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31.7.23

Jovens portugueses são dos mais qualificados mas em maior risco de pobreza e exclusão social

Paula Sofia Luz, in DN

Um estudo da Pordata destapa a realidade dos jovens portugueses, no momento em que começa a JMJ. Os números são preocupantes: 95% vivem com os pais, e isso acontece por causa do desemprego e da precariedade no mercado de trabalho.

Um total de 95% dos jovens portugueses (que em 2022 eram 10% da população) vivem com os pais, o quarto valor mais alto na União Europeia. Essa é uma das conclusões do estudo da Pordata que hoje é tornado público. No documento percebe-se também que são cada vez mais qualificados - 9 em cada 10 jovens entre os 20 e os 24 anos têm, no mínimo, o ensino secundário, e Portugal é o 7.º país da UE com maior proporção de jovens com ensino superior.

Apesar disso, as preocupações com o acesso à habitação e ao emprego continuam a afetá-los: 6 em cada 10 têm vínculos de trabalho precários, e Portugal é o 7º país da UE com maior taxa de desemprego jovem, afetando 1 em cada 5 jovens no mercado de trabalho. Há outro dado positivo neste retrato agora traçado pela Pordata: os jovens portugueses têm competências digitais acima da média europeia, e estão em 5.º lugar entre os que mais utilizam as redes sociais e leem notícias online. No campo das boas notícias, o documento revela que os hábitos de saúde deste grupo etário parecem estar a melhorar - diminuiu a percentagem de jovens que afirma nunca praticar desporto (um em cada 3) ou que fuma diariamente (9%).

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Em 2022 contabilizavam-se em Portugal 1.086.544 jovens entre os 15 e os 24 anos (51% eram do sexo masculino e 49% do sexo feminino) o que representa uma diminuição de 6 pontos percentuais desde 1961, refletindo a redução das taxas de natalidade e o aumento da esperança média de vida. Para Gonçalo Saraiva Matias, presidente do conselho de administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), este estudo revela "um indicador muito positivo, e outro bastante negativo". Refere-se, respetivamente, à educação e competências digitais, onde os jovens portugueses estão num patamar superior à média europeia; por outro lado, "não estamos bem no desemprego (Portugal é o sétimo país da União Europeia com maior desemprego jovem), e seis em cada dez jovens têm vínculos laborais precários. Isto tem necessariamente um reflexo na inclusão social, já que 25% dos jovens estão em risco de pobreza ou exclusão social. Gonçalo Matias acredita mesmo que "temos aqui uma situação explosiva, porque uma faixa considerável dos jovens, entre os 15 e os 24 anos, tem muita qualificação, mas depois tem trabalhos precários e pouca capacidade de entrar no mercado".


"Na minha opinião, até baseada noutros estudos que a Fundação tem feito, isto revela que há um incentivo grande a que os jovens saiam do país", conclui o presidente da FFMS.


O saldo migratório revela que, desde 2019, entram no país mais jovens do que aqueles que saem para viver no estrangeiro. Mas nem sempre foi assim: de 2010 a 2018 o saldo foi negativo.


De acordo com o estudo, no ano passado a esmagadora maioria dos jovens (95%) vivia com os pais, "valor que traduz uma mais difícil independência, sobretudo considerando que este valor era de 86% em 2004". Na verdade, Portugal é o 4.º país da UE, a seguir à Itália (97%), Croácia (96%) e Espanha (96%), em que mais jovens vivem com os pais, acima da média europeia (83%). Na Suécia e na Dinamarca, os jovens que vivem com os pais são menos de metade do total de jovens.

Em Portugal, de acordo com dados de 2022 do Eurostat, a idade média de saída de casa dos pais era aos 30 anos, mais 3 anos do que a média europeia.
Mais educação e competências digitais

Um dos dados mais animadores do estudo da Pordata diz respeito à Educação e Competências Digitais. Em Portugal, 6 em cada 10 jovens concluíram o ensino secundário e quase 3 em cada 10 têm o ensino superior. Somando o ensino superior com o secundário, 9 em cada 10 jovens têm, no mínimo, o ensino secundário, quando a média europeia é de 84%. Foi em 2020 que Portugal ultrapassou a média europeia relativa aos jovens que têm, pelo menos, o ensino secundário completo. Os dados comparativos permitem perceber que, há 20 anos, a proporção de jovens entre os 18 e os 24 anos que deixavam de estudar sem terminar o ensino secundário era de 45%, valor que ficou nos 6% em 2022. "Éramos o 2.º país, a seguir a Malta, com maior abandono escolar. Atualmente, somos o 8.º país com menor taxa de abandono escolar, com menos 4 p.p. face à média europeia (9,6%).

Os rapazes abandonam os estudos duas vezes mais do que as raparigas (8% vs. 4%).

A democratização do acesso ao ensino permitiu trajetórias escolares mais longas. Em 2022, Portugal era já o 7.º país da UE com maior proporção de jovens entre os 20 e os 24 anos com ensino superior, acima da média europeia (19%).

Portugal destaca-se também no que toca ao peso de alunos estrangeiros no ensino superior. 8% dos alunos em licenciaturas e 14% em mestrados são estrangeiros, valores acima da média europeia (6% e 12%).

De acordo com a avaliação das competências digitais, Portugal encontrava-se em 5.º lugar entre os países da UE em que os jovens, entre os 16 e os 24 anos, apresentam competências digitais básicas ou acima do básico. Quase todos os jovens portugueses utilizam diariamente a internet (99,5%), ocupando o 5.º lugar dos países onde os jovens mais usam a internet para participar nas redes sociais, e para ler notícias online. Já para participar em atividades cívicas ou políticas, ocupa a 10.ª posição. O aumento dos anos de escolaridade obrigatória e o acesso mais generalizado ao ensino superior traduziu-se num recuo da taxa de emprego dos jovens. Foram 17 pontos percentuais em 20 anos.

Mas a instabilidade laboral é frequentemente associada aos jovens. Os contratos temporários são uma realidade para cerca de 6 em cada 10 jovens (57%) empregados, bastante acima dos 14% que correspondem aos trabalhadores entre os 25-64 anos. Na UE, os contratos temporários abrangem 5 em cada 10 jovens (e 11% dos trabalhadores de 25-64 anos).

Em comparação com a população em geral. Em 2021, o salário médio dos jovens entre os 18 e os 24 anos era de 948,8€ euros mensais brutos, menos 345,3€ euros do que a média nacional.

No que respeita à religião - que afinal dá o mote a este retrato, à conta da JMJ - a maioria dos jovens diz-se católico.

11.4.23

“Ter filhos em Portugal significa risco de pobreza acrescido”

 in CNN

João Santos, economista, fala sobre o problema de pobreza em Portugal, após o apelo do primeiro-ministro às empresas para que reforcem salários. “Talvez seja inexequível esse pedido” sem um aumento prévio da produtividade, considera.


Com a subida dos juros, o especialista alerta que o risco de incumprimento “é cada vez maior”. “A miséria social não deve ser o objetivo de ninguém”, junta.

1.2.23

Coligação afirma que os Açores são região que mais reduziu a pobreza

in Açores 9

Os grupos parlamentares que suportam o Governo Regional (PSD, CDS-PP e PPM) destacaram hoje que os Açores foram a região que mais reduziu a taxa de risco de pobreza ou exclusão após transferências sociais, tendo lamentado a “manipulação grosseira” feita pelo PS sobre o assunto.

“Entre 2020 e 2021, a taxa de risco de pobreza após transferências sociais aumentou 2% no país, enquanto nos Açores diminuiu 6,5%, de 28,5 para 21,9%. Trata-se de um dado muito positivo que ocorre em contraciclo com o agravamento registado a nível nacional”, afirmou a deputada do PSD/Açores Nídia Inácio.

A parlamentar social-democrata falava em conferência de imprensa, na Praia da Vitória, acompanhada pelos deputados Pedro Pinto (CDS-PP) e Guilhermina Silva (PSD), acerca dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento.

Nídia Inácio salientou que a redução acentuada, nos Açores, da taxa de risco de pobreza ou exclusão após transferências sociais ocorre “numa altura em que este indicador piorou em todas as regiões do Continente”.

Isto é, “os Açores foram a região do país que mais reduziu a taxa de risco de pobreza ou exclusão após transferências sociais”, sublinhou.

Daí que não restam dúvidas que “são os apoios sociais deste Governo Regional que estão a reduzir a pobreza nos Açores, como atestam os dados do Instituto Nacional de Estatística”, destacou, elencando as medidas de apoio às famílias tomadas pelo Governo da Coligação.

Desde o Complemento Regional de Pensão, o chamado “cheque pequenino, passando pelo Complemento Açoriano ao Abono de Família, ao Complemento para Aquisição de Medicamentos pelos Idosos, o COMPAMID, às creches gratuitas para todas as famílias, independentemente dos seus rendimentos.

Nídia Inácio apontou o dedo ao PS pela “manipulação grosseira e despudorada” da informação estatística do INE, tendo destacado a verdadeira leitura dos dados: “Entre 2020 e 2021, assistiu-se a uma diminuição da taxa de privação material e social severa, de 13 para 8,7%. Ou seja, verificou-se uma redução muito acentuada da pobreza extrema nos Açores”.

“Os dados agora divulgados pelo INE demonstram que as políticas sociais implementadas pelo Governo da Coligação estão a surtir o efeito esperado e de forma consolidada”, asseverou a social-democrata.

A deputada do PSD/Açores considerou que a “manipulação grosseira” feita pelo PS sobre os dados do INE “revela, inequivocamente, aos açorianos o desespero de quem não aceitou os resultados das eleições”.

“Vasco Cordeiro e Andreia Cardoso manipulam grosseira e despudoradamente os números numa tentativa desesperada de fazer regressar a família socialista ao poder”, afirmou.

Daí que “não admira que a senhora deputada Andreia Cardoso tenha ocultado deliberadamente os dados mais importantes do inquérito do INE”, realçou a deputada do PSD/Açores eleita pela Terceira.

“Lamentamos a leitura desonesta que o Partido Socialista faz em relação ao Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, principalmente quando a senhora deputada do PS Andreia Cardoso não tem qualquer autoridade para falar sobre a pobreza nos Açores”, apontou.

Até porque “não esquecemos que se trata de alguém que teve responsabilidades em três governos socialistas – primeiro como diretora regional e depois como secretária regional –, em que a taxa de pobreza era elevadíssima”, recordou a parlamentar.

“Os açorianos ainda não esqueceram que em 2007, Andreia Cardoso, enquanto diretora regional da Solidariedade e Segurança Social, chegou ao ponto de esbanjar 220 mil euros nas ‘Comemorações do 10.º aniversário do Rendimento Social de Inserção’”, acentuou Nídia Inácio.

E enquanto o combate à pobreza é assumido pelo Governo da Coligação com seriedade e empenho, “a deputada Andreia Cardoso usou os pobres e a pobreza para se promover numa candidatura a uma câmara municipal. Aliás, como era costume na escola deste velho PS”, lamentou.

“Enquanto o PS tenta enganar os açorianos, através de uma manipulação grosseira dos números, o Governo da Coligação está no terreno, implementando medidas para resolver a vida dos açorianos”, concluiu a deputada do PSD/Açores.

28.10.22

Quase uma em cada 4 crianças portuguesas em risco de pobreza e exclusão social

23.10.22

Portugal, um país com mais pobres!

António Ferraz, opinião,  in Correio do Minho

A propósito do “Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza” recentemente celebrado, aborda-se o estado do risco de pobreza ou exclusão social em Portugal e na União Europeia (UE-27), comparando as duas realidades. Segundo dados emanados do Relatório das Condições de Vida e Rendimento – Eurostat 2021, na UE-27, 21,7% (95,4 milhões de pessoas) da sua população situava-se em risco de pobreza ou exclusão social (um em cada cinco europeus). Um aumento de 0,1% face ao ano anterior de 21,6% (94,8 milhões de pessoas).

Por risco de pobreza ou exclusão social entende-se o conjunto de pessoas que em um país vivem em agregados familiares que tenham pelo menos um de três dos seguintes fatores:
(a) risco de pobreza;
(b) privação material e/ou social severa;
(c) muito baixa intensidade laboral. A taxa de pobreza ou exclusão social espelha a relação entre esse conjunto de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social e a totalidade da população. O Eurostat indica ainda que em torno de 5,9 milhões de pessoas (1,3% do total da população europeia) viviam em agregados familiares no estado o mais grave possível ao terem ao mesmo tempo os três fatores de risco de pobreza ou exclusão social referidos.
Por sua vez, as pessoas vivendo em risco de pobreza ou exclusão social na UE-27, repartiam-se:
(a) em 73,7 milhões que estavam em risco de pobreza;
(b) em 27,0 milhões que estavam em situação de privação material ou social severa;
(c) em 29,3 milhões que viviam em agregados familiares com baixa intensidade laboral.
Os níveis maiores de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social na UE-27 pertenciam a Roménia (34%), Bulgária (32%) e Grécia e Espanha (28% cada). Ao invés, os países com níveis menores de pobreza ou exclusão social pertenciam a República Checa (11%), Eslovénia (13%) e Finlândia (14%).
Atente-se que se considerar apenas o primeiro fator de risco de pobreza ou exclusão social – o risco de pobreza (não atendendo aos outros dois fatores) – definido como o conjunto de pessoas auferindo um rendimento abaixo de 60% do rendimento mediano (limiar da pobreza), conclui-se que a taxa de risco de pobreza na UE-27 manteve-se estável em 2021, apesar de variações entre os países. Os países onde a taxa de risco de pobreza subiu foram: Grécia, Croácia, Letónia, Holanda e Hungria. Os países onde a taxa de risco de pobreza desceu foram: Bulgária, Finlândia, Chipre, Alemanha, Lituânia, Roménia e Suécia.

E o que se passa em Portugal? Em 2021, em Portugal, a taxa de risco de pobreza ou exclusão social foi de 22,4% da sua população (mais de 2,3 milhões de pessoas), verificando-se uma subida ao passar da 13ª maior taxa (2020) para a 8ª maior taxa (2021) e acima da média da UE-27. Em suma, houve um agravamento da taxa de risco de pobreza ou exclusão social de 2,4%, passando dos 20,0% em 2020 para os referidos 22,4% em 2021. Este foi o pior agravamento nas condições de vida e rendimento das famílias no quadro da UE-27.

Quanto a taxa de risco de pobreza subiu em 2021 de 2,2% face ao ano anterior. Assim, em Portugal, em 2021, estavam em risco de pobreza as pessoas com rendimentos abaixo do limiar de pobreza no País (554 euros líquidos mensais), tendo subido dos 16,2% em 2020 para os 18,4% em 2021 (1,9 milhões de pessoas).
A principal razão explicar o aumento da taxa de risco de pobreza e exclusão social em Portugal, encontra-se na queda do rendimento das famílias com a emergência da crise da pandemia. O fenómeno foi mesmo mais grave em Portugal do que nos restantes países da UE-27. Observe-se, por fim, que a taxa de pobreza ou exclusão social em Portugal vinha revelando uma trajetória de baixa desde 2014 até 2020 quando aconteceu uma viragem com a taxa de pobreza ou exclusão social, tendo esta, começado a subir com 20,0% em 2020 e 22,4% em 2021 (Observatório Nacional – luta contra a pobreza - Relatório 2022).

Até agora, a taxa de pobreza e exclusão social foi entendida como sendo uma taxa “após as transferências sociais” (pensões de velhice e sobrevivência apoios às famílias, à educação, à habitação, doença /invalidez, desemprego e combate à exclusão social). Na verdade, caso se atenda aquela taxa mas “antes das transferências sociais”, então, haveria um “enorme” aumento ao elevar-se para cerca de 44,0% da população (4,4 milhões de pessoas). Quer dizer, em Portugal dado os seus constrangimentos económicos tem sido muito importante o papel do Estado na mitigação do fenómeno de pobreza e exclusão social!

Do exposto, infere-se que a governação portuguesa deve ter como um dos seus objetivos prioritários a redução da pobreza ou exclusão social de forma sustentada, visando um Portugal mais equilibrado, mais justo e mais próximo dos países mais desenvolvidos da UE-27.

Entre algumas medidas a tomar para tal fim, destacam-se:
(1) valorização real de salários e pensões (o que não sucede com a proposta de OE-2022);
(2) combate à precariedade laboral;
(3) legislação laboral mais favorável ao trabalho;
(4) aumento do investimento público (que tem tido um peso no PIB dos mais baixos da UE-27), indutor de crescimento económico.

É preciso "criar crescimento" para tirar pessoas da situação de pobreza. "Só é possível distribuir riqueza que existe"

Por Pedro Cruz (TSF) e Rosália Amorim (DN), in TSF

Gonçalo Matias, presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos, é o convidado do Em Alta Voz, entrevista da TSF e do Diário de Notícias.

As pessoas não são números, mas os números ajudam a perceber o que está a acontecer com as pessoas. Quando se olha para um número, e quando esse número tem vários algarismos, há sinais de alarme que começam a tocar.

Durante décadas, vivemos na ideia de que Portugal tinha dois milhões de pobres. E esse número, de tão repetido, acabou por se banalizar.

Esta semana, fomos sacudidos com violência por um novo número - o número de pessoas pobres, no limiar da pobreza ou em risco de pobreza ultrapassa, neste momento, os quatro milhões, quase metade da população portuguesa.

Quem nos revelou o número, que fica na cabeça, foi a Portada, o portal da Fundação Francisco Manuel dos Santos que há mais de uma década transforma em números uma sociedade feita de pessoas.

Gonçalo Matias, presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva da Fundação Francisco Manuel dos Santos, acredita que só com um pacto entre partidos é possível travar o défice demográfico em Portugal e que criar mais riqueza é fundamental para eliminar a pobreza.

6.10.22

Uma em cada cinco pessoas vive em risco de pobreza na União Europeia

Filipa Maria, in EcoOnline

Em 2021, a União Europeia tinha 21,7% da população em risco de pobreza ou exclusão social, sendo que Portugal fica em sétimo lugar na lista (22,4%). Fenómeno é mais elevado entre as mulheres.

A União Europeia (UE) tem 95,4 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 21,7% da sua população, segundo dados de 2021 do Eurostat. O gabinete de estatísticas da UE sublinhou esta quinta-feira que os dados representam um avanço face aos 21,6% registados em 2020, afetando 94,8 milhões de pessoas.

No entanto, o risco de pobreza ou exclusão social varia entre os Estados-Membros da UE, sendo que as percentagens mais elevadas de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social foram observadas na Roménia (34%), Bulgária (32%), Grécia e Espanha (ambos 28%). Portugal fica em sétimo lugar na lista com 22,4%, após um aumento superior a dois pontos percentuais, sendo que em 2020 este indicador estava nos 20%.

Já os países com as percentagens mais baixas de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social foram a República Checa (11%), Eslovénia (13%) e Finlândia (14%).População em risco de pobreza ou exclusão social nos Estados-Membros da UE, por percentagem.
Fonte: Eurostat

Em termos gerais, isto significa que uma em cada cinco pessoas na UE vive em agregados familiares marcados por um ou mais fatores como risco de pobreza, privação social e/ou material severa, ou com uma intensidade de trabalho muito baixa, esclarece o Eurostat. Dentro do grupo de pessoas em risco pobreza ou exclusão social na UE, cerca de 5,9 milhões, ou 1,3% do total, vive em agregados familiares que enfrentam simultaneamente os três tipos de risco mencionados.

Ao analisar individualmente cada tipo de risco, o gabinete de estatísticas europeu avança que, enquanto 73,7 milhões de pessoas na UE estão em risco de pobreza, 27 milhões encontram-se gravemente desfavorecidas em termos materiais e socialmente. Já 29,3 milhões vivem num agregado familiar com baixa intensidade de trabalho.

Adicionalmente, o risco de pobreza ou exclusão social é mais elevado para as mulheres do que para os homens, estando este indicador nos 22,7% contra 20,7%, respetivamente. Em paralelo, 22,5% da população, ou mais de um quinto, vive em agregados familiares com filhos a seu cargo sob este tipo de risco.

30.9.22

'Cenário é grave e deve ser encarado com seriedade'

Daniela Soares Ferreira, in Sol

Dados do Eurostat mostram um país pobre, só atrás da Roménia no que diz respeito a ‘recibos verdes’: mais de 30% dos trabalhadores independentes estão em risco de pobreza.

Os mais recentes dados do Eurostat são duros para Portugal: no ano passado, quase um quarto dos trabalhadores independentes da União Europeia estavam em risco de pobreza ou exclusão social. Em Portugal, são um terço. E só a Roménia aparece pior na fotografia. «Ao nível nacional, em 2021, a Roménia, Portugal e a Estónia registaram a proporção mais elevada de trabalhadores por conta própria em risco de pobreza e exclusão social (70,8%, 32,4% e 32,2%)», revelou o gabinete de estatística europeu, expondo a precariedade do trabalho a recibos verdes e sem contrato no país. Na média dos países da UE, a situação também se degradou, mas não tanto. De acordo com os dados divulgados, comparativamente com 2020 e analisando as categorias ‘desempregado’, ‘reformado’, ‘empregado’ e ‘trabalhador independente’, esta última foi a única que registou uma deterioração da situação de pobreza, passando de 22,6% para 23,6%. Em contraste, a situação de pobreza dos trabalhadores por conta própria melhorou em 11 países, com a Irlanda e a Hungria a registarem a maior diminuição dessas taxas de 2020 a 2021 (-3,2 e -3,7 pontos percentuais, respetivamente).

Para Henrique Tomé, analista da XTB, estes dados «refletem o estado de precariedade do mercado de trabalho em Portugal», diz, explicando que, para as empresas, «empregar novos trabalhadores a contrato torna-se demasiado dispendioso, sobretudo para as PMEs, influenciando muitas empresas a recorrer aos recibos verdes como alternativa». E acrescenta: «Contudo, para o trabalhador, as condições não são das melhores pois fica demasiado exposto às condições económicas que vigoram e com menos apoios em caso de despedimento».

Por isso, o analista ouvido pelo Nascer do SOL não tem dúvidas: «Este cenário é grave e deverá ser encarado com seriedade, pois se as condições económicas se deteriorarem, o mercado de trabalho será naturalmente prejudicado e poderá criar uma situação delicada».

Para mudar esta tendência, podem ser feitas várias coisas, defende Henrique Tomé. «É preciso que sejam criadas condições para proteger os trabalhadores independentes, mas também apoios às empresas para que estas se sintam motivadas em contratar novos trabalhadores a contrato – uma alternativa seria reduzir os custos que as empresas têm de assegurar».

É preciso, no entanto, ter em conta que estes dados do Eurostat dizem respeito a 2021. Ainda assim, não são muito animadores até porque já mostram um agravamento face a 2020. Como será o balanço deste ano e o próximo? «Possivelmente, os próximos anos serão certamente desafiantes para todas as economias dado que as projeções económicas apontam para um possível abrandamento da atividade económica e que pode provocar períodos de recessão profunda às economias mais vulneráveis, como é o caso de Portugal», responde o analista da XTB.

O risco? Portugal criar raízes na na cauda da Europa. «Este possível cenário agrava ainda mais a diferença entre as maiores economias e as mais fragilizadas», alerta Henrique Tomé, acrescentando que, apesar «das projeções iniciais da Comissão Europeia onde refere que Portugal seria o país da Zona Euro com maior taxa de crescimento do PIB, a verdade é que o país continua a crescer a um ritmo muito modesto e o ritmo de crescimento na verdade até tem vindo a abrandar ao longo dos últimos anos».

Olhando para o pior cenário, que é o de recessão, «a economia portuguesa deverá ser atingida violentamente, pois a atividade económica continua muito aquém das expectativas e o país tem uma dívida muito elevada face ao que produz (PIB), sendo que neste ponto ficou ainda mais agravado com a questão da pandemia», avisa o analista.

Questionado sobre que consequências estes dados do Eurostat podem trazer, o especialista não tem dúvidas: «Podemos vir a assistir novamente a períodos de maior austeridade no país, se o cenário de recessão se materializar em Portugal» mas, para já, «ainda nem todas as red flags foram levantadas, mas ao mesmo tempo não podemos excluir essa possibilidade».

É certo, continua Henrique Tomé, que a economia portuguesa «está bastante endividada e com a taxa de inflação a permanecer elevada, a atividade económica deverá ser afetada e poderá provocar períodos de contração a nível económico (recessão)».

E é ainda preciso ter em conta que estes dados do gabinete de estatística europeu sobre pobreza não são uma notícia inesperada. O Eurostat já tinha avisado que a pandemia fez com que Portugal subisse de 13.º para 8.º na lista de países europeus com maior risco de pobreza ou exclusão social.

É claro, para o analista, que o país «sofre de um grande problema – não dá a devida atenção ao setor privado que é aquele que cria riqueza». Mas não é só isso. «Não cria as condições necessárias para o crescimento do privado e promove a precariedade em vários setores, levando a que muitos trabalhadores muito bem qualificados optem por emigrar».

Por outro lado, defende, «a elevada carga fiscal também afasta o investimento de muitas empresas e não promove em nada o crescimento do tecido empresarial». Estes são, no seu entender, «dois fatores negligenciados ao longo dos últimos anos, mas que são essenciais para que a economia nacional comece a crescer a um ritmo atrativo».

Cada vez mais pobres?

Segundo os dados do Eurostat, em números absolutos, falamos de 2,312 milhões de portugueses em risco de pobreza em 2021, mais 256 mil face a 2020. É preciso recuar a 2017 para encontrar uma taxa superior. Agora oitavo país mais pobre da UE, Portugal regrediu cinco posições no risco de pobreza ou exclusão social face a 2020.

E com o crescimento dos preços dos bens alimentares e energia, a situação tende a piorar. Recentemente, a Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal defendeu que as medidas de apoio para aliviar as consequências da inflação, apresentadas pelo Governo, «não são a resposta ideal», ainda que seja «importante» que o Executivo «tenha assumido as suas funções». «Imagino e sinto que esta não é resposta ideal. Nós somos um país pobre e temos de nos saber gerir com as nossas limitações», disse à Lusa o presidente da EAPN Portugal, padre Jardim Moreira.

19.9.22

Trabalhar para sobreviver na pobreza

Manuel Carvalho, opinião, in Público online

Se a situação dos desempregados ou dos pensionistas merece reflexão, alarme e respostas, o agravamento da pobreza entre os que trabalham exige essas atitudes e uma resposta a um problema mais profundo: o da economia.

Não pode haver pior exemplo dos fracassos do país do que a realidade dos 11,6% dos portugueses que trabalham, mas nem assim conseguem escapar às amarras da pobreza. A notícia sobre os riscos de pobreza ou exclusão social avaliados pelo Eurostat é dolorosa por revelar um agravamento da situação em Portugal, pela constatação de que o país passou da 13.ª para a oitava posição neste ranking europeu, ou pela prova de que as fragilidades estruturais do país se acentuaram com a crise da pandemia.

Mas se a situação dos desempregados ou dos pensionistas merece reflexão, alarme e respostas, o agravamento da pobreza entre os que trabalham exige essas atitudes e uma resposta a um problema mais profundo: o da economia.

Dados como os agora revelados costumam direccionar o debate para a acção do Governo – ou a falta dela. Faz sentido. A dimensão da pobreza no país seria ainda mais inaceitável sem transferências sociais. Nos últimos anos, o Governo definiu uma estratégia ambiciosa para reduzir o número de pobres e no seu conjunto de acções há medidas louváveis, como as creches gratuitas, rendas acessíveis ou saúde oral gratuita para crianças de estratos sociais mais desfavorecidos. As políticas públicas procuraram respostas específicas para os mais pobres, a ilusão de uma esquerda universalista que dá a todos livros escolares, transportes ou, como agora, vales de 50 euros a crianças pobres ou ricas faz divergir recursos sem necessidade.

Se discutir a alocação de recursos de um país remediado aos que necessitam e a quem, felizmente, não precisa, vale a pena, mais importante é reconhecer que o Estado tenta através da política social sarar as feridas abertas pela ausência de políticas económicas. O modelo social europeu tem por base esta redistribuição, certo, mas, como escreveu António Barreto, Portugal gasta muita energia a discutir essa redistribuição e pouco se empenha em analisar a criação de riqueza. É por isso que chegámos ao absurdo moral de haver pessoas que se esforçam, que trabalham, sem que sejam capazes de garantir vidas dignas para si e para as suas famílias.

A pobreza agravou-se na pandemia, a lei sobre a actualização das pensões é torpedeada e a pobreza aumenta, porque um país com uma economia fraca não pode gerar salários altos, nem políticas sociais fortes. Mais do que um murro no estômago que revolta, o aumento do risco de pobreza e exclusão social até entre os trabalhadores é um retrato de um modelo económico que falhou. Por muito que o Estado tente mitigar os danos com ajudas sociais, a realidade é incontornável: só se pode redistribuir riqueza quando há riqueza criada.


6.7.22

Padre Jardim Moreira: “Sem apoios sociais, risco de pobreza estaria nos 43%”

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), padre Jardim Moreira, diz, em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, que a realidade da pobreza em Portugal "é bastante mais sombria" do que aquela que os números nos revelam.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP), padre Jardim Moreira, diz que a realidade da pobreza em Portugal "é bastante mais sombria" do que aquela que os números nos revelam.

Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, o padre Jardim Moreira garante que o risco de pobreza aumentou com a pandemia e está agora a acentuar-se com a guerra. O responsável adianta um número: 43% seria o risco de pobreza em Portugal, se não houvesse apoios sociais.

"Em Portugal, ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza”, lembra o sacerdote, apontando que “não se investe na transformação da situação das pessoas em pobreza”.

“O dinheiro que se gasta aos milhões não tem um resultado prático na libertação da pobreza”, sublinha.

O padre Jardim Moreira diz ter medo que a “mudança estrutural” que a estratégia nacional de combate à pobreza obriga possa não avançar porque “o problema da guerra atrapalha a vida do governo e se calhar a manta é pequena para cobrir todas as necessidades”.

Ainda assim, o responsável promete continuar a insistir para que “essa rutura” avance e diz ter no Presidente da República um aliado na defesa da concretização do plano, um agente de pressão quando disse “é preciso decidir já”.

Noutro plano, Jardim Moreira admite a possibilidade de a REAP se tornar parceiro social a breve prazo porque “existe acordo” e para que isso possa acontecer “falta mudar a lei”.

Na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, revelada na terça-feira, o Papa deixou uma exclamação: "Quantos pobres gera a insensatez da guerra!" Na sua opinião, era importante o Papa sublinhar esta relação entre a guerra e o aumento da pobreza?

É natural e é conveniente que o diga porque a guerra é uma violência contra o ser humano. É um desrespeito pelos direitos e pela dignidade do outro. É insensibilidade à vida, aos afetos, à justiça e à equidade. Portanto, há um ataque direto e absurdo na guerra contra o ser humano para o destruir. É o pior e o maior pecado, o maior ataque à humanidade. Porque é a morte querida, voluntária e bem estruturada.

"A pobreza é uma injustiça, uma forma de corroer a democracia"

Penso que o Papa, como referiu na sua introdução, diz coisas muito sérias e importantes, que eu retomava. Porque o Papa insiste que estamos numa sociedade que se caracteriza pela proposta da felicidade no possuir, no ter, no lucro. E o Evangelho não propõe isso. Nomeadamente no Sermão da Montanha, nas Bem-aventuranças diz-nos que a felicidade está no ser. Eu acho que é esta luta hoje entre o ser e o ter que nós assistimos, nomeadamente aqui na Europa, com o sistema capitalista a enveredar lucro, enquanto a Igreja propõe a felicidade sem o lucro ou sem o objetivo de viver pelo lucro, mas sim, a viver na bem-aventurança da pobreza. Isto é, usando os bens, mas sem serem o objetivo da sua existência.

Essa é uma temática que nós vamos desenvolver daqui a pouco, porque ela é, basicamente ,uma das dimensões que está desenvolvida nesta mensagem para o Dia Mundial dos Pobres. A outra, que por onde tínhamos começado, tem a ver com esta questão da guerra e do seu impacto nas populações mais vulneráveis. O Papa tem insistido muito na questão do apoio solidário, mas alerta para dificuldades no acolhimento e, sobretudo, para a possibilidade de se perder a motivação inicial.

E esta é a pergunta: existe o risco de se começar a ver a guerra como algo ordinário e acostumarmo-nos a este sofrimento?

Acho que podemos olhar para a guerra neste momento como um jogo de forças políticas e de interesse de blocos, onde as pessoas passam a ser apenas marionetas. Se morrem mais ou menos 100, não é importante. O que importa é a predominância da minha vontade, do meu objetivo político estratégico. Por isso, a guerra pode durar mais um ano porque isso não importa. O que importa é que as forças militares tenham poder bastante para dizimar também os soldados russos e fazer recuar toda a grande metralha do exército russo. Isto é, o importante é repelir a ameaça do inimigo. E não importa, neste momento, quem é que vai sofrer para pagar esta guerra. Eu penso que há aqui um discurso que está a ser elaborado, que me parece que foge à realidade, porque penso que, como estamos num tempo em que a verdade só existe a 50%, a gente passa a não saber aonde está a verdade toda. E nunca está de lado nenhum, pelos vistos, pois assim acontece em tempo de guerra.

Mas esse arrastar não poderá também, de alguma forma, tornar banal a referência à guerra?

Ela tornou se banal porque se torna secundária.

Essa secundarização pode também deixar para trás as pessoas que estão a sofrer?

Necessariamente, ficam. Porque o objetivo não é cuidar das pessoas. O objetivo é defender ideologias e forças políticas e estratégicas. Neste momento, não está ainda definido como vai terminar esta guerra na constituição dos blocos que vão provocar uma nova geografia do planeta, mas as grandes potências, como é que elas se vão delimitar? E quem é que vai ser amigo ou inimigo de quem? E este ajustamento vai demorar algum tempo a fazer-se e os ucranianos são apenas o pivô de uma discussão que não vai parar tão cedo, certamente. Porque as razões tornaram-se globais e tornaram-se planetárias e, portanto, a circunstância local já não é a mais importante. São as razões globais e interblocos no planeta.

"Reduzir a luta contra a pobreza apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro não chega"

As pessoas que nos estão a ouvir percebem que há consequências globais porque, depois da pandemia, esta guerra trouxe aumentos significativos de preço e a vescassez de alguns alimentos. Para Portugal, esta espécie de tempestade perfeita está a ter já algum reflexo nos índices de pobreza?

Necessariamente já teve e vai ter mais. Já vinha da pandemia em que houve um aumento substancial e já estávamos com 23% da população pobre. Ou, melhor, em risco de pobreza, sabendo que este número corresponde ao número após a transferência das prestações sociais. Sem as prestações sociais íamos para 43%. Quer dizer que a realidade nacional é bastante mais sombria do que aquela que normalmente corre. A gente tem de perceber que a realidade social portuguesa não tem qualidade de vida. Vive na subsidiodependência, por mais que se queira encobrir. Mas é uma forma de manter a pobreza em Portugal e não de tirar os portugueses das suas incapacidades, relacionadas com a qualidade ou com as oportunidades de acesso à vida, aos instrumentos de desenvolvimento e à inclusão das pessoas.

Nessa perspetiva, a aposta no aumento do salário mínimo pode ajudar a ser solução ou é também necessário apostar, como muitos defendem, num aumento do salário médio?

A solução não está em atirar dinheiro para os problemas. Essa é uma situação política tradicional e assistencialista que não tem resolvido nem vai resolver. Porque é preciso trabalhar com as pessoas para que elas saiam pela sua capacidade e pelo seu desenvolvimento integral da situação em que vivem. Eu penso que é necessário - e se calhar nós os cristãos - temos de o afirmar muito claramente que a pobreza não é só comer e dormir. Nós somos um todo antropológico, uma unidade antropológica. Nós somos um espírito e a pobreza passa pelo desenvolvimento integral de todas estas capacidades emoções, inteligência, vontade, afeto, família, comunhão, sem as quais nós não somos pessoas. E portanto, reduzir a luta contra a pobreza apenas a dar um ordenado e a dar dinheiro não chega. É reduzir a pessoa à baixa condição de animal, ou pouco menos

Tem falado, nomeadamente na questão da educação, que é fundamental?

Mas temos de dizer que educação não é igual a informação. A educação, no meu entender, é desenvolver todas as potencialidades humanas, de modo que a pessoa seja desenvolvida na sua integralidade. E, por isso, nós, os cristãos, temos o dever de insistir que a luta contra a pobreza é pela dignidade da pessoa toda.

"Em Portugal, ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza"

Nesse contexto, pergunto-lhe, em relação à estratégia de combate à pobreza, que ajudou também a definir e que já foi publicada há cerca de meio ano, o que é que esses alertas podem ajudar para ser colocada em prática uma estratégia que funcione?

O que eu penso é que está neste momento em cima da mesa, se não estará na gaveta, mas tenho medo porque ela é uma rutura. Ela pressupõe para ser aplicada uma certa rutura de mentalidades e de políticas e de políticas sociais do Estado. Porque nós sabemos que as políticas sociais, desde o 25 de Abril, têm mantido a pobreza neste nível de 20%, 18% 22%., e não sai daqui. Quer dizer que em Portugal ainda são precisas cinco gerações para que uma família saia da pobreza. Quer dizer que o dinheiro que se gasta aos milhões e milhões não tem um resultado prático na libertação de ninguém da pobreza a curto prazo. E, portanto, só uma mudança estratégica supõe uma mudança ideológica, e uma mudança política e de conceitos e de valores e é uma mudança estrutural. E não sei neste conjunto (cenário) que não favorece com mais este problema da guerra, o problema da inflação, o problema do aumento das fontes energéticas, isto vai atrapalhar mais a vida do governo, para poder governar isso tudo não é. Se calhar a manta é pequena para cobrir todas as necessidades. E eu tenho insistido, e estamos a insistir. O Presidente da República há dias dizia que é preciso decidir já. "É preciso decidir já". E eu não sei se teve alguém que ouvisse.

Isso foi uma forma de pressionar o Governo?

Exatamente. Foi assim que eu o entendi. O Governo estava presente, pois esteve presente no nosso congresso o primeiro-ministro, esteve presente a ministra do Trabalho, esteve presente o presidente da Assembleia da República e o ministro da Administração Interna também esteve. Há aqui uma série de circunstâncias que favorecem esta integração e esta aplicação da estratégia. Foi-nos comunicada a estrutura da equipa que vai implementar a estratégia. Agora, está no papel é preciso que passe à prática...

Está pessimista?

Eu não estou pessimista. Eu acho que as situações se complicaram e neste momento é preciso também dar força ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente, antes que passe a hora de as aplicar.

Mas sente que da parte do Governo existe vontade política para avançar?

Pelo menos nos discursos, sim. Agora, as circunstâncias estão a alterar-se um bocado e podem criar problemas. Esta mudança exige clarividência e exige vontade política, e exige uma mudança estratégica que é também estrutural na vida e na governação do país.

Mas é necessário, de facto, alterar alguma coisa, até porque, de acordo com aquilo que vem dizendo ao longo da nossa conversa, é que todas as intervenções ou todas as estratégias de combate à pobreza, na realidade foram um fracasso.

Elas não têm sido um sucesso, não. Não têm sido sucesso porque nem o número altera nem a família sai da pobreza. É uma questão de inteligência e até uma questão prática de evitar, porque são milhões que se gastam por ano, desde o rendimento mínimo de inserção a todos os subsídios. Já é um caudal razoável de dinheiro e, para quem está a ver desse lado, é um dinheiro que não vai ter fruto, não vai ter resultado, vai alimentar a situação, mas não a transforma.

As pessoas que nascem hoje com rendimento mínimo já pensam que isto é um modo de vida nacional? Por quê? Porque não se investe na transformação da situação das pessoas em pobreza.

É preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indivíduo - o avô, a criança… a verdade é que ninguém existe fora de uma família, boa ou má. Para nós, a intervenção da pobreza tem de ser diretamente dirigida à família, no seu todo, ao seu agregado.

Desde a habitação à saúde, a educação ou a cultura. Tudo isso é necessário para que a pessoa saia da pobreza.

Temos um provérbio, que diz “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. É preciso uma aldeia e mais alguém para tirar uma família da pobreza. O problema é igual: a sua educação e a sua inserção.

"É preciso mudar o conceito de luta contra a pobreza, que tem ficado muito centrado no indivíduo (…) ninguém existe fora de uma família, boa ou má. A intervenção na pobreza tem de ser diretamente dirigida à família."

No último dos quatro seminários do Congresso "Diálogos sobre a Pobreza", que a EAPN promoveu, disse que Portugal tem uma rara oportunidade - e penso que estava a referir se também à chamada "bazuca" - de aliar a recuperação económica ao combate à pobreza. É efetivamente o momento de criar uma sociedade mais inclusiva e mais justa?

Estamos convencidos que pode ser e deveria ser. A abundância deste dinheiro todo - não só da "bazuca", mas também dos fundos comunitários - deveria ser canalizada para a mudança da sociedade e das causas que geram este problema que já é endémico em Portugal.

Há um programa que está em curso, de construção de casas para 60 mil famílias. Dizem que já não chega, mas é por aí. Outra questão é apostar no ser humano desde o seu primeiro momento - já vamos na creche e jardim de infância gratuitos, porque é fundamental, mas é preciso que haja capacidade de os acolher e que haja vontade de lá pôr as crianças. Acompanhar os pais e as mães.

Sabemos que a pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina. As mães solteiras, que são em grande número, em Portugal, neste momento criam problemas muito singulares e graves de pobreza, por causa da sua condição. Olhar só para as mães solteiras com olhar de piedade, não basta: é preciso um olhar de justiça e de responsabilidade para com quem gera um filho.

Há quem critique o facto de o Governo e o Estado arcarem com a maior parte da fatia da "bazuca". Isto é motivo de preocupação?
Nestas circunstâncias, tem de ser, não há outra forma, até porque nós não temos em Portugal uma tradição de responsabilidade social na solução dos problemas. Somos herdeiros de uma mentalidade de 40 anos de certa ditadura, com toda a centralização do poder. Mas a verdade é que ele também continua a ser centralizado e temos um Governo muito centralizador de tudo, em Lisboa.

A transferência de competências está agora em cima da mesa, por causa da luta pela questão das verbas, mas eu penso que, mais do que verbas, não está a ser refletida toda a competência que é preciso ter em conta numa transferência de responsabilidade, nas pessoas. A transferência das competências tem, ou deve ter, como objetivo melhorar a possibilidade de acesso aos serviços e a serviços de qualidade.

Estamos a ver neste momento, por exemplo, que na Saúde isso não acontece e só os pobres é que ficam aflitos, os ricos vão para o privado.

Uma das questões que o Papa levantou na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres foi que “a pobreza”. O padre Jardim Moreira também a usou, no colóquio da Gulbenkian. A sociedade ainda não tem consciência dos custos pessoais e coletivos deste problema?

Temos a mesma leitura evangélica, o Espírito Santo é o mesmo. O que é importante dizer é que não é só a economia que mata, mas a pobreza mata, porque as condições de vida são degradantes: a falta de saúde, a falta de higiene, falta de trabalho, a falta de dinheiro, a falta de esperança, de autoestima levam a que a pessoa definhe.

Falava com alguém que um jovem de 58 anos morreu na rua. Por que é que morreu na rua? Abandonou a família, a mulher, deixou de ter cama, deixou de ter comida, alcoolizava-se e em poucos anos morreu. A pobreza leva à morte? Se não tem medicamentos, morre; se não tem o que comer, morre; se não tem higiene, se tem feridas, morre. A morte pode ser mais lenta, mas morre de qualquer forma.

É necessário assumir que somos também coniventes no assassinato, de alguma maneira, daqueles que morrem nesta situação. A sociedade acha que não, porque quer culpabilizar os pobres, diz que são pobres por decisão própria. Terão posteriormente alguma colaboração nessa responsabilidade, mas a verdade é que caíram nesta situação porque são vítimas da injustiça e vítimas de uma situação de desigualdade que os torna assim.

"A pobreza, mundialmente e em Portugal, tem sempre uma faceta feminina (…) Olhar só para as mães solteiras com olhar de piedade, não basta: é preciso um olhar de justiça e de responsabilidade para com quem gera um filho"

A Rede Europeia Anti-Pobreza tem 30 anos de existência num trabalho que é reconhecido como essencial, para destacar o combate à pobreza como uma prioridade O que falta para que este seja o verdadeiro desígnio dos governantes?

Bom, os 30 anos foram necessários para que pudesse ser acreditado em Portugal que há pobres e que a pobreza é uma injustiça, uma forma de corroer a democracia e impedir o desenvolvimento de uma sociedade global. Estes 30 anos foram o momento para podermos atingir as mesas, o Governo, a Assembleia da República, para que este problema fosse aceite como problema nacional. O que falta agora é aceitar que a Rede seja um parceiro de diálogo.

Francisco Assis, presidente do CES, está empenhado em que nós participemos no Conselho Económico e Social, considerando que essa é uma das facetas indispensáveis para conjugar as políticas nacionais. Falamos também com o primeiro-ministro, estão todos de acordo em mudar a lei para que isso possa acontecer.

A Rede, entrando como um verdadeiro parceiro do Governo, poderá então influenciar e apontar os caminhos que são corretos - ou que parecem mais corretos, devem ser sempre avaliados -, de mudanças adequadas para que a luta contra a pobreza seja eficaz.

A breve prazo teremos a Rede Europeia na concertação social?

Penso que sim, está prometido que sim.

Com o Ministério também estamos já como parceiros. O primeiro-ministro aceitou reunir frequentemente connosco, o Presidente procura também ver se conseguimos manter este diálogo de topo, no sentido de pressionar, para que a pessoa humana em Portugal mereça a atenção de todos, que cada um seja motivo suficiente para mudar as políticas.

Passa por aí, então, a criação desse verdadeiro desígnio?

Eu penso que sim, porque de palavras e discursos já chega. Não basta iludir o problema com palmadinhas nas costas, de vez em quando. Esta, para mim, foi a razão do Congresso: manifestarmos cientificamente as nossas opiniões, que não são ideológicas, mas que são científicas, analisadas objetivamente, procurando ver quais são as respostas adequadas, a partir de um diálogo muito franco e muito transparente, com todo o nível de poder.

"Acho que as situações se complicaram e neste momento é preciso também dar força ao Governo para que as medidas sejam tomadas atempadamente"

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17.5.22

Risco de pobreza aumentou entre 2019 e 2020 e atingiu quase 2 milhões de pessoas

in Observador

A taxa de risco de pobreza aumentou mais entre as mulheres e entre as pessoas com mais de 65 anos, tendo também subido entre todos os tipos de famílias, "especialmente nas famílias com crianças".O risco de pobreza aumentou entre 2019 e 2020, segundo dados provisórios do INE revelados no relatório “Portugal, Balanço Social 2021”, atingindo quase 2 milhões de pessoas e com subidas maiores entre mulheres e idosos, mas também nas famílias.

Esta taxa de risco de pobreza aumentou mais entre as mulheres (2,5 pp) e entre as pessoas com mais de 65 anos (2,6 pp), tendo também subido entre todos os tipos de famílias, “especialmente nas famílias com crianças” (2,7 pp).

Dentro das famílias, o maior aumento registou-se nas famílias monoparentais, que sentiu um crescimento de 4,7 pp da pobreza para 30,2% durante o ano de 2020.

Já entre as pessoas desempregadas, a taxa de risco de pobreza atingiu 46,5%, o que representa mais 5,8 pontos percentuais do que em 2019.

Além dos dados preliminares para 2020, o Balanço Social reflete o estado social do país em 2019, ano em que a taxa de risco de pobreza diminuiu 1 pp, para 16,2%, relativamente a 2018, sendo o 5.º ano consecutivo em que este indicador diminui.

“A taxa de risco de pobreza antes de transferências sociais também diminuiu face a 2018, atingindo 42,4%. Tal como em 2018, a taxa de incidência de pobreza é maior entre os desempregados, famílias monoparentais e indivíduos menos escolarizados”, lê-se no relatório.

A análise permite ficar a saber que nesse ano a pobreza era mais prevalente entre as pessoas desempregadas (33,3%), as famílias monoparentais (25,5%) e as pessoas com níveis de escolaridade mais baixos (21,9%), sendo que também as mulheres têm maior taxa de risco de pobreza que os homens (16,7% contra 15,6%).

“As crianças (0 aos 17 anos) e as pessoas mais velhas (mais de 65 anos) têm uma taxa de risco de pobreza superior à média nacional”, com 19,1% e 17,5%, respetivamente, em 2019.

No que diz respeito aos idosos, o relatório “Portugal, Balanço Social” aponta que a taxa de risco de pobreza de 17,5% é 2,3 pontos percentuais acima da média nacional e que o valor é ligeiramente superior ao de 2018, quando a taxa de pobreza se ficou nos 17,3%. Quer isto dizer que em 2019, 381 mil idosos eram pobres.

Como é expectável, o pagamento de pensões reduz a taxa de risco de pobreza deste segmento da população significativamente: para 20%, em 2019. O efeito das restantes transferências é menor, mas ainda assim relevante: entre 2017 e 2019, a taxa de risco de pobreza seria cerca de 1,15 vezes maior do que na ausência destas transferências”

Por outro lado, e relativamente à percentagem de pessoas que está em risco de pobreza de forma persistente, ou seja, no ano em análise e na maioria dos três anos anteriores, a taxa é de 9,8%, o que quer dizer, segundo os investigadores, que “60% das pessoas pobres em 2020 estavam numa situação de pobreza persistente”, sendo que destas, “6% nunca saiu da situação de pobreza no período de quatro anos entre 2016 e 2019”.


O relatório aponta também que um dos determinantes da pobreza é a relação com o mercado de trabalho, salientando que uma em cada três pessoas desempregadas são pobres, mas também que, em alguns casos, não basta trabalhar para fugir à pobreza, uma vez que uma em cada 10 pessoas empregadas são pobres.

Efetivamente, “40,6% dos indivíduos pobres vivem em agregados onde se trabalha a tempo inteiro”.

De acordo com a informação do relatório “Portugal, Balanço Social 2021 – Um retrato do país e de um ano de pandemia”, apresentado esta segunda-feira publicamente, e tendo por base os dados preliminares do Inquérito aos Rendimentos e Condições de Vida (ICOR) que o Instituto Nacional de Estatística (INE) disponibilizou em dezembro de 2021, a taxa de risco de pobreza aumentou dois pontos percentuais entre 2019 e 2020.

Os dados recolhidos no ICOR têm por base a situação financeira e profissional das famílias portuguesas em 2020, graças aos quais “é possível descrever sumariamente o impacto da pandemia nas condições de vida das famílias”, desde logo que a taxa de risco de pobreza após transferências sociais passou de 16,2% em 2019 para 18,4% em 2020.

“O número de pessoas em risco de pobreza aumentou de 1,7 milhões em 2019 para 1,9 milhões em 2020″, refere o relatório elaborado pela Nova School of Business & Economics, uma das cinco faculdades da Universidade Nova de Lisboa.

Esta taxa de risco de pobreza aumentou mais entre as mulheres (2,5 pp) e entre as pessoas com mais de 65 anos (2,6 pp), tendo também subido entre todos os tipos de famílias, “especialmente nas famílias com crianças” (2,7 pp).

Dentro das famílias, o maior aumento registou-se nas famílias monoparentais, que sentiu um crescimento de 4,7 pp da pobreza para 30,2% durante o ano de 2020.

Já entre as pessoas desempregadas, a taxa de risco de pobreza atingiu 46,5%, o que representa mais 5,8 pontos percentuais do que em 2019.

Além dos dados preliminares para 2020, o Balanço Social reflete o estado social do país em 2019, ano em que a taxa de risco de pobreza diminuiu 1 pp, para 16,2%, relativamente a 2018, sendo o 5.º ano consecutivo em que este indicador diminui.

“A taxa de risco de pobreza antes de transferências sociais também diminuiu face a 2018, atingindo 42,4%. Tal como em 2018, a taxa de incidência de pobreza é maior entre os desempregados, famílias monoparentais e indivíduos menos escolarizados”, lê-se no relatório.

A análise permite ficar a saber que nesse ano a pobreza era mais prevalente entre as pessoas desempregadas (33,3%), as famílias monoparentais (25,5%) e as pessoas com níveis de escolaridade mais baixos (21,9%), sendo que também as mulheres têm maior taxa de risco de pobreza que os homens (16,7% contra 15,6%).

“As crianças (0 aos 17 anos) e as pessoas mais velhas (mais de 65 anos) têm uma taxa de risco de pobreza superior à média nacional”, com 19,1% e 17,5%, respetivamente, em 2019.

No que diz respeito aos idosos, o relatório “Portugal, Balanço Social” aponta que a taxa de risco de pobreza de 17,5% é 2,3 pontos percentuais acima da média nacional e que o valor é ligeiramente superior ao de 2018, quando a taxa de pobreza se ficou nos 17,3%. Quer isto dizer que em 2019, 381 mil idosos eram pobres.

Como é expectável, o pagamento de pensões reduz a taxa de risco de pobreza deste segmento da população significativamente: para 20%, em 2019. O efeito das restantes transferências é menor, mas ainda assim relevante: entre 2017 e 2019, a taxa de risco de pobreza seria cerca de 1,15 vezes maior do que na ausência destas transferências”.

Por outro lado, e relativamente à percentagem de pessoas que está em risco de pobreza de forma persistente, ou seja, no ano em análise e na maioria dos três anos anteriores, a taxa é de 9,8%, o que quer dizer, segundo os investigadores, que “60% das pessoas pobres em 2020 estavam numa situação de pobreza persistente”, sendo que destas, “6% nunca saiu da situação de pobreza no período de quatro anos entre 2016 e 2019”.

O relatório aponta também que um dos determinantes da pobreza é a relação com o mercado de trabalho, salientando que uma em cada três pessoas desempregadas são pobres, mas também que, em alguns casos, não basta trabalhar para fugir à pobreza, uma vez que uma em cada 10 pessoas empregadas são pobres.

Efetivamente, “40,6% dos indivíduos pobres vivem em agregados onde se trabalha a tempo inteiro”.

Segundo o Balanço Social, e apesar de terem sido verificadas melhorias, as famílias pobres são as que têm piores condições habitacionais, têm uma saúde pior (auto-avaliada) e têm mais dificuldade em aceder a cuidados de saúde.

No que diz respeito à desigualdade na distribuição dos rendimentos, fica a saber-se que em 2018, os 25% mais ricos detinham 42% do rendimento do país, um valor que em 2019 sobe para quase 46%.

O retrato social mostra também um país desigual, com a Região Autónoma dos Açores a manter-se como a que onde há maior taxa de risco de pobreza (28,5%), o Algarve e o Norte onde há maior taxa de privação material severa (6,7%) e os salários mais altos concentrados na região litoral, especialmente na área metropolitana de Lisboa, Centro e Norte.

2.2.22

Algarve é a região continental com maior taxa de risco de pobreza

Por Bruno Filipe Pires, in Barlavento

Algarve é a região continental com maior taxa de risco de pobreza segundo o estudo «Portugal, Balanço Social 2021».

A Fundação «la Caixa», o BPI e a Nova SBE lançaram na terça-feira, dia 18 de janeiro, o relatório «Portugal, Balanço Social 2021», da autoria de Bruno P. Carvalho, Mariana Esteves e Susana Peralta, do Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center.

O trabalho foi realizado no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, um programa plurianual estabelecido entre estas instituições.

O relatório, nesta segunda edição, atualiza a situação social no país, tirando partido dos principais indicadores do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR) de 2020, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em coordenação europeia.

No ICOR 2020, a amostra é constituída por 6.875 pessoas com idade superior a 65 anos, o que corresponde a um universo de 2.228.770 residentes em Portugal.

Outro dos indicadores centrais para a análise é o de «Risco de Pobreza ou Exclusão Social», que inclui não só as pessoas que são pobres do ponto de vista monetário (isto é, com rendimento abaixo do limiar oficial de pobreza), mas também aquelas que se encontram em privação material severa (isto é, que não têm acesso a um conjunto de bens essenciais). Em 2019, o limiar de pobreza equivalia a 6480 euros anuais, ou a 462,9 euros por mês.

Neste aspeto, o norte e o Algarve continuam a ser as regiões de Portugal continental com maior taxa de privação material severa, com 6,7 por cento e 6,5 por cento, respetivamente, em 2019. São igualmente as regiões continentais com maior taxa de pobreza.

Desde 2018 que o ICOR permite uma caracterização regional das condições de vida ao nível das regiões NUTS II, que são sete, ou seja, as duas regiões autónomas e o território continental dividido em cinco regiões.

Em termos regionais, a taxa de risco de pobreza aumentou sobretudo no Algarve (+3,9 pontos percentuais para 21,6 por cento em 2020).

Segundo os autores do estudo, o Algarve voltou, assim, a ser a região continental com maior taxa de risco de pobreza.

No país, cerca de 28 por cento de famílias encontram-se em situação de vulnerabilidade económica, dispondo de um rendimento inferior a 75 por cento do rendimento mediano, ou seja, 8100 euros por ano (em 2019).

«Existem, por isso, bolsas de pobreza persistente em Portugal que devem ser objeto de especial atenção no desenho de políticas públicas», aconselham os autores do estudo.

No que toca ao acesso a cuidados de saúde, no ICOR 2020, 18,9 por cento indicou que pelo menos numa ocasião não conseguiu aceder a consulta ou tratamento de medicina dentária.

Em 2019, 19,1 por cento das crianças em Portugal são pobres. Têm menor acesso à educação pré-escolar, e as que beneficiam de ação social escolar tiveram piores resultados no Estudo Diagnóstico para os alunos do 3º ano (realizado em janeiro de 2021), do que as de meios socioeconómicos menos desfavorecidos.

Ainda no que toca à educação, em 2021, as provas de aferição realizadas numa amostra representativa dos alunos do 2º, 5º e 8º anos de escolaridade mostram que as perturbações na atividade letiva devido à pandemia trouxeram perda de competências face aos anos anteriores.

De igual forma, quando analisada a situação socioeconómica das pessoas com mais de 65 anos, regista-se que 17,5 por cento é pobre em 2019. Isto significa 381 mil pessoas.
Dados de 2018 indicam que 24,9 por cento não tinha capacidade para comprar alimentos para fazer refeições completas e saudáveis, e 6,8 por cento indica ter sentido fome, que não conseguiu satisfazer por falta de dinheiro.

As condições no mercado de trabalho também se alteraram profundamente. No início da pandemia, mais de 40 por cento das pessoas com ensino superior empregadas ficaram em teletrabalho, face a apenas dois por cento de quem não tem educação básica completa e 11 por cento de quem tem ensino básico completo.

Albufeira foi onde, em média, 17,2 por cento da população em idade ativa está inscrita no centro de emprego em 2020, e foi o município onde a taxa de desemprego foi mais elevada. Os autores do estudo admitem que esta estatística se deva ao impacto da pandemia no turismo.

Dados preliminares disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), com base no ICOR 2021, mostram um aumento da pobreza já em 2020.

Em 2019, 9,8 por cento da população encontrava-se em situação de pobreza persistente, ou seja, era pobre em 2018 e em pelo menos dois anos entre 2016 e 2019. Esta percentagem sobe para 11 por cento no caso das crianças e para quase 28 por cento nos desempregados.

Este estudo é feito no âmbito da Estratégia 2020 lançada pela União Europeia em 2010, que se traduz num conjunto de objetivos quantificáveis a atingir em 2020, em cinco áreas chave, inclusive na pobreza e exclusão social.

A pandemia veio mostrar «a existência de meios muito desiguais para se proteger dos riscos económicos e sanitários, dependendo do nível de rendimento, de educação, da profissão que se exerce e da ligação ao mercado de trabalho, mas também da região onde se vive e do grupo etário a que se pertence».

Os dados individuais do ICOR 2021 serão analisados com todo o detalhe na próxima edição do «Portugal, Balanço Social», depois de disponibilizados à comunidade académica no verão de 2022.

Além do relatório completo, é possível consultar um sumário do mesmo.
Pandemia interrompeu ciclo positivo que se observava desde 2015

Em 2020, a taxa de risco de pobreza após transferências sociais do Estado atingiu 18,4 por cento, 2,2 pontos percentuais acima da de 2019 (16,2 por cento), interrompendo a tendência de descida que se observava desde 2015. Logo, o número de pessoas em risco de pobreza aumentou de 1,7 milhões em 2019 para 1,9 milhões em 2020, mais 228 mil. A taxa de risco de pobreza subiu mais entre as mulheres, com um crescimento de 2,5 pontos percentuais entre 2019 e 2020 (+1,9 pontos percentuais para os homens) e entre pessoas com mais de 65 anos (+2,6 pontos percentuais). A taxa de pobreza das famílias com crianças foi, em 2020, de 19,7 por cento, o que representa um crescimento de 2,7 pontos percentuais face a 2019. A taxa de risco de pobreza antes de transferências sociais atingiu, em 2020, 43,5 por cento, o valor mais alto desde 2017.
Portugal estava em «clara aceleração económica»

A economia portuguesa estava «numa clara aceleração económica» entre 2014 e 2017, interrompida em 2020, devido à crise pandémica, quando o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 7,7 por cento. Em 2012, no pico da crise das dívidas soberanas, o PIB caiu quatro por cento, uma queda bastante inferior à de 2020. Desde 2013, o PIB per capita cresceu todos os anos até a um pico de 19.305 euros, em 2019. A pandemia veio contrariar esta tendência, e, em 2020, a riqueza gerada por pessoa em Portugal ficou-se pelos 18.239 euros. Ainda assim, entre 2008 e 2013, durante os anos da crise financeira, o desemprego subiu todos os anos, atingindo um pico de 16,2 por cento em 2013. Desde aí, observou-se um decréscimo progressivo, com a taxa de desemprego a atingir um valor de 6,5 por cento em 2019. Em 2020, o Salário Mínimo Nacional era de 635 euros mensais.
Pensões de velhice são a maioria das transferências sociais

As transferências sociais para indivíduos e agregados são ferramentas fundamentais de redução da desigualdade, pobreza e exclusão social. Há um aumento nominal das pensões de reforma, viuvez e incapacidade em Portugal desde 2008, com maior destaque para as pensões de velhice, cujo valor médio anual é de 5237 euros em 2019. Em Portugal, mais de dois milhões de pessoas eram beneficiárias desta pensão em 2019. Ao contrário, noutros benefícios sociais, como o Rendimento Social de Inserção (RSI), o subsídio de desemprego, subsídio social de desemprego e abono de família, têm-se verificado «reduções significativas» no número de beneficiários. Em 2010, o abono de família sofreu uma reestruturação e o 4º e 5º escalões de rendimento deixaram de receber este apoio, o que provocou uma «quebra abrupta» no número de beneficiários.

20.1.22

Risco de pobreza em Portugal atingiu quase dois milhões de pessoas

in Contacto

Pandemia fez aumentar o número de pessoas em risco de pobreza, no país, de 1,7 milhões em 2019 para 1,9 milhões em 2020. Mulheres e idosos foram os mais atingidos.

O risco de pobreza aumentou entre 2019 e 2020, segundo dados provisórios do INE revelados no relatório “Portugal, Balanço Social 2021”, atingindo quase dois milhões de pessoas e com subidas maiores entre mulheres e idosos, mas também nas famílias.

De acordo com a informação do relatório "Portugal, Balanço Social 2021 – Um retrato do país e de um ano de pandemia", apresentado publicamente esta terça, e tendo por base os dados preliminares do Inquérito aos Rendimentos e Condições de Vida (ICOR) que o Instituto Nacional de Estatística (INE) disponibilizou em dezembro de 2021, a taxa de risco de pobreza aumentou dois pontos percentuais (pp) entre 2019 e 2020.

Os dados recolhidos no ICOR têm por base a situação financeira e profissional das famílias portuguesas em 2020, graças aos quais "é possível descrever sumariamente o impacto da pandemia nas condições de vida das famílias", desde logo que a taxa de risco de pobreza após transferências sociais passou de 16,2% em 2019 para 18,4% em 2020.

"O número de pessoas em risco de pobreza aumentou de 1,7 milhões em 2019 para 1,9 milhões em 2020", refere o relatório elaborado pela Nova School of Business & Economics, uma das cinco faculdades da Universidade Nova de Lisboa.

Esta taxa de risco de pobreza aumentou mais entre as mulheres (2,5 pp) e entre as pessoas com mais de 65 anos (2,6 pp), tendo também subido entre todos os tipos de famílias, "especialmente nas famílias com crianças" (2,7 pp).

Dentro das famílias, o maior aumento registou-se nas famílias monoparentais, que sentiu um crescimento de 4,7 pp da pobreza para 30,2% durante o ano de 2020.

Já entre as pessoas desempregadas, a taxa de risco de pobreza atingiu 46,5%, o que representa mais 5,8 pontos percentuais do que em 2019.

Além dos dados preliminares para 2020, o Balanço Social reflete o estado social do país em 2019, ano em que a taxa de risco de pobreza diminuiu 1 pp, para 16,2%, relativamente a 2018, sendo o 5.º ano consecutivo em que este indicador diminui.

"A taxa de risco de pobreza antes de transferências sociais também diminuiu face a 2018, atingindo 42,4%. Tal como em 2018, a taxa de incidência de pobreza é maior entre os desempregados, famílias monoparentais e indivíduos menos escolarizados", lê-se no relatório.

A análise permite ficar a saber que nesse ano a pobreza era mais prevalente entre as pessoas desempregadas (33,3%), as famílias monoparentais (25,5%) e as pessoas com níveis de escolaridade mais baixos (21,9%), sendo que também as mulheres têm maior taxa de risco de pobreza que os homens (16,7% contra 15,6%).

"As crianças (0 aos 17 anos) e as pessoas mais velhas (mais de 65 anos) têm uma taxa de risco de pobreza superior à média nacional", com 19,1% e 17,5%, respetivamente, em 2019.

No que diz respeito aos idosos, o relatório "Portugal, Balanço Social" aponta que a taxa de risco de pobreza de 17,5% é 2,3 pontos percentuais acima da média nacional e que o valor é ligeiramente superior ao de 2018, quando a taxa de pobreza se ficou nos 17,3%. Quer isto dizer que em 2019, 381 mil idosos eram pobres.

"Como é expectável, o pagamento de pensões reduz a taxa de risco de pobreza deste segmento da população significativamente: para 20%, em 2019". O efeito das restantes transferências é menor, mas ainda assim relevante: entre 2017 e 2019, a taxa de risco de pobreza seria cerca de 1,15 vezes maior do que na ausência destas transferências.
60% das pessoas pobres em 2020 estavam em situação de pobreza persistente

Por outro lado, e relativamente à percentagem de pessoas que está em risco de pobreza de forma persistente, ou seja, no ano em análise e na maioria dos três anos anteriores, a taxa é de 9,8%, o que quer dizer, segundo os investigadores, que "60% das pessoas pobres em 2020 estavam numa situação de pobreza persistente", sendo que destas, "6% nunca saiu da situação de pobreza no período de quatro anos entre 2016 e 2019".

O relatório aponta também que um dos determinantes da pobreza é a relação com o mercado de trabalho, salientando que uma em cada três pessoas desempregadas são pobres, mas também que, em alguns casos, não basta trabalhar para fugir à pobreza, uma vez que uma em cada 10 pessoas empregadas são pobres.

Efetivamente, "40,6% dos indivíduos pobres vivem em agregados onde se trabalha a tempo inteiro".

Segundo o Balanço Social, e apesar de terem sido verificadas melhorias, as famílias pobres são as que têm piores condições habitacionais, têm uma saúde pior (auto-avaliada) e têm mais dificuldade em aceder a cuidados de saúde.

No que diz respeito à desigualdade na distribuição dos rendimentos, fica a saber-se que em 2018, os 25% mais ricos detinham 42% do rendimento do país, um valor que em 2019 sobe para quase 46%.

O retrato social mostra também um país desigual, com a Região Autónoma dos Açores a manter-se como a que onde há maior taxa de risco de pobreza (28,5%), o Algarve e o Norte onde há maior taxa de privação material severa (6,7%) e os salários mais altos concentrados na região litoral, especialmente na área metropolitana de Lisboa, Centro e Norte.

6.1.22

Pandemia fez aumentar para 2,3 milhões os portugueses em risco de pobreza ou exclusão social

Natália Faria, in Público on-line

Inquérito do Instituto Nacional de Estatística, baseado nos rendimentos de 2020, mostra que 18,4% dos portugueses estão agora em risco de pobreza, mais 2,2 pontos percentuais do que no ano anterior à pandemia.

A pandemia empobreceu as mulheres, sobretudo as mulheres mais idosas. Foram pelo menos estas as mais afectadas pelo crescimento do risco de pobreza, que aumentou 2,2 pontos percentuais no ano passado. Passou de 16,2% da população em 2019 para os 18,4%, segundo o Instituto Nacional de Estatística, que conta agora quase 1,9 milhões de portugueses em risco de pobreza.
 

Aumentar

Este aumento, no primeiro ano marcado pelo impacto social e económico da pandemia, inverte a tendência decrescente da taxa de risco de pobreza que se vinha observando desde 2015. Entre 2019 e 2020, houve mais de 228 mil pessoas cujas vidas passaram a estar sob a ameaça da pobreza, isto é, que vivem com menos de 554 euros mensais (6653 por ano).

Segundo o INE, o risco de pobreza fustigou mais as mulheres portuguesas, entre as quais o aumento foi de 2,5 pontos percentuais. Neste grupo, a taxa de risco de pobreza passou de 16,7% em 2019 para os 19,2% do ano passado. No caso particular das mulheres idosas, o aumento foi de três pontos percentuais: de 19,5% para 22,5%.
 



Entre os menores de 18 anos, o risco de pobreza aumentou de 19,1% para 20,4%. E recorde-se, a propósito, que a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP) 2021-2030, aprovada esta semana em Conselho de Ministros, propõe precisamente que crianças e jovens passem a estar no centro das políticas de combate à pobreza. Até 2030, o Governo pretende retirar 660 mil pessoas da pobreza, incluindo 170 mil crianças e jovens e 230 mil trabalhadores.

O INE calcula que o risco de pobreza para a população empregada aumentou 1,6 pontos percentuais, tendo atingido uma taxa de 11% – o valor mais alto dos últimos dez anos. Sem surpresas, a pobreza entre os desempregados aumentou mais substancialmente. Foi de 46,5% em 2020, mais 5,9 pontos percentuais do que no ano anterior à pandemia.



Nem roupa nova, nem calçado ou dinheiro no bolso

Se ao risco de pobreza somarmos o de exclusão social, aumentaram para 2,3 milhões os portugueses, que, além auferirem rendimentos abaixo dos referidos 554 euros mensais (6653 euros anuais), vivem em agregados familiares com intensidade laboral per capita muito reduzida ou em situação de privação material e social severa. No indicador “taxa de risco de pobreza ou exclusão social”, o aumento foi de 2,4 pontos percentuais, fixando-se agora nos 22,4%.

Recorde-se que houve alterações recentes na metodologia usada nestas cálculos – por exemplo, a intensidade laboral per capita muito reduzida, que abarca os adultos que trabalharam em média menos de 20% do tempo de trabalho disponível, passou a abranger as pessoas até aos 64 anos de idade (antes considerava apenas idades até aos 59 anos).

Por seu turno, a privação material severa, que media as dificuldades de acesso a um conjunto de nove itens (desde a dificuldade em manter a casa aquecida, assegurar o pagamento de uma despesa inesperada a rondar os 500 euros, custear uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias ou manter as rendas ou a prestação da casa em dia) foi alargada para 13 itens e passou a chamar-se “privação material e social severa”.


Além dos habituais indicadores mais focados na privação material e nas dificuldades económico-financeiras, passou a avaliar-se também aspectos relacionados com o bem-estar de cada indivíduo. “Roupa nova, calçado e dinheiro no bolso”, sintetiza o INE, para precisar que passou a medir as dificuldades de acesso à Internet, da capacidade de assegurar a necessária renovação do vestuário, a posse de pelo menos dois pares de calçado adequados à estação do ano e a capacidade para gastar pequenas quantias em actividades de lazer, além da possibilidade de reunião com familiares e amigos para uma refeição ou bebida pelo menos uma vez por mês.
 



Todos os portugueses afectados por pelo menos cinco das 13 dificuldades passaram a incluir-se no grupo dos afectados pela privação material e social severa. E a informação relativa a cada um dos itens, recolhida entre Maio e Setembro de 2021 mas referente aos últimos 12 meses, mostrou, por exemplo, que 6,9% dos portugueses viviam em famílias com rendas, prestações de crédito ou despesas obrigatórias em atraso (mais 1,5 pontos percentuais).

A tendência geral, porém, foi no sentido do desagravamento da privação material e social. A proporção de pessoas em famílias incapazes de custear uma semana de férias por ano fora de casa, por exemplo, baixou de 38% em 2020 para os actuais 36,6%. E os agregados incapazes de manter a casa aquecida também diminuíram de 17,4% para 16,4%.

Desigualdades agravadas

Entre 2019 e 2020, Portugal tornou-se também mais desigual. O coeficiente de Gini (que reflecte as diferenças de rendimentos entre todos os grupos populacionais) subiu para 33%, mais 1,8 pontos percentuais. A região centro foi a mais afectada pelo aumento das desigualdades (de 30% em 2019 para os 33,3% do ano passado), enquanto Alentejo, Algarve e Madeira aparecem no mapa como sendo as regiões menos desiguais do país. O rácio S80/20, que compara a soma do rendimento monetário líquido equivalente dos 20% da população com maiores recursos com os 20% da população com menores recursos, aumentou 14%, de 5 em 2019 para 5,7 em 2020.


Por outro lado, o INE não detectou grandes variações regionais no risco de pobreza ou exclusão social, e os Açores, tradicionalmente a região mais pobre do país e a que soma mais beneficiários do rendimento social de inserção, apresentaram pela primeira vez valores inferiores a 30%.

Aumentou o risco de pobreza em Portugal

in ECO do Dinheiro

O risco de pobreza em Portugal aumentou para 18,4% em 2020, uma subida de 2,2 pontos percentuais face ao ano anterior.

A pandemia trouxe uma recessão sem precedentes em 2020, histórica mesmo. E Portugal foi dos países que menos apoios deu às empresas e às famílias, sobretudo porque não aproveitou os ventos favoráveis dos anos anteriores para descer a dívida pública de forma mais agressiva.

As consequências estão a fazer-se sentir. O risco de pobreza em Portugal aumentou para 18,4% em 2020, uma subida de 2,2 pontos percentuais (p.p.) relativamente ao ano anterior, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados esta sexta-feira.

A taxa de risco de pobreza, refira-se, correspondia em 2020 à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos inferiores 554 euros por mês, tinha vindo a cair.

Assim, em 2020, eram cerca de 1,8 milhões os residentes em risco de pobreza, mais 228 milhares do que no ano anterior. E quem foi mais afetado? Foram as mulheres e os desempregados.

O país está assim mais desigual depois do pior ano da pandemia.

20.12.21

Risco de pobreza aumentou para 18,4% em 2020

João Tereso Casimiro, in Jornal Económico

O crescimento do risco de pobreza foi mais severo no caso das mulheres, mais 2,5%, de 16,7% em 2019 para 19,2% em 2020, em particular no caso das mulheres idosas, mais 3% de 19,5% para 22,5%.

O risco de pobreza voltou a aumentar em Portugal, desta feita em 2020. Face a 2019, o Instituto Nacional de Estatística (INE) revela que o risco de pobreza aumentou 2,2% para os 18,4%. A taxa de risco de pobreza correspondia, em 2020, à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos (por adulto equivalente) inferiores a 6.653 euros (554 euros por mês).

O crescimento do risco de pobreza foi mais severo no caso das mulheres, mais 2,5%, de 16,7% em 2019 para 19,2% em 2020, em particular no caso das mulheres idosas, mais 3% de 19,5% para 22,5%.

Segundo o INE, “a estratégia económica de crescimento da União Europeia para a próxima década, designada estratégia Europa 2030, define, entre outros objetivos, a redução do número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social na União Europeia em, pelo menos, 15 milhões de pessoas até 2030, e define um novo indicador de monitorização da população em risco de pobreza ou exclusão social, que conjuga as condições de pobreza relativa, de privação material e social severa e um novo indicador de intensidade laboral per capita muito reduzida”.

Em 2021 (rendimentos de 2020), em Portugal, 2.302 milhares de pessoas encontravam-se em risco de pobreza ou exclusão social – pessoas em risco de pobreza ou a viver em agregados com intensidade laboral per capita muito reduzida ou em situação de privação material e social severa. Consequentemente, a taxa de pobreza ou exclusão social foi de 22,4%, mais 2,4% do que no ano anterior.

O INE cita o Coeficiente de Gini para revelar que Portugal foi, em geral, uma sociedade mais desigual em 2020. O Coeficiente de Gini, que reflete as diferenças de rendimentos entre todos os grupos populacionais, registou um valor de 33%, mais 1,8% do que no ano anterior (31,2%), e o rácio S80/S20, que compara a soma do rendimento monetário líquido equivalente dos 20% da população com maiores recursos com a soma do rendimento monetário líquido equivalente dos 20% da população com menores recursos, cresceu 14%, de 5,0 em 2019 para 5,7 em 2020.

A desigualdade aumentou em todas as regiões NUTS II, à exceção da Região Autónoma dos Açores. A região Centro foi aquela em que a desigualdade mais aumentou.


29.10.21

Uma em cada quatro crianças na UE está em risco de pobreza ou exclusão social. Portugal a meio da tabela

Joana Morais Fonseca, in Eco on-line

No ano passado, uma em cada quatro crianças na UE encontrava-se em risco de pobreza ou de exclusão social. Portugal está sensivelmente a meio da tabela, com cerca de 22% das crianças nesta situação.

Em 2020, cerca de uma em cada quatro crianças na União Europeia (UE) encontrava-se em risco de pobreza ou de exclusão social, segundo os dados divulgados esta quinta-feira pelo Eurostat. Portugal está, sensivelmente a meio da tabela, com cerca de 22% das crianças nesta situação.

Os dados do gabinete de estatísticas da UE revelam que, no ano passado, 24,2% das crianças com menos de 18 anos do bloco comunitário corriam o risco de pobreza ou de exclusão social, um aumento de 22,8% face a 2019. Quanto aos adultos entre os 18 aos 24 anos e aos idosos com 65 ou mais anos este indicador é ligeiramente inferior, situando-se em 21,7% e 20,4%, respetivamente.

Ainda assim, também nos adultos e nos idosos o risco de pobreza aumentou em 2020, um ano marcado pela pandemia, que afetou os rendimentos de várias pessoas. Isto porque, em 2019, 21,1% dos adultos encontravam-se nesta situação, bem como 19,4% das pessoas com 65 anos ou mais.

No que concerne ao risco de pobreza e exclusão social nas crianças, Portugal encontra-se sensivelmente a meio da tabela, na 12.ª posição e abaixo da média comunitária, com 21,9% da população em risco de pobreza ou de exclusão social, valor idêntico ao da Áustria e semelhante ao registado em 2019.

Risco de pobreza ou exclusão social das crianças na UE em 2020.Fonte: Eurostat

Os Estados-membros onde esta situação é mais acentuada são a Roménia, onde 41,5% das crianças foram identificados como estando em situação de risco de pobreza ou exclusão social, seguida da Bulgária (33,2%), de Espanha (31,8%) e, em quarto lugar, da Grécia (31,5%).

No extremo oposto, os Estados-membros da UE com menor proporção das crianças em risco de pobreza ou de exclusão sociais são a Eslovénia (12,1%), seguida pela República Checa (12,9%), Dinamarca (13,5%) e Finlândia (14,5%).

25.10.21

Amélia Bastos: “As famílias com crianças têm um risco de pobreza acrescido. O que é contranatura”

Natália Faria, in Público on-line

A professora auxiliar no ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa integrou a equipa que elaborou a proposta de Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, cuja discussão pública termina esta segunda-feira, dia 25.

Em que medida pode a entrada na escolaridade obrigatória aos três anos de idade ajudar a reduzir a pobreza entre as crianças, como propõe a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, cuja discussão pública termina na segunda-feira?
As questões da pobreza infantil podem, grosso modo, ser conduzidas de acordo com dois grandes vectores: os que têm a ver com o reforço dos recursos económicos da família e os ligados à disponibilidade de serviços. Nesta linha, são propostas medidas que têm a ver com escolaridade, saúde, habitação, ocupação de tempos livres. Portanto, são medidas que visam criar um conjunto de condições capazes de quebrar o ciclo de transmissão intergeracional da pobreza. E essa quebra passa por conseguir atingir condições de equidade — não de igualdade, mas equidade — para as crianças. Porquê? Porque as crianças de meios mais desfavorecidos têm, mesmo antes da nascença, desvantagens comparativas relativamente aos seus pares. Ora diminuir estas desvantagens comparativas, em termos de escolaridade, significa dar às crianças um empowerment que permita um desenvolvimento cognitivo que as possa equiparar e apetrechar para o sucesso escolar. Fomentando o sucesso escolar, estamos a fomentar também a sua qualificação e a prepará-las melhor para o mercado de trabalho e, portanto, a contribuir para a tal quebra no ciclo de transmissão intergeracional da pobreza.

Se a nossa unidade de análise é a criança, então a lente tem de ser a lente da criança Amélia Bastos

Olhando para trás e para a evolução dos indicadores de pobreza, por que é que esta se mostra tão persistente em Portugal, e, por outro lado, que medidas se revelaram mais eficazes e merecem como tal ser reforçadas?
No que respeita às crianças, é importante construir um modelo de apoio de suporte às famílias com crianças, nomeadamente àquelas que vivem em condições mais vulneráveis. Se olharmos para o risco de pobreza entre famílias com crianças e sem crianças, logo aí vemos que as famílias com crianças têm um risco de pobreza acrescido. O que é contranatura, porque dá-nos a sensação de que ter uma criança num agregado familiar constitui um factor de vulnerabilidade. E não tem existido um olhar para as crianças como um grupo etário prioritário na luta contra a pobreza. Isso não tem sido feito e talvez aí radique alguma das razões pelas quais as crianças continuam a ser o grupo etário mais vulnerável à pobreza. Por outro lado, continuamos a ter um conhecimento muito deficitário da real condição de vida das crianças, porque a lente com que as observamos é sempre uma lente indirecta, que incide na família. Mesmo as estatísticas oficiais do Eurostat e do INE têm como unidade de observação a família, quando a unidade de análise devia ser a criança. Nesse âmbito, estou a coordenar um projecto no Laboratório Colaborativo ProChild para a construção de um Observatório da Criança, que pretende disponibilizar uma plataforma digital que agregue informação sobre a criança e sobre as suas condições de vida. As políticas públicas só podem ser eficientes se forem alimentadas por diagnósticos actuais, rigorosos e precisos dos problemas que existem.

Consegue dissociar-se a situação da criança do seu contexto familiar?
Não julgo que se possa dissociar a situação da criança do seu contexto familiar, julgo é que, se a nossa unidade de análise é a criança, então a lente tem de ser a lente da criança, ou seja, tem de ter em conta o bem-estar da criança, onde, além das condições de vida do seu agregado, entram elementos específicos da criança como a qualidade de ensino, a qualidade dos serviços de saúde, os espaços de lazer… Sendo que estamos perante um grupo muito heterogéneo, que vai dos 0 aos 17 anos de idade, e as estatísticas mostram-nos uma diferenciação etária, apontando os grupos etários mais velhos como sendo aqueles em que a intensidade da pobreza se faz sentir de uma forma mais significativa e mais persistente.

Está confiante na capacidade de operacionalização das medidas propostas?
Sem dúvida nenhuma. Parece-me uma oportunidade para pensarmos as questões da pobreza, em particular no que diz respeito à pobreza infantil. É com muita satisfação que vejo que o eixo relativamente às crianças está autonomizado e é o primeiro eixo considerado nesta estratégia.

Mas será o país capaz de adoptar esta estratégia de forma transversal, fazendo com que o combate à pobreza deixe de estar acantonado no Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social?
A minha esperança é essa. Acho que as nossas crianças e a nossa população pobre constituem uma realidade de dimensão muito gritante na nossa sociedade e que todos nos deveríamos, não digo escandalizar que talvez seja uma palavra demasiado forte, mas pelo menos insurgir contra o facto de na nossa sociedade existirem co-cidadãos a viver em condições tão pouco dignas.