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14.6.23

Vendas de herbicida cancerígeno aumentam e só 7% dos municípios deixaram de o usar

Inês Malhado, in JN

Herbicida perigoso continua a ser o mais comercializado em território nacional. Com a ajuda da Quercus, 21 câmaras e 51 juntas de freguesia abandonam o uso de químicos.

As vendas de glifosato em Portugal têm vindo a crescer e, em 2021, foram vendidas mais de 1800 toneladas deste herbicida perigoso para a saúde pública. Dos 308 municípios do país, apenas 21 (cerca de 7%) e 51 juntas de freguesia deixaram de utilizar glifosato ou qualquer produto semelhante em áreas urbanas, segundo a Quercus.

[Artigo exclusivo para assinantes]

7.6.23

Uma em cada 10 pessoas adoece por consumir alimentos em mau estado

Por Lusa, in SIC

Os alimentos contaminados são ainda responsáveis por mais de 200 doenças. Os dados são da ONU, que lançou um guia por ocasião do Dia Mundial da Segurança Alimentar.


Uma em cada dez pessoas do mundo adoece todos os anos por consumir alimentos contaminados, que são responsáveis por mais de 200 doenças, indicam dados da ONU.

Por ocasião do Dia Mundial da Segurança Alimentar, que se assinala esta quarta-feira, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) lançou um guia sobre segurança alimentar, promovendo boas práticas e alertando que a comida insegura mata.

Promovida, além da FAO, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a efeméride, tem este ano o tema "Normas alimentares salvam vidas" e destina-se a inspirar ações que permitam prevenir, detetar e gerir riscos de origem alimentar, contribuindo para a segurança alimentar, a saúde, o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável.

No último dia de maio morreram 15 pessoas de uma mesma família na Namíbia, depois de comerem uma papa de cereais, alimento básico para os pobres do país, havendo suspeita de intoxicação alimentar.

A propósito do dia que se assinala esta quarta-feira, a Lusa falou com duas organizações que contribuem para a segurança alimentar e lutam contra o desperdício, numa altura em que, segundo as Nações Unidas, 870 milhões de pessoas passam fome no mundo, onde um terço dos alimentos que se produzem é desperdiçado. Na Europa desperdiçam-se em cada ano 88 milhões de toneladas de alimentos.
Uma aplicação para salvar alimentos do desperdício

Para salvar alimentos do desperdício a empresa "Too Good To Go" (criada na Dinamarca em 2016 depois de um grupo de amigos ver ser deitada fora toda a comida que não tinha sido consumida num restaurante), faz, através de uma aplicação, a ligação entre consumidores e restaurantes, supermercados, mercearias e hotéis, permitindo aos utilizadores comprar a preços mais baixos produtos que não iam ser usados.

Mariana Banazol, diretora de marketing da empresa para a Península Ibérica, disse à lusa que a empresa está em Portugal desde outubro de 2019, tendo já a adesão de 1,5 milhões de utilizadores e de mais de 3.700 estabelecimentos. A "Too Good To Go" está hoje em 17 países, com mais de 80 milhões de utilizadores e 134.000 parceiros.

Em todos a ideia é a mesma: o estabelecimento ganha porque evita o desperdício alimentar e reduz perdas económicas, o consumidor ganha porque compra mais barato, e o planeta ganha porque se evitam impactos ambientais. Porque, lembra, "o desperdício alimentar é responsável por 10% das emissões de gases com efeito de estufa".

Até hoje, a empresa já evitou, a nível global, que 200 milhões de caixas de produtos fossem parar ao lixo, o equivalente a 500.000 toneladas de dióxido de carbono (CO2). "Tem um impacto ambiental equivalente a 100.000 bilhetes de avião à volta do mundo ou a um duche quente e contínuo durante mais de 2.400 anos", diz a responsável.

Em Portugal, a "Too Good to Go" já recuperou mais de 2,9 milhões de caixas, evitando o desperdício de mais de 2.900 toneladas de alimentos.

Frisando que o objetivo da empresa é "conseguir um planeta sem desperdício alimentar", Maria Banazol diz querer mais lojas e utilizadores a juntar-se à causa. E lembra o projeto da empresa chamado "Observar, Cheirar, Provar", de sensibilização e informação sobre datas de validade, já que a confusão sobre elas é responsável, diz, por 10% do desperdício alimentar na Europa.
Uma aplicação que dá uma última oportunidade aos produtos

Outra aplicação com o mesmo objetivo, esta nascida em França há uma década, é a Phenix. Em Portugal há sete anos, baseia-se também numa aplicação que faz a ligação entre as empresas e os consumidores. Supermercados ou restaurantes, frutarias, padarias ou talhos, floristas ou peixarias, vendem cabazes de produtos em fim de vida a preços mais baixos.


"Dão uma última oportunidade aos produtos mas também estão a divulgar o seu negócio", disse à Lusa Carlos Hipólito, o responsável em Portugal da empresa, explicando que o cliente ao ir buscar o cabaz que comprou acaba por conhecer a loja em questão.

Além de apoiar as grandes empresas de retalho por exemplo com ferramentas para controlar validade dos produtos a Phenix trabalha com essas empresas e com instituições. São atualmente mais de 1.300, segundo o responsável, que recebem produtos gratuitamente, tendo as empresas, com isso, benefícios fiscais.

São instituições de todo o país que usufruem de produtos que depois, por exemplo, distribuem por famílias carenciadas. E quando esses produtos já não podem ser doados para humanos a Phenix também tornou possível, consoante os casos, o aproveitamento para animais.

Esta ligação entre grandes empresas e instituições é hoje o grosso do trabalho da Phenix. Carlos Hipólito lamenta que outros países não permitam, como Portugal, benefícios fiscais nestas doações.

Por eles existirem, afirma, a Phenix e os parceiros apoiaram no ano passado mais de 100 mil famílias (através das instituições) e foram doados bens equivalentes a 30 milhões de euros. ""Falamos de nove mil toneladas de alimentos doados, falamos de mais de 18 milhões de refeições, falamos de 63 mil toneladas de CO2 evitadas", diz.

O Dia Mundial da Segurança Alimentar visa chamar a atenção e inspirar ações para ajudar a prevenir, detetar e gerir os riscos alimentares.

A ONU estima que morram anualmente 600 milhões de pessoas por consumirem alimentos não seguros.

5.6.23

OMS adota certificado digital covid-19 da União Europeia

Por Lusa, in Expresso


A ideia é "estabelecer um sistema global que ajudará a facilitar a mobilidade global e a proteger os cidadãos de todo o mundo contra as ameaças à saúde atuais e futuras"


A Organização Mundial da Saúde (OMS) fez hoje uma parceria com a Comissão Europeia para alargar a todo o mundo o certificado digital covid-19 da União Europeia (UE), prevendo futuros usos, como um boletim 'amarelo' de vacinas digitalizado.

Numa nota hoje divulgada em Bruxelas, o executivo comunitário dá conta de uma "parceria histórica no domínio da saúde digital" com a OMS, dado que a organização adotará o certificado digital da UE para a covid-19, em vigor há cerca de dois anos.

A ideia é "estabelecer um sistema global que ajudará a facilitar a mobilidade global e a proteger os cidadãos de todo o mundo contra as ameaças à saúde atuais e futuras", acrescenta a instituição.

Este é o primeiro elemento da Rede Mundial de Certificação Digital em Saúde da OMS, que desenvolverá produtos digitais para todos.

Esta rede mundial de certificação digital em matéria de saúde assenta "em princípios e tecnologias abertas do certificado digital da UE para a covid-19", para uma "convergência dos certificados digitais" e o "estabelecimento de normas e a validação de assinaturas digitais para evitar fraudes".

"Esta parceria trabalhará no sentido de desenvolver tecnicamente o sistema da OMS com uma abordagem faseada para abranger casos de utilização adicionais, que podem incluir, por exemplo, a digitalização do Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia", aponta a Comissão Europeia na nota à imprensa, referindo-se a um futuro boletim de vacinas eletrónico (o chamado 'boletim amarelo'), reconhecido em diferentes localizações.

O primeiro elemento do sistema global da OMS deverá estar "operacional em junho de 2023", sendo progressivamente desenvolvido nos próximos meses, conclui Bruxelas.

A Comissão Europeia e a OMS "trabalharão em conjunto para incentivar a máxima aceitação e participação a nível mundial", sendo "dada especial atenção às oportunidades equitativas de participação para os mais necessitados, os países de baixo e médio rendimento".

O certificado, que comprova a testagem (negativa), vacinação ou recuperação do vírus SARS-CoV-2, entrou em vigor na União no início de julho de 2021.

Em 2022, os Estados-membros da UE acordaram que pessoas com o Certificado Covid-19 válido, como vacinados ou recuperados, deveriam ficar excluídos de restrições adicionais à livre circulação, como testes ou quarentenas, para facilitar viagens dentro do espaço comunitário.

50% dos portugueses têm baixa literacia em Saúde. Sociedade lança manual para combater esta realidade

Ana Mafalda Inácio, in DN


Mais de 40 autores aceitaram o convite da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde para participar no primeiro manual sobre a matéria. Uma obra que quer transportar tanto cidadãos, como investigadores e organizações, para o mundo das boas práticas. O objetivo final são "mais ganhos em Saúde".

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que "a literacia dá mais Saúde", mas os níveis de literacia são muito baixos nalguns países, nomeadamente em Portugal, onde se estima que "50% da população tem baixa literacia em saúde, o que significa que cinco a seis milhões de pessoas não conseguem compreender nem aceder da melhor forma aos recursos de saúde, tomando decisões pouco acertadas". A explicação é dada ao DN pela presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS), Cristina Vaz de Almeida, que aproveita para sublinhar: "A falta de literacia leva a mais hospitalizações, a mais mortes prematuras e a mais gastos de recursos. Isto está provado com evidência científica". E foi precisamente para ajudar a combater esta realidade, que a SPLS decidiu avançar com a publicação da obra, Manual de Literacia em Saúde, que reúne mais de 40 autores, especialistas, com lançamento agendado para a tarde desta segunda-feira, dia 5, no Infarmed, em Lisboa.

O objetivo final, como destaca Cristina Vaz de Almeida, coordenadora da obra em conjunto com Isabel Fragoeiro, é o de transportar qualquer leitor, desde o comum cidadão ao investigador, para uma viagem pelos diferentes ciclos da vida, do nascimento ao envelhecimento, e pelo funcionamento das instituições, das academias às organizações, sempre com o foco nas boas práticas e com fundamentação científica para proporcionar mais conhecimento e instrumentos de trabalho. "É preciso que se aborde, por exemplo, os medos das crianças, a saúde da mulher, como o sono da mulher, e outras áreas a nível das organizações, como usar a comunicação e a digitalização na literacia".

A OMS diz que "a literacia em Saúde salva vidas e nós acreditamos, portanto é hora de despertar a sociedade para esta questão e para revelar também o que já se faz em Portugal - que pode ser pouco, mas que já tem muito boas práticas nalgumas áreas", sublinha, acrescentando que "o importante é que as organizações e o próprio sistema percebam que têm de se unir para trabalhar esta questão, de forma transversal e efetiva, para se obterem mais ganhos em Saúde."

A presidente da SPLS define esta obra como "a partilha do caminho que deve ser seguido para quem queira melhorar o nível de literacia em Saúde", defendendo que o primeiro passo a dar-se é o da "criação e desenvolvimento de competências". Ou seja, "para termos mais literacia em Saúde é preciso que as competências comecem a ser ensinadas na academia, na formação básica, e de uma forma muito simples. Por exemplo, começando pelo ensino e pelo uso de uma linguagem clara para o doente". Cristina Vaz de Almeida sustenta que a falta de literacia começa quando a linguagem usada com o doente é a de "jargão técnico e complexo, que o doente não compreende e que faz com que, depois, não tome as melhores decisões em Saúde, porque não compreendeu o que lhe foi transmitido". Aliás, "um dos instrumentos chave para a literacia é a comunicação. E esta tem de ser melhorada entre profissionais e doentes e entre organizações. A linguagem tem de ser assertiva, clara e positiva", defende. A especialista destaca ainda que esta é uma das mensagens a passar à sociedade e, por isso mesmo, "é preciso dar competências aos profissionais". Cristina Vaz de Almeida não esconde que gostaria que o Manual de Literacia em Saúde "trouxesse transformação, mudança e melhores resultados em Saúde. Se as pessoas lerem este manual, se aprenderem o que aqui está e o praticarem teremos melhores resultados". Lendo-se por melhores resultados em Saúde, "menos hospitalizações, menos mortes prematuras, melhor forma de recorrer aos serviços de saúde e de se usar os recursos para mais decisões acertadas", reforça.

A presidente da SPLS explica que este manual está dividido em duas áreas, uma para o cidadão, e o que este pode fazer para melhorar a prevenção e a promoção da sua saúde, e para as organizações e sistema de saúde, sobre como estes podem e devem usar a literacia na sua organização, funcionamento e até na digitalização dos serviços, etc. "Os projetos que revelamos são diversificados e fundamentados cientificamente e vão desde modelos de boas práticas na comunidade, quer para a área da medicação, da saúde mental, da saúde da mulher e das crianças, aos modelos de boas práticas para as organizações, quer hospitais ou outras unidades, e como estas podem implementar e potenciar a literacia em saúde".


Cristina Vaz de Almeida considera que na obra "tudo é importante, dependendo só da perspectiva e da necessidade de quem a lê", por isso prefere não destacar nenhum dos capítulos, sublinhando, no entanto, que o Manual de Literacia em Saúde reúne "mais de 40 autores, uns médicos, outros enfermeiros, terapeutas, investigadores, analistas de dados, higienistas orais, etc, que trabalham em hospitais, na saúde de proximidade, nas academias e com competências em literacia em saúde". Os nomes vão desde Francisco George, ex-diretor-geral da Saúde, a Graça Freitas, atual diretora-geral da saúde, passando por Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, cujos contributos, diz, "tornam esta obra mais rica e útil".

anamafaldainacio@dn.pt

19.5.23

Pandemia provocou cerca de 337 milhões de anos de vida perdidos

Por Lusa, in DN


É o equivalente a uma média de 22 anos de vida perdidos para cada morte em excesso.


A pandemia de covid-19 provocou quase 337 milhões de anos de vida perdidos a nível global, estimou esta sexta-feira a Organização Mundial da Saúde (OMS), alertando para estagnação de vários indicadores de saúde nos últimos anos.


"Durante 2020 e 2021, a covid-19 resultou nuns impressionantes 336,8 milhões de anos de vida perdidos globalmente. Isso equivale a uma média de 22 anos de vida perdidos para cada morte em excesso, interrompendo abrupta e tragicamente a vida de milhões de pessoas", adiantou a organização.

A OMS publicou hoje o relatório anual de estatística que atualiza o impacto da pandemia na saúde global, demonstrando um "declínio" no progresso feito antes da covid-19 nos objetivos de desenvolvimento global (ODS).

As estimativas de excesso de mortalidade da OMS indicam que o número real de mortes associadas direta ou indiretamente à pandemia, entre 1 de janeiro de 2020 e 31 de dezembro de 2021, foi de aproximadamente 14,9 milhões em todo o mundo.


Esse valor representa mais 9,5 milhões de mortes do que os 5,4 milhões de óbitos inicialmente reportados durante esse período, adiantou a organização com sede em Genebra.

De acordo com os dados mais recentes da OMS, desde o início da pandemia até quarta-feira, foram confirmados mais de 766 milhões de casos de infeção pelo vírus que provoca a covid-19 e registadas cerca de 6,9 milhões de mortes.

O relatório alerta também que a proporção de mortes causadas anualmente por doenças não transmissíveis (DCNT), como as cardiovasculares e respiratórias crónicas, cancro e diabetes, "tem crescido consistentemente e agora está a reivindicar quase três quartos de todas as vidas perdidas a cada ano".

Se essa tendência continuar, os dados da OMS estimam que essas doenças "sejam responsáveis por cerca de 86% das 90 milhões de mortes anuais até meados do século", sendo responsáveis por cerca de 77 milhões de óbitos.

O documento adianta ainda que as tendências mais recentes mostram "sinais de abrandamento" nos objetivos de redução anual em vários indicadores de saúde, como é o caso da taxa de mortalidade materna global, que precisa de diminuir 11,6% ao ano até 2030 para cumprir a meta dos ODS.

"Da mesma forma, a redução líquida na incidência de tuberculose de 2015 a 2021 foi apenas um quinto do caminho para o marco de 2025" definido na estratégia de erradicação da doença da OMS.

O consumo de álcool em todo o mundo diminuiu ligeiramente entre 2010 e 2019, com os homens a continuarem a consumir cerca de três vezes mais do que as mulheres, refere o relatório, que mostra dados mais otimistas em relação ao tabaco.

"O consumo de tabaco diminuiu de forma mais acentuada: cerca de 22% da população mundial com 15 ou mais anos consumia tabaco em 2020, contra quase 33% em 2000", indica a organização.

A OMS estima também que o número de adultos entre os 30 e os 79 anos com hipertensão tenha quase duplicado para 1,28 mil milhões entre 1990 e 2019, principalmente devido ao crescimento e envelhecimento da população.

"Os serviços de água potável geridos com segurança estavam acessíveis a cerca de três quartos (74%) da população mundial em 2020. No entanto, isso traduziu-se em dois mil milhões de pessoas que ainda não tinham acesso" a esse recurso de forma segura, indica o documento.

"Alcançar o acesso universal à água, ao saneamento e aos serviços de higiene básica geridos de forma segura até 2030 exigirá um aumento de quatro vezes nas atuais taxas de progresso" nesta área, de acordo com a OMS, que classifica como "alarmante" os níveis de obesidade, que têm aumentado "sem nenhum sinal imediato de reversão".

Apesar da estagnação de alguns indicadores, as pessoas continuam a viver mais tempo e mais anos com boa saúde.

A esperança de vida global à nascença aumentou de 66,8 anos em 2000 para 73,3 anos em 2019 e a esperança de vida saudável passou dos 58,3 anos para os 63,7 anos, refere a OMS, que alerta, porém, que as "desigualdades no domínio da saúde continuam a ter um impacto desproporcionado na vida e na saúde em contextos com menos recursos".

5.5.23

OMS decretou o fim da pandemia de covid-19 como emergência sanitária global

Marta Leite Ferreira, in Público



Director-geral da OMS decretou em conferência de imprensa que a covid-19 deixou de ser considerada uma emergência sanitária global. Nível máximo de alerta estava activo desde 30 de Janeiro de 2020.



Mil, cento e cinquenta (1150) dias depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado a covid-19 uma pandemia, chega outro anúncio histórico: a doença provocada pelo SARS-CoV-2 deixou esta sexta-feira de ser considerada uma emergência sanitária global.



Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, confirmou que aceitou a recomendação do comité de emergência para baixar o nível de alarme: "É com grande esperança que declaro o fim da covid-19 como uma emergência de saúde global." E prosseguiu: "Ontem [quinta-feira], o comité de emergência reuniu-se pela 15.ª vez e recomendou-me que declarasse o fim da emergência global. Eu aceitei esse conselho."


Desde que o coronavírus foi detectado na cidade chinesa de Wuhan até agora, a covid-19 já foi responsável pela morte de cerca de sete milhões de pessoas em todo o mundo, quase 27 mil das quais em Portugal. O nível máximo de alarme em torno da covid-19 foi decretado pela primeira vez a 30 de Janeiro de 2020, há 1191 dias. A 11 de Março desse ano foi, então, considerada uma pandemia.


Nesse dia, as autoridades portuguesas registavam um total de 59 casos confirmados de infecção desde o dia 2 de Março. Agora, e de acordo com as informações mais recentes da Direcção-Geral da Saúde (DGS), são já perto de 5,6 milhões os casos diagnosticados com o SARS-CoV-2, que durante muito tempo era conhecido sobretudo como "novo coronavírus". A sua disseminação condenou a população portuguesa (e de milhões de pessoas por todo o mundo) ao confinamento domiciliário em vários períodos até 2022.


As escolas encerraram, as ruas ficaram desertas e os profissionais de saúde enfrentaram provações históricas para atenderem aos milhares de casos internados que acorriam aos hospitais em todo o mundo. Nos piores momentos da pandemia, o país assistiu à morte de centenas de pessoas por dia à conta da covid-19 enquanto se habituava às novas rotinas (muitas delas já abandonadas): era preciso usar máscaras, realizar testes rápidos antes de se aceder a restaurantes e manter o isolamento sempre que havia um contacto de risco.


Até agora, a covid-19 era considerada uma "emergência sanitária global" (o nível de alerta máximo emitido pela OMS) por tratar-se de um evento extraordinário, representar um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional e requerer uma resposta internacional coordenada.


Mas o Comité de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional concluiu, numa sessão deliberativa esta quinta-feira, que a covid-19 já não pode ser considerada "um evento incomum ou inesperado", mesmo tendo em consideração que o vírus continua a evoluir e a circular. Por isso, já não obedece aos parâmetros para ser classificada como emergência sanitária global.


Na conferência de imprensa, Tedros Adhanom Ghebreyesus adiantou que a pandemia está "em tendência de queda, com a imunidade da população a aumentar devido à vacinação e infecção, a mortalidade a diminuir e a pressão sobre os sistemas de saúde a decrescer". Num comunicado publicado entretanto pela OMS, a organização considerou que "está na hora de fazer a transição para a gestão de longo prazo da pandemia" porque "a covid-19 é agora um problema de saúde estabelecido e contínuo".

19.4.23

Um guia para perceber a síndrome de “burnout em Portugal”: o quinto país que mais horas trabalha na OCDE

Cátia Barros,  in Expresso


O que é a síndrome de burnout? A que sinais devo estar atento? Como é que posso recuperar? O que posso fazer para evitar chegar a um esgotamento? O Expresso esteve à conversa com a psicóloga Ruth Ministro para perceber melhor a doença “resultante do stress crónico no local de trabalho"


Mais de metade dos portugueses (57%) dizem já ter estado perto de sofrer um burnout, revela o STADA Health Report 2022. Mas o que é que causa esta doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2019?

A psicóloga da clínica REACH explica que “se tem glorificado o trabalhador que é multitasking, o que fica para além da hora, o que atende sempre o telefone e responde sempre aos emails, independentemente do efeito que estes comportamentos têm”. A juntar a isto, em Portugal, segundo a OCDE, trabalha-se uma média de 39,6 horas semanais.


O que a “ciência tem mostrado”, continua a psicóloga, é que “o cérebro humano não está concebido para alternar rapidamente entre tarefas”, uma vez que isso “gera sobre-estimulação, diminuindo a produtividade e aumentando o risco de burnout”. Mas afinal o que é a síndrome de burnout?

De acordo com a OMS, é uma síndrome “resultante do stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso”, caracterizando-se por “um sentimento de exaustão, cinismo ou sentimentos negativistas ligados ao trabalho e eficácia profissional reduzida”. Ou seja, o problema não está na necessidade de ser produtivo, “mas sim nas exigências inerentes ao conceito de produtividade”, acrescenta Ruth Ministro.

Esta é mais provável nas mulheres, uma vez que “sofrem de excesso de trabalho e de stress pela acumulação de papéis, que implicam tarefas e exigências profissionais, parentais e domésticas num grau muito superior ao que acontece com os homens”.


A QUE SINAIS DEVO ESTAR ATENTO?

A síndrome de burnout funciona como “uma resposta à exposição prolongada ao stress crónico e à carência de competências emocionais adaptativas que permitam ao indivíduo lidar com o mesmo”, explica a psicóloga. De acordo com esta especialista, há especialmente quatro níveis a que devemos estar atentos:
Físico

“Do ponto de vista físico podem surgir enxaquecas, tonturas, sensação de falta de ar, alterações nos padrões de sono e de apetite, problemas gastrointestinais, cardiovasculares, taquicardia, cansaço profundo, dores e tensão muscular.”
Emocional

Já a nível emocional, a psicóloga realça que podem surgir “sintomas de tristeza, apatia, desmotivação, frustração ou revolta, ansiedade, humor deprimido, baixa autoestima e despersonalização, e até uma visão da vida em geral mais negativa, marcada pela desesperança".
Cognitivo


A nível cognitivo, pode-se sentir uma “maior dificuldade de concentração, dificuldade na realização de tarefas, menor criatividade, menor capacidade de tomada de decisão, ruminação negativa e persistente acerca do trabalho, necessidade de controlo e hipervigilância".

Social

O esgotamento pode também afetar as relações familiares e as amizades, podendo o indivíduo nessa situação isolar-se e apresentar “menos capacidade empática, comunicação mais impessoal, crítica, sarcástica, reativa ou agressiva”. Além disso, acrescenta a psicóloga, “pode haver maior consumo de substâncias como o álcool, o tabaco, as drogas ou a automedicação".


2

COMO RECUPERAR?

“Não existe uma receita única para recuperar de um burnout, cada indivíduo terá necessidades diferentes e precisará de encontrar, preferencialmente com apoio, os seus mecanismos de resposta”, explica a psicóloga. No entanto, reconhece que a primeira etapa é retirar o indivíduo do contexto gerador de stress: “é preciso perceber e reconhecer que estamos em estado de burnout e que temos que parar”. Apesar de essencial, trata-se de um “passo muito difícil de tomar”.

Outro passo fundamental é tentar procurar ajuda profissional: “se conseguirmos ouvir as nossas emoções mais difíceis e chegar às necessidades que se escondem por detrás delas, as respostas vão surgir-nos”. Com acompanhamento especializado, começa-se a “identificar o que é preciso acrescentar ou subtrair” ao dia a dia. “Revemos hábitos, rotinas, padrões de comportamento disfuncionais e tornamo-los mais saudáveis e ajustados às nossas características individuais.”

“Descansar e recuperar energia é comum a todos os casos e é a prioridade”, diz. De seguida, torna-se importante “promover a higiene do sono, rever hábitos alimentares, implementar atividade física, ter mais momentos de lazer e relaxamento, investir em interesses pessoais e ter tempo de qualidade a sós e com a nossa rede de apoio”.

3


COMO EVITAR?

Evitar entrar em burnout passa por “apostar na prevenção”, uma vez que esta é uma síndrome que não “acontece de um dia para o outro, é um processo gradual, que se vai agravando”. Mas, além disso, é importante perceber que “não somos só a nossa profissão”. Interiorizar isso vai fazer com que seja mais fácil “gerir o melhor o nosso tempo e energia, procurando equilibrar a vida profissional com a vida pessoal”. Contudo, nem sempre é o mais fácil. Num ranking da OCDE, que tem em conta que o equilíbrio vida-trabalho consiste em “ser capaz de combinar compromissos familiares, lazer e trabalho”, Portugal apresenta um equilíbrio de 6,7 em 10.



Durante o período laboral, é preciso encontrar estratégias para evitar chegar a este estado, como por exemplo: “fazer um bom planeamento de tarefas, traçar objetivos e metas de acordo com o tempo de que se dispõe; definir limites; fazer pausas regulares; concentrar-se numa tarefa de cada vez e procurar ter janelas de produtividade de uma a duas horas sem interrupções, notificações e distrações”.

Já fora do trabalho, é importante ter em conta as necessidades, os interesses e as motivações pessoais. “Temos que aprender a cuidar de nós como se cuidássemos de alguém que nos é muito querido, com compaixão e gentileza, com menos culpa, autocrítica e julgamento”, explica Ruth Ministro.



Correção: título alterado às 22h59. Os dados mencionados dizem respeito ao conjunto de países que integram a OCDE e não à Europa

21.3.23

Há uma “desesperança” nos jovens que tentam o suicídio. E os que chegam aos consultórios são cada vez mais novos

Patrícia Carvalho, in Público

Ao contrário do que acontece noutros países, os dados em Portugal não apontam para o aumento de suicídio entre os jovens. Em 2020 houve 10, em 1991 foram 35.

As informações mais recentes sobre a saúde mental dos nossos jovens são preocupantes. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) nos diz que um em cada quatro adolescentes portugueses já se auto-lesionou e que de 2018 para 2022 a sua percepção de infelicidade subiu de 18,3% para 27,7% ou quando um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que 23% dos jovens já tiveram pensamentos ou actos suicidas, a questão é inevitável: há mais suicídios de adolescentes em Portugal? A resposta é não, mas os dados não são muitos. E há factores que não nos permitem sossegar: indícios de que são cada vez mais jovens os que pedem ajuda por terem pensamentos suicidários. E um certo sentido de “desesperança” que é referido por vários especialistas.

“Temos de voltar a criar confiança no futuro”, diz a psicóloga clínica e investigadora Margarida Gaspar de Matos, sobre os miúdos que lhe chegam ao consultório com pensamentos suicidas e que apresentam alguns sinais que a preocupam. “Já estávamos à espera, mas o que sinto é que me chegam miúdos mais novos, com 11, 12 anos, o que é muito preocupante. E outra coisa, que decorre da casuística da consulta, é que me parecem anestesiados. Não é um desespero, é uma desesperança, uma falta de se apegarem à vida, quase como se estivessem a flutuar por cima das coisas”, diz.

Inês Rothes, psicóloga e investigadora do Centro de Psicologia da Universidade do Porto, confirma que a idade parece estar a recuar, quando se fala destes problemas. “Parece, de facto, que há uma tendência para estes comportamentos se verificarem cada vez mais cedo, com outro fenómeno que se relaciona, que são os comportamentos auto-lesivos. É uma percepção que vem quase do senso comum e de algumas questões que vêm da clínica, dos colegas que atendem crianças muito pequenas. É senso comum dizer-se que a adolescência começa cada vez mais cedo, por isso não é de estranhar [esta mudança], embora não haja ainda certezas absolutas”, diz, insistindo: “É preciso termos em conta que, ainda assim, se trata de um fenómeno raro e precisamos de janelas temporais muito grandes para falar de alterações, porque senão podemos estar a falar de flutuações do acaso.”

Dados só até 2020

Em Portugal, os dados sobre suicídios entre os mais novos disponíveis no Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que ao contrário de outros países, não há um aumento de casos. Segundo o INE, entre 1991 e 2020, suicidaram-se 469 crianças e jovens portugueses, entre os 5 e os 19 anos. Desagregando por faixas etárias, seis destas mortes, a última das quais em 2014, foi de crianças entre os 5 e os 9 anos, 52 de crianças entre os 10 e os 14 anos e as restantes 411 de jovens entre os 15 e os 19 anos.

Os anos mais recentes não denotam qualquer aumento - em 2020 registaram-se 10 suicídios apenas na faixa etária mais alta, quando em 1991, o pior dos anos analisados, tinham sido 31, mais quatro na faixa etária dos 10 aos 14 anos. Os dados indicam ainda que há muitos mais rapazes do que raparigas a morrer por este meio: dos 469 casos nos 29 anos analisados pelo INE, 313 (quase 67%) eram de crianças ou jovens do sexo masculino.

Ainda assim, estes dados, garante Inês Rothes, colocam Portugal em linhas com os países desenvolvidos em que vários estudos apontam o suicídio como a 2.ª ou 3.ª causa de morte entre os adolescentes acima dos 15 anos. E Margarida Gaspar de Matos sublinha a probabilidade de “subnotificação de casos”, que também é valorizada pela OMS, tendo em conta, muitas vezes, o estigma associado a estas mortes.

Otília Queiroz, pedopsiquiatra do Centro Hospitalar Universitário de Santo António e coordenadora da área de Pedopsiquiatria na Administração Regional de Saúde do Norte, diz também desconhecer qualquer estudo que aponte para o aumento de casos de suicídio entre os jovens portugueses, e salienta a especificidade do fenómeno, quando ocorre entre os mais novos.

Linhas de apoio

SOS Voz Amiga

(entre as 16 e as 24h00)
213 544 545
912 802 669
963 524 660

Telefone da Amizade
228 323 535

Escutar - Voz de Apoio – Gaia
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SOS Estudante
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“Os comportamentos suicidários na adolescência têm, frequentemente, um cariz impulsivo (ocorrendo em reacção a um stressor agudo) e a intenção suicida é muitas vezes ambígua ou até mesmo inexistente; são comportamentos que frequentemente traduzem a incapacidade em lidar, naquele momento e nas circunstâncias em que o adolescente se encontra, com um determinado problema ou uma situação difícil e/ou em comunicar de uma forma eficaz as suas dificuldades”, explica, numa resposta escrita enviada ao PÚBLICO.

Cristina Marques, pedopsiquiatra da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, deixa um alerta similar, também numa resposta escrita: “Na situação dos adolescentes estes comportamentos têm significado psicopatológico que não é necessariamente sobreponível ao dos adultos, podendo corresponder a situações de todos os espectros de gravidade psicopatológica e até comportamentos de imitação e contágio na ausência de uma doença mental.”

Inês Rothes sublinha que, muitas vezes nas crianças mais pequenas um suicídio pode resultar mais da “impulsividade” do que de algo planeado e Margarida Gaspar de Matos refere que nos casos que lhe chegam ao consultório há, quase sempre “uma impotência ligada à desesperança”. E que algo que para outra pessoa parece um problema insignificante, para estes miúdos se apresenta como “uma dor muito grande, algo de que não se consegue livrar”.

Sem doença mental

Não se deve, por isso, pensar que há uma doença mental associada a cada tentativa de suicídio de uma criança ou adolescente. Otília Queiroz diz que, sendo verdade que “possam ocorrer tentativas de suicídio em adolescentes portadores de doença psiquiátrica grave, essas situações são relativamente raras e na maioria das situações o que se encontra subjacente é a percepção de incapacidade de lidar com uma situação difícil ou com uma adversidade; há ainda que ter em conta que, por razões decorrentes do seu desenvolvimento neurocognitivo e emocional, os adolescentes são mais propensos a comportamentos impulsivos e têm mais dificuldades em regular os seus estados emocionais negativos, tendendo a vivenciá-los de uma forma mais extrema.”

Todas insistem, contudo, que não é possível encontrar uma razão simplista, uma causa única para uma tentativa de suicídio - há “uma constelação de factores para cada caso”, descreve Inês Rothes. É sempre uma questão complexa e que pode ser influenciada por factores culturais, geográficos ou o momento histórico que se vive.

“O pedido de ajuda é um dos principais obstáculos da saúde mental”

Chama-se Sobreviver, começou a funcionar em Junho de 2021 e pretende apoiar as pessoas “que perderam alguém para o suicídio”. Os “sobreviventes”, como são chamados pela associação e pela sua presidente, a psicóloga Sofia Santos Nunes, que também perdeu o pai desta forma.
Apesar da sua formação, explica que a Sobreviver não tem “um objectivo clínico”, mas antes dar aos familiares ou amigos de alguém que se suicidou a possibilidade de terem um espaço de partilha, onde possam falar sem medos dos tabus ou estigmas que ainda acompanham o tema. Porque, refere, “por cada suicídio, e as estatísticas são variáveis, há entre seis a 10 pessoas directamente afectadas”. “Há um antes e depois, a reestruturação de toda a personalidade, da estrutura familiar. Há toda uma mudança na estrutura e na forma como vemos a vida”, afirma, e no caso dos familiares mais próximos, o processo de luto “extremamente complexo” pode mesmo comportar características similares ao “stress pós-traumático”.

Para os que ficam há muitas vezes processos de “culpa muito pesados e complexos”. E se quem se suicidou for um menor, tudo pode ser ainda mais complicado, diz, já que os pais são muitas vezes “apontados” como alguém que “falhou”. Por isso, defende, é importante passar a mensagem de que “o suicídio é evitável”, que há sinais a que se deve estar atento e que podemos agir sobre eles, mas também que há casos em que, por mais atento que se esteja, “não vai ser possível salvar a pessoa”. “É preciso pensar naquela mãe que fez tudo, que andou com o filho nas urgências, nas consultas, e mesmo assim não resultou”, diz.

Acima de tudo, é preciso “empatia e compaixão” para quem sobrevive ao suicídio de alguém querido. E, tal como é preciso dar espaço para falar a quem está a pensar em suicídio, é preciso fazer o mesmo com quem perdeu alguém dessa forma. “A principal necessidade de quem nos chega é falarem do ente querido”, garante. O primeiro passo também pode ser difícil. “O pedido de ajuda é um dos principais obstáculos na saúde mental. Temos pessoas com 30 anos de luto, que vêm ter connosco porque há algumas coisas que não ficaram bem resolvidas, outras muito no início do processo. Ainda há um estigma muito grande em pedir ajuda”, diz.

Nos Estados Unidos, um relatório recente do Centro para o Controlo da Doença aponta para que quase uma em cada três raparigas do ensino secundário considerou o suicídio em 2021, o que representa um aumento de 60% comparando com 2011. Num artigo da Time que parte destes dados, uma psicóloga defendia que as redes sociais deveriam ser mais responsabilizadas por esta evolução, mas por cá resiste-se a diabolizar esse meio, embora se reconheça que ele é mais um factor a que é preciso estar atento, sobretudo por potenciar eventuais actos de contágio ou imitação.

Há sinais aos quais é preciso estar atento - mudanças de comportamento de sono ou na alimentação, isolamento, falta de interesse ou incapacidade para desempenhar actividades normais, por exemplo. E os comportamentos auto-lesivos podem não estar directamente relacionados com uma intenção de suicídio, mas Inês Rothes defende que não devem ser desvalorizados, porque vários estudos indicam que a 4.ª razão mais apontada pelos jovens para terem este comportamento é “para afastar pensamentos de morte, de ideação suicida”, diz.

Mas isto também não significa que o facto de haver mais casos de auto-lesão no país aponte para um aumento dos suicídios entre os mais jovens num futuro próximo. A investigadora lembra que também se acreditou que a grave crise de 2008 iria fazer aumentar o suicídio em geral e que em muitos casos isso não aconteceu - nos países com uma forte resposta social até houve uma diminuição. Aqui, uma boa resposta na área da saúde mental pode ter o mesmo efeito, sublinha.

E não são apenas as equipas médicas que devem estar envolvidas - os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO desvalorizaram, por exemplo, o encerramento dos serviços de Pedopsiquiatria à noite, que já acontecia nos hospitais de referência do Norte e Centro, e a que agora se junta o do Sul, o D. Estefânia, em Lisboa. Toda a comunidade deve e pode intervir se suspeitar que há alguma intenção suicida de alguém que conhece. Acompanhar a pessoa, falar com ela, mantê-la ocupada, e em casos mais graves, encaminhá-la para os serviços de saúde adequados. O essencial é não ignorar. “É preciso dizer-lhes que há sempre uma solução e que amanhã pode ser o melhor dia da vida deles. Que se estão confusos ou com uma dor muito grande devem falar com alguém, seja quem for. Vamos apostar no dia de amanhã. Hoje não é o teu dia, mas amanhã pode ser”, diz Margarida Gaspar de Matos.

Otília Queiroz sintetiza: “O mais importante é abrir uma via de comunicação com a criança/adolescente, que lhe permita expressar as suas preocupações e sentimentos, ou seja, tentar perceber o que é que naquele momento se está a passar na sua vida que é causa de sofrimento ou mal-estar, e de que forma se está a sentir. A partir da identificação do problema poderá, então, ser possível trabalhar na resolução do mesmo, articulando sempre com os seus cuidadores e responsáveis legais."

8.3.23

Gripe pode ser “gatilho” para perda de autonomia dos idosos

Francisco de Almeida Fernandes, in Expresso

Considerada benigna pela generalidade da população, a infeção sazonal apresenta um risco superior entre as pessoas com mais de 65 anos e doentes crónicos. Prevenção deve ser, defendem sociedades médicas, prioridade. Este será um dos temas em discussão no Flu Summit 2023, na próxima terça-feira, 7, com transmissão em direto no Facebook do Expresso a partir das 14h30

Mais do que uma infeção passageira e que pode obrigar a alguns dias de repouso, a gripe apresenta riscos acrescidos entre os mais idosos. Segundo Sofia Duque, coordenadora do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, a doença pode ser, para a população idosa mais vulnerável, “o gatilho para uma deterioração importante da capacidade de fazerem a sua vida diária”. Em causa estão consequências como a desidratação, má nutrição, incontinência do esfíncter ou mesmo perda de capacidade cognitiva.

A prevenção, defende, é particularmente relevante entre este grupo. De acordo com os dados do Vacinómetro – projeto da Sociedade Portuguesa de Pneumologia e da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, com apoio da Sanofi -, na atual época gripal foram vacinadas 83,2% das pessoas com mais de 65 anos, cumprindo a meta de 75% proposta pela Organização Mundial da Saúde. “O povo português é dos povos que mais aceita as vacinas”, esclarece Manuel Carrageta.

“As pessoas idosas têm sintomas atípicos e estes casos são subdiagnosticados. A dimensão do problema é muito maior do que se julga”, aponta Manuel Carrageta

O presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) considera que, além do desconhecimento da população sobre os riscos agravados da gripe, existe uma “subnotificação” dos casos de infeção em Portugal. “As pessoas idosas têm sintomas atípicos e estes casos são subdiagnosticados. A dimensão do problema é muito maior do que se julga”, acrescenta. Para lá dos impactos na autonomia dos mais idosos, a doença pode ter complicações como a pneumonia, que pode ser fatal, ou até mesmo relacionadas com episódios cardiovasculares.

60.000

Número de europeus que, anualmente, perde a vida em resultado da gripe, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde

O estudo BARI – Burden of Acute Respiratory Infections, que analisou as épocas gripais entre 2008 e 2019, evidencia a relação entre a gripe e os internamentos por doença respiratória ou cardiovascular. “Na altura dos picos da gripe, as unidades coronárias enchem-se de doentes com enfarte do miocárdio”, exemplifica Manuel Carrageta. “Sabemos que a utilização de vacinas mais efetivas, nesses casos, tem um potencial para salvar centenas de vidas em Portugal”, acrescenta, em referência às opções de dose reforçada que começaram a ser implementadas no país na época 2022/2023. Porém, realça, esta arma preventiva só está disponível para pessoas institucionalizadas. “Não é viver numa instituição que determina o risco de a pessoa ter gripe”, critica Sofia Duque, que defende que os grupos mais vulneráveis devem ter acesso igual às melhores tecnologias disponíveis.

A análise do primeiro ano de aplicação da vacina antigripal quadrivalente de dose reforçada será um dos temas em debate no Flu Summit 2023, um evento organizado pela Sanofi e ao qual o Expresso se volta a associar. O evento, que decorre na próxima terça-feira, 7, vai contar com a presença de especialistas e representantes das principais sociedades médicas nacionais. Consulte, abaixo, os detalhes da iniciativa.

FLU SUMMIT 2023

O que é

“Unidos além da gripe” é o tema da edição deste ano do Flu Summit, uma iniciativa para a sensibilização do impacto da infeção nas populações mais vulneráveis e que pretende debater as estratégias fundamentais para uma saúde mais sustentável. Participam especialistas em várias áreas da medicina, bem como representantes de instituições de saúde públicas e das principais sociedades médicas nacionais. A agenda prevê a discussão sobre o impacto da gripe no Serviço Nacional de Saúde e nos grupos mais vulneráveis, sobre as recomendações das sociedades médicas e, ainda, sobre a primeira época de aplicação da nova vacina disponível.

Quando, onde e a que horas?

Terça-feira, dia 7, a partir das 14h30, com transmissão no Facebook do Expresso

Quem são os oradores?

Helena Freitas, diretora geral da Sanofi;
Filipe Froes, pneumologista no Hospital Pulido Valente;
Carlos Robalo Cordeiro, diretor do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra;
Tor Biering-Sørensen, director do Center for Translational Cardiology and Pragmatic Randomized Trials em Copenhaga;
António Morais, Sociedade Portuguesa de Pneumologia;
Bruno Almeida, Sociedade Portuguesa de Diabetologia;
Paulo Almeida, Sociedade Portuguesa de Medicina Interna;
Ana Teresa Timóteo, Sociedade Portuguesa de Cardiologia;
Manuel Carrageta, Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia;
Joaquim Oliveira, Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica;
António Tavares, Santa Casa da Misericórdia do Porto;
Coronel Penha Gonçalves, Task-force de vacinação;
Gonçalo Sarmento, especialista em Medicina Interna;
Isabel Saraiva, Associação Respira;
Graça Freitas, Direção Geral da Saúde (por confirmar);
António Maló de Abreu, Comissão Parlamentar da Saúde;
Manuel Pizarro, Ministro da Saúde (por confirmar).

Porque é que este evento é importante?

Os riscos acrescidos da gripe em populações consideradas mais vulneráveis, como idosos acima dos 65 anos e doentes crónicos, podem resultar em internamentos hospitalares associados a episódios respiratórios e cardiovasculares. Prevenir é importante para evitar mortes e doença aguda, assim como para diminuir a sobrecarga dos serviços de saúde em Portugal.

Como posso ver?

Simples, clicando AQUI

Obesidade. A epidemia que poderá afetar metade do mundo até 2035

Joana Raposo Santos, in RTP

Até 2035, mais de metade da população mundial deverá tornar-se obesa ou com excesso de peso. O cenário apenas poderá ser evitado se os governos tomarem mais e melhores ações para travar aquilo que é classificado pela Organização Mundial da Saúde como epidemia. As conclusões são de um relatório da Federação Mundial para a Obesidade divulgado esta quarta-feira, segundo o qual o custo global desta doença pode atingir os 4,32 biliões de dólares em pouco mais de uma década.

Neste momento, 38% da população mundial (o equivalente a 2,6 mil milhões de pessoas) já é obesa ou tem excesso de peso. E, sem mudanças substanciais, o número pode agravar-se para mais de quatro mil milhões de pessoas (51% da população) nos próximos 12 anos.

Segundo o relatório da Federação Mundial para a Obesidade, as práticas a adotar devem passar pela criação de taxas e impostos na publicidade a alimentos pouco saudáveis; restrições ao marketing pensado para alimentos com calorias, sal ou açúcar elevados; rótulos na parte da frente das embalagens ou o fornecimento de comida mais saudável nas escolas.

Se não forem tomadas mais ações deste tipo, o número de pessoas clinicamente diagnosticadas como obesas pode aumentar de uma em cada sete para uma em cada quatro até 2035.

É considerado excesso de peso um Índice de Massa Corporal acima de 25, enquanto a obesidade consiste num índice superior a 30. Vários estudos científicos demonstram que esta doença crónica aumenta o risco de cancro e doenças de coração, entre outras.

A obesidade entre crianças e jovens deverá, de acordo com os dados atuais, aumentar mais rapidamente do que entre os adultos. No mais recente relatório do Atlas Mundial da Obesidade, prevê-se que esta condição no mínimo duplique até 2035 entre os menores, em comparação com os números de 2020.

O grupo mais afetado deverá ser o das raparigas com menos de 18 anos, com um aumento previsto de 125%, significando que 175 milhões destas crianças e jovens poderão ser obesas em 2035. Os rapazes da mesma idade serão percentualmente menos afetados, com um aumento de 100% (totalizando 208 milhões).

A federação alertou ainda que muitos dos países mais pobres são também os que enfrentam maiores aumentos na obesidade, correndo riscos ainda mais graves por não estarem preparados para lidar com a doença.

Nove dos dez países com maiores subidas previstas são de baixo ou médio rendimento, localizados nos continentes africano e asiático. Já as dez nações melhor preparadas para lidar com esta epidemia são europeias e de rendimentos elevados, entre as quais Suíça, Noruega, Islândia, Finlândia ou Suécia.

O impacto económico da obesidade

Louise Baur, presidente da Federação Mundial para a Obesidade, considera as conclusões do relatório “um aviso claro de que, ao falharmos em responder à obesidade hoje, estamos a arriscar sérias repercussões no futuro”.

“É particularmente preocupante ver os níveis de obesidade a aumentarem mais velozmente entre crianças e adolescentes”, referiu, citada pela própria Federação. “Os governos e legisladores por todo o mundo precisam de fazer tudo o que está ao seu alcance para evitarem que os custos de saúde, sociais e económicos passem para a geração mais jovem”.

Segundo o Atlas Mundial da Obesidade deste ano, o impacto económico global do excesso de peso e obesidade pode alcançar os 4,32 biliões de dólares anuais até 2035, caso não sejam tomadas medidas. O custo representará quase 3% do Produto Interno Bruto global, aumento apenas comparável com o do impacto da pandemia de covid-19 no ano 2020.

Evitar este cenário “implica olhar urgentemente para os sistemas e fatores que contribuem para a obesidade e envolver ativamente os jovens nas soluções”, acrescentou Baur. “Se agirmos de forma unida agora, teremos a oportunidade de ajudar milhares de milhões de pessoas no futuro”.

A Federação Mundial para a Obesidade é uma aliança entre entidades das áreas da saúde, ciência e investigação que trabalha com várias agências internacionais, incluindo a OMS. Um dos seus membros é a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).

“Estou a envelhecer e agora….?”

Aida  Cristina Pereira Nunes, in Mais Beiras Informação

A influência da tecnologia num envelhecimento ativo

Longe vão os tempos, em que o bem-estar se encontrava intimamente relacionado com o nível
económico. Hoje, os aspetos sociais, ligados ao bem-estar físico e psíquico, tomam proporções
fundamentais e de especial relevância, para o equilíbrio da vida dos nossos idosos.

O envelhecimento deixou de ser apenas associado a um bem-estar de saúde e passou a ser
percebido como um conceito mais amplo, mais abrangente, devido em parte, às necessidades
sentidas pelos indivíduos inseridos num mundo globalizado. Esta nova perspetiva de olhar,
mais holística, onde as pessoas idosas surgem como um todo integradas numa sociedade, por
vezes pouco justa, coloca a tónica num bem-estar geral outrora inimaginável.

Se, por um lado qualidade significa um estado de excelência em que um indivíduo se encontra,
o termo vida vai muito mais além, indica um estado completo de atividade funcional incluindo
o seu comportamento, o acompanhamento e desenvolvimento, ou seja, o seu estilo de vida
em geral. Portanto nesta população, aquilo que se pretende é a junção dos dois conceitos
“qualidade e vida”, na essência da sua designação individual.

A OMS define o conceito de envelhecimento ativo como “um processo de otimização de
oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das
pessoas que envelhecem (…)”. Vivemos numa sociedade envelhecida, em que o número de
idosos supera, em larga escala, o número de jovens, tornando necessário a adoção de medidas
capazes de fazer face a esta situação. Torna-se premente tentarmos definir políticas e
estratégias globais, mas também à escala local, no sentido de se alcançar o primordial objetivo
de um envelhecimento ativo. Tal como refere a OMS, é importante que a população
envelhecida se mantenha ativa, participante e integrada na sociedade.

E é neste sentido, que o Município de Murça, enquanto entidade Coordenadora, em parceria
com os Municípios de São João da Pesqueira e Tabuaço, e os Centros Sociais e Paroquiais de
Trevões e Castanheira do Sul, desenvolveram o Projeto “Idoso Ativo – Abordagens Integradas
para a Inclusão Ativa no Douro”, um projeto pioneiro, no âmbito da intervenção com a
população Idosa, no sentido de potenciar intervenções com caracter inovador, de
experimentação social e de animação territorial, tentando envolver redes sociais sub-
regionais. Esta iniciativa visa uma intervenção integrada para a inclusão ativa, por via de
abordagens locais inovadoras de desenvolvimento social, relacionando estratégias locais em
articulação com as políticas públicas de inclusão social, combate à pobreza e aumento da
empregabilidade.

A razão de ser deste desafio é a existência de vários idosos que vivem sozinhos, alguns em
contextos socioeconómicos difíceis, mas sobretudo porque vivem cada vez mais isolados e
inseguros, devido, em grande parte, às dificuldades físicas que lhes vão criando
condicionalismos diários propícios a um quadro de risco eminente. Ou seja, no fundo o
principal contributo deste projeto, em termos de desafio societal, prende-se com a saúde,
alterações demográficas e bem-estar da população idosa, tentando contribuir para que
tenham um envelhecimento ativo, autónomo e saudável.

Posto isto, neste momento, estão a ser apoiados 20 idosos, por município, que vivem sozinhos
e que manifestaram interesse em participar nesta experiência piloto, sendo que para o efeito foram instalados, em cada uma das habitações, um Sistema Dótima, permitindo que cada
idoso, de forma simples e autónoma, possa controlar e gerir automaticamente a iluminação de
casa, a entrada de pessoas, a emissão de alertas de movimentos e de temperatura excessiva,
entre outras funções específicas a cada situação.

Na realidade o objetivo central deste projeto é assegurar um sistema que lhes permite ter
maior segurança, diminuindo situações de potencial risco ou emitindo alertas quando estas
sucedam, promovendo simultaneamente a autonomia pessoal de cada um, oferecendo uma
resposta individualizada, ajudando assim a combater o isolamento social. Através desta
tecnologia, conseguimos uma abordagem integral e com uma perspetiva holística de cada um,
enquanto indivíduos únicos, reforçando a sua segurança e integridade física, favorecendo e
incentivando a sua capacidade de intervenção, promovendo a aquisição de responsabilidades
e a participação no seu processo de decisão, no que respeita à seleção das opções de
configuração da intervenção.

Outro ponto fundamental tão ou mais importante, na minha opinião, é a constituição das
famílias como parte interessada no processo, uma vez que estas são chamadas à participação,
de forma voluntária, no sentido de acompanhar, intervir e colaborar com uma rede de apoio,
entre parceiros, complementando de forma coordenada toda a intervenção. Foram criadas
condições efetivas para que a própria família possa perceber o dia-a-dia dos seus idosos,
mesmo estando afastados, permitindo-lhes inclusivamente incentivar uma vida mais ativa.

Este projeto, surge como uma solução tecnológica para uma problemática comum a
praticamente todo o nosso território, do interior de Portugal, prosseguido com o
acompanhamento de uma equipa técnica especializada, que trabalha todo o plano de
desenvolvimento individual no que respeita a competências pessoais, sociais e afetivas,
orientando e promovendo atividades que proporcionam a cada idoso, uma vida mais ativa e
socialmente mais rica.

Estes objetivos são prosseguidos e concretizados através de visitas domiciliárias, intervenção
efetuada pelos técnicos municipais, que prestam todo o apoio individualizado na resposta às
necessidades de cada um, nomeadamente no que respeita à alimentação, saúde e
desenvolvimento de atividades concretas, resultantes da concertação de um compromisso
formal entre as partes (Idoso, família e parcerias).

A titulo conclusivo e após ter tentado explicar um projeto socialmente gigante, de uma forma
simplista, acho de facto pertinente referir que, tal como salientou o Prof. Niehans “ não
podemos acrescentar anos à vida, mas podemos acrescentar vida aos anos (…) ”. E é com este
pensamento que eu, enquanto Técnica Superior de Serviço Social do Município de Murça,
tento desenvolver diariamente o meu desempenho tendo por base, não aquilo que
efetivamente temos, mas aquilo que poderemos ter se lutarmos por novas formas, novos
métodos, novas intervenções, mesmo que simples, mas que possam fazer a diferença na vida
de cada idoso.

Não me importa se são 20, 30 ou 40, aqueles que conseguem aceder a estas
intervenções, mesmo que fosse apenas 1 eu estaria feliz porque fiz a diferença…

Aida Cristina Pires Nunes
Licenciada em Serviço Social, pela Universidade de Trás os Monte e Alto Douro
Pós-Graduada em Direção e Sustentabilidade das Organizações Sociais, pela Universidade
Lusíada Vila Nova de Famalicão
Pós-Graduada em Gestão das Organizações Sociais, pela Universidade Lusíada de Vila Nova de
Famalicão
Atualmente a exercer funções de TSSS no Município de Murça

1.2.23

Covid-19: OMS mantém nível máximo de alerta

Por Lusa, in Diário das Beiras

A Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu manter o nível máximo de alerta para a pandemia de covid-19, depois de uma reunião do Comité de Emergência dos Regulamentos Internacionais de Saúde.
Embora o comité tenha reconhecido que a pandemia pode estar a aproximar-se de um ponto de viragem, decidiu que “não há dúvida” de que o coronavírus SARS-CoV-2 continuará a ser um agente patogénico permanentemente estabelecido em seres humanos e animais para o futuro e, por conseguinte, é criticamente necessária uma ação de saúde pública a longo prazo, anunciou a OMS em comunicado hoje divulgado.

“Embora a eliminação deste vírus dos reservatórios humanos e animais seja altamente improvável, a mitigação do seu impacto devastador na morbilidade e mortalidade é viável e deve continuar a ser um objetivo prioritário”, salienta a OMS.

Mercado de consumidores seniores cresce e é oportunidade para novos negócios

Helena C. Peralta, in DN

A chamada "silver economy", dos maiores de 55 anos, valerá, já em 2025, 5,7 biliões de euros na Europa. Portugal precisa de acelerar para não perder o comboio e apostar mais neste segmento de elevado potencial de crescimento. Conheça algumas empresas que foram criadas a pensar nas necessidades dos mais velhos.

Em 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou os anos compreendidos entre 2021 a 2030 como a década do envelhecimento saudável, mostrando um claro sinal de que os países deverão preparar-se para os desafios que a longevidade acarreta, como seja manter a qualidade de vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, em 2050, a população mundial com mais de 60 anos ultrapasse os dois mil milhões de pessoas e que, na Europa, mais de um terço da população estimada para essa data tenha mais de 65 anos. Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa, tendo atualmente cerca de quatro milhões de pessoas com idade igual ou superior a 55 anos. Esta é, pois, a faixa etária considerada para avaliar a chamada "silver economy", ou seja, o mercado de bens e serviços destinados a pessoas sénior.

Segundo um estudo realizado pela Technopolis Group e a Oxford Economics para a Comissão Europeia - feito em 2018, mas que continua a ser o mais recente - as estimativas apontavam para que, em 2025, este setor pese na economia, só na Europa, qualquer coisa como 5,7 biliões de euros. E grandes desafios representam boas oportunidades de negócio: novos serviços surgirão e com eles novas funções e profissões. Idosos ativos são consumidores de, para além dos tradicionais produtos, vários tipos de viagens, produtos e serviços de tecnologia para o cuidado geriátrico, novas soluções terapêuticas integradas, consultoria e requalificação de competências, entre muitos outros.

Por tudo isto, além das grandes empresas, como as farmacêuticas, que já procuram há anos soluções integradas para o mercado da longevidade, começam agora surgir inúmeras startups destinadas a esta franja da população, com negócios que ultrapassam as soluções meramente sociais, nomeadamente na transformação digital. Em Portugal existem já bons exemplos.
Ageless Portugal focada em maiores de 55 anos

Mónica Póvoas, fundadora da Ageless Portugal, foi aprofundando a consciência de que o mercado dos maiores de 55 está em crescimento e necessita de investimento direcionado. Decidiu então transformar o seu conhecimento num negócio real, criando a empresa que disponibiliza ao mercado um conjunto de serviços e produtos especializados para pessoas desta faixa etária, tendo como principal meta o envelhecimento saudável, mais ativo e mais inclusivo.

"A Ageless Portugal, enquanto agência de comunicação, marketing e eventos focada nas pessoas com 55 ou mais anos tem trabalhado em projetos que pretendem conhecer melhor este mercado e, assim, ajudar a traçar um perfil do comportamento do seu consumidor", afirma esta responsável.

A empresa define-se como promotora de mudança de comportamentos e atitudes, procurando quebrar estereótipos idadistas (envelhecimento associado a ideias negativas como doença, exclusão, etc.) e atua em áreas como a aceleração de projetos de empreendedorismo, consultoria, apoio ao investimento e apoio personalizado.

"Portugal ocupa a 8.ª posição enquanto país europeu com menor qualidade de vida para os seus idosos, ranking este liderado pela Suíça, Noruega, Suécia e Alemanha. No entanto, o país já vai tendo algumas iniciativas que demonstram preocupação com as suas necessidades", diz. Mónica Póvoas afirma ainda que as marcas estão mais conscientes de que este é um público enorme e lucrativo, e por isso estão a captar cada vez mais a sua atenção devido à sua capacidade de adaptação às novas tecnologias.

Por outro lado, refere que a população ao aproximar-se dos 50 anos deparar-se com dificuldades de crescimento profissional ou requalificação. "Nas organizações, quem abrir oportunidades de atração e retenção, assim como desenvolver novas estratégias de reskilling e upskilling continuará a contar com uma mão-de-obra produtiva, motivada e capaz de contribuir para a inovação nos negócios".
É precisamente para atuar neste nicho específico do mercado que Jorge Fonseca fundou, em 2015, em parceria com um grupo de formação, a George - Executive Advisor, consultora especializada em mudança de carreiras, sobretudo para o público que, perto dos 50 anos, enfrenta dificuldades profissionais e pretende mudar de vida

"Se há áreas em que os cabelos brancos são muitos valorizados é na consultoria, como a jurídica, por exemplo. Em outras áreas, em que a idade é menos valorizada, há que trabalhar bem o currículo, apostar no percurso da pessoa para conseguir «vender» o profissional da melhor forma, ou apoiar na sua requalificação".

Este responsável, depois de 20 anos ligado ao setor do recrutamento profissional, tem conhecimento aprofundado do mercado e sabe quais as áreas em que os candidatos seniores podem ou não apostar. Cerca de 90% dos seus clientes são particulares que procuram um realinhamento profissional, sendo que a maior parte está empregada, porém insatisfeita. "Tento direcionar os meus clientes para negócios em crescimento", explica.

Atualmente Jorge Fonseca é o único acionista da empresa, e acredita que esta é uma atividade com futuro, pois, não é fácil conseguir sem apoio, nesta fase mais madura da vida, uma viragem de carreira.
Humanamente para apoiar a mente humana

Foi também a pensar na silver economy, ainda que numa vertente mais social do que puramente económica, que Patrícia Paquete avançou, há dez anos, com a criação da empresa Humanamente. Terapeuta ocupacional, licenciada em Alcoitão, e com doutoramento na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, que incidiu no bem-estar de pessoas com demência, apercebeu-se da falta de soluções para este tipo de público. Criou assim, em parceria com duas sócias, o seu próprio emprego.

"A Humanamente surgiu porque conhecia bem o mercado e tinha consciência de que havia um problema que não estava a ter resposta social", afirma a responsável da empresa que, em 2014, recebeu um prémio de empreendedorismo. Constituída com fundos próprios, materializa-se através de um site no qual é possível adquirir serviços e produtos que apoiam o idoso, sobretudo numa fase de demência. Na loja virtual o cliente, o próprio ou o cuidador, pode comprar e-books com jogos e passatempos, puzzles e jogos para estímulo mental e sensorial.

Por outro lado, as instituições, como lares, residências e outras, podem ainda comprar os serviços associados, como a formação mais especifica para este público.
"O que nos diferencia no mercado é que ajudamos a combater o idadismo. O meu objetivo é mudar mentalidades, mudar a forma como se prestam cuidados a estas pessoas, promovendo o bem-estar. Aos poucos vou colocando a semente daquilo que são as boas práticas", refere Patrícia Paquete.

A formação em posto de trabalho, dada nas próprias instituições, sobretudo nas IPSS, é atualmente a maior fatia deste negócio, e curiosamente, foi em plena pandemia que registou a maior faturação, o que prova que nesta fase houve maior preocupação com os mais velhos.

Quer a Sioslife quer a Actif são duas empresas que apostam sobretudo nas novas tecnologias para apoiar o público idoso. A Sioslife, fundada por Jorge Oliveira, CEO, e Fábio Macedo, ambos engenheiros informáticos, chegou ao mercado há cerca de oito anos, tendo começado como um projeto de investigação universitário. Oferece soluções tecnológicas para a população mais envelhecida, combatendo a solidão e a falta de socialização.

"Começámos por visitar instituições e percebemos que havia entre os mais velhos um sentimento de exclusão social. Assim decidimos desenvolver sistemas interativos user-friendly, materializados em computadores para lares e centros de dia, com hardware e software adaptados, focados em interfaces naturais", explica Jorge Oliveira.

Atualmente, a Sioslife, além de facilitar a comunicação e a socialização, tem ainda uma vertente de saúde mental, com estimulação cognitiva, musicoterapia, e uma vertente de saúde física, com sensor de movimentos.

A Sioslife disponibiliza dois tipos de tablets, um mais direcionado para instituições de acolhimento e outro mais direcionado para casa, e ainda ferramentas de apoio de backoffice, quer através de aplicações móveis, destinadas quer aos cuidadores formais quer aos informais, para fazer toda a gestão do dia a dia.

O modelo de negócio passa por parcerias com entidades que prestam serviços de apoio, e já está presente em cerca de 500 instituições, alcançando cerca de cinco mil utentes. O próximo passo para a Sioslife, que está prestes a recolher uma nova ronda de investimento, é acelerar a sua internacionalização, sendo que já está presente em mais de uma dezena de instituições em Espanha.
Atividade física precisa-se

"A Actif surgiu pela necessidade de colocar as pessoas mais velhas a fazer mais exercício. Identificámos inúmeras lacunas nos lares e centros de dia que não têm capacidade de implementar estimulação suficiente, bem como nas pessoas que estão em casa", explica Sara Gonçalves, CEO e cofundadora. A ideia da startup surgiu em 2020, em plena pandemia, e consiste numa plataforma web, que tem vídeos de atividades físicas e cognitivas, que se dividem em várias áreas, como ioga, tai-chi, fitness, estimulação cognitiva, entre outras. Esta plataforma é compatível com vários equipamentos, seja o smartphone, o tablet, a smart TV, ou qualquer outro com acesso à internet.

"Recolhemos dados clínicos das pessoas e os seus interesses para assim podermos sugerir um plano semanal que vá de encontro ao que o utilizador necessita", explica Sara Gonçalves.

A empresa, que já tem uma equipa de dez pessoas, está incubada na Casa do Impacto e vai receber brevemente uma ronda de investimento. A Actif tem entre os seus clientes o grupo José de Mello e a Misericórdia do Porto e pretende chegar brevemente a 50 instituições nacionais. Além disso, está também a iniciar os primeiros contactos internacionais.

Apesar de não estar ainda em comercialização para a comunidade em geral, a plataforma está aberta a quem quiser experimentar de forma gratuita, que passará depois a um modelo de subscrição, como já tem, aliás, para as instituições. "Costumamos dizer que somos uma espécie Netflix saudável", brinca a responsável.

21.7.22

Uma parte significativa dos 169 milhões de trabalhadores migrantes está envolvida em “trabalhos sujos, perigosos e exigentes”, alerta a OMS

in Expresso

Refugiados e migrantes compõem cerca de um oitavo da população mundial - cerca de mil milhões de pessoas - e "são muitas vezes os membros mais vulneráveis e esquecidos das suas sociedades", salientou o diretor-geral da OMS, no lançamento hoje do primeiro relatório da organização sobre esta matéria


Milhões de refugiados e migrantes correm maior risco de ter pior saúde do que as comunidades de acolhimento, alerta um novo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), que apela aos sistemas de saúde para integrarem estes grupos.

Refugiados e migrantes compõem cerca de um oitavo da população mundial - cerca de mil milhões de pessoas - e "são muitas vezes os membros mais vulneráveis e esquecidos das suas sociedades", salientou o diretor-geral da OMS, no lançamento hoje do primeiro relatório da organização sobre esta matéria.

O documento sobre as condições de saúde de refugiados e migrantes "mostra a necessidade urgente de abordar as causas dos problemas de saúde (nestes grupos) e de reorientar radicalmente os sistemas de saúde para responder a um mundo cada vez mais móvel", acrescentou Tedros Adhanom Ghebreyesus.

O relatório sublinha que, embora os refugiados e os migrantes sejam mais vulneráveis, não são grupos inerentemente "menos saudáveis" do que os das populações que os acolhem: são as circunstâncias como os rendimentos mais baixos, os problemas de habitação, as barreiras culturais ou linguísticas que os colocam em maior risco.

Neste sentido, os trabalhadores migrantes tendem a utilizar os sistemas de saúde menos do que as populações locais, e estão em maior risco de sofrer acidentes de trabalho, de acordo com o estudo, segundo o qual uma boa parte deste grupo está empregada em condições pouco saudáveis, de risco e de maior exigência.

Os dados mostraram que uma parte significativa dos 169 milhões de trabalhadores migrantes em todo o mundo está envolvida em “trabalhos sujos, perigosos e exigentes” e correm maior risco de acidentes de trabalho, lesões e problemas de saúde relacionados ao trabalho do que seus colegas não migrantes.

O relatório inclui dados gerais sobre a saúde destes grupos e, neste sentido, indica que as estatísticas relativas aos refugiados e migrantes estão muito fragmentadas, para além de serem difíceis de comparar entre países e anos, razão pela qual a OMS também exige uma recolha mais sistemática de informação a nível nacional.

"A saúde não começa nem termina numa fronteira, pelo que o estatuto dos migrantes não deve ser um fator de discriminação, mas um motor político para a construção da saúde, proteção social e financeira", apelou Santino Severoni, diretor do programa de saúde e migração da OMS.

15.6.22

Workshop “EmocionalMENTE – Gestão Emocional Para Uma Vida Saudável” na Guarda

in Mais Beiras

Vivemos tempos conturbados e desafiantes, as palavras pandemia e guerra fazem parte do nosso dia a dia e os efeitos socioeconómicos desta realidade são notórios, afetando muitas famílias. A OMS – Organização Mundial da Saúde publicou recentemente relatórios que evidenciam os efeitos do degradamento da saúde mental que tomou conta da população mundial. Neste cenário de exaustão emocional, assistimos ao aumento da incidência de doenças cardiovasculares, fadiga, insónia, tensão nervosa, hipertensão, ansiedade e depressão.

Para ajudá-lo(la) a compreender e gerir as suas emoções, pensamentos e comportamentos, a organização convida-o a participar no workshop “EmocionalMENTE – Gestão Emocional para uma Vida Saudável”, a realizar no dia 25 de junho, das 10h às 13h e das 15h às 18h, no Auditório da Junta de Freguesia da Guarda, na Estação.

Este workshop é organizado e dinamizado por duas especialistas em Coaching Motivacional, Nélia Carrilho (Professora, Especialista em Inteligência Emocional e Coaching Motivacional) e Susana Sérgio (Psicóloga, Neurocoach & Master Coach), e conta com o apoio do Centro Local de Aprendizagem (CLA) da Universidade Aberta (UAb) do Sabugal.

Ao longo do dia, irão identificar e regular os estados emocionais que o(a) estão a afetar negativamente e aprender a gerar estados emocionais desejados, tanto em contexto pessoal como profissional. No final do workshop, deverá ser capaz de reconhecer e gerir as suas emoções, regular o seu humor e comunicar mais eficazmente consigo mesmo e com os outros.

As inscrições, com vagas limitadas, têm o valor de 25 euros por pessoa ou de 20 euros para inscrições de grupo (3 ou mais pessoas), e devem ser formalizadas, de preferência até dia 23 de junho, em: https://forms.gle/Ze8x5xr8d9Gyc8uX8

O preço inclui coffee-break, brochura e certificado de participação.

6.5.22

Alternativa a envelhecer não é morrer, é envelhecer bem, com direitos de cidadania

Ana Carrilho, in RR

Movimento Ibero-americano Stop Idadismo quer lançar o Selo Anti-idadismo: “uma distinção a atribuir a entidades públicas ou privadas que tenham práticas e linguagens que ajudem a construir uma comunidade amiga de todas as idades”.

O Movimento Ibero-americano Stop Idadismo nasceu há um ano (30 de abril de 2021) com um propósito: combater a discriminação em função da idade. É o terceiro preconceito mais grave, depois do racismo e do sexismo. Atinge todas idades, mas incide particularmente sobre os mais velhos, vistos por muitos como “um peso” para a sociedade. E sente-se, também, no mercado de trabalho.

José Carreira, a oessoa que coordena em Portugal o movimento liderado pelo médico e gerontólogo brasileiro Alexandre Kalache, considera que o balanço deste primeiro ano é muito positivo, especialmente tendo em conta os poucos recursos existentes.

“Conseguimos pôr o tema na ordem do dia, mas ainda há muito, muito trabalho a fazer, em Portugal e noutros países”. Passa também pela educação - na escola, a começar pelos mais pequenos - e pela formação, de líderes. Que não vejam os trabalhadores mais velhos como pessoas “a descartar”, mas como pessoas que, com a sua experiência, contribuem para o crescimento das organizações. São os próximos passos a dar.

O aniversário é assinalado esta quarta-feira na Casa do Povo de Santa Bárbara, na Ilha Terceira, Açores. “A primeira entidade que contactou o movimento para uma parceria e que mensalmente, organiza uma atividade de combate ao idadismo. Por isso, temos todo o gosto em celebrar com eles”, justifica José Carreira.

Velhice não é doença: uma vitória na OMS

A Organização Mundial de Saúde lançou o ano passado a “Década do Envelhecimento Ativo e Saudável 2021-2030. Estimula os países e as organizações a trabalhar pedagogicamente para desconstruir este preconceito em função da idade (idadismo), privilegiando ações educativas e intergeracionais.

“Por isso, ficámos estupefatos quando percebemos que a OMS queria incluir a “velhice” na lista internacional de doenças”, confessa José Carreira, em entrevista à Renascença.

Desde 2015 que havia uma tentativa para definir a velhice como doença. No seguimento do processo burocrático, em 2018, foi inicialmente incluída na lista internacional como código de extensão. E em maio de 2019, a classificação foi aprovada na 72ª Assembleia Mundial da Saúde. A classificação deveria ter entrado em vigor no da 1 de janeiro.

A contradição da OMS era manifesta e um pouco por todo o mundo, a sociedade civil manifestou-se contra e iniciou o movimento “Velhice não é Doença”, liderado pelo médico, gerontólogo e criador do conceito de envelhecimento ativo, Alexandre Kalache.

O movimento acabou por vencer e a Organização Mundial da Saúde retirou a velhice da lista de doenças. “Foi o resultado de uma grande pressão e movimentação da sociedade civil e temos muito orgulho de ter integrado esse movimento”, diz José Carreira. “Foi claramente um marco neste primeiro ano do Movimento Stop Idadismo”.
A partir de uma certa idade, as pessoas são invisíveis

Apesar das conquistas deste primeiro ano de atividade, o líder português do Movimento Stop Idadismo admite que ainda há muito trabalho a fazer. Considera que foi uma espécie de “ano zero” porque ainda há uma grande falta de consciência para esta questão na sociedade portuguesa. “Por via do estigma, a partir de uma certa idade, as pessoas tornam-se invisíveis. A sociedade, em geral, não tem a noção de como contribui para que as pessoas mais velhas ainda se isolem mais”.

José Carreira frisa que os nossos “mais velhos” continuam a ser desvalorizados. Lamentavelmente, a partir de uma certa idade, é como se estas pessoas fossem um peso para a sociedade. Ainda não conseguimos fazer ver às pessoas que envelhecer é bom. Morrer não é a única alternativa a envelhecer. O que temos é de envelhecer bem, com qualidade de vida e na posse dos nossos direitos de cidadania. Para o fazermos, temos nós próprios estar conscientes do nosso envelhecimento, lidar com ele o melhor possível e perceber que os outros também envelhecem”.

José Carreira diz que a pandemia “escancarou a velhofobia”: as pessoas têm medo de envelhecer e também não veem as pessoas mais velhas com bons olhos. Às vezes, isso acontece inconscientemente, o preconceito é aprendido desde tenra idade. Quantas vezes não dissemos já “estás bem, nem pareces ter a idade que tens?"

Por outro lado, há uma tendência para ter um olhar paternalista em relação a estas pessoas. “Ainda hoje, quando as restrições sanitárias já foram aliviadas, há idosos que continuam proibidos de sair dos lares, com o objetivo de os proteger de contágios. Decidimos o que é melhor para elas. Não pode ser”, diz o coordenador do Stop Idadismo.

Para José Carreira é claro que a pessoa mais velha tem que ser protagonista da sua vida, capaz de decidir e continuar a ser cidadã ou cidadão de pleno direito. “Muitas vezes isso deixa de acontecer porque os próprios (mais velhos) sentem - porque a comunidade também os empurra para esse pensamento, para esse isolamento não desejado – que já não são úteis e permitem que outros lhes vão retirando direitos. É isso que temos de combater”.
É preciso combater o descarte de trabalhadores mais velhos

O mercado laboral é uma das áreas em que se sente muito o idadismo. “Muitos trabalhadores, atingindo uma determinada idade são por vezes ‘descartadas’ – uso a palavra porque é isso mesmo que acontece. Sem uma avaliação séria e credível, como por um passo de mágica, passam a ser olhados como improdutivos, incapazes, inúteis para a organização. Sabemos que não é assim”.

É por isso que uma das apostas para o novo ano de trabalhos do Movimento Stop Idadismo é a Formação de Líderes: de entidades publicas e privadas; nacionais e internacionais. José Carreira diz que o objetivo é “lançar a semente e agitar as águas” de quem lidera as organizações, fazendo passar a mensagem de que é importante tirar partido da intergeracionalidade que existe nas empresas ou organizações. E explicar porque é importante contratar pessoas com mais idade: continuam a ser criativas, têm mais experiência, são válidas. “Como sabemos, alguém que fica sem emprego depois dos 50, tem muita dificuldade em voltar ao mercado de trabalho. Num país que envelhece tão rapidamente, que é dos mais envelhecidos do mundo, temos que ajudar a preparar as empresas para gerar equilíbrios intergeracionais”.

Combate ao preconceito começa na escola

Entre as ações pedagógicas desenvolvidas no último ano, o Movimento Stop Idadismo criou um calendário, distribuído pelas escolas para os alunos do 1º ciclo, com a família “dos 8 aos 80, que é cada vez mais dos 8 aos 108, felizmente”. O objetivo é desconstruir o preconceito em função da idade. O passo seguinte é o lançamento de um livro infanto-juvenil para crianças a partir dos 6 anos.

O foco neste ano inicial foram os mais velhos, mas o idadismo também se reflete nos mais novos, por exemplo, no acesso a um posto de trabalho ou a cargo político. “Lembro-me que nas últimas eleições autárquicas, um jovem de 18 anos concorreu à presidência de uma Junta de Freguesia e foi censurado, olhado com desconfiança sobre o que com aquela idade, poderia propor”. Por isso, no 2º semestre vamos lançar outras iniciativas que promovam o encontro de gerações e comunidades para todas as idades. Para que ninguém seja discriminado com base no critério idade”, explica José Carreira.

Além disso, o Movimento quer lançar o Selo Anti-idadismo: “uma distinção a atribuir a entidades públicas ou privadas que tenham práticas e linguagens que ajudem a construir uma comunidade amiga de todas as idades”.

4.5.22

OMS vê na vacinação e saúde digital os trunfos de Portugal

in TSF


Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, adianta que o país vai partilhar "experiências a diferentes níveis, desafios que encarou e o que aprendeu, grandes evoluções como a transição digital, o sistema de vacinação e a saúde pública e como atuou a todos os níveis".

O alargamento da saúde digital e a vacinação durante a pandemia são os principais exemplos de preparação para emergências sanitárias futuras que Portugal apresentará perante a Organização Mundial de Saúde (OMS), afirmaram esta segunda-feira responsáveis nacionais e internacionais.


"Portugal tem liderado mesmo desde antes da Covid-19", afirmou em declarações aos jornalistas a diretora-geral-assistente da OMS para o setor dos dados e análise, Samira Asma, apontando que "a cobertura de vacinação [para a Covid-19] chegou quase aos 100 por cento e não aconteceu só por causa da pandemia, há um passado de compromisso político de alto nível".

Uma equipa da OMS e de observadores internacionais está a partir de hoje em Portugal para auditar o sistema de saúde e os mecanismos de resposta à Covid-19, no que será a primeira Revisão de Preparação Sanitária Universal de um país europeu, em que o país partilhará "experiências a diferentes níveis e desafios que encarou e o que aprendeu, grandes evoluções como a transição digital, o sistema de vacinação e a saúde pública e como atuou a todos os níveis", salientou em declarações aos jornalistas o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales.

O governante participou com outros responsáveis nacionais e internacionais numa reunião no Infarmed, em Lisboa.

Samira Asma afirmou que o objetivo desta revisão é "aproximar os países, partilhar experiências e arranjar soluções" para elevar ao máximo a preparação dos países para enfrentarem ameaças sanitárias futuras, o que poderá passar por "um fundo financeiro".

"Precisamos desse tipo de recursos, não precisamos de esperar que as crises aconteçam", frisou.

Até ao fim da semana, os peritos da OMS vão recolher informação e um relatório final sobre a prontidão do sistema português será apresentado na próxima Assembleia Mundial da Saúde, que se realiza entre 22 e 28 de maio em Genebra, na Suíça.

Intervindo remotamente a partir da sede europeia da OMS, em Copenhaga, o diretor da região europeia, Hans Kluge, afirmou que a preparação dos países para o futuro requer "investimento sustentado nos serviços de saúde e na arquitetura de resposta e preparação para emergências".

O objetivo deste tipo de revisões, lançado pela OMS em novembro passado e atualmente em fase piloto, será "ajudar os estados-membros a avaliar, construir e manter as suas capacidades no longo prazo".

O subdiretor-geral da Saúde, Rui Portugal, disse aos jornalistas que nas conclusões da avaliação deverá estar "o reforço da saúde digital, uma rede estável de saúde pública, que é uma rede protetora, e garantia de recurso para essa rede poder funcionar".

A vigilância de insetos como carraças e mosquitos, que são vetores de transmissão de doenças contagiosas, a aplicação do regulamento sanitário internacional e a vigilância de fronteiras são outras condições para a preparação, indicou.

"Este exercício pondera sobre as grandes aprendizagens [da pandemia], sobre as carências, os desafios futuros, a partilha e o debate e reflexão de ideias, e acima de tudo preparar as nossas populações", resumiu Lacerda Sales.

3.9.21

Demência vai mais que duplicar em 30 anos e já é sétima causa de morte no mundo

in RR

Estimativas são da Organização Mundial de Saúde. Com mais de 14 milhões, Europa é atualmente a segunda região do mundo com maior número de pessoas com demência.

A demência, a sétima causa de morte no mundo em 2019, afeta 55 milhões de pessoas, um número que deve aumentar para os 139 milhões em 2050, alertou esta quinta-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Apenas um quarto dos países de todo o mundo tem uma política, uma estratégia ou um plano nacional para apoiar as pessoas com demência e as suas famílias”, salienta o relatório da OMS que analisa resposta global de saúde pública à demência hoje divulgado.

Segundo a organização com sede em Genebra, apesar de cerca de metade destes países se situar na Europa, muitos planos e estratégias nacionais para a demência necessitam de ser atualizados e renovados por parte dos respetivos governos europeus.

A demência é uma síndrome geralmente de natureza crónica ou progressiva, que leva à deterioração da função cognitiva - a capacidade de processar o pensamento - para além do esperado em circunstâncias normais de envelhecimento.

Resultante de lesões ou de doenças que afetam o cérebro, como a Alzheimer, esta condição afeta a memória, o pensamento, a orientação, a compreensão, a capacidade de aprendizagem e a linguagem, entre outras funções.

Segundo o relatório da OMS, o número de pessoas com demência está a crescer em todo o mundo, estimando-se que atualmente 55 milhões de pessoas com mais de 65 anos sofram desta síndrome, valor que deve aumentar para os 78 milhões em 2030 e para os 139 milhões em 2050.

Com mais de 14 milhões, Europa é a segunda região do mundo com maior número de pessoas com demência, atrás da região do Pacífico Ocidental (20,1 milhões).

“O crescimento populacional e a maior longevidade, combinados com o aumento de certos fatores de risco de demência, levaram a um crescimento dramático no número de mortes causadas por demência nos últimos 20 anos. Em 2019, 1,6 milhão de mortes ocorreram em todo o mundo devido à demência, tornando-se a sétima causa de morte”, sublinha o documento.

O relatório alerta ainda que as pessoas com doenças neurológicas, incluindo demência, são mais vulneráveis à infeção pelo vírus SARS-CoV-2, correndo maior risco de internamentos prolongados e de sofrerem uma forma agravada de covid-19 e de morte.

De acordo com a OMS, é assim urgente reforçar o apoio a nível nacional, tanto às pessoas com demência, ao nível dos cuidados primários e especializados de saúde, de serviços sociais, de reabilitação e de cuidados a longo prazo e paliativos, mas também no apoio aos seus cuidadores formais e informais.

“Em países de rendimento médio e baixo, a maioria dos custos do tratamento da demência são atribuíveis aos cuidados informais (65%). Em países mais ricos, os custos informais e de assistência social chegam a aproximadamente 40% cada um”, refere o relatório.

Em 2019, os cuidadores, na sua maioria membros da família, gastavam em média cinco horas por dia no apoio às pessoas de quem cuidavam com demência, sendo cerca de 70% desse acompanhamento realizado por mulheres.

“Dada a pressão financeira, social e psicológica enfrentada pelos cuidadores, o acesso à informação, formação e serviços, bem como o apoio social e financeiro, é particularmente importante. Atualmente, 75% dos países relatam que oferecem algum nível de apoio aos cuidadores, embora, novamente, estes sejam principalmente países de alto rendimento”, indica.

De acordo com a OMS, uma série de ensaios clínicos mal sucedidos para o tratamento da demência e os elevados custos de pesquisa e desenvolvimento levaram ao “declínio do interesse em desenvolver novos esforços” científicos nesta matéria.

“No entanto, houve um aumento recente no financiamento de pesquisas sobre demência, principalmente em países de alto rendimento, como o Canadá, o Reino Unido e os Estados Unidos da América. Este último aumentou seu investimento anual na pesquisa da doença de Alzheimer de 631 milhões de dólares (cerca de 532 milhões de euros) em 2015 para uma estimativa de 2,8 mil milhões (cerca de 2,3 mil milhões de euros) em 2020”, adiantou a organização.

Este relatório sobre a situação global da doença faz um balanço do progresso feito para atingir as metas globais de 2025 estabelecidas no Plano de Ação Global para a Demência da OMS, publicado em 2017.

9.2.21

OCDE: Acesso a vacinas covid-19 para países pobres continua largamente subfinancia

in Negócios on-line

Uma das principais iniciativas multilaterais para acesso a equipamentos, diagnósticos e vacinas, regista uma lacuna de financiamento de 27,2 mil milhões de dólares (22,5 mil milhões de euros) em 2021.

Um ano após o primeiro caso do novo coronavírus, os esforços para acelerar a resposta à pandemia, incluindo acesso às vacinas pelos países pobres, continuam largamente subfinanciados com um défice global que atinge 27,2 mil milhões de dólares.

A conclusão consta de um relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económicos (OCDE), que analisa os obstáculos que os países pobres enfrentam no acesso a vacinas, apresentado hoje publicamente.

De acordo com o documento, o Access to Covid Tools (ACT) Accelerator, uma das principais iniciativas multilaterais para acesso a equipamentos, diagnósticos e vacinas, regista uma lacuna de financiamento de 27,2 mil milhões de dólares (22,5 mil milhões de euros) em 2021.

Só metade das SMS para vacinação tiveram resposta positivaAlém das falhas de financiamento para tratamentos (-2,7 mil milhões de dólares) e diagnósticos (-8,9 mil milhões de dólares), é na componente de acesso às vacinas, através do mecanismo Covax, que a lacuna mais se reflete nos países pobres.

Globalmente as iniciativas de compra de vacinas registam um défice de financiamento de 7,8 mil milhões de dólares (6,4 mil milhões de euros), sendo 5 mil milhões de dólares apenas relativos ao subfinanciamento à Covax.

Uma lacuna que se reflete exclusivamente nos 92 países de médio e baixo rendimento que aderiram a este mecanismo liderado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Aliança Global para as Vacinas (Gavi).

Na sua intervenção durante a apresentação do relatório, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, lamentou que a plataforma Covax esteja "tão pouco financiada", defendendo que uma distribuição igualitária das vacinas é o "correto tanto moral, como económica como politicamente".

No mesmo sentido, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, considerou que a vacinação equitativa em todos os países "é chave para a recuperação económica global".

O dirigente da OMS recordou que 75% das doses de vacinas para a covid-19 foram compradas por apenas 10 países.

"Não é justo que haja países a vacinar jovens saudáveis, enquanto outros de médios e baixos rendimentos nem sequer conseguem vacinar os trabalhadores da saúde", disse.

De acordo com a OMS, 130 países que acolhem conjuntamente uma população de 2,5 mil milhões de pessoas, não têm uma única dose das vacinas.

As vacinas BioNTech/Pfizer, Moderna e AstraZeneca/Oxford estão a ser aplicadas maioritariamente nos países ricos, numa altura em que os antivirais da China (Sinopharm) e da Rússia (Sputnik V) começam também a ganhar terreno.

O diretor-geral da Gavi, Seth Berkley, estimou que dos 2,3 mil milhões de vacinas que a Covax irá entregar este ano, pelo menos 1,6 mil milhões serão para as populações dos 92 países de menores rendimentos.

"Estamos a trabalhar para reforçar o sistema de entrega ao mesmo tempo [em todos os países], mas ainda não chegámos lá. Estabelecemos um objetivo de assegurar pelo menos sete mil milhões de vacinas e temos de concluir o trabalho", afirmou.

Berkley acrescentou que a Covax ainda precisa de angariar pelo menos mais 2 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros) de financiamento até ao início do Verão e que é necessário ter vacinas diferentes para melhorar a cobertura.

Seth Berkley defendeu ainda que os países podem ajudar a acelerar o processo, garantindo que as suas doses excedentárias sejam distribuídas através da Covax.

"Gostaríamos que todos os países se comprometessem a doar [o excesso de vacinas] através da Covax porque só assim será possível garantir o princípio de equidade na distribuição", frisou.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.316.812 mortos no mundo, resultantes de mais de 106 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.