foi uma plataforma que construímos na altura da pandemia para dar uma melhor resposta às famílias que pediam ajuda, para haver um encaminhamento mais direto para a instituição da sua zona.
Verificámos que houve um acréscimo muito significativo [de pedidos] e também que a maior parte das pessoas que pedem apoio através da rede de emergência alimentar hoje em dia são pessoas que têm um trabalho ou que são estudantes e trabalham.

Como isto é tudo através de uma plataforma, permite-nos retirar dados e temos estas estatísticas e o que verificamos é que quem pede ajuda hoje são pessoas que anteriormente não pediam, e que têm trabalho, ou seja, são pessoas cujo orçamento familiar não está a chegar para todas as suas despesas.

E os bancos alimentares também têm tido dificuldades em manter as ajudas?

Este semestre foi muito desafiante porque tínhamos mais pedidos e menos doações, porque a inflação subiu muito.
Agora houve algum alívio, com a retirada do IVA dos produtos alimentares, mas isso não significa que haja mais doações aos bancos alimentares. Pelo contrário, as empresas tendem até a ser mais eficientes e têm menos doações…

Mas, como é que avalia esta questão do IVA ter descido em alguns alimentos, e que impacto é que isso pode ter na campanha?

Nós esperamos, do ponto de vista de donativos, que as pessoas - até porque os preços estão um bocadinho mais baratos - possam continuar a contribuir para o Banco Alimentar. Mas, sabe que a grande contribuição que se verifica para os bancos alimentares é quase um bocadinho independente dos rendimentos.
Há uma solidariedade, uma generosidade incrível na sociedade portuguesa e há muita confiança no Banco Alimentar. As pessoas sabem que não é preciso dar muito, é preciso serem muitos a dar, e tenho a certeza que a campanha vai, uma vez mais, suscitar a generosidade de muitos portugueses.

Penso que para as famílias que vão ao supermercado todos os fins de semana, o haver uma diminuição dos preços por via da isenção do IVA é positivo, mas não me parece que esta seja uma medida que se possa refletir numa alteração estrutural do combate à pobreza cá em Portugal. Portanto, acho que de um ponto de vista de doações, pode ser até positivo, mas aquilo que é mais positivo é a extraordinária e reiterada generosidade dos portugueses, que numa campanha deste tipo doam muitas, muitas, muitas toneladas de alimentos, porque conhecem pessoas que precisam. E isso é que é extraordinário!

Relativamente à medida em concreto, da descida do IVA, é mais um dos balões de oxigénio que referiu há pouco?

Sim. Baixar o IVA é uma boa medida, mas é mais uma medida política do que uma medida social. É uma medida que, por ser universal, vem beneficiar todas as pessoas, independentemente do seu rendimento, quando eu gostaria de ver mais medidas que combatessem estruturalmente a pobreza no nosso país.
As estatísticas mostram que quem hoje em dia pede ajuda são pessoas que são trabalhadoras, ou seja, pessoas que vivem do seu rendimento de trabalho, muitas vezes até têm dois trabalhos e que não têm a possibilidade de ter uma vida sem depender da ajuda alimentar de uma instituição.

Para mim isto é muito preocupante e gostaria de ver realmente medidas estruturantes no combate à pobreza, seja até por via de parcerias com as empresas, em que as empresas formam e qualificam estes trabalhadores para que possam ter melhores salários e sair desta situação de precariedade, do que sempre apoios sociais que vão aumentar a dependência e o assistencialismo.

A campanha do BA vai decorrer nos supermercados no fim de semana (6 e 7 de maio), mas ainda vai prolongar-se até quando?

A campanha não se esgota nestes dois dias, existe a possibilidade de quem não vai no fim de semana às compras poder colaborar até dia 14 de maio com um vale de alimentos, ou através da Internet, em www.alimentaestaideia.pt. Aí podem escolher o Banco Alimentar e o produto que querem doar, sabendo que estão a contribuir para uma família carenciada da sua região. E recebem um recibo de donativo.
O convite que deixo aos portugueses é aquela que é a expressão da imagem desta campanha de recolha: vamos ‘manter a esperança’ na sociedade portuguesa.

Quando se doa um alimento, uma lata de feijão, o que se está a dar não é apenas o feijão em si, é a esperança que este gesto da partilha significa e a certeza de que há alguém que se preocupa para que as famílias (que precisam) possam ter alimento à mesa. Por isso, quero deixar este convite aos portugueses: sejam solidários, para juntos podermos manter a esperança em Portugal.

26.1.23

“As famílias não têm para onde se virar, cortam na comida e comem pior”: 1100 refeições são distribuídas todas as noites em Lisboa

Marta Gonçalves, in Expresso

Não são apenas pessoas em situação de sem-abrigo que procuram. Cada vez mais surgem pessoas com casa, mas que vivem no limiar da pobreza e têm de escolher “onde vão aplicar o dinheiro”: na renda ou em comida. Organizações alertam para o crescimento dos pedidos de ajuda

Cerca de 1100 refeições são distribuídas todas as noites pela cidade de Lisboa a pessoas carenciadas. O balanço é feito ao Expresso por organizações não governamentais como a Comunidade Vida e Paz, a CASA - Centro de Apoio ao Sem Abrigo e a Noor’Fatima Voluntariado – Projetonur Associação que, diariamente, com dezenas de voluntários, levam uma ceia quente a quem está nas ruas.

“A nossa previsão, até por aquilo que temos vindo a verificar ao longo das últimas semanas e meses, é que este número venha a aumentar”, refere ao Expresso Renata Alves, diretora-Geral da Comunidade Vida e Paz. Uma opinião também partilhada pela gestão das restantes organizações. “Têm aparecido mais pessoas nas ruas a pedir ajuda, e pessoas com casa ou algum local de dormida. Mais estrangeiros nas ruas a pedir apoio”, diz ainda Nuno Jardim do CASA. “Os números têm aumentado sobretudo devido a muitos imigrantes e pessoas com reformas e vencimentos baixos e com estas refeições [que distribuímos] já ajudam nas despesas. A situação é muito triste, todos deviam ter direito a uma refeição sentados à mesa”, acrescenta Nurjaha Tarmahomed, fundadora e presidente da Noor’Fatima.

Uma pessoa regressa a casa após ter recebido uma refeição

No caso da Vida e Paz, as carrinhas saem todas as noites em direção as ruas de Lisboa e na bagageira carregam entre 450 e 500 ceias, que estimam servir para alimentar “400 pessoas de diferentes nacionalidades”. Já a CASA entrega diariamente 400 refeições, enquanto a Noor’Fatima consegue chegar entre 150 e 200 pessoas, entregando água, sopa, comida quente, pão, fruta. Por vezes, há ainda “um bolo ou uma sandes como apoio para o dia seguinte”, refere Nurjaha Tarmahomed. “É um saco por pessoa, em alguns casos são dois porque há outra pessoa na casa onde vivem.”

Há várias semanas que quem procura este tipo de ajudas deixou de ser exclusivamente pessoas em situação de sem-abrigo. Cada vez mais, os voluntários notam haver famílias e pessoas com casa e a pagar rendas que precisam ajuda alimentar. “São pessoas em situação de grande vulnerabilidade social que, tendo casa, com o agravar da situação económica e com a inflação têm que optar onde vão aplicar o seu dinheiro. As refeições são muitas das vezes deixadas para trás, então recorrem às nossas equipas em busca de uma ceia”, explica Renata Alves.

Por outro lado, alerta também a Vida e Paz, as doações “não têm acompanhado” o aumento dos pedidos de ajuda. Esta é uma tendência transversal quer em donativos monetários ou espécie, quer vindo de particulares ou empresas. “Isto dificulta a nossa intervenção. Apelamos à ajuda de todos para podermos continuar a responder às necessidades das pessoas que nos procuram e confiam em nós.”

400 MIL PESSOAS APOIADAS PELO BANCO ALIMENTAR

Com dois balanços anuais, em maio e novembro, os números mais recentes do Banco Alimentar contra a fome dão conta de 400 mil pessoas apoiadas pela instituição através de 2600 organizações espalhadas por todo o país. “São dados referentes a novembro de 2022, quando as coisas ainda não estavam tão caras. Todos os dias temos mais pedidos de ajuda”, diz ao Expresso Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar. “A situação é muito difícil, sobretudo para famílias, que não têm para onde se virar e têm de cortar na comida e comem cada vez pior”, continua.

Jonet acredita ainda que o aumento da procura também aconteceu por antecipação e pela expetativa de que a inflação não fosse abrandar. “As famílias começaram a sentir na pele o acréscimo dos preços em produtos alimentares básicos, tal como as famílias que compraram casa sentem o acréscimo das taxas de juros dos empréstimos habitação. Os preços dos alimentos básicos aumentaram todos e vão continuar,”

O cabaz básico de alimentos custa €225. Nesta lista com 63 bens alimentares essenciais estão incluídos produtos como leite, queijo, manteiga e fiambre, arroz, farinha, massa e açúcar, além de carne, peixe, frutas e legumes. O valor em que agora o cabaz está fixado, refere a DECO/Proteste, representa um novo recorde desde o início do ano passado.

A pescada fresca, carapau, perca e peixe-espada estão no topo dos produtos que mais subiram no último balanço disponibilizado pela DECO/Proteste (entre 4 e 11 de janeiro). A mesma lista de compras custa mais 37 euros do que há um ano.

22.12.22

Vítimas da inflação: “Com sopa, fruta e pão ninguém morre”

Filipa Almeida Mendes (texto),Guillermo Vidal (fotografia) e Adriano Miranda (fotografia), in Público online

Com o aumento do custo de vida, os pedidos de apoio às instituições têm crescido. Do outro lado, cada vez mais pessoas se vêem obrigadas a pedir ajuda financeira pela primeira vez.

Um apoio financeiro para pagar as despesas de gás, luz e água “seria o ideal” para João (nome fictício), de 42 anos, conseguir “chegar ao final do mês pelo menos com o frigorífico abastecido”. O dinheiro nem sempre chega e, às vezes, é preciso “cortar” na comida, “principalmente à noite, em que a pessoa acaba por fazer umas refeições mais ligeiras”.

João é designer gráfico e reside em Carnide, Lisboa. Pela primeira vez, viu-se obrigado a pedir ajuda depois de o senhorio o ter informado que a renda mensal que paga pelo aluguer do T0 onde vive iria aumentar com a renovação do contrato, em Março, de 470 para 600 euros e confessa ter-se sentido “um bocadinho perdido”. Foi uma “surpresa”, diz, com um ligeiro sorriso no rosto, embora admita que este é “um preço aceitável dentro do mercado de Lisboa, que está muito caro”.

No início desta semana, dirigiu-se à sua junta de freguesia para solicitar apoio financeiro e aguarda agora uma resposta. “Com a conjuntura toda que estamos a viver e com os aumentos ao nível da energia, água e gás, prevê-se que 2023 seja um ano complicado. Auferindo um ordenado mínimo, começam a ser despesas incomportáveis”, explica, destacando ainda “um grande aumento [do preço] do cabaz mensal”.​

Antigamente, lembra, “bastava ter três televisões” para se pertencer à classe média. Hoje em dia, o panorama alterou-se e o facto de as pessoas “apresentarem um saldo negativo” no final do mês contribui para a perda desse “estatuto”, podendo ser “ainda mais difícil para um casal que tenha filhos” e outro tipo de despesas.

"Nunca precisei e, neste momento, tive mesmo de recorrer"Noelma Marques

João já esteve “do outro lado” a ajudar os “mais necessitados”. Agora, é ele quem precisa de ajuda e salienta que é essencial “não ter vergonha de pedir, quando é preciso”, e não fazer “um tabu do assunto, porque é uma realidade” que se vive devido ao agravamento da inflação.

​Tirar “de um lado para pagar no outro”

Noelma Marques, de 37 anos, viu-se também, pela primeira vez, “numa situação destas”. “Não sou pessoa de pedir ajuda, tento fazer pelas minhas coisas. Nunca precisei e, neste momento, tive mesmo de recorrer.”

Em Março, mudou-se para casa dos pais, no Bairro Padre Cruz, em Carnide, depois de o seu marido ter tido um AVC e a sua vida ter dado “uma volta enorme”. “Ele está com baixa e sou só eu a trabalhar em part-time no Pingo Doce, pelo que tive de recorrer à ajuda de vários sítios”, conta.

Actualmente, vivem naquela casa nove pessoas. As paredes estão decoradas com enfeites de Natal e há uma árvore repleta de luzinhas coloridas, esbanjando espírito natalício.

“Os meus pais têm suportado tudo, porque eu não os consigo ajudar. Eles é que cuidam do meu filho, para eu poder ir trabalhar, e tomam conta do meu marido”, conta Noelma, destacando que “não podia parar de trabalhar”, porque o “pouco” que ganha ajuda a orientar-se e “mesmo assim não chega”. “Com isto dos aumentos pior ainda.”

Há um ano, Noelma e o marido compraram uma casa em Sintra e a prestação mensal aumentou agora 165€. A casa “era um investimento” para o seu filho no futuro. “Dada a situação por que estamos a passar, não sei até que ponto vou conseguir pagar [e manter a casa]”, sublinha.

“Com o meu ordenado, antes, pagava a renda, os seguros da casa e ainda ficava com um dinheirinho para poder pagar água e luz. Neste momento, no final do mês, o meu ordenado só vai para a renda”, lamenta. “Recebi um subsídio de Natal, mas fiquei sem dinheiro, porque foi tudo para despesas.”

Através dos seus pais, conseguiu apoio da junta de freguesia de Carnide, há cerca de meio ano. “Deram-nos um cheque para comprar alimentos e pagar despesas.”

Noelma explica que tira “de um lado para pagar no outro”. Para resolver a sua situação era essencial conseguir uma junta médica que atribuísse “o grau de incapacidade” ao seu marido e lhe permitisse “tratar de seguros” e baixar prestações, mas uma primeira consulta está com “uma demora de três anos”. “Com as rendas, a comida e tudo a aumentar, alguma coisa vai ficar para trás”, diz, enquanto uma lágrima lhe escorre pelo rosto.

Suportar as despesas nesta casa lotada “tem sido muito difícil”, mas a entreajuda sobrepõe-se. Os banhos vão-se reduzindo sempre que possível e a alimentação é feita com o contributo de todos. “Ninguém vai para a cama de barriga vazia. Se não se comer bifes, come-se sopa. Com sopa, fruta e pão ninguém morre”, diz a mãe de Noelma, Maria Albertina Galvão.

“Infelizmente, a gente não sabe o dia de amanhã”, salienta Noelma. No hipermercado onde trabalha, todos os dias ouve dizer que “cada vez está a haver um aumento maior em tudo”. “As pessoas já não procuram luxos.”

"Ninguém vai para a cama de barriga vazia"Maria Albertina Galvão

No seu caso, além de todos os apoios que vai recebendo, tem tentado vender bens que foi adquirindo ao longo do tempo e que vão “ajudando a pagar contas”. “Coisas que eu fui conquistando são coisas de que eu me vou desfazendo”, afirma. “Até agora, não fiquei a dever nada, mas já não posso falar pelo final do mês.”

João acredita que a actual situação deriva também “muito” da guerra na Ucrânia e da pandemia de covid-19. “Todos temos noção que 2023 vai ser um ano de desafios. Infelizmente, sabemos o dia de amanhã”, diz. Foi exactamente essa noção que o fez “antecipar-se e pedir ajuda”. “É bom que as pessoas estejam atentas ao que aí vem para se precaverem e não tenham vergonha de procurar as instituições, que também vão precisar de ajuda”, observaa.
Famílias estão mais frágeis

Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade (LBV), destaca que a instituição tem vindo a registar um aumento dos pedidos de apoio, “principalmente de pessoas que estão com bastante vulnerabilidade a nível financeiro para fazer face a todas as despesas”. Passado o “boom da pandemia, as famílias acabaram por ficar mais frágeis ainda, porque os custos dos alimentos aumentaram”.

O perfil de quem procura ajuda tem-se também alterado. “Temos apoiado mais famílias que, embora estejam a trabalhar, o valor que recebem não é suficiente para colmatar as necessidades ou então em que um dos elementos do agregado está desempregado”, afirma Susana Veiga. A rede nacional Cáritas tinha já alertado, em Novembro, para “um aumento da procura por parte de famílias em situação de empregabilidade”.

Susana Veiga explica que as pessoas procuram “apoio mensal não só ao nível de alimentos, mas também de roupa, artigos de higiene e pontualmente de limpeza”. Actualmente, a LBV está a apoiar 250 famílias em Lisboa, 30 em Braga, 50 em Coimbra e até 270 famílias no Porto.

A ajuda que a LBV fornece depende também dos produtos que consegue arrecadar, contando com o apoio de várias empresas, hipermercados, colaboradores e benfeitores. “Fazemos aqui a triagem dos alimentos para que seja possível dar às nossas famílias um cabaz com a maior variedade possível.” No Natal, o cabaz “vai mais reforçado” e nas instalações da LBV as caixas de bolo-rei já estão preparadas para serem distribuídas.

"As famílias precisam deste apoio quase no imediato"Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade

Susana Veiga acredita que a procura vai continuar a aumentar e concorda que “as instituições têm de ter capacidade de se adaptar”, porque, quando vão ao seu encontro, as “famílias precisam deste apoio quase no imediato”.

“A vida está muito cara”

Lurdes Ferreira, de 63 anos, é uma das pessoas que a LBV ajuda mensalmente. Está desempregada há mais de uma década e vive há sete anos no Bairro do Regado, no Porto, cujos prédios, brancos e acinzentados, condizem com o dia que está chuvoso e igualmente pálido. No bloco 12, Lurdes abre a porta do prédio onde vive e começa a subir os andares até chegar ao seu apartamento. “Custa-me muito subir estas escadas”, confessa, ofegante.

A sua casa é pequenina, mas está impecavelmente decorada com naperões brancos, plantas e quadros que Lurdes foi arranjando. A vizinha do lado deu-lhe a cómoda e a mesa-de-cabeceira que estão no quarto, assim como um microondas. “Esse sofá também me deram. Aquele quadro encontrei na rua”, conta.

Lurdes recebe cerca de 143€ de rendimento mínimo e paga 11,40€ de renda, mais as contas da luz e da água. Vale-lhe a ajuda da LBV, que todos os meses lhe fornece as mercearias. “Dão-me arroz, massa, uns queijinhos, iogurtes, leite, carne, fruta, hortaliça, feijão e, na altura do Natal, também dão uns chocolatinhos e uns doces.”

Além disso, é “muito poupada”: “Quando eu tomo banho, meto a água num balde e ponho só um fio de água quando lavo as mãos e a cara. Só acendo a luz para ir à casa de banho e cozinhar à noite.”

O dinheiro que lhe sobra serve para comprar, “de vez em quando, leite, ovos ou uma coxa de frango”, assim como produtos de limpeza, mas o aumento dos preços não ajuda. “A vida está muito cara.” O que resta serve ainda para comprar comida para as duas gatas, pretas com manchas brancas, que resgatou da rua. “As minhas meninas são a minha companhia”, confessa, enquanto uma delas dorme no seu colo.

“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar. Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte"Lurdes Ferreira

A ajuda vem de vários sítios. A sua vizinha, por exemplo, “põe sempre um saco de batatas à porta” e deu-lhe autorização “para ir lá tirar quando quiser”. “Até tive necessidade de umas botas e uns ténis e a LBV também me deu”, afirma, enquanto suspira. A cada dois meses, Lurdes recebe também cerca de 40€ da Segurança Social para ajudar com a medicação.

“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar”, diz Lurdes. “Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte. O mundo está um caos, porque vê-se muita gente necessitada.”
Deixar contas para o mês a seguir

Voltando a Lisboa, Rita Vale de Almeida, assistente social da junta de freguesia de Carnide, admite que, nos últimos meses, tem assistido a um “aumento significativo dos pedidos de apoio”. Desde Setembro, faz “uma média de 50 atendimentos por mês”.

A junta distribui um cabaz mensal de alimentos (cedidos pelo Banco Alimentar de Lisboa e por alguns hipermercados da zona) a cerca de 60 agregados familiares e, embora “a esse nível não tenha aumentado muito — até porque os critérios são rigorosos, porque não podem ter um banco alimentar sem fim” —, observa-se um acréscimo no número de pessoas que lá se dirigem para pedir outros tipos de apoio. “As pessoas gastam mais no supermercado e evitam pagar aquelas coisas que podem deixar para o mês a seguir.”

A maioria dos que recebem já usufrui de apoios e habita nos bairros sociais da Horta Nova e Padre Cruz, nomeadamente “idosos, pessoas sozinhas e que ficaram de repente sem trabalho ou mais isoladas”. Mas também “aparece um caso ou outro que teve uma situação emergente na vida”, além de “muitas pessoas vindas da Ucrânia que estão sem chão”.

A Junta de Freguesia de Carnide trabalha em parceria com outras instituições, nomeadamente com a Santa Casa da Misericórdia, até mesmo para evitar que haja apoios duplicados. Neste momento, tem à disposição o Fundo de Emergência Social, um apoio financeiro para medicamentos, rendas, contas, alimentação, entre outros. Há cerca de dois meses, recebeu também um novo “apoio extraordinário e de transição” da câmara municipal ligado à parte alimentar “para apoiar as pessoas que, nesta fase, estão a sentir alguma dificuldade, dado o problema da inflação”. Este novo apoio está ainda em fase inicial e “não vai passar só pelo Banco Alimentar”, havendo a possibilidade de serem atribuídas “refeições confeccionadas ou recorrer a parceiros da freguesia”.

"O mundo está um caos porque vê-se muita gente necessitada" Lurdes Ferreira

“As conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”

Foi a Junta de Freguesia de Carnide que também valeu a Sérgio Cristino, de 48 anos, que reside no Bairro Padre Cruz. Era trabalhador independente, mas em Março deste ano cessou a actividade e foi então que o pesadelo começou. Tinha uma dívida à Segurança Social há cerca de cinco meses, “porque o dinheiro não chegava”, e suspenderam-lhe o subsídio de cessação de actividade, tendo estado oito meses sem qualquer tipo de rendimento.

Quando tal aconteceu, Sérgio começou “a disparar em todas as direcções”, para pedir ajuda financeira, e viu-se obrigado a pedir apoio alimentar pela primeira vez. “Nunca mais vinha subsídio nenhum e as conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”, explica.

A junta de freguesia entrou em contacto com uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia, que encaminhou Sérgio para o centro de dia no cimo do Bairro Padre Cruz, todos os dias à hora de almoço, para receber uma refeição. “Era uma ajuda que eu agradecia muito, mas [a obrigação de estar lá a determinadas horas] ia-me prender, porque eu precisava de procurar trabalho e resolver estas situações e tinha de me dirigir a montes de lugares”, afirma. E prossegue: “Se fosse chamado para algo do centro de emprego, ia falhar e ficar sem refeição.”

Durante este período difícil da sua vida, Sérgio teve “ajudas de amigos que têm outro apoio alimentar”. “Por incrível que pareça, às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam.” Entretanto, também foi arranjando “alguns trabalhos e uns trocos aqui e ali para ir conseguindo sobreviver” e pediu dinheiro emprestado. Em Novembro, quando voltou a receber finalmente o subsídio de cessação de actividade, “o dinheiro desapareceu logo”, porque teve de pagar as dívidas.

Sorrindo de nervoso, Sérgio admite que um sentimento de revolta se apoderou de si e critica toda a burocracia e a forma como algumas instituições o trataram — “ajuda todos podemos precisar”. Além disso, destaca a demora em reavaliarem o seu caso, mesmo depois de ter conseguido pagar a dívida à Segurança Social por volta de Maio. Neste momento, a sua situação está mais estabilizada e a sua “luta agora é outra: arranjar um emprego”.

"Às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam"Sérgio Cristino

Mas a vida tem sido difícil para muitos. “Acho que há gente a precisar e que tem vergonha de pedir; gente que pede e, se calhar, não tem a ajuda d que precisa; gente que tem ajuda e que a desperdiça; e gente que precisa de ajuda e não sabe como pedir”, afirma Sérgio. A conclusão é uma: “Estamos todos no mesmo barco.”

19.12.22

Vítimas da inflação: “Com sopa, fruta e pão ninguém morre”

Filipa Almeida Mendes (texto),Guillermo Vidal (fotografia) eAdriano Miranda (fotografia), in Público online

Com o aumento do custo de vida, os pedidos de apoio às instituições têm crescido. Do outro lado, cada vez mais pessoas se vêem obrigadas a pedir ajuda financeira pela primeira vez.

Um apoio financeiro para pagar as despesas de gás, luz e água “seria o ideal” para João (nome fictício), de 42 anos, conseguir “chegar ao final do mês pelo menos com o frigorífico abastecido”. O dinheiro nem sempre chega e, às vezes, é preciso “cortar” na comida, “principalmente à noite, em que a pessoa acaba por fazer umas refeições mais ligeiras”.

João é designer gráfico e reside em Carnide, Lisboa. Pela primeira vez, viu-se obrigado a pedir ajuda depois de o senhorio o ter informado que a renda mensal que paga pelo aluguer do T0 onde vive iria aumentar com a renovação do contrato, em Março, de 470 para 600 euros e confessa ter-se sentido “um bocadinho perdido”. Foi uma “surpresa”, diz, com um ligeiro sorriso no rosto, embora admita que este é “um preço aceitável dentro do mercado de Lisboa, que está muito caro”.

No início desta semana, dirigiu-se à sua junta de freguesia para solicitar apoio financeiro e aguarda agora uma resposta. “Com a conjuntura toda que estamos a viver e com os aumentos ao nível da energia, água e gás, prevê-se que 2023 seja um ano complicado. Auferindo um ordenado mínimo, começam a ser despesas incomportáveis”, explica, destacando ainda “um grande aumento [do preço] do cabaz mensal”.​

Antigamente, lembra, “bastava ter três televisões” para se pertencer à classe média. Hoje em dia, o panorama alterou-se e o facto de as pessoas “apresentarem um saldo negativo” no final do mês contribui para a perda desse “estatuto”, podendo ser “ainda mais difícil para um casal que tenha filhos” e outro tipo de despesas.

João já esteve “do outro lado” a ajudar os “mais necessitados”. Agora, é ele quem precisa de ajuda e salienta que é essencial “não ter vergonha de pedir, quando é preciso”, e não fazer “um tabu do assunto, porque é uma realidade” que se vive devido ao agravamento da inflação.

​Tirar “de um lado para pagar no outro”

Noelma Marques, de 37 anos, viu-se também, pela primeira vez, “numa situação destas”. “Não sou pessoa de pedir ajuda, tento fazer pelas minhas coisas. Nunca precisei e, neste momento, tive mesmo de recorrer.”

Em Março, mudou-se para casa dos pais, no Bairro Padre Cruz, em Carnide, depois de o seu marido ter tido um AVC e a sua vida ter dado “uma volta enorme”. “Ele está com baixa e sou só eu a trabalhar em part-time no Pingo Doce, pelo que tive de recorrer à ajuda de vários sítios”, conta.

Actualmente, vivem naquela casa nove pessoas. As paredes estão decoradas com enfeites de Natal e há uma árvore repleta de luzinhas coloridas, esbanjando espírito natalício.

“Os meus pais têm suportado tudo, porque eu não os consigo ajudar. Eles é que cuidam do meu filho, para eu poder ir trabalhar, e tomam conta do meu marido”, conta Noelma, destacando que “não podia parar de trabalhar”, porque o “pouco” que ganha ajuda a orientar-se e “mesmo assim não chega”. “Com isto dos aumentos pior ainda.”

Há um ano, Noelma e o marido compraram uma casa em Sintra e a prestação mensal aumentou agora 165€. A casa “era um investimento” para o seu filho no futuro. “Dada a situação por que estamos a passar, não sei até que ponto vou conseguir pagar [e manter a casa]”, sublinha.

“Com o meu ordenado, antes, pagava a renda, os seguros da casa e ainda ficava com um dinheirinho para poder pagar água e luz. Neste momento, no final do mês, o meu ordenado só vai para a renda”, lamenta. “Recebi um subsídio de Natal, mas fiquei sem dinheiro, porque foi tudo para despesas.”

Através dos seus pais, conseguiu apoio da junta de freguesia de Carnide, há cerca de meio ano. “Deram-nos um cheque para comprar alimentos e pagar despesas.”

Noelma explica que tira “de um lado para pagar no outro”. Para resolver a sua situação era essencial conseguir uma junta médica que atribuísse “o grau de incapacidade” ao seu marido e lhe permitisse “tratar de seguros” e baixar prestações, mas uma primeira consulta está com “uma demora de três anos”. “Com as rendas, a comida e tudo a aumentar, alguma coisa vai ficar para trás”, diz, enquanto uma lágrima lhe escorre pelo rosto.

Suportar as despesas nesta casa lotada “tem sido muito difícil”, mas a entreajuda sobrepõe-se. Os banhos vão-se reduzindo sempre que possível e a alimentação é feita com o contributo de todos. “Ninguém vai para a cama de barriga vazia. Se não se comer bifes, come-se sopa. Com sopa, fruta e pão ninguém morre”, diz a mãe de Noelma, Maria Albertina Galvão.

“Infelizmente, a gente não sabe o dia de amanhã”, salienta Noelma. No hipermercado onde trabalha, todos os dias ouve dizer que “cada vez está a haver um aumento maior em tudo”. “As pessoas já não procuram luxos.”

No seu caso, além de todos os apoios que vai recebendo, tem tentado vender bens que foi adquirindo ao longo do tempo e que vão “ajudando a pagar contas”. “Coisas que eu fui conquistando são coisas de que eu me vou desfazendo”, afirma. “Até agora, não fiquei a dever nada, mas já não posso falar pelo final do mês.”

João acredita que a actual situação deriva também “muito” da guerra na Ucrânia e da pandemia de covid-19. “Todos temos noção que 2023 vai ser um ano de desafios. Infelizmente, sabemos o dia de amanhã”, diz. Foi exactamente essa noção que o fez “antecipar-se e pedir ajuda”. “É bom que as pessoas estejam atentas ao que aí vem para se precaverem e não tenham vergonha de procurar as instituições, que também vão precisar de ajuda”, observaa.
Famílias estão mais frágeis

Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade (LBV), destaca que a instituição tem vindo a registar um aumento dos pedidos de apoio, “principalmente de pessoas que estão com bastante vulnerabilidade a nível financeiro para fazer face a todas as despesas”. Passado o “boom da pandemia, as famílias acabaram por ficar mais frágeis ainda, porque os custos dos alimentos aumentaram”.

O perfil de quem procura ajuda tem-se também alterado. “Temos apoiado mais famílias que, embora estejam a trabalhar, o valor que recebem não é suficiente para colmatar as necessidades ou então em que um dos elementos do agregado está desempregado”, afirma Susana Veiga. A rede nacional Cáritas tinha já alertado, em Novembro, para “um aumento da procura por parte de famílias em situação de empregabilidade”.

Susana Veiga explica que as pessoas procuram “apoio mensal não só ao nível de alimentos, mas também de roupa, artigos de higiene e pontualmente de limpeza”. Actualmente, a LBV está a apoiar 250 famílias em Lisboa, 30 em Braga, 50 em Coimbra e até 270 famílias no Porto.

A ajuda que a LBV fornece depende também dos produtos que consegue arrecadar, contando com o apoio de várias empresas, hipermercados, colaboradores e benfeitores. “Fazemos aqui a triagem dos alimentos para que seja possível dar às nossas famílias um cabaz com a maior variedade possível.” No Natal, o cabaz “vai mais reforçado” e nas instalações da LBV as caixas de bolo-rei já estão preparadas para serem distribuídas.
"As famílias precisam deste apoio quase no imediato"Susana Veiga, assistente social da Legião da Boa Vontade

Susana Veiga acredita que a procura vai continuar a aumentar e concorda que “as instituições têm de ter capacidade de se adaptar”, porque, quando vão ao seu encontro, as “famílias precisam deste apoio quase no imediato”.

“A vida está muito cara”

Lurdes Ferreira, de 63 anos, é uma das pessoas que a LBV ajuda mensalmente. Está desempregada há mais de uma década e vive há sete anos no Bairro do Regado, no Porto, cujos prédios, brancos e acinzentados, condizem com o dia que está chuvoso e igualmente pálido. No bloco 12, Lurdes abre a porta do prédio onde vive e começa a subir os andares até chegar ao seu apartamento. “Custa-me muito subir estas escadas”, confessa, ofegante.

A sua casa é pequenina, mas está impecavelmente decorada com naperões brancos, plantas e quadros que Lurdes foi arranjando. A vizinha do lado deu-lhe a cómoda e a mesa-de-cabeceira que estão no quarto, assim como um microondas. “Esse sofá também me deram. Aquele quadro encontrei na rua”, conta.

Lurdes recebe cerca de 143€ de rendimento mínimo e paga 11,40€ de renda, mais as contas da luz e da água. Vale-lhe a ajuda da LBV, que todos os meses lhe fornece as mercearias. “Dão-me arroz, massa, uns queijinhos, iogurtes, leite, carne, fruta, hortaliça, feijão e, na altura do Natal, também dão uns chocolatinhos e uns doces.”

Além disso, é “muito poupada”: “Quando eu tomo banho, meto a água num balde e ponho só um fio de água quando lavo as mãos e a cara. Só acendo a luz para ir à casa de banho e cozinhar à noite.”

O dinheiro que lhe sobra serve para comprar, “de vez em quando, leite, ovos ou uma coxa de frango”, assim como produtos de limpeza, mas o aumento dos preços não ajuda. “A vida está muito cara.” O que resta serve ainda para comprar comida para as duas gatas, pretas com manchas brancas, que resgatou da rua. “As minhas meninas são a minha companhia”, confessa, enquanto uma delas dorme no seu colo.
“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar. Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte"Lurdes Ferreira

A ajuda vem de vários sítios. A sua vizinha, por exemplo, “põe sempre um saco de batatas à porta” e deu-lhe autorização “para ir lá tirar quando quiser”. “Até tive necessidade de umas botas e uns ténis e a LBV também me deu”, afirma, enquanto suspira. A cada dois meses, Lurdes recebe também cerca de 40€ da Segurança Social para ajudar com a medicação.

“Deus toca sempre no coração de alguém para me ajudar”, diz Lurdes. “Mas nem toda a gente tem tido a mesma sorte. O mundo está um caos, porque vê-se muita gente necessitada.”
Deixar contas para o mês a seguir

Voltando a Lisboa, Rita Vale de Almeida, assistente social da junta de freguesia de Carnide, admite que, nos últimos meses, tem assistido a um “aumento significativo dos pedidos de apoio”. Desde Setembro, faz “uma média de 50 atendimentos por mês”.

A junta distribui um cabaz mensal de alimentos (cedidos pelo Banco Alimentar de Lisboa e por alguns hipermercados da zona) a cerca de 60 agregados familiares e, embora “a esse nível não tenha aumentado muito — até porque os critérios são rigorosos, porque não podem ter um banco alimentar sem fim” —, observa-se um acréscimo no número de pessoas que lá se dirigem para pedir outros tipos de apoio. “As pessoas gastam mais no supermercado e evitam pagar aquelas coisas que podem deixar para o mês a seguir.”

A maioria dos que recebem já usufrui de apoios e habita nos bairros sociais da Horta Nova e Padre Cruz, nomeadamente “idosos, pessoas sozinhas e que ficaram de repente sem trabalho ou mais isoladas”. Mas também “aparece um caso ou outro que teve uma situação emergente na vida”, além de “muitas pessoas vindas da Ucrânia que estão sem chão”.

A Junta de Freguesia de Carnide trabalha em parceria com outras instituições, nomeadamente com a Santa Casa da Misericórdia, até mesmo para evitar que haja apoios duplicados. Neste momento, tem à disposição o Fundo de Emergência Social, um apoio financeiro para medicamentos, rendas, contas, alimentação, entre outros. Há cerca de dois meses, recebeu também um novo “apoio extraordinário e de transição” da câmara municipal ligado à parte alimentar “para apoiar as pessoas que, nesta fase, estão a sentir alguma dificuldade, dado o problema da inflação”. Este novo apoio está ainda em fase inicial e “não vai passar só pelo Banco Alimentar”, havendo a possibilidade de serem atribuídas “refeições confeccionadas ou recorrer a parceiros da freguesia”.
"O mundo está um caos porque vê-se muita gente necessitada"Lurdes Ferreira
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“As conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”

Foi a Junta de Freguesia de Carnide que também valeu a Sérgio Cristino, de 48 anos, que reside no Bairro Padre Cruz. Era trabalhador independente, mas em Março deste ano cessou a actividade e foi então que o pesadelo começou. Tinha uma dívida à Segurança Social há cerca de cinco meses, “porque o dinheiro não chegava”, e suspenderam-lhe o subsídio de cessação de actividade, tendo estado oito meses sem qualquer tipo de rendimento.

Quando tal aconteceu, Sérgio começou “a disparar em todas as direcções”, para pedir ajuda financeira, e viu-se obrigado a pedir apoio alimentar pela primeira vez. “Nunca mais vinha subsídio nenhum e as conservas e o arroz acabaram-se lá em casa”, explica.

A junta de freguesia entrou em contacto com uma assistente social da Santa Casa da Misericórdia, que encaminhou Sérgio para o centro de dia no cimo do Bairro Padre Cruz, todos os dias à hora de almoço, para receber uma refeição. “Era uma ajuda que eu agradecia muito, mas [a obrigação de estar lá a determinadas horas] ia-me prender, porque eu precisava de procurar trabalho e resolver estas situações e tinha de me dirigir a montes de lugares”, afirma. E prossegue: “Se fosse chamado para algo do centro de emprego, ia falhar e ficar sem refeição.”

Durante este período difícil da sua vida, Sérgio teve “ajudas de amigos que têm outro apoio alimentar”. “Por incrível que pareça, às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam.” Entretanto, também foi arranjando “alguns trabalhos e uns trocos aqui e ali para ir conseguindo sobreviver” e pediu dinheiro emprestado. Em Novembro, quando voltou a receber finalmente o subsídio de cessação de actividade, “o dinheiro desapareceu logo”, porque teve de pagar as dívidas.

Sorrindo de nervoso, Sérgio admite que um sentimento de revolta se apoderou de si e critica toda a burocracia e a forma como algumas instituições o trataram — “ajuda todos podemos precisar”. Além disso, destaca a demora em reavaliarem o seu caso, mesmo depois de ter conseguido pagar a dívida à Segurança Social por volta de Maio. Neste momento, a sua situação está mais estabilizada e a sua “luta agora é outra: arranjar um emprego”.
"Às vezes, as pessoas que estão a passar pior do que nós são aquelas que nos ajudam"Sérgio Cristino
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Mas a vida tem sido difícil para muitos. “Acho que há gente a precisar e que tem vergonha de pedir; gente que pede e, se calhar, não tem a ajuda d que precisa; gente que tem ajuda e que a desperdiça; e gente que precisa de ajuda e não sabe como pedir”, afirma Sérgio. A conclusão é uma: “Estamos todos no mesmo barco.”

24.10.22

Pandemia aumentou números de pobres pela primeira vez desde 2014

Por ECO e Lusa

No primeiro ano de pandemia, o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou 12,5% face a 2019. Foi a primeira vez desde 2014 que este número cresceu.

Em 2020, o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social aumentou 12,5% face a 2019. O ano da chegada Covid-19 marcou o primeiro ano desde 2014 em que cresceu o número de desfavorecidos cresceu, segundo os dados da Pordata para o Dia Internacional da Pobreza, citados pelo Diário de Notícias (acesso livre), pelo Jornal de Negócios (acesso pago) e Público (acesso condicionado).

“Portugal desviou-se da trajetória de redução da pobreza que vinha a fazer desde 2014. Em 2020 houve um agravamento. Sem os apoios sociais, 4,4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais”, afirma Luísa Louro, diretora da Pordata.

Nesse sentido, Portugal está ainda longe de atingir a meta de ter menos 765 mil pobres até 2030. Já no que diz respeito ao risco de pobreza ou de exclusão social, Portugal recuou a níveis de 2017 (43,7 % contra 43,5 %). Em relação aos 27 países da União Europeia, Portugal é o segundo em que há mais pessoas a viverem em más condições materiais, isto é, em alojamentos com más condições, com 25% da população nesta situação.
Instituições recorrem mais ao Banco Alimentar para enfrentar aumento de famílias carenciadas

O aumento generalizado do preço dos alimentos, a par do gás e da eletricidade, está a ter impacto nas instituições sociais, que fazem mais pedidos ao Banco Alimentar para conseguirem apoiar o número crescente de famílias que pedem ajuda.

O fenómeno, apesar de ainda não estar quantificado, já é sentido no Banco Alimentar Contra a Fome (BA) desde há algum tempo, com um aumento de pedidos por parte das instituições, não só porque têm mais famílias a pedir-lhes ajuda, como as próprias instituições “precisam de mais dinheiro para fazer face ao custo dos consumos das suas próprias cozinhas”, adiantou a presidente do BA, Isabel Jonet.

A ‘Ajuda de Mãe’ é uma das instituições que recebe bens alimentares através do Banco Alimentar, que usa, não só para a confeção de refeições nas três residências, onde acolhem grávidas adultas e adolescentes ou mães adolescentes com os seus bebés, mas também para a entrega de cabazes com alimentos e confeção de refeições no refeitório.

Em declarações à agência Lusa, a presidente desta associação de solidariedade social contou que em 2021 prestaram apoio a 1.200 famílias de mães grávidas com bens de primeira necessidade, além do apoio social e psicológico.

Madalena Teixeira Duarte adiantou que a Segurança Social atualizou em 2022, e desde janeiro, o valor das comparticipações pagas às instituições e que o reforço da verba paga para os acolhimentos residenciais também foi superior ao habitual “para fazer face ao aumento do custo de vida”, mas garante que “não é suficiente”.

“Só para lhe dar um exemplo: noutro dia estava a falar com a responsável por uma das residências, que me dizia que tudo o que dantes gastávamos em carne dava para dois meses e agora não chega para um mês e meio”, exemplificou, admitindo que isso possa vir a ter como consequência que mães e bebés tenham que “comer ligeiramente diferente”.

Por outro lado, apontou que a ‘Ajuda de Mãe’ está a apoiar mais famílias – em 2021 ajudou cerca de 700 – com a entrega de produtos de higiene ou fraldas porque também estes bens ficaram mais caros e, por isso, difíceis de adquirir por estas pessoas.

C. Lopes chegou a Portugal com a família, vinda do Brasil, em novembro do ano passado. Desempregada desde o sétimo mês de gravidez, precisou de recorrer à ‘Ajuda de Mãe’ há cerca de quatro meses, quando soube que teria de comprar medicamentos específicos para a asma e pele atópica de um dos seus três filhos e percebeu que só com o salário de cerca de 740 euros do marido não seria possível fazer face a todas as despesas de uma família de quase seis pessoas.

Da ‘Ajuda de Mãe’ tem agora “bastante suporte na gestação, cuidados, ajuda de alimentação”, esta última na forma de um cabaz de alimentos que chega a casa de C. com “o básico”, desde arroz, massa, feijão, azeite, “às vezes biscoitos para as crianças”, iogurtes, entre outras coisas. Carne, peixe ou fruta já tem de ser a família a comprar.

“Economizamos em tudo, em gás, em água. Agora também comecei a receber um cabaz da junta de freguesia e juntando os dois, um pouquinho daqui, um pouquinho dali, dá para poder passar o mês”, contou. Quando chegou em novembro, C. encontrou os produtos alimentares com “valores bem diferentes do que estão agora”.

“Coisas que eu comprava para as crianças, não compro agora. Eles gostam de bastantes frutas, verdura. O que eu compro nesta semana, [na] semana que vem já não compro por conta do preço. Os biscoitos aumentaram, o pão aumentou. Tem muita coisa de que eles gostam que eu não compro como no inicio. Aumentou tudo, na verdade”, lamentou. Ainda assim, e apesar das dificuldades, a segurança e a qualidade da escola pública justificam a decisão de imigrar para Portugal.

Segundo a presidente da ‘Ajuda de Mãe’, a instituição recebe do Banco Alimentar produtos bens como arroz, massa ou enlatados, com os quais ajuda cerca de 60 famílias e fornece as residências, enquanto de outros parceiros vêm as fraldas ou os produtos de higiene. Uma grande superfície doava o peixe, mas outro tipo de alimentos, como carne, fruta, legumes ou ovos é a própria instituição que tem de comprar.

Para fazer face a essa, como a outras despesas, a instituição também tenta criar fundos próprios e Madalena Teixeira Duarte contou que foi criado um projeto de combate ao desperdício em que os excedentes alimentares, e alguns donativos, eram transformados em doces e compotas, que depois eram vendidos no Natal. “De repente, o açúcar passou de 0,89 euros para 1,29 euros. Agora de que maneira é que as nossas compotas vão ser vendidas”, questionou.

A responsável alertou que “isto são tudo dificuldades que as instituições enfrentam”, não só no que compram no dia-a-dia, mas também com o aumento do preço do gás ou da eletricidade, mas também porque lhes “restringe esta capacidade de angariação de fundos que depois iria contribuir para o apoio efetivo” de famílias.

Segundo a presidente da ‘Ajuda de Mãe’, o aumento do custo de vida vai obrigar a instituição a repensar gastos e se calhar a abdicar de alguns projetos, já que aliado ao aumento dos preços estará o aumento do salário mínimo nacional em 2023.

Madalena Teixeira Duarte receia que o futuro vá “ser um tempo difícil”, com cada vez mais pessoas a pedir ajuda junto das instituições, uma realidade que a presidente do Banco Alimentar constata diariamente, quando abre os mails que chegam à sua caixa de correio eletrónico.

Segundo Isabel Jonet, para já, há mais pedidos de ajuda, mas ainda não há redução no número de doações, tendo em conta que a mais recente campanha de recolha decorreu em maio e a próxima será no final de novembro. Ao mesmo tempo, o volume doado pela indústria e pela agricultura mantém-se inalterado, o que poderá querer dizer que ou ajustaram a produção ou mantêm o volume de vendas.

Defendeu que deve ser explicado às famílias que a conjuntura atual não é de curto prazo e alertou que a inflação vai refletir-se por largos meses nos orçamentos das famílias, com “maior incidência nas famílias mais carenciadas porque não têm folga orçamental”.

Para a presidente do BA, é, por isso, “muito previsível que vá aumentar o número de pessoas que vão ficar numa situação muito difícil e em pobreza”, tendo em conta o aumento dos preços dos alimentos, da energia e das taxas de juro em simultâneo.

(Notícia atualizada às 9h02 com mais informação)

23.10.22

Há cada vez mais casos de pobreza envergonhada

in Antena 1

A Rede Europeia Anti-Pobreza encara o aumento do número de pessoas a roubar comida em supermercados como casos de pobreza escondida e envergonhada.
A vice-presidente da estrutura diz que muitas famílias da classe média estão pela primeira vez na vida a enfrentar dificuldades para comprar alimentos.

Joaquina Madeira explica que estas pessoas têm vergonha de pedir apoio alimentar e preferem realizar pequenos furtos para colmatar a falta de alguns produtos cada vez mais dispendiosos, mas elementares.

A vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza diz que são intoleráveis estes casos de incapacidade financeira para comprar alimentos e que é necessário mobilizar ajuda para estas famílias.

Também a presidente do Banco Alimentar, Isabel Jonet, assume que estão a aumentar os pedidos de ajuda quer da parte de famílias, quer de instituições.

Muitas das famílias que agora pedem ajuda trabalham e têm vindo a cortar nas despesas, mas já não conseguem esticar mais o ordenado.

O apoio de 125 euros traz algum alívio, mas a inflação é permanente e o apoio é único.

A presidente do Banco Alimentar explica também quais os passos que as famílias devem seguir, para pedir apoio alimentar.








29.8.22

Há mais uma mercearia social. Pedidos de ajuda alimentar sobem

Joana Gorjão Henriques Texto e Nuno Alexandre Fotografia, in Público online

Desde Junho que houve um aumento de 60 agregados nas listas de pedidos de apoio ao Centro Padre Alves Correia, que trocou os cabazes por uma nova mercearia social. No Banco Alimentar números de utentes estão estáveis mas há mais instituições a pedir ajuda. Cáritas prevê maior pressão e está preocupada com diminuição da qualidade alimentar.

Há sete anos que Mariama Baldé, 68 anos, é apoiada pelo Centro Padre Alves Correia (CEPAC), em Lisboa, e todos os meses vem da Amadora à Estrela, onde fica a sede, para buscar alimentos. Leva nos sacos, que irá carregar de transportes públicos, cereais, azeite e óleo, arroz, leguminosas, chocolate, bolachas… Tudo isto vai dar para cerca de uma semana, diz, porque em sua casa vivem nove pessoas; a filha trabalha numa empresa de limpezas, mas ganha o ordenado mínimo, que não chega para sustentar todos. Mariama veio por razões de saúde, é uma das várias pessoas apoiadas no CEPAC com esta condição.

Também Maria Mendes, 61 anos, igualmente da Guiné-Bissau, vai regularmente ao CEPAC há vários anos; primeiro para buscar os cabazes, agora, desde que abriu a Mercearia Sabura, na Estrela, que é ela quem escolhe o que levar, dentro do que é definido segundo o seu agregado familiar. Hoje tem nos sacos arroz, massa, leite, iogurte, salsicha, legumes congelados, manteiga, maionese, chocolate.

A viver com a sobrinha que teve um bebé de seis meses, Maria Mendes tem um problema nos joelhos e custa-lhe andar; está neste momento sem emprego por causa disso; tem trabalhado com uma empresa a cuidar de idosos e a fazer limpezas. “Pagavam mal, 400 euros”, e nem sempre tinham trabalho, às vezes “diziam para não ir”. É ajudada pelo CEPAC, vive em casa da cunhada e aqui e ali vai fazendo salgados que vende na rua. Maria precisa de descontar para a Segurança Social para conseguir ter a autorização de residência e sem a autorização de residência não consegue arranjar um bom trabalho, nem recorrer aos apoios sociais. “Vim procurar uma vida melhor. Na Guiné, hoje é bom, amanhã é mau, há problemas políticos”, explica.

Antes, Maria e outros utentes iam ao CEPAC buscar os cabazes já feitos para um mês ou 15 dias, consoante os agregados; os funcionários dividiam os produtos por sacos e era comum algumas pessoas levarem coisas de que não precisavam. Maria Mendes prefere assim: “Há uma ou outra coisa que não comia”, diz. “Assim escolho apenas o que preciso.” Ana Mansoa explica que há produtos que os guineenses, o seu maior público, não consomem; com a possibilidade de escolha, evita-se desperdício.

O caso de Maria Mendes é comum a muitos que são apoiados pelo CEPAC; pessoas que estão sem autorizações de residência há vários anos, que vão tendo trabalhos precários e pessoas que já têm os seus processos no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), mas há anos que estão à espera de serem chamados para a entrevista que lhes dará a autorização de residência só que não abrem vagas, contextualiza Ana Mansoa, directora do CEPAC.

Listas de espera aumentam

Neste pequeno espaço recém-inaugurado tudo ainda está como novo; as prateleiras, os armários, as caixas onde se colocam os legumes (que neste mês de Agosto não vieram). Os produtos distribuem-se por tipos, há vários pacotes de massas, arroz, feijão e grão, açúcar e farinha, leite, sumos, bolachas, enlatados, mas também molhos, chocolates, gelatina em pó ou um frigorífico com sopas, iogurtes, queijo, margarina, massa folhada. No armazém, contíguo, ainda há mais destes produtos, e alguns congelados, como legumes e bolos.

As obras do espaço e a estrutura foram patrocinadas por um grupo de restauração, a Portugália, mas os bens que ali estão são enviados pelo Banco Alimentar, pela Refood e por uma cadeia de supermercados, a Auchan. Foi inaugurada a 4 de Julho e o objectivo é promover um acesso “digno e inclusivo” aos imigrantes apoiados pelo CEPAC, deixando que as pessoas escolham os bens alimentares dentro de uma tabela específica.

Cada família tem pontos de acordo com o seu agregado familiar, que pode trocar por produtos. Os beneficiários têm que estar inscritos no CEPAC. Além do apoio, a ideia é promover uma alimentação saudável e implementar medidas de gestão sustentável. As pessoas inscrevem-se e vão em dias específicos buscar as suas “compras”. Este não é um modelo novo, mas está-se a popularizar.

Quem antes fazia os cabazes no CEPAC, hoje está a orientar as pessoas sobre o que podem ou não ter nos sacos: Guilhermino Tavares, o funcionário, está em Portugal há 14 anos depois de ter vindo por causa de um acidente de mota no Príncipe, de onde é natural. Acha que este modelo de mercearia funciona melhor porque as pessoas vêem o que levam.

Dina Gonçalves, no atendimento ao público, explica que a quantidade nunca chega para todas as famílias. “O que temos vai-se num instante. Tem acontecido haver donativos específicos para a mercearia e aí compramos o que achamos mesmo essencial.”

Desde Junho que houve um aumento de 60 agregados nas listas de pedidos de apoio. São pessoas que chegam a esta resposta por causa do aumento dos preços, dos custos dos bens essenciais e outros, que vão tendo trabalhos informais e que “estão numa situação muito volátil”, diz Ana Mansoa. Neste momento apoiam cerca de 600 agregados, e na mercearia cerca de 400. Alguns retomaram a procura. O perfil principal dos utentes do CEPAC são famílias monoparentais imigrantes, sobretudo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), com menores a cargo, ou agregados de várias gerações - em que uma das pessoas tem rendimentos mas não é suficiente para todos; a maior parte são doentes e estão em idade activa.

Esta é também altura em que aparecem mais pedidos de apoio para material escolar porque não tendo autorização de residência também não têm acesso ao serviço de acção social. Ana Mansoa prevê que os pedidos irão aumentar e que será necessário recorrer a mais apoios porque a perspectiva económica não é animadora.

De resto, está a aumentar a lista de espera no CEPAC de pessoas que querem ser beneficiárias e ter acesso ao apoio alimentar: no mais recente balanço eram 160 os agregados à espera. “Uns querem apoio na procura de emprego, outros no processo de regularização e outros estão em risco de ficar em situação de sem-abrigo” - mas estes passam à frente para “não ficarem em situação de maior vulnerabilidade”, explica Ana Mansoa.

No centro estão a aumentar as campanhas de angariação porque o que recebem não chega para a resposta; estão também à procura de parceiros até com outro tipo de bens que não alimentares: “Uma das necessidades que identificamos são os bens de higiene íntima da mulher, muito caros, e muitas das famílias que acompanhamos não têm orçamento para eles”, explica.
Pressão já existe

Esta não é a única instituição que está a verificar um aumento dos pedidos de ajuda. Segundo Isabel Jonet, do Banco Alimentar contra a Fome, que abastece muitas organizações como o CEPAC, “há mais pedidos das instituições porque têm mais pedidos” e porque “têm que responder a custos de energia e combustível”, que aumentaram.

Directamente ao Banco Alimentar os novos pedidos têm-se mantido estáveis, nas 20 famílias diárias, para um total de 400 mil pessoas que apoiam. São sobretudo famílias monoparentais, idosos com pensões “muito baixas”, em que qualquer aumento é “significativo”, contextualiza.

Rita Valadas, presidente da Cáritas, afirma que já se sente “claramente uma pressão”, mas que ela será maior, “mais para a frente”. A crise vai-se sentindo de forma gradual até chegar aos bancos alimentares: “As pessoas começam a substituir marcas por marcas brancas, depois trocam uns alimentos por outros e depois deixam de comprar determinados alimentos - só depois recorrem a programas alimentares”, contextualiza. Preocupa-a a diminuição da qualidade alimentar das refeições das famílias, que é um dos reflexos mais imediatos destas crises.

Na Cáritas tem sentido um aumento dos pedidos mas considera que “os números não são o mais importante”: “O pior são as pessoas que nos procuraram durante a pandemia, que não desapareceram e não conseguiram fazer a retoma.”

Às instituições como a Cáritas vai ser exigida criatividade porque cada vez “há mais pessoas para apoiar e menos pessoas com capacidade para ajudar”.

11.7.22

Alimentação. Apoio do Governo ajuda, mas não resolve situação dos mais desfavorecidos

Filomena Barros , Rosário Silva, in RR

Sobre a medida, que vai abranger mais de um milhão de agregados familiares, a Renascença ouvir a Rede Europeia Anti pobreza e a Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome.

Apoio extraordinário de 60 euros do Governo a juda, mas não resolve situação dos mais desfavorecidos, defendem a Rede Europeia Anti Pobreza e o Banco Alimentar.

Depois de na ultima quarta-feira, António Costa, ter anunciado, na Assembleia da República, que "a medida extraordinária de apoio ao cabaz alimentar vai ser prolongado por mais três meses", o Governo veio esta quinta-feira a terreiro, esclarecer que o apoio extraordinário vai, afinal, ser pago de uma só vez: em julho, para os beneficiários da tarifa social e da eletricidade e, em agosto, para quem recebe prestações sociais mínimas.

Nas reações, o presidente da Rede Europeia Anti Pobreza, o padre Jardim Gonçalves, diz que não percebe esta diferença nos anúncios do executivo.

“Não entendo, porque acho que no prazo de 24 horas haver uma disparidade de informação, é qualquer coisa que não devia acontecer”, considera, para lembrar em seguida que “o grande problema é sempre a informação e a transparência para com o cidadão”.

“Se umas pessoas dizem, e logo a seguir não é verdade o que disseram, isto é o descrédito de qualquer responsável do Governo”, conclui o sacerdote, ainda que observe que este apoio ajuda as famílias, embora não vá resolver a situação dos mais desfavorecidos.

“Acho que estamos numa época e num momento muito critico e difícil. Portanto, qualquer ajuda para quem não tem, é sempre positivo, nem que seja para ajudar a pagar a água e a luz”, menciona, em declarações à Renascença.

Contudo, para o padre Jardim Gonçalves não deixa de ser uma “solução pontual”.

“A solução definitiva, é a vida social e económica mudar. Com uma inflação a crescer, com o aumento dos produtos, as pessoas não tendo outra fonte de receita, é complicado. É uma ajuda sempre, mas não é a solução do problema”, atesta o presidente da Rede Europeia Anti Pobreza.

Na mesma linha de pensamento, a posição da presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome. Isabel Jonet entende que um dinheiro extra dá alguma folga, mas não resolve as dificuldades das famílias.

“Não fizemos estudos da aplicação dessas verbas e penso que as instituições que estão mais próximas das famílias, no terreno, também não o terão feito. Mas, 60 euros, depressa se gastam e a maior parte dessas famílias fará o gasto em comida”, afirma a responsável.

Esta quinta-feira, o Conselho de Ministros aprovou o prolongamento do apoio de 60 euros às famílias mais vulneráveis, criado para atenuar o impacto do aumento dos preços dos bens alimentares.

Segundo a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, este apoio extraordinário será aplicado “exatamente nos mesmos moldes" em que já foi pago em abril e maio.

O apoio irá assim abranger cerca de um milhão e 70 mil agregados em julho e agosto.

8.6.22

Banco Alimentar reforça que há mais pedidos de apoios

in Público

Presidente do Banco Alimentar do Algarve diz que não houve “uma melhoria” no número de pedidos de ajuda. “Continuamos a receber pedidos de apoio quer de pessoas quer de instituições, portanto não estamos numa fase decrescente dos pedidos de apoio.”

O presidente do Banco Alimentar do Algarve disse esta quarta-feira que estão a receber cada vez mais pedidos de famílias e instituições para apoio alimentar, sublinhando que o aumento dos preços tem estado a pressionar novamente a população mais carenciada.

Nuno Cabrita Alves falava à Lusa a propósito da intenção do Governo de reduzir o número de beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) de 120 para 90 mil, justificando com a evolução favorável da situação epidemiológica no país e a progressiva normalidade em geral”.

“Nós não entendemos que haja uma melhoria, continuamos a receber pedidos de apoio quer de pessoas quer de instituições, portanto não estamos numa fase decrescente dos pedidos de apoio muito pelo contrário o aumento dos preços, a taxa de inflação tem estado a pressionar novamente aquilo que é a população mais carenciada”, adiantou.

Nuno Cabrita Alves disse que enquanto presidente do Banco Alimentar do Algarve faz a representação junto do Estado no âmbito do POAPMC, mas cada Banco Alimentar tem capacidade para fazer a gestão do programa.

“Estávamos informados [da intenção da redução de beneficiários]. Já estava em plano há algum tempo, porque para fazer a gestão do programa tem de se pensar naquilo que são os número de destinatários a apoiar porque isto obriga a concursos públicos e tem de ser planeado com antecedência”, disse.

De acordo com Nuno Cabrita Alves, o número original de beneficiários do programa era de 60 mil, depois passou para 90 mil e depois subiu para os 120 mil devido à pandemia de covid-19.

“Agora estão novamente previstos os 90 mil para manter até ao final do programa no final do ano. Estamos muito preocupados porque queremos saber a continuidade do programa. Ao contrário do passado era interessante que não houvesse uma paragem de um programa para o outro”, disse.

Nuno Cabrita Alves disse também estar preocupado com o número insuficiente de alimentos que está a ser distribuído no âmbito deste programa.

“O número de alimentos distribuído é insuficiente e inferior ao que está assumido no programa. Tem a ver com a dificuldade de fornecimento de alguns fornecedores, do aumento de preços devido à guerra e ausência de alguns produtos que afasta fornecedores dos concursos, etc”, referiu

Nuno Cabrita Alves contou que de um cabaz de 25 produtos, chegaram a distribuir apenas seis.

“Neste momento, numa base de 21, há sete produtos fora do cabaz, alguns sem perspectiva de voltarem”, disse.

De acordo com o Jornal de Notícias (JN) desta quarta-feira, o ISS deu indicações em 20 de Maio aos directores da Segurança Social de todo o país para informarem os técnicos que acompanham o POAPMC que têm de reduzir o número de beneficiários de 120 para 90 mil.

Questionado pelo jornal, o Governo confirmou que actualmente serão 110 mil as pessoas que cumprem os critérios e que o objectivo é continuar a reduzir.

O Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) foi criado em 2015 na União Europeia e pretende ser um instrumento de combate à pobreza e à exclusão sociais, atribuídas a causas estruturais, agravadas por factores conjunturais.

As pessoas que se encontrem em situação de carência económica, pessoas sem-abrigo e na situação de indocumentadas podem ter acesso ao POAPMC, que é financiado pelo Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas Mais carenciadas que em Portugal depende da Segurança Social.

19.4.22

Impacto do aumento de preços ainda não se reflecte nos pedidos de ajuda alimentar

Daniela Carmo, in Público on-line

“Temos tido muitas queixas de que está cada vez mais difícil, mas não registamos crescimento no número de pedidos de ajuda directa das pessoas. Contudo, penso que isso ainda virá”, acredita Isabel Jonet, do Banco Alimentar.

O aumento dos preços e do custo de vida em Portugal ainda não se reflecte nos pedidos de ajuda a instituições de apoio como o Banco Alimentar ou a Cáritas Portuguesa. Ao PÚBLICO, as presidentes das duas direcções garantem que apesar de ainda não ter existido um aumento de pessoas em situação de vulnerabilidade a ter de recorrer a programas de ajuda alimentar é de esperar que a procura suba.

Rita Valadas, presidente da Cáritas, explica que apesar de o custo de vida estar a aumentar, o impacto ainda é algo recente. “Acho que ninguém pode ter estes números ainda, só tivemos três meses do ano e só vamos poder contabilizar reflexos mais à frente porque a factura está a aumentar agora”, desenvolve.

Também Isabel Jonet, do Banco Alimentar contra a Fome, diz que “ainda não houve um aumento dos pedidos de ajuda”. “Temos tido muitas queixas de que está cada vez mais difícil, mas não registamos crescimento no número de pedidos de ajuda directa das pessoas. Contudo, penso que isso ainda virá”, acrescenta. A presidente do Banco Alimentar lembra ainda a medida do Governo de atribuir o apoio extraordinário de 60 euros para mitigar o aumento dos preços dos alimentos como uma das possíveis razões para que ainda não haja um reflexo visível.

Para Rita Valadas, os portugueses vão começar a sentir estes efeitos, provavelmente, só no fim deste mês. “Recorrem ao apoio quando têm a falência do primeiro mês e isso ainda não teve tempo para acontecer.”

A dirigente da Cáritas traça ainda um cenário “preocupante” que se verifica no país: “O que era claro para nós é que estaria estimado um decréscimo do número de famílias que apoiamos vítimas da pandemia, porque haveria alguma retoma. Mas isso não aconteceu, as famílias continuam a precisar de apoio”.

Esta realidade é, por isso, preocupante na medida em que a pandemia de covid-19 fez com que cerca de 22 mil pessoas, que não eram apoiadas pela Cáritas, tivessem de recorrer ao apoio da rede. E não saíram. Isso significa que juntar a este número acrescido de apoios novos pedidos de ajuda pode representar um factor de pressão para a associação.

“Não há um alívio das situações que vinham da pandemia e aquilo que nós tememos é que se juntem estas situações às que vão começar a sentir [um aumento] na sua factura mensal.”

Apoio depende da solidariedade de todos

Até onde se pode, então, esticar? Rita Valadas não se compromete com um número e recorda que o trabalho da Cáritas depende da solidariedade de todos. “Obviamente que, se for necessário, se virmos que não temos recursos, utilizaremos a nossa ferramenta habitual que é fazer uma campanha explicando às pessoas para que é que ela é. Entre isto e as almofadas que o Estado terá certamente que equacionar para estas pessoas, havemos de ser capazes”, completa.

Até ao momento, aquilo que tanto a presidente da Cáritas como Isabel Jonet reportam são as queixas, quase desabafos, de pessoas assustadas e com medo. “As pessoas estão muito conscientes da crise que está a acontecer e que vai acontecer e têm muito receio disso. Procuram-nos para conversar, para saber o que podem fazer, muito mais do que já a pedir ajuda por ausência de recursos”, reitera Rita Valadas.

Para Isabel Jonet, os pedidos de ajuda não se comparam ao aumento que foi registado com a pandemia. “Não é significativo, não tem nada a ver com a altura da ‘covid’. Neste momento também temos algumas instituições que estão a apoiar ucranianos mas o aumento de pedidos não é significativo.”
Banco alimentar com 21 balcões

O Banco Alimentar tem 21 balcões em todo o país e apoia 2600 instituições que chegam a 400 mil pessoas todos os dias. “Sabemos exactamente quem são as pessoas que apoiamos e sabemos também que em Portugal há um milhão de pessoas que vivem com menos de 250 euros por mês, a maioria das quais são idosos com baixas pensões de reforma”, sublinha Isabel Jonet.

Já a Cáritas ressalva que os números “são sempre menos do que a realidade” e que este tipo de instituições não resolve os problemas das vidas destas pessoas, mas que actuam, antes, “apenas ao nível básico, no sustento de vida diário”. E aí, Rita Valadas tem a esperança de fazer cumprir a missão nestes tempos mais críticos. Por ano, a associação chega, em média, a 120 mil pessoas e com a pandemia chegaram mais 22 mil pedidos de ajuda.

Contactadas pelo PÚBLICO, também a Comunidade Vida e Paz e a Rede Europeia Anti-Pobreza reportaram ainda não notar uma subida nos apoios que prestam. O PÚBLICO questionou também o Governo sobre qual a evolução dos auxílios prestados pelo Programa Operacional de Apoio Às Pessoas Mais Carenciadas e pela Rede de Emergência Alimentar durante este ano, mas não obteve uma resposta em tempo útil.


14.3.22

Impacto do aumento dos preços nas famílias pobres preocupa instituições de solidariedade

Samuel Silva, in Público on-line

Mais de 30% das famílias não tem capacidade para assegurar uma despesa inesperada. O impacto da escalada dos preços será “mais grave nas famílias com filhos”, alerta especialista em pobreza infantil.

O aumento do custo dos bens de primeira necessidade pode empurrar muitas famílias para lá do limiar da pobreza. A preocupação é manifestada por especialistas e responsáveis de instituições que apoiam pessoas carenciadas, face à escalada dos preços, resultado de factores como a seca, o aumento dos custos da energia e a guerra na Ucrânia.

Os produtores do sector alimentar antecipam um aumento de 20% a 30% de preço de alguns produtos essenciais nos próximos dias. A situação vai criar “maiores dificuldades para as pessoas que estão mais próximas do limiar da pobreza”, avalia Amélia Bastos, professora Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa. Os dados mais recentes, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no final do ano, revelam que 18,4% da população nacional vive abaixo a linha de pobreza — que ficou fixado nos 554 euros de rendimento mensal em 2021.

O impacto da escalada dos preços será “mais grave nas famílias com filhos”, alerta Amélia Bastos. As maiores preocupações são com as famílias numerosas (29% dos agregados com dois adultos e três ou mais crianças estão abaixo do limiar da pobreza) e as famílias monoparentais, nas quais este indicador sobe para 30%.

Apesar de, na sexta-feira, o Ministério da Agricultura ter garantido que “não há, à data, qualquer motivo que faça antever a possibilidade de escassez de alimentos”, o Governo admitiu, no entanto, que relativamente aos preços dos produtos alimentares, “verifica-se uma tendência de aumento em toda a União Europeia”.

A evolução da situação está a ser seguida pelo Grupo de Acompanhamento e Avaliação das Condições de Abastecimento de Bens nos Sectores Agro-alimentar e do Retalho em Virtude das Dinâmicas de Mercado, onde estão representados os sectores produtivos, industriais e de distribuição. Este organismo volta a analisar a situação no dia 21 de Março e, durante a próxima semana, haverá reuniões preparatórias.

O aumento dos preços pode criar “novos pobres” em “muitas famílias que vivem naquele franja em que já não têm direito a apoios sociais”, concorda também a presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet. De acordo com a instituição, 4% da população nacional recebe regularmente comida que vem de um dos 21 bancos alimentares.

Há “milhares de famílias” que vivem com os orçamentos “completamente esticados e não têm folga para acomodar qualquer alteração”, continua Jonet. Os dados do INE revelam que 31,1% das famílias não têm capacidade para assegurar o pagamento imediato de uma despesa inesperada. “Dez euros a mais podem ser um drama”, avisa a presidente do Banco Alimentar.

Segundo os mesmos dados oficiais, 2,4% da população não tinha em 2021 capacidade financeira para ter uma refeição de carne ou de peixe (ou equivalente vegetariano), (…) de dois em dois dias. Face ao aumento dos preços, as famílias “vão ter que cortar nos produtos alimentares”.

Cáritas vai prolongar, para além de Abril, o programa Inverter a Curva da Pobreza em Portugal, lançado há dois anos

A Cáritas Portuguesa também se prepara para um aumento do número de pessoas a quem terá que prestar auxílio, revela a presidente, Rita Valadas, nomeadamente famílias que já recebem “apoio pontual, mas que terão necessidade de um apoio regular”.

A instituição vai prolongar, para além de Abril, o programa Inverter a Curva da Pobreza em Portugal, lançado há dois anos, em resposta à crise social motivada pela pandemia de covid-19. “Pensávamos que estávamos a sair da crise, mas estamos final perante uma situação ainda mais complexa”, desabafa.

A conjuntura pode também afectar as próprias instituições de solidariedade que não só “vão ter que suportar o aumento de preços”, como temem uma redução dos donativos que recebem regularmente e do qual depende boa parte do seu trabalho, alerta Rita Valadas.

Se houver “menos excedentes” tanto nos produtores, como nos retalhistas, também haverá “menos alimentos” nos bancos alimentares, reconhece Isabel Jonet, embora “não preveja” que isso aconteça “no imediato.”


12.4.21

12.3.21

Ser voluntário em pandemia. "Não vou ficar não sei quantos meses em casa sem fazer nada"

Elsa Araújo Rodrigues, DN

Em tempo de pandemia devemos ficar em casa e privilegiar o teletrabalho, mas há quem não consiga ficar "apenas" a trabalhar à distância. Muitos voluntários combinam o teletrabalho pago com as tarefas presenciais em instituições como o Banco Alimentar.

Rosarinho Sousa Dias é educadora de infância, uma das profissões que atualmente se deve exercer em teletrabalho, e com o novo encerramento das creches e jardins de infância passou a estar com as crianças apenas algumas horas por dia, através do computador. Mas não passou a ter os dias menos cheios.

"Durante as tardes sim, faço tudo o que tem a ver com o meu trabalho: entro em contacto com as crianças, com as famílias, toda essa parte eu faço. Mas durante as manhãs, com esta incerteza toda, em que não sabemos o que vai acontecer [regressar ou não às aulas presenciais], venho para aqui e faço tudo o que é preciso fazer", descreve ao DN a educadora, que também é voluntária no Banco Alimentar.

Participar em ações de voluntariado social é uma das exceções previstas ao dever de recolhimento geral e Rosarinho resolveu dedicar as horas que passou a ter livres à missão de ajudar os outros.

"Pensei: não vou ficar não sei quantos meses, dias ou semanas em casa sem fazer nada porque há instituições que precisam mesmo à séria." A vontade de ser útil levou-a a "instituições onde ia só à porta ajudar"e que acabaram por deixar de aceitar voluntários pontuais, "por causa de não poderem entrar pessoas estranhas nas instituições" em tempos de pandemia.

Disposta a tornar-se "voluntária a tempo inteiro", decidiu experimentar o Banco Alimentar. Começou a vir todas as manhãs. "Aliás, a véspera de Natal, o dia 24 de dezembro, foi passado aqui com os meus filhos", recorda.

António Beltrão também é voluntário no "turno da manhã" do Banco Alimentar, desde outubro de 2017. Começou "por acaso". "Vim aqui trazer um papel de uma conservatória e depois perguntei como é que podia ser útil", descreve, acrescentando que abdicou do estágio profissional de Psicologia Clínica e agora vem "todas as manhãs durante a semana".

"Faço tudo o que for preciso. Neste momento, por uma questão de logística estou na distribuição de produtos não perecíveis", conta.

Voluntariado que preenche e "está no coração"

"Ficar no quentinho, no cómodo, instalado, sem fazer nada, não é princípio para mim. Porque enquanto existirem pessoas cada vez com mais necessidade, eu não posso ficar quieto, calado e acomodado ao meu canto", acrescenta António Beltrão.

"É algo que me enche o dia. E agora, nestes tempos mais conturbados, parece que o dia não fica tão preenchido quando não posso vir cá", diz ao DN.

Se António considera que ser voluntário faz parte dele mesmo, para Rosarinho é algo que "está no coração". E defende que todos deveriam experimentar fazer voluntariado, "porque é uma experiência mesmo gratificante" e quem já fez "consegue sentir" o que tenta descrever.

"Quem nunca fez voluntariado, acha que é um risco, vai pôr quinhentos entraves, porque não sei quê, porque não querem... Mas neste momento é mesmo, mesmo preciso. E aqui [no BA] também há menos voluntários a vir do que é normal, por causa disto tudo", expõe a educadora de infância.

E junta um apelo: "São todos bem-vindos para ajudar. Aqui aceitam todos os braços que aparecem porque há cada vez mais instituições a recorrer ao Banco Alimentar e as pessoas que aqui trabalham não conseguem dar vazão à quantidade enorme de pedidos que chegam".
Sem receio e com todas as precauções

António também vê "que cada dia são mais e mais as pessoas necessitadas de bens materiais". Mas, com 64 anos e "quase" a pertencer a um dos grupos de risco para a covid-19, não receia fazer voluntariado? "O receio que eu tenho é o de ver algumas pessoas que estão cá também a servir, a trabalhar ou voluntários e que se deixaram ir abaixo com esta situação toda. Emocionalmente sentem-se inseguros e eu tento passar uma mensagem de esperança, de alegria", explica.

O voluntário tenta animar todos os colegas que se sentem "mais em baixo", mas sublinha que isso não pode ser motivo para descurar as precauções. "A nossa presidente foi sempre exigente em termos de precauções - do uso da máscara, da higiene das mãos, de tudo isso -, que nós também exigimos a quem vem cá. O que é preciso é estarmos sempre atentos e cuidadosos em tudo o que fazemos", alerta, acrescentando que nunca teve um "receio assim profundo."

Rosarinho é voluntária no Banco Alimentar há menos tempo do que António, mas quem a vê a puxar o carrinho porta-paletes é levado a pensar que nunca fez outra coisa. E as luvas grossas que usa não a impedem de manobrar o carrinho com grande destreza.
"Trabalho sempre, o tempo todo, com luvas e quando chego ali ao carro tenho lá o meu frasco com álcool", diz, destacando a importância da proteção para lidar com a ameaça sempre presente.

"Tenho algum cuidado, não só comigo mas também com os outros. Porque a pessoa nunca sabe, este vírus é assim um bocado traiçoeiro e nunca sabemos onde é que ele vai andar. Por isso, tenho cuidado. Medo não tenho nenhum", assegura.

"Claro que venho sempre de máscara. Sempre, sempre, sempre. E a máscara que eu uso aqui, quando saio, à hora de almoço, é para ir para o lixo. Estes sapatos só são para vir trabalhar para aqui para o Banco Alimentar", conclui a educadora de infância.

15.2.21

Há listas de espera no programa público de combate à fome

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas foi reforçado no ano passado de forma progressiva para responder à crise pandémica, mas em várias partes do país a procura já supera a oferta.

Alinham-se famílias em listas de espera para entrar no Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas (POAPMC). Com a pandemia de covid-19 à solta, o Governo decidiu alargar progressivamente a oferta de cabazes de 60 mil para 120 mil beneficiários, mas o universo de pessoas elegíveis já cresceu tanto que em várias partes do país ultrapassa a oferta.

O programa, coordenado pelo Instituto de Segurança Social, é co-financiado pelo Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas mais Carenciadas. Serve-se, porém, de centenas de entidades espalhadas por todo o país – umas a funcionar como pólos de recepção, outras como entidades mediadoras, que todos os meses recebem alimentos e os entregam às famílias.

Veja-se o exemplo da Santa Casa da Misericórdia de Almada, responsável pela distribuição de cabazes na Caparica e na Trafaria. Antes da pandemia, chegava a 278 pessoas. Com o reforço do programa, abrange 556. “Mesmo assim, não chega”, assegura a técnica responsável, Sandra Morais. “Temos 270 em lista de espera.”

No Centro Paroquial de Bem Estar Social da Arrentela, no concelho vizinho, no Seixal, os pedidos também se acumulam. Houve um incremento de 209 para 418 pessoas e, neste momento, ao que diz a coordenadora, Natércia Pedro, 164 pessoas aguardam oportunidade.

Na Associação Nacional de Ajuda aos Pobres, no Porto, o drama repete-se. “Nós entregamos cabazes a 1200 pessoas e temos mais de 300 de fora por falta de vagas ou de critérios”, diz a directora, Claudina Costa. Procuram fazer cabazes para esses, recorrendo a donativos cada vez mais escassos. “Temos alguns benfeitores, alguns amigos, algumas empresas, mas isso agora está a falhar.”

Claudina dá por ela a fazer contas impossíveis para acudir a quem lhe chega da freguesia de Paranhos e do centro histórico do Porto. “Este mês ainda não pagamos a renda”, suspira. “Para já, não tenho como.” São demasiadas famílias, de repente, sem rendimentos, a precisar de ajuda. “Entre leite e papas e renda, vou para o leite e as papas. O senhorio pode esperar mais uns dias.”

O gabinete da ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, não nega este quadro. “Nos territórios e entidades em que a capacidade seja atingida está assegurada a possibilidade de se alargar a capacidade de apoio pelas vias alternativas ao POAPMC, de forma a garantir resposta a todas as situações de carência alimentar das famílias”, responde por escrito, aludindo às cantinas sociais e aos serviços de acção social, que podem atribuir apoios pontuais para despesas básicas, inclusive de alimentação.

A sociedade civil como alternativa

Numa ronda por uma dezena de organizações, percebe-se como a sociedade civil se organizou para responder a quem está à espera ou não é elegível, embora também esteja aflito, como os imigrantes em situação irregular. Voltando ao exemplo da Caparica e na Trafaria, as 50 famílias mais carenciadas que aguardam por vaga no POAPMC recebam cabazes do Banco Alimentar. As outras são apoiadas pelo Banco de Bens Doados, que funciona com donativos da Santa Casa e de outras entidades. Agora, com o confinamento, todo o trabalho de angariação está dificultado e as dificuldades vão em crescendo.

No Seixal, explica Natércia Pedro que, “apesar de aparentemente terem sido criadas muitas novas respostas”, como a Rede de Emergência Alimentar gerida pelo Banco Alimentar e as linhas abertas pelas autarquias, tudo assenta nas instituições de sempre. “Vem tudo parar aos mesmos sítios”, sublinha.

Ali, na Arrentela, têm “imensa dificuldade em responder aos pedidos”. Também recorre ao Banco Alimentar, vocacionado para combater a fome enquanto luta contra o desperdício. “Quanto mais pedidos fazemos, menos qualidade de apoio”, lamenta. “Acabamos por ter cada vez menos para dar a cada família. As pessoas, no desespero, ligam para todo o lado.”

"Infelizmente, o pior está para vir”, diz Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa

Não é igual ser apoiado pelo POAPMC ou pelos programas. Os cabazes do POAPMC devem assegurar 50% das necessidades energéticas e nutricionais mensais dos beneficiários. Têm massa, arroz, cereais, enlatados (grão-de-bico, feijão, tomate, saladinha, atum), azeite, creme vegetal, congelados (mistura de vegetais, brócolos e espinafres congelados, frango, pescada), leite e queijo (este último em falha por causa de um concurso). Já os cabazes do Banco Alimentar dependem das doações feitas em cada momento.

Helena Loureiro, presidente da Associação de Intervenção Comunitária Gondomar Social, que faz chegar o POAPMC a 729 pessoas e tem 115 em espera, acredita que, por ali, está tudo sob controlo. “Estas famílias não ficam sem apoio”, assevera. “Estamos organizados em sede de rede social. As situações que vão surgindo têm respostas pontuais até chegar uma resposta continuada.”

Resposta semelhante ouve-se na União de Freguesias de Custóias, Leça do Balio e Guifões, em Matosinhos. Naquele território, a quota definida ainda nem está esgotada. O programa integra 1483 indivíduos, mas pode chegar aos 1600. Neste momento, 25 aguardam aprovação da Segurança Social. “Temos isso preparado. Se a técnica entende que é preciso comprar um cabaz de emergência, eu digo compre-se”, garante o autarca, Pedro Gonçalves.

Não se pense que é sempre a somar beneficiários. Quando maior a lista de espera, maior a pressão para ir actualizando a composição e o rendimento de cada agregado, tirar quem já não precisa, meter quem precisa. “Há pessoas a entrar e a sair quase todos os meses”, torna Sandra Morais. Ninguém pode falhar a recolha do cabaz sem justificação. Se tiver de ir ao médico, por exemplo, tem de avisar. Pode levantar o cabaz mais tarde. Se estiver retido em casa por doença ou para olhar pelas crianças, levam-lho. Se tem problemas de memória, ligam-lhe a lembrar. Se não aparecer porque está a chover, “deixa de ter direito, o cabaz passa para outra pessoa”.

Às filas do apoio alimentar chegam pessoas sem contrato, com contratos temporários, trabalhadores independentes, microempresários, de repente, sem trabalho e sem rendimento. Mas também a trabalhadores em layoff, com cortes salariais e crianças a cargo

"Regressados à pobreza"

O sociólogo Fernando Diogo recusa o termo “novos pobres”. “É uma importação de França com reduzida aplicação em Portugal.” Embora os haja, não provocam o grosso desta avalancha. “São regressados à pobreza. Estiveram na pobreza, conseguiram encontrar um trabalho que os tirou da pobreza, mas ficaram numa situação vulnerável. São vulneráveis empobrecidos.” Precários, pouco qualificados, com salários baixos, sem hipótese de poupar, na corda bamba. “A pobreza em Portugal é estrutural. Há uma forte probabilidade de um indivíduo ser pobre várias vezes ao longo da vida.”

Às filas do apoio alimentar chegam pessoas sem contrato, com contratos temporários, trabalhadores independentes, microempresários, de repente, sem trabalho e sem rendimento. Mas também a trabalhadores em layoff, com cortes salariais e crianças a cargo. “Infelizmente, o pior está para vir”, diz Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa.

Nem quer pensar no que seria se não tivessem sido criados apoios extra para os trabalhadores independentes, prolongado o subsídio social de desemprego, multiplicados os apoios às empresas (através de isenções de contribuições para a Segurança Social e financiamento do layoff). “No dia em que as empresas, fragilizadas, quiserem recuperar a sua vida, não sei quantas vão subsistir.”

Patrícia Martins, do Centro Social da Paróquia de São Salvador de Grijó, em Vila Nova de Gaia, onde também há algumas pessoas em lista de espera para o POAPMC, nota muita vergonha entre novos beneficiários. Para quem nunca precisou ou já não precisava de qualquer apoio do Estado, recolher cabazes é o último degrau. O estigma não tem de ver só com culpabilização, também com a ideia de que a protecção social não é um direito. “Há grupos que se unem para formar um cabaz e ajudar alguém”, observa. “Essas pessoas, se calhar, podem ter um papel de trazer as pessoas ao apoio que já existe no país. Se calhar, essas famílias precisam, por exemplo, de apoio para pagar a renda ou a luz. E esses grupos não conseguem ajudar nisso porque já ajudam na comida.”