Mostrar mensagens com a etiqueta Crianças e Jovens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crianças e Jovens. Mostrar todas as mensagens

6.6.23

Impacto da guerra nas crianças ucranianas: “Não há um botão de pausa na infância”

PÚBLICO e Europa Press


No Dia Internacional das Crianças Vítimas Inocentes de Agressão, as Nações Unidas lembram os efeitos a curto e longo prazo do conflito nos mais jovens.

A guerra na Ucrânia trouxe para a Europa um exemplo do impacto dos conflitos no crescimento das crianças um pouco por todo o mundo onde há guerras a marcar o quotidiano. Além das muitas crianças mortas e feridas como danos colaterais das acções bélicas, as Nações Unidas estão preocupadas com os efeitos físicos e psicológicos do conflito nas crianças ucranianas a curto, médio e longo prazo. As marcas invisíveis que transcendem o imediato, silenciosas, e que se podem revelar a qualquer momento neste que é um dos grupos mais vulneráveis.

Como diz o porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Ucrânia, Damian Rance, neste domingo, 4 de Junho, em que a organização assinala o Dia Internacional das Crianças Vítimas Inocentes de Agressão, “não há um botão de pausa na infância”.

A Ucrânia é apenas um dos cenários de guerra no planeta porque são cada vez mais as crianças que vivem em zonas de conflito: pelo menos 230 milhões actualmente, de acordo com um relatório da organização não-governamental Save the Children. Desde 2005 mais de 104 mil crianças foram mortas ou ficaram mutiladas por causa de conflitos no mundo, de acordo com a Unicef, 93 mil foram recrutadas por grupos armados, 25.700 foram sequestradas e 14.200 sofreram violência sexual.

Em relação à guerra na Ucrânia, Rance, em entrevista à Europa Press, alerta para o “impacto dramático” que a guerra terá “no futuro de todas e cada uma das 7,8 milhões de crianças do país”, a quem o conflito “roubou festas de aniversário, recordações escolares e o seu tempo com amigos e familiares”. Já para não falar daquelas que perderam familiares e amigos, mortos em consequência do conflito.

[Artigo exclusivo para assinantes]



15.5.23

Apoio adicional ao abono de família vai ser pago já esta terça-feira

Por lusa, in CNN

O apoio adicional ao abono de família, que vai abranger 1,1 milhões de crianças e jovens, é pago na terça-feira, disse a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

“Será pago amanhã [terça-feira], 45 euros. Portanto, é o primeiro apoio relativamente ao ano de 2023”, disse Ana Mendes Godinho a jornalistas, em Fátima (Santarém), referindo que “é um apoio calculado com uma base mensal de 15 euros por criança”, mas pago trimestralmente.

“Este é o primeiro que é feito, pago com retroativos”, e “abrangerá cerca de um milhão e cem mil crianças em Portugal”, adiantou.

Em março, o Conselho de Ministros aprovou um apoio adicional ao abono de família, a pagar a cada criança e jovem beneficiário de abono de família, no montante mensal de 15 euros, pago trimestralmente em 2023.

Este apoio abrange os titulares de abono de família para crianças e jovens, correspondentes aos 1.º, 2.º, 3.º ou 4º escalões de rendimentos do agregado familiar.

No âmbito do conjunto de medidas excecionais de apoio às famílias mais vulneráveis para mitigar os efeitos da inflação, foi também aprovado na ocasião um apoio extraordinário para as famílias mais vulneráveis no montante mensal de 30 euros, pago trimestralmente em 2023.

Este apoio abrange as famílias beneficiárias da tarifa social de energia elétrica (TSEE) por referência ao mês anterior ao pagamento.

São também abrangidas as famílias que não sejam beneficiárias da TSEE, mas em que pelo menos um dos membros do agregado familiar seja beneficiário (por referência ao mês anterior ao pagamento) de prestações sociais mínimas como o complemento solidário para idosos, rendimento social de inserção, pensão social de invalidez do regime especial de proteção na invalidez, complemento da prestação social para a inclusão, pensão social de velhice e subsídio social de desemprego.

Segundo informação do Ministério das Finanças, este apoio chega a cerca de um milhão de agregados familiares.

26.4.23

Educação para a dignidade pessoal: o papel urgente dos pais

Ana Catarina Mesquita, opinião, in Expresso



A corrida aos “ likes” do Instagram e do Facebook , a tentativa de conquista de um maior número de seguidores, assim como a procura da fama com que sonharam, e como uma alternativa a uma oportunidade não conseguida, ainda que almejada, em televisão, leva muitos jovens a exporem-se de forma preocupante na Internet, publicando imagens mais íntimas sem que muitos pais se apercebam e ficando à mercê de predadores atentos e potencialmente perigosos


A importância de ensinarmos a dignidade aos nossos jovens nunca foi mais urgente. Num mundo em que as redes sociais dominam e as imagens proliferam pelos espaços da web, torna-se imperioso transmitir ideais de respeito e dignidade, acima de tudo, por nós próprios.

A corrida aos “likes” do Instagram e do Facebook , a tentativa de conquista de um maior número de seguidores, assim como a procura da fama com que sonharam, e como uma alternativa a uma oportunidade não conseguida, ainda que almejada, em televisão, leva muitos jovens a exporem-se de forma preocupante na Internet, publicando imagens mais íntimas sem que muitos pais se apercebam e ficando à mercê de predadores atentos e potencialmente perigosos.

Começa em casa a educação para a dignidade pessoal. Efetivamente, devemos ensinar aos nossos filhos o respeito por si mesmos, pelo seu corpo e pela sua alma. Só um jovem que se sente amado e valorizado em casa, com espaço para o diálogo, pode sentir-se seguro de si mesmo e do quanto é importante. Na verdade, quanto mais inseguros e carentes estes jovens se tornarem, mais facilmente se tornarão frágeis perante pessoas mal intencionadas e que não os respeitarão.

Na verdade, quando sabemos o nosso valor, ninguém o retira e será mais fácil percebermos de forma perspicaz como devemos ou não ser tratados, e as palavras e atitudes que nos devem ser dirigidas. Só assim seremos capazes de perceber as reais intenções de alguém que trava conhecimento connosco ou que se aproxima do nosso mundo mais íntimo. Em casa, deve, pois, haver espaço para a conversa, para a confiança e também para alguma atenção parental essencial nestas tenras idades, nas quais a maturidade ainda é inexistente.

Ainda assim, com todo o apoio dos pais, com toda a construção de uma segurança pessoal, os nossos jovens podem cair em erro e acreditar em quem não deveriam? Sim, isso pode, sem dúvida acontecer, até com os adultos acontece! A diferença é que conhecerão os limites da dignidade pessoal e saberão que há linhas que não podem ser atravessadas por promessa alguma de fama ou por qualquer sentimento de paixão. Se esses limites forem bem nítidos para os nossos jovens, acabarão por saber que caminhos não seguir. Por outro lado, quando caírem (porque irão, inevitavelmente, cair), os jovens conseguirão levantar-se e seguir em frente, retirando as lições devidas dos erros cometidos, sem que isso afete a sua autoestima.

Por exemplo, nestas idades os jovens têm uma necessidade enorme de aceitação pelos pares, submetendo-se a determinados comportamentos que nada têm a ver com a sua forma de ser e que, no fundo, sabem que são prejudiciais. Um jovem bem formado, que conversa habitualmente com os seus pais, que criou uma personalidade forte e valores bem estruturados, saberá que o caminho certo é sempre o da nossa dignidade pessoal, e que quem é nosso amigo nos aceita exatamente como somos e valoriza a nossa individualidade.

Por isso, é essencial que os pais estimulem para a leitura desde a mais tenra idade, pois este é um veículo essencial de transmissão de valores e da construção da personalidade. Também é preponderante que haja informação de qualidade, e não desinformação, sendo que a distinção entre ambas também deverá ser gradualmente explicada pelos pais, conferindo aos filhos oportunidades de contacto com o mundo, das mais variadas perspetivas, e fazendo nascer nos mesmos o espírito crítico.

Dignidade pessoal, precisa-se! E de forma urgente! E, neste campo, o papel dos pais, é, de facto fundamental. Há muito e bom mundo para além das redes sociais. E esse mundo deve ser dado a conhecer aos jovens, pelos pais, desde cedo. A humanidade agradece!

8.3.23

Obesidade. A epidemia que poderá afetar metade do mundo até 2035

Joana Raposo Santos, in RTP

Até 2035, mais de metade da população mundial deverá tornar-se obesa ou com excesso de peso. O cenário apenas poderá ser evitado se os governos tomarem mais e melhores ações para travar aquilo que é classificado pela Organização Mundial da Saúde como epidemia. As conclusões são de um relatório da Federação Mundial para a Obesidade divulgado esta quarta-feira, segundo o qual o custo global desta doença pode atingir os 4,32 biliões de dólares em pouco mais de uma década.

Neste momento, 38% da população mundial (o equivalente a 2,6 mil milhões de pessoas) já é obesa ou tem excesso de peso. E, sem mudanças substanciais, o número pode agravar-se para mais de quatro mil milhões de pessoas (51% da população) nos próximos 12 anos.

Segundo o relatório da Federação Mundial para a Obesidade, as práticas a adotar devem passar pela criação de taxas e impostos na publicidade a alimentos pouco saudáveis; restrições ao marketing pensado para alimentos com calorias, sal ou açúcar elevados; rótulos na parte da frente das embalagens ou o fornecimento de comida mais saudável nas escolas.

Se não forem tomadas mais ações deste tipo, o número de pessoas clinicamente diagnosticadas como obesas pode aumentar de uma em cada sete para uma em cada quatro até 2035.

É considerado excesso de peso um Índice de Massa Corporal acima de 25, enquanto a obesidade consiste num índice superior a 30. Vários estudos científicos demonstram que esta doença crónica aumenta o risco de cancro e doenças de coração, entre outras.

A obesidade entre crianças e jovens deverá, de acordo com os dados atuais, aumentar mais rapidamente do que entre os adultos. No mais recente relatório do Atlas Mundial da Obesidade, prevê-se que esta condição no mínimo duplique até 2035 entre os menores, em comparação com os números de 2020.

O grupo mais afetado deverá ser o das raparigas com menos de 18 anos, com um aumento previsto de 125%, significando que 175 milhões destas crianças e jovens poderão ser obesas em 2035. Os rapazes da mesma idade serão percentualmente menos afetados, com um aumento de 100% (totalizando 208 milhões).

A federação alertou ainda que muitos dos países mais pobres são também os que enfrentam maiores aumentos na obesidade, correndo riscos ainda mais graves por não estarem preparados para lidar com a doença.

Nove dos dez países com maiores subidas previstas são de baixo ou médio rendimento, localizados nos continentes africano e asiático. Já as dez nações melhor preparadas para lidar com esta epidemia são europeias e de rendimentos elevados, entre as quais Suíça, Noruega, Islândia, Finlândia ou Suécia.

O impacto económico da obesidade

Louise Baur, presidente da Federação Mundial para a Obesidade, considera as conclusões do relatório “um aviso claro de que, ao falharmos em responder à obesidade hoje, estamos a arriscar sérias repercussões no futuro”.

“É particularmente preocupante ver os níveis de obesidade a aumentarem mais velozmente entre crianças e adolescentes”, referiu, citada pela própria Federação. “Os governos e legisladores por todo o mundo precisam de fazer tudo o que está ao seu alcance para evitarem que os custos de saúde, sociais e económicos passem para a geração mais jovem”.

Segundo o Atlas Mundial da Obesidade deste ano, o impacto económico global do excesso de peso e obesidade pode alcançar os 4,32 biliões de dólares anuais até 2035, caso não sejam tomadas medidas. O custo representará quase 3% do Produto Interno Bruto global, aumento apenas comparável com o do impacto da pandemia de covid-19 no ano 2020.

Evitar este cenário “implica olhar urgentemente para os sistemas e fatores que contribuem para a obesidade e envolver ativamente os jovens nas soluções”, acrescentou Baur. “Se agirmos de forma unida agora, teremos a oportunidade de ajudar milhares de milhões de pessoas no futuro”.

A Federação Mundial para a Obesidade é uma aliança entre entidades das áreas da saúde, ciência e investigação que trabalha com várias agências internacionais, incluindo a OMS. Um dos seus membros é a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).

20.2.23

Quase todas as crianças em acolhimento precisam de apoio clínico

Joana Amorim, in JN

Sete em cada dez apresentam problemas a nível físico ou mental e mais de um quarto faz medicação. Especialistas defendem desinstitucionalização.

O movimento de diminuição, de ano para ano, de crianças e jovens em acolhimento é acompanhado por um aumento dos que necessitam de apoio na área da saúde mental. Numa vulnerabilidade que se reflete no facto de 69% terem determinadas características de saúde que resultam em necessidades específicas de acompanhamento.

[artigo disponível só para assinantes]


10.1.23

Ano Novo, direitos renovados

Eunice Magalhães, opinião, in Público

É necessário desenvolver esforços significativos com vista ao recrutamento de novas famílias de acolhimento, capazes de providenciar um contexto familiar reparador.
O início de um novo ano representa, para muitos, um momento de resoluções e expectativas sobre o futuro e sobre potenciais oportunidades de mudança – pessoais, profissionais, familiares ou sociais.

Nos últimos anos temos assistido a oportunidades significativas de mudança em Portugal com vista à melhor proteção das crianças e jovens e à promoção dos seus direitos. Crescer numa família é um destes direitos fundamentais. No entanto, nem todas as crianças e jovens vivem numa família (biológica ou alternativa).

Sempre que uma criança ou jovem está numa situação de perigo e não é possível permanecer na sua família biológica, as famílias de acolhimento são a alternativa primordial. De acordo com a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro, versão atualizada - Lei n.º 26/2018, de 05/07), as famílias de acolhimento proporcionam a integração temporária destas crianças e jovens num meio familiar e de prestação de cuidados adequados às suas necessidades, potenciando o seu bem-estar e desenvolvimento integral. Esta medida alternativa é particularmente importante quando se trata de crianças até aos seis anos.

Não obstante, em Portugal (ao contrário da realidade internacional) o sistema de acolhimento baseia-se fundamentalmente na colocação de crianças e jovens em perigo em acolhimento residencial, sendo que apenas, aproximadamente, 3% destas crianças e jovens se encontram acolhidas em famílias de acolhimento. Esta realidade tem vindo a alterar-se nos últimos dois/três anos, no entanto, maior investimento é necessário para promover o acolhimento familiar em Portugal. Este esforço exige uma participação ativa e colaborativa por parte das instituições públicas, da sociedade civil, e de investigadores e académicos.

De facto, é necessário desenvolver esforços significativos com vista ao recrutamento de novas famílias de acolhimento, capazes de providenciar um contexto familiar reparador, protetor e responsivo com vista à melhor proteção de crianças e jovens em situação de particular vulnerabilidade.

Para tal, torna-se necessário tornar (mais) visível a medida de Acolhimento Familiar, assegurando um maior conhecimento público acerca desta medida de proteção. Por um lado, importa promover informação adequada e rigorosa acerca do papel central do acolhimento familiar no desenvolvimento das crianças e jovens em perigo, mas também dos desafios envolvidos nestes processos, reforçando, ainda, a natureza do suporte e dos recursos disponíveis para as famílias de acolhimento desempenharem as suas funções adequadamente. Por outro lado, importa assegurar o suporte e os recursos necessários para manter as famílias de acolhimento de elevada qualidade no sistema.

Atendendo aos desafios sociais e económicos dos últimos anos, ao nível nacional e internacional, e considerando também aqueles que certamente nos esperam nos próximos anos, neste início de Ano Novo, a expectativa é de que sejamos capazes (colaborativamente) de assegurar o direito elementar de todas as crianças a viver numa família protetora — biológica ou não.

29.8.22

Desafios do TikTok são "barril de pólvora": especialistas defendem "maior controlo" da idade de acesso e proteção dos "mais vulneráveis"

Helena Bento, in Expresso

São muitos os desafios perigosos que circulam no Tik Tok. Especialistas explicam por que razão são tão "aliciantes" e alertam para a necessidade de serem implementadas medidas para garantir que a rede social é "segura". "O modelo de funcionamento do TikTok é ótimo para o negócio, mas pode não ser o melhor para os utilizadores", diz João Nuno Faria, psicólogo especialista em comportamentos online. Pais devem "supervisionar" a utilização das redes sociais

Em 2021, começaram a circular rumores no TikTok sobre um grupo de homens que estaria a preparar-se para instituir o "Dia Internacional da Violação" a 21 de abril daquele ano. O assunto mereceu tanta atenção que rapidamente se tornou viral, multiplicando-se os vídeos, sobretudo no próprio TikTok, a apelar às mulheres para saírem de casa com armas de fogo e tacos de basebol com pregos e arames caso tivessem planos para essa noite. Se algum homem olhasse para elas de forma considerada suspeita, deveria ser atacado, aconselhava-se nesses vídeos.

"O discurso andou muito inflamado nessa altura. Havia mulheres a dar táticas a outras mulheres para bater em homens e eram lançados desafios nesse sentido", conta Ricardo Estrela, gestor da Linha Internet Segura, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Dos EUA, onde surgiram os primeiros rumores sobre as alegadas intenções do grupo de homens, o movimento "alarmista" chegou ao Reino Unido e a outros países, incluindo Portugal. "Também tivemos ecos cá", diz o gestor. Mais tarde, viria a perceber-se que tinham sido utilizadores de "fóruns obscuros" a lançar o "boato" e que não havia realmente a intenção de instaurar um "rape day".

Este foi um dos poucos desafios considerados perigosos em que terão participado utilizadores em Portugal, mas o assunto preocupa quem trabalha nesta área. "Se forem gravados por pessoas com uma grande base de seguidores, os vídeos em que são apresentados desafios tornam-se virais e mobilizam muitos utilizadores", explica Ricardo Estrela, referindo que "o próprio algoritmo do TikTok promove esse tipo de conteúdos", recomendando-os aos utilizadores.

João Nuno Faria, psicólogo especialista em comportamentos online, fala numa "matriz de circularidade" em torno dos utilizadores desta rede social. "Na página inicial, são apresentados vídeos de acordo com os gostos e preferências dos indivíduos, mesmo que essas preferências estejam relacionadas com questões do desenvolvimento".


"As redes sociais tomam as pessoas por iguais. Não interessa se são vítimas de bullying, abusos sexuais, se têm fobias ou outras vulnerabilidades", diz João Faria, psicólogo

Se os interesses da criança passam por "expor-se a riscos" e "testar limites", é isso que "o algoritmo lhe vai dar", fazendo com que "entre num círculo fechado de informação", aponta. "As redes sociais tomam as pessoas por iguais. Não interessa se são vítimas de bullying, abusos sexuais, se têm fobias ou outras vulnerabilidades."
DO "BLACKOUT CHALLENGE" AO "DESAFIO DA SILHUETA"

São muitos os desafios perigosos que circulam atualmente no Tik Tok, desde o conhecido "Blackout Challenge" — de que foram vítimas duas crianças nos EUA, em 2021, e mais recentemente Archie Battersbee, um jovem britânico de 12 anos — ao desafio que consiste em ingerir elevadas quantidades de Benadryl, um anti-histamínico, para induzir alucinações.

Há outros conhecidos, como o "desafio da silhueta" — em que são publicadas fotografias de corpos nus com um filtro que cria uma sombra e pode, na verdade, ser retirado por outros utilizadores para obter imagens com nudez — e o desafio de deixar cair ao chão uma bola de basquetebol com uma garrafa de vidro em cima, tentando agarrar a garrafa antes que caia. O risco de haver acidentes é naturalmente elevado.

Menos populares, mas também com riscos associados, são os desafios relacionados com a alimentação, como ingerir quantidades muito elevadas de água, fazer jejum, evitar a proteína animal, "não comer doces ou estar um mês sem consumir açúcar", elenca Patrícia Nunes, diretora do Serviço de Dietética e Nutrição do Hospital de Santa Maria.

São sobretudo jovens com idades entre os "18 e os 20 anos" que aderem a estes desafios, explica João Nuno Faria, também coordenador do Núcleo de Intervenção no Comportamento Online no PIN – Partners in Neuroscience, centro clínico e de investigação na área da saúde mental e comportamento.

Como estão na adolescência, uma etapa da vida que se caracteriza pelo "desenvolvimento da identidade", participar nestes desafios é "muito aliciante". "Testar os limites faz parte deste processo dos adolescentes de descobrirem quem são", explica o psicólogo. Também a "comparação social" entra neste processo. "Os adolescentes precisam de se comparar com outros para perceberem como se posicionam em termos de estatuto social."

Estas necessidades, continua, "encontraram nas redes sociais um campo maravilhoso de atuação". "Podem testar os seus limites ao mesmo tempo que se comparam socialmente, afirmam os seus interesses e são vistos por uma audiência enorme". Com todas estas possibilidades, está criado um "barril de pólvora" para a participação em desafios perigosos.

Do lado de quem inventa e lança estes desafios, há, por sua vez, uma necessidade de exercer "poder e controlo sobre os outros", também por questões de afirmação. "Todas as pessoas têm necessidade de controlo, mas nem todas procuram manipular os outros no sentido de provocar danos ou lesões."
ESPECIALISTAS DEFENDEM FERRAMENTAS "MAIS EFICAZES" PARA CONTROLO DA IDADE

Ricardo Estrela reconhece que tem sido feito "algum trabalho" pelo TikTok e outras redes sociais, sobretudo em relação às contas de utilizadores que se identificam como menores, para prevenir situações de risco. "Conteúdos mais gráficos ou violentos, que coloquem em causa a vida e integridade física, não lhes são sugeridos", aponta o gestor, acrescentando que o "Blackout Challenge", por exemplo, nem sequer é permitido, "de acordo com as regras mais recentes que foram implementadas".

"As redes sociais estão a apostar em políticas de proteção das crianças e jovens", garante. Dos cerca de três mil milhões de utilizadores do TikTok em todo o mundo, cerca de 35% são jovens entre os 13 e os 19 anos.

"As redes sociais devem criar uma espécie de cartão de cidadão digital para evitar estas situações de risco", defende Ricardo Estrela, gestor da Linha Internet Segura, da APAV

No entanto, há medidas que devem ser tomadas, como a criação de ferramentas "eficazes" de autenticação, defende o gestor da linha. A idade mínima para criar uma conta no TikTok é precisamente de 13 anos (ou 14, no caso da Coreia do Sul e da Indonésia), mas há quem "minta sobre a idade" para poder criar uma conta na plataforma.

Segundo Ricardo Estrela, há já uma startup no Reino Unido que se dedica a pensar em soluções de autenticação de utilizadores com base em documentos oficiais. "As redes sociais devem criar uma espécie de cartão de cidadão digital para evitar estas situações de risco."

João Nuno Faria defende, por outro lado, que seja feita uma "filtragem mais cuidadosa dos conteúdos", retirando "conteúdos de risco" do alcance de "utilizadores mais vulneráveis". É também a favor de "mais controlo" na rede social, uma vez que "os filtros que existem para garantir que a plataforma é segura não são claramente suficientes". "O modelo de funcionamento do TikTok é ótimo para o negócio, mas pode não ser o melhor para os utilizadores."
PAIS DEVEM FAZER "SUPERVISÃO"

Cabe também aos pais assumir determinadas responsabilidades. A privacidade dos jovens, sobretudo a partir dos 14 anos, é um "direito absoluto", mas "isso não significa que os pais devam ficar totalmente fora da navegação que os filhos fazem nas redes sociais", sublinha João Nuno Faria.

"Devem supervisionar as suas contas, de modo a saber a que tipo de conteúdos estão expostos no TikTok", aponta o psicólogo. "Da mesma maneira que perguntam aos filhos a que centro comercial vão e com quem, também têm legitimidade para perguntar o que veem nas redes sociais, pedindo-lhes inclusivamente para ter acesso às suas contas nestas plataformas e consultando-as na presença dos filhos."

Para Ricardo Estrela, outra estratégia é "promover a partilha e consumo de determinados conteúdos em detrimento de outros". Conteúdos que coloquem em risco a integridade física de alguém devem ser denunciados nas plataformas, que dispõem de canais próprios para se reportar casos de violação das regras de utilização das mesmas, aconselha também. “Esse é logo o primeiro passo.”

5.7.22

Crianças e jovens em situações de perigo aumentaram em 2021

in Expresso

A maioria das situações denunciadas às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens referem-se a casos de violência doméstica e negligência

De acordo com o relatório, à semelhança de anos anteriores, mantém-se uma prevalência de comunicações relativas a crianças e jovens do sexo masculino (53% do total) face às crianças e jovens do sexo feminino (47%).

ACRÉSCIMO TAMBÉM DE CASOS ENVOLVENDO CRIANÇAS DE 2 ANOS OU MENOS

As crianças e jovens entre 11 aos 14 anos (26%) são as que representaram a maior expressividade das comunicações, seguindo-se dos 0 aos 5 anos (24%) e dos 15 aos 17 anos (23%).


A CNPDP destaca as crianças com 2 anos ou menos, que registou 5.305 comunicações em 2021, um acréscimo de 3,6% (359) relativamente ao ano anterior.

O relatório especifica que, das 43.075 comunicações recebidas, 2.057 situações originaram mais do que uma reabertura de processos em 2021, ou seja, totalizando 45.132.


A avaliação anual salienta igualmente que as CPCJ movimentaram 73.241 processos de promoção e proteção no ano passado, 31.143 dos quais transitaram de anos anteriores e 42.098 processos foram iniciados em 2021.

“Dos processos iniciados no ano, 33.937 correspondem a crianças que beneficiaram de intervenção das CPCJ pela primeira vez e 8.161 correspondem a crianças que tiveram o seu processo anterior reaberto no ano”, frisa.

Durante o ano de 2021, acrescenta o relatório, “em resultado de mudanças de residência das crianças e jovens ocorreu a transferência de 1.609 processos de uma CPCJ para outra, o que, contabilisticamente, significa contar o mesmo processo mais do que uma vez” e, “por conseguinte, na análise processual de 2021, retirando as transferências entre CPCJ, resulta o acompanhamento de 71.632 processos, que correspondem a 69 727 crianças e jovens”.

Segundo o mesmo documento, do total de 71.632 foram arquivados 5.070 "por não verificação dos pressupostos legais exigidos” e essencialmente devido à “falta de legitimidade das CPCJ para intervenção” e por terem sido remetido a tribunal situações por existência de um processo judicial a favor da criança.

A Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (LPCJP) diz que, sempre que os pais, o representante legal ou quem tenha a guarda de facto ponham em perigo a segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento, ou quando esse perigo resulte de ação ou omissão de terceiros ou da própria criança ou do jovem tem lugar a intervenção para a promoção dos direitos e proteção das crianças e jovens.

Caso sejam confirmadas as situações de perigo comunicadas a intervenção das CPCJ só pode iniciar-se com o consentimento expresso dos pais, do representante legal ou da pessoa que tenha a guarda de facto, e a não oposição da criança com idade igual ou superior a 12 anos.

A legitimidade de intervenção da CPCJ pode cessar a todo o momento, caso os pais ou responsáveis legais ou quem tenha a guarda de facto retirem o consentimento à intervenção, ou a criança/ jovem expresse a sua oposição. Nestes casos, o processo de promoção e proteção será remetido para o Ministério

O relatório anual de avaliação da atividade das CPCJ relativo a 2021, hoje divulgado pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDP), precisa que no ano passado “se registou um aumento do número de comunicações de crianças e jovens em perigo relativamente a 2020”, totalizando 43.075, mais 3.416 do que no ano transato.

Segundo o documento, a violência doméstica (13.782), logo seguida da negligência (12.946), constituíram as categorias de perigo mais registadas nas comunicações recebidas pelas CPCJ, mantendo a tendência do ano anterior.

Os comportamentos de perigo na infância e na juventude (7.091), direito à educação (6445), maus-tratos físicos (1026) e psicológicos (1371), bem como abusos sexuais (919), constituem outras categorias de perigo comunicadas às CPCJ no ano passado.

O relatório indica também que as principais entidades comunicantes são, à semelhança dos anos anteriores, as forças de segurança e os estabelecimentos de ensino.

A maioria das 43.075 comunicações chegaram às CPCJ por escrito, refere o mesmo documento, dando igualmente conta que a Linha Crianças em Perigo recebeu 1.474 chamadas, 109 das quais consubstanciaram comunicações, e 383 denúncias através do formulário ‘online’ disponível na página da CNPDP.Mais de 43 mil situações de perigo, a maioria por violência doméstica e negligência, foram comunicadas às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) em 2021, mais 8,6% do que em 2020, segundo um relatório divulgado esta quarta-feira.

3.5.22

Há cada vez menos crianças em casas de acolhimento

Paula Sofia Luz, in Diário de Notícias

Na última década os números caíram 25%. Ainda assim, no final de 2020 havia em Portugal 6706 crianças e jovens em acolhimento, a maioria retirados às famílias. A Segurança Social está a preparar-se para um outro cenário, que pode advir da guerra na Ucrânia.

a última década houve uma quebra de 25% na entrada de crianças em casas de acolhimento. O último relatório da Segurança Social reporta ao ano de 2020 e indica ainda outros dados: nesse primeiro ano de pandemia, o país registou o número mais baixo de sempre de crianças e jovens que iniciaram um processo de acolhimento. Mas a situação pandémica pode, ela própria, explicar a queda abrupta. Porém, nos registos do Instituto da Segurança Social, I. P., não há como negar a evidência: "Fizemos muito caminho ao longo dos últimos anos." A conclusão é de Dina Santa Comba Macedo, dos serviços centrais da Segurança Social, proferida durante o I Encontro de Técnicos de Casas de Acolhimento, que decorreu recentemente em Coimbra, organizado pela PAJE (Plataforma de Apoio a Jovens Ex-Acolhidos).

"Já não estamos naquele ponto em que eram os pais que iam pedir às instituições que cuidassem dos filhos para que tivessem um futuro, para serem doutores, ou na lógica daqueles anos em que ou os miúdos se portavam bem [nesses centros] ou a porta da rua era a serventia da casa. Depois, esses miúdos que andavam na rua, como no Parque Eduardo VII, muitas vezes acabavam na prostituição. Agora os miúdos até podem fugir, mas a polícia encontra-os e vai conduzi-los novamente às casas de acolhimento. Temos todos que fazer este caminho, desde as casas aos técnicos, passando pela comunidade", disse Dina Macedo ao DN, interpretando os números que constam do relatório elaborado no ano passado com dados relativos a 2020. Em junho próximo será conhecido o documento inerente a 2021.

"Temos que pensar que os miúdos que vão para o acolhimento muitas vezes vão zangados - porque as medidas são aplicadas e não é isso que eles querem; as famílias também estão zangadas, porque, ao aceitarem o acolhimento, vão aceitar ter que trabalhar uma mudança de comportamentos. E este novo olhar para o acolhimento - que eu julgo que vamos conseguir fazer nos próximos cinco anos - será uma mudança imposta pela própria demografia", enfatiza Dina Macedo, que é também professora no Instituto Superior de Ciências Educativas.

Durante a intervenção que traçou o retrato do que é hoje o acolhimento em Portugal, esta responsável da Segurança Social deixou mais alguns dados. De 6706 crianças e jovens que estavam acolhidos no final de 2020, a maioria (52%) era rapazes, encontrava-se em casas de acolhimento generalista (86%) e cerca de 35% tinham entre 15 e 17 anos. Na sua maioria, as crianças e jovens conseguem regressar ao núcleo familiar (66%), seja ele composto por pais, tios, avós ou irmãos.

"Estamos a sentir uma quebra grande do acolhimento em termos da demografia e também dos programas que temos conseguido implementar. Temos programas que estão no terreno, e isso tem dado os seus frutos, por isso temos cada vez menos miúdos em acolhimento. Mas quem vai para o acolhimento está a precisar de um trabalho sério, terapêutico, de programas muito direcionados para trabalhar as questões de comportamento, dos traumas, que não são só de guerra [isto no caso das crianças que vêm de outros países], são também de histórias de vida de grande complexidade", afirma.

E fala da necessidade de alterar o paradigma do acolhimento, nomeadamente da importância do acolhimento residencial. "Precisamos de ambientes capazes de oferecer às crianças e jovens com histórias de vida complexas pelo menos alguma esperança de recuperação, de mudança e de crescimento saudável", afirma. Por outro lado, sublinha a importância de trabalhar também internamente, no que respeita à dinâmica das casas e centros. "As equipas têm pessoas que trabalham há 20 ou 30 anos, e muitas dessas pessoas ainda estão numa lógica de "os miúdos têm é que agradecer". É preciso mudar essa mentalidade. Perceber que "os nossos" - como muitas vezes é referido - não têm a história de vida que estes miúdos têm. E que eles vêm num sofrimento muito grande, que é preciso ajudá-los a reparar e quebrar um ciclo."

De acordo com este último relatório, é no distrito do Porto que mora a maior parte dos casos de crianças e jovens em acolhimento (1101), logo seguido de Lisboa (914). Ao invés, Viana do Castelo continua a ser aquele que regista o número mais baixo de casos de acolhimento, seguido de perto por distritos como Viseu, Portalegre, Évora ou Castelo Branco.

Em 2015, a lei de promoção e proteção foi republicada, com a indicação de sair a regulamentação da medida do acolhimento residencial, o que aconteceria em 2019 (164/219), remetendo para uma portaria a regulamentar o funcionamento das casas de acolhimento. Mas até hoje ainda se aguarda por ela.


Acolhimento de refugiados - uma nova realidade

O cenário de guerra e a vaga de refugiados que chega a Portugal trará, naturalmente, uma mudança no panorama do acolhimento também. Às crianças do Afeganistão que já tinham chegado podem vir a juntar-se crianças ucranianas. "Atualmente é residual o número de crianças que temos da Ucrânia que não estão acompanhadas ou vêm entregues a alguém. O que estamos a fazer na Segurança Social é confirmar se aquela pessoa é ou não idónea para ficar com a criança, para o tribunal validar. Para já, não temos miúdos que estejam a chegar completamente sozinhos. Mas poderemos vir a ter, quando a Polónia e outros países limítrofes começarem a dizer que não estão a aguentar e fizerem como a Grécia já fez antes, que é pedir ajuda a outros países da União Europeia."

7.10.21

O que falta mudar no acolhimento de crianças e jovens em Portugal


Christiana Martins, Odete Severino Soares, Rute Agulhas, João Luís Amorim, Sonoplasta, in Expresso

Em Portugal, a lei determina que todas as crianças, em especial aquelas com menos de seis anos, vivam em famílias de acolhimento, se tiverem de ser separadas dos seus pais de forma temporária. Portugal é dos poucos países da Europa em que o acolhimento residencial (97%) continua a ser preferido em relação ao acolhimento familiar (3%), contrariando os estudos internacionais que alertam para os efeitos negativos que a institucionalização pode ter nessas crianças, gerando défices cognitivos e problemas emocionais muitas vezes irreversíveis.

Um total de 6.706 de crianças e jovens estavam, em 2020, em instituições de acolhimento residencial e familiar como medida de proteção, das quais 2.022 deram entrada nesse ano, segundo o relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens (CASA 2020), com prevalência para o acolhimento residencial (5.739, ou seja, 86%). Das mais de seis mil crianças que integraram o sistema de acolhimento no ano passado, 202 estão em famílias de acolhimento. À semelhança dos anos anteriores mantém-se a tendência de que mais de metade das crianças e jovens com medida de acolhimento encontrarem-se na adolescência ou no início da idade adulta (66,2%). Em 2020, a maioria das crianças e jovens que entraram em acolhimento eram dos distritos de Lisboa, Porto e Aveiro.

Com a participação da jurista Odete Severino Soares e da psicóloga Rute Agulhas, conversámos com a professora Joana Baptista, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE. Coordena as unidades curriculares de Adoção e Acolhimento e de Avaliação e Intervenção com Famílias em Risco. Uma conversa que aborda questões difíceis relativas aos problemas de crianças que precisam ainda mais do apoio. O debate é guiado e moderado pela jornalista Christiana Martins e a sonoplastia é de João Luís Amorim. A cada 15 dias, voltamos com um novo tema e com a participação de especialistas e crianças e jovens.

6.4.21

Pandemia na infância. "Os abusos domésticos e online aumentaram para proporções alarmantes"

João Francisco Guerreio, DN

Dubravka Šuica, vice-presidente da Comissão Europeia para a Democracia e Demografia, considera problemáticas as descobertas feitas por Bruxelas. Uma em cada cinco crianças sofre de ansiedade ou solidão.

Avice-presidente da Comissão Europeia para a Democracia e Demografia, Dubravka Šuica, que tem a cargo a pasta dos direitos das crianças, teme "consequências enormes" para os mais novos, com desigualdades acentuadas por causa da pandemia. "Os abusos domésticos e online aumentaram para proporções alarmantes, muitos ficaram para trás na educação, e uma em cada cinco crianças indicou sofrer de ansiedade, ou solidão, devido ao isolamento ligado à covid-19", apontou Dubravka Šuica, admitindo que "isto é problemático".

Perante os problemas "já existentes" mas que a pandemia elevou a níveis "alarmantes", Bruxelas veio agora propor medidas para evitar que as "desigualdades" alarguem o fosso, que coloca um número "elevado" de crianças do lado desfavorecido. "Cerca 18 milhões de todas as crianças na União Europeia estão em risco de pobreza ou exclusão social, o que representa uma grande parte da população da União Europeia", lamentou a vice-presidente, dizendo-se apostada em fazer com que alguma coisa mude com a Estratégia para a Infância e a proposta de Garantia para as Crianças, que vai canalizar verbas europeias para iniciativas de apoio aos mais novos.

"Cinco por cento do Fundo Social Europeu+ devem ser destinados à pobreza infantil, e 25 por cento reservados para a inclusão social", assegurou, dando também os exemplos "do Mecanismo de Recuperação e Resiliência que deve ajudar as crianças e os jovens na educação e [aquisição de] competências", e do Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional "que também deve ser fonte de financiamentos". "O que queremos alcançar é igualdade de acesso à educação, à saúde, ao cuidado, às atividades desportivas, à cultura, independentemente da origem das crianças, da formação, ou do género", afirmou Dubravka Šuica, em entrevista ao DN e à TSF.

Mas a vice-presidente reconhece que a "vontade" carece de empenho a 27. "Tenho a certeza que, se houver estas metas de longo prazo, teremos sucesso, mas apenas se trabalharmos juntos e se os Estados membros alinharem", desafia. "Propomos aos Estados-Membros que identifiquem quem são as crianças com carências", afirma, consciente de que ao fim de um ano de pandemia a dúvida e a incerteza pairam sobre o futuro das gerações mais jovens. "Continuamos a não vislumbrar quais são as consequências desta crise socio-económica e sanitária. Mas serão enormes", lamenta, advertindo que "é preciso tratar da solidariedade intergeracional".

Os Estados da União Europeia devem ser capazes de "proporcionar às crianças necessitadas um acesso efetivo a uma nutrição saudável e a habitação adequada". O exemplo apontado é o acesso a "refeições saudáveis, também nos dias em que não têm escola". Para "as crianças sem-abrigo e as suas famílias, devem ter acesso a alojamento adequado".
Reforço de direitos


Bruxelas lança também uma Estratégia para a Infância, em que o conceito de direitos da criança surge reforçado com propostas como o direito à "participação na vida democrática", ou o acesso a uma justiça adaptada à infância. "Temos em consideração as necessidades delas e agimos no seu melhor. Também publicámos online documentos amigos das crianças. Estão escritos, como agora costumamos dizer, na 25.ª língua da União Europeia, que é uma linguagem amiga das crianças", defendeu a vice-presidente. "A Comissão irá, por exemplo, contribuir para a formação judiciária especializada e colaborar com o Conselho da Europa para aplicar as Diretrizes de 2010 sobre a justiça adaptada às crianças", refere uma nota da Comissão.

Numa altura em que muitos jovens continuam com aulas online, Bruxelas pretende também atualizar a Estratégia Europeia para a Internet, que aborda a questão do direito à navegação segura. "Estamos a tratar disso num tópico especial nesta estratégia, sobre violência online, tentando ensinar as crianças a saberem distinguir o que é importante, do que não é importante online", afirma a vice-presidente, identificando os "dois problemas diferentes". "Um é a violência online e outro é que as crianças são excluídas porque não têm computadores, ou ligação à internet", apontou, admitindo que se trata de "um tema complexo, com o qual teremos que lidar nos próximos anos".

A Comissão espera agora que os Estados-Membros possam adoptar "rapidamente" a proposta de recomendação do Conselho que estabelece uma Garantia Europeia para a Infância. Assim que este passo estiver concluído, os governos deverão apresentar a Bruxelas os seus planos de ação nacionais sobre a forma como tencionam implementá-la. A Garantia Europeia para a Infância complementa o segundo pilar da Estratégia para os Direitos da Criança, que é apresentado como "um dos principais resultados do plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, adoptado em 4 de março deste ano", e a partir do qual a União Europeia traça o objectivo de reduzir em, pelo menos, "15 milhões o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social até 2030, incluindo cinco milhões de crianças".

10.7.19

Chumbado o estatuto de vítima para crianças que presenciem violência doméstica

Carolina Reis, in Expresso

Apesar do chumbo em comissão, BE leva o diploma a votação no plenário. Crime de violação ganha nova formulação. Projeto prevê a atribuição do estatuto de vítima às crianças que testemunhem situações de violência doméstica

O projeto de lei do Bloco de Esquerda que previa a atribuição do estatuto de vítima às crianças que testemunhem situações de violência doméstica foi esta terça-feira chumbado na especialidade.
“É uma oportunidade perdida para se cumprir o superior interesse da criança e dar às crianças uma proteção maior. E é também uma oportunidade perdida para se cumprir a Convenção de Istambul [contra a violência doméstica] que Portugal ratificou”, diz ao Expresso Sandra Cunha, deputada bloquista.

Nas votações indiciárias, que serão ratificadas na primeira comissão esta quinta-feira, PS, PCP e CDS votaram contra. Só o PSD se colocou ao lado do BE nesta matéria.

Apesar do chumbo, os bloquistas não desistem do diploma e vão levá-lo a votação no plenário, à procura de votos de deputados dissidentes.

O projeto de lei bloquista propõe incluir na categoria de vítima especialmente vulnerável as crianças que vivam em contexto de violência doméstica ou o testemunhem. Na altura da apresentação do diploma, Catarina Martins sustentou que a ideia era a de evitar que os agressores ficassem com a regulação do exercício das responsabilidades parentais. “Quando o tribunal de família tiver de tomar decisões sobre a guarda de crianças vai compreender que aquelas crianças são vítimas e que, se há um agressor, elas devem ser afastadas desse agressor”, disse a líder do BE.

O texto desceu à primeira comissão sem votação — juntamente com outros 16 diplomas sobre temas de género — e várias entidades têm estado a enviar pareceres positivos a uma alteração da lei. “A UNICEF Portugal manifesta a sua concordância com a importância atribuída à regulação das responsabilidades parentais e reforça a necessidade de investimento na formação e capacitação dos pais e cuidadores, bem como em assegurar os cuidados e intervenção necessários à criança. É importante também o reconhecimento expresso da criança no contexto de violência doméstica enquanto vítima deste crime, e o direito a participar nos processos judiciais.”

Violação sem violência
O crime de violação, que também estava em discussão no mesmo grupo parlamentar, vai sofrer alterações.
Ao que o Expresso apurou, não se trata de uma nova tipificação, nem se inclui a expressão sexo sem consentimento, algo que era pedido por ONG como a Amnistia Internacional.

“É acrescentado à vontade cognoscível, não como tipificação, mas como norma interpretativa. Cabe ao juiz avaliar tendo por base a ação. O violador deixa de poder dizer que não tinha percebido que a vítima não queria”, explica Sandra Cunha.

28.5.19

Nenhum jovem nasce delinquente

João André Costa, in Público on-line

Estes jovens não têm nenhum adulto com quem falar, nenhum guia. Nem têm nenhuma razão para ter quando foram os adultos a abandoná-los em primeiro lugar. Assim criados, estamos a falar de jovens sem qualquer confiança no mundo dos adultos.

Nenhum jovem nasce delinquente. Não, os jovens fazem-se delinquentes, e cada vez em maior número, à taxa de três pontos percentuais por ano ao longo dos últimos cinco anos.

O alerta veio da presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse, aos jornalistas presentes no encontro nacional das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens

Sem futuro, sem interesse, motivação ou esperança, são cada vez mais os jovens entre os 15 e os 17 anos envolvidos em comportamentos delinquentes, desde o consumo de drogas e álcool à indisciplina escolar e à actividade criminosa. Fruto de famílias desestruturadas, vítimas da violência doméstica, da negligência, de abusos físicos, emocionais, sexuais, testemunhas do consumo de estupefacientes no seio familiar, filhos do desemprego de um ou dos dois pais, eles próprios sem futuro, interesse ou esperança, imigrantes de segunda e terceira geração sem quaisquer raízes culturais, encontramos cada vez mais crianças e jovens sem ninguém com quem falar, sem um pai, sem uma mãe, com irmãos e irmãs igualmente afectados, também eles sem modelos familiares ou alguém com quem falar.

E este é o cerne da questão. Estes jovens não têm nenhum adulto com quem falar, nenhum guia. Nem têm nenhuma razão para ter quando foram os adultos a abandoná-los em primeiro lugar. Assim criados, estamos a falar de jovens sem qualquer confiança no mundo dos adultos.

Feridos, rejeitados, procuram a rejeição quando um adulto se aproxima pois essa é a realidade com que sempre viveram. Sozinhos, procuram outros jovens com quem se identifiquem, muitas vezes pelas piores razões, entrando numa espiral de onde é difícil regressar.

“Trabalhando com estes alunos todos os dias, a maior dádiva é a nossa presença, a nossa persistência, dedicação, teimosia, o nosso carinho e amor. E sim, há pontapés, e sim, também há murros, contra as paredes e portas, contra outras crianças, entre outras crianças, contra os professores e pessoal auxiliar entre insultos e mais pontapés.”

Trabalhando com estes alunos todos os dias, a maior dádiva é a nossa presença, a nossa persistência, dedicação, teimosia, o nosso carinho e amor. E sim, há pontapés, e sim, também há murros, contra as paredes e portas, contra outras crianças, entre outras crianças, contra os professores e pessoal auxiliar entre insultos e mais pontapés.

E sim, temos apoios, desde psicólogos a assistentes sociais, passando pela polícia e psiquiatras, sem esquecer os nossos colegas e, de vez em quando, os pais. Juntos, aturamos tudo. Juntos, encaixamos tudo. Juntos, fazemos a diferença. Porquê? Porque não nos vamos embora.
Somos um hospital, somos uma enfermaria, somos a casa que nunca tiveram, somos pais e somos mães, somos mais, somos professores. Ensinamos e educamos, fazemos as vezes das famílias que nunca tiveram, trabalhando em pequenas turmas com cinco ou seis alunos, num total de 40 alunos na escola inteira.

Tudo isto leva tempo. Leva tempo poder voltar a confiar, poder voltar a falar, a chorar, a rir, a abraçar, a agradecer, a confiar. Não é fácil. Tal como não é fácil explicar a outros adultos o quanto vai nas almas destas crianças, destes meninos perdidos acabadinhos de sair da “Terra do Nunca”.

Não te ouvem? Usa o nosso Megafone
Este modelo, existente em Inglaterra há vários anos, procura responder aos mesmos problemas com que Portugal agora se depara. Este modelo exige a presença dos melhores professores e profissionais para poder ajudar as crianças mais necessitadas da nossa sociedade. Porquê? Não seria mais fácil abandoná-los? Não seria mais fácil deixar a polícia e os tribunais fazerem o seu trabalho? Seria. Seria também uma sociedade mais fria onde não mora um abraço ou uma palavra amiga, onde cada um por si e todos por ninguém seria o lema vigente, e eu não quero viver assim.

Por isso continuo a lutar e a trabalhar, todos os dias, hoje em Inglaterra, amanhã em Portugal, à procura de mudar mentalidades e comportamentos, não das crianças, para as crianças ainda há esperança, mas dos adultos, para que os adultos voltem a acreditar como um dia, há muitos anos, também eles foram crianças. Eu também não acreditei quando me disseram.

21.2.18

Rede Care acompanha 446 crianças e jovens vítimas de violência sexual

Rute Coelho, in Diário de Notícias

A APAV assinala amanhã o Dia Europeu da Vítima de Crime com enfoque nos abusos

São crianças e adolescentes, a maior parte deles abusados por familiares, "pelo pai, pela mãe, pelo padrasto", descreve a criminóloga Carla Ferreira, gestora técnica da Rede Care, uma unidade especializada em violência sexual que já acompanhou 446 menores vítimas de abusos em dois anos de existência. A Rede Care está integrada nos serviços de proximidade da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima).

A APAV assinala amanhã o Dia Europeu da Vítima de Crime com um seminário/debate sobre o apoio a crianças e jovens vítimas de violência sexual, onde se fará o balanço de dois anos de atividade da Rede Care. "A maior parte das crianças que nos chegam já tem 13, 14 anos mas muitas vezes começaram a ser vítima de violência sexual anos antes, aos 9 ou aos 10", explica Carla Ferreira.

Esta unidade especializada conta com nove técnicos efetivos, incluindo juristas e psicólogos, que se podem deslocar a qualquer ponto do país para dar apoio a casos urgentes que sejam denunciados à Rede. "A maior parte das denúnicas chega-nos da própria família da vítima e logo a seguir da Polícia Judiciária. Em 2016 e 2017 29% dos casos chegaram por via familiar e 25% através da PJ. Um quarto dessas vítimas ainda está a receber apoio". A Rede Care providencia um técnico de referência para acompanhar sempre as crianças nas diligências " e tenta garantir que o menor seja ouvido apenas as vezes necessárias". A criminóloga nota que "houve um grande impulso dos tribunais em providenciar apoio às crianças vítimas de crimes sexuais que têm de comparecer em diligências judiciais". Carla Ferreira regista que 9% das denúncias que chegaram à Rede Care nestes últimos dois anos foi através dos tribunais e Ministério Público. As outras participações chegam através dos hospitais e das comissões de proteção de crianças e jovens (CPCJ). A unidade especializada da APAV apoia jovens até aos 23 anos. "Os maiores de idade que tenham sido vítimas de crimes sexuais na infância podem apresentar queixa até aos 23 anos".

Entre os casos que têm chegado à Rede Care estão também alguns de "crianças filhas de emigrantes que vêm de férias com a família no Verão e acabam por ser vítimas de abusos nesse período".

A maior parte das participações vem da região de Lisboa e Vale do Tejo, logo seguida do Grande Porto.

O tipo de apoio que é prestado pela unidade especializada é extensível à família da vítima. "As as famílias vão precisando de esclarecimento ao longo do processo, sobre o timing para pedir advogado, para pedir indemnização, etc, e acabamos por ajudar no esclarecimento dessas dúvidas". Como explica Carla Ferreira, a Rede Care "é uma ponte entre o processo crime e as famílias". "Há situações que ficam na zona cinzenta, em que as pessoas não são elegíveis para ter o apoio jurídico via Segurança Social nem têm capacidade para pagar a nível particular". Depois de um primeiro contacto da vítima com a unidade, os técnicos avaliam da necessidade que há (ou não) de apoio psicológico. "Temos de ver se foram atos físicos violentos, qual a relação da criança com o agressor, se tem vindo a acontecer há muito tempo, se há reataguarda familiar ou não. Depois fazemos a avaliação do processo crime como um todo, até para apoiar a vítima e a família".

21.11.17

A pobreza “não pode justificar” a retirada de uma criança à família

Andreia Sanches, in Público on-line

Marta Santos Pais, representante especial das Nações Unidas em matéria de Violência contra Crianças, diz que é preciso ouvir mais os jovens que vivem experiências de acolhimento: “A maior lacuna, dizem eles, é a falta de afecto e de amor.”

Em alguns países “há a tentação de decidir retirar a criança para um ambiente alternativo porque a família é pobre e não tem recursos económicos”, diz Marta Santos Pais que é desde 2009 representante especial das Nações Unidas em matéria de Violência contra Crianças. A ex-directora do Centro de Investigação Innocenti da Unicef defende que a prioridade dos Estados deve ser apoiar as famílias mais vulneráveis. E é esse o conselho que deixa também a Portugal.

Mas quando é mesmo preciso afastar as crianças, a aposta deve ser a integração em famílias de acolhimento, devidamente acompanhadas, e não em instituições. O modelo português, que se baseia sobretudo em ter as crianças em lares e centros de acolhimento, “não é o ideal”, nota Marta Santos Pais que esteve nesta quinta-feira em Lisboa para participar na conferência internacional sobre Acolhimento de Jovens em Instituição, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde explicou que o risco de uma criança ser alvo de violência numa instituição de acolhimento é seis vezes mais elevado do que para as crianças colocadas no seio de uma família de acolhimento.

Segundo os números que apresentou, todos os anos, só no continente europeu, cerca de 18 milhões de crianças são vítimas de abuso sexual, 44 milhões sofrem maus tratos físicos e 55 milhões sofrem violência psicológica...

Temos pouca informação sobre a incidência da violência na criança, na Europa e no mundo em geral. Os estudos das Nações Unidas e de académicos dão apenas uma indicação limitada da realidade. Por exemplo, em relação a esses dados para a Europa, a Organização Mundial da Saúde considera que provavelmente correspondem apenas a cerca de 10% das situações.

Mas disse também que o risco de uma criança ser alvo de violência numa instituição de acolhimento é seis vezes mais elevado do que para as crianças colocadas no seio de uma família de acolhimento. Em Portugal há mais de 8000 crianças institucionalizadas, que foram retiradas às famílias biológicas por se considerar que estavam em perigo. A maioria dessas crianças estão em lares e centros de acolhimento. As chamadas famílias de acolhimento constituem uma resposta muito residual. Já em países como a Irlanda ou o Reino Unido é o contrário: as crianças vão essencialmente para famílias de acolhimento e não para instituições. É este o modelo que deve ser seguido?

O modelo a seguir é garantir que o Estado investe na protecção da família biológica. Essa deve ser uma prioridade nacional, para impedir que seja necessário considerar qualquer medida que implique a colocação da criança fora do seu ambiente familiar natural.

Há inúmeras razões que levam a que seja preciso retirar as crianças, situações de alcoolismo, de violência doméstica, por exemplo. Mas em alguns países há a tentação de decidir retirar a criança para um ambiente alternativo porque a família é pobre e não tem recursos económicos para satisfazer necessidades básicas da criança, como a sua alimentação e saúde. O que queremos promover é esta reflexão: isso não é necessário se o Estado apoiar as famílias com maiores necessidades, que se encontram em situações de maior vulnerabilidade. Porque os laços afectivos e o ambiente de apoio e afecto que pode ser garantido por uma família biológica é naturalmente muito mais forte do que numa família alternativa.

Pobreza e miséria não justificam o afastamento das crianças do seu ambiente familiar?
Não pode justificar. Agora, voltando à sua pergunta inicial: quando tem mesmo de se afastar a criança da sua família biológica, a solução deve ser encontrar um ambiente familiar alternativo. Uma família que acolhe, com o apoio do Estado e com a avaliação dos serviços do Estado. Esse ambiente é sempre mais rico do que o de uma da instituição. Uma instituição deve ser a última solução.

O modelo português é, sobretudo, o de colocar em instituições. Devemos encontrar outro?
Esse não é o modelo ideal. A colocação das crianças numa instituição dilui a relação personalizada, que é fundamental para garantir o estímulo, o desenvolvimento mental da criança. Colocar numa instituição uma criança até aos 3 anos vai comprometer o seu desenvolvimento, a sua capacidade relacional, que nasce com o contacto outras pessoas, com o ter uma relação de confiança com adultos. Isto tem um custo económico e social elevado para os países. Não é bom para a criança. E não é bom para a família biológica que se vê privada da criança que, normalmente, é querida.

E como devem ser as famílias de acolhimento?
Devem ser apoiadas pelo Estado, financeiramente, com orientação, com avaliação, para que as crianças não corram riscos de maus tratos, de negligência, de discriminação. Para que não andem de família de acolhimento em família de acolhimento, porque há esse risco. Estive recentemente na Noruega numa reflexão com jovens que passaram por situações de acolhimento que insistiram muito que não sentiam qualquer relação de afecto, e de amor, e de ser querido. E que disseram que ninguém lhes tinha explicado por que é que tinham sido obrigados a sair de um contexto, para outro — estou a falar de jovens que tinham mudado de família de acolhimento, quatro, cinco vezes, até mais. Isto é extraordinariamente traumatizante. Passa a mensagem: “És um problema, és difícil, ninguém consegue dar-te a mão.” Sentem-se colocados como uma peça de mobiliário.

No ano passado 368 crianças e jovens que estavam no sistema de acolhimento português viram ser-lhes decretada pelos tribunais uma medida que lhes permite entrar no sistema de adopção, para poderem ser adoptados. Muitos estavam havia mais de quatro anos em instituições. Estes tempos de espera são também uma forma de violência?
Para os adultos, dois anos, cinco anos, pode parecer algo difícil mas é superável. Para uma criança de 3 anos, 5 anos, 10 anos, um dia, uma semana, um mês são uma eternidade. E quando essa dimensão é acompanhada por um profundo sentimento de incerteza, é ainda mais traumático. Do ponto de vista da criança, sim, é uma forma de violência.

Mas, por outro lado, não podemos deixar de lembrar que é muito importante avaliar até que ponto é que a solução que se preconiza é a melhor para a criança. Há garantias que têm de ser salvaguardadas. Temos de encontrar um equilíbrio entre o tempo mínimo e o tempo que garante os direitos das crianças. E em todos estes processos temos de escutar o querer da criança. Tem de ser bem escutado, com a ajuda de um psicólogo que saiba entender a criança A criança pode exprimir-se através de um desenho, até. Pode exprimir-se através de um silêncio. É muito importante criar o espaço necessário para que a criança possa pensar connosco a melhor solução.
Portanto quando digo que há crianças há 4, 5, 6 anos em instituições em Portugal...
É excessivo, temos de tentar reduzir esses tempos.

Em que países na Europa há mais problemas em instituições de acolhimento?
Todos nos lembramos nos anos 90, quando a Cortina de Ferro desanuviou, das imagens de centenas de crianças do Leste depositas em circunstâncias dramáticas em instituições, com profissionais sem qualquer capacidade. Creio que neste momento não temos isso, dado o debate que se gerou e a promoção de novos princípios e instrumentos jurídicos. Há hoje uma pressão muito grande para que tenhamos um olhar diferente para as condições das instituições e para a forma como as pessoas que aí trabalham o fazem. Mas, surpreendentemente, temos desafios em todos os países. Nos países nórdicos tem sido desenvolvida uma experiência muito promissora que é a de reconhecer que as crianças que passaram pelo sistema de acolhimento têm de ser parte do processo que enforma a formulação das leis, das políticas, os mecanismos de avaliação de qualidade e a formação profissional. Em vez de serem considerados utentes, estes jovens são considerados profissionais, como o são os trabalhadores sociais ou os psicólogos. A Finlândia e a Noruega são dois países onde isto se passa assim.

E são ouvidos com que idades?
Reconhece-se que mesmo a criança muito jovem tem uma avaliação a fazer. E há coisas fantásticas que eles sublinham: a maior lacuna, dizem eles, é a falta de afecto e de amor, o facto de e os profissionais [que trabalham no sistema de acolhimento] terem uma cara de pau, uma cara de pedra, que está ali, até parece que quer ouvir, mas quando eles começam a tentar abrir o coração para contar a sua história são automaticamente catalogados: “Este é um tipo de problema, aquele pertence àquela categoria de família.” Estes jovens são hoje ouvidos pelos membros do Governo, pelos membros do Parlamento, pelos universitários que estudam estas matérias. E isto ajuda a que toda esta temática seja parte do debate público muito frequentemente.
No Sul da Europa ainda não se fala muito destas questões. Acho que todos nós temos de contribuir para ultrapassar esta cortina de silêncio. Não para estigmatizar as crianças, mas para perceber o que levou estas crianças a estarem naquela situação, para perceber o que podemos fazer para prevenir. E também para ultrapassar a falta de diálogo que existe entre profissionais, o psicólogo, o procurador da República, o assistente social...

Como assim?
Temos assistido a situações dramáticas em que determinado serviço de apoio social, por exemplo, identifica uma família como sendo de risco, porque existe um alto nível de violência doméstica, e de dependência do álcool, porque as crianças são testemunhas e vítimas. Há um profissional que faz um relatório, que acaba por ficar mais ou menos na gaveta de alguém e todos os demais serviços não olham para a criança em conjunto...

Também se passa em Portugal?
Acho que se passa em Portugal, apesar da boa vontade dos profissionais. Trabalhamos nas nossas torres de marfim, nas nossas disciplinas, quando uma maior articulação permitiria ser mais eficaz e intervir mais cedo e em diálogo com a criança.
O Parlamento irlandês aprovou esta quinta-feira uma lei que proíbe todos os castigos físicos. Em Portugal também não são permitidos. Mas quando os casos chegam aos tribunais há por vezes decisões díspares. No ano passado, o Tribunal da Relação do Porto absolveu pais que castigaram filho com um cinto.

Mudar a lei é só um primeiro passo? E depois?
A Irlanda soma-se agora aos 48 países que já têm legislação desta natureza. É muito importante. Mas claro que a legislação não é mágica. Existe ainda muito arraigada a percepção de que a criança pertence à família, e que cabe a cada família escolher a melhor forma de garantir a disciplina e a educação. A utilização do castigo físico, do puxão de orelhas, da palmada, ou do cinto para bater, é tolerada em todas as sociedades. De acordo com um estudo muito recente da Unicef, a cada ano há mil milhões de crianças entre os 2 e os 14 anos que sofrem maus tratos no seio da família. A nossa preocupação é esta: como é que o Estado pode ajudar a formar a ideia de que podemos educar e disciplinar com medidas de disciplina positiva, de reflexão sobre o que a criança fez mal, de discussão com a criança, para que a criança reconheça o que fez, para seu próprio bem? Se não investirmos no apoio aos pais, numa parentalidade positiva e apoiante da criança, não vamos ultrapassar esta tradição.

Deixe-me sublinhar um ponto: há dois meses foi adoptada a nova Agenda do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Um dos objectivos é justamente a eliminação de todas as formas de violência contra as crianças até 2030. A violência contra as crianças custa cada ano quase 10% do produto global bruto da economia mundial. Estamos a falar de milhares de milhões de euros. Se investirmos na eliminação de todas as formas de violência contra as crianças, em 2030, provavelmente, não vamos ter guerras, porque encontrámos um novo paradigma para solucionar as divergências de opinião, os conflitos e as tensões.

A Europa enfrenta uma crise de refugiados. Como vê a situação das crianças?
Neste momento não há uma posição europeia de garantia dos direitos humanos, de registo das pessoas que chegam, de acompanhamento das crianças que chegam. A imagem da criança surge só quando aparece mais um corpo de alguma que morreu ao tentar chegar, mas nas imagens que passam todos os dias na televisão dos refugiados é como se as crianças se diluíssem, como se fizessem parte do cenário, como se não exigissem um acompanhamento e uma protecção especial. Há um contraste claro entre o tempo que os governos têm tomado para encontrar uma solução e a iniciativa e a profunda solidariedade manifestada pelas populações, incluindo a de Portugal, nesta crise. A crise dos refugiados e dos requerentes de asilo são um teste ao nosso verdadeiro compromisso com os direitos humanos.

Dados sobre acolhimento em Portugal, em 2014
Mais crianças: um total de 8470 crianças e jovens encontravam-se em situação de acolhimento, um aumento de 0,3% face a 2013. Destas, 63,6% estão em lares de infância e juventude, 24,3% em centros de acolhimento temporário e 4,5% em famílias de acolhimento. As restantes encontram-se noutro tipo de instituições, como comunidades terapêuticas.

Principais razões para o acolhimento: falta de supervisão e acompanhamento familiar (60% de situações em que e a criança é deixada só, entregue a si própria ou com irmãos igualmente crianças, por largos períodos de tempo); exposição a modelos parentais desviantes (35% de situações em que o adulto potencia na criança padrões de condutas desviantes ou anti-sociais bem como perturbações do desenvolvimento, embora não de uma forma manifestamente intencional); negligência dos cuidados de educação e saúde (32% e 30%) e ausência temporária de suporte familiar (11,2%); prática de comportamentos desviantes (9,36%) e exposição a mau trato físico (7,36%).

Regressos: 949 crianças e jovens que já tinham estado acolhidas e saído do sistema de acolhimento, acabaram por voltar, sendo que 629 voltaram em anos anteriores a 2014 e 320 em 2014. A maioria das reentradas no sistema ocorreram após a aplicação das medidas “apoio junto dos pais” e “apoio junto de outro familiar”.

Adopção: foi aplicada a 368 crianças (4,3%), a medida de promoção e protecção de confiança à instituição com vista a futura adopção.
Fugas: 76 processos de promoção e protecção foram arquivados por fuga prolongada.
Fonte: Relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens (2014).

13.4.16

Marinha Grande: Secretária de Estado alerta para riscos de pobreza em crianças e jovens

in Diário de Aveiro

A secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro, Mariana Vieira da Silva, alertou ontem, na Marinha Grande, que “25 por cento das crianças e jovens estão em risco de pobreza”. Na sessão solene que decorreu no Salão Nobre dos Paços do Concelho para assinalar os 25 anos da Convenção dos Direitos das Crianças, a secretária de Estado afirmou que o combate à pobreza infantil “é urgente e prioritário” deste Governo e, para isso, diz contar com o apoio das Comissão Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) e do alerta da sociedade civil para a problemática da pobreza.

2.12.15

“Crianças e jovens: o direito a ter direitos”

por Frederico Ribeiro, in Local.pt

CARREGAL DO SAL – O Núcleo Distrital de Viseu da Rede Europeia Anti Pobreza Portugal e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Carregal do Sal vão realizar a mesa redonda “Crianças e jovens: o direito a ter direitos”, no próximo dia 16 de dezembro, pelas 14h, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Carregal do Sal.

A temática central será a Convenção dos Direitos da Criança, contando esta atividade com alguns nomes de relevo nesta área.

A mesa redonda será conduzida pela jornalista Isabel Simões da Rádio Universidade de Coimbra.

23.7.15

Ordem dos Dentistas defende criação de um cheque-dentista de urgência

in RR

A Ordem defende também o alargamento do cheque-dentista a todos os jovens até aos 18 anos, um programa que tem mostrado resultados positivos na população escolar.

A Ordem dos Médicos Dentistas defende a criação de um cheque-dentista de urgência para responder a situações agudas e ainda o alargamento do programa de promoção de saúde oral a todos os jovens até aos 18 anos.

Numa carta aberta a todos os candidatos ao Parlamento, que será publicada em jornais nacionais no sábado, a Ordem dos Dentistas alerta para a "reiterada ausência de soluções de medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde (SNS)".

Preocupada com a dificuldade da população, sobretudo da mais desfavorecida, em aceder a um dentista, a Ordem defende a criação de um cheque dentista de urgência, a disponibilizar em consultórios aderentes, "para dar resposta às situações recorrentes de dor e trauma dentário".

Numa altura em que se divulgam os programas eleitorais dos partidos candidatos às legislativas, os dentistas pretendem manifestar a sua disponibilidade para encontrar soluções que colmatem a falta da saúde oral no SNS.

A Ordem defende também o alargamento do cheque-dentista a todos os jovens até aos 18 anos, um programa que tem mostrado resultados positivos na população escolar.

O Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral abrange já crianças e jovens que frequentam as escolas públicas aos 7, 10, 13 e 15 anos, bem como grávidas seguidas nos serviços públicos, idosos que recebem o complemento solidário e portadores de VIH/sida.

Para a Ordem deve ainda ser avaliada a inclusão no programa de doentes com diabetes, um grupo com riscos adicionais para problemas de saúde oral.

"Portugal tem mais de cinco mil clínicas e consultórios dentários com cobertura nacional com condições para que seja criada uma rede de convencionados com o SNS, abrindo em simultâneo a medicina dentária aos cuidados de saúde primários", defende a Ordem.

Para o bastonário Orlando Monteiro da Silva, que assina a carta aberta a todos os candidatos a deputados, tem havido uma "visão profundamente errada que separa a saúde oral da saúde no seu todo".

2.6.14

Instituições alertam para a pobreza das crianças e jovens

Rosário Salgueiro/Ana Luísa Rodrigues/Carlos Oliveira/Carlos Pinota/Pedro Pessoa, in RTP

As crianças e jovens são os grupos mais afetados pela austeridade dos últimos anos. Várias instituições têm alertado para o aumento da pobreza dos menores de 18 anos e para os efeitos que vai ter no futuro do país. Alguns especialistas dizem mesmo que Portugal recuou 10 anos. Segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, 24,4 por cento das crianças é pobre.