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13.9.23

Uma chamada sem tempo: o poder da escuta nas linhas de apoio de prevenção do suicídio

Inês Pinto Pereira, in Público


São as linhas de apoio que desempenham um papel importante na prevenção do suicídio, cujo dia mundial se celebra este domingo. O objectivo é “dar alguma luz à pouca que possa existir”.


“Anossa função é ouvir.” As chamadas que as linhas de apoio de prevenção do suicídio recebem podem demorar cinco minutos ou duas horas. O mais importante é garantir que quem liga se sente um pouco melhor do que no início da conversa. “É o tempo que eu quiser e que quem liga quiser”, começa por dizer Ana (nome fictício), voluntária na linha de apoio SOS Voz Amiga. Para muitos, “ter alguém do outro lado” com quem possam conversar e partilhar as preocupações é suficiente; para quem trabalha nas linhas de apoio, é gratificante, dizem Maria e Paula (nomes fictícios), voluntárias da Voades. No âmbito do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, que se celebra este domingo, Sónia Cunha, do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM, diz que é necessário estar atento aos sinais de alerta, que, na maioria das vezes, "não são grandemente visíveis".


“Sempre pensei: ‘Um dia vou fazer voluntariado.’ Até que um dia ouvi uma entrevista do presidente [da SOS Voz Amiga] e sei que me cativou”, conta Ana. Há cerca de três anos e meio decidiu candidatar-se à associação, na qual se mantém até hoje. Porque é que o faz? “Sou extremamente positiva e acho que, embora me emocione, consigo levar um bocadinho de leveza para o outro lado. Faz-me sentido.”


Paula juntou-se à equipa da Voades, outra linha de apoio de prevenção do suicídio, quando também estava a passar por uma fase “mais complicada”. “Se alguém liga é porque está em aflição. Só o facto de eu atender a pessoa e tentar escutá-la e apoiá-la” pode ajudar. E isso é “uma satisfação enorme”, explica. Em 2019, Maria tornou-se também voluntária na Voades, referindo que o que mais a motiva neste tipo de voluntariado é o facto de conseguir manter uma relação próxima com as pessoas. É “gratificante” e há um verdadeiro sentimento de missão concluída, diz.

Quando recebem um telefonema, as voluntárias não sabem quem está do outro lado ou quais as razões que levaram aquela pessoa a recorrer à linha de apoio. O objectivo é ir sempre procurando pequenos pontos que as ajudem a perceber o que preocupa a pessoa e como é que isso a faz sentir. É através desta abordagem que conseguem perceber que existem “pessoas que não saem de casa, que a higiene de casa não existe”, que não têm ninguém de confiança, entre outras coisas.


As chamadas não têm um tempo limitado. “É como se alguém quisesse partilhar uma conversa com um amigo, com o qual pode não se sentir à vontade, e liga [para a linha], explica Ana.


Na sua maioria, as chamadas são sobre “solidão na terceira idade e na juventude”, sendo que a segunda desperta especial preocupação em Maria. “Quando os jovens nos falam de solidão, a expressão que utilizam muito é ‘Eu não vejo a luz ao fundo do túnel, não sirvo para nada’”, conta.

É nestes momentos, como defende Paula, que este tipo de voluntariado se revela “cada vez mais necessário”: escutá-los, tentar percebê-los, dar-lhes apoio e mostrar-lhes que “podem ter um futuro brilhante”. A voluntária considera que a ansiedade e a solidão, que afectam muitos jovens, estão relacionadas com o facto de se sentirem perdidos, “porque não têm sentido de vida, não têm emprego”. Em 2022, a Associação Voades recebeu 5500 chamadas, das quais 7% eram sobre suicídio ou tentativa de suicídio.

Ana considera que o mais importante é conseguirem “dar alguma luz à pouca que possa existir”. Mas relembra que cada conversa é uma conversa. Umas são mais leves, outras mais pesadas.
"Se eu não estou bem, não posso ajudar os outros"

As chamadas nas quais as pessoas falam sobre a possibilidade de se suicidarem ou de tentativas de suicídio são as mais pesadas. “Umas contam que já o tentaram várias vezes, outras que já lhes passou pela cabeça mas que não tentaram”, continua Ana, explicando que nem sempre é fácil convencer a outra pessoa de que tudo ficará bem dali para a frente.


A voluntária relembra – sempre sem pormenorizar os casos – uma chamada com a qual ficou em sobressalto desde o início. “Se eu vejo que alguém está desesperado, alguém que me liga a dizer que já tomou não sei quantos comprimidos e eu não sei o que está a beber, o que é que penso? Deixa-me falar o máximo de tempo possível para tentar convencer [esta pessoa] a ligar para o SNS ou perceber se tem alguém de confiança por perto”, descreve.

Maria também teve uma experiência que a marcou particularmente. O telefone tocou por volta das 21h30 e, quando atendeu, a primeira coisa que ouviu foi: “Eu não sirvo para nada, não estou cá a fazer nada.” Durante a conversa, a pessoa confessou-lhe que tinha tendências suicidas e que já o tinha tentado fazer anteriormente. Depois de uma longa conversa, Maria pediu-lhe que voltasse a ligar, mas a resposta não foi a que esperava: “Não sei se consigo ligar mais porque não sei se vivo até amanhã.” Perante esta resposta, Maria viu-se impedida de desligar sem actuar (entrar em contacto com o 112). No dia seguinte, a pessoa em questão voltou a ligar a dizer que começaria a ser acompanhada.


Os casos mais difíceis são aqueles em que o telefone se desliga e não se sabe o que acontece. Há “pessoas que dizem que [se vão suicidar] e depois, se o telefone se desliga do outro lado, ficamos a pensar no que terá acontecido”, refere Ana. Sempre que a conversa assim o proporciona, a voluntária pergunta como é que as pessoas conseguem chegar às linhas de apoio. As respostas variam entre campanhas de sensibilização, a divulgação através dos meios de comunicação social ou uma pesquisa no Google por suicídio, que remete imediatamente para linhas de apoio. Só no ano passado, a SOS Voz Amiga recebeu cerca de 9100 chamadas, e 6,7% destas envolviam ideação suicida, segundo o presidente da associação, Francisco Paulino.

Embora os voluntários destas linhas de apoio possam aprender a gerir as emoções, isso “não significa que uma pessoa não chore, não ria e que, às vezes, não partilhe a emoção” de quem liga, conta Ana. É um verdadeiro misto de emoções: um sentimento de gratificação quando a pessoa acaba a chamada a sorrir e a dizer que se sente melhor; um sentimento de impotência quando o telefone se desliga e se pensa: “O que vai ser desta pessoa agora?”


Uma chamada sem tempo: o poder da escuta nas linhas de apoio de prevenção do suicídioA preparação começa momentos antes do início do turno. “Eu saio do trabalho e entro em casa […]. Aquele momento em que estou a atender, estou descansada, estou ligada ali”, explica Ana. Depois do turno, é importante aprender a desligar. “Não é um voluntariado fácil”, diz, acrescentando que tratar da própria saúde mental é uma “forma de se precaver e de estar bem” do ponto de vista emocional para ajudar os outros.

Na associação SOS Voz Amiga, existem reuniões semanais que visam não só formar os voluntários, mas também trabalhar os sentimentos daqueles que todos os dias atendem nas linhas de apoio. Para além deste trabalho em grupo, Sónia Cunha reforça a importância de se desenvolverem estratégias individuais para fazer um "processamento individual" da situação, avaliando os sentimentos e os pensamentos.


Não desvalorizar as emoções: a pessoa deve partilhar o que sente sem "sentir que está errada"

"Não podemos evitar todos os suicídios, mas em grande parte as situações podem ser prevenidas", refere a coordenadora do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise do INEM. Sónia Cunha chama a atenção para a importância de se estar atento aos sinais de alerta que podem sugerir que algo não está bem com determinada pessoa, ressalvando, no entanto, que "muitas vezes os sinais não são grandemente visíveis". Entre eles, temos pequenas mudanças de atitude relacionadas, por exemplo, com a adopção de um discurso mais negativo, a alteração no padrão de relação com os outros e a referência à morte.

Nestes casos, a coordenadora do CAPIC considera que é importante não desvalorizar o assunto e o que a outra pessoa está a sentir. "A primeira reacção que as pessoas têm é 'não vamos pensar nisso, não digas isso'. Esse é o primeiro erro", afirma, explicando que é preciso explorar a questão e tentar perceber como é que a pessoa se sente. Em 2022, o Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise recebeu 1916 chamadas nas quais as pessoas apresentavam comportamentos suicidários.



Linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal


SOS Voz Amiga Lisboa
Das 15h30 às 00h30 213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660

Conversa Amiga Inatel
Das 15h às 22h 808 237 327 210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal Voades-Portugal
Das 16h às 22h 222 030 707

Telefone da Amizade Porto
Das 16h às 23h 228 323 535

Voz de Apoio Porto
Das 21h às 24h 225 506 070

SOS Estudante Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio
Todos os dias das 20h à 1h (excepto férias escolares) 915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)

Todas estas linhas são de duplo anonimato — garantido tanto a quem liga como a quem atende. Para encaminhamento, a linha do SNS24 (808 24 24 24) é assumida por profissionais de saúde.


Sónia Cunha considera que há a ideia errada de que "se se abordar este tema se pode incentivar ou legitimar a pessoa que está a pensar em suicídio", uma vez que conversar sobre o assunto e fazer com que a outra pessoa se sinta confortável para exteriorizar os seus sentimentos ajuda a outra pessoa a retirar "carga emocional" aos seus pensamentos. É ainda importante "permitir que a pessoa partilhe sem julgamento, sem sentir que está errada ou que não deveria falar", bem como incentivar a pessoa a mostrar as suas emoções "mais intensas".


"Quem pensa em suicídio, na maioria das vezes, não procura a morte propriamente, mas a fuga à dor, ao sofrimento que está a sentir", e por isso é que permitir que a pessoa fale sobre isso é importante, relembra. Neste sentido, quando a intenção de o fazer começa a estar muito presente, torna-se ainda mais necessário procurar ajuda junto de um profissional de saúde. No ano passado, em 510 chamadas as pessoas revelaram ter intenções suicidas, em 104 o suicídio consumou-se e em 437 houve uma tentativa de o efectuar.


Este ano, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio tem como mote "A saúde mental é um direito humano". A saúde mental é um tema ao qual se tem prestado cada vez mais atenção, sobretudo após a pandemia de covid-19, mas continua a ser, na maioria das vezes, "menos priorizada e menos valorizada". Sónia Cunha acredita que este mote pretende seguir um sentido de "valorização e de afirmação do ser humano como um todo e da saúde mental como essencial para a saúde e o bem-estar de cada um".

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]




Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 11:15 a.m.
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Labels: Associação SOS Voz Amiga, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, Saúde Mental, Suicídio

8.9.23

Linha de prevenção do suicídio disponibiliza atendimento contínuo no fim de semana

Agência Lusa, in o Observador

Jornada contínua de 48 horas na SOS Voz Amiga. Associação gostaria de poder trabalhar 24h por dia mas vive de voluntários e é "um serviço muito desgastante". Ainda assim, atende 9,000 chamadas anuais.

A SOS Voz Amiga é constituída por voluntários que diariamente atendem, entre as 15h30 e as 00h30, quem liga para esta linha (213 544 545; 912 802 669; 963 524 660) destinada a ajudar pessoas que se encontram em situações de sofrimento causadas pela solidão, ansiedade, depressão ou risco de suicídio.

Para assinalar o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio (10 de setembro), a associação vai promover “uma jornada contínua de 48 horas” como tem feito em anos anteriores, disse o presidente da SOS Voz Amiga, Francisco Paulino, contando que poder prestar ajuda 24 horas por dia a quem precisa é “um sonho antigo” da associação, que não é possível concretizar porque “vive da generosidade das pessoas”.

“Temos os nossos compromissos profissionais e também familiares e daí só conseguirmos dar esta ajuda diária entre as 15h30 e 00h30”, lamentou Francisco Paulino, adiantando que, neste momento, o serviço conta com 56 voluntários e vai iniciar uma nova formação na segunda quinzena de setembro em que entrarão mais 18 voluntários.

Apesar de o número de voluntários ser maior do que em outros anos, o responsável disse que a resposta à população “não pode ser muito maior” por se tratar de um serviço “muito desgastante a nível emocional”.

Os voluntários fazem um serviço por semana no máximo, porque precisam também de algum período de descanso para estabilizar as suas emoções, porque há chamadas muito pesadas”, disse, referindo que os voluntários se reúnem semanalmente com as técnicas de saúde mental da associação para “tentar amenizar algum desgaste, algum desconforto” decorrente das chamadas “mais complicadas”, que chegam a durar entre duas e três horas.

“Se um voluntário está duas ou três horas a atender, porque é necessário, não está disponível para mais ninguém. E nós não somos propriamente um ‘call center’, não temos os voluntários todos ao mesmo tempo porque é impossível. Portanto, nunca vamos conseguir muito mais e fazemos um esforço imenso”, comentou.

Relativamente ao número de chamadas atendidas, afirmou que nos “anos mais complicados” da Covid-19 (2020/2021) houve um aumento substancial de pedidos, que depois decresceram ligeiramente, tendo-se mantido na ordem das 9.000 chamadas.


Mas alguma coisa ficou ainda desse período [da covid-19]. Já estamos em 2023, um pouco distantes, mas o que notamos é que a ansiedade criada na maior parte das pessoas, tanto naqueles que já sofriam de problemas de saúde mental, como no resto da população, aumentou imenso e neste momento é uma das situações mais colocadas nas nossas linhas”, salientou.

O número de chamadas motivadas por depressão e doenças psíquicas mantém-se equivalente ao período antes da pandemia, disse Francisco Paulino, notando uma mudança no perfil dos utentes: agora há pessoas de todas as faixas etárias, enquanto antes eram maioritariamente mulheres com idades entre os 45 e os 55 anos.


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Para Francisco Paulino, as linhas de apoio são “um complemento do Serviço Nacional de Saúde” que “não dá para as encomendas”, porque há poucos especialistas e psicólogos.


Se nós pensarmos que a primeira consulta leva cerca de um ano a ser marcada, que as pessoas que já estão a ser acompanhadas e que precisam de acompanhamento recorrente esperam três e quatro meses entre cada consulta, ou se quiserem ir a um privado a consulta ronda os 100 euros (…) a maior parte das pessoas não pode pagar. Então o que é que resta? Existimos nós”, salientou.

Contudo, acrescentou: “Atendendo à quantidade de pessoas que estão a necessitar de apoio, nós não damos necessariamente para as encomendas e sem uma ajuda oficial, nunca vamos conseguir”.

Sobre o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, afirmou que, “apesar do estigma que a palavra suicídio ainda envolve, é muito importante falar” sobre o tema.


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Havia a ideia de que falar podia acelerar as coisas para quem tem ideação suicida, mas não. Falar é essencial, partilhar com alguém o problema que está a viver é essencial, porque nós costumamos dizer que um problema não compartilhado só tem tendência a aumentar, portanto é muito importante continuar a falar de saúde mental”, defendeu.



Segundo a Organização Mundial de Saúde, todos os anos, mais de 700.000 pessoas põem termo à vida.



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Apoio emocional e prevenção do suicídio
SOS Voz Amiga
(entre as 16 e as 24h00)
Tel.: 21 354 45 45
Tel.: 91 280 26 69
Tel.: 96 352 46 60Conversa Amiga
(das 15h e às 22)
Tel.: 808 237 327
Tel.: 210 027 159SOS Estudante
(das 20h à 01h)
Tel.: 239 48 40 20Linha LUA
(das 21h à 01h)
Tel.: 800 208 448Telefone da Esperança
(das 20h às 23h)
Tel.: 22 208 07 07Telefone da Amizade
(das 20h às 23h)
Tel.: 22 208 07 07Voz de Apoio
(das 21h às 24h)
Tel.: 22 550 60 70
  • SOS Adolescente
  • Tel.: 800 237 327
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Labels: Linha de prevenção de suicídio, SOS Voz Amiga, Suicídio

21.3.23

Há uma “desesperança” nos jovens que tentam o suicídio. E os que chegam aos consultórios são cada vez mais novos

Patrícia Carvalho, in Público

Ao contrário do que acontece noutros países, os dados em Portugal não apontam para o aumento de suicídio entre os jovens. Em 2020 houve 10, em 1991 foram 35.

As informações mais recentes sobre a saúde mental dos nossos jovens são preocupantes. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) nos diz que um em cada quatro adolescentes portugueses já se auto-lesionou e que de 2018 para 2022 a sua percepção de infelicidade subiu de 18,3% para 27,7% ou quando um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que 23% dos jovens já tiveram pensamentos ou actos suicidas, a questão é inevitável: há mais suicídios de adolescentes em Portugal? A resposta é não, mas os dados não são muitos. E há factores que não nos permitem sossegar: indícios de que são cada vez mais jovens os que pedem ajuda por terem pensamentos suicidários. E um certo sentido de “desesperança” que é referido por vários especialistas.

“Temos de voltar a criar confiança no futuro”, diz a psicóloga clínica e investigadora Margarida Gaspar de Matos, sobre os miúdos que lhe chegam ao consultório com pensamentos suicidas e que apresentam alguns sinais que a preocupam. “Já estávamos à espera, mas o que sinto é que me chegam miúdos mais novos, com 11, 12 anos, o que é muito preocupante. E outra coisa, que decorre da casuística da consulta, é que me parecem anestesiados. Não é um desespero, é uma desesperança, uma falta de se apegarem à vida, quase como se estivessem a flutuar por cima das coisas”, diz.

Inês Rothes, psicóloga e investigadora do Centro de Psicologia da Universidade do Porto, confirma que a idade parece estar a recuar, quando se fala destes problemas. “Parece, de facto, que há uma tendência para estes comportamentos se verificarem cada vez mais cedo, com outro fenómeno que se relaciona, que são os comportamentos auto-lesivos. É uma percepção que vem quase do senso comum e de algumas questões que vêm da clínica, dos colegas que atendem crianças muito pequenas. É senso comum dizer-se que a adolescência começa cada vez mais cedo, por isso não é de estranhar [esta mudança], embora não haja ainda certezas absolutas”, diz, insistindo: “É preciso termos em conta que, ainda assim, se trata de um fenómeno raro e precisamos de janelas temporais muito grandes para falar de alterações, porque senão podemos estar a falar de flutuações do acaso.”

Dados só até 2020

Em Portugal, os dados sobre suicídios entre os mais novos disponíveis no Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que ao contrário de outros países, não há um aumento de casos. Segundo o INE, entre 1991 e 2020, suicidaram-se 469 crianças e jovens portugueses, entre os 5 e os 19 anos. Desagregando por faixas etárias, seis destas mortes, a última das quais em 2014, foi de crianças entre os 5 e os 9 anos, 52 de crianças entre os 10 e os 14 anos e as restantes 411 de jovens entre os 15 e os 19 anos.

Os anos mais recentes não denotam qualquer aumento - em 2020 registaram-se 10 suicídios apenas na faixa etária mais alta, quando em 1991, o pior dos anos analisados, tinham sido 31, mais quatro na faixa etária dos 10 aos 14 anos. Os dados indicam ainda que há muitos mais rapazes do que raparigas a morrer por este meio: dos 469 casos nos 29 anos analisados pelo INE, 313 (quase 67%) eram de crianças ou jovens do sexo masculino.

Ainda assim, estes dados, garante Inês Rothes, colocam Portugal em linhas com os países desenvolvidos em que vários estudos apontam o suicídio como a 2.ª ou 3.ª causa de morte entre os adolescentes acima dos 15 anos. E Margarida Gaspar de Matos sublinha a probabilidade de “subnotificação de casos”, que também é valorizada pela OMS, tendo em conta, muitas vezes, o estigma associado a estas mortes.

Otília Queiroz, pedopsiquiatra do Centro Hospitalar Universitário de Santo António e coordenadora da área de Pedopsiquiatria na Administração Regional de Saúde do Norte, diz também desconhecer qualquer estudo que aponte para o aumento de casos de suicídio entre os jovens portugueses, e salienta a especificidade do fenómeno, quando ocorre entre os mais novos.

Linhas de apoio

SOS Voz Amiga

(entre as 16 e as 24h00)
213 544 545
912 802 669
963 524 660

Telefone da Amizade
228 323 535

Escutar - Voz de Apoio – Gaia
225 506 070

SOS Estudante
(20h00 à 1h00) 969 554 545
Actualmente o atendimento é via Zoom, com o ID: 864 9928 3163, das 22h à 1h

Vozes Amigas de Esperança
(20h00 às 23h00)
222 080 707

Centro Internet Segura
800 21 90 90

Conversa Amiga
808 237 327
210 027 159

Telefone da Esperança
222 030 707

“Os comportamentos suicidários na adolescência têm, frequentemente, um cariz impulsivo (ocorrendo em reacção a um stressor agudo) e a intenção suicida é muitas vezes ambígua ou até mesmo inexistente; são comportamentos que frequentemente traduzem a incapacidade em lidar, naquele momento e nas circunstâncias em que o adolescente se encontra, com um determinado problema ou uma situação difícil e/ou em comunicar de uma forma eficaz as suas dificuldades”, explica, numa resposta escrita enviada ao PÚBLICO.

Cristina Marques, pedopsiquiatra da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, deixa um alerta similar, também numa resposta escrita: “Na situação dos adolescentes estes comportamentos têm significado psicopatológico que não é necessariamente sobreponível ao dos adultos, podendo corresponder a situações de todos os espectros de gravidade psicopatológica e até comportamentos de imitação e contágio na ausência de uma doença mental.”

Inês Rothes sublinha que, muitas vezes nas crianças mais pequenas um suicídio pode resultar mais da “impulsividade” do que de algo planeado e Margarida Gaspar de Matos refere que nos casos que lhe chegam ao consultório há, quase sempre “uma impotência ligada à desesperança”. E que algo que para outra pessoa parece um problema insignificante, para estes miúdos se apresenta como “uma dor muito grande, algo de que não se consegue livrar”.

Sem doença mental

Não se deve, por isso, pensar que há uma doença mental associada a cada tentativa de suicídio de uma criança ou adolescente. Otília Queiroz diz que, sendo verdade que “possam ocorrer tentativas de suicídio em adolescentes portadores de doença psiquiátrica grave, essas situações são relativamente raras e na maioria das situações o que se encontra subjacente é a percepção de incapacidade de lidar com uma situação difícil ou com uma adversidade; há ainda que ter em conta que, por razões decorrentes do seu desenvolvimento neurocognitivo e emocional, os adolescentes são mais propensos a comportamentos impulsivos e têm mais dificuldades em regular os seus estados emocionais negativos, tendendo a vivenciá-los de uma forma mais extrema.”

Todas insistem, contudo, que não é possível encontrar uma razão simplista, uma causa única para uma tentativa de suicídio - há “uma constelação de factores para cada caso”, descreve Inês Rothes. É sempre uma questão complexa e que pode ser influenciada por factores culturais, geográficos ou o momento histórico que se vive.

“O pedido de ajuda é um dos principais obstáculos da saúde mental”

Chama-se Sobreviver, começou a funcionar em Junho de 2021 e pretende apoiar as pessoas “que perderam alguém para o suicídio”. Os “sobreviventes”, como são chamados pela associação e pela sua presidente, a psicóloga Sofia Santos Nunes, que também perdeu o pai desta forma.
Apesar da sua formação, explica que a Sobreviver não tem “um objectivo clínico”, mas antes dar aos familiares ou amigos de alguém que se suicidou a possibilidade de terem um espaço de partilha, onde possam falar sem medos dos tabus ou estigmas que ainda acompanham o tema. Porque, refere, “por cada suicídio, e as estatísticas são variáveis, há entre seis a 10 pessoas directamente afectadas”. “Há um antes e depois, a reestruturação de toda a personalidade, da estrutura familiar. Há toda uma mudança na estrutura e na forma como vemos a vida”, afirma, e no caso dos familiares mais próximos, o processo de luto “extremamente complexo” pode mesmo comportar características similares ao “stress pós-traumático”.

Para os que ficam há muitas vezes processos de “culpa muito pesados e complexos”. E se quem se suicidou for um menor, tudo pode ser ainda mais complicado, diz, já que os pais são muitas vezes “apontados” como alguém que “falhou”. Por isso, defende, é importante passar a mensagem de que “o suicídio é evitável”, que há sinais a que se deve estar atento e que podemos agir sobre eles, mas também que há casos em que, por mais atento que se esteja, “não vai ser possível salvar a pessoa”. “É preciso pensar naquela mãe que fez tudo, que andou com o filho nas urgências, nas consultas, e mesmo assim não resultou”, diz.

Acima de tudo, é preciso “empatia e compaixão” para quem sobrevive ao suicídio de alguém querido. E, tal como é preciso dar espaço para falar a quem está a pensar em suicídio, é preciso fazer o mesmo com quem perdeu alguém dessa forma. “A principal necessidade de quem nos chega é falarem do ente querido”, garante. O primeiro passo também pode ser difícil. “O pedido de ajuda é um dos principais obstáculos na saúde mental. Temos pessoas com 30 anos de luto, que vêm ter connosco porque há algumas coisas que não ficaram bem resolvidas, outras muito no início do processo. Ainda há um estigma muito grande em pedir ajuda”, diz.

Nos Estados Unidos, um relatório recente do Centro para o Controlo da Doença aponta para que quase uma em cada três raparigas do ensino secundário considerou o suicídio em 2021, o que representa um aumento de 60% comparando com 2011. Num artigo da Time que parte destes dados, uma psicóloga defendia que as redes sociais deveriam ser mais responsabilizadas por esta evolução, mas por cá resiste-se a diabolizar esse meio, embora se reconheça que ele é mais um factor a que é preciso estar atento, sobretudo por potenciar eventuais actos de contágio ou imitação.

Há sinais aos quais é preciso estar atento - mudanças de comportamento de sono ou na alimentação, isolamento, falta de interesse ou incapacidade para desempenhar actividades normais, por exemplo. E os comportamentos auto-lesivos podem não estar directamente relacionados com uma intenção de suicídio, mas Inês Rothes defende que não devem ser desvalorizados, porque vários estudos indicam que a 4.ª razão mais apontada pelos jovens para terem este comportamento é “para afastar pensamentos de morte, de ideação suicida”, diz.

Mas isto também não significa que o facto de haver mais casos de auto-lesão no país aponte para um aumento dos suicídios entre os mais jovens num futuro próximo. A investigadora lembra que também se acreditou que a grave crise de 2008 iria fazer aumentar o suicídio em geral e que em muitos casos isso não aconteceu - nos países com uma forte resposta social até houve uma diminuição. Aqui, uma boa resposta na área da saúde mental pode ter o mesmo efeito, sublinha.

E não são apenas as equipas médicas que devem estar envolvidas - os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO desvalorizaram, por exemplo, o encerramento dos serviços de Pedopsiquiatria à noite, que já acontecia nos hospitais de referência do Norte e Centro, e a que agora se junta o do Sul, o D. Estefânia, em Lisboa. Toda a comunidade deve e pode intervir se suspeitar que há alguma intenção suicida de alguém que conhece. Acompanhar a pessoa, falar com ela, mantê-la ocupada, e em casos mais graves, encaminhá-la para os serviços de saúde adequados. O essencial é não ignorar. “É preciso dizer-lhes que há sempre uma solução e que amanhã pode ser o melhor dia da vida deles. Que se estão confusos ou com uma dor muito grande devem falar com alguém, seja quem for. Vamos apostar no dia de amanhã. Hoje não é o teu dia, mas amanhã pode ser”, diz Margarida Gaspar de Matos.

Otília Queiroz sintetiza: “O mais importante é abrir uma via de comunicação com a criança/adolescente, que lhe permita expressar as suas preocupações e sentimentos, ou seja, tentar perceber o que é que naquele momento se está a passar na sua vida que é causa de sofrimento ou mal-estar, e de que forma se está a sentir. A partir da identificação do problema poderá, então, ser possível trabalhar na resolução do mesmo, articulando sempre com os seus cuidadores e responsáveis legais."
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 4:36 p.m.
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Labels: Dados do INE, Jovens-Saúde mental, OMS, Portugal, Suicídio

15.9.21

Em Portugal, suicidam-se três pessoas por dia. Vamos falar sobre isso?

Rui Frias, in DN

O problema é demasiado grave para continuar a ser vivido em silêncio. Ordem dos Psicólogos lança documento com orientações que vão da prevenção ao pós-suicídio

Os números são tão violentos quanto a dor. Todos os dias, há em média três pessoas em Portugal que resolvem por termo à vida. No mundo, o rácio sobe para um suicídio a cada 40 segundos (800 mil/ano). Entre os jovens dos 15-34 anos, essa é mesmo a segunda maior causa de morte. E o número de suicídios tentados é 25 vezes superior ao daqueles com desfecho fatal.

O problema é demasiado grave para continuar a ser vivido em silêncio. E, por isso, a Ordem dos Psicólogos Portugueses resolveu assinalar o Dia Mundial Para a Prevenção do Suicídio, que hoje se assinala, com o lançamento do documento "Vamos Falar sobre o Suicídio", uma espécie de guia útil com orientações que vão desde a prevenção até às melhores formas de lidar com o pós-suicídio ou tentativa.

"O suicídio e as tentativas de suicídio resultam e são sinais de grande sofrimento emocional e representam um desafio de Saúde Pública em todo o Mundo, com impactos nas pessoas, mas também nas suas famílias, na sua comunidade e na sociedade", refere a Ordem dos Psicólogos.

"Os motivos que levam alguém a tentar suicidar-sese podem ser muitos e complexos, e afetam pessoas de todas as idades e em qualquer momento do ciclo de vida", nota a Ordem dos Psicólogos, avançando que entre as principais causas que motivam as pessoas a porem termo à vida estão "problemas de saúde psicológica, nomeadamente depressão, perturbação bipolar ou consumo excessivo de álcool".

O documento debruça-se ainda sobre os fatores de risco, que aumentam a probabilidade de alguém considerar suicídio, entre os quais as tentativas prévias de suicídio, histórico de problemas de Saúde Psicológica, histórico de abuso físico ou sexual, histórico familiar de problemas de Saúde Psicológica e de suicídio, existência de uma doença grave, incapacitante ou dor crónica, acontecimentos traumáticos recentes na vida pessoal (desde acidentes a divórcios, mortes de pessoas próximas ou perda de emprego), situações de vulnerabilidade como pobreza, desemprego, perdas financeiras, guerras, desastres naturais, discriminação e exclusão social, bullying e ciberbullying, conflitos em torno da identidade sexual, bem como situações de falta de apoio social e sentimentos de solidão.

A estes fatores, a Ordem dos Psicólogos contrapõe outros que podem promover a proteção de pessoas em situação vulnerável, salientando a importância do "acesso a cuidados de Saúde Psicológica", e uma "rede de apoio social e conexões fortes com familiares, amigos e restante comunidade". "As relações que estabelecemos com os outros podem ajudar-nos a viver mais e mais felizes", acrescenta.

O documento que será lançado hoje engloba ainda uma secção dedicada a desmontar, com factos, alguns mitos em torno do suicídio e deixa dicas úteis sobre como agir em diversas situações relacionadas com vivências suicidárias, próprias ou de terceiros, bem como sinais de alerta para identificar situações de emergência.

A Ordem dos Psicólogos sublinha ainda a recomendação mais importante nestas situações: "Procurar ajuda". Seja de um familiar, de um amigo, de um psicólogo, ou, em caso de emergência, recorrendo às linhas telefónicas 112 (INEM) ou 808 24 24 24 (acompanhamento psicológico da Linha SNS24).

Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 9:54 a.m.
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Labels: Portugal, Suicídio

12.2.21

Faltou acompanhamento psicológico a homem que ameaçou mulher. Matou-a no trabalho

Sara Xavier Nunes, in Público on-line

Uma mulher foi assassinada pelo ex-companheiro depois de oito anos a viverem juntos, ainda que divorciados. Era vítima de violência doméstica. O sistema falhou e não separou agressor da vítima.
Sara Xavier Nunes11 de Fevereiro de 2021, 19:55

Durante anos, Joana (nome fictício) teve de conviver com o seu agressor, dentro da sua própria casa. Durante 12 dias, o ex-companheiro foi dado como desaparecido. Suspeitou-se de tentativa de suicídio. Quando voltou a aparecer, não recebeu tratamento psicológico. Mais tarde, matou Joana, suicidando-se de seguida.

O caso de Joana, com 40 anos, e do ex-marido foi estudado pela Equipa de Análise Retrospectiva de Homicídio em Violência Doméstica (EARHVD), que investigou o que poderia ter sido feito enquanto Joana estava viva e o que falhou na sua protecção. Publicado esta quinta-feira, o relatório refere que o sistema de apoio psicológico falhou e que poderia ter-se evitado a morte de mais uma mulher vítima de violência doméstica.

Mesmo depois do divórcio, que deveria ter colocado fim a uma relação “conflituosa”, Joana viu-se obrigada a viver e a conviver, dentro de casa, durante oito anos, com o ex-marido.

Durante aqueles anos, houve um período em que Joana esteve sozinha, sem o agressor por perto. O ex-marido desapareceu temporariamente, tendo enviado mensagens a pessoas próximas que “foram entendidas como uma ‘forma de despedida’, receando-se então que pudesse ‘atentar contra a sua própria vida’”, lê-se no relatório. Apareceu 12 dias depois, cancelaram-se as buscas e tudo voltou ao que era antes. É aqui que o relatório aponta a primeira falha: “Não foi efectuada qualquer sinalização desta situação, e por parte da unidade que lhe prestava cuidados de saúde não foi referido nenhum acompanhamento ou encaminhamento no âmbito da saúde mental”. Conclui a EARHVD: o agressor poderia ter sido acompanhado psicologicamente e afastado da vítima.

Sabendo do caso de Joana, a unidade de cuidados de saúde que acompanhava o agressor deveria “ter exigido uma intervenção de saúde mental, tendo em vista a prevenção do acto e o tratamento das suas causas”.

Em situações como esta, em que duas pessoas continuam a conviver depois de um processo de divórcio, existe uma tendência para se construir “uma tensão gradual, mesmo que de baixa intensidade”, que, “contudo, pode agravar-se drasticamente no momento em que, por exemplo, uma delas pretende iniciar, ou estabelecer, uma nova relação”. O que aconteceu com Joana. Durante aqueles oito anos, houve “indícios de persistente tensão, mal-estar e sofrimento psicológico em que o risco da ocorrência de manifestações de violência física está sempre presente”, explica o relatório, “sem que haja conhecimento de ter havido ou de ter sido procurada qualquer intervenção que os auxiliasse a ultrapassar essa situação”.

Dias antes do homicídio de Joana, o ex-marido ameaçou-a de morte, através de um telefonema. Apesar de ter conhecimento da ameaça, a entidade patronal de Joana nada fez pela sua protecção. “Existindo informação sobre o risco de violência, por maioria de razão sobre a existência de ameaça de morte, devem as entidades patronais tomar as providências necessárias para garantir a segurança de quem trabalha ao seu serviço”, escreve a Equipa de Análise Retrospectiva de Homicídio em Violência Doméstica.

Este conjunto de episódios culminou no fatídico homicídio de Joana seguido do suicídio do seu ex-marido. “O homem escolheu, para cometer o crime e a seguir se suicidar, o local de trabalho da mulher.”
32% dos homicidas acabam por se suicidar

Segundo o relatório da EARHVD, os casos em que um homicida se suicida são mais frequentes quando existe uma relação íntima com a vítima, como era o caso de Joana. “Os dados estatísticos mais recentes confirmam-no e evidenciam a relevância do homicídio seguido de suicídio nas relações de intimidade em Portugal. Nos anos de 2014 a 2019, em 41 dos 87 casos investigados pela PJ (32%) o homicida (do sexo masculino em todos os casos) suicidou-se de seguida”.

Este fenómeno (homicídio seguido de suicídio), “cometido predominantemente por pessoas do sexo masculino, acontece maioritariamente no contexto de relações de intimidade, frequentemente num quadro de conflito, separação recente ou divórcio, sendo a grande proximidade física um factor acrescido de risco da sua ocorrência”.

O relatório critica ainda o tratamento do crime pela comunicação social. A maioria dos órgãos de informação citava a agência Lusa e as forças policiais sobre o que teria acontecido, centrando-se “na especulação”, “estando ausente a preocupação informativa sobre a problemática do homicídio, e do suicídio, bem como sobre os recursos a que as vítimas de violência doméstica podem aceder”. E faltaram as denúncias sobre as falhas do sistema.


Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 11:35 a.m.
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Labels: Crime, Morte, Suicídio, Violência doméstica, Vítimas de violência doméstica

8.2.21

Destaques Miséria, fome, prostituição, suicídios, eis a vida dos Migrantes no Baixo Alentejo

in Jornalismo Documental

A reportagem, cujos dados que a fundamentam foram recolhidos nos últimos meses, demonstrará uma realidade à qual todos fecham os olhos, as autoridades, os poderes políticos, policiais e judiciais.

Retrata a vida vergonhosa de escravidão porque passam muitos dos imigrantes que escolheram a nossa região para fazer aquilo que nós não queremos…

Trabalham de Sol a Sol, são escravizados, prostituem-se, e vivem abaixo do limiar da pobreza.
Com o surgimento da COVID – 19 tornaram-se ainda mais escravos de empresários sem escrúpulos.
Há milhares de imigrantes que não saem das herdades onde laboram e onde ganham salários miseráveis…para ler e refletir…

A nossa reportagem, porventura a mais marcante da minha existência enquanto jornalismo, pela emotividade, revolta e vergonha que senti, por ver “in loco”, seres humanos a serem tratados como “carne para canhão”, começou a ser feita há quase quatro meses.

Pelo meio, muitos “nãos” de quem tem “pavor em denunciar”, muitas verdades sonegadas e muita complacência de quem deveria ter “vergonha da sua própria sombra” por explorar de forma escrava e animalesca seres humanos como nós que apenas querem, legitimamente, uma vida diga como todos merecemos.

A verdade nua e crua não é essa.
Vamos aos factos e aos passos que demos, muitos deles com o coração nas mãos e de alma partida…
Foi no Baixo Alentejo que procuraram o Paraíso, encontraram o Inferno…

Os epicentros deste fenómeno, que na última década fez crescer exponencialmente a criminalidade associada ao tráfico de pessoas, disparou no Alentejo depois da implantação do olival intensivo e da necessidade de mão-de-obra, realidade associada a Alqueva, e estendeu-se ao Litoral Alentejano, concelho de Odemira em particular, onde as culturas de regadios adquiriram uma expressividade impressionante.

São nestes dois palcos da nossa Pátria que o medo, a vergonha e a falta de escrúpulos grassa.

Nos últimos 70 anos, o distrito de Beja, onde se situa o grosso da área regada pela grande barragem, perdeu sensivelmente metade da sua população, numa curva demográfica negativa que parece estar a estancar devido ao fluxo de trabalhadores estrangeiros indiferenciados que hoje acorre aos campos do Sul.

Onde a criminalidade associada ao tráfico de seres humanos disparou na devida proporção do recente fenómeno migratório.

Os concelhos de Beja, Ferreira do Alentejo, Aljustrel e Moura são as outras faces onde essa desumanidade impera.

Os dados que nos foram fornecidos desnudam os rostos do sofrimento. Imigraram do Senegal, da Guiné-Conacri, do Paquistão, da Índia, do Nepal, Bangladesh, Roménia, Moldávia e Brasil e Bulgária. Tudo Mão-de-obra barata.

Portugal é dos poucos países europeus onde se podem legalizar. E, é em Beja, onde ninguém quer trabalhar na agricultura, que todos os dias chegam novos rostos.
As últimas estimativas (dados concretos não os há) apontam para a existência de 28 mil imigrantes a residir no distrito, só no concelho de Beja são cerca de 10 mil.

Mão-de-obra barata, trabalhadores em situação ilegal, ganham menos do que um salário mínimo, vivem em condições precárias e não recebem benefícios sociais. Autoridades de Portugal negligenciam problema.

…Quando um sonho vira pesadelo…
Como chegaram os imigrantes ao nosso país…

Um pouco por todo o país, grupos criminosos vindos do Leste semearam a cultura de terror e subjugação. As autoridades portuguesas dizem que as técnicas e as motivações destas organizações “são inspiradas na máfia italiana”.

O fenómeno não tem paralelo na Europa. Contudo, o fenómeno das máfias de Leste perdeu efeti-vidade à medida que os imigrantes se familiarizaram com o país e, fruto disso, conseguiram fugir “as garras” destes mafiosos que lucraram milhões de euros extorquidos a quem desesperadamen-te pretendia vir trabalhar nos Campos Do Sul à procura do seu EL Dorado.

Hoje, quem vem para Portugal, para o Alentejo, vem por intermédio de amigos ou familiares que já cá estão há anos. O fenómeno das máfias não se diluiu mas não é nada comparável ao que vivenciamos e investigámos na última década, sobretudo” confidencia-nos uma das nossas fontes e colaborador nesta investigação.

Imigrantes explorados de forme infame…

“Há trabalhadores imigrantes que vivem em condições deploráveis no Alentejo, uma situação de verdadeiro “trabalho escravo” que é “uma vergonha” para o país. A denúncia é feita por um autarca em plena campanha da apanha da azeitona.
Este foi o primeiro grito de alerta, revolta e denúncia que ecoou no Alentejo e no País.
Foi o então presidente da Câmara da Vidigueira (Beja), Manuel Narra, que denunciou, através do jornal Público, que “há imigrantes estrangeiros que trabalham na apanha da azeitona e noutras colheitas sazonais, na zona do Alqueva, que vivem em espaços sobrelotados e sem as mínimas condições sanitárias”.

Manuel Narra descreveu na altura “que há, entre 80 e 100 pessoas, a viverem “dentro de uma oficina” e “outras 30 pessoas dentro de um apartamento, com homens e mulheres misturados, dispondo apenas de um chuveiro e de uma sanita”.

“É uma vergonha para o Alentejo e para Portugal a forma como continuamos a receber os trabalhadores imigrantes vindos de países pobres”, lamentou Manuel Narra ao Público. Depois deste grito de revolta o que mudou….
Por trás das situações de exploração laboral nos distritos de Portalegre e de Beja estão “grupos itinerantes de criminosos, compostos por elementos do Leste europeu mas tam-bém da Índia” que se concentram nesta altura do ano no Alentejo, devido às colheitas sazonais.

São grupos que se dedicam ao tráfico de seres humanos e ao furto de azeitona e pinha em larga escala, porque são produtos valiosos no mercado. Aparentemente, os dois cri-mes (tráfico e furto) andam relacionados. Andamos a sinalizar situações de tráfico de pessoas na operação “Campo Seguro” desde há três anos” sublinhou o major Paulo Poiares ao Jornal Público.

Na região rural do Alentejo nada funcionaria sem o trabalho dos migrantes em situação ilegal. Por um lado, os portugueses não querem mais fazer o trabalho duro nas planta-ções por salários baixos. Por outro, novas empresas não param de surgir no país.

Nos arredores do Lago Alqueva, espanhóis com grande poder financeiro estabeleceram vastas plantações de oliveiras. A maioria dos trabalhadores desses campos está em situação ilegal.

Na região de Beja, são cerca de 10 mil pessoas, muitas delas a viverem em condições desumanas, ganham em média quinhentos euros, cem dos quais são para pagar as habitações, uma fatia do magro salário é para alimentação e o que sobra, quando sobra, é para enviarem para os seus países.

Não espanta, pois, que face a esta desumanidade a criminalidade e o tráfico humano tenha crescido exponencialmente.
Ao longo deste trajeto penoso, vil e desumano, uma voz se ergueu sempre em defesa da dignidade dos imigrantes, a Associação Solidariedade Imigrante delegação de Beja (Solim).

Condições de habitabilidade…indignas
Solidariedade Imigrante denuncia “Escravatura no Alentejo”…

Opresidente da Associação Solidariedade Imigrante delegação de Beja afirma que é “fundamental que exista legislação a nível nacional que dê resposta à situação problemática destas pessoas que vivem em Portugal sem condições mínimas de habitabilidade, pois os migrantes estão a ser explorados de forma vergonhosa por senhorios sem escrúpulos”.

Alberto Matos denuncia que “há casos de dezenas de imigrantes a viverem numa única casa superlotada”, dando como exemplo um caso registado no concelho de Serpa de um grupo de “44 imigrantes que viviam numa só casa, onde, com muito boa vontade, podiam viver dez pessoas” lamentou o dirigente, referindo “que neste momento, em várias casas na freguesia de Baleizão, “passa-se fome”.
“Trabalhadores emigrantes que fizeram a campanha da azeitona, trabalhando e dando lucros aos donos da terra, que os exploraram miseravelmente, foram deixados ao abandono”.

“Nós encontrámos, na semana passada, pessoas com fome. Um dos estabelecimentos que vende alimentação dizia que [os trabalhadores emigrantes] durante o período normal ainda fazem compras, mas nos últimos dias só compravam uma couve, de vez em quando, uma cenoura ou uma batata”, salienta o coordenador do Bloco de Esquerda.

Para Alberto Matos a situação “miserável” em que se encontram faz lembrar “o pior do pior do tempo da fome negra, do fascismo, que levou os trabalhadores à luta. Esta escravidão ainda acontece não só em Baleizão, mas em muitas aldeias dos concelhos de Beja, Serpa, Ferreira do Alentejo e Aljustrel”

Sem palavras…
Autoridades não têm meios para gerir este fenómeno migratório…

Falta de fiscalização é mais do que óbvia…

A principal pergunta que se pretende responder é “Qual a prevalência em Portugal do crime associado às “máfias de leste”?”.
No entanto é convicção de que para conseguir responder a esta pergunta é necessário formular um conjunto de questões intermédias. Estas questões ajudarão a encontrar a resposta para aquela pergunta inicial.
Com o decorrer do trabalho tentar-se-á responder às seguintes questões:
• Quais os motivos da recente vaga de imigração para Portugal?
• Como chegam estes imigrantes a Portugal, como vêm e que rotas usam?
• Qual o perfil tipo, do imigrante de leste em Portugal?
• O que é a máfia e a criminalidade organizada?
• Haverá alguma relação entre o tipo de crime praticado e a proveniência do recluso? • Quais os crimes pelos quais estão presos os estrangeiros do leste em Portugal?
• Qual a relação entre estes crimes e a possível atividade mafiosa?
São estas as perguntas às quais as nossas autoridades não têm sabido dar resposta fundamentalmente por falta de meios.

“O fenómeno dos migrantes tem uma dimensão tal, é de uma complexidade tal, porque eles próprios ocultam a verdade, que não temos capacidade operacional para estancar uma realidade desta dimensão” é-nos afirmado por quem, há anos, trabalha nesta área e sente a manifesta “impotência em darmos respostas a tantas questões que nós sabemos previamente as respostas, mas sem a colaboração dos imigrantes é impossível provarmos o quer que seja” explicou-nos.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF); a ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho), a GNR – Guarda Nacional Republicana e as estruturas politicas locais sabem o que se passa no terreno.
“Não creio que fechem os olhos por incúria, o terreno da investigação e pantanoso e muito sinuoso. Mas não basta alegar falta de meios” lamenta um dos meus colaboradores nesta reportagem, indignando-se por “em pleno século XXI, a escravatura merecia outro tratamento da nossa parte. As verdades, vergonhosas estão à vista de todos, só não vê quem não quer…” lamenta.
Máfia de Leste força mulheres a prostituírem-se

A prostituição cresce de forma assustadora…

Estão organizados em rede e dedicam-se, em várias zonas do Alentejo e do Oeste, à exploração laboral e sexual de largas dezenas de compatriotas – provenientes do Leste europeu. Forçam homens ao trabalho agrícola não remunerado, em condições desumanas; e as mulheres à prática de prostituição.

Trata-se de uma máfia que esta terça-feira foi desfeita numa operação da Unidade de Contraterrorismo da Judiciária. Há 18 detidos: 13 homens e cinco mulheres, entre os 20 e os 63 anos. A PJ identificou mais de 100 vítimas.

A operação, com 28 buscas, incidiu na zona de Torres Vedras e nos concelhos de Beja, Serpa e Odemira, onde ocorreram as detenções, por crimes graves como tráfico de pessoas, extorsão, lenocínio, falsificação de documentos e associação criminosa.

Os detidos deverão ser esta quarta-feira presentes ao Tribunal de Sintra, a comarca onde nasceu a investigação da PJ.

Em causa, como noutras situações que têm sido detetadas sobretudo no Alentejo, está a exploração de mão de obra em campos agrícolas – com homens e mulheres a serem sujeitos, sob tortura, a longas horas de trabalho diário sem direito a remuneração ou refeições. Os imigrantes são mantidos em cativeiro.

No caso das mulheres, são colocadas em casas de alterne e forçadas a prostituírem-se, com os proveitos do negócio de exploração sexual a reverterem exclusivamente para os elementos da rede que as mantém sob coação física e psicológica.
Noticia – Correio da Manhã
António Lúcio e Henrique Machado 18 de Novembro de 2015
 
Desumanidade cruel…

Recuperamos esta reportagem por ela ser o rastilho de uma realidade que ganhou novo rosto à medida que os imigrantes se foram libertando das teias da máfia.

De prostituição imposta, muitas mulheres decidiram optar por este modelo de vida, de livre e espontânea vontade, trocando o trabalho árduo e mal pago nos campos do Sul por esta que é, reza a história, a mais antiga forma profissão do mundo.

“Na prostituição ganhamos uma pequena fortuna que nos fará regressar mais cedo aos nossos países…”

É fenómeno inquietante e que tem ganho expressão na última década. Depois de numa primeira fase terem sido obrigadas a prostituir-se em casas de alterne, onde os lucros da venda dos corpos eram para quem as “controlava” o cenário ganhou novos contornos à medida que os migrantes se foram libertando dessas máfias.

Hoje, segundo dados que nos facultaram, são inúmeras as mulheres que optaram por esta forma de vida.

O modo de atuar é fácil. Criam páginas na Internet, utilizando as redes sociais, onde “facilmente cativam clientes”.

Contrariamente ao que possa imaginar-se, fazem-se sem grandes ocultações, e com o consentimento dos maridos que trabalham nos campos árduos do Alentejo.

“Sim, as mulheres asiáticas, as africanas e dos países de leste têm uma abordagem diferente da sexualidade conjugal. Não há a pseudo-monogamia dos europeus do Sul” revela-nos quem está a coordenar e estudar este fenómeno.

“Os maridos sabem, consentem e apoiam. Essas mulheres chegam a ganhar num dia o que os maridos ganham em três ou quatro meses” e tem um objetivo claro, “angariar o mais rapidamente possível o dinheiro que lhes possibilite regressar aos seus países com uma condição económica invejável”.

“Não temos vergonha do que fazemos, nem prazer. É apenas um método para que consigamos o mais depressa possível sairmos deste inferno onde viemos parar” relatou uma das mulheres recentemente investigada.

“Não há nada de ilegal, nem imoral. Somos livres e preferimos este tipo de vida a levantarmo-nos às cinco da manha para irmos para o campo apanhar azeitonas, onde nem o ordenado nos pagam” relata outra mulher, cuja pagina no Facebook e identificativa da atividade que exerce.

Segundo dados, os últimos que foram referenciados, há cerca de 1500 mulheres a fazerem da prostituição a sua atividade profissional. Pagam impostos e estão a contar os dias e os clientes para fugirem dessa vida, que ainda assim, é muito menos penosa que aquela que faziam quando para cá vieram, e com a particularidade de que “todo o dinheiro que angariamos é nosso não vai para rede de mafiosos como acontecia anteriormente”.

“Temos casamentos sólidos, fazemos isso de mútuo acordo com os nossos maridos e não temos que dar explicações a ninguém” remata sem rodeios uma das testemunhas desta novo forma de viver de algumas imigrantes.
Há casos felizes de gente que veio trabalhar para a nossa região…
Felizmente que há bons exemplos no meio deste pântano

No meio deste pântano de desumanidade há casos felizes de gente que encontrou no nosso país e na nossa região o que sempre desejaram. São muitos, felizmente, os migrantes que encontram estabilidade profissional, que se sentem felizes por terem optado por Portugal.

O casal que nos foi apresentado, no concelho de Odemira, é apenas um dos bons exemplos de quem, com trabalho e muito sacrifício, consegui uma vida digna.

Na listagem destes casos felizes há um denominador comum, o facto de terem vindo trabalhar para “para pessoas decentes, que sempre nos respeitaram e pagaram, muitas vezes pagam-nos mais do que combinámos por perceberem que somos bons profissionais” revela este casal que trabalha no concelho de Odemira e reside em São Teotónio.

“Temos o nosso filho mais velho na Universidade e o mais novo vai à escola, não é descriminado, apesar da cor da pele. Não nos pudemos queixar. Sabemos que muitos imigrantes são tratados como se fossem uns selvagens, nós não, só temos que dizer bem do nosso patrão e da aposta que fizemos em vir para Portugal. É muito duro trabalhar no campo, mas ganhamos mais num ano aqui do que em dez no nosso país” constatam.

Há gente feliz no campo…

Estre casal já adquiriu uma casa em São Teotónio “onde somos muito felizes. Adoramos o clima, a praia. O que estranhamos no início foi a alimentação. Mas agora já estamos habituados, não sei se comemos mais comida do vosso país se do nosso. Gostaríamos que todos os imigrantes pudessem dizer isso mas não pudemos dizê-lo porque sei que sofrem muito. Não compreendo como é que desaparecem vários imigrantes sem deixar rasto. Nunca ouvi falar em suicídio ou homicídio no Alentejo. É estranho, não é?” questiona-me o paquistanês, confrontando-me com o facto de “já terem sido encontrados imigrantes enforcados, e é sempre suicídio, tenho dúvidas que assim seja, mas quem sou eu para me meter nesses assuntos, agora que é estranho é” conclui.
De facto, digo eu, é estranho que não seja manchete nos Órgãos de Comunicação Social o número de suicídios de imigrantes no Baixo Alentejo…que investigue quem tem que investigar, nós deixamos o repto….


Para culminarmos este trabalho, publicamos a última entrevista que Alberto Matos, presidente da delegação de Beja da Solim – Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes deu ao Diário do Alentejo. É uma entrevista recente, onde a realidade que aqui vos expusemos é reiterada por quem sabem tanto ou mais do que aquilo que reportamos neste trabalho jornalístico.
Agradecemos a quem, nos facultou dados preciosíssimos que nos possibilitou apresentar-vos a reportagem que puderam ler. Enquanto ser humano, jornalista e Baixo Alentejano sinto vergonha pela forma como gente sem escrúpulos está a dizimar a vida e os sonhos de milhares de pessoas que apenas querem ser felizes como todos nós…

“Há imigrantes a passar fome no Baixo Alentejo”

Alberto Matos um dos principais rostos contra a escravatura nos Campos do Alentejo

Entrevista com Alberto Matos, presidente da delegação de Beja da Solim – Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes

Texto Luís Miguel Ricardo

Os últimos números conhecidos apontam para a existência de mais de dez mil imigrantes registados no Baixo Alentejo. Mas o número de “ilegais” será muito maior. Em entrevista ao “Diário do Alentejo”, o presidente da delegação de Beja da Solim – Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes, diz que alguns “permanecem confinados em montes, praticamente sequestrados por engajadores sem escrúpulos, sem contratos, sem descontos para a Segurança Social e, por vezes, quase sem salários”.

Qual a proveniência destes imigrantes?
Cerca de 50 por cento destes imigrantes são de origem asiática: Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh ou Tailândia. Há também uma fortíssima presença de imigrantes oriundos da África Ocidental, de países como o Senegal, a Guiné-Bissau, a Serra Leoa ou a Nigéria e que no concelho de Beja será mesmo maioritária, até porque alguns trabalham na construção civil. Atividade onde encontramos também imigrantes de Cabo Verde, Angola e Moçambique. Do norte de África também os há, mas em menor número, oriundos de países como Marrocos, Argélia ou Tunísia. Temos ainda um número significativo de imigrantes do leste europeu: Ucrânia, Roménia e Moldávia.

Sabe-se de que forma chegam ao Alentejo?
Do leste europeu, que constituiu a grande vaga de imigração na primeira década do século XXI, continuam a chegar por via terrestre, em carrinhas ou de autocarros. Entre os meses de outubro a março chegam a Beja, semanalmente, em autocarros de matrícula moldava, regressando ao seu país ao fim de um ou dois meses por não aguentarem as condições duríssimas de trabalho e de habitação. Os oriundos dos países asiáticos chegam à Europa por via aérea, às vezes chamados por amigos ou familiares que os acolhem

No meio do drama, há ainda quem sorria…

E de África?
A grande epopeia é mesmo a africana, sobretudo no caso das pessoas oriundos da África Ocidental. Como os vistos para entrar legalmente no espaço Schengen são caros e morosos, arriscam a morte (em média 25 por cento perde a vida) atravessando o deserto e o Mediterrâneo: do Senegal para as Canárias, de Marrocos para o sul de Espanha, da Líbia para Itália. Há quem salte os muros de Ceuta e Melilla e quem escave túneis para chegar a solo europeu. São verdadeiros sobreviventes: muitos tentaram esta rota por duas ou três vezes, pelo caminho foram feitos escravos ou prisioneiros, mas não desistiram. Preferem enfrentar a morte de olhos abertos do que encarar a família ou a aldeia… venderam terras e gados para investir tudo nesta viagem rumo ao sonho europeu.

Presumo que ao domínio da língua seja, desde logo, uma grande barreira à sua integração.
Grande parte dos imigrantes, além das línguas maternas, fala inglês ou francês. A aprendizagem do português é fundamental e por isso temos encaminhado muitos associados para a Escola Secundária D. Manuel I que tem, anualmente, cursos de língua portuguesa com dezenas de imigrantes. Na nossa sede têm funcionado, informalmente, aulas de língua materna (ucraniano e russo) para filhos de imigrantes.

Têm alguma escolaridade?
A maioria terá frequência do ensino básico, uma parte significativa tem o ensino secundário e, sobretudo entre os asiáticos, encontramos graus de licenciatura e mestrado. Apesar disso estavam desempregados nos países de origem.

Que tipo de trabalho encontram?
A esmagadora maioria trabalha em campanhas agrícolas sazonais. No olival intensivo e superintensivo, com apanha de azeitona de outubro a fevereiro, podendo prolongar-se com a plantação de novas áreas de regadio. Trabalham também no amendoal, nas framboesas, morangos e outros frutos vermelhos, sobretudo em regime de estufas e no concelho de Odemira, na apanha do melão e nas vindimas. Na construção civil também trabalham imigrantes do Brasil, mas estes têm uma presença maioritária na hotelaria, com destaque para as mulheres, sendo este o setor que mais se ressentiu no período de confinamento e que mais sofre os efeitos do desemprego, até porque a maioria destes postos de trabalho são extremamente precários.

Palavras para quê….

E que tipo de condições encontram?
Alguns permanecem confinados em montes, praticamente sequestrados por engajadores sem escrúpulos, sem contratos, sem descontos para a Segurança Social e, por vezes, quase sem salários, pois tudo lhes é descontado: desde os transportes em carrinhas superlotadas até ao alojamento em casas miseráveis. Raros são os agricultores que empregam e alojam diretamente estes trabalhadores. A esmagadora maioria é contratada por empresas de trabalho temporário ou prestadoras de serviços constituídas na hora, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, e que podem desaparecer sem deixar rasto.

A precariedade é enorme?
Sim, estas empresas alugam mão-de-obra ao dia, à hora ou à tarefa – daí a extrema precaridade – e alojam estes trabalhadores em contentores ou em casas sobrelotadas. Há casos de 15 ou 20 pessoas por divisão, em que as empresas cobram entre 50 a 140 euros por cabeça. Neste negócio, entre o que cobram aos imigrantes e renda que pagam ao senhorio, há margens de lucro de 200 a 300 por cento. No fim da campanha, há quem não pague a renda nem os salários do último mês. Conhecemos casos de imigrantes abandonados e a passar fome em aldeias dos concelhos de Serpa, Beja, Ferreira do Alentejo e Aljustrel. A crise da covid-19 e alguma retração na atividade agrícola atrasaram a deslocação destes grupos de trabalhadores sazonais para o Algarve, para a zona de Odemira ou para o Ribatejo, no final da campanha da azeitona.

De que forma a pandemia agravou os problemas?
Devido às más condições e ao grande número de pessoas a morar em espaços diminutos, estes imigrantes são, naturalmente, um grupo de risco. No sul do País, em Tavira, registaram-se casos de contaminação com covid-19 num grupo de cerca de 20 imigrantes que partiu de Serpa no princípio de março. Em Odemira, obrigaram algumas dezenas de pessoas a permanecer de quarentena no pavilhão da Escola de São Teotónio. As autoridades de saúde e os seus profissionais estão atentos, mas os meios de que dispõem, incluindo testes, são diminutos.


Obrigado a quem nos ajudou na elaboração desta reportagem, e a quem nos apoiou na parte logística.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 2:21 p.m.
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Labels: Baixo Alentejo, COVID-19, Fome, Migrantes, Pandemia, Pobreza, Portugal, Prostituição, Suicídio

5.7.20

Prevenção é o caminho para perceber que o suicídio não é romântico nem inevitável

Carla R. Ribeiro, in Público on-line

O suicídio não é doença. Mas é um comportamento que, na maioria das vezes, decorre de uma patologia. Educar e desmistificar são alguns dos objectivos do Plano Nacional de Prevenção Contra o Suicídio para 2020.

O suicídio permanece um assunto tabu. No entanto, os especialistas defendem que “não falar de suicídio não é a solução”. Em vez disso, é imperativo “saber como falar” do tema, enfrentá-lo sem o pessoalizar, desmistificar o seu enquadramento e pôr um ponto final à romantização do acto.

“Dentro dos suicídios que se realizam no contexto de patologia psiquiátrica”, explica a assessora do Programa Nacional para a Saúde Mental, a psiquiatra Ana Matos Pires, “nem todos obedecem a um plano: muitas vezes são fruto apenas de um momento, sem uma intenção associada ou carta de despedida”, como se vê nos filmes. “É necessário acabar com esta romantização”, alerta.

Como deve agir a comunicação social em caso de suicídio?

E palavras como “coragem” ou “cobardia” têm de ser simplesmente abolidas. ​"O suicídio é um momento de desespero absoluto. E é preciso retirar a culpa de quem o pratica, mas também de quem fica”, que, muitas vezes, fica à procura de um sinal que não percebeu, mas que, na realidade, nunca existiu. “O suicídio é um problema de saúde pública”, no sentido das implicações sociais colaterais que tem, esclarece a também coordenadora regional da Saúde Mental da ARS Alentejo. “Mas é preciso compreender que não é uma doença; é um comportamento e, felizmente, raro”, explica, sublinhando que, apesar de a grande maioria dos suicídios (a especialista estima que sejam cerca de 90%) serem fruto de doença mental, ter uma doença mental não leva necessariamente a esse comportamento.

Autópsia psicológica

O enfermeiro especializado em saúde mental e membro da Associação Portuguesa de Suicidologia, José Carlos Santos, acusa a sociedade de, muitas vezes, procurar uma análise linear do suicídio quando esta é muito complexa e multifacetada, insistindo que “a causa é diferente do momento”, que descreve como um episódio de uma “enorme desesperança”. Porém, as estatísticas não passam de estimativas, uma vez que “para se perceber melhor este número seria necessário que houvesse mais autópsias psicológicas”, que passa por fazer a reconstituição dos últimos meses de vida. “No entanto, este é um processo caro e pouco aplicado”, lamenta.

“Quando se faz uma autópsia psicológica, percebe-se que havia um quadro de depressão grave ou, por exemplo, uma esquizofrenia diagnosticada, tendo, neste último caso, o comportamento ocorrido ou num momento de alucinação ou após o primeiro episódio psicótico”, sintetiza Ana Matos Pires. Segundo José Carlos Santos, em cerca de 80% dos casos, estas autópsias revelam ainda que “houve pelo menos um contacto com um médico no ano anterior ao acto”, mas muitas vezes o que acontece é a “desvalorização da dor mental”. “Não basta haver predisposição para pedir ajuda, é preciso encontrar alguém capaz de ajudar”, resume, insistindo na importância do plano para a prevenção do suicídio que passa também pela “formação dos agentes de primeira linha: profissionais de saúde dos cuidados primários, de emergência e de segurança” ou pela identificação das populações mais vulneráveis.

Também Ana Matos Pires considera que o caminho para que se consiga limitar o número de suicídios passa pela prevenção precoce. E 2020 seria o ano em que a prevenção do suicídio deveria ter tomado conta da agenda.

Mas a pandemia acabou por adiar os planos, ainda que, no meio da turbulência, se mantenham os planos de transformar Setembro (a 10, assinala-se o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio) no mês da consciencialização e tenha sido lançado um site sobre a saúde mental, no qual também é tratado o suicídio — uma necessidade pelas características do momento presente, em que o bem-estar da mente se apresenta como uma prioridade. Na linha SOS Voz Amiga, por exemplo, “têm surgido muitas primeiras chamadas de quem está a sentir-se perturbado pelo confinamento, mas também pelas consequências que estão por vir”, contou ao PÚBLICO a voluntária Mafalda que, desde 2012, está “de coração” do outro lado da linha, pelo menos três turnos por mês.
A luta pela prevenção

“Em todo o mundo, há cerca de 30 países com um plano de prevenção contra o suicídio, e Portugal, desde 2013, é um deles”, começa por dizer José Carlos Santos, explicando que, ao longo deste ano, esse mesmo “ambicioso plano”, que “identificou as áreas prioritárias de intervenção”, deveria estar a ser posto em prática. Mas, mesmo com os recuos ditados pelo surto do coronavírus, há vários pontos que vão avançar e um deles é precisamente insistir na “proximidade e acessibilidade aos cuidados de saúde primários, já que são estes a primeira linha da intervenção precoce”.

Ana Matos Pires acrescenta que uma boa intervenção a este nível passa por “dotar os médicos de família com ferramentas de diagnóstico”. E, mesmo que se avalie o desabafo como uma necessidade de atenção, isso não significa que seja menos importante. “Se for uma chamada de atenção, dê-se atenção”, sublinha. Além disso, a psiquiatra considera fundamental “formar os meios de comunicação”, que têm no seu poder a capacidade de passar mensagens que podem influenciar a decisão de alguém procurar ajuda ou de desistir de o fazer, considerando que, não obstante todas as recomendações, se mantêm práticas irresponsáveis e perigosas. “Por exemplo, é preciso falar mais sobre depressão, sobre o que é e que é tratável”, não sendo em momento algum um capricho.

É neste caminho de cultivar mais informação e maior literacia que o enfermeiro José Carlos Santos considera poder combater-se o estigma, permitindo que alguém procure ajuda “sem medo de ser ridicularizado pelos outros”. “Muitas vezes, o pedido de ajuda só é feito quando quem o faz já se tornou disfuncional — e, às vezes, é demasiado tarde.” É ainda neste ponto que sublinha a importância das linhas de ajuda, nas quais impera o duplo anonimato: nem quem liga se identifica, nem quem atende diz quem é ou onde está. Para mais, explica José Carlos Santos, os voluntários “não são profissionais de saúde — são apenas pessoas a quem se pode exprimir emoções sem medo de se ser julgado”.
Quem ameaça, não faz?

Além de o próprio tema continuar a ser tabu, também se reveste de uma série de mitos que importa desconstruir se se quer batalhar pela sua prevenção. Um dos mais comuns é o conhecido chavão de “quem ameaça, não faz”. José Carlos Santos apela a que se preste atenção quando a conversa do suicídio surge — é que, se por um lado, é falso que alguém que pense em suicídio o venha sempre a fazer, também não é verdade que fugir ao tema seja a solução. “A pior coisa será fingir que não se está ouvir quando alguém quer falar.”

É aqui que as linhas anónimas fazem muitas vezes a diferença. Isto porque, como refere o presidente da SOS Voz Amiga, Francisco Paulino, “muitas vezes, é mais fácil partilhar o sofrimento com um desconhecido que nunca se irá passar a conhecer”. E, conta o responsável, que começou por ser, há 23 anos, uma voz anónima, nem sempre quem liga não está a ser acompanhado. “Há pessoas que nos ligam e que estão a ser acompanhadas na psiquiatria, mas que, mesmo assim, precisam daquele momento de desabafo.” É que “agir contra a tristeza dos outros é simples — muitas vezes, basta ouvir. Com atenção”, enfatiza.

A história de Francisco Paulino é igual à de tantos outros voluntários. Sem qualquer ligação à saúde, um dia foi confrontado com o comportamento suicida de alguém próximo que o levou a uma viagem interior, fazendo a mesma pergunta que tantos fazem e que, hoje, sabe ser a errada: “porquê?”, quando “era uma pessoa que tinha tudo para ser feliz: um bom casamento, filhos, boa situação financeira…” A casualidade levou-o às linhas e acabou por fazer atendimento durante seis anos — até chegar o dia em que precisou de interromper: “Os voluntários precisam de parar de vez em quando, durante uns tempos, para recuperarem a harmonia emocional”, explica.

Isto porque para se ser voluntário é “preciso haver disponibilidade emocional e de tempo” e, mais importante, “é preciso gostar de pessoas”. Pelo meio, explica, há o constante e exigente “exercício de nunca nos aproximarmos demasiado sem que nunca nos afastemos”.

Mafalda ainda se mantém a atender e, por isso, cultiva o anonimato neste voluntariado do qual não se aproximou por uma experiência trágica, mas por, há sete anos, ter ouvido, na televisão, um apelo para que as pessoas se dessem como voluntárias. O discurso fê-la recuar duas décadas, a uma conversa que a marcou: a história relatada por um amigo japonês de que no seu país, num sítio muito procurado para o suicídio, haveria uma cabina telefónica — bastava levantar o auricular para ouvir a voz de alguém que, do outro lado, estava disponível para conversar.

“Quando ouvi o apelo na televisão, senti que era o momento certo: recebi formação em 2011 e iniciei os turnos em 2012.” Para ajudar, estima, um voluntário não deve “ter grandes desequilíbrios internos e tem de estar emocionalmente disponível”, ainda que esteja certa de que “não há uma receita de como atender”. “É preciso ouvir o outro e perceber que caminhos tomar, que perguntas fazer.”

“O tom de voz e o ritmo são essenciais para manter a comunicação”, explica, considerando que “a voz pode ser um instrumento poderoso para criar empatia”. E, às vezes, também “é preciso carpir com quem liga”, não tendo dúvidas de que “cada chamada é uma história” — mas, não conta nenhuma. Além do duplo anonimato, Mafalda refere o dever de confidencialidade. E não interessa que mais ninguém saiba quem é, quando existe a possibilidade de o próprio se reconhecer.

“Quando alguém nos conta a sua história pela primeira vez sente-se um alívio na voz”, refere. Também há as designadas chamadas de fim de linha: “São chamadas tão intensas que por vezes sinto-me fisicamente ao lado daquela pessoa, no mesmo cenário e espaço”, descreve.

“O objectivo é sempre que aquela pessoa, depois de desligar, vá dormir e que no dia a seguir procure ajuda.” E, muitas vezes, é exactamente isso que acontece. Mas, embora em menor número, também há casos cujo desfecho não se deseja. A voluntária não sente a tentação de julgar. Porque, até ao último segundo, Mafalda acredita ser possível ocupar a desesperança pelo seu oposto.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 9:53 p.m.
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Labels: Saúde Mental, Suicídio

14.11.18

Aqui, o cinema abre as portas à discussão da saúde mental

Beatriz Silva Pinto, in Público on-line

O festival Mental arranca a 16 de Novembro e dura até o final do mês, em Lisboa e no Porto. No programa, há mais de 10 filmes, cinco debates e um documentário vencedor sobre a violação e o stress pós-traumático.

“Quando as pessoas estão informadas, vão agir de outra forma. Vão tratar-se, vão falar, não vão ter tanta vergonha ou estigma.” Foi partindo desta premissa que, em 2017, Ana Pinto Coelho engendrou um festival de cinema e artes em que a saúde mental é protagonista. O Mental, co-produzido pela Direcção-Geral da Saúde, realiza-se entre 16 e 30 de Novembro, em Lisboa e no Porto.

A ideia foi “importada” da Escócia, onde se organiza o SMHAFF — Scottish Mental Health Arts and Film Festival que, há 12 anos e através de mais de 300 eventos por todo o país, se compromete a desafiar ideias pré-concebidas sobre saúde mental com a ajuda das artes. A meta pessoal de Ana, conselheira em dependências químicas e de comportamento, é que um dia também este projecto se faça itinerante e possa correr Portugal.
A curadora do Mental

Ana Pinto Coelho trabalhou toda a vida nas áreas da comunicação e organização de eventos. Aos 40 anos, “farta” da indústria e guiada por um antigo interesse pela área da saúde mental, foi para Oxford tirar um curso em Addiction Counseling ou, em português, “aconselhamento em dependências químicas e de comportamento”. Em 2017, organizou a primeira edição do Mental.

No Mental, que quer chamar à discussão a população geral e não apenas os académicos, o cinema é a principal porta de entrada para a informação: “Todas as nossas conversas e debates temáticos são associados a um filme que a seguir é exibido.” E, neste ano, pela primeira vez, foi organizado uma open call internacional de cinema que recebeu mais de 90 filmes de 22 países, todos eles relacionados com temáticas relativas à saúde mental. O júri — composto por Rui Henriques Coimbra (jornalista), Eurico de Barros (crítico de cinema), Catarina Belo (estudante de cinema), João Gata (escritor) e Maria João Barros (psicóloga) — escolheu nove finalistas para integrarem o programa do festival e, entre eles, um vencedor: o suíço Matteo Born, de 28 anos.

A apresentação do documentário A Viagem de Laura, nesta sexta-feira (16), que vai contar com a presença do realizador vencedor, é um dos pontos altos do evento apontados pela curadora. No Auditório Orlando Ribeiro, em Lisboa, será contada a história (real) de uma mulher que, após ter viajado para Marrocos para fazer voluntariado, foi sequestrada e violada múltiplas vezes. Quatro anos depois, Laura decide desfazer em pedaços o único objecto que restou do seu projecto humanitário — uma bandeja de prata — e parte com Matteo para Marrocos, para deixar um fragmento em cada local onde foi abusada.

O risco de burnout é elevado nos alunos de Medicina — mas a universidade tem soluções

Saúde Mental: falar é o princípio da solução

Portuguesa recebe bolsa de investigação em saúde mental
Além dos trabalhos finalistas da open call, tanto os debates como os outros filmes, mais conhecidos, que se lhes seguem vão focar as temáticas da esquizofrenia, do suicídio, da ciberdependência e da prevenção. Numa das conversas, Sónia Farinha Silva, psiquiatra e membro da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, vai falar sobre a relação da comunicação social e os suicídios (dia 18, no Auditório Orlando Ribeiro). Na verdade, os media são um ponto sensível da maior parte das discussões, adianta Ana. “A área da saúde mental ainda não está presente na comunicação social portuguesa como está há mais de 20 anos na Europa (…) Fala-se de saúde física, não se fala de saúde mental, que está ali ao canto como se não fizesse parte de nós enquanto seres humanos.” Esta foi, aliás, uma das razões pelas quais convidou jornalistas para moderar todas as conversas do festival.

Uma breve paragem no Porto: porquê?
O festival vai aterrar no Porto durante dois dias (29 e 30 de Novembro), apesar de o fazer “sem quaisquer apoios” e após várias tentativas frustradas de estabelecer uma parceria com a Câmara Municipal do Porto, adianta Ana Pinto Coelho: “Nem sala nos cederam, estamos a pagar o auditório Almeida Garrett à hora.” Os apoios financeiros que o festival conseguiu até à data são “muitíssimo baixos”, confessa.
Outros momentos “a não perder” são aqueles em que utentes do hospitais Júlio de Matos, em Lisboa, e Magalhães Lemos, no Porto, sobem ao palco para um espectáculo de dança e teatro, respectivamente. Tanto a apresentação de Mundos (24 de Novembro, no Auditório Carlos Paredes) como a da peça Ex-tigma (30 de Novembro, no Auditório Almeida Garrett) querem aproximar quem as vê de quem actua e provar que é o estigma, e não a doença mental, que constrói muros entre as pessoas. Em Lisboa, logo após o espectáculo do Núcleo de Dança Júlio de Matos, a coreógrafa e bailarina Sónia Baptista apresenta a performance chamada #adepressãotemestasfuças.

A prova de que o festival é realmente transgeracional é o dia que dedica às crianças e à prevenção e promoção de saúde mental. “É importante que se perceba de pequeno a importância das emoções”, explica Ana. Para isso, há uma peça infantil, uma conversa e um filme para assistir a 25 de Novembro, no Auditório Carlos Paredes, em Lisboa.
O Mental arranca oficialmente esta sexta-feira, 16, mas, já na quarta-feira, junta-se ao lançamento do livro As Aventuras de Mr. X – A Trilogia, de João Gata, na atmosfera m, em Lisboa, com a apresentação de João Tordo e João Vasco Almeida. À excepção desta apresentação, que é gratuita, o festival é pago e custa, em média, 7 euros por dia.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 4:04 p.m.
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Labels: Ciberdependência, Cinema, Saúde Mental, Suicídio

9.11.18

Japão, 30 mil suicídios por ano: riqueza, tecnologia, mas… vazio na alma?

By AG MM, in Paporetlive

Bispo do país atribui as causas à falta de sentido existencial, conectada à profunda carência de espiritualidade e religiosidade.

Uma análise do período compreendido entre 1998 e 2010 apontou que mais de 30 mil pessoas se suicidaram no Japão em cada ano desse intervalo, taxa que, aproximadamente, continua se aplicando até o presente. Cerca de 20% dos suicídios se devem a motivos econômicos e 60% a motivos relacionados com a saúde física e a depressão, conforme recente pesquisa do governo.

O assunto é abordado pelo bispo japonês dom Isao Kikuchi em artigo divulgado pela agência AsiaNews. Ele observa que o drama se tornou mais visível a partir de 1998, “quando diversos bancos japoneses se declararam falidos, a economia do país entrou em recessão e o tradicional ‘sistema de emprego definitivo’ começou a colapsar”.

Durante os 12 anos seguintes, uma média superior a 30 mil pessoas por ano tirou a própria vida num país rico e avançado. O número, alarmante, é cinco vezes maior que o de mortes provocadas anualmente por acidentes nas rodovias.

Riqueza, tecnologia e… vazio na alma

Rodeados por riquezas materiais de todo tipo, os japoneses têm tido graves dificuldades em encontrar esperança no próprio futuro: perderam esperança para continuar vivendo, avalia o bispo.

Paradoxo: após histórica tragédia nacional, suicídios diminuíram

Um sinal de mudança, embora pequeno, foi registrado por ocasião do trágico terremoto seguido de tsunami que causou enorme destruição em áreas do Japão no mês de março de 2011: a partir daquele desastre, que despertou grande solidariedade e união no país, o número de suicídios, de modo aparentemente paradoxal, começou a diminuir. Em 2010 tinham sido 31.690. Em 2011, foram 30.651. Em 2012, 27.858. Em 2013, 27.283. A razão da diminuição não é clara, mas estima-se que uma das causas esteja ligada à reflexão sobre o sentido da vida que se percebeu entre os japoneses depois daquela colossal calamidade.

Motivos para o suicídio

Dom Isao recorda a recente pesquisa do governo que atrela 20% dos suicídios a motivos econômicos, enquanto atribui 60% a fatores de saúde física e depressão. Para o bispo, os estopins do suicídio são complexos demais para se apontar uma causa geral. No entanto, ele considera razoável e verificável afirmar que uma das razões do fenômeno é a falta de sentido espiritual na vida cotidiana dos japoneses.

O prelado observa que a abundância de riquezas materiais e o acesso aos frutos de um desenvolvimento tecnológico extraordinário são insuficientes para levar ao enriquecimento da alma. A sociedade japonesa focou no desenvolvimento material e relegou a espiritualidade e a religiosidade a um plano periférico da vida cotidiana, levando as pessoas a se isolarem e se sentirem vazias, sem significado existencial. E é sabido que o isolamento e o vazio de alma estão entre as principais causas do desespero que, no extremo, leva a dar fim à própria vida.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 4:34 p.m.
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Labels: Japão, Suicídio

21.2.18

Linha de prevenção do sucídio precisa de voluntários

in SicNotícias

A linha de ajuda para prevenção do suicídio SOS Voz Amiga precisa com urgência de voluntários para conseguir assegurar as oito horas diárias de atendimento, disse esta terça-feira à agência Lusa o presidente do serviço.
Em 2017 apenas 70% dos turnos previstos foram preenchidos, lamentou Francisco Paulino, adiantando que, se o serviço tivesse conseguido garantir todos os turnos, "por extrapolação, as chamadas teriam ultrapassado as 4.500". Neste momento, são apenas 17 voluntários que asseguram com "alguma dificuldade" o atendimento, disse.

"O que pretendemos fazer neste momento é uma campanha de forma a conseguirmos no mínimo 30 voluntários", um número que permitiria garantir "as oito horas diárias" e alargar o período para 12 horas, porque "o sofrimento não tem hora".

Todos os anos, o serviço faz pelo menos uma ação de formação, mas como se trata de "um voluntariado muito exigente, tanto em termos emocionais como na carga horária", muitos acabam por sair ao fim de algum tempo. "Lidar com os dramas pessoais das pessoas pode ser muito exigente a nível emocional", além de que as pessoas têm as suas vidas.Mas o atendimento também é "muito gratificante pela oportunidade" que dá aos voluntários de poderem fazer "a diferença pela positiva", ajudando "alguém em grande sofrimento" e evitando muitas vezes o seu suicídio.

15% das pessoas que ligaram já tinham um plano de suicídio

O número de apelos quase triplicou entre 2013 e 2016, passando de 1.271 para 3.701, mas baixou para 3.335 no ano passado devido à falta de voluntários, disse o presidente da SOS Voz Amiga. "O total de chamadas em 2017 sofreu uma redução de cerca de 10% em relação a 2016 e o motivo é facilmente explicado pelo menor número de voluntários a atender, logo menos turnos efetuados", explicou Francisco Paulino.

Em 2017, a linha recebeu, em média, 278 chamadas por mês, a maioria (67%) feita por mulheres. A maior parte dos utentes tem entre 36 e 55 anos (46%). As situações mais relatadas foram solidão/angústia (31%), doenças psíquicas, sobretudo depressão (22%), relações afetivas (9%) e relações familiares (9%) Sete por cento das chamadas foram feitas por jovens até aos 25 anos, sendo as situações mais relatadas a automutilação, bullying, sexualidade e violência no namoro. A ameaça de suicídio representou cerca de 5% das chamadas, sendo que destas 75% foram feitas por "pessoas com ideia de morte" e 15% por pessoas que já tinham "um plano de suicídio". "Felizmente na maioria das situações, temos conseguido que o desenlace não se dê, disse Francisco Paulino.

Quem quiser ser voluntário pode candidatar-se no site SOS Voz Amiga, onde poderá encontrar a informação necessária. O objetivo da linha é "a prevenção do suicídio", mas surgem apelos com situações diversas, como problemas de solidão, depressão, problemas familiares ou económicos.

Fundada há 39 anos, a SOS Voz Amiga foi a primeira linha telefónica em Portugal de apoio em situações agudas de sofrimento causadas pela solidão, ansiedade, depressão e risco de suicídio.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 8:55 a.m.
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Labels: Linha de prevenção de suicídio, Suicídio, Voluntariado

13.9.17

Número de suicídios é o mais baixo dos últimos 15 anos

Rita Cipriano, in o Observador

O número de casos de suicídio registados pelo Instituto de Medicina Legal é o mais baixo dos últimos 15 anos. Desde 2007 que a contabilização não ficava abaixo dos mil.
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Em 2015, registaram-se 1.127 suicídios em Portugal, um valor muito superior ao do ano seguinte

Em 2016, registaram-se em Portugal 829 suicídios, de acordo com dados do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), a que o Jornal de Notícias teve acesso. O valor é o mais baixo dos últimos 15 anos e é a primeira vez, desde 2006, que fica abaixo dos mil.

Em 2001, foram registados 754 suicídios em Portugal. O número subiu para 1.199 no ano seguinte, mantendo-se acima dos mil até 2004, altura em que voltou a sofrer uma quebra. Em 2007, foram contabilizadas 1.014 mortes por suicídio e, a partir desse ano, o registo do INML manteve-se sempre acima dos mil, atingindo o pico máximo em 2016, com 1.216 casos.

O número de suicídios em Portugal aumento exponencialmente na altura da crise, como revelou no início do ano passado um relatório da Direção Geral de Saúde (DGS). De acordo com o organismo, entre 2008 e 2012 a taxa de suicídio aumentou 22,6%, sendo que em 2012 a taxa rondava as 10 mortes por 100.000 habitantes. Apesar de “a presença do Fundo Monetário Internacional (FMI) por três vezes em Portugal, no ano de 2011″ ter trazido medidas de austeridade severas e consequentes cortes nos gastos dos cuidados em saúde e segurança social”, a DGS alertou na altura para o facto de não existirem “estudos com base na revisão bibliográfica realizada que comprovem a ligação entre a crise económica e a mortalidade por suicídio em Portugal”.

Carlos Braz Saraiva, psiquiatra e membro do Conselho Médico-Legal, disse ao Jornal de Notícias que os fatores externos têm obviamente “um grande peso” e que “o facto de as condições económicas terem melhorado, influencia”. Ainda assim, lembrou que “podem estar a escapar alguns números ao INML, pois é preciso que se façam mais autópsias psicológicas para destrinçar entre o que é acidente e o que é suicídio”.

O INML só realiza as autópsias se houver ordem do Ministério Público. Para que tal aconteça, é preciso que exista suspeita de crime, como explica a edição de domingo do Jornal de Notícias. Alguns casos de suicídio podem, por isso, nunca chegar às mãos do instituto, o que significa que os números oficiais podem ser inferiores aos números reais.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 10:35 a.m.
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Labels: Baixa no número de casos de subsídio, Suicídio

11.9.17

Mais de mil pessoas ajudadas por associação no âmbito da prevenção do suicídio

in Diário de Notícias

A Associação Telefone da Amizade (ATA), que faz domingo um piquete de 24 horas no âmbito do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, respondeu desde janeiro a 715 chamadas e a 315 'e-mails' de pessoas com problemas emocionais.

Segundo o responsável da associação sediada no Porto, José Paulo Leal, o número de chamadas entradas é, contudo, "bastante superior" aos atendimentos verificados, uma vez que aquela associação se continua a debater com "falta de voluntários" que os impede de ter uma "cobertura mais alargada".

Num comunicado enviado à agência Lusa, a ATA anuncia que fará um piquete de 24 horas a 10 de setembro [domingo] no âmbito do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, um drama que, argumentou supera, anualmente, "as mortes provocadas por ataques terroristas, guerras e assassinatos".

"Na realidade, mesmo somando as mortes por todas estas causas, são sempre menos que as mortes por suicídio em igual período de tempo", lê-se no comunicado.

Tendo por base os dados do portal Pordata, a ATA lembra que houve 1.127 suicídios em Portugal em 2015 e que essa é a segunda causa de morte entre os jovens, a nível nacional e mundial.

Em face desta estatística, a ATA questiona por que razão, em países como Portugal "há anualmente mais suicídios que mortes na estrada (445 em 2016) ou resultantes da sida (390 em 2015)", recebendo estes "mais atenção mediática e apoio para a sua prevenção".

Considerando que os números negros do suicídio "são apenas a ponta do icebergue", a associação lembra o "sofrimento das famílias e amigos" de cada uma das vítimas e adiciona outro número à estatística, estimando que, por cada suicídio consumado, "25 pessoas fizeram tentativas".

Alertando para a importância de "reduzir estes números", explicam que o Telefone da Amizade "procura escutar as pessoas em crise pessoal e em risco de suicídio", sendo-lhes "permitido desabafar sobre o que as leva a pensar em acabar com a sua própria vida, ou até como o pensam fazer".

"Confidencialmente, sem as julgar e sem pressa, pelo telefone ou por correio eletrónico, diariamente, das 16:00 às 23:00", acrescenta o comunicado.

Para marcar o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio os voluntários do Telefone da Amizade vão alargar o tempo de atendimento, manter a linha em funcionamento 24 horas, sendo ainda distribuídos folhetos informativos em diferentes sítios da cidade do Porto, sobre o suicídio e a sua prevenção.

Sensibilizar as pessoas em crise "sobre um recurso que as poderá ajudar" e também para a proposta de voluntariado no Telefone da Amizade, "disponível a quem quiser dar um contributo positivo na prevenção do suicídio", são também objetivos da distribuição que vai decorrer.

Instituição Particular de Solidariedade Social, a ATA foi criada em 1982, a missão envolve 23 voluntários, sendo que apenas 13, segundo José Paulo Leal, "colaboram com regularidade".
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 2:43 p.m.
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Labels: Apoio psicológico, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, Suicídio, Telefone da Amizade

28.3.17

Portugal condenado a pagar 26 mil euros num caso de suicídio

in Jornal de Notícias

Vítima esteve várias vezes no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra, na unidade Sobral Cid

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou Portugal a pagar 26112,8 euros a uma mãe que apresentou queixa por considerar que, em 2000, o seu filho se suicidou devido à negligência de um hospital de Coimbra.

Aquele valor divide-se em 25 mil euros por danos não pecuniários, 703,8 euros por danos pecuniários e 409 euros por custos do processo, especifica uma informação divulgada esta terça-feira pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Maria da Glória Fernandes de Oliveira, uma portuguesa de Ceira, no distrito de Coimbra, apresentou queixa depois de processos semelhantes, no tribunal daquela cidade e no Supremo Tribunal de Justiça, que consideraram que o suicídio não era previsível e que o hospital não tinha falhado qualquer dever de assistência.

A queixa da cidadã portuguesa referia que "o seu filho se tinha suicidado devido a negligência de um hospital psiquiátrico em vigiá-lo", segundo o Tribunal Europeu.

"A senhora Fernandes de Oliveira queixou-se que as autoridades falharam na proteção da vida do seu filho e foram responsáveis pela sua morte, violando os seus direitos, segundo o artigo 2 (direito à vida)", especifica.

No relato do caso, é referido que o filho de Maria da Glória de Oliveira sofria de distúrbios mentais e deu entrada várias vezes no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra, na unidade Sobral Cid.

Em abril de 2000, foi admitido naquela unidade depois de ter tentado o suicídio e, a 27 daquele mês, deixou os serviços sem avisar as autoridades hospitalares e saltou para a frente de um comboio, descreve o Tribunal Europeu.
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 3:43 p.m.
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Labels: Direitos humanos, Doença mental, Doentes psiquiátricos, Suicídio

30.3.16

Pobreza associada a maior risco de suícidio

In "Sábado"

Na Área Metropolitana de Lisboa há uma relação significativa entre o risco de suicídio e a privação material, concluiu um projecto de investigação coordenado pela Universidade de Coimbra.

Um dos estudos integrados no projecto Smaile, Saúde Mental - Avaliação do Impacte das condicionantes Locais e Económicas, que analisou a relação entre a privação material e social e o risco de suicídio nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, identificou uma associação significativa entre privação material e mortalidade por suicídio na capital.

Segundo o estudo, coordenado pelo Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território (GEGOT) da Universidade de Coimbra, na Área Metropolitana de Lisboa, a população "que reside em freguesias com maior privação material tem um risco de mortalidade por suicídio 18% superior quando comparada com a população a residir em freguesias com menor privação material", disse à agência Lusa a coordenadora do projecto, Paula Santana.

Face a este resultado, a especialista defende uma "adequação das intervenções às características dos diferentes territórios, definindo como prioridade a actuação nos determinantes da pobreza, nomeadamente em intervenções que pretendam promover a literacia, o emprego e a melhoria das condições de habitação".

Em Lisboa, identificou-se um maior número de freguesias com elevado risco de se morrer por suicídio, apesar de ser mais difícil criar um "padrão geográfico" das mesmas.

Nesta área metropolitana "existem municípios cuja maioria das freguesias possuem risco elevado de mortalidade por suicídio", sublinhou, apontando para freguesias nos concelhos de Mafra, Loures e Lisboa, na margem norte, e Montijo, Palmela, Setúbal e Sesimbra, na margem sul.

Já no Porto, o risco elevado localiza-se "sobretudo em freguesias de maior ruralidade, interiores e limítrofes, nomeadamente nos municípios de Santo Tirso, Paredes, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca".

Na Área Metropolitana do Porto, deveriam ser encetadas acções "direccionadas aos grupos que se encontram em grande vulnerabilidade social, como os idosos que vivem sós e a população em situação de pobreza".

"As câmaras municipais poderão ter um papel relevante na diminuição das desigualdades em saúde, nomeadamente através de intervenções intersectoriais e enquanto agentes na alteração da relação entre os contextos de privação e o suicídio", concluiu o estudo.

O índice de privação material foi construído para este estudo com base em três variáveis: analfabetismo, desemprego e alojamentos familiares de residência habitual sem retrete.

Outro estudo do mesmo projecto, que analisa internamentos por doença mental nas duas áreas metropolitanas, também identifica uma associação positiva entre o número de internamentos e os níveis de privação, "tanto material como social", das áreas de residência dos utentes.

"O efeito da crise não se faz sentir de modo uniforme em todas as áreas, mas é mais intenso em áreas contextualmente mais vulneráveis", refere.

O projecto Smaile reúne diversos estudos centrados no impacto da crise na saúde mental em Portugal, tendo sido financiado pelo Programa Operacional Factores de Competitividade (COMPETE) e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Posted by EAPN - Observatório de Imprensa at 11:10 a.m.
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Labels: Lisboa, Pobreza, Suicídio
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