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19.5.22

Linha telefónica para denunciar crianças em perigo recebeu 2550 chamadas em dois anos

in Público

A linha telefónica, com o número 961231111 e a funcionar entre as 08h e as 20h, foi criada em Maio de 2020, quando os portugueses cumpriam o primeiro confinamento devido à pandemia de covid-19.

A linha telefónica para denunciar crianças em situação de perigo ou risco recebeu 2550 chamadas em dois anos, sendo algumas graves e desconhecidas, segundo a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção de Crianças e Jovens (CNPDPCJ).

A linha telefónica, com o número 961231111 e a funcionar entre as 08h e as 20h, foi criada pela CNPDPCJ a 19 de Maio de 2020, quando os portugueses cumpriam o primeiro confinamento devido à pandemia de covid-19.

“A linha nasceu com o objetivo de se conseguir ter forma de conhecer as situações de perigo que se passavam numa parentalidade fechada em casa, com a maior parte das entidades com competência em matéria de infância e juventude fechada ou com contactos à distância e a impossibilidade de se poder saber o que se estava a passar com as crianças”, disse à agência Lusa a presidente da Comissão.

Rosário Farmhouse acrescentou que a linha telefónica surgiu na perspectiva de “uma co-responsabilidade de que proteger as crianças compete a todos” e de tentar apelar ao dever cívico da sociedade civil de “estar atenta ao que se passa à sua volta e poder comunicar situações de perigo”.

Num balanço de dois anos da Linha Crianças em Perigo, a responsável afirmou que foram recebidas 2550 chamadas, sendo algumas “situações graves ou muito graves que podem pôr em perigo a situação da criança”.

No entanto, ressalvou que nem “todas as comunicações são de perigo”, sendo apenas pedidos de informação.

“Algumas são de facto de perigo e são encaminhadas para as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) territorialmente competentes e outras são pedidos de esclarecimento e de informação”, disse.

Rosário Farmhouse sublinhou que, quando surgiu a linha telefónica, as perguntas estavam muito relacionadas com questões das responsabilidades parentais e da protecção das crianças em tempos de pandemia, tendo conta que se estava em isolamento e os menores estavam a maior parte do tempo em caso de um dos pais.

“Neste momento são perguntas já mais relacionadas com situações de risco ou de perigo”, disse, dando conta que estas situações são muitas vezes invisíveis e ainda não tinham chegado às CPCJ e as entidades ainda não tinham conhecimento.

As denúncias que chegam através da Linha Crianças em Perigo estão relacionadas com situações de abandono, menores sozinhos em casa ou em conflito parental de violência doméstica.

Segundo a presidente da Comissão, a maior parte das chamadas são feitas por familiares, vizinhos e amigos “que estão preocupados com a situação da criança”.

Além da linha telefónica, a CNPDPCJ criou também em Junho de 2020 um formulário na página da internet para serem comunicadas situação de risco ou perigo para as crianças e jovens.

Segundo a mesma responsável, a CNPDPCJ recebeu 4850 comunicações através do formulário.

“Estas comunicações vão directamente para a CPCJ territorialmente competente. Quando se coloca no formulário, a morada da criança vai directamente para a CPCJ e é um número muito elevado que tem permitido que as CPCJ tenham conhecimento de situações que de outra forma não teriam conhecimento. O que acontece às vezes é que pode aparecer mais do que um formulário para o mesmo caso, porque às vezes pessoas conhecidas sem saber que a outra já comunicou também comunicam”,
disse.

No caso das denúncias através da linha telefónica, apenas são encaminhadas para a CPCJ as situações de perigo para que desenvolvam os procedimentos adequados.

A presidente da CNPDPCJ fez um “balanço bastante positivo” dos dois anos da Linha Crianças em Perigo, sustentando que “continuar a ser procurada significa que há uma maior consciencialização da sociedade para um olhar atento sobre as crianças, ainda que possam referir situações que possam ser de perigo”.

“Termos encontrado estas duas ferramentas, que sem dúvida em conjunto permitiram conhecer casos que de outra forma não conheceríamos, acho que faz com que elas se mantenham para além da pandemia e que continuem a ser duas ferramentas de excelência para este acompanhamento da situação das crianças em Portugal”, disse.

A CNPDPCJ acompanha actualmente perto de 60.000 crianças, surgindo anualmente cerca de 40.000 casos novos, um número que, segundo, Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção de Crianças e Jovens, não está a aumentar.

6.5.22

Droga. ‘Olga’ destruiu “dois salários em dois meses” e “enterrou a vida até às orelhas”: consumo aumentou 25% em 2021 (e as recaídas 12%)

Helena Bento, in Expresso

Recaídas aumentaram 12% num ano no serviço de tratamento por dependência de drogas. Fenómeno associado à perda de emprego. Equipas com falta de meios avisam que situação pode piorar
Vinte anos depois de ter estado internada numa unidade para desabituação de heroína, Olga (nome fictício, escolhido a pedido da própria) deu entrada noutra estrutura para tratar a dependência de drogas. Foi em janeiro deste ano, depois de vários meses sem conseguir parar de consumir. O início, desta vez, foi diferente. “Quando voltei a trabalhar presencialmente no ano passado, no desconfinamento, comecei a consumir cocaína. Saía de casa de manhã, metia-me na bicicleta, conduzia até ao bairro, consumia e depois ia para o trabalho”, conta Olga, que tem 48 anos e é funcionária numa junta de freguesia em Lisboa.

Cada explicação para o consumo de drogas é um tiro no escuro, mas Olga, que conversa com o Expresso numa das comunidades terapêuticas da associação Ares do Pinhal, na Rinchoa (Sintra), arrisca uma teoria: “As coisas estiveram a ser cozinhadas durante o confinamento. O regresso à normalidade foi uma explosão para mim.” Tinha várias tarefas nessa altura: dar atenção ao filho, de oito anos, que estava em casa sem aulas, preparar refeições, limpar a casa e trabalhar. A psiquiatra avisara-a de que tudo isso, a juntar à “vida vazia” que levava antes da pandemia, sem “encontros com amigos ou outros interesses”, poderia levar a uma recaída. Quando Olga se voltou a lembrar daquelas palavras, já estava “enterrada até às orelhas”, a “fazer vida de sem-abrigo” e a “cravar trocos na rua para sustentar o vício”. “Destruí dois salários seguidos em dois meses. Tive de entregar o meu cartão multibanco à minha mãe para não gastar mais dinheiro”, conta, acrescentando: “Caí no fundo, como todas as outras pessoas.

12.7.21

Despedimento foi principal causa para deixar de trabalhar no confinamento - relatório por Lusa

in RTP

O despedimento foi a principal causa para deixar de trabalhar, tanto no segundo trimestre de 2020, como no primeiro trimestre de 2021, altura em que foram decretados os dois confinamentos gerais devido à pandemia, indica um relatório divulgado hoje.

Segundo o relatório "A pandemia e o mercado de trabalho: O que sabemos um ano depois", elaborado por Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves, do Nova SBE Economics for Policy Knowledge Centre, "o despedimento foi a razão mais comum para deixar de trabalhar" naqueles dois trimestres.

"De cerca de 20% no período pré-pandemia, esta percentagem subiu para 25% no segundo trimestre de 2020 e no primeiro trimestre de 2021", pode ler-se no documento elaborado no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, da Nova SBE, Fundação la Caixa e BPI.

Os autores destacam que, ao contrário do que aconteceu no primeiro trimestre de 2020, em que "a causa mais popular para deixar de trabalhar foi a reforma por velhice (20,4%), no início de 2021, a maioria saiu porque foi despedida (25%)".

Após junho de 2020, houve uma diminuição desta percentagem, que acompanhou o desconfinamento, nos terceiro e quarto trimestres de 2020, "mas os despedimentos voltaram a aumentar em janeiro de 2021, atingindo novamente cerca de 25%, o que coincide com o regresso das medidas mais severas de confinamento".

O relatório combina dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério do Trabalho e Segurança Social, do Instituto para o Emprego e Formação Profissional (IEFP) e da Google.

Durante a pandemia, indica o documento, as taxas de desemprego e de subutilização de trabalho aumentaram, sobretudo a partir de junho de 2020 e, em abril de 2021, estavam já próximas de valores pré-pandemia, sendo de 7% e 13%, respetivamente.

Já entre as pessoas que mantiveram o emprego, o número médio de horas trabalhadas diminuiu no caso dos agregados com salários mais baixos e aumentou nos salários mais elevados.

"A redução ou falta de trabalho por motivos técnicos ou económicos da empresa foi 16 vezes superior no segundo trimestre de 2020 à do mesmo trimestre de 2019", lê-se no relatório.

As famílias com crianças, especialmente as monoparentais, e os jovens foram os mais afetadas pela redução no número médio de horas trabalhadas.

Os autores indicam ainda que o número de inscritos nos centros de emprego aumentou em 28% para 375 mil, entre fevereiro e dezembro de 2020, sobretudo devido ao aumento de 30% nos inscritos com educação secundária.

"Em 2021, os inscritos continuaram a aumentar até abril e só em maio regressaram aos valores registados no final de 2020, ainda muito longe dos de 2019", sublinham os autores.

Embora o número de inscritos com ensino superior também tenha aumentado, "a recuperação foi mais expressiva para este grupo (redução de 12% entre janeiro e maio de 2021) do que para aqueles que têm no máximo o ensino secundário (6%) ou o básico completo (0,4%)".

O número de inscritos face a 2019 é especialmente significativo na região do Algarve.

Quanto às remunerações, entre o primeiro trimestre de 2020 e de 2021, o salário médio aumentou de 929 para 982 euros, sugerindo que a maior parte dos postos de trabalho destruídos são os de pessoas com salários mais baixos, concluem.

O relatório analisa ainda dados sobre o teletrabalho, indicando que a percentagem de pessoas em teletrabalho no segundo trimestre de 2020 era de 22,6%, tendo diminuído progressivamente nos trimestres seguintes e voltando a aumentar no primeiro trimestre de 2021, para 20,7%.

"São os indivíduos com ensino superior aqueles que mais frequentemente estão em teletrabalho, com uma prevalência, no primeiro trimestre de 2021, três a 21 vezes maior do que nos que têm ensino secundário e até ao básico, respetivamente", pode ler-se no documento.

Já o número de contratos temporários (a termo e com recibos verdes) esteve desde o segundo trimestre de 2020 abaixo dos valores de 2019, sendo esta quebra "mais concentrada nos mais jovens e nos indivíduos com ensino secundário ou menos", tendo sido "parcialmente compensada com um aumento dos contratos sem termo, especialmente nos indivíduos com ensino superior".

6.4.21

Pandemia na infância. "Os abusos domésticos e online aumentaram para proporções alarmantes"

João Francisco Guerreio, DN

Dubravka Šuica, vice-presidente da Comissão Europeia para a Democracia e Demografia, considera problemáticas as descobertas feitas por Bruxelas. Uma em cada cinco crianças sofre de ansiedade ou solidão.

Avice-presidente da Comissão Europeia para a Democracia e Demografia, Dubravka Šuica, que tem a cargo a pasta dos direitos das crianças, teme "consequências enormes" para os mais novos, com desigualdades acentuadas por causa da pandemia. "Os abusos domésticos e online aumentaram para proporções alarmantes, muitos ficaram para trás na educação, e uma em cada cinco crianças indicou sofrer de ansiedade, ou solidão, devido ao isolamento ligado à covid-19", apontou Dubravka Šuica, admitindo que "isto é problemático".

Perante os problemas "já existentes" mas que a pandemia elevou a níveis "alarmantes", Bruxelas veio agora propor medidas para evitar que as "desigualdades" alarguem o fosso, que coloca um número "elevado" de crianças do lado desfavorecido. "Cerca 18 milhões de todas as crianças na União Europeia estão em risco de pobreza ou exclusão social, o que representa uma grande parte da população da União Europeia", lamentou a vice-presidente, dizendo-se apostada em fazer com que alguma coisa mude com a Estratégia para a Infância e a proposta de Garantia para as Crianças, que vai canalizar verbas europeias para iniciativas de apoio aos mais novos.

"Cinco por cento do Fundo Social Europeu+ devem ser destinados à pobreza infantil, e 25 por cento reservados para a inclusão social", assegurou, dando também os exemplos "do Mecanismo de Recuperação e Resiliência que deve ajudar as crianças e os jovens na educação e [aquisição de] competências", e do Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional "que também deve ser fonte de financiamentos". "O que queremos alcançar é igualdade de acesso à educação, à saúde, ao cuidado, às atividades desportivas, à cultura, independentemente da origem das crianças, da formação, ou do género", afirmou Dubravka Šuica, em entrevista ao DN e à TSF.

Mas a vice-presidente reconhece que a "vontade" carece de empenho a 27. "Tenho a certeza que, se houver estas metas de longo prazo, teremos sucesso, mas apenas se trabalharmos juntos e se os Estados membros alinharem", desafia. "Propomos aos Estados-Membros que identifiquem quem são as crianças com carências", afirma, consciente de que ao fim de um ano de pandemia a dúvida e a incerteza pairam sobre o futuro das gerações mais jovens. "Continuamos a não vislumbrar quais são as consequências desta crise socio-económica e sanitária. Mas serão enormes", lamenta, advertindo que "é preciso tratar da solidariedade intergeracional".

Os Estados da União Europeia devem ser capazes de "proporcionar às crianças necessitadas um acesso efetivo a uma nutrição saudável e a habitação adequada". O exemplo apontado é o acesso a "refeições saudáveis, também nos dias em que não têm escola". Para "as crianças sem-abrigo e as suas famílias, devem ter acesso a alojamento adequado".
Reforço de direitos


Bruxelas lança também uma Estratégia para a Infância, em que o conceito de direitos da criança surge reforçado com propostas como o direito à "participação na vida democrática", ou o acesso a uma justiça adaptada à infância. "Temos em consideração as necessidades delas e agimos no seu melhor. Também publicámos online documentos amigos das crianças. Estão escritos, como agora costumamos dizer, na 25.ª língua da União Europeia, que é uma linguagem amiga das crianças", defendeu a vice-presidente. "A Comissão irá, por exemplo, contribuir para a formação judiciária especializada e colaborar com o Conselho da Europa para aplicar as Diretrizes de 2010 sobre a justiça adaptada às crianças", refere uma nota da Comissão.

Numa altura em que muitos jovens continuam com aulas online, Bruxelas pretende também atualizar a Estratégia Europeia para a Internet, que aborda a questão do direito à navegação segura. "Estamos a tratar disso num tópico especial nesta estratégia, sobre violência online, tentando ensinar as crianças a saberem distinguir o que é importante, do que não é importante online", afirma a vice-presidente, identificando os "dois problemas diferentes". "Um é a violência online e outro é que as crianças são excluídas porque não têm computadores, ou ligação à internet", apontou, admitindo que se trata de "um tema complexo, com o qual teremos que lidar nos próximos anos".

A Comissão espera agora que os Estados-Membros possam adoptar "rapidamente" a proposta de recomendação do Conselho que estabelece uma Garantia Europeia para a Infância. Assim que este passo estiver concluído, os governos deverão apresentar a Bruxelas os seus planos de ação nacionais sobre a forma como tencionam implementá-la. A Garantia Europeia para a Infância complementa o segundo pilar da Estratégia para os Direitos da Criança, que é apresentado como "um dos principais resultados do plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, adoptado em 4 de março deste ano", e a partir do qual a União Europeia traça o objectivo de reduzir em, pelo menos, "15 milhões o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social até 2030, incluindo cinco milhões de crianças".

25.3.21

Despesa com apoios às empresas e famílias totaliza cerca de mil milhões de euros em janeiro e fevereiro

in RTP

Em janeiro e fevereiro, a despesa total com medidas de apoio às empresas e às famílias ascendeu a cerca de 1091 milhões de euros. Um valor que equivale a um terço da despesa total feita em 2020 com apoios no âmbito do apoio à crise provocada pela pandemia.

Destes 1091 milhões de euros, 663 milhões são para o apoio às empresas e ao emprego. Este valor engloba 135 milhões de euros para o layoff simplificado e 116 milhões de euros para o apoio extraordinário à retoma progressiva de atividade.

Na despesa, 194 milhões de euros são para o apoio ao rendimento às famílias, 175 milhões de euros para a Saúde e 60 milhões de euros para a rubrica “outros apoios”.

Em antecipação à síntese de execução orçamental, que será publicada esta quinta-feira, o Ministério das Finanças revela ainda que, do lado da receita, as medidas de apoio equivaleram a 438,4 milhões de euros.

Neste ponto englobam-se as medidas de prorrogação de pagamento de impostos, suspensão de execuções fiscais e isenção da TSU – medidas que também apoiam a tesouraria das empresas e ajudam ao rendimento das famílias.


Possibilidade de aumentar o RSI discutida no âmbito do combate à pobreza

 in RTP

O último confinamento fez aumentar o número de beneficiários do Rendimento social de inserção.Entre janeiro e fevereiro de 2021, foram contabilizados quase mais três mil pedidos deste apoio em Portugal.
Um casal que prefere manter-se no anonimato, recebe por mês 322 euros para fazer face às despesas. Fazem parte das mais de 100 mil famílias a receber rendimento social de inserção em Portugal. Um valor que não era tão alto desde abril de 2019.

Em Março de 2020 uma oportunidade de emprego acabou por ficar sem efeito devido à pandemia e, desde então, não receberam resposta de nenhuma das muitas candidaturas enviadas. Chegaram a viver na rua mas a segurança social encaminhou-os para um albergue. A alimentação, muitas vezes, só e possível graças à solidariedade.

Os confinamentos fizeram aumentar os pedidos de ajuda que, desde o inicio do ano, já são mais 3 mil. O país está a preparar a primeira estratégia nacional de combate à pobreza. Em causa está a possível subida do valor desta prestação social. Em Portugal, é considerado pobre quem tem um rendimento mensal inferior a 540 euros.

15.3.21

Efeito da pandemia nas mulheres: frustração por não cumprir a rotina diminui com a idade

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Os Diários de uma Pandemia, iniciativa do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, com o apoio do PÚBLICO, aponta para menor exposição ao risco entre mulheres mais velhas.

Quanto mais jovens maior a dificuldade das mulheres em lidar com a situação actual, a frustração por não conseguirem cumprir a rotina, a ofensiva de sentimentos negativos, como tristeza ou ansiedade. E, ao que se deduz d’Os Diários de uma Pandemia, parte disso agrava-se quando há crianças pequenas.

Os Diários de uma Pandemia – iniciativa do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), apoiada pelo PÚBLICO – recolhem diariamente, através de questionários online, a experiência de cidadãos entre 16 e 89 anos. Nesta segunda fase, que arrancou a 3 de Fevereiro, 3674 pessoas dispuseram-se a responder. Até 5 de Março, tinham preenchido mais de 65.000 questionários. A análise, agora divulgada, fixa-se nas 2636 participantes que se identificam como mulheres.


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Não é uma amostra representativa da população feminina portuguesa. Admite-se que quem responde a inquéritos online é mais escolarizado, reconhece Raquel Lucas, do ISPUP. Mas é um indicador do que está a acontecer. “A prevalência de infecção nas mulheres da amostra é igual à da população portuguesa: 8%”, começa por dizer.


O estudo indica que o sentimento de frustração por não poder cumprir rotinas diárias é mais frequente entre as mulheres que se encontram na casa dos 30 anos (49%) e vai diminuindo, pouco a pouco, alcançando o valor mais baixo entre as maiores de 60 (33%). A sensação é mais persistente entre as mulheres com crianças até aos 10 anos (54,6%) do que nas outras (40,6%).

A pandemia coloca desafios de vária ordem. E a dificuldade em lidar com a situação também vai reduzindo com a idade. Neste campo, curiosamente, a diferença entre mulheres com e sem crianças é pouca (33,1% e 30,8%). Os pensamentos negativos assolam mesmo menos as primeiras do que as segundas (29,6% e 31,4%).



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A idade acaba por ser mais determinante. E isso, na opinião de Raquel Lucas, “é interessante, porque as mulheres mais velhas até têm mais preocupação com a sua saúde e a dos seus entes queridos”. E mais depressa conhecem pessoalmente alguém que morreu devido à covid-19: 18,8% nas sub 30 anos, 27,3% na faixa dos 30, 31.9% na dos 40, 41% na dos 50, 36,5% nas maiores de 60.

A investigadora encontra duas explicações para a aparente contradição de, preocupando-se mais, apresentarem melhores indicadores de bem-estar. Primeiro, as mulheres mais velhas reportam menos contactos de risco, menos necessidade de isolamento profiláctico, menos risco percebido de infecção. Segundo, “conseguem enquadrar a pandemia no conjunto de uma experiência de vida muito maior”. Para as mais jovens, “a pandemia pode ser um desafio sem comparação”. Além disso, a sua exposição ao risco é maior. A sua rotina pode ter sido mais alterada.

Quando o que está em análise é a frequência de infecção, a necessidade de isolamento profiláctico, as infecções no agregado, aos contactos com casos suspeitos, o risco percebido, não há grande diferença entre mulheres com e sem filhos pequenos. Mas as mulheres com crianças em casa dizem ter recorrido mais aos cuidados de saúde, incluindo o teste da infecção pelo vírus da covid-19.

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No universo de 2636 mulheres que participaram nesta fase do estudo, 16% tinham entre 18 a 29 anos, 20% entre 30 e 39, 30% entre 40 e 49, 20% entre 50 e 59 e 14% 60 ou mais anos. Entre as 1728 mulheres com menos de 50, 497 (29%) tinham crianças até 10 anos.

Vários estudos que têm sido divulgados indicam que a pandemia afecta as mulheres de forma desproporcional. Este mostra frequências semelhantes entre mulheres e homens nas questões directamente relacionadas com a infecção e quase sempre menos favoráveis às mulheres nas que se prendem com bem-estar.

Estudo revela que mulheres (e estudantes entre os 18 e 25 anos) sofrem mais com o confinamento

Hugo Franco, in Expresso

80% das pessoas do sexo feminino dizem sofrer de fadiga pandémica moderada ou severa. Cansaço causado pelo confinamento atinge em força também os estudantes universitários

Um estudo do instituto universitário ISPA, sobre fadiga pandémica, conclui que as mulheres são as que mais sofrem com o confinamento causado pela covid-19. Entre o sexo feminino, 20% diz apresentar 'fadiga ligeira', 50% 'fadiga moderada' e 30% 'fadiga elevada'. Ou seja, 80% apresentam altos índices de fadiga causada pelo confinamento.

Já entre os homens, 2% apresentam 'fadiga baixa', 39% 'fadiga ligeira', 43% 'fadiga moderada' e 16% 'fadiga elevada'. Ou seja, o total de casos onde os inquiridos do sexo masculino mostram um maior cansaço causado pelo confinamento (fadiga moderada e elevada) é de 59% (contra os 80% das mulheres).

A docente e investigadora Ivone Patrão, coordenadora do estudo, diz ao Expresso que “as mulheres, desde há um ano, estão a assumir vários papéis – materno, profissional, doméstico e até o de professora dos filhos na escola online. O cansaço pode estar associado a estas múltiplas tarefas, que, mesmo se forem partilhadas em casal, não deixam de ser uma sobrecarga”.

Além das mulheres, também os estudantes entre os 18 e 25 anos apresentam níveis superiores de fadiga pandémica. Um dos dados do estudo - em que participaram mais de 1800 pessoas dos 18 aos 75 anos - que mais salta à vista é o de que metade dos universitários (49,8%) apresenta fadiga pandémica moderada. 34% apresentam 'fadiga pandémica elevada' ou severa e só 16,1% apresentam 'fadiga pandémica ligeira'. Nenhum apresenta 'fadiga baixa'.

“Os jovens estão numa fase crucial do seu desenvolvimento social presencial, pela necessidade de pertença a um grupo de pares e de desenvolvimento da sua intimidade nas relações amorosas. Os sucessivos confinamentos vieram dificultar estas tarefas, bem como centrar a vida dos jovens na escola online. No PsiQuaren10 [projeto de apoio psicossocial telefónico e online] têm sido os jovens que fazem mais pedidos de consulta online”, explica Ivone Patrão.

Em geral, a maioria dos participantes (46,7%) diz apresentar ‘fadiga pandémica moderada’, 35,5% sofre de ‘fadiga pandémica elevada ou severa’, e 17,7% apenas de fadiga ligeira. Apenas um participante apresenta fadiga baixa. E durante o confinamento parcial (meses de novembro, dezembro e janeiro) a fadiga pandémica era mais baixa do que no confinamento total (janeiro e fevereiro).

“Um ano após o início da pandemia, há claramente um impacto significativo e negativo na saúde mental. Num estudo anterior que realizámos – sobre o impacto do primeiro confinamento – já se tinham comprovado alterações no estado humor (depressivas e ansiosas), bem como aumento dos conflitos familiares, para além de preocupação elevada com a possibilidade de ter um teste covid-19 positivo, e da extrema necessidade de contacto social”, diz Ivone Patrão, que acrescenta: “As pessoas estão cansadas das novas rotinas que a pandemia veio imprimir. Este cansaço pode dificultar a tomada de decisão, sobretudo se requerem continuidade e persistência ao longo do tempo.”

NOTÍCIAS SOBRE COVID-19 TÊM IMPACTO NEGATIVO

Inquiridos sobre se sentem que o teletrabalho é mais cansativo do que o trabalho presencial, são mais os que ‘discordam fortemente’ (33,2%) da questão. Do outro lado da balança, 24,4% diz ‘concordar fortemente’ (24,4%) ou ‘concordar’ (18,4%) que o teletrabalho cansa mais.

Mais de metade das pessoas (70,2%) que responderam ao estudo ‘concorda fortemente’ ou ‘concorda’ sobre se sentem que a visualização de notícias diárias sobre a covid-19 tem um impacto negativo sobre o próprio.

Ivone Patrão deixa um alerta: “Nos próximos tempos, será importante o investimento na saúde mental, de forma a que se possa intervir o mais precoce possível.”

Um ano sem pôr um pé no centro de actividades. “Vamos receber pessoas muito diferentes daquelas que conhecíamos”

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Há pessoas com deficiência intelectual que não vão ao centro de actividades ocupacionais desde Março por viverem num lar ou por opção de familiares, que ficam horrorizados só de as imaginar numa enfermaria sem ninguém que as compreenda. No dia 5 de Abril, reabrem os equipamentos sociais para pessoas com deficiência, mas ninguém é como antes.

No princípio, Lurdes Santos até perdia o sono. E se a filha apanhasse covid-19? “Não fala. Usa língua gestual portuguesa. Eu entendo-a bem, mas as outras pessoas não a entendem. Terem de a levar para um hospital e eu não poder estar com ela…”

Daniela não está na sala de terceiro andar que partilha com o pai e com a mãe. A rapariga, de 34 anos, está no quarto a ouvir música. Por instantes, aumenta o volume. “Creio que o amor é a maior/Maior riqueza/ É tudo o que eu tenho pra te dar/Minha certeza.” Trio Odemira.


Deixou de ir ao centro de actividades ocupacionais (CAO) no dia 6 de Março de 2020. Uma semana antes de o Conselho de Ministros aprovar as medidas extraordinárias que incluíam a suspensão das actividades com presença nos equipamentos sociais de apoio à deficiência.

“No início custou-lhe”, diz a mãe. Não percebia por que não haveria de sair de casa, de ir ao CAO, de andar a cavalo, de estar com os avós, os padrinhos ou a tia. Enfiava-se no quarto a ouvir música. “Ela é dada ao sentimento e ao amor. Ia dar com ela a chorar. Dizia-me que estava com saudades do amiguinho, o namorado.”

Falou-lhe no coronavírus. “As televisões estavam sempre a dar a mesma coisa. Ela foi ouvindo falar em internados e em mortos. Ficou com medo de ir à rua. Só passados dois meses de estarmos em casa é que a consegui meter no carro para dar uma volta, mas não quis sair.” É um desafio conduzi-la à dose certa de medo – a que protege sem paralisar.

Quando o Governo ordenou a reabertura dos CAO, pouco a pouco, a partir de 18 de Maio, Lurdes preferiu manter a filha em casa. “Não foi por falta de confiança”, esclarece. O marido, José Santos, até é tesoureiro da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) do Porto. “Sei que as regras são cumpridas, mas torna-se difícil criar distanciamento. E há pais que trabalham e não têm hipótese de ficar com os filhos, têm de os levar para lá. Eu, pronto, estou em casa… E tenho receio. Tenho muito receio que a Daniela apanhe covid.”
Negociar com as famílias

O primeiro grande confinamento foi uma aprendizagem para todos. As organizações trataram de redireccionar parte dos serviços que prestavam nos CAO para dentro de cada casa. Puseram as equipas em contacto telefónico com as famílias para as orientar.

Teresa Guimarães, presidente da APPACDM do Porto, viu o futuro. “Pode ser muito pesado”, alertava, então. “Temos mães sozinhas que vão entrar numa fase de desgaste grande. Estamos preparados para prestar apoio domiciliário, mas é preciso que as famílias queiram. E muitas não querem. Têm medo que o vírus lhes entre pela porta dentro.”

O desconfinamento obrigou a reajustes. Para respeitar as regras da Direcção Geral de Saúde (DGS), os CAO reduziram a lotação. Era preciso ouvir as famílias. Preferiam horário reduzido ou rotatividade? Decidiu-se atribuir tempo inteiro a quem estava em situação de exclusão ou tinha os pais a trabalhar. Os outros alternariam.

Nem todas as famílias tiveram escolha. Algumas viram-se forçadas a vencer o medo, como a família de Pedro Viana, com síndrome de Wolf-Hirschhorn, uma doença raríssima que o faz precisar de ajuda para quase tudo. No princípio, “dormia mal, andava agitado, agressivo”. Depois, lá acalmou. Mas carecia de atenção permanente. Já nem comia sozinho. E Rosário, a mãe, sentia-se exausta. Viúva, com o outro filho a estudar, tinha de voltar a limpar casas alheias.

Os residentes em lares também não puderam escolher. Por ordem da DGS, aos “utentes que frequentem, em simultâneo, as respostas sociais CAO e Lar Residencial, devem ser asseguradas as actividades no próprio Lar, sob orientações técnicas dos profissionais afectos ao CAO”.

O relatório Deficiência e covid-19 em Portugal, do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, já indiciava que muita gente nunca voltou ao CAO. Só a APPACDM do Porto tem 164 pessoas inscritas nos seus quatro centros e, dessas, 47 não entram num CAO há um ano por estarem em lar e 22 em casa. Em Outubro, outras 12 deixaram de aparecer.

De acordo com o Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, até agora foram infectados nos CAO 113 profissionais e 161 utentes, 11 dos quais acabaram por morrer. Teresa Guimarães conta nos CAO da sua associação um caso isolado e, mesmo assim, continua a observar uma “grande preocupação” entre os pais. E se apanham covid? E se precisam de internamento hospitalar? “Muitos não falam, falam pouco ou falam mal. As pessoas da saúde não os compreendem. Muitos pais vivem angustiados com isto.”

Realidade que se repete aqui e ali

Relatos em tudo idênticos podem ser ouvidos noutras partes do país. Em Santarém, por exemplo, cerca de três dezenas de pais preferiram manter os filhos em casa desde Março.

O próprio presidente da APPACDM de Santarém, Luís Amaral, não leva a filha ao CAO há um ano. “O contacto físico é muito difícil de evitar. Precisa de ajuda para tomar banho, vestir-se, comer. É muito carinhosa.” Como a mulher está em casa, assumiu o papel de cuidadora a tempo inteiro. “A minha filha tem 40 anos, mas é como se tivesse três. Fala de uma maneira que nós entendemos, mas ninguém mais entende.”

“Há pais que não quiseram que os filhos voltassem para os protegerem e há pais que não quiseram que os filhos voltassem para se protegerem a si próprios, porque têm idades avançadas e doenças graves”, resume Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra. Das 240 pessoas inscritas nos quatro CAO daquela instituição, há 45 que não aparecem há um ano por estarem em lares e 11 em casa.

A mesma dirigente tinha voltado a levar o seu filho, com trissomia 21, ao CAO e deixou de o fazer quando o número de infecções começou a subir. Horroriza-a a ideia de o rapaz ser internado numa enfermaria de doentes covid. Como se sentiria num sítio estranho, sozinho, sem ninguém que o compreendesse, com sintomas graves, sujeito a tratamentos que provocam desconforto?

Não é uma hipótese teórica. “Tivemos casos destes”, concede. “O internamento de pessoas com deficiência intelectual [em contexto covid] é de uma violência indescritível.” A pandemia mostra como o Sistema Nacional de Saúde ainda lida mal com a diversidade funcional. “Era bom que os hospitais estivessem preparados para acolher estas pessoas com dignidades, mas não é isso que acontece”, lamenta. “Há a preocupação de pôr rampas, elevadores, solos mais tácteis, mas não há acessibilidade ao nível da comunicação. E muitas vezes falta formação para médicos e enfermeiros lidarem com este tipo de pessoas, que, vendo-se sem referências, sem ninguém que as compreenda, ficam com medo, tornam-se agressivas. É preciso estabilizá-las.”

No entender de Helena Albuquerque, que também preside à Humanitas – Federação Portuguesa para a Deficiência Mental, este retrato deveria bastar para incluir todas as pessoas com deficiência intelectual, e não só as pessoas com trissomia 21, no grupo prioritário para a vacina. Nada aponta nesse sentido. O Instituto de Segurança Social está a enviar emails às instituições que gerem CAO a solicitar apenas listas de funcionários para os integrar no plano de vacinação.

Paula Campos Pinto, coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, não conhece exemplos de países que tenham colocado todas as pessoas com deficiência intelectual na lista de grupos prioritários para vacinação. Conhece, sim, países que as colocaram no grupo preterido para tratamento de covid-19. “Estamos num quadro em que as vacinas escasseiam. O critério de salvar vidas deve imperar”, diz, lembrando que nisso tem insistido o coordenador do grupo de trabalho.

Quem trabalha e mora nos lares residenciais integra a lista de grupos prioritários. No Lar Montes Claros, em Coimbra, os dias de vacinação foram uma alegria. “Gostámos muito”, diz Maria José Ramalhete, uma de dez residentes. “Batemos palmas. Rimos. Para nós foi importante para não apanhar o vírus.”

No princípio, a mulher, de 56 anos, até achou piada ao confinamento. Entretinha-se a fazer renda, a meter a louça na máquina, a cantar e a dançar, a fazer exercício físico e relaxamento. Não tardou a ansiar pelo regresso aos dias de antes. “Tenho saudades dos meus irmãos, dos meus colegas do CAO, da ginástica, da natação.”

Apesar dos mil cuidados e da muita reza, houve surtos em vários lares. De acordo com a tutela, até agora foram infectados 594 utentes e 370 profissionais. Morreram 45 residentes.

No Lar de São Silvestre, que também faz parte da APPACDM de Coimbra, o drama ocorreu em Janeiro: 16 dos 17 residentes apanharam covid, quatro tiveram de ser internados, um morreu.

“Eu ainda julguei que não tinha nada”, recorda Hélia Maia, de 31 anos. Só lhe faltava o paladar. Ficou duas semanas confinada num quarto grande com outras seis raparigas, uma aparelhagem de som e alguns jogos. “Um forrobodó o dia todo!” Já passou, mas não se sente como nova. “Como nova, não.” Percebe-se com menos força. A fisioterapia já foi reforçada. Agora, é contar os dias até à normalidade possível. “Senão a gente dá em maluca!”

Não vê a avó, que vive no Entroncamento, desde Dezembro de 2019. “Para ela é um stress”, diz. “Na primeira vaga, ela queria vir buscar-me. Por causa do vírus, não fui.” Tem saudades dela. Tem saudades da família de acolhimento com quem viveu quando foi retirada à família biológica. E tem saudades do namorado, que costumava ver no CAO na Associação de Paralisia Cerebral. Manda-lhe recados por uma funcionária que é amiga de uma funcionária do lar em que ele reside. Encolhe-se na cadeira a rir só de falar nele.

Não parece haver forma de não perder. Quem mora nos lares ficou privado da vida social, mas vai tendo apoio técnico, foi fazendo as suas terapias. Quem ficou em casa, vai tendo vida familiar, mas ficou privado da ajuda especializada. “A interrupção de terapias e de actividades, por um período que se tem prolongado desta forma, tem consequências”, sublinha Paula Campos Pinto.

“Acho que este isolamento é necessário para evitar a propagação do vírus, mas a população que vamos ter depois da pandemia não será igual à que tínhamos antes”, comenta Helena Albuquerque. “É uma população mais apática, que perdeu capacidades em idades em que as perdas são difíceis de reverter. Estamos a falar de uma população adulta, alguma já em idade avançada.”

“Vamos receber pessoas muito diferentes daquelas que conhecíamos”, concorda Teresa Guimarães. “As pessoas que estão em casa há um ano ou há meio ano podem ter a saúde mental fragilizada pelo isolamento, pela ansiedade de apanhar o vírus, mas também a saúde física, por este sedentarismo em que ficaram.” E isso não se resolverá por si. “Temos de nos reinventar. Temos de pensar em novas respostas, novas formas de apoiar as pessoas.”
Preparar o regresso

No quarto de Daniela, a música volta a subir de volume. “Ninguém na rua, na noite fria,/só eu e o luar/Voltava a casa,/quando vi que havia/luz num velho bar/Não hesitei, fazia frio e nele entrei.” Roberto Leal.

É um quarto pequeno decorado em tom rosa bebé, flores, borboletas, princesas do universo Disney – a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela. Na mesa-de-cabeceira, na secretária e no armário, aparelhagens compradas em várias épocas. Nas gavetas, caixas de CD.

No princípio, Lurdes sentia-se capaz de tudo. Arrumou gavetas. Experimentou receitas. Comprou um tapete para fazer exercícios físicos com a filha. “Com o tempo, ela cansou-se. Até eu!” No CAO, Daniela tinha terapia ocupacional, mas também fisioterapia, hidroterapia, hipoterapia, terapia assistida por cães. “Passava de umas actividades para as outras. Aqui, é tudo repetitivo.”

“Vamos fazer uns jogos”, desafia a mãe. Daniela anui, mas “quer fazer tudo muito depressa”. Prefere estar ali, no quarto, a ouvir música, a ver revistas, a desenhar ou a pintar. “Está um bocadinho assim.”

Até o sono de Daniela se descontrolou. “É uma das piores coisas”, suspira Lurdes. “Sempre gostou da noite. Se pudesse, passeava à noite, ia a festas à noite. Aproveita para estar levantada até tarde. Ouve música baixinho. Dorme a manhã toda, se eu a deixar!”

Várias vezes durante a noite, Lurdes levanta-se e vai vê-la. “Estou sempre a dormir e a acordar, a dormir e a acordar.” Tem receio que ela se levante e vá sentar-se à secretária. “Não veste roupão, apanha frio.” Ou que volte para a cama e não se agasalhe.

Nasceu com uma translocação cromossómica. “Já teve mais autonomia”, diz a mãe. “Já estava a perder o andar. Agora, como está mais parada, mais ainda! Anda pior!” No desconfinamento, conduzia-a até algum espaço verde para caminhar. “Ela gosta!” No confinamento, só andam por ali, à volta de casa. Comprou-lhe uma pequena bicicleta elíptica, mas não vê motivação.

No dia 5 de Abril, reabrem os equipamentos sociais para pessoas com deficiência. “Desta vez, acho eu vou perder o medo e mandá-la para a associação, mesmo sem estar vacinada.” Lurdes disse a José: ‘Vamos ter de preparar o coraçãozinho para conseguir mandar a Daniela. Eles têm todos os cuidados e mais alguns. Ela tem de ir. Até para regular o sono.’”

No CAO, que Daniela frequenta desde os 11 anos, há um trabalho individualizado. Cada um tem um plano traçado para estimular o seu desenvolvimento. E os técnicos têm estratégias para motivar.

Tudo o que podia fazer, Lurdes fez. Para poupar a filha à covid-19, negligenciou até os cuidados de que precisa. “Estou com muita dificuldade em ler. Era para ser operada aos olhos e não fui. Tive medo de apanhar covid e de passar à Daniela. Remarquei para Maio a consulta.” Não pode continuar a adiar a sua vida. Nem a da filha. Também ela tem de encontrar a dose certa de medo.


4.3.21

“A nossa vida está encaixotada”. Primeiro foco de Covid-19 em Portugal foi aqui

Vítor Mesquita, in RR

As marcas da pandemia estão ainda bem vivas em Santo Estêvão de Barrosas, Lousada. Uma ida a Itália trouxe a Covid-19 e a propagação do vírus entre familiares e trabalhadores de uma fábrica de calçado. Um ano depois, nem todos quiseram recordar meses de críticas, estagnação, mas também de resistência.

Mal chegara a Portugal, o vírus logo deixava em sobressalto o outro lado da estrada. Filipe Soares, comercial numa empresa de componentes de calçado, vive em Santo Estêvão de Barrosas, Lousada, mesmo em frente à fábrica onde surgiu o primeiro foco de Covid-19 no país. Explica à Renascença que a notícia do primeiro caso acordou a região para a realidade da pandemia.

“Quando surgiu aqui o surto foi uma novidade. Na altura, foi complicado porque foi mesmo aqui ao pé. A partir daí, toda a gente teve noção da realidade. Até então, não tínhamos bem a noção do problema que estávamos a viver”, sublinha.

O primeiro caso daquele que se tornaria o primeiro foco de contágio era um trabalhador vindo de Itália. Chegou sem sintomas e logo surgiram outras infeções por Sars-Cov2. Muitas delas em elementos da mesma família.

O vírus avançou e apanhou o marido de Sílvia Cunha. A propagação, sabemos hoje, seria inevitável. “O contágio do meu marido foi, à partida, através do patrão, do dono da empresa, que é nosso cunhado. Para ter noção, a minha sogra juntava 30 pessoas à mesa, ao fim-de-semana, quinzenalmente. Portanto, este contágio, para além do trabalho foi também familiar, por assim dizer”, explica.

Sílvia Cunha é também comercial. Está ligada ao calçado – como, de resto, grande parte das pessoas, na região. Mora em Idães/Barrosas, a freguesia ao lado, já no concelho de Felgueiras. Foi a primeira doente confinada em casa. Com o marido no hospital dividiu os dois pisos com o filho mais novo. O apoio dos amigos foi fundamental.

“Foram momentos de muita tensão, com muitas perguntas, foi difícil”. Sílvia deixa ainda um elogio às autoridades de saúde locais, por todo o trabalho e apoio à população.
"Críticas em cima de críticas”

Em Santo Estêvão, há marcas de uma outra dificuldade. A de conviver com as redes sociais e os inúmeros ataques aos responsáveis e funcionários da fábrica.

As acusações estavam ali, à vista de todos, recorda o vizinho Francisco Martins. “Por causa da fábrica, de terem vindo de Itália, eles eram os culpados da chegada do vírus a Portugal. Eles iam aos telemóveis e viam críticas em cima de críticas. Estavam um pouco frustrados, naturalmente. E eles não tiveram culpa. Ninguém imaginava o que ia acontecer. Agora, está tudo normal.”

Com o tempo, as críticas desapareceram, mas a mágoa persiste. O dono da empresa continua a remeter-se ao silêncio. Outros familiares também recusaram falar à reportagem da Renascença.

Depois da paragem forçada devido à quarentena, o negócio acabou por resistir. As seis dezenas de trabalhadores continuam no ativo, embora num setor vital para a região nem todos sobrevivam. A incerteza é nota dominante.

Filipe Soares vai tendo trabalho, contudo, no último ano nem sempre aconteceu. Lembra, sem saudade, os primeiros meses de pandemia. “Em março e abril, houve muitas anulações de encomendas, outras ficaram à espera, devido às dúvidas sobre a evolução da Covid-19, e estamos a falar do mercado estrangeiro. Depois, em maio e junho, as coisas foram fluindo e trabalhou-se bem até ao final do ano. Há empresas que fecharam, as mais pequenas, que trabalhavam para outras de maior dimensão. A fase em que estamos a viver é que vai ser mais complicada”, antecipa. Há muitas incógnitas quanto à reabertura das lojas e as vendas refletem sempre uma qualquer estagnação, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Dependente da exportação e da evolução dos contágios, Sílvia Cunha não esconde que a atividade profissional estagnou. “A abertura para receber profissionais como eu deixou de existir. Não tenho conseguido novos clientes, porque não estou diariamente no mercado”.

“Neste momento, a prioridade é segurar aqueles que temos ou que angariámos durante uma temporada. E não posso estar preocupada com a angariação de outros. A vida está incerta. Não sabemos se as lojas vão abrir, aqui ou fora de Portugal, o que afeta quem, como eu, faz exportação”, refere. “Não sabemos”.

Parado ficou, também, o projeto familiar de uma vida. Depois da venda relâmpago da casa, no final de 2019, no início de 2020 Sílvia Cunha e a família tiveram de a abandonar. Com o país fechado a construção do novo lar foi sendo adiada.

“Íamos começar a trabalhar no nosso projeto e ficou tudo parado. Estou a viver na casa da minha mãe provisoriamente, porque durante o período de maior incidência de Covid-19 os vários serviços foram ficando fechados, mais lentos e não consegui começar nada do novo projeto de vida. A nossa vida está encaixotada, digamos”, conta.

Entretanto, o processo já dá os primeiros passos, com “todos os papéis metidos” na autarquia. Aguardam-se as decisões administrativas para que a família possa dar andamento ao projeto de uma vida. Para já, têm a vida em caixotes, à espera de que as vacinas contra a Covid-19 sejam os alicerces de um novo futuro.

Janeiro foi o segundo mês com maior destruição de emprego

Paulo Ribeiro Pinto, in Dinheiro Vivo

Apenas em maio do ano passado, depois do primeiro confinamento geral, houve registo de queda maior no número de pessoas empregadas.

Em apenas um mês, desapareceram 79 mil empregos em Portugal. Trata-se da segunda maior queda mensal da série do Instituto Nacional de Estatística (INE), que recua a 1998, apenas superada pelos valores de maio do ano passado, quando se verificou a destruição de 96,2 mil empregos, face a abril.

Os dados referentes a janeiro deste ano ainda são provisórios, mas indicam que no pós-Natal e fim de ano, com o novo confinamento geral semelhante ao da primavera do ano passado, resultou numa quebra expressiva do número de empregados, seguindo uma trajetória de queda iniciada em dezembro, depois de seis meses de recuperação.

Segundo o INE, a estimativa de população empregada em janeiro ficou em 4687,2 mil pessoas, menos 1,7%, ou 79 mil postos de trabalho, do que em dezembro. Pior do que este valor, só maio de 2020, depois de um mês e meio de confinamento, entre 19 de março e 4 de maio, quando começou a primeira fase de desconfinamento, que se estendeu até 1 de junho.


Comparando com um ano antes, a economia portuguesa contava menos 169,8 mil empregos do que em janeiro de 2020, numa quebra do emprego que atinge os 3,5%.

A taxa de emprego, que mede a relação entre a população empregada e a população total em idade ativa, recuou para os 60,2%, menos um ponto percentual do que em dezembro do ano passado, e menos 2,2 pontos percentuais do que em janeiro de 2020.

O arranque do ano fica assim marcado pelo aumento homólogo da taxa de desemprego, com a estimativa a fixar-se nos 7,2%, um aumento de quatro décimas em relação ao mês de dezembro, revista agora em alta para 6,8%. A taxa de desemprego "permite definir a relação entre a população desempregada e a população ativa", como lembra o INE.

Os dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) já apontavam para um aumento significativo do desemprego em janeiro, com o registo de mais 22 mil pessoas inscritas nos centros de emprego face a dezembro.
Mais jovens

Tem sido um dos segmentos da população mais fustigados pelas crises e nesta também não são exceção. A taxa de desemprego jovem estimada para janeiro estava nos 24,6%, uma subida de nove décimas comparando com dezembro do ano passado.

A taxa de desemprego jovem (ajustada de sazonalidade) está agora em 24,6%, tendo subido nove décimas na comparação com dezembro, mas crescendo mais de cinco pontos percentuais face ao mesmo mês de 2020. Há um ano, a taxa do desemprego na faixa entre os 15 e os 24 anos estava em 19,5%.

Este aumento é mais de 12 vezes o registado na população em geral, que teve uma subida homóloga de apenas quatro décimas.


Já em relação ao universo de subutilização do trabalho - que engloba desempregados, desencorajados, inativos e pessoas que estão em part-time, mas gostariam de fazer horário completo -, contabilizava no primeiro mês do ano 748,8 mil pessoas, mais 1,9% (ou 14,2 mil indivíduos) que no mês anterior. Comparando com janeiro do ano passado, eram mais 79,2 mil pessoas, o que corresponde a mais 11,8%.

A taxa de subutilização do trabalho - o melhor indicador para medir os impactos da pandemia no mercado laboral - foi de 14,2%, um acréscimo de cinco décimas relativamente a dezembro, e de 1,7 pontos percentuais na comparação com janeiro de 2020.
Nova série

Com a publicação das estimativas mensais de janeiro, o INE inicia uma nova série estatística do mercado laboral, para tornar os resultados mais robustos. O gabinete de estatística garante que a nova série "não contém alterações de fundo sobre o quadro conceptual do inquérito ao emprego", mas apresenta "algumas inovações".

"Uma das principais consiste no reforço da dimensão da amostra para garantir o cumprimento de critérios mais exigentes de precisão", indica o INE, que passa por alterar a idade de referência da população ativa para "16 aos 84 anos", quando antes se considerava "15 e mais anos".

Também deixam de estar classificadas na população ativa "as pessoas em atividades de agricultura e pesca exclusivamente para autoconsumo."

Razões que levam o INE a reforçar o aviso sobre "a natureza provisória das estimativas mensais referentes a dezembro de 2020 e a janeiro de 2021, visto que correspondem a trimestres móveis centrados combinando, neste caso, informação da série anterior com a da nova série, de novembro de 2020 a fevereiro de 2021."



3.3.21

Queixas de violência doméstica diminuem mas só nos meses do estado de emergência

Céu Neves, in DN

GNR e PSP foram contactadas por menos pessoas vítimas de agressão dos cônjuges, mas o confinamento terá contribuído para baixar os números. E há mais abusos de natureza psicológica e sexual do que físicos.

Os números da violência doméstica em ano de pandemia baixaram junto da PSP, mas a quebra deste tipo de crime foi pouco significativa nos registos da GNR. E, se analisarmos os dados com mais pormenor, percebemos que as denúncias às forças de segurança diminuíram à medida que aumentava o número de casos de covid-19, sobretudo nos meses em que foi decretado o estado de emergência. Na GNR, março, abril, outubro, novembro e dezembro ficaram abaixo dos mil crimes mensais de violência doméstica, menos queixas que em igual período de 2019, contrariamente aos que se passou nos restantes meses do ano.

Os registos da GNR e da PSP indicam 27 660 crimes de violência doméstica o ano passado, dados provisórios a que o DN teve acesso. Representa uma diminuição de 6,3 % em relação a 2019 (29 498). Diminuição que é mais visível junto da PSP, com menos 9,6% denúncias (14 445). Já nas estatísticas da GNR, há uma quebra de 2,2% de casos (de 13 503 para 13 215). Mas só quatro meses de 2020 tiveram menos queixas que nos meses homólogos de 2019 e 2018.

As variações registadas o ano passado não significam, para quem anda no terreno, menos casos de violência doméstica, mas sim menos denúncias devido às restrições, nomeadamente de mobilidade, decorrentes da pandemia.

"No confinamento, entre março e maio, percebemos que houve uma diminuição de novos pedidos de ajuda. Depois, houve um aumento."

"No período de confinamento entre março e maio, percebemos que houve uma diminuição de novos pedidos de ajuda. Depois, houve um aumento desses pedidos, a cifra negra terá aumentado: há um maior número de casos reportados nos meses seguintes. A partir de outubro, sentimos que houve uma estabilização no número de pessoas que nos contactaram. Já não havia o pânico relativamente à doença e, por outro lado, a vítima estava em teletrabalho com o agressor, o que limita a possibilidade de a vítima pedir de ajuda", explica Daniel Cotrim, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), responsável pelas áreas da Violência Doméstica e de Género e pela da igualdade.

As associações são a primeira porta a que as vítimas recorrem em caso de abusos, só depois é que apresentam queixa nas polícias, segundo o técnico. "Os crimes de violência doméstica continuam a existir e continuam a ser marcados pelo padrão de continuidade. Em geral, representam relações abusivas com dois, três e quatro anos, até ao momento da denúncia".

A associação manteve sempre o atendimento durante o confinamento, com a diferença que nos períodos de estado de emergência este deve ser feito por marcação.

A PSP sublinha que "desde o anterior dever de recolhimento geral, implementado em março de 2020, iniciou um procedimento de contacto frequente com vítimas referenciadas por violência doméstica, no sentido de aferir a evolução da situação". Isto para prevenir a (re)vitimização e/ou entrada em espiral de violência, nos casos em que a vítima não tenha possibilidade de alertar as autoridades". O mesmo se passa em relação à GNR, que muitas vezes se desloca às comunidades rurais.
36 183 vítimas

Os 13 215 crimes de violência doméstica registados na GNR representaram 15 489 vítimas. Significa que em alguns casos há mais do que uma pessoa a sofrer agressões, sejam físicas ou psicológicas - 12 552 vítimas em 2018 e 15 986 em 2019. Foram detidos 237 agressores em 2020 - menos do que no ano anterior (333), mas mais do que em 2018 (225). Durante os processos de investigação, apreenderam 1051 armas.

Durante o ano de 2020, a PSP contabilizou 20 694 vítimas do crime de violência doméstica, menos 1574 pessoas do que em 2019 (22 268). Significa uma descida de 7,6% no número de pessoas vitimizadas.

As restrições no âmbito da pandemia significaram uma alteração no tipo de agressão que é exercida, segundo Daniel Cotrim. O facto de as pessoas estarem confinadas, em teletrabalho, a dividir um espaço com o agressor, reforçou a agressão psicológica.
"Há um aumento de violência psicológica: ameaças, injúria, humilhação, também o aumento da violência sexual. Continua a haver violência física, mas a psicológica é superior porque é exercida de uma forma silenciosa", explica o psicólogo.

Os crimes são executados em 84% dos casos pelo cônjuge, conclusão do Relatório de Segurança Interna de 2019. Neste ano, houve um aumento em 11,4 % (mais 3015) em relação a 2018, registando-se 29 498 crimes de violência doméstica.

"Teletrabalho não se pode transformar em algo com horários ilimitados"

João Francisco Guerreiro, em Bruxelas, in DN

A Comissão Europeia apresenta nesta quarta-feira o plano de ação do pilar europeu dos direitos sociais, que deverá ser aprovado na cimeira do Porto, em maio, organizada pela presidência portuguesa da União Europeia. O DN falou com o eurodeputado Manuel Pizarro, membro da Comissão de Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu, e membro do grupo coordenador da Cimeira Social.

O que espera ver detalhado no plano de ação do pilar europeu dos direitos sociais?
Primeira notícia muito importante é haver um plano de ação. Porque, a verdade é que isso mostra que há mesmo um novo vento político na Europa. Na crise anterior a resposta foi austeridade e contenção. Nesta crise, a resposta tem sido investimento. E agora uma nova aposta na dimensão social da União Europeia. O pilar europeu foi aprovado em 2017, com um acordo entre os Estados-membros, em Gotemburgo. A nossa expectativa é que este plano de ação ponha em marcha um conjunto de medidas concretas que permitam que o conjunto dos europeus venha a atingir uma vida mais digna.

Passaram praticamente quatro anos desde que foi proclamado o pilar social, em Gotemburgo, sem avanços significativos o que o leva a creditar que será desta que serão dados passos concretos?
A existência de um muito maior consenso político. Eu diria que as principais famílias políticas europeias estão hoje de acordo que a resposta a esta crise não pode ser uma resposta por via da austeridade. Ao contrário, tem que ser uma resposta por via do progresso. E, o progresso tem uma componente essencial que é a coesão social, que é além de tudo mais indispensável se queremos assegurar mesmo uma transição climática e uma transição digital. Estas duas transições não são possíveis, sem maior coesão social e sem envolver o conjunto dos europeus, nesta senda de progresso económico.

Este será o tema da cimeira do Porto, em maio, o que é que esta cimeira deveria acrescentar?
Espero que na cimeira seja possível aprovar, entre as diferentes instituições europeias, o Plano de Ação para a implementação do Pilar, e que seja possível também comprometer o conjunto das autoridades, não apenas nacionais, mas também regionais e locais, os parceiros sociais e a sociedade civil europeia, no alcançar destas metas. São metas que necessariamente terão que ser muito ambiciosas, em matéria de proteção dos trabalhadores e dos direitos laborais, promoção da igualdade de género, combate à pobreza e desigualdades, promoção do acesso à habitação, à educação a saúde, e tudo aquilo que caracteriza uma visão progressista da União Europeia.

De que forma podem evoluir os direitos sociais na era digital?
​​​​​​​Espero que seja reforçada a ideia de que é necessário proceder a separação entre a vida pessoal e familiar e o trabalho, - porque as fronteiras esbatem-se em todos estes mecanismos de teletrabalho e virtualização do digital - e que sejam criadas regras claras para o chamado direito a desligar. Porque existe o risco de o trabalho à distância, o trabalho por meios digitais, se transformar em algo que não tem horários limitados. Eu acho que nós temos que aproveitar a digitalização a favor dos seres humanos e não tornarmo-nos escravos de um mundo digital, que a certa altura nos impede de termos uma vida pessoal e familiar separada da nossa vida laboral. Isto, por mais importante que seja a nossa vida laboral e por mais importante que seja garantir que mais e mais europeus têm direito a um emprego. Não apenas um emprego, mas um emprego com dignidade e com condições aceitáveis.

Entende que o contexto do teletrabalho expôs problemas a este nível?
​​​​​​​Pode ser olhado dos dois lados. Há pessoas para quem o teletrabalho é uma vantagem inequívoca, que se dão bem com esse regime, que poupam o esforço físico e até o custo económico e ambiental das viagens. Mas também há outras pessoas que se sentem muito isoladas. E, o risco de sobre exploração, nomeadamente de sobre exploração em matéria de horário de trabalho, é um risco que existe. Por isso é tão importante associar à promoção do teletrabalho à proteção dos direitos de quem está nesse regime, nomeadamente do direito a desligar.

Já agora que expectativa tem, em relação à realização da cimeira, neste contexto atual de pandemia?
Os dados epidemiológicos mais recentes parecem ser muito favoráveis, no conjunto da União Europeia, e em especial no nosso país. Espero que tenhamos condições para que a cimeira se faça com presença física, porque isso apesar de tudo contribui muito para o clima de diálogo informal, que é indispensável ou quase indispensável a que se atinja um consenso. Mas, os últimos meses provaram que, num contexto europeu, é possível avançar e chegar a consensos em temas muito importantes mesmo quando as reuniões têm que se fazer sem presença física. E, portanto, tenho esperança de que possamos fazer jus à tradicional hospitalidade portuguesa e portuense, na Cimeira Social de maio. Mas enfim terá que se realizar, sejam quais forem as condições epidemiológicas da altura.

Quais são os próximos passos?
​​​​​​​Pode acontecer que o plano de ação seja mesmo aprovado na cimeira do Porto, sob a forma de acordo entre Estados. Aliás, o pilar europeu foi aprovado em 2017, em Gotemburgo, sob a forma de um acordo entre Estados, não necessitando do processo legislativo europeu normal. Eu diria que essa é uma das possibilidades que está em cima da mesa. Veremos como é que as coisas evoluem. Agora que há aqui um passo em frente na Europa, há um gigantesco passo em frente da Europa.

Prisioneiros da covid-19

Ana Cristina Pereira (Texto) e Rui Oliveira(Fotos), in Público on-line

Delfina, Maria e Daniel nunca puseram um pé fora do lar. Fernanda só no Natal. Marco saiu de casa apenas para ir ao barbeiro e ao otorrino. Maria José sai para fazer tratamentos e andar. Nelson ainda deu umas escapadelas no verão, mas vindo o frio não se atreveu a sair do condomínio. São uma espécie de prisioneiros da covid-19. O relato da sua experiência de reclusão é intermediado, a itálico, pelo comentário de António Fonseca, professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, especializado em Psicologia do Desenvolvimento.

Delfina Leal não sai do Lar António Barbosa, da Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira, desde o dia 8 de Março de 2020. Naquele domingo, o coronavírus insinuou-se na conversa da família. Os primeiros casos tinham sido confirmados na segunda-feira, dia 2.

Já não se demorou naquele almoço com o sobrinho, a mulher e os filhos. “Comi e vim.” Estava convencida de que tudo passaria depressa, mas nunca mais foi à família, ao banco, ao contabilista ou ao cemitério pôr verduras na campa do marido. “O meu sobrinho liga e é com ele que eu falo. Uma vez vi-o. O trânsito estava a passar e ele estava lá em baixo e eu aqui em cima.”

É como se o 78º ano da sua vida não contasse. Mesmo assim, está serena. “Trabalhei, estive na Alemanha 23 anos, mas dou-me em casa.” Participa no exercício físico, nos jogos cognitivos, na oração. Rega as plantas perto do seu quarto. Alimenta uma gata que anda por ali. Amiúde, a “Camila” segue-a, “como se fosse um cãozinho”.

O encarceramento não a impediu de ter covid-19. No Outono, houve surto no lar. Entre os 58 idosos residentes, só oito ficaram livres de contágio. “O maior problema foi os intestinos. Colites. Também tive dores de cabeça. A comida não tem sabor. Ainda agora almocei e fiquei com um mau gosto na boca. Um amargo. Parece fel.”

Quando as visitas recomeçaram, à semana, à hora marcada, com um vidro, o sobrinho não arranjou horário compatível. No Natal, alguns saíram, como a amiga Palmira Ribeiro, de 89 anos, que estava doida para ir a Santo Tirso ver a bisneta e lá foi, apesar de tal a forçar a quarentena. Ela não. “A gente até tem medo de ir para a rua.”

Às vezes, pergunta-se para quê tanto sacrifício. “Se a gente morrer, o que é que a gente está cá a fazer? A gente já não está a fazer nada. A gente está aqui à espera. O meu marido não foi?” Ao ouvi-la dizer isto, a animadora Glória Ribeiro pede-lhe que desvie esse pensamento. Levou as duas doses de vacina. Um dia destes, há-de ver o sobrinho e os sobrinhos netos e a campa do marido.

["A pandemia veio pôr a nu o funcionamento dos lares. São lugares de grande inquietação afectiva. As pessoas estão muito sozinhas. As instituições têm pouco pessoal disponível para as ouvir contar a mesma história pela enésima vez, para as ajudar nos processos de luto. Parte-se do princípio que todas recebem visitas e que a pandemia as impediu, mas… há pessoas que estão meses sem visitas. Algumas nunca as tiveram. Já antes, a ideia de que os familiares não os podiam visitar era só meia verdade. Muitos lares têm horários mais restritivos do que os hospitais. A existência de horário de visitas em lares é algo que sempre me provocou desconforto. Para quê?”, questiona António Fonseca, professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, especializado em Psicologia do Desenvolvimento]
Uma grande solidão

Maria Fernanda Macedo, de 85 anos, não recebeu visita alguma. Já antes recebia muitíssimo poucas. “É qualquer coisa muito íntima que me faz não querer. Mas saía, ia visitar amigos e familiares. Ia ao médico. Ia ao cafezinho, ia ver as montras. Agora, não. Para ir ao dentista tenho de estar 15 dias no quarto fechada!”

No Natal foi a Lisboa ver a família. Desde o primeiro estado de emergência, só daquela vez cruzou o portão. Essa espécie de saída precária aliviou-a. “Foi o que me valeu. Estava a sentir muita solidão. Estava a perder o controlo. A nossa cabeça quando está lúcida trabalha muito, não é?”

O gosto pelas pequenas coisas esmoreceu. Gostava de ler jornais. A leitura perdeu graça. “Eu leio, mas chego a metade e já não me lembro do princípio!” Gostava de fazer crochet. “Não tenho linhas. Está tudo fechado!” Veste-se, penteia-se, maquilha-se e junta-se à sua amiga, Rosário Coelho, de 93 anos. “Passamos muito tempo no quarto a ver televisão ou a ouvir notícias.”

Nada a liga a Paços de Ferreira. Há falta de vagas nos lares das cidades, os lares das zonas mais rurais importam idosos. A irmã estava ali. “Eu vinha cá muitas vezes visitá-la. A minha ideia era ir para um lar algum dia que ficasse sozinha. Não queria acabar os meus dias abandonada. Ela disse-me para vir e eu vim.”

A irmã já não está ali. Fernanda cruza-se com pessoas de estrato social diferente daquele a que se habituara lá fora e isola-se ali dentro. A pandemia só veio agravar esta sensação de pessoa mal situada. “Há um desconforto total. Acho que a solidão faz mal a todos, mas nos velhos é pior.

["Há uma acomodação aprendida. A pessoa acaba por se habituar, mas, quando falamos da importância de sair de casa ou dos lares, não é só para a pessoa estar no aniversário do neto ou do bisneto. A estimulação cognitiva faz-se através da diversidade de contactos. A pessoa é estimulada na medida em que é introduzida na vida social normal. Quando a tiramos daí, estamos a diminuir substancialmente as suas oportunidades de estimulação. A ausência de contactos também potencia sintomas de depressão, o que, por sua vez, leva a pior funcionamento cognitivo.”]
Um belo namoro

“Eu queria ver a minha mãe”, diz Maria da Costa Martins, de 59 anos. Está cega e um tanto surda em casa de um irmão. “Ao pé dela, falo-lhe ao ouvido. Pela voz, ela conhece-me. Ao telefone, ela pergunta: ‘É a minha Maria?’ E o meu irmão, a minha cunhada ou os meus sobrinhos dizem: ‘É.’” Nada lhe pode dizer sem intermediário.

Entrou debilitada no Lar António Barbosa há dois anos, na sequência de um processo de violência intrafamiliar. Daniel Moreira Fernandes, de 89 anos, deu-lhe muita força, emprestou-lhe uma bengala tripé e, com a ajuda dos técnicos e auxiliares, Maria recuperou. Agora corre tudo para cima e para baixo.

Enamoraram-se, Maria e Daniel. “Uma vez por semana, íamos a casa dele de táxi. Íamos de manhã e vínhamos à noite. Tem lá muita fruta. Íamos à fruta. Noutros dias, íamos a pé até à cidade. Íamos aos correios. Íamos à farmácia. Íamos ao parque. Íamos passear. Encontrava muita gente conhecida. Veio a pandemia, acabou tudo. A fronteira fechou. Não podemos sair.” Nem ao médico voltou. E não sabe o que é uma noite inteira de sono. Tantas vezes, ao passar a ronda, arregala os olhos e assim fica.

A companhia ajuda. “Não fazemos coisas feias”, brinca ele. Vão até à sala de convívio. “Ando a aprender a jogar dominó. Já lhe dou um jeito. Quero ser a parceira dele”, ri-se ela. “Damos uns passeios no recinto do lar.” Conversam. “Vou ao quarto dele. Tenho ordens da doutora. Posso ir lá. Até ao primeiro intervalo do Telejornal, estou lá.”

O surto de covid agravou tudo, embora se tivessem mantido assintomáticos. “Conforme estive aqui, conforme estive sempre”, assegura ele. “Tivemos um tempo dentro dos quartos”, torna ela. Só falavam por telefone. “Ele ia ao passadiço e eu, do quarto, via-o.” A ansiedade de Maria fustigava-a. “A pessoa desesperava. O que me valia era a Praça da Alegria. Dançava, cantava!”

Embora tenham tomado as duas doses de vacina, lá fora não há imunidade de grupo. “Gostava de ir por aí fora e de abraçar aquela gente toda”, diz ela. “Sei que agora não se pode abraçar ninguém, mas tenho muitas, muitas saudades de fazer isso! Tenho medo de nunca mais voltarmos ao tempo que tínhamos.”

["Não estamos a falar de pessoas com demência, afastadas da realidade, com dificuldade em situar-se no tempo e no espaço. Estamos a falar de pessoas conscientes, que estão a passar por uma situação desorganizadora das suas rotinas. É verdade que podem recorrer às tecnologias para falar com familiares e amigos, mas falta o estar com o outro, o tocar no outro, o dar um abraço ou um beijo sem que isso constitua um risco. Isso pode trazer trauma, mas a generalidade das pessoas ultrapassará este tempo. As pessoas são mais resilientes do que supomos. Nem todas sofrem da mesma forma. Algumas, com determinado tipo de personalidade, até estão felizes por estarem isoladas.”]
Uma dependência agravada

No último ano, o filho de Maria Amélia Dias só saiu de casa para ir ao barbeiro e ao otorrino. Ela teve um entupimento de canal lacrimal. O médico proibiu-a de andar ao frio e ela deixou de o levar ao Centro de Actividades Ocupacionais (CAO). Veio a pandemia e ficou a família reduzida àquele sexto andar de Matosinhos.

O CAO da APPCDM do Porto, como os outros, fechou em Março, reabriu em Maio, voltou a fechar no final de Janeiro, sem que Marco tornasse a frequentá-lo. Não é que a covid represente um risco acrescido para quem tem síndrome de Down, como ele. É que o pai sofreu uma traqueostomia. Usa uma cânula. “Não fala. Eu tenho de tratar de tudo. Tenho de proteger o pai e o filho.”

Amélia está exausta. A sua depressão, que já era crónica, “atingiu o auge”. Pouco sai. “Vou à padaria a correr.” Acompanha o marido às consultas. “Os vizinhos têm sido excepcionais. Vêm cá um casal ver se o Marco está bem. Ele tem noção de tudo, sabe o que pode ou não fazer.”

Sente que o filho está a regredir, sem as terapias do CAO. “Até a rotina de se levantar antes das 7h acabou. Não o vou levantar só para manter a rotina, porque também tenho de olhar pelo pai e tenho 75 anos.”

Marco dorme até às 10h30 ou 11h00. Senta-se na mesa de pequeno-almoço preparada de véspera. Come. E desenha, pinta, recorta, vê televisão. Gosta do canal infanto-juvenil Biggs. Adora a série de animação Dragon Ball. E entretém-se com programas de desporto. O wrestling fascina-o.

Pergunta-se-lhe se quer voltar ao CAO, que frequentou tantos dos seus 48 anos. “Está frio e chuva, trevada, não”, responde, apesar de não haver sinal de mau tempo. A mãe faz a pergunta de outra forma e ele volta a recusar. “Os meninos do Porto estão cheios de frio. Não há curso.”

Nunca gostou de sair de casa. “Saídas era para ir ao barbeiro. Se fosse a um restaurante, tínhamos de ir logo para casa. O mundo dele era a casa e o CAO.” Há um ano que o mundo dele é aquele apartamento. A semana passava, os monitores que lhe trouxeram desenhos quiseram levá-lo a dar uma volta e ele declinou. Esta sexta-feira, pela primeira vez, aceitou ir. “Gosta muito deles. É como se fossem família.”

A gestora do processo de Marco liga amiúde a Amélia a perguntar se precisa de ajuda. Podem levar Marco para um lar residencial uns dias para ela descansar. “Isso era matar o meu filho.” O regresso ao CAO terá de se fazer de forma gradual, como se fez com o infantário. “Ele nunca usufruiu tanta presença da mãe.”

["Desconfinar também significará reduzir o medo. Não seremos iguais. Somos resilientes, vamos conseguir ultrapassar a ferida que isto abriu, mas a história não nos abandona. Há pessoas que perderam familiares, amigos, vizinhos. São perdas irreparáveis. A imobilidade provoca perda de massa muscular que nos idosos pode ser irreversível. O desuso contribui para a perda de funcionalidade. Vamos ter mais pessoas com dificuldade em andar, com medo de se deslocar, de cair. Provavelmente, as pessoas vão adoptar comportamentos preventivos de disseminação de doenças, vão dar mais atenção à higienização das mãos, proteger-se com máscara, como na Ásia.”]
Um valente susto

Contra todas as possibilidades, Maria José Marrafa apanhou covid. Com uma recidiva de cancro de mama, metástases nos ossos, na coluna, nos pulmões, no fígado.

A professora de Português, de 54 anos, deixara de trabalhar em Janeiro de 2020. “Não conseguia corresponder. Sentia-me muito cansada.” Fechou-se em casa com o marido e a sogra. Desde que a pandemia começou, entra ali a empregada e pouco mais.

O marido, Manuel Pina, assumiu as compras. “Nunca mais entrei num supermercado.” O professor de Educação Visual e Tecnológica, de 62 anos, também está em casa, com baixa médica. Já teve um linfoma. Faz parte dos grupos de risco. “Tem sido o meu pilar. Ajuda-me em tudo.” A uns minutos de casa, em Oliveira de Azeméis, há uma área arborizada. O casal dá os seus passeios higiénicos com o cão, “Body”. “Faz-me bem tanto ao corpo como ao espírito.”

Maria José não se podia encerrar simplesmente. Não podia deixar de ir ao Instituto Português de Oncologia, ao Porto, fazer os tratamentos. No princípio, tudo lhe parecia estranho. “Controlo de entrada. Corredores vazios. Salas de espera vazias. Ver pessoas que estavam ali pela primeira vez sozinhas, sem apoio, causava-me impressão. Sentava-me sem tocar em nada. Tinha medo de tocar num puxado.”

No início do verão, um susto dos diabos. Um derrame pleural. “A situação evoluiu rapidamente”, conta. “Tive de ir para o hospital. A médica disse que havia suspeita de covid. E foi como se o mundo me tivesse caído. Estava com dificuldades respiratórias. Se tivesse covid, seria muito mau. Que aflição!” Enquanto esperava, isolada, viu o filme da sua vida. “Comecei a pensar nos momentos bons e nas pessoas que me traziam boas recordações. E foi assim que consegui suportar a aflição.” Se tivesse de listar os piores dias da sua vida, os daquele internamento estariam lá. Sozinha, com roupa do IPO, o olhar para o fim.

Depois de um susto tão grande, quando o vírus lhe entrou em casa, em Janeiro, até lhe pareceu que teve sorte. Dores musculares, um pouco de febre, um agravamento das dores nas costas, diarreia. “Não me posso queixar.” Nesta reclusão, ajuda ter hobbies. “Gosto de ler. Gosto de ouvir música. Gosto de ver filme e séries. Gosto de estar com o cão e com os gatos. Gosto de conversar ao telefone. Gosto de fazer palavras cruzadas.”

["Muitas vezes, as situações limite, como um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral, fazem-nos valorizar o que temos. Seria bom que com isto as pessoas aprendessem a valorizar mais a vida social, as relações sociais, as relações afectivas. Foi um ano muito pobre do ponto de vista relacional, sobretudo para as pessoas mais velhos, para as pessoas com deficiência, para as crianças e jovens que vivem em instituições. As pessoas podem querer compensar este ano perdido. Eu próprio olho para muitas coisas que não fiz e quero fazer em dobro. É o cliché do: éramos felizes e não sabíamos.”]
O “normal” de alguns

Há quem viva uma vida inteira assim, na incerteza. Nelson Morais tinha menos de um ano quando recebeu o diagnóstico de Atrofia Muscular Espinhal. Há uns anos, desenvolveu Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. Precisa de ventilação não invasiva principalmente durante o sono.

Não se rendeu à doença, que o atirou para uma cadeira de rodas. Com o apoio dos pais, estudou Ciência de Computadores. Especializou-se em “data mining e processamento de dados”.

Quando tudo começou, de segunda a sexta o investigador de 32 anos ia trabalhar para o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC). O pai transportava-o numa viatura adaptada. Inscrevera-se no projecto-piloto de apoio à vida independente e tinha assistente pessoal quatro horas por dia.

Agora, está em teletrabalho. Dispensou o assistente social. Deixou de ir às sessões de fisioterapia. “Este tempo lembra-me o último semestre do mestrado”, diz. “Tal como agora, passava imenso tempo a trabalhar em casa no meu portátil. Era a minha janela para o mundo. Os contactos pessoais tinham sido drasticamente reduzidos. As saídas eram raras.”

No Verão, ainda foi “buscar inspiração ao pé do mar” e ainda passou uns dias “na terra”, uma aldeia de Montalegre. Desde que o frio chegou, fica-se pelo condomínio, em Vila Nova de Gaia. “A ironia foi ter passado a conseguir afastar-me um pouco mais de casa porque certos passeios se tornaram acessíveis, num ano em que a circulação esteve tão limitada para todos os cidadãos.”

De certo modo, é como se tivesse vivido sempre em confinamento. Nas suas palavras, “o confinamento é uma experiência do que é viver com mobilidade reduzida”. “Está quase tudo fechado. A pessoa está à porta, mas não pode entrar. Na incerteza, muitas ficam em casa.”

Que faz para se evadir? “Quem está em teletrabalho como eu, acaba por ter pouco tempo livre de segunda a sexta-feira”, diz. “O que sobra é aproveitado para ir ao cinema, ler, reflectir, escutar música, escrever. Quem se vê como um lobo solitário e aprendeu desde cedo a divertir-se sozinho não considera propriamente desafiante arranjar forma de se manter entretido.” Mas tem saudades de estar com as suas pessoas, de ir a festas, de trabalhar no INESC e de sair à hora do almoço para apanhar um pouco de sol no rosto, de estar com pessoas à volta de uma mesa a discutir, de falar com as pessoas na rua e, sobretudo, de não ter medo.


RUI OLIVEIRA

Delfina Leal não sai do Lar António Barbosa, da Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira, desde o dia 8 de Março de 2020. Naquele domingo, o coronavírus insinuou-se na conversa da família. Os primeiros casos tinham sido confirmados na segunda-feira, dia 2.

Já não se demorou naquele almoço com o sobrinho, a mulher e os filhos. “Comi e vim.” Estava convencida de que tudo passaria depressa, mas nunca mais foi à família, ao banco, ao contabilista ou ao cemitério pôr verduras na campa do marido. “O meu sobrinho liga e é com ele que eu falo. Uma vez vi-o. O trânsito estava a passar e ele estava lá em baixo e eu aqui em cima.”

2.3.21

Escolas estão a alimentar 40% dos alunos que serviam antes do confinamento

Samuel Silva, in Público on-line

Em média, estão a ser distribuídas 45 mil refeições por dia, sintoma dos “seríssimos problemas” por que estão a passar as famílias, dizem os directores. Também é cada vez maior o número de alunos que está a ter aulas presencialmente.

As escolas públicas serviram, em média 45 mil refeições por dia na última semana. Este número significa que estão a ser alimentados cerca de 40% dos alunos que eram atendidos no período de ensino presencial. O total de estudantes que recorre às cantinas não tem parado de crescer desde que, em Janeiro, o Governo decidiu suspender as actividades educativas.

As cantinas escolares serviram cerca de 115 mil refeições diárias nas três semanas de aulas de Janeiro, antes da pausa lectiva. Na última semana, com a generalidade dos alunos em casa, foram atendidos 45 mil estudantes por dia, avança o Ministério da Educação.


Este número mais do que duplicou face à primeira semana de suspensão lectiva (21 mil refeições em média). Na semana seguinte, que ainda foi de “férias” forçadas, comeram nas escolas 30 mil estudantes. A tendência de crescimento manteve-se quando os alunos retomaram o ensino à distância – as cantinas serviram então, em média, 37 mil refeições diárias.

O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, associa este crescimento aos “seríssimos problemas” que estão a afectar “muitas famílias”, devido aos impactos socioeconómicos da pandemia. “A sensibilidade das escolas aos problemas sociais tem sido o grande trunfo na ajuda às comunidades neste momento de dificuldade”, considera.

Estes dados ganham ainda mais força quando a comparação é feita com o ano passado. Na primeira semana de Abril, as escolas serviram 10 mil refeições diárias. Nessa altura, apenas os alunos com escalão A da Acção Social Escolar, ou seja, os mais carenciados, tinham acesso à refeição escolar. O Governo decidiu depois alargar este apoio alimentar aos estudantes com escalão B, além de todos os que estão a ter aulas presencialmente nas escolas.

O número de alunos em ensino presencial também tem vindo a crescer, mostram os dados do Ministério da Educação. Na semana passada, foram às escolas 18 mil alunos por dia. Na primeira semana de ensino remoto, as escolas receberam uma média diária de 12.500 estudantes. Na primeira semana de interrupção lectiva, ainda em Janeiro, apenas 1600 alunos recorreram às escolas de acolhimento.

Estes estabelecimentos de ensino estão abertos, em primeira instância, para receber os filhos dos profissionais dos serviços essenciais. São cerca de 7000 estudantes que têm aulas presencialmente por esse motivo, um número que se tem mantido estável desde o regresso do ensino remoto.
Mais alunos com necessidades educativas especiais

O aumento do número de estudantes que estão a ir às escolas deve-se ao crescimento dos alunos com necessidades educativas especiais – cerca de 5000 por dia na última semana, mais do dobro do valor registado na primeira semana de ensino à distância (2300).

Também tem aumentado o total de alunos para quem as escolas consideraram ineficaz a aplicação do regime não presencial ou que estão em risco de abandono. Na primeira semana de aulas à distância, havia 3300 alunos nos estabelecimentos de ensino por este motivo. Na semana passada, foram 6000.

Estão a ser encaminhados para as escolas os alunos com problemas de acesso à Internet, mas também os que “não têm o ambiente familiar adequado e aqueles que não estão a responder às tarefas que os professores lhes enviam”, diz o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima.

Este número “tem tendência a aumentar” até que o ensino presencial possa ser retomado, antecipa o mesmo responsável. “O ensino remoto é propício ao aumento do absentismo. Chamar os alunos para a escola é a forma de garantir que o absentismo não resulta num aumento do abandono”.

O Ministério da Educação elencou um conjunto de 700 escolas de referência para receber os alunos que têm aulas presenciais. No entanto, estão neste momento em funcionamento cerca de 1500 estabelecimentos de ensino, uma vez que várias direcções de agrupamento optaram por manter abertas outras instalações além da escola sede, para responder a dificuldades de transportes ou facilitar o trabalho com alunos que necessitam de terapias específicas.

1.3.21

Pobreza. Carlos Farinha Rodrigues deixa alerta sobre alívio das medidas de emergência

in RTP

Para evitar um desastre social, o alívio das medidas de emergência, como as moratórias, tem de ser feito com cuidado.

O alerta é lançado por Carlos Farinha Rodrigues, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão e também membro da comissão de coordenação para a elaboração da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza que afirma recear que o pior, em termos sociais, ainda está para vir. 

Carlos Farinha Rodrigues foi o entrevistado do programa Conversa Capital, da Antena 1 e do Jornal de Negócios, emitido aos domingos.

Assim, Portugal está condenado à pobreza

José António Saraiva, in Sol

Como é que cidadãos naturais de um país que não consegue equilibrar o orçamento, que não produz o suficiente para as pessoas terem ordenados decentes, que vive há 25 anos dos dinheiros da Europa, têm o desplante de dizer que têm ‘vergonha’ do passado?

Na semana passada, escrevi que não devíamos envergonhar-nos do passado – devemos antes preocupar-nos com o presente.

Como é que cidadãos naturais de um país que não consegue equilibrar o orçamento, que não produz o suficiente para as pessoas terem ordenados decentes, que vive há 25 anos dos dinheiros da Europa, têm o desplante de dizer que têm ‘vergonha’ do passado?

Parece uma anedota.

Ainda por cima, esses grupos de pessoas que se dizem ‘envergonhadas’ do nosso passado são, muitas vezes, quem nos impede hoje de andar para a frente.

Porquê?

Porque têm uma visão errada do desenvolvimento.

Em vez de quererem premiar os que trabalham, os que têm iniciativa, os que criam emprego, preferem premiar os que não trabalham.

Podem fazê-lo com a melhor das intenções.

Podem defendê-lo por razões humanitárias.

Não ponho isso em causa.

O problema é que as políticas que privilegiam o que não é produtivo levam os países cada vez mais para o fundo.

Esses grupos de pessoas exigem o reforço do SNS, um maior investimento na escola pública, transportes tendencialmente gratuitos, a nacionalização de empresas ‘estratégicas’ (como a da TAP), o aumento dos funcionários públicos, o alargamento do subsídio de desemprego, o crescimento do rendimento mínimo garantido, a redução do horário de trabalho nas empresas privadas, agora os subsídios para todos os que têm de ficar em casa por causa da pandemia, etc.

Onde iremos parar com tudo isto?

Fazer aumentos de salários que não correspondam a um aumento da produtividade; investir em projetos que não tenham retorno; reduzir horários de trabalho; proporcionar serviços grátis; nacionalizar empresas improdutivas; pagar a muita gente que não trabalha – é o caminho seguro para o empobrecimento e a bancarrota.

Conheço pessoas que, tendo um emprego, preferiram ir para o desemprego – porque continuavam a ganhar sem trabalhar, sem gastar dinheiro em transportes e refeições, e até podendo fazer um ‘biscate’ e ganhar alguma coisita por fora…

Conheço pessoas que recebem propostas de trabalho mas preferem continuar no desemprego, pelas mesmas razões.

Conheço pessoas que recebem o rendimento mínimo e não procuram trabalho porque não pretendem mais.

A realidade mostra que pagar a quem não trabalha é um perigo.

E o Estado sai duplamente prejudicado: porque paga os subsídios e não recebe os impostos que essas pessoas pagariam se estivessem a trabalhar.

Já se pensou quantos portugueses – entre desempregados, gente com rendimento mínimo garantido, reformados, trabalhadores em regime de lay-off, funcionários com baixa médica, etc. – haverá em Portugal que estão a receber subvenções do Estado sem trabalhar?

E há ainda a situação dos presos.

Muitas destas pessoas – mesmo os reformados, em certas situações – poderiam fazer qualquer coisa de útil para a comunidade.

Receber sem trabalhar é muito pouco saudável.

Cria vícios e convida à inação.

Dir-se-á: mas os ordenados são tão baixos que não compensa trabalhar.

Ora, com essa mentalidade, entramos num círculo vicioso.

Quanto menos gente trabalhar, menos o país produz; e quanto menos o país produzir, mais baixos serão os ordenados; e quanto mais baixos forem os ordenados, menos incentivo haverá para trabalhar.

Acreditem: por este caminho, não sairemos da cepa torta.

Com esta mentalidade dos subsídios, do SNS universal e gratuito, da escola pública universal e gratuita, das nacionalizações de empresas falidas, etc., é impossível crescermos.

Este modelo pode ser muito bonito, muito humano, mas não conduz ao aumento da riqueza – conduz à perpetuação da pobreza.

De uma forma geral, não trabalhar e receber, ou utilizar um serviço e não o pagar, são maus princípios.

E colocam sobre o Estado um peso tal que se torna um travão ao desenvolvimento.

O nosso problema não é de governo – é de modelo.

O país tem de se libertar da dependência do Estado.

Tem de ser capaz de viver por si.

O Estado deve vir no fim, como árbitro e regulador, não deve vir no início, como empregador, como fonte do rendimento da maioria das famílias, como investidor, como prestador de serviços gratuitos.

Na última semana escrevi que precisamos de um assomo de orgulho nacional; hoje acrescento: e precisamos de um ‘choque liberal’.

Este sistema ‘assistencialista’ que temos não nos leva a parte nenhuma.

Já fomos ultrapassados por quase todos os países de Leste.

Por este caminho, vamos parar ao último lugar da Europa.