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11.9.23

Freguesia nos Açores tem mais camas turísticas do que habitantes

Rui Pedro Paiva, in Público

A freguesia de Santo Amaro tem sido um dos locais mais procurados pelos investidores na ilha do Pico. É um reflexo de um arquipélago que se debate entre os prós e os contras do turismo.

Debruçada à beira-mar, aconchegada pelo verde da serra, a freguesia de Santo Amaro é uma pitoresca freguesia da ilha do Pico, nos Açores. Nos últimos anos, com o aumento do turismo, a terra que em tempos foi o principal estaleiro naval do arquipélago viu nascer dezenas de empreendimentos turísticos. Uma turistificação que está a preocupar a população da freguesia que já é inferior ao número de camas.

Santo Amaro tem 255 habitantes (tinha 288 em 2011), segundo os últimos Censos, e 264 camas turísticas, distribuídas por 51 unidades em todo o tipo de tipologias. É expectável que o número aumente nos próximos meses, uma vez que existem 24 projectos aprovados ou em apreciação que, no total, representam 178 camas.

A onda turística tem gerado alarme nos residentes, preocupados com a descaracterização da terra e com o aumento do custo de vida. A partir de Santo Amaro, Duarte Neves, 26 anos, criou uma petição, subscrita, até ao final da semana passada, por 848 pessoas, a denunciar o “desenvolvimento turístico desequilibrado” e a “especulação imobiliária insustentável nos Açores e no Pico”.

“Está-se a caminhar para uma monocultura do turismo. Tudo o que abre e se incentiva é relacionado com o turismo. A minha geração está a voltar para aqui, ao contrário da anterior, mas é toda para
O tema é sensível e divide opiniões: há sempre quem olhe para o crescimento do turismo como o “caminho do desenvolvimento”. No caso de Duarte, que viveu cinco anos em Lisboa antes de voltar à ilha-mãe, o turismo descontrolado já está a “descaracterizar muito” Santo Amaro.


“Santo Amaro, com a serra atrás, é como um anfiteatro em volta do mar. Qualquer pequena alteração é uma alteração gigantesca”, explica o jovem, funcionário da única mercearia da freguesia, um local de resistência, um “ponto de encontro e de ajuda”.


O caso de Santo Amaro é paradigmático devido à vivência comunitária e à identidade vincada da freguesia. Um legado em risco de ser esvaziado à conta do turismo. “Somos uma freguesia muito orgulhosa, mas cada vez mais nota-se as coisas a serem transformadas apenas em produtos para serem vendidos a quem vem de fora”, lamenta Duarte Neves, alertando, também, para as várias casas de férias “fechadas o ano inteiro”. “Está-se sempre a construir casas que acabam por descaracterizar não só a nível arquitectónico e urbanístico, mas ao nível da identidade cultural.”


A situação gera “preocupação” na junta de freguesia, que procura atender às diferentes perspectivas. “Ninguém está contra certos empreendimentos bem enquadrados e que recuperaram património”, mas o “desenvolvimento da freguesia não pode acontecer a qualquer custo”, defende Marta Matos, a presidente da junta.



Uma sociedade “fracturada”

É em Santo Amaro que estão localizados, por exemplo, os espaços Lava Homes (inaugurado em 2019) e uma parte das casas da Adegas do Pico. Muitos dos empreendimentos foram erguidos com capital estrangeiro com investimentos impossíveis de acompanhar pelos residentes, fazendo disparar o preço dos terrenos e das casas. Um relato extensível a várias zonas do país.
Se, para uns, os efeitos do turismo são perversos, para outros, são benéficos. “Comecei a sentir a freguesia a fracturar-se entre aqueles que são a favor e os que são contra este caminho”, explica Marta Matos, descrevendo uma tensão transversal aos Açores. O arquipélago confronta-se com um debate sobre o rumo do turismo, dividindo-se entre os que defendem os benefícios económicos do sector (argumentando, por exemplo, com a valorização do património e a criação de emprego) e os que apontam para a possibilidade real de uma massificação turística.


No caso de Santo Amaro, as consequências são bem reais: os residentes já sentem um congestionamento na circulação rodoviária e na gestão de resíduos e um “disparar dos preços de bens, serviços e habitação”, constrangimentos que “dificultam a fixação” dos naturais, alerta a autarca, também deputada regional do PS.


Existem igualmente problemas no abastecimento de água, um problema recorrente em São Roque do Pico. “No Verão passado foi complicado. Não há água para abastecer todas essas unidades turísticas, para mais com a previsão de construção de piscinas em quase todas elas.”


Entre os empreendimentos em análise, existe um resort projectado para a zona do Cabo das Casas que prevê a construção de 104 camas distribuídas por 26 casas, um restaurante com capacidade para 100 pessoas, uma piscina e estacionamento para 60 viaturas.


Não “bastam palavras” para garantir a sustentabilidade do destino, defende a presidente da Junta de Santo Amaro, que propõe a definição da “capacidade de carga de cada comunidade”. A situação está “fugir ao controlo”. “A preocupação maior da junta é que seja afectada permanentemente a nossa vivência comunitária perdendo-se este nosso modo de vida que nos faz gostar de ser de cá e de estar cá.”

O caso de Santo Amaro é o símbolo de uma região cada vez mais dependente do turismo – para bem e para o mal. Em Julho, os Açores registaram cerca de 495 mil dormidas, mais 14,1% do que em Julho de 2022, que, por sua vez, já tinha batido os valores do mesmo mês de 2019 (433.772 e 391.201 dormidas, respectivamente). O recorde de 3,2 milhões de dormidas obtido em 2022 promete ser batido este ano.



“A região já não está em harmonia com o ambiente. Basta ir aos pontos mais turísticos para ver que não há sustentabilidade nenhuma”, atira o arquitecto açoriano Jorge Kol de Carvalho, que tem sido uma das vozes mais recorrentes a chamar a atenção para a situação de Santo Amaro.

O antigo presidente da Ordem dos Arquitectos nos Açores (2003 a 2008) levou o caso da freguesia ao 16º. Congresso da Ordem dos Arquitectos, realizado em Março em São Miguel, cujo tema foi, precisamente, a sustentabilidade. “Quando o tema do congresso era o futuro, perguntei se é este é o futuro que nós queremos.”

Para Kol de Carvalho, os Açores estão a caminhar para a massificação e pede para que o turismo na região não seja medido “com os mesmos parâmetros” do continente porque as ilhas não são um território contínuo. “Quem aluga um carro em Lisboa pode aparecer no Algarve. Aqui, não.”


Por isso, é preciso reflectir sobre o futuro do turismo nos Açores e pensar num ordenamento do território “que não se baseie apenas em construir mais parques de estacionamento”. “Quando temos este excesso de automóveis e de camas, não temos infra-estruturas que aguentem.”

30.8.23

Quase dois terços das novas drogas sintéticas detectadas em Portugal estão nos Açores e na Madeira

Ana Dias Cordeiro, in Público online

O Laboratório de Polícia Científica comprova “desproporção muito significativa” entre o continente e as ilhas, onde aumentam os internamentos em psiquiatria por consumo de novas substâncias.
30 de Agosto de 2023, 6:45

Os pedidos para exames laboratoriais de Drogas e Toxicologia vindos da Madeira e dos Açores, cujos resultados comprovam depois serem Novas Substâncias Psicoactivas (NSP), correspondem actualmente a 60% do todo nacional, de acordo com dados oficiais do Laboratório de Polícia Científica (LPC) da Polícia Judiciária (PJ) relativos a este ano.

Estes dados solicitados pelo PÚBLICO comprovam “o peso enorme” das ilhas no consumo de NSP, segundo disse fonte oficial da PJ. As ilhas têm cerca de 550 mil habitantes e o continente mais de 10 milhões. Mas não é apenas em relação à população que existe uma “desproporção”.

No conjunto das perícias em laboratório feitas para todas as drogas, a Madeira e os Açores apenas representam 7% a 8% do total dos pedidos a nível nacional. É nas solicitações das polícias que dizem respeito às NSP (e que vêm depois a confirmar-se serem novas substâncias) que a Madeira e os Açores assumem uma preponderância evidente.

No universo destas novas drogas (ou sintéticas, porque modificadas quimicamente), as duas regiões autónomas representaram quase dois terços nos primeiros sete meses deste ano, numa tendência que tem marcado os últimos anos. Até 31 de Julho deste ano, os pedidos da Madeira e dos Açores corresponderam a 60% de todas as solicitações nacionais dirigidas ao Laboratório de Polícia Científica da PJ relativas a novas substâncias. Já em 2022, representaram mais de metade (56%) depois de terem assumido maior peso em 2021 (79%) e em 2022 (78%).


Estes números agregam os pedidos da Madeira e dos Açores, não sendo possível, para já, segundo a PJ, separar os números das duas regiões. Em números absolutos, dos 103 pedidos de 2020 relativos a NSP, 80 eram provenientes das ilhas; das 220 solicitações em 2021, Madeira e Açores tinham enviado 174; e em 2022, dos 255 pedidos, foram 143 os correspondentes aos dois arquipélagos.

Essa descida em 2022 estará relacionada com a actualização feita nas listas das drogas criminalizadas. E quando assim é, os pedidos deixam de ser contabilizados como Novas Substâncias Psicoactivas. Uma droga comum na Madeira, a Alpha.PHP, conhecida por bloom, foi criminalizada em 2021. No ano seguinte, os pedidos de exames periciais a esta droga detectada pelas polícias deixaram de contar como NSP.

Internamentos compulsivos

A trajectória, sempre crescente nos últimos anos, do número dos internamentos compulsivos por perturbação psiquiátrica e surtos psicóticos associados a consumos de NSP na Madeira e nos Açores, contribuiu para se atribuir às duas regiões autónomas uma maior prevalência e preocupação relativamente ao consumo destas substâncias, quando comparada com a realidade no continente.




Essa constatação, nunca refutada, resultava de um conhecimento empírico e informal. Agora, os dados oficiais do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária solicitados pelo PÚBLICO demonstram que a existência detectada destas drogas nos dois arquipélagos é, efectivamente, superior.

No universo de exames periciais dos pedidos que chegam especificamente da Madeira e dos Açores, “já está evidenciado que as regiões autónomas representam um peso enorme no que diz respeito às Novas Substâncias Psicoactivas” quando relacionados com os números nacionais, refere fonte oficial da PJ com base nestes dados.

Quando, há duas semanas, o Presidente da República invocou a "falta de consulta" aos governos regionais dos Açores e da Madeira para pedir ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva do diploma que descriminaliza o consumo de qualquer droga independentemente da quantidade – aprovado no Parlamento no mês passado –, justificava a sua decisão precisamente com “a especial incidência dos novos tipos de drogas nas regiões autónomas” e com a necessidade de ter em conta esse contexto para avaliar o impacto da aplicação desta lei na Madeira e nos Açores.

O argumento não colheu. Nesta terça-feira, o Tribunal Constitucional (TC) disse que não se pronunciaria pela inconstitucionalidade, com base nesses pressupostos, e validou a lei, embora admitindo que "a insularidade pode colocar desafios acrescidos em matéria de prevenção e combate ao tráfico e consumo de drogas" e, em particular, das novas substâncias.
"O preço das drogas clássicas na Madeira é superior ao preço de venda no continente. Se os consumidores têm acesso a uma droga sintética, que será diferente, mas mais barata e que, para o consumidor, satisfaz aquilo que ele procura, ele vai comprá-la."Ricardo Tecedeiro - coordenador da Polícia Judiciária na Madeira

Como proposto pelo Partido Socialista, o diploma aprovado retira da legislação actual a menção específica de uma quantidade máxima permitida aos consumidores, a partir da qual poderão ser responsabilizados por tráfico, ficando os órgãos de polícia criminal obrigados a recolher indícios incriminatórios não relacionados com a quantidade em posse do suspeito.

O mesmo diploma incluiu, por iniciativa dos deputados do PSD eleitos pelo círculo da Madeira, a equiparação das drogas sintéticas às drogas clássicas para distinguir entre consumidor e traficante, com base na quantidade em sua posse, já que na lei actual as NSP não são abrangidas por essa distinção.
Mesmas regras para todos

Na altura, os deputados do PSD, eleitos pelo círculo da Madeira, indicaram ser “fundamental aplicar às NSP o mesmo regime e os mesmos princípios que se aplicam às drogas tradicionais e tratar o consumidor das novas substâncias de forma diferente do traficante, tal como já acontece com as drogas clássicas”, também pelo alarme causado pelo efeito nocivo das drogas sintéticas na saúde mental, como comprovam os números dos internamentos compulsivos por surtos psicóticos de consumidores.

Os dados do LPC enviados ao PÚBLICO mostram ainda que têm vindo a aumentar os pedidos de exames laboratoriais para todo o tipo de drogas. Cada pedido contabilizado é referente a uma ou várias apreensões pelas polícias, e relativo a um ou vários tipos de droga. O pedido é único, mas as respostas podem ser várias de acordo com cada lote numa determinada apreensão e com cada tipo de droga apreendida.




Em 2021, o número de pedidos subiu de 6092 para 6882; e em 2022, de novo e de forma significativa, para os 9471. Com os dados dos primeiros sete meses deste ano, cujo total de pedidos (até 31 de Julho) foi de 6782, prevê-se a continuação de uma tendência para o crescimento, já que, a manter-se o ritmo nestes primeiros sete meses do ano, o laboratório poderá chegar a um balanço final, em Dezembro de 2023, de 11.626 pedidos.

O que pode explicar essa maior prevalência das drogas sintéticas nas ilhas que é invocada pelos governos regionais e pelo Presidente da República, prevalência essa que, no acórdão desta terça-feira, os juízes do TC fizeram questão de sublinhar que não ignoram?

"Este é um assunto que deveria ser mais aprofundado, e mais estudado", começa por dizer Ricardo Tecedeiro, o coordenador da Polícia Judiciária na Madeira. "Determinar o padrão de consumo e perfil dos consumidores seria um trabalho importante para compreendermos melhor a realidade."

"Penso que um dos factores tem a ver com o preço de venda, bastante mais baixo do que o preço das drogas clássicas, e a acessibilidade deste tipo de droga. Mas não será o único. O preço das drogas clássicas na Madeira é superior ao preço de venda no continente", diz Ricardo Tecedeiro, que acrescenta o factor risco para os traficantes de fazer chegar droga às regiões insulares.
Quando são novas substâncias, não criminalizadas, o traficante é sujeito a uma contra-ordenação, "e isto é um factor que favorece quem se dedica a este tipo de prática, tanto mais que tem mercado" ao haver procura.Ricardo Tecedeiro - coordenador da Polícia Judiciária na Madeira

"Quem se dedica a este tipo de actividade criminosa, os traficantes, corre um risco acrescido para fazer chegar a droga à Madeira ou aos Açores. A questão do transporte constitui sempre um risco acrescido. A droga aqui é mais cara também porque os riscos são maiores. Se os consumidores têm acesso a uma droga sintética, que será diferente, mas mais barata e que, para o consumidor, satisfaz aquilo que ele procura, e é um produto disponível no mercado, ele vai comprá-la. Há por isso uma grande oportunidade para as pessoas que se dedicam a este tipo de actividade ilícita venderem esse produto."

Por outro lado, e no que respeita ao enquadramento legal, "temos sempre a dificuldade da identificação das substâncias". Quando são novas substâncias, não criminalizadas, o traficante é sujeito a uma contra-ordenação, "e isto é um factor que favorece quem se dedica a este tipo de prática, tanto mais que tem mercado" ao haver procura.

E conclui que, "apesar da diferença dos preços, como há muita possibilidade de comercialização, com menores riscos, os lucros acabam por ser substanciais".

14.7.23

“Só tenho o 9.º ano porque não encontrei a escola certa”

in Público online

Os Açores estão no segundo lugar da Europa com a pior taxa de abandono escolar precoce. Segunda de uma série de reportagens sobre o estado da nação.

Tatiana Gonçalves, de 20 anos, tem no currículo matrículas em sete escolas, mas em nenhuma delas conseguiu chegar além do 9.º ano. A jovem natural da Povoação, concelho que dista mais de 50 quilómetros de Ponta Delgada, na ilha açoriana de São Miguel, saiu de casa aos 18 anos, marcada por um contexto social difícil. Actualmente, faz parte do grupo de jovens NEET (que não estudam, nem trabalham) nos Açores (15,1%), que é muito superior à média nacional (8,9%).

“A minha mãe era como um caracol, sempre a mudar de casa”, começa por dizer ao PÚBLICO para justificar as inscrições em duas escolas diferentes no primeiro ciclo. “Nem cheguei a aparecer numa delas...”. Seguiu-se um percurso acidentado a que não são alheios a discriminação e o bullying de que diz ter sido sempre alvo: primeiro por não se enquadrar no modelo de masculinidade; depois por ser uma jovem transgénero.

O arquipélago é a segunda região da União Europeia com o índice mais elevado de abandono escolar precoce: 23,2%, valor apenas superado pela Guiana Francesa (23,3%). Para estes resultados importa ter em conta a conjuntura sócio-económica daquela que é a região mais desigual do país - um índice de Gini de 34,8%.

Tatiana encontra-se a passar uns dias em casa do amigo Rodrigo Amaral, também de 20 anos e que está empregado num hotel, onde trabalha por turnos. “É uma vida dura”, admite ao PÚBLICO. “Mas é preciso ganhar dinheiro.”

“O meu pai era bêbedo. Chegava a casa, partia coisas e batia nela à minha frente. Se sou a pessoa nervosa que sou hoje, é por causa dele. Não meto a culpa em mais ninguém sem ser nele.”

Aos 18 anos, quando a madrasta morreu – “foi um choque muito grande” –, saiu de casa para morar sozinho. Sempre “preferiu o isolamento” e agora reconhece que era uma pessoa “demasiado fechada”. “Nunca me assumi. Guardei isso para mim. Antes eu não dizia nada. A minha ansiedade e depressão foram por causa disso. Queria ser verdadeiramente eu e não era.” Hoje assume-se como pansexual: gosta de “pessoas e não de géneros”.

Durante o percurso escolar, registou alguns percalços: perdeu o 5.º, o 8.º e o 9.º ano. Optou, depois, por uma escola profissional no ramo da hotelaria, mas as “excessivas regras”, como a proibição de tatuagens e roupas de estilo esburacado, foram um espartilho demasiado apertado: “Tinha de usar uma roupa formal, e eu não sou assim...”

PÚBLICO -

Foi então para a escola profissional da Vila de Franca, onde conheceu Tatiana. Trata-se de dois casos extremos, que podem parecer demasiado específicos, mas que espelham o conservadorismo e a pobreza estrutural da região.

“Os baixos recursos económicos — isto é demonstrado por todos os estudos internacionais — são factor preponderante para um pior desempenho académico”, afirma ao PÚBLICO Francisco Simões, investigador do CIS-ISCTE, destacando a “predominância de mulheres” entre aqueles jovens. Nos Açores, mais de 60% dos alunos beneficiam da acção social escolar.

Apesar do caminho trilhado ao longo das últimas décadas, na região sente-se uma “conflitualidade entre a escola e família que não está resolvida” e existe uma “correlação muito forte entre o abandono escolar precoce” e os jovens NEET. É preciso encontrar formas de valorizar a escola e melhorar o ensino, defende. “Nas regiões periféricas, infelizmente, a qualidade do ensino em geral é mais baixa. Temos tido dificuldade em falar deste assunto.”

Quando Tatiana narra a sua história fica expressa a vontade de esclarecer cada detalhe. “Os problemas” começaram quando ingressou na escola de Rabo de Peixe, onde esteve do 5.º ao 9.º ano. Nessa altura, ainda com nome masculino, assumiu-se como homossexual e começou a ser vítima de violência. “Não me aceitavam pela pessoa que eu era. Existiram professores que me disseram que não ia conseguir ter boas notas por ser assim.”

Qualquer comportamento desviante ao padrão era censurado e a brutalidade escalou quando circularam fotografias suas com maquilhagem. Levou “pancadaria” e “cuspiram-lhe na cara”. “Era um mundo fechado. Sofri de bullying e deram sempre razão a quem me fazia bullying.” As lembranças duras são superadas pelo tom determinando. “A partir daí, percebi que as escolas iam ser difíceis para mim...”

Não se enganou. No ensino secundário, já com a “aparência social” que tem hoje, continuou a ser agredida por colegas. Nunca encontrou protecção nas estruturas de gestão da escola e chegou a ser chamada “esterco” por um professor. “Um amigo meu suicidou-se por causa de bullying nessa escola. Cheguei a perguntar se queriam que fosse a próxima vítima, mas para eles foi o mesmo que nada.” Não voltaria a terminar mais nenhum ano escolar.

Logo aos 18 anos, foi forçada a ser independente porque o padrasto não a aceitava. “A minha mãe teve de escolher entre mim e ele, e escolheu-o, a ele.” Depois de uma fase passageira na casa de um namorado, passou os últimos anos a saltar entre quartos de casas partilhadas, custeando-se com uma pensão social de inclusão, devido aos diabetes, fibrose quística e asma de que padece – mas, ressalva, está “fora de questão passar a vida a depender de subsídios”.

Experimentou a Escola Profissional de Vila Franca do Campo. “Foi a única onde me senti bem.” Só a permissão para utilizar as instalações femininas foi uma “libertação”, confessa. “Mas parece que há sempre um entrave.” Quando não foi a escola, foi o local onde vivia: era “assediada e apalpada todos os dias” e, por isso, decidiu mudar de casa. Passou a viver em Ponta Delgada, a 25 quilómetros da escola. Sem paragens de autocarro por perto e sem forma de se deslocar, acabou por “desistir”.

Para Tatiana, o passado continua a provocar complicações. “Nem digo que era um eu antigo. Era uma personagem. Com o nome morto. Tinha de me assumir assim por causa da minha mãe”, conta, explicando que o processo de mudança de sexo começou há sete meses. Nos papéis, a alteração ficou consumada há dois anos: Tatiana. Actualmente, não estuda nem trabalha. “Eu quero estudar, mas é difícil encontrar a escola certa...”

Ao longo da conversa, a jovem nunca refere o pai, mas quando o assunto é abordado, não se inibe. “Chama-me de aberração. Ele disse que tem vergonha de sair comigo à rua. Já nem me deve reconhecer”. Quando é que o viste pela última vez? “Tem anos, não sei, mas lembro-me de uma das últimas conversas”… Pausa. Tatiana retoma o pensamento subindo o tom da voz. “Expliquei-lhe o nome que escolhi. Fiz o meu nome como Tatiana para homenagear minha irmã que morreu. Era o nome dela. Meu pai bateu na minha mãe e ela teve um aborto instantâneo no dia 16 Fevereiro de 2002. Era para nascer em Agosto”.

“O desafio está na escola e nos professores”

Segundo o relatório Estado da Educação 2021, publicado no início do ano, os Açores são a zona do país com a taxa de escolarização mais baixa no ensino secundário, com 55,7%, bastante longe da segunda região, Lezíria do Tejo, com 77,2% (NUTS III). O arquipélago regista uma taxa de escolarização no ensino básico de 90,2% (a média nacional é 97,4% e existem várias regiões nos 100%) e apresenta taxas de retenção superiores à média nacional em todos nos anos de escolaridade.

Hermínia Rodrigues lida diariamente com a dura realidade da educação nos Açores enquanto presidente do conselho executivo da Escola Básica Integrada de Água de Pau, onde recebe “alunos de contextos difíceis”. “Muitos estudantes não têm qualquer tipo de aspiração ou ambição para o futuro”, assinala a professora que representa os Açores no Conselho Nacional de Educação.

O arquipélago é diverso e as realidades não são homogéneas. São nas zonas de “grande adversidade económica e social”, como Rabo de Peixe ou Água do Pau, que a situação é “mais complicada de contrariar”. “Nestas zonas há uma grande desvalorização da escola, quer por parte dos alunos, quer por alguns encarregados de educação”.

Hermínia Rodrigues defende que é preciso mobilizar a comunidade educativa, mas admite que a missão é difícil quando os conselhos executivos estão “sujeitos a uma grande carga burocrática”.

Estando a região, “de forma geral, bem fornecida de edifícios e equipamentos” e apresentando um “corpo docente minimamente estável”, o objectivo tem de passar pela “criação de uma cultura de escola”. “A escola tem de ser capaz de mobilizar professores e alunos e trabalhar nas aspirações dos estudantes”.

Também para o professor da Universidade dos Açores, Fernando Diogo, especialista em pobreza e educação, o “grande desafio” passa pelos professores e pela escola. É necessário “apostar na formação dos professores”, melhorar a “organização escolar” e criar grupos para os docentes discutirem os problemas da sala de aula entre pares. “O foco da promoção do sucesso escolar tem de ser nos professores. Não é nos alunos, nem nas famílias. É preciso convencer os professores disso.”

O investigador do CICS-Nova aponta a especialização produtiva da economia açoriana, durante décadas assente em qualificações baixas, como um dos factores que motivaram os “jovens a sair precocemente da escola”, uma vez que “havia oferta de trabalho” no sector primário. “Isso já não se verifica, mas a cultura de saída de abandono precoce do mundo escolar instalou-se”, afirma o professor universitário.

O sociólogo aponta ainda outros dois factores para explicar o subdesenvolvimento dos Açores na educação: a reprodução da baixa escolaridade entre gerações e uma aposta política dos governos regionais “excessivamente centrada no betão”. “Continua-se a construir infra-estruturas como se a construção de escolas tivesse qualquer impacto no insucesso escolar. Não tem. Tem zero impacto.”

O futuro de Tatiana – que persegue o sonho de ser influencer – é ainda incerto. Já foi aceite numa escola profissional para o próximo ano lectivo, mas está relutante porque os dirigentes, aquando da entrevista, “mudaram completamente a postura” quando perceberam que era uma mulher “trans”.

Ambiciona regressar à escola de Vila Franca do Campo, a “única onde se sentiu integrada”. Está a tratar da inscrição e, desta vez, não conta desistir porque em Setembro se vai mudar para uma zona mais bem servida de transportes públicos. “Só tenho o 9.º ano porque ainda não encontrei a escola certa”.


5.7.23

“Vais ter de levar comigo, se acontecerem algumas coisas menos agradáveis para ti, poderei ter sido eu”: a ameaça contra Joel Neto

Rui Gustavo, in Expresso

Mensagem foi enviada pelo chefe de gabinete da secretaria Regional da Educação dos Açores e levou à apresentação de uma queixa-crime por ameaça. Na origem de tudo está o livro “ Jénifer, Ou A Princesa da França”

“Ah e só mais uma coisa: se acontecerem algumas coisas menos agradáveis para ti, poderei ter sido eu”: foi esta a mensagem enviada pelo Messenger do Facebook que levou o escritor Joel Neto a apresentar uma queixa por ameaça contra António Bulcão, chefe de Gabinete da Secretaria Regional da Educação dos Açores.

“A referida mensagem faz-me recear pela minha segurança, bem como pela segurança da minha mulher, Marta Cruz Neto, e do meu filho, Artur Cruz Neto, de apenas sete meses e meio, e cujos nomes, aliás, foram textualmente utilizados no decurso da referida série de mensagens”, denuncia o escritor na queixa a que o Expresso teve acesso. “Tanto quanto sei, (…) António Bulcão é (ou foi) caçador, pelo que suponho que, como tantos caçadores e ex-caçadores, disponha de armas de fogo em casa”, descreve o escritor.

Segundo Joel Neto, o envio de mensagens “hostis” e “insultuosas” terá começado em fevereiro, depois da publicação do livro “Jénifer, Ou A Princesa da França”, em que a pobreza endémica da região é denunciada. A ameaça surgiu depois de a RTP ter exibido uma reportagem baseada no livro. Primeiro, Bulcão terá dito: “Vais ter de levar comigo. Tenho pena.” E depois concretizou a alegada ameaça.

“Caso eu tivesse de arriscar uma avaliação diria tratar-se de uma pessoa que não se encontra emocionalmente bem”, diz o queixoso, para quem isso é atestado pelo “facto de a ameaça constante nesta denúncia ter sido enviada por escrito, circunstância tão surpreendente num advogado de profissão”. Neto fez “printscreens” das mensagens que anexou à queixa.

“Evidentemente, e tendo em conta que as palavras escolhidas não são suficientemente substantivas para esclarecer as “coisas menos agradáveis” que me possam acontecer, não se pode excluir a possibilidade de António Bulcão estar a referir-se, antes, ao uso da máquina do Estado, a que tem acesso enquanto membro de primeira linha da equipa que acompanha o Governo Regional, para me atingir”, constata o escritor na queixa.

O Expresso contactou Joel Neto que não quis prestar declarações, mas confirmou a apresentação da queixa no MP dos Açores. A assessoria da Secretaria Regional da Educação informou que António Bulcão “não” pretende reagir à queixa.

Bulcão foi professor de Neto no ensino secundário e os dois tinham uma relação “formal” de amizade que terá começado quando o jornalista e escritor decidiu regressar aos Açores para aí viver. A amizade arrefeceu com a publicação do livro.

“A minha queixa também tem a motivação secundária de defender o exercício da opinião livre nos Açores, por parte de jornalistas ou de cidadãos mais ou menos anónimos. É difícil aceitar que o Governo dos Açores seja aquele em que se pode recorrer a tais métodos de coação.”

3.7.23

Crianças portuguesas estão mais gordas: uma em cada três tem excesso de peso

Vera Lúcia Arreigoso Jornalista e Carlos Esteves Jornalista infográfico, in Expresso


Estudo coordenado pelo Instituto Ricardo Jorge sinaliza aumento do excesso de peso e da obesidade na população entre os seis e os oito anos de idade. Açores é a região onde as crianças têm o peso menos saudável

Abalança não engana: as crianças portuguesas engordaram durante a pandemia e 32% tem excesso de peso e 13,5% é mesmo obesa.

Os dados são relativos à faixa etária dos seis aos oito anos e constam do estudo COSI (Childhood Obesity Surveillance Initiative), na sexta ronda do sistema de vigilância nutricional infantil no âmbito da Organização Mundial da Saúde, e coordenado em Portugal pelo Instituto Ricardo Jorge.

Realizado no no ano letivo de 2021-2022, entre 6205 alunos do primeiro ciclo do ensino básico, o estudo indica um agravamento do desequilíbrio no peso das crianças.

O excesso de peso infantil subiu 2,2 pontos percentuais e a obesidade 1,6, assumindo especial gravidade aos oito anos, com 35,3% ‘fora da linha’.

Os Açores são a região com os piores resultados, com uma prevalência de peso excessivo de 43% e 23% de obesidade. No continente, o Algarve ganha no peso a mais, com 28%, e o Alentejo na percentagem de menor obesidade, com 11,5% de crianças obesas.

Olhando para o panorama europeu, Portugal fica, ainda assim, dentro da média, com uma em cada três crianças com peso acima do indicado.

AMAMENTAÇÃO EQUILIBRA O PESO

Outro dado a reter é a relação entre o peso e a amamentação. Os Açores são a região com menos crianças que beneficiam do aleitamento materno (74%). Ao invés, o Algarve tem a taxa mais expressiva, 93%. No geral, 90% dos bebés em Portugal são amamentados.

É unânime a importância do aleitamento materno e do pequeno-almoço e neste campo também existiu um retrocesso que poderá ter contribuído para os resultados menos satisfatórios. Tomar pequeno-almoço todos os dias deixou de ser uma refeição assegurada por mais de 90% das crianças estudadas como acontecia no diagnóstico anterior, realizado em 2019.
MENOS AÇÚCAR À MESA E NAS ESCOLAS

Apesar do aumento de alguns maus hábitos, também há um aumento de bons comportamentos, mesmo que ainda residuais. São disso exemplos, o crescimento do consumo diário de fruta (63% para 71%), a ingestão diária de hortícolas ou de sopa (69%), a redução do consumo de bolachas doces, bolos ou donuts até três vezes por semana (80% para 72,4%) e de refrigerantes com açúcar (71,3% para 69%).

E o açúcar não só deixou de ir menos vezes à mesa das famílias como também está menos presente nos recintos escolares. A disponibilidade de refrigerantes açucarados diminuiu de 4% para 1% e de snack doces e salgados de 11% para 6%. Em sentido contrário, há mais fruta fresca (62% para 72%) e vegetais (32% para 44%). Até as máquinas de venda automática são agora menos (7% para 3%).
20% VAI PARA A ESCOLA A PÉ OU DE BICICLETA

O estudo do Instituto Ricardo Jorge olhou ainda para a atividade física e o que os investigadores viram não é bom.

“De 2019 para 2022, todos os parâmetros estudados relativos às atividades sedentárias registaram um aumento na ordem dos 2,2 a 9,3 pontos percentuais, com o maior aumento verificado no uso de computadores para jogos eletrónicos durante a semana pelo menos duas horas por dia, concretamente 18% para 27%”, escrevem os autores.

Fica ainda a saber-se que apenas 20,5% vai pra a escola a pé ou de bicicleta e 25% pratica exercício físico num clube desportivo pelo menos quatro horas semanais. No entanto, mais de metade (56%) tem atividade física espontânea (jogos e brincadeiras) pelos menos duas horas por dia durante a semana e 85% aos fins de semana.

26.4.23

Total de desempregados nos Açores diminuiu em março

Ana Carvalho Melo/Lusa, in Açoriano Oriental



O total de desempregados registados nos Açores foi 13,9 % inferior ao verificado no mesmo mês de 2022, segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).


Segundo o IEFP, em Portugal o número de desempregados inscritos nos centros de emprego caiu 3,0% em março face a fevereiro, para 306.157, o valor mais baixo nesse mês dos últimos 30 anos, e 6,2% inferior a março de 2022.

A nível regional, no mês de março, com exceção do Alentejo (+7,2%) e Centro (+0,7%), o desemprego diminuiu, em termos homólogos, com destaque para as regiões autónomas da Madeira (-32,8%), Algarve (-14,3%) e Açores (-13,9%).

Já na análise entre fevereiro e março, o desemprego registado diminuiu em cadeia em todas as regiões, com destaque para a redução de 22,9% na região do Algarve. Em termos homólogos, verificaram-se descidas no Norte, Lisboa e Algarve, salientando-se a redução de 14,3% no Algarve.


O IEFP revela ainda que a nível nacional “o número de jovens desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional foi o mais baixo de sempre (34.232 pessoas) nos meses de março, registando uma diminuição de -1,8% (-622 pessoas) face ao mês homólogo”. Em cadeia, face a fevereiro, o desemprego jovem registou uma descida de 1,2% (-416 jovens).

21.4.23

Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e à Exclusão Social aprovada por unanimidade

 in Açores 9

O Conselho Municipal de Desenvolvimento e Coesão Social, presidido por Pedro Nascimento Cabral, aprovou esta quarta-feira, por unanimidade, a Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e Exclusão Social.


“Alcançar consenso sobre esta matéria é um passo muito importante na criação de um concelho mais justo, unido e capaz de ir ao encontro das necessidades de quem mais precisa. Este é um órgão muito importante para nós. Valorizamos a vossa experiência no terreno e, tenho a certeza que juntos somos capazes que fazer a diferença”, salientou o autarca.

Com o objetivo de combater a pobreza e a exclusão social até 2026, este documento contempla uma análise pormenorizada do quadro socioeconómico do município, sugerindo um plano de ação com 71 medidas a implementar pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento e Coesão Social de Ponta Delgada.

A Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e Exclusão Social vai incidir sobre diferentes públicos e múltiplas áreas de intervenção, procurando, entre outras coisas, reforçar a resposta na habitação, diminuir o número de pessoas em situação de sem abrigo, fomentar um estilo de vida saudável e criar um sistemas de atuação junto de pessoas com problemas de saúde mental.

Agora com o aval de todos os elementos deste órgão, o documento final vai ser submetido à apreciação e votação da Assembleia Municipal.

“Esperamos aprovação por parte da Assembleia Municipal. Com o apoio deste conselho estamos confiantes no resultado final. A implementação desta estratégia é urgente e uma prioridade para nós”, afirmou Pedro Nascimento Cabral, Presidente da autarquia.

O Conselho Municipal de Desenvolvimento e Coesão Social foi instalado a 30 de maio de 2022. É formado por representantes de Instituições Particulares de Solidariedade Social com sede ou delegação no concelho de Ponta Delgada e tem como objetivo a concertação de ideias e estratégias que visam contribuir para o desenvolvimento social, coesão e sustentabilidade do concelho de Ponta Delgada.

27.3.23

Há cada vez menos pessoas a receber Rendimento Social de Inserção

Antena 1, in RTP

O número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção é o mais baixo dos últimos 17 anos. A subida dos rendimentos mais baixos deixou muitas famílias fora destes apoios sociais.


A Região Autónoma dos Açores perdeu quase metade dos beneficiários em cinco anos.

3.2.23

Sustentabilidade e Habitação: as reflexões para o 16.º Congresso dos Arquitetos

Mariana de Melo Gonçalves, in DN

De 2 a 4 de março, a ilha de São Miguel vai receber convidados nacionais e internacionais de várias áreas. O futuro da profissão estará em análise.

O 16.º congresso dos Arquitetos vai pela primeira vez realizar-se nos Açores com a temática da sustentabilidade e também habitação entre 2 e 4 de março.

O presidente da Ordem dos Arquitetos, Gonçalo Byrne, considera o congresso, "um momento muito importante para a vida da ordem e sobretudo para uma espécie de reflexão de toda a atividade que importa a arquitetura e os arquitetos", referiu durante o pequeno-almoço com a imprensa.

Devido ao contexto atual da sociedade com uma crise e económica e climática, a Ordem dos Arquitetos sente que é necessário serem feitas adaptações no exercício da profissão. Este será o foco do congresso deste ano.

Os Açores foram escolhidos devido às várias regiões naturais certificadas e pela sua designação de arquipélago sustentável.

Pela primeira vez, o congresso abre as portas a convidados de outras áreas, desde a construção ao cinema. Durante os três dias do evento, irão decorrer atividades paralelas como um festival de cinema e atuações de artes performativas sobre o tema da sustentabilidade.

A Habitação e a Inclusão são outros dos focos do congresso, sendo a adaptação do património um tema em discussão.

"Temos um Plano Recuperação e Resiliência (PRR) com uma grande fatia ainda por executar, que ainda está a aquecer e há alguns problemas de implementação", explica o Conselho Diretivo Nacional da Ordem. "O problema é que o PRR tem um prazo que não é muito longo para cumprir, uma questão que é complexa e a Ordem já alertou para isso desde o início", acrescentou o presidente.

Para Gonçalo Byrne, o grande problema do PRR é o processo de construção e o tempo de execução. "Com a hiper-legislação que se foi acumulando, os procedimentos burocráticos são de tal maneira complexos que este prazo que normalmente é longo, onde tem de haver um projeto, um concurso e a obra e dura a três anos , mais toda esta híper legislação torna esse processo ainda mais logo".

No entanto, a Ordem dos Arquitetos afirma que está presente no processo do PRR e teve sempre uma posição.

Este ano, todo o congresso será também transmitido no canal da Ordem de forma a estar acessível a todos os interessados.

1.2.23

Coligação afirma que os Açores são região que mais reduziu a pobreza

in Açores 9

Os grupos parlamentares que suportam o Governo Regional (PSD, CDS-PP e PPM) destacaram hoje que os Açores foram a região que mais reduziu a taxa de risco de pobreza ou exclusão após transferências sociais, tendo lamentado a “manipulação grosseira” feita pelo PS sobre o assunto.

“Entre 2020 e 2021, a taxa de risco de pobreza após transferências sociais aumentou 2% no país, enquanto nos Açores diminuiu 6,5%, de 28,5 para 21,9%. Trata-se de um dado muito positivo que ocorre em contraciclo com o agravamento registado a nível nacional”, afirmou a deputada do PSD/Açores Nídia Inácio.

A parlamentar social-democrata falava em conferência de imprensa, na Praia da Vitória, acompanhada pelos deputados Pedro Pinto (CDS-PP) e Guilhermina Silva (PSD), acerca dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento.

Nídia Inácio salientou que a redução acentuada, nos Açores, da taxa de risco de pobreza ou exclusão após transferências sociais ocorre “numa altura em que este indicador piorou em todas as regiões do Continente”.

Isto é, “os Açores foram a região do país que mais reduziu a taxa de risco de pobreza ou exclusão após transferências sociais”, sublinhou.

Daí que não restam dúvidas que “são os apoios sociais deste Governo Regional que estão a reduzir a pobreza nos Açores, como atestam os dados do Instituto Nacional de Estatística”, destacou, elencando as medidas de apoio às famílias tomadas pelo Governo da Coligação.

Desde o Complemento Regional de Pensão, o chamado “cheque pequenino, passando pelo Complemento Açoriano ao Abono de Família, ao Complemento para Aquisição de Medicamentos pelos Idosos, o COMPAMID, às creches gratuitas para todas as famílias, independentemente dos seus rendimentos.

Nídia Inácio apontou o dedo ao PS pela “manipulação grosseira e despudorada” da informação estatística do INE, tendo destacado a verdadeira leitura dos dados: “Entre 2020 e 2021, assistiu-se a uma diminuição da taxa de privação material e social severa, de 13 para 8,7%. Ou seja, verificou-se uma redução muito acentuada da pobreza extrema nos Açores”.

“Os dados agora divulgados pelo INE demonstram que as políticas sociais implementadas pelo Governo da Coligação estão a surtir o efeito esperado e de forma consolidada”, asseverou a social-democrata.

A deputada do PSD/Açores considerou que a “manipulação grosseira” feita pelo PS sobre os dados do INE “revela, inequivocamente, aos açorianos o desespero de quem não aceitou os resultados das eleições”.

“Vasco Cordeiro e Andreia Cardoso manipulam grosseira e despudoradamente os números numa tentativa desesperada de fazer regressar a família socialista ao poder”, afirmou.

Daí que “não admira que a senhora deputada Andreia Cardoso tenha ocultado deliberadamente os dados mais importantes do inquérito do INE”, realçou a deputada do PSD/Açores eleita pela Terceira.

“Lamentamos a leitura desonesta que o Partido Socialista faz em relação ao Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, principalmente quando a senhora deputada do PS Andreia Cardoso não tem qualquer autoridade para falar sobre a pobreza nos Açores”, apontou.

Até porque “não esquecemos que se trata de alguém que teve responsabilidades em três governos socialistas – primeiro como diretora regional e depois como secretária regional –, em que a taxa de pobreza era elevadíssima”, recordou a parlamentar.

“Os açorianos ainda não esqueceram que em 2007, Andreia Cardoso, enquanto diretora regional da Solidariedade e Segurança Social, chegou ao ponto de esbanjar 220 mil euros nas ‘Comemorações do 10.º aniversário do Rendimento Social de Inserção’”, acentuou Nídia Inácio.

E enquanto o combate à pobreza é assumido pelo Governo da Coligação com seriedade e empenho, “a deputada Andreia Cardoso usou os pobres e a pobreza para se promover numa candidatura a uma câmara municipal. Aliás, como era costume na escola deste velho PS”, lamentou.

“Enquanto o PS tenta enganar os açorianos, através de uma manipulação grosseira dos números, o Governo da Coligação está no terreno, implementando medidas para resolver a vida dos açorianos”, concluiu a deputada do PSD/Açores.

10.1.23

Os pobres mais pobres

Joel Neto, in Expresso 

Portugal torna a despertar para a pobreza. E se uma região liderasse todos os rankings de subdesenvolvimento do país ou de toda a UE? Essa região existe e são os Açores. Quase não há um indicador em que o arquipélago não se distinga pela negativa. Lisboa assobia para cima, os políticos, intelectuais e corporações locais assobiam para o lado. Nem os pobres se indignam: não chegam a saber que são pobres. 

O paraíso tem verso sombrio

Há uns tempos perguntaram-me por que razão faço tanta questão que o meu filho, com nascimento aprazado para este outono, cresça nos Açores, onde nasci e vivo desde 2012. Ensaiei argumentos numa crónica de jornal — a centralidade da geografia, a presença do mar, a exuberância da natureza — e até cheguei a aflorar a importância, para uma avaliação geral, da paleta socioeconómica disponível: “Porque poderá conhecer uma razoável abundância e todos os géneros de pobreza, contanto consigamos ajudá-lo a munir-se de curiosidade e de amor.” Mas, agora que penso nisso com mais cuidado, percebo que deixei o mais importante de fora.

Quero que o meu filho cresça nos Açores porque, à partida, crescerá inserido na classe média. Nenhum outro lugar em Portugal é tão privilegiado para uma família de classe média como os Açores. Entretanto, um rico vive tão bem no arquipélago como — é da sua condição — onde quer que seja. Já um pobre vive pior do que em qualquer outra região do país, em alguns casos até da Europa. E para o percebermos não precisamos de exercer uma motricidade muito fina. Nem sequer de visitar de facto as ilhas: basta-nos abrir o site do Instituto Nacional de Estatística (INE) ou mesmo o da Pordata.

Com regularidade ou em permanência, os Açores lideram virtualmente todos os rankings nacionais de subdesenvolvimento humano. Lideram, desde logo, na maior parte das tabelas mais negras da economia: o desemprego (fora flutuações sazonais), a exclusão social e a desigualdade na distribuição dos rendimentos, a dependência do rendimento social de inserção (RSI), com o triplo da taxa nacional, muitas vezes, e a subsidiodependência em geral, o défice de ascensor social, a taxa de pobreza e a pobreza persistente, para citar apenas as principais classificações.

Mas a pobreza não se resume aos números da economia e portanto o mesmo arquipélago lidera nos principais indicadores de fragilidade na educação ou na má relação dos cidadãos com esta: o abandono escolar (em anos normais, igualmente com o triplo da taxa nacional, e neste caso também com a maior de toda a União Europeia), o insucesso escolar, o analfabetismo, etc. Como lidera, aliás, nas deficiências na saúde: entre outros índices, no da mortalidade e no da obesidade infantis, no da diabetes e no do alcoolismo, no do suicídio jovem e, claro, no da baixa esperança média de vida (três anos abaixo da média nacional e quatro da do continente).

Paradigmaticamente, e em coerência, lidera nas mais variadas assimetrias políticas: desde logo, na taxa de abstenção e na insuficiência de participação cívica das mulheres. E lidera, como se torna inevitável tendo com conta todo o quadro, nas chamadas “violências contra as pessoas”: a violência doméstica e o abuso sexual, o incesto e a gravidez na adolescência, entre outros rankings.

São números, em muitos casos, do outrora chamado ‘terceiro mundo’. Não são os únicos a caracterizar as “ilhas de bruma”. Faltam muitas outras coisas nos Açores: cuidados, serviços, recursos, sofisticações, distrações. Mas isso já faz parte do compromisso, mesmo quando este exige o sacrifício da mundividência (isto é, das noções do tamanho e da posição relativa das coisas, da perspetiva, da profundidade de campo e da concatenação em geral). Viver no paraíso da classe média é, para a maior parte desta, uma negociação. Já para os pobres não passa de uma fatalidade. Um pobre dos Açores não pode negociar. Não conhece sequer os termos do negócio, porque provavelmente nem sabe que é pobre.

Olha-se para a sociedade açoriana, toma-se-lhe o pulso, identificam-se-lhe as rotinas, e a conclusão impõe formulação bíblica: mais depressa passará um camelo pelo buraco de uma agulha do que um pobre das ilhas suplantará a condição dos seus pais — mais ainda se crescer num bairro social, até há pouco tempo (e talvez ainda, embora escasseiem agora os recursos) a principal política de habitação em vigor. Isto é: lugares onde é ainda mais provável ouvir de uma criança, perguntando-se-lhe o que quer ser quando for grande, a resposta: “Quero viver do rendimento.” Ou “do ‘resi’” — o dito RSI.

São “Os que, mesmo nascendo no inverno,/ pouco sabem do frio”, como nos versos de Hélia Correia. Um terço da população total, no que importa a este texto: tantos quantos vivem oficialmente abaixo do limiar da pobreza e da exclusão social. E pouco podem, perante a fúria desse rumo, o Espírito Santo e a sua exultante partilha, redentores para todos menos para aqueles que a história empurrou para lá da redenção. Falamos de um arquipélago e — mais importante do que isso — de um povo a caminho de lado nenhum, pelo menos enquanto não se inverterem estas tendências. As explicações são variadas, algumas com raízes tão longínquas que se diluem no tempo. Mas duas são insofismáveis: a negligência das elites locais — que se confundem com a própria classe média, como é típico de uma sociedade essencialmente sem ricos e sem riqueza — e a ausência de escrutínio nacional.

INCÚRIA GENERALIZADA

As razões pelas quais Lisboa há muito deixou de monitorizar os Açores e as condições de vida dos açorianos, se é que alguma vez o fez, andam entre os âmbitos da negligência e do cinismo. Por um lado, a Madeira foi presidida durante tanto tempo por um populista capaz de fazer da palhaçada e da concentração de atenções uma arma política, que se tornou apaziguador (e depois confortável) encaixar os Açores no papel de filho não problemático. Por outro, ambos os arquipélagos sempre custaram dinheiro ao Orçamento do Estado, pelo que foi muitas vezes tentador resumi-los ao papel de propriedades ultramarinas que num verão destes até se pode visitar, para tirar fotografias — e, nesse caso, uma delas ainda mais fotogénica, mais “pura” e grosso modo mais hospitaleira do que a outra, pelo que adequadíssima ao estatuto de éden pátrio.

A incúria local tem outro dolo, porque a deficiente autonomização da pessoa também representa uma oportunidade eleitoral que, quando os recursos são quase todos canalizados pela mesma entidade, se torna facilmente manipulável pelo poder. Nos Açores, o governo regional é ao mesmo tempo o supremo patrão (a função pública, de que tutela boa parte, representa a maior força laboral) e o representante da indústria mais relevante (a da extração de subsídios europeus, cujas candidaturas é ele a mediar). Mercado, não há. Há em cada ciclo político um gabinete, às vezes um homem, no controlo de todas as verbas, e que em tutelas recentes depressa fazia saber em volta o mais importante: aos secretários regionais acabados de nomear, que estavam ali, em primeiro lugar, para garantir o prolongamento do ciclo em causa; aos militantes e controleiros do partido no poder, que em outubro era preciso certificarem-se de que os dependentes de prestações sociais iam votar, enviando para o quartel-general mais próximo uma foto do boletim tirada com o telemóvel; e aos recém-chegados com formação ou ambições, que, nas ilhas, as coisas se faziam “de uma certa maneira”.

Para os impertinentes, como sempre fiz questão de ser — mas nas ilhas com outro sentido de responsabilidade —, ficava guardada a explicação historicista: os Açores vinham das próprias caves do tempo, a pobreza

instalara-se há meio milénio e jamais se conseguiria neutralizar da noite para o dia. Ainda há umas semanas, à margem de um evento público, me detive à conversa com um autarca com longo percurso na governação regional, que me voltou a falar do “atraso endémico”, das leis “do morgadio” — enfim, do costume.

E não me custa concordar com ele. Mas só em parte. Fez-se mais com menos nos primeiros anos de autonomia, em que foi preciso melhorar e até construir portos, aeroportos e todo o género de infraestruturas essenciais ao funcionamento daquilo que, do ponto de vista da administração, é um pequeno país repartido por nove porções de terra espalhadas por centenas de quilómetros de mar enfurecido. Entretanto, levamos quase 40 anos com uma torneira de dinheiro aberta no jardim e, em vez de os índices de desenvolvimento humano dos açorianos convergirem com as médias nacionais, continuam a milhas delas.

Olha-se para a sociedade açoriana e a conclusão impõe formulação bíblica: mais depressa passará um camelo pelo buraco de uma agulha do que um pobre das ilhas suplantará a condição dos seus pais

De vez em quando ainda há uma estatística que melhora um pouco (como até é o caso, desde 2020, da chamada taxa de risco de pobreza, relativa ao rendimento disponível) mas, se não é a curva estrutural da economia a contê-la, então há de ser um alarme conjuntural qualquer: no ano seguinte, no máximo no outro à frente, já a região está de novo no último lugar desse ranking também. A classe média, para a qual o sistema e a sua comunicação estão desenhados — e que os controla, repito —, não se chateia: a pobreza à volta permite-lhe distinguir-se, o que não é despiciendo. “As pessoas também não têm juízo nenhum...”, suspiram os mais indulgentes, cada um segundo a sua formulação. E, se a condescendência se revelar uma opção demasiado obscena, avaliado o requinte da audiência, ainda lhes resta a gargalhada: “Três anos a menos de esperança média de vida? O que queriam, com as touradas da Terceira e a aguardente do Pico?”

Mas a desfaçatez tem perna curta. Basta cruzar os números do INE com os do PNUD: a taxa de risco de pobreza dos Açores era, em cima do arranque da pandemia, superior à da Albânia, à da Arménia, à do Bangladesh, à do Brasil, à da Bulgária ou à do Botsuana — e ainda vamos na letra B. As oscilações verificadas entretanto são, em termos absolutos, residuais. E distinguir as consequências das causas, neste caso, sim, é o verdadeiro salto quântico.

O que a elite e a classe média açoriana ignoram é que a Córsega (por exemplo) também começou desta maneira, com praticamente a mesma complexa conjugação de recalcamentos históricos, recursos a fundo perdido, irresponsabilidades políticas e demasiada gente afundada nas dependências. Hoje, é uma das regiões mais violentas da Europa, um faroeste onde a fraude em torno do subsídio agrícola nacional ou europeu — ou da ajuda pública em geral — convive com a extorsão, a corrupção, a assassínio, o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro, o roubo com violência e o aparelhamento de compras públicas.

Não perdemos pela demora. Só em 2021, a criminalidade violenta cresceu nos Açores um total de 71%. Foram vários os homicídios (tentados, concretizados e até qualificados) ocorridos nos últimos meses, em particular em São Miguel, e, segundo os últimos dados da polícia, foi apreendido no arquipélago mais de um terço das novas substâncias psicotrópicas produzidas e/ou traficadas em Portugal. No próprio dia em que escrevo este texto foi noticiada a detenção, no concelho do nordeste, de um bando de cinco elementos que assaltou uma residência da freguesia da Achadinha e manteve o proprietário sequestrado, com recurso a catanas e a martelos, durante uma noite inteira de terror.

Quem não queira ver nisto uma relação com o facto de ter sido precisamente pelos Açores que a extrema-direita reentrou no arco do poder em Portugal, fá-lo por escolha própria. E quem não queira ver uma relação com a circunstância de um em cada quatro jovens açorianos entre os 15 e os 34 anos não trabalhar nem estudar, idem.

UM DISCURSO HISTÓRICO

Foi neste contexto que, na última primavera, José Manuel Bolieiro, presidente do governo regional desde o final de 2020, anunciou a intenção de concretizar a promessa de pôr “as pessoas primeiro” entregando aos esforços regionais de convergência social 561 milhões dos €1140 milhões a chegar, no âmbito da estratégia de mitigação dos efeitos da pandemia, do FEDER e do Fundo Social Europeu. O anúncio surpreendeu quase toda a gente: enquanto o PS insistia na falta de €80 milhões para as empresas, era o líder da periclitante coligação de direita liderada pelo PSD, e aliás apoiada no Parlamento pelo Chega de André Ventura, a chegar-se à frente não apenas na identificação da pobreza como problema fulcral do arquipélago, mas a reclamar para si a agenda da coesão.

Foi talvez o mais importante discurso de um chefe do governo regional no século XXI: a recolocação de factu dos Açores na rota do desenvolvimento — de que as ilhas se haviam tornado a tresmalhar, repetindo com o PS (1996-2020) a eternização no poder, e a consequente degradação na governação, que já permitira ao PSD (1976-1996) — e, já agora, a de um político de invulgar low-profile, com inegáveis qualidades humanas mas (ou talvez “e”) capaz de negociar até com o diabo, no rumo da própria História. Mas também ficou de imediato claro que, se os parceiros de governo regional (o CDS-PP e o PPM) estavam a bordo, o mesmo não acontecia com as forças do apoio parlamentar (a Iniciativa Liberal, o Chega e um deputado independente vindo do desmembramento deste). O que seria surpreendente se o desprezo pelo tema, salvas oportunidades eleitoralistas, não fosse transversal à sociedade açoriana.

A começar pelo próprio partido que chefia o governo regional, e a que — espero conseguir dar relevância à nota pessoal — cheguei a estar ligado. Moderado de esquerda, ao mesmo tempo apreensivo com a estagnação das minhas ilhas e convicto das virtudes da alternância democrática, aceitei em 2012 tentar ajudar o PSD a regressar ao poder em 2016, assumindo o papel de coordenador do seu programa eleitoral e de governo. Dizer que não foi um sucesso seria um eufemismo: as distâncias ideológicas eram insanáveis, a minha inclinação para as conveniências de circunstância de um partido político era nenhuma e, como não podia deixar de ser, os resultados foram desastrosos. Mas nunca me esqueci de como em todas as filas à minha frente, sempre que subia ao púlpito e tornava a alertar para a tragédia humana que o agravamento dos nossos índices de desenvolvimento ia desenhando, havia militantes revirando os olhos.

Não são só as bases do PSD, e também não são só os partidos. Há quase 50 anos, quando os pioneiros da autonomia constitucional transformaram o arquipélago numa região, fizeram-no com a colaboração de uma série de entidades e corporações. A Universidade dos Açores disseminou a educação superior, com despesas reduzidas e currículos adaptados às necessidades locais. A RTP Açores levou os açorianos às casas uns dos outros, favorecendo um reconhecimento entre pessoas cuja identidade comum não podia concretizar-se pelo mesmo género de decreto que determina uma unidade política. Os intelectuais e artistas das diferentes ilhas, em particular escritores e músicos, empenharam-se em definir os contornos dessa identidade, construindo todo um edifício estético, plástico e lexical que se revelaria indispensável no processo de reconhecimento dos açorianos de si próprios.

Todos eles desmobilizaram, de alguma forma. Constrangida de recursos e nem sempre dirigida por figuras conscientes do seu papel histórico, a RTP Açores só nos últimos anos começou a recuperar algumas das obrigações a que fora renunciando, mas entretanto permanece a braços com a escassez de meios e de orçamento. Concentrada na sua própria sobrevivência, a Universidade ministra vários cursos na área social e até chegou a denunciar a ineficiência do ProSucesso, o programa salvífico com que Carlos César e Vasco Cordeiro tentaram martelar as estatísticas da educação, mas de resto só recentemente voltou a conseguir alguma visibilidade para o seu trabalho nos diferentes domínios da pobreza, quase sempre com assinatura do sociólogo Fernando Diogo. Já os intelectuais e artistas foram em muitos casos acumulando amarguras com o esquecimento (uns), deixando-se contentar por reconhecimentos menores (outros) ou apenas desinteressando-se da res publica (talvez a maior parte), até sobrarem apenas uns quantos veteranos com intervenção pública regular, quase sempre sem compromisso político — independente ou mesmo no âmbito dos partidos —, a par de uma série de jovens já muito mais moldados pela ideia de aldeia global, e portanto menos inquietos com a realidade regional, e uns quantos escritores de meia-idade (como será o meu caso) nem sempre de acordo quanto às principais urgências das ilhas.

Existe um chamado Conselho Económico e Social, que o Governo já prometeu integrar no processo de decisão estratégica, mas de que muitos se riem (e liderado por um banqueiro). Como não é difícil de perceber, a opinião pública não chega a sistematizar uma visão do problema. Nem serão os políticos — ou nunca o foram, até ao inesperado manifesto de Bolieiro — a sugerir-lhe tal coisa. Como me disseram tantas vezes no fim daquelas reuniões partidárias que me deprimiam: “As pessoas não gostam de ouvir essas coisas do incesto, da violência doméstica e do suicídio jovem. Ficam ofendidas.” É eleitoralmente estúpido levantar um assunto assim.

E também não serão as elites a fazê-lo, como já percebi. Munido de estatísticas e preocupações, tentei no início deste ano cativar uma série de intelectuais públicos e profissionais de relevo para uma monitorização independente, laica e humanista da situação social das ilhas. Convidei professores universitários, historiadores, padres, poetas. A resposta mais eloquente foi: “Outro observatório?” Como se estivéssemos a falar de nova confraria. A maior parte aceitou o repto, mas apenas por vergonha de dizer que não — à primeira convocatória, já tinha compromissos inadiáveis.

A OBSESSÃO DOS SENADORES

O que mais depressa ocupa espaço no debate público açoriano, bem vistas as coisas, são questões como a aprovação de um novo regime jurídico das atividades aeroespaciais, destinada a pôr a região na rota do espaço. Ou a criação de incubadoras, ninhos de empresas e bairros digitais, em debate um pouco por todo o lado, a pensar como sempre nos dinheiros europeus. Ou, naturalmente, a divulgação do próximo quadro comunitário de apoio, que nunca mais sai. Ou, na melhor das hipóteses, a redefinição do estatuto político-administrativo regional, cuja proposta já foi encomendada a Eduardo Paz Ferreira, com o intuito de propiciar uma reformulação da lei de finanças regionais e um (e cito) aprofundamento da autonomia.

É o único tema consensual na sociedade açoriana, na verdade: o reforço dos poderes da autonomia. Indiferentes ao modo como se vive nos muitos bairros e amontoados sociais espalhados pelas ilhas, os senadores vêm de vez em quando à janela reclamar novas competências para as autoridades regionais. Logo na semana seguinte, o partido mais empenhado em fazer um brilharete no Parlamento propõe a criação de uma comissão para o estudo da matéria. E os restantes apressam-se a aprovar a ideia por unanimidade: não custa nada, e ao menos isso os açorianos não detestam ouvir — até gostam.

Também isso aplaudo. Mas, de novo, apenas em parte. Sou um romântico da autonomia açoriana, embora menos das primeiras conquistas autonómicas do século XIX, classistas, do que da autonomia constitucional do pós-25 de Abril, exigida para conter a esquerda, mas concedida com um misto de alívio e — que é o que me interessa — consciência democrática. Agora, aprofundar acriticamente esta autonomia, como se a sua fragilidade fosse a escassez de latitude que a lei lhe confere, parece-me não só uma contradição, mas um risco. Muito antes disso, impõe-se uma reflexão: o que é que nesta autonomia, ou no modo como a exercemos, nos deixou neste ponto ao fim de tanto tempo e de tanto dinheiro? Só uma eficaz resposta a essa pergunta nos permitirá não acumular outros 50 anos de grave declínio relativo, apesar do sensível progresso absoluto — e ao fim dos quais talvez já não consigamos mesmo levantar-nos.

Indiferentes ao modo como se vive nos bairros e amontoados sociais espalhados pelas ilhas, os senadores vêm de vez em quando à janela reclamar novas competências para as autoridades regionais

De nada serve a autonomia, esta ou outra (mais ou menos expressiva), se não servir para uma melhoria efetiva das condições de vida da população. Tudo o mais será reconstruir a casa pelo telhado, para usar uma imagem batida. Posto em comparação com os Açores e os seus indicadores sociais, económicos e políticos, o continente português perde-se de vista. Na Madeira, apesar das bolsas de pobreza, do nepotismo endémico e das flutuações estatísticas, vive-se estruturalmente melhor e — muito importante — com mais mobilidade social. E, se para se desfazerem essas assimetrias for preciso equacionar o regresso transitório à figura do ministro da República, então é por aí que a revisão do estatuto deve passar: pela contenção temporária da autonomia, e não pela sua ampliação.

Temos preferido, pelo contrário, sublinhar “o sucesso” que são as regiões autónomas, para usar a expressão — um tanto paradoxal em quem reconhece a urgência de se pôr as pessoas primeiro — de José Manuel Bolieiro. Quase todos os dias nos queixamos de “afrontas centralistas” e, em geral, chamamos “ataque à autonomia” a qualquer denúncia da pobreza em que tantos açorianos vivem e não deixarão de viver. Até o federalismo pedimos, à americana — o nosso próprio estado, nada menos do que isso. É como que uma alucinação coletiva, que mais uma vez só se justifica porque apenas a classe média — isto é, a elite — tem acesso aos escassos fóruns de discussão existentes.

Ainda no verão, uma série de ficção televisiva então em gravações para a Netflix, com guião dos escritores Hugo Gonçalves e João Tordo e do realizador/criador Augusto Fraga (açoriano, por sinal), foi acusada de preparar uma visão arquetípica e condescendente de Rabo de Peixe, a freguesia de São Miguel a que vai buscar o nome. Autarcas, pequenos empresários e demais líderes de comunidade aproveitaram o simples anúncio da produção para vir esmurrar o peito em público, capitalizando eleitoral e economicamente. A ideia da verdade, tanto quanto os benefícios de uma denúncia capaz de catalisar reações positivas, foi-lhes indiferente — mesmo se Rabo de Peixe, que de facto fez algum caminho, continua, apesar disso, o supremo paradigma da privação e do obscurantismo em que se vive nas dezenas de aglomerados de indigência espalhadas pelas nove ilhas.

E, sempre que é preciso, pois diabolizam-se os próprios pobres. São os que “não querem trabalhar”. Os que “querem é viver do RSI”. Os que “andam o dia inteiro pelos cafés porque recebem milhares de euros do Estado” — mesmo quando se sabe que uma prestação do RSI pode não chegar aos €100.

Não estou isento de responsabilidades: eu mesmo, numa fase inicial, acreditei que a devolução da dignidade a essas pessoas tinha de começar pela recuperação do seu sentido de brio e, portanto, da sua relação com o trabalho. Só que, entretanto, passaram-se dez anos sobre o meu regresso. Neste intervalo, vi de tudo: preguiça e desespero, basto aproveitamento político e, acima disso tudo, a ignorância infinita de quem, vítima até nos casos em que abusa, não sabe sequer que a vida não pode ser de outra maneira — até porque nunca o viu acontecer.

Que isso possa custar €100 ou €200, a autodeterminação de uma pessoa e a sua disponibilidade para habitar a escuridão são uma circunstância que me envergonha ainda mais do que me indigna. E que, como diz o cálculo da OCDE, nas famílias em que isto acontece — normalmente, mais de 11% nos Açores, por oposição a menos de 4% a nível nacional — a pobreza esteja destinada a levar cinco gerações a erradicar só me mostra o quão milagrosa foi a minha própria salvação, tendo em conta o lugar e o contexto em que nasci.

É nesse lugar que pretendo que o meu filho cresça, apesar de tudo: nove pedaços de terra deslumbrante, habitada por gente gregária e polvilhada de tradições cultivadas com gosto e devoção. Mas porque o contexto dele será diferente, pelo menos enquanto eu conseguir proporcionar-lho. Entretanto, porém, o tempo continuou a passar. Aos sinais de insegurança, de dia para dia menos circunscritos ao contexto restrito da família, junta-se agora a ameaça da gentrificação. Já é comum encontrar em Ponta Delgada apartamentos de média dimensão a preços superiores aos €300 mil, às vezes €400 mil. Um dia que os ricos do mundo descubram realmente tal paradeiro, os Açores tornar-se-ão inabitáveis para qualquer português, quanto mais para um açoriano.

A brandura de costumes esgotou o seu potencial, e esgotou-o a todos níveis. O ataque a que a autonomia açoriana está de facto sujeita, tanto quanto a própria soberania portuguesa sobre o arquipélago, é esse: o da pobreza, da neutralização da pessoa e, a prazo, do esvaziamento de toda uma sociedade. A sua contenção exige de Portugal e dos portugueses, quaisquer que sejam, a mesma responsabilidade e o mesmo escrutínio. Na pior das hipóteses, ainda temos todos as ilhas para onde fugir com as nossas latas de atum. E depois?

23.5.22

A prioridade do governo é tirar as famílias da pobreza

Por Sara Almeida, in Expresso das Ilhas

Erradicar a pobreza extrema e reduzir a pobreza absoluta é o objectivo máximo de Cabo Verde, e todos os sectores trabalham transversalmente para o mesmo desiderato, garante Lídia Lima. O foco são as famílias, em particular as crianças. Em conversa com o Expresso das Ilhas, por ocasião do Dia Mundial da Família, 15 de Maio, a Secretária de Estado da Inclusão Social fala da situação socio-económica das famílias, dos programas em curso e de projectos futuros para proporcionar uma infância tranquila às crianças, trabalhando (também) assim para quebrar os ciclos de pobreza e garantir a continuidade do desenvolvimento do país.

Quando se fala das famílias cabo-verdianas, a secretária de Estado para a Inclusão social (SEIS) destaca, desde logo, a situação sócio-económica das mesmas. E um olhar pelos números ajuda a caracterizar essas famílias que hoje Cabo Verde tem. Neste momento, em aproximadamente 500 mil habitantes, há cerca de 175 mil pessoas pobres, 115 mil das quais em situação de pobreza extrema. Representam 31,6% da população nacional, uma taxa enorme que está no centro das preocupações do país e que mostra um retrocesso. Como lembra Lídia Lima, em 2019 a taxa de pobreza era de 26%, o que representava então um grande avanço face a 2015, em que era de 35%. Depois vieram a pandemia e a seca e a pobreza aumentou.

“São duas crises que estamos a enfrentar. Agora estamos a sair da pandemia, com uma verificação da retoma da economia, mas temos uma seca severa”, observa.

Cadastro Social

Um dos principais instrumentos no combate à pobreza, e que permite maior assertividade na definição das políticas sociais e na sua aplicação e direccionamento para quem realmente precisa, é o Cadastro Social Único (CSU).

Neste momento, estão registados no CSU 79.051 agregados familiares (305.965 indivíduos), divididos em grupos: grupo 1 – pessoas em situação de pobreza extrema (cerca de 25 mil agregados); grupo 2 - na pobreza (20.800 agregados); grupo 3 – vulneráveis (17 mil), grupo 4 - não pobres.

Embora isso mostre que de 60% da população já está cadastrada, nem todos os concelhos conseguiram registar todas as famílias pobres no CSU, lamenta Lídia Lima.

É com base no CSU que os programas vão então sendo direccionados para as famílias dos grupos prioritários. “Só que os desafios são enormes porque temos de estar constantemente a actualizar o cadastro”, explica.

Agregados que na altura do registo pertenciam a um grupo, com as crises podem ter passado para o nível abaixo. “Famílias que antes estavam no grupo 3, por exemplo, passaram para o grupo 1 ou 2”. Algumas que estavam no grupo 4 podem ter passado para o 3. “As coisas foram mudando, a situação socioeconómica mudou, então isto implica uma mudança também da situação no seio das famílias”.

Uns perderam o emprego, outros tinham um negócio que deixou de render, outros filhos emigrantes que não conseguiram continua a mandar remessa…

É então necessária uma actualização do cadastro, o que já começou a ser feito em alguns concelhos. Muitas vezes são até as próprias famílias “que já estão a entender o funcionamento do cadastro, “que se vão dirigindo às Câmaras para solicitar a actualização do seu registo”, comenta.

Programas

A pandemia veio na verdade testar um conjunto de instrumentos e iniciativas já anteriormente estabelecidos. “Veio a crise e esses programas contribuíram de uma forma espectacular para equilibrarmos a situação social”, analisa.

Um deles foi o referido CSU. Mas também o Rendimento Social de Inclusão (RSI), que como medida emergencial foi alargado a um maior número de beneficiários. Tem conta a retoma da economia e insustentabilidade da manutenção do alargamento emergencial, a medida já foi suspensa.

“É uma obrigação do Estado apoiar as famílias quando estão a passar por dificuldades extremas e não há outra saída. Fizemos aquilo que tinha de ser feito”, mas o Estado não poderia “continuar a suportar um custo de mais de 100 mil contos mensais só com o RSI”, explica.

Assim, passada a emergência (e vinda a retoma), o esforço concentra-se agora em “ajudar as famílias a ganhar a sua independência económica. Empoderá-las e ajudá-las a saírem da situação de pobreza”.

É com esse o objectivo que está ser implementado o programa inclusão produtiva, actualmente a funcionar em 9 concelhos e que deverá ser alargado a todo o país até ao final do mandato. O programa, que nesta fase abrange cerca de 2000 famílias, “consiste na capacitação profissional das famílias pobres e também aquelas que estavam a receber o RSI”. As mesmas receberão ajuda na criação de actividades geradoras de rendimento e gestão do autonegocio. O desafio, continua a SE, é paralelamente, levar as famílias que estão no sector informal a formalizar o seu negócio. Aliás, a pandemia veio mostrar bem essa necessidade de ter uma rede de apoio a nível da segurança social.

Foi inclusive essa falha que levou, também na pandemia, à necessidade de estabelecer o rendimento solidário (RSO), outra medida de emergência, “para socorrer muitas famílias que não tinham nenhum tipo de segurança social”.

“Então, estamos a trabalhar para garantir que essas pessoas que vivem do comércio informal, formalizem o seu negócio e estejam realmente incluídos nessa rede de segurança social. Ajuda o país. Ajuda as famílias. E em momentos de crise podemos estar mais aptos, também a nível de governação para gerir todas as situações que vão surgindo”.

Além dos programas já referidos, outro que se destaca no apoio às famílias é o Programa Nacional de Cuidados, que Lídia Lima avalia ter sido “muito bem estruturado, implementado”. Aqui o desafio é, agora, “reforçar a sua actuação e alargar o número de beneficiários”.

A SE refere ainda o programa Apoio Integrado às Famílias, gerido pela direcção-geral de inclusão social e implementado através de contratos estabelecidos com as câmaras municipais, e que apoia as famílias com despesas de educação, saúde, criação de actividades geradoras de rendimento, entre várias outras.

No meio disto tudo, é ainda importante sensibilizar a “sociedade para aderir e aproveitar esses apoios que o Estado, através do Ministério da Família, vai concedendo”, sublinha a SE.

Crianças

Se tirar as famílias da pobreza é uma prioridade, o foco principal, e assumido, são então as crianças. Como refere, falando no geral, Lídia Lima: “O governo tem definido um conjunto de prioridades em todas as áreas, mas as crianças são a nossa prioridade absoluta e quando pensamos nas crianças estamos a pensar no futuro país, de acordo com os objectivos do desenvolvimento sustentável.”

Assim, reforça, “temos de trabalhar para erradicar a pobreza extrema, temos de trabalhar com os grupos mais vulneráveis, mas temos de dar uma maior atenção, às crianças, porque, para termos garantia de sustentabilidade, temos de ter crianças bem preparadas, inseridas socialmente para que possam no futuro também dar continuidade ao processo de desenvolvimento do país.”

Ora, há, neste momento, 91 mil crianças registadas nos grupos 1,2 e 3, do CSU. Ou seja, 91 mil crianças são pobres em Cabo Verde. “É um número expressivo, preocupante e que nos apela para intervenções rápidas e urgentes”, considera. Até porque priorizar as novas gerações é também dar ênfase à eliminação do ciclo de pobreza.

Para além da pobreza, outras situações que preocupam – e estão muitas vezes relacionadas com a pobreza - são: o abandono por parte das famílias, a desestruturação familiar, a falta de responsabilidade parental e a agressão sexual a crianças.

Vários ministérios, como o da Justiça (recorde-se que foi revista recentemente, no âmbito do novo código penal, a legislação sobre crimes de agressão e violação sexual das crianças) ou da Educação têm também tomado várias medidas para protecção dos menores, e da parte sob alçada particular do Ministério da Família está a haver um reforço do ICCA, tanto a nível das instalações como do aumento de recursos humanos.

“O ICCA está também a trabalhar com planos. Já foi avaliado o plano de combate à violência sexual contra as crianças de 2017-2021 e agora temos o novo Plano que vai até 2023. Vamos contratar um coordenador para trabalhar nesse plano, que iniciará as suas funções ainda neste mês de Maio”.

Está também a ser feita a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), uma actualização que deverá resolver questões como o conceito de menor e situações que limitam a “intervenção judicial em determinados casos”, entre outros.

Responsabilidade parental

Neste desafio de proteger as crianças e proporcionar-lhes uma infância tranquila há, pois, dois actores fundamentais. Um deles é o Estado, que tem o dever de amparar, criar condições lá onde haja necessidade e apoiar as famílias quando estas, sozinhas, não conseguem responder a todas as necessidades.

O outro actor fundamental são, como é óbvio, as famílias e é importante passar essa mensagem “de que a família tem as suas responsabilidades”.

Esta responsabilidade familiar, em sentido lato, passa por diversos aspectos. Um deles é o próprio planeamento. A SE refuta que a aposta, feita desde há décadas, no planeamento familiar não funcionou. “Já estamos a verificar uma diminuição da natalidade”. Porém, é necessário continuar a empoderar as famílias, particularmente as mulheres, até para “saberem fazer a gestão da sua vida, do seu estado emocional, do seu corpo, etc”, considera.

Depois há fenómenos a que os pais também devem ser chamados a responder e ser responsabilizados. Por exemplo, crianças sozinhas a deambular pelas ruas são um fenómeno relativamente comum, com efeitos perversos conhecidos (vulnerabilidade à violência, ao abuso sexual, ao consumo de drogas, etc).

Existe inclusive uma proposta de lei apresentada pelas Aldeias SOS, e que vai nesse sentido. A proposta foi partilhada e discutida entre parceiros, em reuniões em que a SE também participou. Infelizmente, nem todos concordam com a necessidade da existência dessa lei. “Há um foco na questão de subsídio de alimentação, mas essa lei não está a defender apenas esse direito da criança. Tem a ver com outras responsabilidades” parentais.

Lídia Lima, por seu turno, defende a necessidade de uma lei que efectivamente promova essa responsabilização. “As famílias estão a perder muitos dos bons princípios, dos bons valores. Então resgatar posturas e responsabilidades perante esta matéria, tem que ser através da lei. Só com valores, já não dá”, avalia. Através da Lei e com possível penalização “em relação ao acompanhamento e à educação dos filhos”.

“Não podemos desenvolver as sociedades sem regras, sem leis. Quando as pessoas não fazem algo, socialmente, de forma tranquila, tem de ser por imposição”, insiste.

Depois, é preciso fazer vigorar a lei e para tal “as instituições têm que ter mecanismos para realmente fiscalizarem o comportamento dos pais, mas também os estabelecimentos” que permitem menores no seu interior. A par dessas medidas deve haver “muita sensibilização e informação”.

“Temos de mostrar às famílias que elas também se vão perdendo quando os filhos se começam a perder”, acrescenta.

ATL

Voltando ao papel do Estado, neste caso do governo, Lídia Lima defende que mais do que projectos de grande envergadura, este trabalho de combate e prevenção de certas situações, deve ser feito com “pés no chão” e com respostas céleres e sustentáveis. Praticidade nas iniciativas. “Acho que nos falta-nos isso”.

“Há coisas que são muito simples, que se podem fazer com vontade e junção dos esforços- sociedade civil, governo, câmaras”.

Em relação, por exemplo, “à problemática da situação das crianças” que ficam nas ruas, esta é uma situação que tem a ver, muitas vezes, com a dificuldade de as famílias que trabalham acompanharem os filhos, em períodos contrários às aulas.

“As mães vão trabalhar e não sabem o que os filhos ficam a fazer durante o dia”.

Assim, uma proposta da SEIS, desde que entrou no governo, é “agilizar, de forma simples e sem muita burocracia, a criação de espaços nas diferentes localidades, nos bairros mais vulneráveis, para responder às necessidades dessas mulheres”. Ou seja, criar espaços onde as crianças possam ficar no período contrário às aulas.

Embora já existam alguns espaços assim, em alguns concelhos, estes são manifestamente insuficientes.

“Defendo a proliferação desse tipo de iniciativas, porque é assim que o Estado tem de ajudar”, sublinha. Ajudar as famílias, no sentido de “prevenir o surgimento de situações de crianças na rua e garantir o aproveitamento escolar das crianças. Tem que ser assim”.

Esses espaços devem, defende ainda, funcionar sob uma conjugação de esforços, num trabalho integrando vários sectores e tutelas. “As associações sozinhas não conseguem, mesmo com financiamentos, devem ser acompanhadas, apoiadas a diversos níveis”. E o trabalho deve ser feito não só com a criança, mas com a “criança integrada dentro da sua família”.

Entretanto, a criação desses espaços tipo ATLs implica envolvimento de parceiros como as CM ou Instituto do Património, para resolver questões como, por exemplo, o espaço onde os mesmos podem funcionar. Algo que não é muito simples. “São coisas que vão fazem-nos perder muito tempo, quando devia ser rápido”.

Mas este é um projecto de que se pretende ver surgir ainda nesta governação.

“Aquando estamos a fazer isso estamos a trabalhar para um país mais seguro. Tudo isso também dará respostas à questão da delinquência juvenil, à questão do surgimento do thugs, vários outros problemas. Então vamos falando, só falando de todos esses problemas, quando as soluções são tão simples”. Falta então juntar esforços, simplificar e realmente avançar…

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1068 de 18 de Maio de 2022.

13.4.22

"Vai ficar tudo bem se nos apoiarmos"

Maria Moreira Rato, in Sol

A família Parreira narra os dias de sufoco, enquanto a família Monteiro tenta encontrar força para regressar a casa e enfrentar a crise sismovulcânica. O fundador da página ‘Acolhimento no Pico - São Jorge Grupo Público’ garante que a entreajuda prova que ‘somos humanos, estamos vivos’.

«Saí da ilha, mas o coração e a mente estão constantemente lá. A hora de voltar está a aproximar-se e a ansiedade que já cá está só aumenta. No entanto, a vida tem de continuar e não podemos viver em suspenso», começa por explicar, em declarações ao Nascer do SOL, Cláudia Patrícia Parreira, de 33 anos. «Nem sei bem o que hei de dizer. Tive a oportunidade de sair da ilha, pois estou de férias e tenho uma bebé que acabou de fazer um aninho dia 5 (fora da ilha) e o pai dela reside em S. Miguel. Então, viemos visitar a família paterna da menina para ver se a crise acalmava, mas a realidade é que continuo a ter família e amigos em S. Jorge e para a semana já regresso pois tenho de trabalhar», desabafa uma das milhares de jorgenses que tem sofrido as consequências da crise sismovulcânica que teve início a 19 de março e, até à tarde desta sexta-feira, fez tremer a ilha 237 vezes.

«Trabalho como ajudante de cozinha num restaurante em S. Jorge e sou natural da Ribeira Seca, na vila da Calheta, mas desde os 18 anos que vivo na vila das Velas», sublinha, sendo que saiu de casa no passado dia 26 de março após ter sentido quatro sismos. «Foi assustador, pois senti-os sempre durante a noite. A partir do momento em que sentimos o primeiro, foi difícil voltar a adormecer porque ficou o pensamento de: ‘Será esta noite que vem um maior e terei de arrancar minha bebé da cama para fugir?’».

«Passei pelo sismo de 1998 que foi no Faial, mas sentiu-se bem em S. Jorge. Era muito nova e mal me apercebi do que se passava, agora é diferente porque tenho 33 anos sou mãe, sente-se tudo de outra forma. Houve uma noite em que a pequena acordou às 5 da manhã e só chorava - sem eu perceber porquê -, esteve abatida o dia todo na creche e até febre muito leve teve. Só depois percebi que os sismos tinham recomeçado a essa hora... Se sentiu? Não sei, pois é uma bebé e não sabe dizer o que sente», acrescenta, admitindo que ainda não visitou a casa que se viu forçada a abandonar, porém, conversa diariamente com amigas que lhe vão dizendo «como está tudo por lá».

«Tenho de trabalhar para poder viver e sustentar a minha família. Tenho três filhos que frequentam as escola básica e secundária da Calheta (que é a dita zona segura) e não podiam sair da ilha, daí o meu coração e a minha mente estarem sempre lá...», reflete, não escondendo as saudades que tem dos filhos de 9, 13 e 15 anos. «Estão com pessoas que cuidam muito bem deles e sei que estão bem, mas o coração fica apertado sempre que vejo notícias. Principalmente, as que não são verdadeiras como acontece muito nas redes sociais hoje em dia», avança.

No dia anterior à viagem de Cláudia, cerca de 1 250 pessoas já haviam abandonado a ilha, por via marítima e aérea, como explicou o presidente do Governo Regional numa conferência de imprensa, após uma reunião com o presidente da Câmara Municipal de Velas, Luís Silveira, e com o presidente do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA), Rui Marques.

«Nós açorianos estamos muito familiarizados com as nossas condições atmosféricas e com a nossa condição arquipelágica e ultraperiférica. Não podemos deixar de parte a possibilidade de, repentinamente, essas condições se alterarem. No entanto, o esforço é de manter o programado», disse o dirigente do arquipélago em que está inserida a ilha de São Jorge que tem 8 373 habitantes, dos quais 4 936 no concelho das Velas e 3 437 no concelho da Calheta, segundo os dados provisórios dos Censos 2021.

«Só posso acrescentar que devido à situação que vivemos deveria haver apoios - tanto psicológicos como financeiros - para quem decide sair da ilha, pois quem saiu é porque tinha medo de lá ficar. Se tivessem forma de subsistir fora do seu local de residência não regressavam para já», observa a mãe de quatro filhos cuja progenitora, Dolores Arlete Bettencourt Faustino, de 66 anos, natural da Ribeira Seca, Calheta, mas a viver em Velas, decidiu proteger-se logo no início da crise, como contou ao Nascer do SOL.

«Devido à situação atual que se vive na minha área de residência e por precaução decidi por vontade própria, e com a ajuda da minha filha, sair de onde resido com a minha neta de 8 anos. Fui testemunha do sismo de 1980 em que sentimos na pele o pânico, mas na altura não havia os meios de informação que existem hoje em dia e talvez por isso não se instalou o pânico como o vemos e presenciamos atualmente», explica a idosa, referindo-se ao sismo que ocorreu às 15h42 (hora local) do dia 1 de janeiro de 1980, no qual entre seis a sete dezenas de pessoas perderam a vida e mais de 400 ficaram feridas. Verificaram-se consequências desastrosas na Ilha Terceira e afetando Graciosa e São Jorge, na medida em que o mesmo teve uma magnitude de 7,2 na escala de Richter e também se fez sentir nas ilhas do Pico e do Faial.

Quem não quis ficar de fora da conversa foi a pequena Kyara Sousa, de 8 anos, sobrinha de Cláudia e neta de Dolores, tendo escrito ao Nascer do SOL com a devida autorização dos pais e auxílio da mãe. «Estou no 3.º ano na Escola Básica e Secundária das Velas. Esta situação do sismo trouxe-nos muita insegurança e devido a isso, misturado com pânico, minha mãe achou que era melhor eu me afastar da ilha e ir para ao pé dos meus familiares, no Faial», nota a criança, confirmando que foi «muito bem recebida». «Deram-nos muito apoio. Mais tarde minha mãe juntou-se a mim, o que me deixou muito feliz, pois nunca nos separámos durante muito tempo. Já estou cá no Faial algum tempo, o que não me aborrece, pois minha mãe conseguiu que eu fosse à escola».

«Fiz muitos amigos, o que me fez muito feliz, e agora frequento um ATL onde conheci mais amiguinhos e onde as funcionárias são super simpáticas. Estou feliz por estar aqui, mas triste por deixar os meus amigos de São Jorge. Também adoro estar com minha mãe e desde que esteja com ela tudo é melhor. Mas ela regressará para São Jorge e irei ficar triste por me separar dela, mas sei que ela fará isso por nós, por mim e pela minha avó. Vai ficar tudo bem se nos apoiarmos», remata a menina, tendo conversado com o Nascer do SOL no dia em que o Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA) registara, nas 24 horas anteriores, quatro sismos, que foram também sentidos pela população na ilha de São Jorge.

«Desde as 22h00 de quarta-feira às 10h de hoje foram sentidos quatro sismos», lia-se num comunicado referente ao ponto de situação às 10h locais (11h em Lisboa), emitido pelo CIVISA. Os abalos registaram magnitudes que variaram entre 1,9 e 2,4 na escala de Richter, tendo sido sentidos com intensidade entre os II e IV na escala de Mercalli Modificada.

«Já passei por muitos sismos, mas nunca por uma crise assim»

A atividade sísmica, registada desde o dia 19 de março na parte central da ilha de São Jorge, «continua acima do normal» e o sismo de maior magnitude (3,8 na escala de Richter) ocorreu no dia 29 de março, às 21h56.

Além da família Parreira, a família Monteiro, constituída por Fernando, de 54 anos, Dina, de 48, e um filho de 10, consegue relatar ao Nascer do SOL os dias de agonia que têm sido vividos. «Tivemos de sair de casa. Temos um rapaz pequeno - 10 anos -, tenho uma hérnia, estamos na outra ponta da ilha. Sou do Continente, a minha esposa é que é daqui e há sempre aquele medo. O miúdo ficou assustado, nem dormia em condições. Saímos de casa quatro dias depois do primeiro sismo», conta Fernando, adiantando que tinham comida suficiente e tentaram «fazer a vida normalmente» durante as primeiras horas. Contudo, continuaram a sentir os sismos e tomaram uma decisão no dia em que foi anunciada «uma sismicidade claramente muito acima daquilo que é normal».

«Continuamos com uma sismicidade claramente muito acima daquilo que é o normal para este sistema vulcânico fissural. Já foram registados, desde sábado, aproximadamente 1 800 eventos e destes já foram sentidos 94. Todos os sismos registados na rede do CIVISA são de origem tectónica, até ao momento», disse Rui Marques, presidente do CISIVA, à agência Lusa. O facto de que a crise «se situar no denominado sistema vulcânico fissural das Manadas leva a que se passe a designar por crise sismo-vulcânica», indicou ainda o responsável.

Assim, afigurava-se necessário «colocar todos os cenários possíveis em cima da mesa, não descartando qualquer um, ao nível de proteção civil de planeamento de emergência, de gestão de riscos», adicionou também, salientando que se trata de «um sistema vulcânico ativo» que «teve uma erupção em 1580 e outra em 1808». Por outro lado, Rui Marques explicou que existia «a possibilidade» da ocorrência de «um sismo com uma magnitude superior» aos eventos que se tinham registado até então, na ilha de São Jorge, tendo o mesmo acontecido volvida uma semana. «Não é necessária muita magnitude para que hajam danos. Estamos a falar de epicentros muito próximos das Velas. E, por outro lado, está a ocorrer esta sismicidade com uma frequência muito elevada num sistema vulcânico ativo, o que poderá evoluir para aquilo que é uma erupção vulcânica», frisou.

«A nossa casa já é velha. Fomos lá quatro ou cinco dias depois e agora vamos uma vez por semana. Temos lá as nossas galinhas e elas têm de comer. Estamos em casa de uma pessoa amiga. Como já passei por várias crises, optei por sair e jamais os deixaria sozinhos», conta Dina que, atualmente, está com o marido e o filho em Santo Antão, na Calheta. «O medo que temos é no sentido em que temos um filho pequeno, eu estou a recuperar de uma doença, o Fernando está doente e se houver um evento maior, quando voltarmos, não conseguiremos sair».

«Está tudo normalizado. Continua a haver sismos, mas não sentimos nada há dois ou três dias. A escola do menino fechou por prevenção, entretanto teve férias da Páscoa, conheceu outras crianças e agora está mais calmo. Temos de continuar a viver, não podemos parar. No nosso caso, foi ‘fácil’ sair do concelho. Não tínhamos de regressar ao trabalho, mas há pessoas a pernoitar fora do concelho e têm de ir trabalhar para as Velas», lamenta, indo esta família ao encontro da perspetiva de Isabel Tavares Mendes, que conversou com o i a 24 de março. Natural do continente e a viver há sete anos em Velas, dizia que dormira pouco desde sábado, quando sentiu o primeiro abalo às 16h21. «É muita ansiedade, sinto-me quase num trabalho de parto», descrevia a funcionária do snack-bar Livramento ‘O 30’, em frente aos bombeiros de Velas, apontando então que as movimentações e sucessivas reuniões indiciam o estado de alerta que tomou a vila.

«A informação que temos é que se tocarem os sinos nos devemos dirigir para os pontos de encontro», explicava, remetendo para as informações que a autarquia tinha vindo a disponibilizar. Naquele dia, o i lembrou que «depois de sucessivos pequenos sobressaltos, Velas sofreu um violento sismo a 15 de fevereiro de 1964, que obrigou à evacuação de cerca de 5 mil pessoas para a ilha Terceira. Verificou-se na altura na altura uma das três erupções registadas desde que a ilha é habitada e a mais recente, sem consequências. As duas únicas erupções em terra remontam a 1580 e 1808, com relatos de fortes danos e vítimas mortais».

«Ninguém sabe aquilo que vai acontecer, a natureza é imprevisível. O que é que vamos fazer? Temos de retomar o nosso quotidiano mais tarde ou mais cedo», reconhece Dina. «A nível de governo, acho que as notícias que passaram foram excessivas demais, a população ficou em pânico e o concelho das Velas ficou quase deserto. Agora penso que estão a reter a informação para evitar. Acho que não poderá fazer muito mais».

No último dia de março, o i noticiava que «geólogos têm-se mantido atentos aos registos sísmicos da ilha de São Jorge, à procura dos sinais de uma erupção vulcânica iminente, e agora eles surgiram. A sismicidade começou tornar-se cada vez menos profunda, indicando que o magma está a subir à superfície desde o abalo de 3.8 de magnitude desta terça-feira, alerta José Madeira, professor de Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigador do Instituto D. Luiz, que no dia anterior descrevera ao i estes sinais como os mais preocupantes».

Apesar de concordar com a preocupação gerada por todos os eventos que se têm vindo a registar, Dina reflete acerca dos efeitos dos mesmos no setor do turismo e da restauração e não partilha da mesma opinião da família Parreira. «Se em 15 dias de crise os empresários ficam com ideias de fechar as portas e despedir funcionários, é porque não estavam muito bem preparados. Estamos a passar por uma pandemia há dois anos e vimos o mesmo a acontecer. O Governo não pode fazer tudo. Temos os meios ao nosso dispor, a proteção civil sempre disponível. As pessoas que saíram de casa saíram por sua autoria e o acolhimento tem corrido muito bem».

«Somos humanos, estamos vivos»

«O receio mantém-se sempre. As providencias que vamos tomar é preparar mochilas com bens essenciais, pô-las dentro do carro e estarmos preparados. Não fizemos isto da primeira vez. Já passei por muitos sismos, mas nunca por uma crise assim. Contudo, temos familiares no concelho e continuam a tentar trabalhar e viver dentro do normal», admite a mulher que é um dos quase quatro mil membros, juntamente com o marido, e da família Parreira, do grupo de Facebook ‘Acolhimento no Pico - São Jorge’ que, à hora de fecho desta edição, contabilizava 3,9 mil membros.

«Caros membros, quando surgiu esta ideia nunca pensei que fosse ter esta adesão e humanidade para ajudar o próximo... Hoje posso gritar ao vento que tenho orgulho da terra que me acolheu! Obrigada a todos vós, à vossa entrega, à vossa humildade e ao vosso Amor aos nossos irmãos de São Jorge! ‘Onde se encontrar um Picaroto, estará sempre presente uma força telúrica e transcendental, pois é da sua Montanha a pureza do sal que a beija, que ele retira a força que corre no seu sangue... Onde ele estiver presente, está com certeza o basalto, a seiva das vinhas, que corre no seu corpo, sua alegria e um perfume de maresia...’», escrevia, a 27 de março, o fundador e administrador Ricardo Branco Cepeda, de 43 anos, residente nas Lajes do Pico e professor de Alunos com Necessidades Educativas Especiais que frequentam o 1.º Ciclo do Ensino Básico.

«Criei na minha página uma publicação porque tinha falado com um amigo. Depois achei que devia ajudar as pessoas a comunicarem umas com as outras. Nunca pensei que tomasse esta dimensão. Por vezes, fazemos a diferença com um pequeno gesto», declara, realçando que «vivemos numa sociedade cada vez mais fechada, as pessoas só olham para o seu umbigo, mas assim sabemos que somos humanos, estamos vivos».

«Se estivéssemos na situação dos nossos irmãos jorgenses, também gostaríamos que nos ajudassem. Conseguimos ter empatia para com os outros mesmo que não os conheçamos. Isso também ajudou a quebrar a questão da vergonha de pedir ajuda. Através das ofertas que foram surgindo, quem oferecia ajuda conseguia conversar com quem dela precisava», afirma o docente que esteve a falar com o Nascer do SOL enquanto o presidente do CIVISA, Rui Marques, fazia o ‘briefing’ diário nas Velas.

O presidente do CIVISA disse que a rede «continua a registar sismicidade na Ponta dos Rosais», tendo sido registados, ontem, neste setor, «mais três sismos», perfazendo 23 abalos desde o início da crise. De seguida, Rui Marques referiu igualmente que os sismos na Ponta dos Rosais «têm profundidades inferiores a cinco quilómetros», enquanto a restante sismicidade, entre a vila das Velas e a Fajã do Ouvidor, «continua a manter-se entre os 7,5 quilómetros e os 12 quilómetros de profundidade».

«Não houve uma migração da sismicidade», mas «uma nova zona» em que está a ocorrer «libertação de energia», constatou. «Certamente existe uma relação entre a sismicidade que está mais localizada no setor central de São Jorge e a sismicidade na Ponta dos Rosais, até porque estas estruturas que dominam a ilha prolongam-se até à Ponta dos Rosais. E, como tal, poderá estar a haver uma acumulação de tensão», desenvolveu, assinalando que a sismicidade na Ponta dos Rosais tem sido caracterizada, desde o início, «por profundidades menores, sempre inferiores a cinco quilómetros».

«A nossa grande preocupação na Ponta dos Rosais é a sismicidade ser mais superficial, alguns sismos com alguma magnitude que podem gerar movimentos de vertente em falésias que têm elevada suscetibilidade para a ocorrência de movimentos de vertente”, continuou, considerando que as previsões de vento forte e precipitação, naquilo que diz respeito aos trabalhos de campo do CIVISA, poderão condicionar «a medição pontual de gases no solo». «Mas, será uma situação de mau tempo, com ventos fortes e agitação marítima, que passará com alguma rapidez sobre a ilha de São Jorge e poderemos rapidamente retomar o programa de monitorização tal como está definido».

«Ofereci a minha casa, mas ninguém veio para cá ainda. Tenho uma filha de 8 anos. Ela apercebeu-se porque o sismo de grau IV foi sentido e perguntou logo: ‘O que se passa, pai? Está a tremer o chão’. Aqui já sabemos o que temos de fazer, até nas escolas existem simulações. Havia senhoras grávidas que já foram para o Faial para o caso de entrarem em trabalho de parto ou terem algum problema. Aquilo que me emocionou mais foi a prontidão que as pessoas demonstraram. Isso para mim foi incrível e nunca pensei que houvesse este resultado tão rápido», confessou, narrando que foi contactado por pessoas que queriam oferecer comida, medicamentos, roupa, «aquilo que fosse preciso, nos sítios em que tudo fosse preciso».

«O Governo central já se prontificou a ajudar, o exército já fez uma zona de evacuação com tendas, socorrismo, etc. para o caso de tal ser necessário no futuro. O único senão é que como a ilha ficou um pouco parada, e é dependente do turismo, as pessoas estão a passar um mau bocado. Faltam apoios para os empresários. Estas pessoas ficaram sem retorno económico de um dia para o outro», constata, alinhando-se com a família Parreira e com o líder dos empresários de São Jorge, Mário Veiros, que alertou que há empresas na ilha que podem fechar se não forem adotadas «medidas urgentes» para mitigar os impactos económicos da crise sísmica. «No caso do turismo, há uma série de serviços turísticos que são unipessoais, no máximo com duas pessoas, que prestam serviços de turismo de aventura, entre outros, e que se perderão, porque não faturam devido a terem tido o último cliente em outubro», acrescentou o presidente do Núcleo de Empresários de São Jorge, em declarações à Agência Lusa.

«Há uma certa ansiedade na escola, mas uma certa normalidade ao mesmo tempo. Ao longo dos anos, temos feito muitas simulações e desde os pequeninos até aos maiores... Todos sabem aquilo que devem fazer. Assim há alguma calma e serenidade para continuarmos com tudo como é habitual», começa por finalizar o professor. «Temos de nos pôr debaixo das mesas, os miúdos sabem a forma como têm de sair da sala, sair ordeiramente, etc. O pânico, nestas situações, é o maior inimigo. Quanto à página, vai continuar disponível no futuro porque não sabemos aquilo que poderá acontecer».

A ilha de São Jorge mantém o nível de alerta vulcânico V4 (ameaça de erupção) de um total de sete, em que V0 significa «estado de repouso» e V6 «erupção em curso».