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5.9.22

Inflação quando nasce não é igual para todos. Sete razões para os pobres sofrerem mais

João Carlos Malta, in RR

O Governo vai apresentar esta segunda-feira um pacote de medidas de combate à inflação que, apesar de ter recuado em agosto, se mantém nos 9%. Há muitas dúvidas de como o executivo vai construir um "mix" para combater a escalada de preços, mas há certezas entre os economistas sobre quem mais perde.

A inflação não tem o mesmo peso para todos e não atinge todos da mesma forma. É, em muitos casos, quase uma experiência pessoal, mas também há tendências que dividem os vários grupos socioeconómicos. Os pobres também neste domínio são os que mais perdem.

As experiências das pessoas com o aumento dos preços dependem de onde vivem, quanto ganham e como gastam.

Em abril, um estudo de um grupo de economistas da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), liderado por Susana Peralta, agrupou três categorias de consumo (produtos alimentares, habitação e transportes), e chegou à conclusão de que seria necessário transferir entre 220 euros e 545 euros por ano para cada agregado dos 20% mais pobres em Portugal, de forma a colmatar o aumento dos preços nestes bens.

Em resumo, os economistas são consensuais em dizer que as famílias com mais rendimentos sofrem menos inflação do que as famílias pobres. Mas porquê?
1 - Consumo pesa mais nos mais pobres

O consumo das famílias pobres, em termos de percentagem do seu ganho e do seu rendimento, pesa muito mais do que numa família rica, avança o economista da Porto Business School, Filipe Grilo.

“Pensamos, por exemplo, no pão. Não é por ganharmos 1.000 euros ou 5.000 euros que comemos mais pão. Portanto, o pão acaba por ter um peso maior nas famílias mais pobres do que nas das famílias mais ricas”, ilustra.

Em abril, Susana Peralta dizia que, se olharmos para alimentos como o pão e os cereais, as famílias que incluem os 20% mais pobres do país gastam 17% da sua despesa em alimentação apenas nestes dois itens (5% do orçamento familiar global). Nos mais ricos, o peso é de apenas 3,6%.
2 - Sem energia não há vida

A economista Susana Peralta, professora da Nova SBE, afirma que as pessoas “não podem viver sem energia”. Não há como fugir.

E como recebem menos, para os mais pobres é mais difícil de acomodar as subidas de preço.
3 - Sem margem de ajustamento

Susana Peralta afirma que, em geral, a inflação tem um efeito que é desigual do ponto de vista social, porque “há uma margem de ajustamento que as pessoas mais ricas têm e que as pessoas mais pobres não têm”. A isso chama-se poupança.

“As pessoas mais pobres não poupam e até têm, em muitos casos, poupança negativa”, sublinha.
4 - Descer na escala de preços

As famílias com maior rendimento podem começar a comprar versões mais baratas dos bens mais caros quando os preços sobem, e assim acomodar as subidas. Por outro lado, as famílias pobres, como presumivelmente já compram os itens mais baratos, não têm como gastar menos.

Ou seja, se eu beber o leite A, posso passar para o B mais barato. Se for pobre, à partida, a única solução é deixar de o beber.

“Os ricos conseguem ter maior capacidade de substituir os bens, baixando um bocadinho os standards na qualidade”, afirma Filipe Grilo.

Ou, como diz Susana Peralta, “as pessoas que têm padrões de consumo mais sofisticados conseguem também ajustar por aí, indo a marcas mais baratas”.
5 - Pobres consomem o essencial, e não têm margem

As famílias pobres gastam cerca de dois terços do que ganham alimentação, transporte, renda de casa, serviços públicos e comunicações. São dimensões de consumo a que não podem fugir, mesmo que os preços subam.

Em contraste, as famílias das classes mais abastadas gastam mais dinheiro em coisas que não são essenciais. Por isso, e de forma a fugir à inflação podem parar de comprá-los se os preços ficarem muito altos.

6 - Peso da casa

O peso dos gastos com habitação é também mais pesado para os mais pobres do que para os mais ricos, pelo que qualquer aumento se repercute de forma desigual.

Os custos das casas aumentaram acentuadamente desde a pandemia e os empréstimos estão agora mais caros, tornando a compra de casa inacessível para muitas famílias.

Como os possíveis compradores não podem adquirir casas, os proprietários passam a alugá-las. Um dos efeitos pode ser o aumento das rendas. Ora quem arrenda é normalmente quem menos dinheiro tem.

Por outro lado, os proprietários veem as casas aumentarem de valor e, muitas vezes, desfrutam de uma barreira às variações da inflação, porque muitos refinanciaram os empréstimos em 2020 e 2021, quando as taxas estavam mais baixas.

7 - Classe média baixa sofre

A classe média baixa pode em algumas circunstâncias ser quem mais vai sofrer.

“Vão ter muito mais dificuldades do que as pessoas mais pobres, porque as pessoas mais pobres já estavam qualificadas para ter um apoio total. A franja da classe média baixa, que poderá ter ainda mais dificuldades, poderá ser arrastada para o limiar da pobreza por causa da inflação”, avança Filipe Grilo.

20.7.22

Montenegro diz que "país está a empobrecer" e apela à sensibilidade do Primeiro-ministro

in CM

Presidente do PSD pede que seja aplicado o excedente de receita fiscal em apoios sociais.

O presidente do PSD considerou esta terça-feira que o estado da nação "é grave" e que "o país está a empobrecer", apelando à "sensibilidade social, moralidade e humildade" do Governo para aplicar o excedente de receita fiscal em apoios sociais.

Em declarações aos jornalistas no final de visitas a dois projetos na área social em Cascais, Luís Montenegro foi questionado sobre o seu diagnóstico sobre o estado da nação, na véspera do debate parlamentar com este tema.

"O estado da nação é grave, é um estado em que estamos a empobrecer, estamos a sofrer na pele os efeitos da falta de transformação e reformismo em Portugal", afirmou, apontando que, apesar de "o Governo não ter culpa de haver guerra", a inflação já estava a subir antes do conflito na Ucrânia e já existia "um caos completo nos serviços públicos essenciais".

Luís Montenegro apontou alguns números para sustentar as suas afirmações.

"Nós hoje somos um país mais pobre porque estamos a ter um ritmo de crescimento inferior, muito inferior, à media de todos os países da União Europeia, temos um rendimento per capita que é o 21.º dos 27", referiu.

"Pior do que isso", considerou, é que "de 2016 a 2021, anos da exclusiva responsabilidade do PS e anos onde todos os países foram atingidos da mesma maneira pela pandemia, o crescimento acumulado do PIB português foi de 7,1%".

No mesmo período, disse, nos países da coesão o crescimento do PIB foi, em média, de 18,3%, "ou seja, mais do dobro".

"No mesmo período, um Governo socialista estagnou o país condenando-o a ter um impacto mais grave nas dificuldades conjunturais que a guerra trouxe, não estava tão bem preparado como outros e a recuperação da economia portuguesa está a ser muito mais lenta", criticou.

Questionado se não é um problema não estar no parlamento para questionar diretamente o primeiro-ministro, Luís Montenegro respondeu negativamente e aproveitou as visitas as instituições para reiterar um apelo que tem feito ao Governo.

"Neste momento, o Governo tem excesso de receita fiscal, muito acima do que tinha estimado em termos de arrecadação de impostos. É uma exigência moral que o Governo coloque esse excedente orçamental ao serviço dos que no dia a dia têm dificuldades em pagar as suas despesas básicas", apelou.

Montenegro pediu ao Governo para que tenha "sensibilidade social, moralidade e humildade" e deixou um desafio direto ao primeiro-ministro.

"Dr. António Costa, olhe para aqueles que na sociedade estão a ser mais atingidos pelo aumento galopante dos bens mais essenciais", afirmou, dizendo que este apelo pode ser feito sem estar no hemiciclo do parlamento.

Ainda assim, o líder do PSD salientou que vai "acompanhar bem de perto" o debate, sem esclarecer se poderá passar na Assembleia da República", e sublinhou que o partido estará "muito bem representado" na discussão parlamentar.

Questionado sobre a votação obtida pelo novo líder parlamentar do PSD, Joaquim Miranda Sarmento (menos de 60%, muito abaixo da maioria dos seus antecessores), Montenegro respondeu que a bancada expressou "de forma inequívoca a sua confiança na direção do grupo num espírito de grande democraticidade.".

"Se for comparar com o que aconteceu no início do ciclo de liderança anterior, os resultados até foram bem piores", disse, referindo-se, de forma implícita, aos 39% de Fernando Negrão em 2018, depois de ter substituído Hugo Soares por vontade de Rui Rio.

Desta vez, foi também por vontade da nova direção de Luís Montenegro que o anterior líder parlamentar do PSD, Paulo Mota Pinto, convocou eleições antecipadas, depois de ter obtido 92% dos votos em abril.

Sempre acompanhado pelo presidente da Câmara de Cascais, o social-democrata Carlos Carreiras, e o vice-presidente do PSD (e também 'vice' deste município), Miguel Pinto Luz, Luís Montenegro começou por visitar o projeto Bata Branca, na Unidade de Saúde Misericórdia de Cascais, que garante o acesso a consultas de clínica geral a todos os munícipes sem médico de família atribuído.

Daí, o presidente do PSD e comitiva seguiram para a "Cozinha com Alma", um projeto social que vende refeições para fora ao público em geral e cujas receitas são utilizadas para apoiar famílias carenciadas (entre 70 e 80, atualmente).

Luís Montenegro partilhou com a responsável, Cristina de Botton, uma confidência: "Já cozinhei para 80 ou 100 pessoas em refeições sociais, nunca publicitei isso".

Questionado pelos jornalistas qual era a sua especialidade na cozinha, explicou que nessas ocasiões teve de recorrer a pratos mais simples.

"Costumo fazer rojões, feijoadas, coisas que em quantidade se conseguem cozinhar melhor", disse.

11.7.22

Alimentação. Apoio do Governo ajuda, mas não resolve situação dos mais desfavorecidos

Filomena Barros , Rosário Silva, in RR

Sobre a medida, que vai abranger mais de um milhão de agregados familiares, a Renascença ouvir a Rede Europeia Anti pobreza e a Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome.

Apoio extraordinário de 60 euros do Governo a juda, mas não resolve situação dos mais desfavorecidos, defendem a Rede Europeia Anti Pobreza e o Banco Alimentar.

Depois de na ultima quarta-feira, António Costa, ter anunciado, na Assembleia da República, que "a medida extraordinária de apoio ao cabaz alimentar vai ser prolongado por mais três meses", o Governo veio esta quinta-feira a terreiro, esclarecer que o apoio extraordinário vai, afinal, ser pago de uma só vez: em julho, para os beneficiários da tarifa social e da eletricidade e, em agosto, para quem recebe prestações sociais mínimas.

Nas reações, o presidente da Rede Europeia Anti Pobreza, o padre Jardim Gonçalves, diz que não percebe esta diferença nos anúncios do executivo.

“Não entendo, porque acho que no prazo de 24 horas haver uma disparidade de informação, é qualquer coisa que não devia acontecer”, considera, para lembrar em seguida que “o grande problema é sempre a informação e a transparência para com o cidadão”.

“Se umas pessoas dizem, e logo a seguir não é verdade o que disseram, isto é o descrédito de qualquer responsável do Governo”, conclui o sacerdote, ainda que observe que este apoio ajuda as famílias, embora não vá resolver a situação dos mais desfavorecidos.

“Acho que estamos numa época e num momento muito critico e difícil. Portanto, qualquer ajuda para quem não tem, é sempre positivo, nem que seja para ajudar a pagar a água e a luz”, menciona, em declarações à Renascença.

Contudo, para o padre Jardim Gonçalves não deixa de ser uma “solução pontual”.

“A solução definitiva, é a vida social e económica mudar. Com uma inflação a crescer, com o aumento dos produtos, as pessoas não tendo outra fonte de receita, é complicado. É uma ajuda sempre, mas não é a solução do problema”, atesta o presidente da Rede Europeia Anti Pobreza.

Na mesma linha de pensamento, a posição da presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome. Isabel Jonet entende que um dinheiro extra dá alguma folga, mas não resolve as dificuldades das famílias.

“Não fizemos estudos da aplicação dessas verbas e penso que as instituições que estão mais próximas das famílias, no terreno, também não o terão feito. Mas, 60 euros, depressa se gastam e a maior parte dessas famílias fará o gasto em comida”, afirma a responsável.

Esta quinta-feira, o Conselho de Ministros aprovou o prolongamento do apoio de 60 euros às famílias mais vulneráveis, criado para atenuar o impacto do aumento dos preços dos bens alimentares.

Segundo a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, este apoio extraordinário será aplicado “exatamente nos mesmos moldes" em que já foi pago em abril e maio.

O apoio irá assim abranger cerca de um milhão e 70 mil agregados em julho e agosto.

6.7.22

Padre Jardim Moreira: “Sem apoios sociais, risco de pobreza estaria nos 43%”

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), padre Jardim Moreira, diz, em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, que a realidade da pobreza em Portugal "é bastante mais sombria" do que aquela que os números nos revelam.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), padre Jardim Moreira, diz que a realidade da pobreza em Portugal "é bastante mais sombria" do que aquela que os números nos revelam.

Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, o padre Jardim Moreira garante que o risco de pobreza aumentou com a pandemia e está agora a acentuar-se com a guerra. O responsável adianta um número: 43% seria o risco de pobreza em Portugal, se não houvesse apoios sociais.

"Em Portugal, ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza”, lembra o sacerdote, apontando que “não se investe na transformação da situação das pessoas em pobreza”.

“O dinheiro que se gasta aos milhões não tem um resultado prático na libertação da pobreza”, sublinha.

O padre Jardim Moreira diz ter medo que a “mudança estrutural” que a estratégia nacional de combate à pobreza obriga possa não avançar porque “o problema da guerra atrapalha a vida do governo e se calhar a manta é pequena para cobrir todas as necessidades”.

Ainda assim, o responsável promete continuar a insistir para que “essa rutura” avance e diz ter no Presidente da República um aliado na defesa da concretização do plano, um agente de pressão quando disse “é preciso decidir já”.

Noutro plano, Jardim Moreira admite a possibilidade de a REAP se tornar parceiro social a breve prazo porque “existe acordo” e para que isso possa acontecer “falta mudar a lei”.

Na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, revelada na terça-feira, o Papa deixou uma exclamação: "Quantos pobres gera a insensatez da guerra!" Na sua opinião, era importante o Papa sublinhar esta relação entre a guerra e o aumento da pobreza?

É natural e é conveniente que o diga porque a guerra é uma violência contra o ser humano. É um desrespeito pelos direitos e pela dignidade do outro. É insensibilidade à vida, aos afetos, à justiça e à equidade. Portanto, há um ataque direto e absurdo na guerra contra o ser humano para o destruir. É o pior e o maior pecado, o maior ataque à humanidade. Porque é a morte querida, voluntária e bem estruturada.

"A pobreza é uma injustiça, uma forma de corroer a democracia"

Penso que o Papa, como referiu na sua introdução, diz coisas muito sérias e importantes, que eu retomava. Porque o Papa insiste que estamos numa sociedade que se caracteriza pela proposta da felicidade no possuir, no ter, no lucro. E o Evangelho não propõe isso. Nomeadamente no Sermão da Montanha, nas Bem-aventuranças diz-nos que a felicidade está no ser. Eu acho que é esta luta hoje entre o ser e o ter que nós assistimos, nomeadamente aqui na Europa, com o sistema capitalista a enveredar lucro, enquanto a Igreja propõe a felicidade sem o lucro ou sem o objetivo de viver pelo lucro, mas sim, a viver na bem-aventurança da pobreza. Isto é, usando os bens, mas sem serem o objetivo da sua existência.

Essa é uma temática que nós vamos desenvolver daqui a pouco, porque ela é, basicamente ,uma das dimensões que está desenvolvida nesta mensagem para o Dia Mundial dos Pobres. A outra, que por onde tínhamos começado, tem a ver com esta questão da guerra e do seu impacto nas populações mais vulneráveis. O Papa tem insistido muito na questão do apoio solidário, mas alerta para dificuldades no acolhimento e, sobretudo, para a possibilidade de se perder a motivação inicial.

E esta é a pergunta: existe o risco de se começar a ver a guerra como algo ordinário e acostumarmo-nos a este sofrimento?

Acho que podemos olhar para a guerra neste momento como um jogo de forças políticas e de interesse de blocos, onde as pessoas passam a ser apenas marionetas. Se morrem mais ou menos 100, não é importante. O que importa é a predominância da minha vontade, do meu objetivo político estratégico. Por isso, a guerra pode durar mais um ano porque isso não importa. O que importa é que as forças militares tenham poder bastante para dizimar também os soldados russos e fazer recuar toda a grande metralha do exército russo. Isto é, o importante é repelir a ameaça do inimigo. E não importa, neste momento, quem é que vai sofrer para pagar esta guerra. Eu penso que há aqui um discurso que está a ser elaborado, que me parece que foge à realidade, porque penso que, como estamos num tempo em que a verdade só existe a 50%, a gente passa a não saber aonde está a verdade toda. E nunca está de lado nenhum, pelos vistos, pois assim acontece em tempo de guerra.

Mas esse arrastar não poderá também, de alguma forma, tornar banal a referência à guerra?

Ela tornou se banal porque se torna secundária.

Essa secundarização pode também deixar para trás as pessoas que estão a sofrer?

Necessariamente, ficam. Porque o objetivo não é cuidar das pessoas. O objetivo é defender ideologias e forças políticas e estratégicas. Neste momento, não está ainda definido como vai terminar esta guerra na constituição dos blocos que vão provocar uma nova geografia do planeta, mas as grandes potências, como é que elas se vão delimitar? E quem é que vai ser amigo ou inimigo de quem? E este ajustamento vai demorar algum tempo a fazer-se e os ucranianos são apenas o pivô de uma discussão que não vai parar tão cedo, certamente. Porque as razões tornaram-se globais e tornaram-se planetárias e, portanto, a circunstância local já não é a mais importante. São as razões globais e interblocos no planeta.

"Reduzir a luta contra a pobreza apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro não chega"

As pessoas que nos estão a ouvir percebem que há consequências globais porque, depois da pandemia, esta guerra trouxe aumentos significativos de preço e a vescassez de alguns alimentos. Para Portugal, esta espécie de tempestade perfeita está a ter já algum reflexo nos índices de pobreza?

Necessariamente já teve e vai ter mais. Já vinha da pandemia em que houve um aumento substancial e já estávamos com 23% da população pobre. Ou, melhor, em risco de pobreza, sabendo que este número corresponde ao número após a transferência das prestações sociais. Sem as prestações sociais íamos para 43%. Quer dizer que a realidade nacional é bastante mais sombria do que aquela que normalmente corre. A gente tem de perceber que a realidade social portuguesa não tem qualidade de vida. Vive na subsidiodependência, por mais que se queira encobrir. Mas é uma forma de manter a pobreza em Portugal e não de tirar os portugueses das suas incapacidades, relacionadas com a qualidade ou com as oportunidades de acesso à vida, aos instrumentos de desenvolvimento e à inclusão das pessoas.

Nessa perspetiva, a aposta no aumento do salário mínimo pode ajudar a ser solução ou é também necessário apostar, como muitos defendem, num aumento do salário médio?

A solução não está em atirar dinheiro para os problemas. Essa é uma situação política tradicional e assistencialista que não tem resolvido nem vai resolver. Porque é preciso trabalhar com as pessoas para que elas saiam pela sua capacidade e pelo seu desenvolvimento integral da situação em que vivem. Eu penso que é necessário - e se calhar nós os cristãos - temos de o afirmar muito claramente que a pobreza não é só comer e dormir. Nós somos um todo antropológico, uma unidade antropológica. Nós somos um espírito e a pobreza passa pelo desenvolvimento integral de todas estas capacidades emoções, inteligência, vontade, afeto, família, comunhão, sem as quais nós não somos pessoas. E portanto, reduzir a luta contra a pobreza apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro não chega. É reduzir a pessoa à baixa condição de animal, ou pouco menos

Tem falado, nomeadamente na questão da educação, que é fundamental?

Mas temos de dizer que educação não é igual a informação. A educação, no meu entender, é desenvolver todas as potencialidades humanas, de modo que a pessoa seja desenvolvida na sua integralidade. E, por isso, nós, os cristãos, temos o dever de insistir que a luta contra a pobreza é pela dignidade da pessoa toda.

"Em Portugal, ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza"

Nesse contexto, pergunto-lhe, em relação à estratégia de combate à pobreza, que ajudou também a definir e que já foi publicada há cerca de meio ano, o que é que esses alertas podem ajudar para ser colocada em prática uma estratégia que funcione?

O que eu penso é que está neste momento em cima da mesa, se não estará na gaveta, mas tenho medo porque ela é uma rutura. Ela pressupõe para ser aplicada uma certa rutura de mentalidades e de políticas e de políticas sociais do Estado. Porque nós sabemos que as políticas sociais, desde o 25 de Abril, têm mantido a pobreza neste nível de 20%, 18% 22%., e não sai daqui. Quer dizer que em Portugal ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza. Quer dizer que o dinheiro que se gasta aos milhões e milhões não tem um resultado prático na libertação de ninguém da pobreza a curto prazo. E, portanto, só uma mudança estratégica supõe uma mudança ideológica, e uma mudança política e de conceitos e de valores e é uma mudança estrutural. E não sei neste conjunto (cenário) que não favorece com mais este problema da guerra, o problema da inflação, o problema do aumento das fontes energéticas, isto vai atrapalhar mais a vida do governo, para poder governar isso tudo não é. Se calhar a manta é pequena para cobrir todas as necessidades. E eu tenho insistido, e estamos a insistir. O Presidente da República há dias dizia que é preciso decidir já. "É preciso decidir já". E eu não sei se teve alguém que ouvisse.

Isso foi uma forma de pressionar o Governo?

Exatamente. Foi assim que eu o entendi. O Governo estava presente, pois esteve presente no nosso congresso o primeiro-ministro, esteve presente a ministra do Trabalho, esteve presente o presidente da Assembleia da República e o ministro da Administração Interna também esteve. Há aqui uma série de circunstâncias que favorecem esta integração e esta aplicação da estratégia. Foi-nos comunicada a estrutura da equipa que vai implementar a estratégia. Agora, está no papel é preciso que passe à prática...

Está pessimista?

Eu não estou pessimista. Eu acho que as situações se complicaram e neste momento é preciso também dar força ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente, antes que passe a hora de as aplicar.

Mas sente que da parte do Governo existe vontade política para avançar?

Pelo menos nos discursos, sim. Agora, as circunstâncias estão a alterar-se um bocado e podem criar problemas. Esta mudança exige clarividência e exige vontade política, e exige uma mudança estratégica que é também estrutural na vida e na governação do país.

Mas é necessário, de facto, alterar alguma coisa, até porque, de acordo com aquilo que vem dizendo ao longo da nossa conversa, é que todas as intervenções ou todas as estratégias de combate à pobreza, na realidade foram um fracasso.

Elas não têm sido um sucesso, não. Não têm sido sucesso porque nem o número altera nem a família sai da pobreza. É uma questão de inteligência e até uma questão prática de evitar, porque são milhões que se gastam por ano, desde o rendimento mínimo de inserção a todos os subsídios. Já é um caudal razoável de dinheiro e, para quem está a ver desse lado, é um dinheiro que não vai ter fruto, não vai ter resultado, vai alimentar a situação, mas não a transforma.

As pessoas que nascem hoje com rendimento mínimo já pensam que isto é um modo de vida nacional? Por quê? Porque não se investe na transformação da situação das pessoas em pobreza.

É preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indivíduo - o avô, a criança… a verdade é que ninguém existe fora de uma família, boa ou má. Para nós, a intervenção da pobreza tem de ser diretamente dirigida à família, no seu todo, ao seu agregado.

Desde a habitação à saúde, a educação ou a cultura. Tudo isso é necessário para que a pessoa saia da pobreza.

Temos um provérbio, que diz “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. É preciso uma aldeia e mais alguém para tirar uma família da pobreza. O problema é igual: a sua educação e a sua inserção.

"É preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indivíduo (…) ninguém existe fora de uma família, boa ou má. A intervenção na pobreza tem de ser diretamente dirigida à família."

No último dos quatro seminários do Congresso "Diálogos sobre a Pobreza", que a EAPN promoveu, disse que Portugal tem uma rara oportunidade - e penso que estava a referir se também à chamada "bazuca" - de aliar a recuperação económica ao combate à pobreza. É efetivamente o momento de criar uma sociedade mais inclusiva e mais justa?

Estamos convencidos que pode ser e deveria ser. A abundância deste dinheiro todo - não só da "bazuca", mas também dos fundos comunitários - deveria ser canalizada para a mudança da sociedade e das causas que geram este problema que já é endémico em Portugal.

Há um programa que está em curso, de construção de casas para 60 mil famílias. Dizem que já não chega, mas é por aí. Outra questão é apostar no ser humano desde o seu primeiro momento - já vamos na creche e jardim de infância gratuitos, porque é fundamental, mas é preciso que haja capacidade de os acolher e que haja vontade de lá pôr as crianças. Acompanhar os pais e as mães.

Sabemos que a pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina. As mães solteiras, que são em grande número, em Portugal, neste momento criam problemas muito singulares e graves de pobreza, por causa da sua condição. Olhar só para as mães solteiras com olhar de piedade, não basta: é preciso um olhar de justiça e de responsabilidade para com quem gera um filho.

Há quem critique o facto de o Governo e o Estado arcarem com a maior parte da fatia da "bazuca". Isto é motivo de preocupação?
Nestas circunstâncias, tem de ser, não há outra forma, até porque nós não temos em Portugal uma tradição de responsabilidade social na solução dos problemas. Somos herdeiros de uma mentalidade de 40 anos de certa ditadura, com toda a centralização do poder. Mas a verdade é que ele também continua a ser centralizado e temos um Governo muito centralizador de tudo, em Lisboa.

A transferência de competências está agora em cima da mesa, por causa da luta pela questão das verbas, mas eu penso que, mais do que verbas, não está a ser refletida toda a competência que é preciso ter em conta numa transferência de responsabilidade, nas pessoas. A transferência das competências tem, ou deve ter, como objetivo melhorar a possibilidade de acesso aos serviços e a serviços de qualidade.

Estamos a ver neste momento, por exemplo, que na Saúde isso não acontece e só os pobres é que ficam aflitos, os ricos vão para o privado.

Uma das questões que o Papa levantou na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres foi que “a pobreza”. O padre Jardim Moreira também a usou, no colóquio da Gulbenkian. A sociedade ainda não tem consciência dos custos pessoais e coletivos deste problema?

Temos a mesma leitura evangélica, o Espírito Santo é o mesmo. O que é importante dizer é que não é só a economia que mata, mas a pobreza mata, porque as condições de vida são degradantes: a falta de saúde, a falta de higiene, falta de trabalho, a falta de dinheiro, a falta de esperança, de autoestima levam a que a pessoa definhe.

Falava com alguém que um jovem de 58 anos morreu na rua. Por que é que morreu na rua? Abandonou a família, a mulher, deixou de ter cama, deixou de ter comida, alcoolizava-se e em poucos anos morreu. A pobreza leva à morte? Se não tem medicamentos, morre; se não tem o que comer, morre; se não tem higiene, se tem feridas, morre. A morte pode ser mais lenta, mas morre de qualquer forma.

É necessário assumir que somos também coniventes no assassinato, de alguma maneira, daqueles que morrem nesta situação. A sociedade acha que não, porque quer culpabilizar os pobres, diz que são pobres por decisão própria. Terão posteriormente alguma colaboração nessa responsabilidade, mas a verdade é que caíram nesta situação porque são vítimas da injustiça e vítimas de uma situação de desigualdade que os torna assim.

"A pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina (…) Olhar só para as mães solteiras com olhar de piedade, não basta: é preciso um olhar de justiça e de responsabilidade para com quem gera um filho"

A Rede Europeia Anti-Pobreza tem 30 anos de existência num trabalho que é reconhecido como essencial, para destacar o combate à pobreza como uma prioridade O que falta para que este seja o verdadeiro desígnio dos governantes?

Bom, os 30 anos foram necessários para que pudesse ser acreditado em Portugal que há pobres e que a pobreza é uma injustiça, uma forma de corroer a democracia e impedir o desenvolvimento de uma sociedade global. Estes 30 anos foram o momento para podermos atingir as mesas, o Governo, a Assembleia da República, para que este problema fosse aceite como problema nacional. O que falta agora é aceitar que a Rede seja um parceiro de diálogo.

Francisco Assis, presidente do CES, está empenhado em que nós participemos no Conselho Económico e Social, considerando que essa é uma das facetas indispensáveis para conjugar as políticas nacionais. Falamos também com o primeiro-ministro, estão todos de acordo em mudar a lei para que isso possa acontecer.

A Rede, entrando como um verdadeiro parceiro do Governo, poderá então influenciar e apontar os caminhos que são corretos - ou que parecem mais corretos, devem ser sempre avaliados -, de mudanças adequadas para que a luta contra a pobreza seja eficaz.

A breve prazo teremos a Rede Europeia na concertação social?

Penso que sim, está prometido que sim.

Com o Ministério também estamos já como parceiros. O primeiro-ministro aceitou reunir frequentemente connosco, o Presidente procura também ver se conseguimos manter este diálogo de topo, no sentido de pressionar, para que a pessoa humana em Portugal mereça a atenção de todos, que cada um seja motivo suficiente para mudar as políticas.

Passa por aí, então, a criação desse verdadeiro desígnio?

Eu penso que sim, porque de palavras e discursos já chega. Não basta iludir o problema com palmadinhas nas costas, de vez em quando. Esta, para mim, foi a razão do Congresso: manifestarmos cientificamente as nossas opiniões, que não são ideológicas, mas que são científicas, analisadas objetivamente, procurando ver quais são as respostas adequadas, a partir de um diálogo muito franco e muito transparente, com todo o nível de poder.

"Acho que as situações se complicaram e neste momento é preciso também dar força ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente"

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19.4.22

Estado garante mais 60 euros aos beneficiários de apoios sociai

in RTP

O apoio às famílias mais vulneráveis foi criado inicialmente, há cerca de três semanas, mas apenas para quem beneficiava, em março, da tarifa social de energia, tendo o Governo decidido entretanto alargar a medida aos beneficiários de prestações sociais mínimas.

O diploma hoje publicado define que prestações sociais mínimas são abrangidas.

Passam assim a ter direito ao apoio as famílias "que não sejam beneficiárias da TSEE [Tarifa Social de Eletricidade], mas em que pelo menos um dos membros do agregado familiar seja beneficiário de uma das prestações sociais mínimas" previstas no diploma, por referência a março de 2022.

As prestações em causa são o CSI, o RSI, a pensão social de invalidez do regime especial de proteção na invalidez, o complemento da prestação social para a inclusão, a pensão social de velhice e o subsídio social de desemprego.

São ainda contemplados "os agregados familiares em que uma das crianças é titular de abono de família do 1.º ou 2.º escalão e em que o apuramento do rendimento de referência do mesmo agregado corresponde a situações de pobreza extrema segundo os parâmetros definidos nos termos do Inquérito para as Condições de Vida e Rendimento, do Instituto Nacional de Estatística", estabelece o diploma.

O valor do apoio extraordinário é de 60 euros por agregado familiar e é pago uma só vez pela Segurança Social, em abril, para os beneficiários da tarifa social de energia e, em maio, para as restantes situações.

O subsídio de 60 euros para compensar o aumento dos preços dos bens alimentares tinha inicialmente como universo os 762.320 beneficiários da tarifa social de energia, registados em março.

Com o alargamento aos beneficiários das prestações mínimas, o Governo estima agora que o apoio chegue a cerca de 830 mil famílias, ou seja, mais 68 mil face ao definido anteriormente.

A medida tem um custo associado de 55 milhões de euros, segundo a proposta de Orçamento do Estado para 2022.

11.1.22

Mais de 60 mil menores precisam do rendimento social de inserção — alguns desde o dia em que nasceram e pelo menos até serem adultos

in SAPO24

Há mais de 60 mil menores a receber o Rendimento Social de Inserção. Aos 18 anos, há 1% a recebê-lo desde o dia em que nasceu, revela o ‘Jornal de Notícias’. Em outubro, havia mais de 190 mil pessoas a necessitar deste apoio social.

Oficialmente, são 42: cerca de 1% das pessoas com 18 anos que recebem o rendimento social e inserção (RSI) precisam deste apoio desde o dia em que nasceram, revela a edição de hoje do ‘Jornal de Notícias’. Porém, o número de portugueses que já nasceram pobres e chegam à idade adulta em situações de vulnerabilidade económica e social pode ser maior, alertam especialistas ouvidos pelo jornal.

O sociólogo Luís Capucha aponta mesmo para que sejam “mais de metade do total de pobres no país”, dado o “histórico de reprodução de condições que geram pobreza. A presença de pessoas que já nasceram pobres é muito grande.” Já o padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza em Portugal (EAPN), deixa críticas às "políticas públicas que tem perpetuado a pobreza".

Os dados enviados pela Segurança Social ao diário somam 61 520 beneficiários de RSI com idade inferior a 18 anos em outubro de 2021. O valor do apoio é definido consoante a composição e os rendimentos do agregado. No mesmo período e na totalidade, havia 190 352 pessoas a precisar desta prestação social.

"À medida que mais pessoas saem da pobreza, mais tendem a ficar prisioneiros aqueles que nascem em condições muito desfavorecidas", diz Luís Capucha, que aponta para os baixos rendimentos do trabalho e das prestações sociais como algumas das causas. Depois,” os défices fortíssimos de qualificação" são, também, transmitidos de geração em geração, por "mecanismos de exclusão social e escolar".

Jardim Moreira encontra igualmente "causas estruturais e pluridimensionais" na pobreza, como a habitação ou a educação: "Se uma criança desde que nasce não é alimentada suficientemente, quando chegar o tempo da escola, por mais que ela lá esteja, não vai dar o rendimento total. Não terá o desenvolvimento intelectual para assimilar", explica.

Com a pandemia, problemas laborais dos mais novos tornaram-se ainda mais evidentes, seja a precariedade ou a falta de regularização, o "trabalho informal”: "A precariedade é geral para todos os jovens. Mas aqueles que têm percursos complicados de exclusão, condições familiares muito precárias, nem sempre valorizados emocionalmente, esses são ainda mais penalizados", explica Capucha.

Quer o sociólogo, quer o padre Jardim Moreira defendem que o RSI é importante, no entanto, admitem que está cada vez mais "reduzido a uma prestação". Pedem, por isso, um "processo de desenvolvimento integral" de cada beneficiário e a valorização a "componente da inserção".

27.12.21

Novo pacto prevê reforço de verbas para apoio social

Zulay Costa, in JN

Último acordo com setor remonta há 25 anos. PRR tem 420 milhões para equipamentos e respostas.

O primeiro-ministro António Costa preside, esta quinta-feira, à assinatura de um novo Pacto de Cooperação para a Solidariedade Social, que prevê um incremento no apoio às instituições que amparam idosos, crianças e portadores de deficiência. O acordo anterior datava de 1996. Muitas das instituições já enfrentavam dificuldades e viram a situação agravar-se com a pandemia.

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, considera que "esta renovação do contrato social é histórica". Estava a ser negociada "há um ano" e será fundamental para responder a "novos desafios", nomeadamente demográficos, de apoio às famílias pelo alargamento da rede de creches, novas respostas para promover o envelhecimento ativo e promoção da autonomia, respostas personalizadas e novas respostas como co-living e aldeias de espaços partilhados para idosos, uso de novas tecnologias, mais qualificação dos trabalhadores do setor.

Entre outras coisas, o pacto prevê um reforço da comparticipação de respostas "onde há algum desequilíbrio e onde há uma comparticipação do Estado inferior a 50%, que são essencialmente as respostas para o envelhecimento", adiantou a ministra. No documento não estão definidos valores, mas prevê-se que o reforço seja feito de "forma progressiva e anual para garantir uma partilha equitativa".

420 milhões no PRR

Está também previsto um investimento para alargamento e novas respostas sociais, que será feito através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). No PRR, sublinhou Ana Mendes Godinho, "temos cerca de 420 milhões de euros dedicados a equipamentos e respostas sociais".

Muitas instituições de solidariedade social enfrentam dificuldades financeiras. Para fazer face ao problema, "durante a pandemia foram criadas medidas para as IPSS suportarem custos extraordinários que, neste momento, já ultrapassam 950 milhões", lembrou a ministra.

Esta quinta-feira, dando seguimento aos apoios, será assinada, também, uma adenda que visa um "reforço adicional mensal, a partir de janeiro, às IPSS, para apoiar o aumento do salário mínimo e a valorização dos salários dos trabalhadores". "É um aumento de 3,3 milhões de euros mensais, a partir de janeiro, para ajudar do ponto de vista da tesouraria", especificou.

19.4.21

"É preciso uma política estruturada que retire da pobreza aqueles que estão cronicamente nela"

in SicNotícias

Ana Gomes fala sobre a pobreza em Portugal e os apoios sociais.

Ana Gomes disse este domingo, no habitual espaço de comentário na SIC Notícias, que os socialistas não se podem focar no défice orçamental e que devem apostar numa proposta de apoios sociais para que se consiga combater a pobreza em Portugal.

"Estamos a ser muito tímidos neste contexto de pandemia. Agora, mais do que nunca, é preciso uma política estruturada com visão de apoios sociais de longo prazo que efetivamente retire da pobreza aqueles que estão cronicamente nela e que combata as desigualdades", afirmou.

Ferreira Leite defende que apoios sociais “perpetuam” a pobreza e “arrastam as gerações seguintes” (com áudio)

Joana Almeida e Nuno Braga (versão áudio), in Economico 

No seu espaço habitual de comentário na TVI24, Manuela Ferreira Leite considerou “muito fácil e popular” tentar resolver a pobreza através de mais apoios sociais, mas que isso só serve para “distrair” e “arrastar” o problema às gerações seguintes.

A social-democrata e ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite defendeu esta quinta-feira que os apoios sociais “perpetuam” a pobreza. No seu espaço habitual de comentário na TVI24, Manuela Ferreira Leite considerou “muito fácil e popular” tentar resolver a pobreza através de mais apoios sociais, mas que isso só serve para “distrair” e “arrastar” o problema às gerações seguintes.

“É muito fácil e muito popular tentarmos resolver os problemas através do pedido de apoios sociais, porque ninguém é indiferente à ideia de que há pobreza e de que deve haver apoios sociais. Isto é fácil de dizer, é fácil de pedir, é fácil de fazer política na base dos apoios sociais, só que é algo que não resolve o problema, pelo contrário, perpetua-o, porque arrasta as gerações seguintes na mesma base”, afirmou.

Para a social-democrata, é preciso fazer uma distinção “entre o que é pobreza conjuntural e pobreza estrutural”. No caso da pobreza conjuntural, que “sucede por ter havido uma pandemia, um incêndio, situações em que, extemporaneamente, acontece algo nas famílias”, Manuel Ferreira Leite considera que “é evidente que se recorre e deve recorrer, tanto quanto possível, a apoios sociais a essas pessoas”.

Mas “não deve esta preocupação da pobreza conjuntural fazer esquecer uma realidade diversa, que é a pobreza estrutural, que conduz a que a pobreza se transfira por gerações”, defendeu. “É uma realidade que retira perspetivas de vida, elimina o chamado elevador social e leva a que as pessoas emigrem e vão procurar outros locais onde seja possível alterar esse seu estatuto de origem”, sustentou a ex-líder do PSD.

E acrescentou: “Não nos podemos distrair à conta dos apoios sociais de que estamos a ajudar a resolver o problema da pobreza, porque a pobreza estrutural pode ser agravada pelo facto de ser, de alguma forma, paralisada com apoios sociais e depois esquece-se que isso não tem futuro”.

Manuela Ferreira Leite considera que “a educação é o grande impulsionador do elevador social” e do combate à pobreza. “Temos de ter um sistema educativo forte que consiga ultrapassar as debilidades de algumas classes sociais”, disse, acrescentando que é preciso também “uma estrutura económica e empresarial que seja capaz de suportar salários mínimos, que sejam compatíveis com uma situação que não seja a de pobreza”.

Poucas horas antes das declarações da ex-ministra das Finanças, o pedido de fiscalização do Governo aos apoios sociais deu entrada no Tribunal Constitucional. Em causa está a contestação do Executivo socialista a três diplomas aprovados no Parlamento e promulgados pelo Presidente da República que, segundo o Governo, violam a lei-travão, que impede que os deputados aumentem a despesa ou diminuam a receita fora do Orçamento do Estado.

16.4.21

"APOIOS SOCIAIS PERPETUAM POBREZA E ARRASTAM AS GERAÇÕES SEGUINTES"

in TVI

Comentário de Manuela Ferreira Leite centrou-se na realidade da pobreza em Portugal e nas dificuldades em implementar uma estratégia que combata todas as dimensões do problema no país

No seu habitual espaço de comentário, Manuela Ferreira Leite traçou um perfil da pobreza em Portugal e explicou que as dimensões estruturais e conjunturais do problema devem ser combatidos de forma diferente. A comentadora sublinhou ainda que os apoios sociais são fáceis de se implementar politicamente, mas não resolvem os travões sociais.

Ferreira Leite afirma que a pobreza conjuntural - aquela originada por fenómenos específicos, como uma pandemia - não deve fazer-nos esquecer da realidade diversa “que é a pobreza estrutural”.


Esta última, argumenta a comentadora, “conduz a que a pobreza se transfira entre gerações”. “É uma Realidade que retira perspectivas de vida, elimina o elevador social e leva a que as pessoas emigrem”, sustenta.

Este tipo de pobreza medular não pode ser resolvido com a atribuição de apoios sociais. Até porque estes últimos podem mesmo agravar e paralisar a vida de muitos daqueles considerados pobres.

É muito fácil e popular afirmar que se combate a pobreza com apoios sociais, mas isso perpetua o problema e arrasta as gerações seguintes para a mesma realidade”, destaca a comentadora.

A única forma de travar a dimensão estrutural da pobreza é com um sistema educativo suficientemente forte para ultrapassar as debilidades de algumas classes sociais e apostar no crescimento económico para que existam melhorias salariais, defende Manuela Ferreira Leite.

Questionada sobre o impacto que os fundos europeus para a formação podem ter, nomeadamente no desemprego, Ferreira Leite explica que “nenhum país fica imune à ideia de os aplicar”.

Porém, afirma, “muitas vezes estas formações não são correspondentes às necessidades laborais do país”.

Na mesma linha, a comentadora diz que é perceptível, especialmente ao analisar o ramo turístico, que “grande parte do nosso emprego é muito pouco qualificado”.

25.3.21

Autarquias vão poder pagar subsídios diretamente a famílias em situação de pobreza

in o Observador

A atribuição desta possibilidade às autarquias surge como uma resposta de proximidade. Para que haja inclusão social deve haver uma intervenção das entidades mais próximas.

As autarquias vão poder pagar diretamente subsídios a famílias em situações de pobreza no âmbito do processo de descentralização de competências para a administração local em matéria de ação social, segundo uma portaria esta quarta-feira publicada.

A portaria publicada em Diário da República vem regulamentar “os termos de operacionalização da transferência de competências, em matéria de serviço de atendimento e de acompanhamento social (SAAS) de pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade e exclusão social, para as câmaras municipais”, de acordo com o preâmbulo do diploma assinado pelos ministros das Finanças, João Leão, Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho.

A atribuição desta competência insere-se, segundo o diploma, numa lógica de resposta de proximidade, referindo que para atingir uma melhoria das condições de vida e inclusão social “é necessária, a maioria das vezes, uma intervenção prioritária das entidades mais próximas das pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade e exclusão social, a atuação desenvolvida pelo SAAS torna-se mais eficaz e eficiente numa lógica de subsidiariedade”.

De acordo com o diploma, é competência das autarquias assegurar o desenvolvimento do SAAS, elaborar os relatórios de diagnóstico social e de acompanhamento “e a atribuição de prestações pecuniárias de caráter eventual em situação de emergência social, comprovada carência económica e de risco social“.

A câmara municipal, no exercício das competências previstas nos números anteriores, pode contratualizar, através da celebração de acordo específico, com instituições particulares de solidariedade social (IPSS) ou equiparadas”, determina a portaria.

Sempre que o SAAS funcione em IPSS ou instituições equiparadas por acordo ou protocolo com os serviços da Segurança Social, as verbas comparticipadas pela Segurança Social para o seu financiamento passam a ser transferidas para as autarquias, que procedem, por sua vez, ao pagamento às instituições.

Quando o SAAS está sob a alçada direta do Instituto de Segurança Social (ISS), ou o Estado transfere para a câmara municipal “a dotação correspondente às remunerações e demais encargos salariais anuais com o(s) trabalhador(es)” ou esses trabalhadores são transferidos para as autarquias, desde que com o acordo da autarquia, do ISS e do trabalhador.

As autarquias podem aceitar ou recusar a transferência de competências até 2022. Para um período transitório até à concretização do processo de transferência de competências são criadas comissões de acompanhamento “pelo tempo estritamente necessário à concretização do procedimento de transferência” e com elementos das autarquias e do ISS.

A pobreza cresceu e com ela o universo dos que dependem de apoios do Estado

 in EcoOnline

Pandemia fez aumentar pobreza e, em consequência, os apoios sociais. Agravou-se também a dependência da ajuda alimentar do Governo.

Passado um ano do início da pandemia, o crescimento da pobreza em Portugal vai-se tornando visível no aumento de apoios sociais como as prestações pagas para atenuar a pobreza e na dependência da ajuda alimentar do Governo.

O total de prestações de Rendimento Social de Inserção (RSI) pagas em março de 2020, quando teve início a pandemia de covid-19 em Portugal, era de 199.918, mas em menos de um ano cresceu para as 212.045 prestações, segundo os dados mais atualizados do Instituto de Segurança Social (ISS).

O maior crescimento no total de beneficiários deu-se entre maio e junho do ano passado, com quase quatro mil novas prestações a somarem-se ao total em apenas um mês. O mês de agosto registou uma descida, logo invertida no mês seguinte.

De acordo com o ISS, em janeiro deste ano a prestação média por beneficiário foi de 119,19 euros e de 262,05 euros por família, valores acima do mês anterior e também em comparação com o mês homólogo, mas inferiores ao valor definido para o limiar de pobreza, que se fixa em 2021 nos 540 euros. O RSI foi criado para apoiar pessoas em situação de pobreza extrema, com o objetivo de garantir rendimentos para assegurar necessidades mínimas.

Também a crescer está o número de beneficiários da Prestação Social para a Inclusão (PSI), um apoio para pessoas com deficiência com uma incapacidade igual ou superior a 60%, a qual tem associada um complemento que visa combater a pobreza das pessoas nesta situação. Os 108.933 beneficiários em março de 2020 passaram a 111.522 em janeiro deste ano.

O Complemento Solidário para Idosos (CSI) regista um decréscimo no número de beneficiários, com 160.616 mil beneficiários em janeiro, cerca de menos quatro mil face a março de 2020. No entanto, dados relativos aos primeiros meses da pandemia mostram que o número de pedidos cresceu nesse período, com mais 10.292 idosos a requerê-lo entre março e setembro de 2020.

Significa isto que, em média, a Segurança Social recebeu todos os meses 1.470 pedidos de idosos para receber o CSI, ou seja, 49 pedidos a cada dia. Mais de metade (58,1%) dos pedidos foram feitos por mulheres idosas, com idades entre os 65 e os 74 anos (36,36%). Esta faixa etária é a que está mais representada, com um peso de mais de 61%.

No que diz respeito à ajuda alimentar, a pandemia obrigou a um reforço do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas, um programa de emergência alimentar, que distribui cabazes alimentares a pessoas em situação de vulnerabilidade económica. O Governo está a avaliar a possibilidade de transformar este apoio na distribuição de cartões recarregáveis para utilizar nos supermercados, para reduzir o estigma sobre as pessoas que necessitam desta ajuda.

Devido à pandemia, o programa foi reforçado, duplicando a sua abrangência de 60 mil pessoas para 120 mil pessoas. Em dezembro, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, anunciou ainda um reforço das cantinas sociais, mas sem concretizar, referindo, no entanto, uma atenção especial à região do Algarve, uma onde este apoio se tornou mais necessário, por ter sido particularmente afetada pelo encerramento do setor hoteleiro e restauração pela ausência de turismo.

Despesa com apoios às empresas e famílias totaliza cerca de mil milhões de euros em janeiro e fevereiro

in RTP

Em janeiro e fevereiro, a despesa total com medidas de apoio às empresas e às famílias ascendeu a cerca de 1091 milhões de euros. Um valor que equivale a um terço da despesa total feita em 2020 com apoios no âmbito do apoio à crise provocada pela pandemia.

Destes 1091 milhões de euros, 663 milhões são para o apoio às empresas e ao emprego. Este valor engloba 135 milhões de euros para o layoff simplificado e 116 milhões de euros para o apoio extraordinário à retoma progressiva de atividade.

Na despesa, 194 milhões de euros são para o apoio ao rendimento às famílias, 175 milhões de euros para a Saúde e 60 milhões de euros para a rubrica “outros apoios”.

Em antecipação à síntese de execução orçamental, que será publicada esta quinta-feira, o Ministério das Finanças revela ainda que, do lado da receita, as medidas de apoio equivaleram a 438,4 milhões de euros.

Neste ponto englobam-se as medidas de prorrogação de pagamento de impostos, suspensão de execuções fiscais e isenção da TSU – medidas que também apoiam a tesouraria das empresas e ajudam ao rendimento das famílias.


4.3.21

Risco de pobreza atinge 17,2% dos portugueses, mas disparava sem apoios sociais

Por MultiNews Com Lusa 

Os dados constam do relatório “Portugal, Balanço Social 2020 — Um retrato do país e dos efeitos da pandemia”, da faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, a NOVA SBE.

O relatório foi produzido pela economista e professora da instituição, Susana Peralta, em coautoria com Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves, e é hoje apresentado publicamente.

Numa primeira parte faz um retrato estatístico da situação socioeconómica das famílias centrado no período entre 2016 e 2019, mas focando-se sobretudo nos anos de 2018 e 2019.

O retrato estatístico tem por base os dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, aplicado em Portugal, anualmente, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mas usado pelo Eurostat para fins de comparabilidade europeia de indicadores de coesão social.

Ressalvando a interrupção provocada pelo período de assistência externa a Portugal, o relatório aponta a tendência de queda da taxa de risco de pobreza no país ao longo da última década, mas a percentagem era ainda de 17,2% em 2019, acima da média da União Europeia a 27, mas seria muito superior sem apoios do Estado.

“As transferências sociais são importantes instrumentos para reduzir a pobreza. Em 2019, a proporção de pessoas em situação de pobreza, antes de transferências sociais, era de 43,4%”, aponta-se no relatório.

Em declarações à Lusa, Susana Peralta sublinhou a ligação da pobreza aos salários baixos, o que é a realidade em Portugal, assim como a relação com o mercado de trabalho.

De acordo com o relatório “os desempregados são o grupo com maior taxa de pobreza em 2019 (42%)” e “trabalhar a tempo inteiro também não é garantia de sair da situação de pobreza — 46% da população pobre vive em agregados onde os adultos trabalham mais de 85% do tempo, ou seja, praticamente a tempo inteiro”, acrescentando que além dos desempregados, a pobreza é também mais prevalente entre as famílias monoparentais e os indivíduos com níveis de escolaridade mais baixos”.

“Portugal sendo um país de salários baixos e com um nível de precariedade do mercado de trabalho dos mais elevados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) faz com que as pessoas tenham relações com o mercado de trabalho que não a protegem da pobreza”, disse Susana Peralta.

A economista apontou o exemplo dos trabalhadores independentes, os chamados ‘recibos verdes’, e dos trabalhadores a tempo parcial como parte importante nos números da pobreza entre quem trabalha, auferindo rendimentos inferiores ao Salário Mínimo Nacional, um referencial de rendimentos acima do limiar da pobreza.

É preciso ainda ter em conta o peso de dependentes sem rendimentos no agregado familiar, como as crianças, e de desempregados, o que se reflete noutro indicador, o da intensidade laboral, que avalia o tempo de trabalho a tempo inteiro dos adultos num agregado familiar.

O relatório refere que “a proporção de agregados onde os adultos entre 18 e 59 anos trabalham menos de 20% do tempo, isto é, a percentagem de pessoas com muito baixa intensidade laboral aumentou entre 2008 e 2014. Neste ano atingiu um máximo de cerca de 12%, tendo regressado aos níveis pré-crise em 2019, quando se cifrou em cerca de 6%”.

O relatório retrata ainda a evolução da situação de pobreza persistente em Portugal: em 2019 era de 12,5% para a população em geral, de 11% para as crianças, de 8% para os trabalhadores e de mais de 33% para os desempregados.

Entre 2016 e 2019 quase 60% dos desempregados estiveram numa situação de pobreza pelo menos durante um ano, uma situação que afetou 36,5% de crianças e 25,1% de trabalhadores. No geral, a taxa fixou-se nos 31,2%.

A taxa de privação material, que mede a capacidade de as pessoas conseguirem fazer face a despesas inesperadas, de pagar uma semana de férias por ano fora de casa, ou conseguir manter a casa aquecida, entre outros indicadores, fixou-se em 2019 nos 15,1%, depois de já ter estado nos 23% na década anterior, em 2008. A taxa de privação material severa caiu, no mesmo período, de 9,7% para 5,6%.

“Entre 2008 e 2019 aumentou o número de pessoas que afirma não ter capacidade de assegurar o pagamento imediato de uma despesa sem recorrer a um empréstimo. Para a população em risco de pobreza este valor subiu de 47% para 64%”, adianta o relatório.

Aumentou ainda o hiato da pobreza, ou seja, a distância entre os rendimentos de um agregado familiar e o valor do limiar da pobreza, passando de 2,1% em 2008 para 2,3% em 2019. No ano passado o limiar de pobreza era de 6.014 euros anuais, mais 1.045 euros do que em 2008.

A pobreza tem reflexos no acesso e qualidade da saúde, com quase 25% das pessoas em situação de pobreza a avaliarem como má a sua saúde e a reportarem maiores dificuldades de acesso a cuidados de medicina dentária, não disponível no Serviço Nacional de Saúde.

As carências habitacionais entre a população pobre eram em 2019 de 26%, o dobro face à população geral. São também os mais pobres os que mais vivem em alojamentos sobrelotados (18%) e os que mais consideram excessivos os custos com a habitação: “38% dos agregados pobres em Portugal têm encargos com a habitação que excedem 40% do rendimento do agregado (face a 16% da população total)”.

O relatório aponta ainda que a pobreza cria desigualdades na participação cívica e democrática, o que “pode reduzir a representatividade dos interesses dos cidadãos nas escolhas políticas” acrescentando que “a proporção de pessoas mais pobres que não manifesta, ou manifesta pouco, interesse por política é de 60%, o dobro da proporção entre os mais ricos”.

13.1.21

Câmara de Coimbra apoia instituições de solidariedade social com mais de 220 mil euros

por Notícias de Coimbra

O presidente da Câmara Municipal (CM) de Coimbra, Manuel Machado, formalizou, esta tarde, contratos-programa de desenvolvimento social com 12 Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do concelho, no âmbito do Regulamento Municipal para Atribuição de Apoios na Área Social (RMAAAS), que representam um apoio global superior a 200 mil euros. A estes, somam-se outros três, que já foram celebrados com a Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel (ACERSI), Banco Alimentar Contra a Fome de Coimbra e delegação de Coimbra do CASA, num valor superior a 26 mil euros, para possibilitar que as instituições continuem a prestar apoio alimentar às famílias em situação de vulnerabilidade socioeconómica do concelho, uma situação agravada pela pandemia da COVID-19. O vereador da área social, Jorge Alves, esteve presente na cerimónia.

A CM Coimbra continua a reforçar o apoio às instituições de solidariedade social do concelho, responsáveis pelo auxílio a pessoas e famílias em maior vulnerabilidade socioeconómica, que se encontram numa situação agravada pela pandemia da COVID-19. A autarquia já apoiou, a contar com os contratos-programa assinados hoje, 15 instituições espalhadas um pouco por todo o concelho, com um montante global que ascende a 226 mil euros.

As IPSS que hoje assinaram contrato foram: a Associação Nacional de Apoio a Jovens – AnaJovem (14.190,71€), a Associação Recreativa, Cultural e Social de Cioga do Monte (12.370,90€); a Casa dos Pobres de Coimbra (11.577,51€); Centro de Apoio Social de Souselas (21.059,37€); o Centro Social de S. João (42.137,22€); o Centro Paroquial de Solidariedade Social de Ribeira de Frades (8599,50€); o Centro Social e Paroquial de S. João do Campo (10.679,71€); o Centro Social e Recreativo da Cidreira (15.087,50€); a Comunidade Juvenil Francisco de Assis (14.126,53€); a Fundação ADFP (37.342,96€); a Fundação Madre Sacramento (9.607,19€); e a Plataforma PAJE – Apoio a Jovens (ex)Acolhidos (2640€). No total, os apoios da autarquia são de 199.419,10€.

A AnaJovem solicitou um apoio financeiro para o desenvolvimento do projeto “PIDAI – Programa de Intervenção nas Dependências para Adultos Idosos”, que tem como objetivo a aplicação de um programa de intervenção psicossocial, ao domicílio, direcionado para a psicoeducação, treino cognitivo e dificuldades emocionais apresentadas por idosos que tenham familiares diretos de consumidores de substâncias. O projeto, que será apoiado com 14.190,71€, tem na sua base uma intervenção no domicílio da população-alvo e contempla as freguesias limítrofes da cidade de Coimbra, abrangendo populações que habitam em zonas rurais e com maior propensão para o isolamento.

Já a Associação Recreativa, Cultural e Social de Cioga do Monte vai receber 12.370,90€, que se destinam a comparticipar a implementação do projeto “Atalhos – Envelhecimento Ativo e Socialmente Inclusivo. Este projeto tem como objetivo criar e promover a aprendizagem ao longo da vida. Terá como destinatários um total de 55 pessoas, para além dos 20 idosos residentes na estrutura residencial desta instituição.

O apoio financeiro concedido à Casa dos Pobres de Coimbra destina-se à aquisição de equipamento para organização do espaço e funcionamento da sua Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI). A instituição, que conta com uma ERPI com capacidade para 63 pessoas, pretende agora adquirir equipamento para a “operacionalização de medidas de higiene, organização do espaço e funcionamento” da infraestrutura, de forma a promover um ambiente seguro para os idosos, colaboradores e comunidade. Este investimento, tendo em conta o momento que atravessamos de curso da pandemia COVID-19, contribuirá para a não propagação do vírus. O apoio municipal é de 11.577,51€.

Por sua vez, o Centro de Apoio Social de Souselas vai receber 21.059,37€ para a implementação do projeto “Viver em autonomia”. Este apoio irá permitir que 60 pessoas idosas, beneficiárias de serviço de apoio domiciliário, especialmente na União das Freguesias de Souselas e Botão, tenham acesso a atividades que promovem um envelhecimento ativo, saudável e feliz.

A autarquia irá, ainda, comparticipar, com 42.137,22€, a 2ª fase das obras de edificação da ERPI do Centro Social de S. João, o que possibilitará a criação de mais 14 vagas, para além das 27 vagas criadas na 1ª fase de edificação desta infraestrutura. No total, a ERPI disponibilizará 41 vagas nesta resposta social. Refira-se que a autarquia apoiou, também, a 1ª fase de edificação da ERPI, com mais de 90.000€, e que o Centro Social de S. João, pela variedade de respostas sociais que disponibiliza, tornou-se numa instituição de referência, procurada cada vez mais pela população residente e não residente na União das Freguesias de S. Martinho do Bispo e Ribeira de Frades.

O Centro Paroquial de Solidariedade Social de Ribeira de Frades vai receber 8.599,50€, que se destinam a comparticipar a aquisição de uma plataforma elevatória para o edifício onde funcionam as respostas sociais de centro de dia e serviço de apoio ao domicílio. Esta foi a melhor solução encontrada para permitir uma acessibilidade perfeita aos idosos.

Já o Centro Social e Paroquial de S. João do Campo pretende implementar o projeto “Nós e a Terra”, que procura fomentar a interação com a natureza, a agricultura, a alimentação saudável junto das comunidades locais. O projeto será desenvolvido em vários locais da freguesia de São João do Campo e destina-se, essencialmente, a crianças e idosos. Desta forma, o projeto permite que as crianças brinquem ao ar livre e contactem com a natureza e ajuda a combater o isolamento social e a solidão entre a população idosa, promovendo a sua inclusão social e qualidade de vida. O apoio financeiro é de 10.679,71€.

O Centro Social e Recreativo da Cidreira vai receber 15.087,50€, para implementar o projeto “Cidreira com Vida e Arte”. Um projeto que tem como objetivo promover o envelhecimento ativo. O projeto “Cidreira com Vida e Arte” vai disponibilizar as seguintes atividades: ateliers de artes e ofícios, atividades físicas e passeios por locais de interesse. A iniciativa irá beneficiar diretamente a população que frequenta o Centro Cívico da Freguesia, num total de 47 pessoas (35 crianças e jovens e 12 idosos), bem como todos os idosos que demonstrem interesse em participar nas atividades.


Já a Comunidade Juvenil Francisco de Assis pretende implementar o projeto “Laços de Família”, que tem como objetivo aproximar e fortalecer os laços de família e proporcionar o desenvolvimento do bem-estar físico, social e emocional dos elementos da família. O projeto vai ser implementado através de contactos por telecomunicações, atendimentos presenciais com as famílias, visitas domiciliárias e em articulação com os recursos da comunidade. Uma iniciativa que permitirá aumentar e melhorar a intervenção junto das famílias em situação de vulnerabilidade social, detetando precocemente problemas como o absentismo escolar, entre outros. O apoio é de 14.126,53€.

A Fundação ADFP vai receber 37.342,96€, destinados a comparticipar a atividade desenvolvida no Projeto “Sem-Abrigo Zero”, que se constitui como um centro de acolhimento de emergência para pessoas em situação de sem-abrigo em Coimbra. Este apoio irá permitir o acolhimento até 35 pessoas em situação de sem-abrigo.

A Fundação Madre Sacramento vai receber 9607,19€, para apoiar a atividade desenvolvida pela instituição no apoio a vítimas de violência e exclusão social. Este apoio irá permitir a continuidade de duas respostas de apoio. Por um lado, uma resposta direcionada para a inclusão socio-laboral, sendo uma resposta inovadora e eficaz à problemática do desemprego e de exclusão social em grupos vulneráveis. Por outro lado, vai permitir uma resposta que tem como objetivos a promoção da redução de riscos de exclusão social; bem como de competências pessoais e sociais das pessoas em situação de vulnerabilidade social, nomeadamente as vítimas de violência e exclusão social.

Por fim, a Plataforma PAJE, que tem como missão amparar e encaminhar jovens adultos ex-acolhidos no sentido da sua plena autonomização, trabalhar essa autonomização dos jovens que ainda se encontram em acolhimento, formar cuidadores e promover a investigação científica nesta área do acolhimento residencial, vai receber 2.640€ para continuar a desenvolver a sua atividade junto da população-alvo, na sua maioria vítimas precoces de maus tratos familiares ou negligência social.

Recorde-se, ainda, que a CM Coimbra já formalizou três contratos-programa de desenvolvimento social, ao abrigo do RMAAAS, com a ACERSI (10.616,19€), Banco Alimentar Contra a Fome de Coimbra (7.600€) e delegação de Coimbra do CASA (8.500€), num total de 26.716,19€. Um apoio financeiro que possibilita que estas instituições continuem a prestar apoio alimentar às famílias em situação de maior vulnerabilidade socioeconómica do concelho, uma situação agravada pela pandemia da COVID-19, assegurando-lhes a entrega de bens alimentares e o fornecimento de refeições. Saliente-se que esse apoio alimentar imediato às famílias mais carenciadas é atualmente uma das respostas prioritárias da CM Coimbra.

12.8.20

Apoios sociais estão em vigor mas Governo ainda não começou a pagar

in, Expresso 

Jornal de Negócios enumera várias medidas aprovadas para fazer face à crise que ainda estão à espera de operacionalização. Ministério prevê avançar "nas próximas semanas”

A crise provocada pela pandemia levou à criação de uma série de novas medidas: a facilitação do acesso ao subsídio de desemprego, alargamento de apoios para sócios-gerentes, garantias de baixa paga a 100% para doentes covid-19 ou, por exemplo, um novo apoio de 439 euros por mês para quem ainda não tem nenhum. Mas, embora estas medidas já estejam oficialmente em vigor, na prática os apoios ainda não estão a ser concedidos, nota o Jornal de Negócios esta quarta-feira.

“Em relação aos apoios que ainda não estão em pagamento, em alguns casos trata-se de medidas que exigem desenvolvimentos informáticos e aplicacionais que estão a ser desenvolvidos”, justificou o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social ao Negócios. Além disso, continua o executivo, dossiês como o apoio para trabalhadores informais, a baixa médica e o apoio a gerentes “carecem ainda de regulamentação com outras áreas governativas”.

O jornal aponta que estes novos direitos têm sido omitidos na página oficial da Segurança Social, cuja linha telefónica tem estado aparentemente ocupada, de tal forma que por vezes a chamada cai antes de ser possível obter qualquer esclarecimento.

O Governo prevê que estes apoios comecem a ser pagos “nas próximas semanas”, mas não avança datas.

22.4.20

Cáritas lança apoios de resposta à pandemia de 130 mil euros

in RR

A Cáritas Portuguesa lança hoje apoios de 130 mil euros, insuficientes à partida, para responder a milhares de pedidos de ajuda vindos também dos "novos pobres" da pandemia, uma classe média que, sem ajuda, se transformará em pobreza estrutural.

As contas do presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, que ainda não tem um balanço estruturado e definitivo dos novos pedidos, apontam para uma média de 150 novas famílias apoiadas em cada Caritas Diocesana, que tem 20 postos de atendimento pelo país, o que, contas feitas, duplica o número de atendimentos e dará cerca de três mil novos pedidos de ajuda provocados pela pandemia.

"Uma gota", garante Eugénio Fonseca. Até dentro do universo Cáritas. De fora destas contas ficam os atendimentos paroquiais, "onde vai muito mais gente" - são 4.350 paróquias e "metade estão a ser procuradas".

Perante isto, o próprio presidente da Cáritas Portuguesa reconhece que o mais certo é não passar de "um sonho" o objetivo de fazer chegar a junho os 130 mil euros em novos apoios, traduzidos em ajuda alimentar e outras necessidades básicas, como água, luz, eletricidade ou gás, e, realidade que já vem da crise anterior, apoio ao pagamento de rendas de casa.

"Estes 130 mil euros são fundos que a Cáritas tinha reservados para situações de emergências e são totalmente aplicados. Estes fundos não resultaram de dádivas recentes. Estou convencido que dada a situação dramática que já se está a sentir que não vamos chegar a junho sem esgotar", disse à Lusa.

Os 130 mil euros dividem-se em 100 mil para apoio alimentar e 30 mil para que as pessoas possam também continuar a assumir compromissos que são imprescindíveis", como as rendas e os serviços de energia e água.

"Estamos convencidos que não vai resolver. Esperamos chegar a perto de duas mil pessoas, mas muitas outras com certeza ficarão de fora. Não conseguimos acudir a tudo, há outras instituições a trabalhar bem e é na cooperação entre todos que se pode atenuar o problema", disse Eugénio Fonseca, que adiantou também que a instituição mantém em funcionamento todas as respostas e apoios que já existiam antes do novo contexto da pandemia.

Os pedidos de ajuda chegam de cinco grupos bem identificados: os mais idosos, as famílias mais vulneráveis, como as monoparentais ou as muito numerosas - com implicações em situações futuras de pobreza infantil - ex-reclusos e suas famílias, sem-abrigo e migrantes.

Em relação aos sem-abrigo, por exemplo, uma das Cáritas Diocesanas está neste momento a apoiar mais 100 pessoas nessa situação, a juntar-se aos que já eram apoiados, sendo necessário encontrar espaços alternativos para alojamento.

A principal causa da procura de ajuda desta crise é a de todas as outras. O desemprego ou a perda de rendimentos provocada por situações como o `lay-off` levam a muitas novas necessidades de assistência.

É aqui que se inserem boa parte dos pedidos de ajuda, os "novos pobres", oriundos de uma classe média-baixa ou média-média, para os quais Eugénio Fonseca diz ser necessária uma "intervenção devidamente planeada" pelo Estado que os retire rapidamente da situação de privação e evite "problemas de saúde mental e situações de desespero, de desânimo e de desistência".

"Quando se desiste, então sim, corre-se o risco de se ficar na pobreza estrutural", disse.

A ajuda vai chegar em forma de `ticket restaurante`, uma modalidade selecionada por concurso público, que não obriga a pagamentos de comissões, e que não identifica a Caritas como a origem do "dinheiro" a usar em supermercados e mercearias, na compra de bens essenciais, que não têm que ser necessariamente alimentares, podendo passar por bens de higiene.

Aceder aos `tickets` seguintes vai obrigar a mostrar a quem está no atendimento social os talões das compras nos supermercados para "provar que não há bens adquiridos que efetivamente não sejam bens de primeira necessidade", o que será "devidamente controlado".

Utilizar um método de pagamento que não identifica a Cáritas e que está bastante generalizado como forma de pagamento de subsídios de refeição pelas empresas evita que a estas pessoas fique associado qualquer tipo de estigma, a que "não sintam vergonha nem se sintam discriminadas na caixa do supermercado", "assegura-lhes dignidade" e autoestima, até porque se deixa nas suas mãos tarefas diárias de compras e planeamento de refeições, que ajudam a manter uma ocupação diária.

Eugénio Fonseca elogia as medidas de proteção tomadas até agora pelo Governo, que se cruzam diretamente com as ajudas prestadas pela Cáritas, no pagamento de serviços e rendas, mas diz que é preciso mais e defende um plano de contingência social nacional, que programe apoios, que defina uma estratégia de reintegração das pessoas no mercado de trabalho e que envolva o Governo e "organizações intermédias da sociedade civil".

Aqui cabem as instituições particulares de solidariedade social (IPSS), mas também coletividades e "organizações informais de proximidade".

"Todos agora somos chamados a dar este contributo, porque, como percebemos com a contingência sanitária, quando nos unimos atingimos resultados mais rápidos. Isto também se passa ao nível da pobreza", disse.

A coordenação do plano devia, segundo o presidente da Cáritas Portuguesa, ficar a cargo da Presidência do Conselho de Ministros, uma vez que há mais dimensões governativas que devem ser incluídas neste plano para lá do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social: a Economia para o relançamento da atividade económica, as Finanças para acautelar questões orçamentais, a Educação e até a Justiça.

"Pode haver situações em que os direitos dos trabalhadores estejam a ser lesados por oportunismos das entidades empregadoras e é preciso acelerar. A nossa justiça nestas coisas não pode ser tão vagarosa como tem sido", defendeu.

Eugénio Fonseca sugere também ao Governo um trabalho próximo com as instituições que lidam diariamente com a realidade da pobreza para a criação de um barómetro social, ainda que reconheça que é uma ideia que "politicamente não interessa, porque não fica bem a um país dizer que tem uma taxa de risco de pobreza dois ou três pontos acima do seu espaço de união política, que é a União Europeia".


11.8.17

Governo aprova prestação para pessoas com deficiência igual ou superior a 80%

in Diário de Notícias

O Governo aprovou hoje a criação da Prestação Social para a Inclusão (PSI), cuja componente base de 264 euros será atribuída a todas as pessoas com deficiência ou incapacidade igual ou superior a 80%.

O Governo aprovou hoje a criação da Prestação Social para a Inclusão (PSI), cuja componente base de 264 euros será atribuída a todas as pessoas com deficiência ou incapacidade igual ou superior a 80%.

"A componente base entrará em vigor já em 2017, é uma componente que tem uma dimensão de cidadania, é atribuída incondicionalmente, sem qualquer espécie de avaliação de outras condições, a quem tenha 80% ou mais de incapacidade comprovada e certificada", explicou o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, José Vieira da Silva, na conferência de imprensa realizada no final da reunião do Conselho de Ministros, em Lisboa.

Esta componente base entrará já em vigor e poderá ser requerida a partir de 01 de outubro.

Além da criação da PSI, o Conselho de Ministros aprovou hoje outros diplomas que visam "a valorização e a maior integração das pessoas com deficiência", nomeadamente o decreto-lei que cria o Modelo de Apoio à Vida Independente e o decreto-lei das Acessibilidades.

Foram igualmente aprovados um diploma sobre o Sistema Braille vigente em Portugal e um decreto-lei que alarga as situações de atribuição do cartão de estacionamento a pessoas com deficiência ou incapacidade.

Sobre a PSI, o ministro do Trabalho referiu que a componente base poderá ser acumulada com rendimentos de trabalho e será atribuída independentemente do nível de rendimentos dos beneficiários, no caso de pessoas com deficiência ou incapacidade igual ou superior a 80%.

Para graus de incapacidade iguais ou superiores a 60% e inferiores a 80%, a componente permite a acumulação com rendimentos da pessoa com deficiência ou incapacidade, "sendo a sua modelação mais favorável na acumulação com rendimento de atividade profissional", é referido no comunicado do Conselho de Ministros.

Segundo a nota, o valor de referência para a componente base é de 3.171,84 euros por ano.

O limiar de acumulação para rendimentos de trabalho é de 8.500 euros anuais, valor acima do qual há direito a benefícios fiscais.

O limiar de acumulação com rendimentos não profissionais é de 5.084,30 euros por ano.

Em 2018, passará também a ser possível requerer um "complemento", que está associado ao combate à pobreza e terá em consideração os recursos familiares.

No ano seguinte, em 2019, entrará em funcionamento a "majoração", que visa a "compensação de encargos específicos efetivamente comprovados em determinados domínios".

No comunicado do Conselho de Ministros é também referido que os atuais beneficiários do Subsídio Mensal Vitalício e da Pensão Social de Invalidez serão migrados para a nova prestação -- a PSI - "com salvaguarda de direitos".

Relativamente ao decreto-lei que alarga a atribuição do cartão de estacionamento para pessoas com deficiência ou incapacidade, o Governo refere que passam a poder usufruir deste dístico as pessoas com deficiência motora de grau igual ou superior a 60%, "desde que tal deficiência lhes dificulte a locomoção na via pública sem auxílio de outrem ou sem recursos a meios de compensação", nomeadamente próteses, cadeiras de rodas, muletas, ou no acesso ou utilização dos transportes públicos coletivos convencionais.

Poderão também ter cartão de estacionamento as pessoas com deficiência intelectual e as pessoas com perturbação do espetro do autismo com um grau de incapacidade igual ou superior a 60% e as pessoas com deficiência visual, com uma alteração permanente no domínio da visão igual ou superior a 95%.


4.8.17

Apoios Sociais

in Voz de Trás-os-Montes (A) - Concelhos

O "Programa Rede Social" visa combater a pobreza e a exclusão social, a nível local, atribuindo uma maior responsabilidade às autarquias locais na implementação de políticas sociais ativas capazes de intervirem na atual situação.

Este programa foi criado com o objetivo de "fomentar uma consciência coletiva e responsável dos diferentes problemas sociais e incentivar redes de apoio social integrado de âmbito local". Baseia-se numa estratégia de abordagem da intervenção social focada num trabalho planeado, feito em parceria, visando racionalizar e trazer maior eficácia à ação das entidades públicas e privadas que atuam numa mesma unidade territorial. Tem como finalidade combater a pobreza e exclusão social numa perspetiva de promoção do desenvolvimento social.

A Câmara Municipal de Mondim de Basto disponibiliza uma série de apoios sociais, com vista a garantir uma melhor qualidade de vida dos seus munícipes, entre eles, a recuperação de habitações, que permite melhorar as condições de habitabilidade de algumas famílias carenciadas do concelho. Podem solicitar apoios os agregados familiares em situação de comprovada carência económica e que residam em permanência e em exclusivo, na habitação objeto do pedido, sita no concelho de Mondim de Basto; sejam titulares do direito de propriedade da habitação a que se destina o apoio; não possuam ou sejam arrendatários de qualquer outro imóvel destinado à habitação; e os que nunca tenham beneficiado de outros apoios para a habitação.

Para além desta medida, a Câmara tem também implementado o projeto "Oficina Móvel", que tem como objetivo efetuar pequenas reparações, entregas domiciliárias e colaboração na organização doméstica, a levar a cabo nas habitações de beneficiários devidamente identificados. Podem beneficiar dos serviços todos os habitantes de concelho que reúnam os seguintes requisitos: tenham idade igual ou superior a 65 anos; sejam portadoras de deficiência; agregados familiares em situação de comprovada carência económica.

O município de Mondim de Basto, reconhecendo a inexistência de uma estrutura que facilite e potencialize a mobilização e sensibilização da prática dc voluntariado, tomou a iniciativa de se tornar entidade enquadradora do Banco Local .de Voluntariado de Mondim de Basto.
Além de se promover o encontro entre a oferta e a procura de Voluntários, também tem como finalidade sensibilizar os munícipes e as organizações para a prática do trabalho voluntário.

O Banco de Voluntariado é o local de encontro entre voluntários, que prestam um conjunto de ações inerentes à condição~ de cidadania ativa e solidária, e as organizações promotoras, que disponibilizam oportunidades de enquadramento em diferentes atividades e áreas de interesse social e comunitário. Podem ser voluntários todos os munícipes com vontade de participar em projetos ou programas de cariz social e comunitário. O voluntário é o indivíduo que de forma livre, desinteressada e responsável, se compromete, de acordo com as suas aptidões próprias e no seu tempo livre, a realizar ações de voluntariado no âmbito de uma organização promotora. As organizações promotoras de voluntariado são as entidades públicas da administração central, regional ou local ou outras pessoas coletivas de direito público ou privado, legalmente constituídas, que reúnam condições para integrar voluntários e coordenar o exercício das suas atividades. Podem-se inscrever ao enquadramento de voluntários entidades e instituições do concelho, tais como IPSS's, Serviços de Saúde, Escolas, Associações, Juntas de Freguesia, entre outras.

Outra das medidas é o apoio às crianças nascidas em agregados familiares carenciados do concelho de Mondim de Basto. Trata-se de uma medida social de apoio direto ao recém-nascido, que visa o seu hem-estar na alimentação e higiene, através da garantia de disponibilização aos progenitores de um conjunto básico essencial de bens. Os munícipes progenitores devem preencher cumulativamente os seguintes requisitos: o nascimento tenha ocorrido a partir 1 de janeiro de. 2010, até perfazerem 2 anos de idade; os progenitores estejam recenseados e sejam residentes no concelho: a criança detenha o escalão 1 ou 2 de abono dc família atribuído pela Segurança Social; e não tenham usufruído de apoio similar no concelho de origem, quando o nascimento não tenha ocorrido no concelho.

A "Loja Social" apresentar-se como um recurso complementar às intervenções de caráter social, dirigidas a agregados carenciados do concelho. Tem como objetivo suprir necessidades imediatas desses agregados, mediante recolha de diferentes géneros, nomeadamente, alimentos, vestuário, mobiliário e eletrodomésticos, doados por particulares ou empresas; potenciar a responsabilidade cívica e comunitária das pessoas beneficiadas, mediante compromisso assumido das mesmas para a integração em programas de Serviço Comunitário em entidades concelhias.

18.11.15

Vila de Rei: um concelho com transportes e livros do secundário gratuitos

Nuno Guedes, in TSF

Quarenta e uma câmaras municipais recebem esta quarta-feira uma bandeira verde, símbolo das autarquias com medidas que favorecem as famílias. A TSF foi conhecer aquilo que existe numa das câmaras que recebe este prémio desde 2009.

São poucos os municípios que recebem o galardão de "familiarmente responsáveis" desde que a sua criação há sete anos. Nesse lote estão Cantanhede, Torres Novas, Torres Vedras, Vila Real de Santo António e Vila de Rei.
Em Vila de Rei, uma pequena vila no interior do país, o presidente garante que os apoios dados às famílias têm sido fundamentais para estancar a perda de população, mas ainda não foi possível inverter a tendência.

Presidente da Câmara de Vila de Rei
Ricardo Aires sublinha que no seu concelho as famílias não pagam creche ou livros do ensino secundário, mas também os transportes por táxi para a escola ou para os hospitais que ficam em Tomar, Abrantes e Torres Novas. .
O autarca explica que o objetivo da câmara é aumentar a população. Contudo, isso "não depende só do município de Vila de Rei, mas também da iniciativa privada pois sem empregos é impossível crescermos".

Autarca de Vila de Rei
Além das famílias, também as empresas encontram condições pouco comuns neste concelho do Interior do país situado no distrito de Castelo Branco. Este ano, a prioridade de Vila de Rei é promover, em Portugal e no estrangeiro, que a autarquia vende terrenos para as empresas se instalarem na zona industrial pelo preço de 1 cêntimo por dois metros quadrados com imposto municipal a zero".
Ricardo Aires sublinha que a atração de famílias tem de ser feita "aos poucos pois é muito difícil chamar população para o interior do país".