Mostrar mensagens com a etiqueta Doença mental. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Doença mental. Mostrar todas as mensagens

3.2.22

E se um dia não reconhecer a sua família, os amigos ou a casa?

Ana Carrilho, in RR

A Alzheimer Portugal lança nova campanha que quer despertar as pessoas para o facto de a demência poder entrar na vida de qualquer um, mas também ser um desafio para que todos tenham uma vida mais saudável.

“Retratos Desconhecidos” é a nova campanha da Alzheimer Portugal que já se pode ver na televisão, online e nas redes sociais, com um vídeo que, ao primeiro olhar, pode chocar. E é mesmo esse o objetivo, admite à Renascença Catarina Alvarez, responsável das relações institucionais da associação.

“É mesmo preciso abanar a sociedade”, sublinha. O objetivo é despertar as pessoas para o facto de a demência poder entrar na vida de qualquer um, de uma forma silenciosa, de um dia para o outro.

Trata-se de um convite a uma reflexão e um desafio a que todos façam os possíveis para ter uma vida mais saudável e reduzam os fatores de risco modificáveis que potenciam as demências.

Vários estudos científicos apontam para o aumento do número de casos, aliado ao envelhecimento da população. Em 2019, eram 57,4 milhões em todo o mundo, mas em 2050 poderão ser cerca de 152 milhões. Ou seja, um crescimento de 2,7 vezes em três décadas. No mesmo período, Portugal pode passar dos 200 mil casos para mais de 350 mil.
É preciso abanar a sociedade

Uma manhã, uma mulher jovem pega na sua bicicleta e sai para o trabalho. Pouco depois, uma equipa “assalta” a casa, tira as molduras que tem em cima da mesa e nas paredes e substitui as fotografias da família e amigos. Volta a colocar tudo no mesmo sítio. Quando regressa a casa, a mulher, extenuada, deixa-se cair no sofá. O primeiro olhar vai para a moldura em cima da mesa, com uma foto de família em que o seu rosto é o único que não foi alterado na “operação”. A dúvida instala-se e acentua-se quando se levanta e vê as mesmas personagens nos retratos da parede.

“Nunca imaginamos esquecer aqueles que para nós são inesquecíveis” é o slogan da nova campanha da Alzheimer Portugal.

A responsável das relações institucionais da "Alzheimer Portugal" diz que se pretende que esta campanha seja uma espécie de ”despertar”, “chamada de atenção”, especialmente para aqueles que ainda não passaram pela experiência de conviver ou de cuidar de uma pessoa com demência. “Ainda não tiveram oportunidade de pensar nisto, acreditam que esta é uma realidade distante e no fundo, pode acontecer a qualquer um, de um dia para o outro”.

“Com este vídeo e esta campanha, queremos que as pessoas imaginem que um dia podem vir a esquecer-se daqueles que sempre fizeram parte da sua vida e deixar de reconhecer mesmo os familiares mais próximos, os amigos, a própria casa. No fundo é, utilizando uma metáfora poderosa, chamar a atenção para o facto de uma demência poder entrar na vida de cada um de forma silenciosa, quase impercetível”. Catarina Alvarez admite que o vídeo pode ser “chocante”, mas argumenta que às vezes, é mesmo preciso abanar a sociedade. “É um convite à reflexão."

O facto de a protagonista ser uma mulher jovem também não é um acaso: “Tinha que ser, sem dúvida." Por um lado, porque as mulheres são as mais afetadas pela demência; por outro, para chamar a atenção das pessoas mais novas de que, hoje em dia, é possível reduzir o risco de desenvolver demência porque já se conhecem os fatores de riscos modificáveis e as estratégias a implementar ao longo de vida.

“É preciso apostar na prevenção, em termos de saúde pública, mas também depende de cada um de nós e dos nossos comportamentos”, sublinha a responsável da Alzheimer Portugal.
Doze fatores de risco modificáveis para controlar

Num artigo recente, a revista científica Lancet, aponta para a continuação do aumento do número de casos de demência em todo o mundo. Em 2019, as estimativas apontavam para cerca de 57,4 milhões de casos, mas daqui a três décadas, em 2050, poderão ser mais de 152 milhões. Em relação a Portugal, dos atuais 200 mil casos, pode-se evoluir para mais de 350 mil. Hoje em dia, as demências afetam mais significativamente as mulheres e tudo indica que a tendência vai manter-se.

Uma doença que está ligada ao envelhecimento, mas não só. Por isso, o estudo da Lancet aponta doze fatores de risco modificáveis: depressão, isolamento; sedentarismo; tabagismo; consumo excessivo de álcool; perda de audição; obesidade; diabetes; hipertensão; baixos níveis de escolaridade; traumatismo crânio-encefálico e poluição atmosférica.

Catarina Alvarez admite que são muitos, mas, basicamente, assentam em dois pilares: a adoção de uma vida saudável para combater vários destes fatores de risco e ao mesmo tempo, privilegiar estratégias de estímulo social e intelectual. O investimento na aprendizagem, desde a infância e ao longo da vida reduzem o risco de desenvolver demência.
Crescimento das demências exige políticas públicas de saúde

Não há alternativa: o crescimento do número de pessoas com demência exige que os países intensifiquem os esforços para adotar políticas públicas de saúde e que assumam o combate à doença como uma prioridade. Com o artigo publicado no início do ano na Lancet, que inclui a situação de cada país em 2019 e a previsão para 2050, os investigadores pretendem fornecer informação adicional que os decisores nacionais podem usar na definição de estratégias. Defendem abordagens diversas, incluindo maior intervenção para controlar os fatores de risco, assim como o investimento na investigação.

Portugal tem uma Estratégia de Saúde para a Área das Demências aprovada desde 2018, que prevê um Plano Nacional da Saúde para as Demências, constituído por cinco Planos Regionais, um por cada ARS. Mas foi só no fim do ano passado que a Ministra da Saúde os aprovou e poderão começar a ser implementados.

A Alzheimer Portugal é uma das entidades que integram a Comissão Executiva do Plano Nacional da Saúde para as Demências, liderada por António Leuschner. Depois de tanto tempo à espera, Catarina Alvarez considera que a aprovação dos Planos Regionais “é uma espécie de esperança renovada para que o próximo governo dê continuidade ao processo e os planos passem para o terreno. Que aliás, é uma medida que consta do Plano relativo à Saúde Mental, que faz parte do PRR (Plano de Resolução e Resiliência). Não queremos que seja dado algum passo atrás”.

É que se a situação já era delicada antes da pandemia de Covid-19, nestes dois anos, agravou-se.

A responsável da Alzheimer Portugal afirma que ainda não há dados concretos sobre os efeitos da COVID nas pessoas com demência em Portugal. Mas remete para a literatura internacional que frisa as particulares vulnerabilidades das pessoas com demência e cuidadores em tempo de pandemia, nomeadamente no percurso mais acelerado de deterioração cognitiva funcional, devido ao isolamento a que foram sujeitos.

“Constatámos isso aqui (Alzheimer Portugal) nestes dois anos, à medida que as pessoas nos iam ligando e pedindo ajuda. E em relação aos cuidadores informais também: não só as pessoas com demência estiveram muito isoladas como os próprios cuidadores tiveram que aumentar o número de horas de cuidados porque os centros de dia – mesmo não tendo as melhores condições para acolher estas pessoas – são uma válvula de escape, que dão umas horas de descanso aos cuidadores. Se a questão já antes era urgente, a pandemia é um argumento para que as demências sejam uma prioridade nas políticas públicas de saúde”, conclui Catarina Alvarez.

7.12.20

Fundação vai reabilitar o antigo “Asylo” através de um projeto de 2,8 ME para apoio à demência

in Mensageiro de Bragança

A Fundação Francisco António Meireles (FFAM) vai avançar com obras de reabilitação do antigo “Asylo” de Torre de Moncorvo para ali criar uma unidade destinada a pessoas com demência ou outras patologias associadas, num projeto orçado em 2,8 milhões de euros.

“Já temos o projeto, pelo que resolvemos candidatarmo-nos e investirmos em algo que nos parece de grande importância para a nossa sociedade, tendo em conta as carências que existem na região como é o caso do apoio à pessoa com deficiência”, indicou o presidente do conselho de administração FFAM, António Moreira.

A futura unidade social vai dispor de Centro de Apoio Ocupacional e de uma Residência Autónoma, e do apoio a idosos através de uma Estrutura Residencial Para Idosos (ERPI) e de um Centro de Dia “especializados em demências de vária ordem e em outras vulnerabilidades”.

Segundo o responsável, o edifício que albergou antigo “Asylo” de Torre de Moncorvo está devoluto, e onde a degradação do imóvel já se arrasta há mais de 20 anos.
“Ao longo dos anos o imóvel tem-se vindo a degradar sem qualquer solução à vista", frisou.

De acordo com António Moreira, este investimento só é possível se for aprovado no seu conjunto e com todas a valências de apoio associadas ao projeto.

“Embora saibamos que a grande maioria é a favor da criação de mais lugares em ERPI, como há bem pouco tempo ficou demonstrado, nós não somos favoráveis a que se invista em mais do mesmo, como aliás é público, pelo que queremos apostar em respostas diferenciadas para se lidar com as deficiências, as demências e as outras vulnerabilidades”, vincou.

Este projeto foi elaborado no âmbito da candidatura da FFAM ao Programa De Alargamento Da Rede Equipamentos Sociais – 3.ª Geração (Pares 3.0), que tem por finalidade apoiar e cofinanciar o desenvolvimento, consolidação e reabilitação da rede de equipamentos sociais, promovendo a melhoria sustentada das condições e dos níveis de proteção dos cidadãos.

“Pretendemos apostar em valências que são importantes para o concelho de Torre de Moncorvo e para a região transmontana e duriense onde se destaca para além de pessoas com demência de vária ordem ou grandes dependentes da ajuda física de terceiros”, explicou António Moreira.

Da candidatura fazem parte um Centro de Atividades Ocupacionais (CAO) com 32 lugares direcionado para a valorização pessoal e integração na sociedade de pessoas com deficiências, através de atividades que fomentem as suas capacidades e que contribuam para o seu equilíbrio social e emocional.

Uma unidade de apoio domiciliário para 30 utentes cujos serviços serão prestado em casa das pessoas com dependência física ou psíquica, e que não tenham autonomia suficiente para cumprirem com as suas necessidades básicas e não tenham apoio familiar.

“Os objetivos deste estabelecimento passam por contribuir para a melhoria de vida e bem-estar dos utentes e apoiar as famílias a realizar estes cuidados. Pretende-se ainda vocacionar e capacitar o Serviço de Apoio Domiciliário da FFAM para prestar serviços a pessoas portadoras de demências, deficiências e dependências de vária ordem e gravidade”, ” destacou o presidente da FFAM.

Na valência de Centro de Dia (CdD) está prevista criação de 26 lugares para prestar aos idosos serviços de atendimento às necessidades básicas e de promoção de relações interpessoais dentro e fora do seu grupo etário, contribuindo assim para a manutenção no seu meio sociofamiliar e equilíbrio biopsicossocial.

O Alargamento da ERPI para 36 novos lugares, onde haverá quatro com capacidade de utilização como lugares de isolamento.

Do projeto faz parte um espaço para alojamento coletivo de pessoas idosas em que são prestados cuidados de enfermagem e desenvolvidas atividades de apoio social que contribuam para o bem-estar, envelhecimento ativo e melhoria de qualidade de vida destas pessoas.

“O alargamento da ERPI destina-se sobretudo a pessoas com demências de diversa ordem (severas ou ligeiras, em estado inicial ou avançado), com mobilidade muito reduzida e grandes dependentes”, concluiu António Moreira.

Do complexo faz parte uma residência autónoma para cinco pessoas.

A reabilitação e ampliação do edifício do antigo “Asylo” de Torre de Moncorvo “irá, deste modo, permitir que este receba um total de 99 utentes nas diversas respostas sociais”.
A FFAM, é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos, constituída em 31 de dezembro de 1908, com sede em Torre de Moncorvo.

30.8.19

Portugal sem preparação para a doença mental na terceira idade

Rafael Marchante, in SicNotícias

Aviso é da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria que indica ainda que é preciso definir como vai ser usado o Serviço Nacional de Saúde.

A Sociedade Portuguesa de Psiquiatria avisa que Portugal não está preparado para a doença mental na terceira idade, sobretudo na questão das demências, e considera que nos 40 anos do SNS se devia tornar esta área uma real prioridade.
Na véspera do arranque do Congresso Mundial de Psiquiatria, que começa em Lisboa na quarta-feira, o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental indica que os serviços de saúde portugueses "não estão preparados para o que já está a acontecer e para o que aí vem" ao nível do problema das demências.

Em entrevista à agência Lusa, Pedro Varandas recorda o "problema demográfico" de Portugal, com uma população envelhecida e que terá uma forte carga de doença mental.

"A nossa pirâmide demográfica está completamente invertida. Devemos estar já muito preocupados com o que ainda não está a ser feito para preparar os tempos vindouros", afirmou à Lusa.


O psiquiatra entende que se trata de um "problema sério", que precisa de respostas a várias questões: "Como cuidar destas pessoas? Com que dinheiro e com que recursos? Como apoiar as famílias?".
O vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria indica ainda que é preciso definir como vai ser usado o Serviço Nacional de Saúde e de que forma será feita a articulação com a rede de lares existente, que tem de estar preparada para prestar cuidados de qualidade.

Para Pedro Varandas, trata-se de uma área que "precisa de recursos", mas que não são pesados do ponto de vista financeiro.

"São recursos exequíveis e não são largas centenas de milhares de euros. É necessário sobretudo investimento em recursos humanos. Não é uma área que exige grande peso tecnológico. O que exige é organização e implementação", sustentou.
O psiquiatra recorda que Portugal tem na área maternoinfantil e no combate à toxicodependência dois grandes "exemplos de sucesso, até mundial", que deviam servir de impulso para tornar a área da saúde mental uma prioridade.

"Agora, 40 anos depois do início do SNS, devíamos pegar na saúde mental como o novo caso de sucesso", sugere.

Pedro Varandas entende que já chegou o tempo de passar da teoria à prática, deixando apenas de dizer que a saúde mental deve ser uma prioridade e passando efetivamente a tornar a área uma prioridade nacional.

Os cuidados de saúde mental na terceira idade são um dos grandes temas a abordar no Congresso Mundial de Psiquiatria, que decorre em Lisboa entre quarta-feira e sábado e onde são esperados cerca de quatro mil participantes e peritos.
Além do planeamento em saúde mental, o Congresso vai debruçar-se sobre várias áreas clínicas da saúde mental, como as psicoses ou o suicídio. Serão ainda abordados temas ligados à ética, ao estigma da doença mental e aos direitos dos doentes.

8.7.19

Doentes psiquiátricos nas urgências de Coimbra ficam “dias a fio” a sopa, bolachas e leite

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Um conjunto de 40 elementos do corpo clínico dos hospitais da Universidade de Coimbra denunciou a situação que atinge doentes com critérios para internamento compulsivo. Número de vagas tem vindo a diminuir e isso “atingiu um pico no final de 2018 aquando do encerramento da Psiquiatria Mulheres”.

A denúncia foi feita pela Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM) com base num abaixo-assinado firmado por perto de 40 elementos do corpo clínico: a falta de vagas para internamento de agudos de psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) está a deixar doentes com critérios para internamento compulsivo vários dias no serviço de urgência.
Os médicos lembram que o CRI de Psiquiatria, como centro diferenciado, recebe “doentes para internamento por quadros clínicos de particular complexidade”. Esses “requerem tratamentos específicos que não podem ser assegurados pelos hospitais da sua área de residência”. E isso “é frequentemente prejudicado pela ausência de vagas e pelo sucessivo protelamento das intervenções de que carecem”.

Temperaturas vão aumentar mais de 10 graus até quinta-feira
Segundo afirmam, enquanto aguardam por uma vaga no Centro de Responsabilidade Integrada de Psiquiatria, há doentes que ficam nas urgências “muito além do tempo limite”. “Durante dias sucessivos”, têm dificuldade em satisfazer as suas “necessidades básicas de higiene e alimentação”. Ingerem apenas sopa, bolachas, leite ou sumos. Alguns acabam por “desenvolver complicações orgânicas”.

Grande parte do corpo clínico do serviço de Psiquiatria enviou um documento ao conselho de administração do CHUC a exigir “a adopção imediata das medidas necessárias”, desde logo aumentando as vagas, e a declinar “toda e qualquer responsabilidade” derivada daquela e de outras “insuficiências”. É este documento, assinado por perto de 40 profissionais e datada de 26 de Junho, que leva a Ordem a agir.
O problema seria previsível. O número de camas destinadas a internamento tem vindo a diminuir, de forma progressiva. Como explica o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, na comunicação divulgada nesta segunda-feira, “atingiu um pico no final de 2018 aquando do encerramento da Psiquiatria Mulheres”. É que os chamados “blocos de Celas” foram afectados pela tempestade Leslie.
Tentado compensar essa perda, recorreu-se ao Internamento Masculino dos Hospitais da Universidade de Coimbra e ao Pavilhão 2 do Hospital Sobral Cid, o que implicou perder uma sala de convívio, ter quartos sobrelotados e, mesmo assim, perder seis vagas. Desde essa altura, “face à carência por vezes grave de camas, há doentes com patologia psiquiátrica que, por permanecerem há demasiado tempo no serviço de urgência, são internados noutras enfermarias, sem os devidos cuidados especializados”.

Investimento na saúde mental deve ser "proporcional ao sofrimento" causado
“Este é um grito de alerta para uma realidade desumana, pois resulta em graves consequências para os doentes”, diz. “O CHUC tinha um centro de referência nacional na área da psiquiatria que está a ser gradualmente destruído”, prossegue. “O conselho de administração deveria valorizar a excelência do trabalho realizado pelos profissionais na área da saúde mental e não estar a pôr em causa a própria dignidade dos doentes”.

Alegando que “a ministra da Saúde não pode pactuar com esta grave falta de acesso a cuidados de saúde e a sua gradual desumanização”, Costa Cortes defende que “é urgente devolver vagas de internamento de agudos, pelo menos em número igual ao existente em 2018, e reverter o grave retrocesso de que é alvo o serviço de psiquiatria”. O Ministério da Saúde, pelo menos para já, remete para o CHUC.
Contactado pelo PÚBLICO, o CHUC esclarece que as pessoas não estão nas urgências comuns, nem nos corredores. Em 2009, com a urgência psiquiátrica central da região centro situada nos hospitais da Universidade de Coimbra, criou-se “uma sala de observações específica para manter doentes antes da sua orientação para alta ou internamento nos vários hospitais”. Desde Junho, procura-se alterar essa prática. Evita-se que fiquem “doentes mais de 24 horas nessa área”.

Governo cria gabinetes regionais de crise da saúde mental
Na resposta que enviou por escrito, afirma que a falta de vagas está a ser resolvida com “a melhoria dos tempos de internamento” e que “o internamento noutros serviços tem sido esporádico”. Por telefone, a responsável pela comunicação assegura que tal tem acontecido apenas nas “situações mais leves”.
Admite que a capacidade de internamento para doentes do sexo feminino foi afectada pelo furacão Leslie. Garante, porém, que “a situação será revertida com uma reestruturação prevista do internamento nos hospitais da Universidade de Coimbra, onde se concentrará a totalidade do internamento de agudos”.

25.10.18

Maioria dos universitários tem colega com doença mental

in Público on-line

Mil estudantes de 154 universidades e politécnicos portugueses responderam ao inquérito "Estigma em Saúde Mental"

Mais de metade dos alunos do ensino superior conhece alguém a quem foi diagnosticada uma doença mental enquanto estudava, segundo o inquérito "Estigma em Saúde Mental" realizado a alunos portugueses e divulgado esta quarta-feira.
Cerca de mil estudantes de universidades e politécnicos portugueses responderam ao inquérito "Estigma em Saúde Mental". Resultado: 51,5% dos alunos disseram que têm colegas ou amigos a quem foi diagnosticada uma doença mental.

Os alunos de doutoramento e mestrado são os que mais lidam com esta realidade, com 66% a conhecer alguém com um problema mental. Já entre os estudantes que estão a tirar uma licenciatura ou um mestrado, mais de metade não tem nenhum amigo ou colega nesta situação (cerca de 55%).

No inquérito feito entre Maio e Julho deste ano a alunos de 176 cursos, 16,8% dos estudantes assumiram que lhes tinha sido diagnosticada uma doença mental durante o período de faculdade, com maior prevalência entre as mulheres (17,6% contra 11,3% dos homens). Apenas 22,9% das pessoas diagnosticadas estavam a ter acompanhamento de um psicólogo ou psiquiatra, segundo o estudo da Angelini Farmacêutica, coordenado pelo psiquiatra Diogo Guerreiro.
Para se perceber o estigma em saúde mental foram apresentadas dez afirmações, às quais os entrevistados tinham de dizer se estavam de acordo. A maioria discorda que exista algo nos doentes mentais que torne mais fácil "distingui-los das pessoas normais". Mais de nove em cada dez (92,4%) não consideram os doentes mentais um fardo para a sociedade.
A opinião sobre qualquer pessoa poder vir a ser doente mental é mais consensual, com 95,2% dos estudantes a concordarem com a afirmação. Ainda existe uma pequena percentagem de estudantes que acreditam que "uma das principais causas de doença mental é a ausência de autodisciplina e força de vontade": entre as mulheres são 6,8% e entre os homens são 15,3%.

A grande maioria (mais de 75%) não se importava de ter por vizinho uma pessoa com historial de doença mental. Os estudantes de Ciências da Educação e Formação de Professores foram os que se revelaram mais incomodados com essa hipótese, com apenas metade dos alunos a dizer que não se importava.

Investimento na saúde mental deve ser "proporcional ao sofrimento" causado
Os estudantes são unânimes (97,9%) na obrigação de proporcionar os melhores cuidados possíveis aos doentes mentais e são raros os que acham que estas pessoas não devem ser encorajadas a assumir responsabilidades da vida normal. Três em cada quatro consideram que faltam serviços, com destaque para Vila Real, onde todos os alunos apontaram esse problema, seguindo-se os dos distritos de Évora e Faro.
Sobre as principais fontes de estigma e preconceito, os alunos apontaram a falta de literacia em saúde mental e a necessidade de campanhas de sensibilização, políticas educativas nas escolas e intervenção do governo.

21.2.18

Santarém – Histórias de pessoas com doença mental inspiram livro de BD

in o Ribatejo

O departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém lançou, na sexta-feira, um livro em banda desenhada que conta histórias de vida dos participantes no projeto “INcluir”, que no último ano frequentaram oficinas artísticas abertas à comunidade. O livro “INcluir – 26 Histórias de Banda Desenhada” foi apresentado durante as I Jornadas de Saúde Mental “Arte & Inclusão”, um momento de “reflexão, partilha e debate sobre a arte como instrumento de inclusão social, particularmente na doença mental”, e culmina um ano do projeto “Incluir – Oficinas para todos e para cada um”.

As jornadas foram organizadas pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Distrital de Santarém (HDS), juntamente com a Direção Geral da Saúde, no âmbito do Programa Nacional para a Saúde Mental.
Durante as jornadas, que decorreram ao longo de todo o dia no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, além do lançamento do livro, foram apresentados os resultados de um estudo, realizado em parceria com o Instituto Politécnico de Santarém (Escolas Superiores de Saúde e de Gestão e Tecnologia), sobre o impacto do projeto na diminuição do estigma da doença mental na comunidade.

O estudo teve por base 420 inquéritos realizados em outubro de 2016, antes do início do projeto, e 420 realizados um ano depois, na fase final, depois de um conjunto de iniciativas na comunidade realizadas com grupos inclusivos dinamizados por um artista plástico.

O projeto, com financiamento da Fundação EDP, permitiu a realização de dez oficinas em diferentes espaços da cidade e de seis exposições dos trabalhos desenvolvidos pelos dois grupos abrangidos, num total de três dezenas de pessoas, revelando os resultados do estudo “uma diminuição do estigma da doença mental” por parte da comunidade.

Os grupos, orientados pelo artista plástico João Maria Ferreira, incluíram pessoas com doença mental, pessoas em risco de exclusão social e elementos da comunidade com vontade de aprender pintura, tendo as exposições tido a curadoria do escultor Mário Rodrigues.

A participação inclusiva e a visibilidade dada ao projeto, tanto pelas ações que decorreram em espaços públicos como pela difusão nos mais diversos meios de comunicação social, local, regional e nacional, ajudaram a uma “melhor aceitação” da doença mental, contribuindo para a redução do estigma de que estas pessoas são alvo, afirmou Carla Ferreira, enfermeira do Departamento de Psiquiatria e uma das dinamizadoras do projeto.
O livro, “rico em experiências de vida, com histórias que tocam e nos fazem acreditar na potencialidade de projetos como o INcluir”, será um dos suportes para a continuidade das oficinas, a par da verba atribuída pelo grupo “Asas pela Vida”, que este ano destinou a este fim a receita da festa que realiza anualmente, adiantou.

Com 2.000 exemplares, o livro está à venda no Hospital Distrital de Santarém (HDS) e no WShopping, afirmou.

O projeto vai manter a parceria com instituições locais, e as oficinas vão agora decorrer por módulos e abranger outras técnicas, como por exemplo o barro, permitindo uma “maior rotatividade” dos participantes, mantendo os grupos o formato de um total de 15 participantes, nove com doença mental, quatro da comunidade e dois em risco de exclusão social, adiantou.

4.9.17

Projeto com doentes mentais deixa marca no centro histórico de Santarém

in Diário de Notícias

Os participantes no segundo grupo do projeto "Incluir", promovido pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital de Santarém, vão na segunda-feira pintar duas caixas da EDP no centro histórico da cidade, numa iniciativa inserida no programa "Verão In.Str".

O projeto, financiado pela Fundação EDP, tem por principal objetivo reduzir o estigma e promover a integração de pessoas com doença mental, constituindo a pintura das caixas elétricas uma forma de participação numa iniciativa que está a acontecer na cidade, deixando uma marca num espaço público e, ao mesmo tempo, um elemento de identificação dos participantes com esse espaço, disse à Lusa um membro da organização.

Carla Ferreira, enfermeira da equipa dinamizadora do projeto "Incluir -- Oficinas para Todos e Cada Um", afirmou que a iniciativa de segunda-feira constitui a primeira ação pública do grupo de 15 pessoas -- nove doentes, duas pessoas em risco de exclusão e quatro da comunidade -- que começou em junho a frequentar a oficina orientada pelo artista plástico João Maria Ferreira.

O projeto iniciou-se em dezembro de 2016, com um primeiro grupo (também integrando doentes acompanhados pelo Departamento de Psiquiatria, pessoas indicadas pela Santa Casa da Misericórdia e elementos da comunidade), que, além de várias oficinas realizadas em espaços públicos da cidade, mostrou em maio os seus trabalhos em três exposições.

O grupo que está agora a frequentar as oficinas com João Maria Ferreira irá mostrar o resultado desse trabalho numa exposição a realizar em novembro, disse.

Carla Ferreira afirmou que o projeto constituiu um "passo à frente" no trabalho que o serviço tem desenvolvido no sentido da inclusão e da redução do estigma, ao permitir criar grupos em que pessoas com doença mental trabalham lado a lado com pessoas que sofrem outro tipo de estigma e outras perfeitamente integradas.

O impacto do projeto, que termina no final de novembro, vai ser avaliado num estudo que conta com a colaboração de alunos da Escola Superior de Tecnologias da Saúde, do Instituto Politécnico de Santarém - na aplicação de inquéritos (antes e depois) na comunidade e no próprio grupo para avaliar os níveis de estigma e os impactos na autoestima dos doentes -, e de um professor de estatística da Escola Superior de Gestão do IPS para tratamento dos dados, afirmou.

Os resultados do estudo terão uma primeira apresentação numas "pré jornadas" que se vão realizar em dezembro na Casa do Brasil, estando agendadas para 26 de janeiro as primeiras Jornadas "Arte & Inclusão".

O trabalho do grupo tem ainda sido acompanhado pelo artista plástico Mário Rodrigues, que aceitou ser curador do projeto.

5.7.17

Nesta escola de Faro, aprende-se a servir turistas sem saber inglês. Um sorriso é suficiente

Idálio Revez, in Público on-line

A Associação Algarvia de Pais e Amigos das Crianças Diminuídas Mentais criou um restaurante pedagógico, onde se formam empregados de mesa e cozinheiros especiais. O sorriso e a boa vontade desarmam os clientes mais exigentes.

Como é que se pode ser empregado de mesa num hotel, em Albufeira, sem saber falar inglês? “Sim, pode, desde que seja uma pessoa especial”, responde Carla Farias, coordenadora da Unidade de Formação Profissional da Associação Algarvia de Pais e Amigos de Crianças Diminuídas Mentais (AAPACDM), que prepara jovens para o futuro, descobrindo em cada um deles competência que nem sempre estão à flor da pele. Às vezes, diz, “basta um sorriso para ultrapassar barreiras”

Nesta instituição de solidariedade social há uma missão a cumprir: realizar projectos terapêuticos, educativos que sejam um compromisso para vida de quem educa e de quem é educado. Por coincidência, a AAPACDM localiza-se na Rua do Compromisso, em Faro, há 49 anos. “Compromisso com o futuro” poderia ser um slogan de campanha eleitoral para as eleições autárquicas deste ano mas neste caso não é uma promessa partidária, é mesmo um lema assumido e cumprido: a associação dá apoio a crianças, jovens e adultos com deficiência mental, necessidades educativas especiais ou ainda em situação de risco de exclusão social

Rui Santos é um dos casos de sucesso da instituição. Cresceu na “Casa dos Rapazes” em Faro, onde recebeu o apoio que lhe faltou no agregado familiar. Mais tarde, entre 2012 e 2014, frequentou o curso de empregado de mesa na AAPACDM. No hotel Vila Galé — Cerro Alagoa, em Albufeira, para onde foi trabalhar a seguir à formação, foi um dos empregados mais elogiados pelos clientes, que passaram a escrito os agradecimentos a quem os serviu, mesmo não falando inglês. Qual a estratégia para vencer as dificuldades? “Não fala inglês, mas tem sempre um sorriso de simpatia e boa-vontade, essa é a sua estratégia, e os clientes apreciam o esforço” diz Carla Farias, psicóloga clínica que, há 11 anos, trabalha com estes jovens, portadores de estórias de vida que, de algum modo, acabam por condicionar a sua maneira de estar e ver o mundo.

Mas Rui Santos, à semelhança do que sucede à generalidade dos trabalhadores do sector turístico, terminado o contrato de trabalho de seis meses, cai no desemprego. O ciclo repete-se todos os anos. E para estes alunos, a dificuldade é acrescida. Porque, lá fora, quando terminam os cursos profissionais, os formandos confrontam-se com o mercado do trabalho onde as pessoas, por vezes, são apenas números: “Não é propriamente fácil integrar estes jovens, porque eles acabam por não conseguir ter um rendimento de trabalho igual às outras pessoas ditas normais — por isso, os empresários acabam por ter alguma relutância em contratar”, diz a coordenadora dos cursos de formação ligados à hotelaria.

Pedagogia com faca e garfo

A criação de um restaurante pedagógico, a funcionar desde Março 2016, foi uma das formas de dar a conhecer o resultado de uma equipa pluridisciplinar e multifacetada, que prepara profissionais para a cozinha e empregados de mesa. Além das aulas práticas, há provas práticas. Pelo menos uma vez por semana, os formandos são desafiados a mostrarem os conhecimentos a convidados externos servindo um almoço. Desta vez, calhou ao PÚBLICO e outros órgãos de informação darem nota aos alunos: “Bom”, aqui fica a avaliação, pela parte que nos toca.

Daniela Guerreiro, de 26 anos, a finalizar o curso de empregada de mesa, quer juntar-se aos casos de sucesso: “Vou começar a trabalhar no hotel Dona Filipa [cinco estrelas], e o meu sonho era lá ficar”. Carla Farias acha que estes jovens, com algumas dificuldades, são casos “especiais” que têm condições, se forem ajudados, para superar as dificuldades. Rúben Rocha, de 22 anos, já fez o curso de cozinha, agora está a preparar-se para vir a ser empregado de mesa. Das duas formações, diz, prefere a de empregado de mesa. No almoço, com os jornalistas, os passos e gestos de servir à mesa, treinados na perfeição, tiveram uma dificuldade acrescida — os pés das cadeiras estavam mais afastados que habitual e o espaço exigiu outra marcação: “É a primeira vez que nos sentamos nestas cadeiras, compradas recentemente”, informou Carla Farias. A mudança, explicou, deveu-se à dádiva de uma senhora estrangeira. “Veio cá almoçar, e no final disse: as cadeiras estão velhas, e passou um cheque”.

A abertura de um hostel e de um lar são dois dos projectos que a AAPACDM tem em carteira para encontrar na economia social a resposta que lhe falta no sector hoteleiro e turística, criando novas oportunidades de empregabilidade: “Temos um edifício antigo [localizado na rua do Compromisso, zona histórica da cidade] que nos foi oferecido há um ano e meio, e que queremos recuperar e fazer um hostel”, adianta a directora técnica, Sandra Gonçalves, deixando um lamento: “Não tivemos acesso aos fundos comunitários do programa Portugal 2020”. O objectivo, diz, seria encontrar uma forma de integrar os utentes, encontrando ao mesmo tempo uma mais-valia para tornar a instituição mais sustentável do ponto de vista financeiro. O montante dos apoios, protocolados com a Segurança Social, sublinha, são os mesmos há vários anos e os custos aumentaram. As despesas anuais rondam 1,5 milhões de euros. Há ainda um terreno para construir um lar, “mas não há dinheiro para a construção, apenas uma reunião marcada com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), para discutir este assunto”.

28.3.17

Portugal condenado a pagar 26 mil euros num caso de suicídio

in Jornal de Notícias

Vítima esteve várias vezes no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra, na unidade Sobral Cid

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou Portugal a pagar 26112,8 euros a uma mãe que apresentou queixa por considerar que, em 2000, o seu filho se suicidou devido à negligência de um hospital de Coimbra.

Aquele valor divide-se em 25 mil euros por danos não pecuniários, 703,8 euros por danos pecuniários e 409 euros por custos do processo, especifica uma informação divulgada esta terça-feira pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Maria da Glória Fernandes de Oliveira, uma portuguesa de Ceira, no distrito de Coimbra, apresentou queixa depois de processos semelhantes, no tribunal daquela cidade e no Supremo Tribunal de Justiça, que consideraram que o suicídio não era previsível e que o hospital não tinha falhado qualquer dever de assistência.

A queixa da cidadã portuguesa referia que "o seu filho se tinha suicidado devido a negligência de um hospital psiquiátrico em vigiá-lo", segundo o Tribunal Europeu.

"A senhora Fernandes de Oliveira queixou-se que as autoridades falharam na proteção da vida do seu filho e foram responsáveis pela sua morte, violando os seus direitos, segundo o artigo 2 (direito à vida)", especifica.

No relato do caso, é referido que o filho de Maria da Glória de Oliveira sofria de distúrbios mentais e deu entrada várias vezes no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra, na unidade Sobral Cid.

Em abril de 2000, foi admitido naquela unidade depois de ter tentado o suicídio e, a 27 daquele mês, deixou os serviços sem avisar as autoridades hospitalares e saltou para a frente de um comboio, descreve o Tribunal Europeu.

12.6.15

Doença mental: um desafio e uma esperança

Walter Osswald, in Público on-line

Como sabemos, é ténue e cinzenta a fronteira entre a saúde e a doença mental; todos conhecemos pessoas que são “amalucadas” ou “têm uma pancada” e “não regulam bem”.

Quando os comportamentos são mais bizarros, as opiniões irracionais, o humor demasiado depressivo ou há alucinações e explosões afectivas violentas, logo se instala o popular diagnóstico de maluco, tolo, alienado, doido. Os médicos usam outro vocabulário e classificam a doença como depressão, psicose maníaco-depressiva ou doença bipolar, esquizofrenia, demência, etc.

Mas o que há de comum a estes doentes é o facto de, havendo dificuldade de comunicação e compreensão, serem sujeitos a exclusão e marginalização, por causarem desconforto, rejeição ou até repulsa às pessoas sãs. Em outros tempos foram encarcerados e tratados como criminosos ou animais perigosos; mais recentemente, foram relegados para manicómios ou hospitais psiquiátricos. A sua sorte melhorou imenso com a descoberta de medicamentos que alteram as funções cerebrais, os chamados psicofármacos, capazes de actuar sobre a depressão, a mania ou agitação, as alucinações, os processos cognitivos alterados (desde 1950).

Graças a estas novas terapias, foi igualmente possível reforçar a intervenção psicoterapêutica e de reabilitação; a doença mental deixou, em muitas situações, de ser vista como uma maldição irreversível e passou a ser considerada como um padecimento que pode atingir qualquer um e que tem tratamento. Este importante passo no sentido da humanização da doença é, todavia, ainda muito incompleto e o estigma, a exclusão e a desconfiança persistem na opinião pública em percentagem ainda demasiado elevada.

Torna-se por isso premente informar-se e reflectir-se sobre estas doenças e os sofrimentos que acarretam. Um forte estímulo a esta reflexão é o documentário “Doença mental, olhares que fazem a diferença”, realizado por Diogo Morais, sobre guião de Susana Magalhães e produção de António Jácomo (Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa e pelo Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes CITAR). Nela depõem vários especialistas, não apenas de Psiquiatria, mas também da Psicologia, da Acção Social, do Direito e da Bioética.

É de facto necessária uma abordagem pluridisciplinar e uma exposição em linguagem simples (embora com base científica) para facultar à sociedade civil uma interpretação da situação e a deliberação que fundamente uma intervenção coerente e respeitadora de direitos humanos inalienáveis, que os doentes mentais também possuem. Questões como a autonomia e a felicidade dos doentes, o seu regime de vida e a institucionalização ou o tratamento ambulatório são abordadas e discutidas neste vídeo, que foi apresentado por Mésicles Helin, Vítor Cotovio e Margarida Cordo no Auditório da Fundação EDP (junto à Casa da Música), no dia 29 de Maio, às 17h. Proponho-lhe que veja, para que ajude no sentido de reconhecermos dignidade a estes doentes e de lhes darmos finalmente os cuidados de saúde que ainda tão incompletamente lhes vão sendo dispensados.

Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, e Professor Emérito de Farmacologia e Terapêutica na Faculdade de Medicina. O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico.

19.12.14

Quase metade das prostitutas em Portugal sofre de doença mental

in Diário de Notícias

Quase metade das prostitutas em Portugal (49%) sofre de doença mental, sendo que 16% dessas mulheres não teve qualquer tipo de acompanhamento.

Cerca de 25% das prostitutas diagnosticadas necessitaram de internamento e "apenas 38% mantém acompanhamento" por parte de um técnico de saúde, disse Alexandre Teixeira, doutorando da Faculdade de Psicologia do Porto, que está a realizar um estudo sobre saúde mental em mulheres que se prostituem em Portugal.

Das mulheres diagnosticadas, foi identificada depressão a quase 60%, ansiedade a 20% e doença bipolar a cerca de 5% das prostitutas, divulgou o investigador, que falava durante as I Jornadas Científicas sobre Trabalho Sexual, que decorrem hoje no Centro de Estudos Sociais, em Coimbra.

"O acompanhamento é um fator protetor", salientou, referindo que quase 20% dos diagnósticos da doença mental foram feitos "nos últimos 12 meses" e 27,4% feitos há mais de dez anos.

O projeto de investigação envolveu questionários presenciais a 177 mulheres que trabalham no interior e 114 na rua, distribuindo-se por 110 mulheres no Porto, 55 em Coimbra e 126 em Lisboa.

A média de idades das mulheres entrevistadas é de 38,5 anos, mais de metade são portuguesas, 32% brasileiras e cerca de 7% naturais de países africanos de língua oficial portuguesa.

Metade são solteiras, 72% têm filhos, 10% têm formação superior e 27% o ensino secundário.

O estudo, que também aborda os comportamentos suicidários das mulheres que se prostituem em Portugal, conclui ainda que 28% das entrevistadas já se tentaram suicidar, sendo que dessas 31% fizeram três ou mais tentativas, explanou Alexandre Teixeira.

Cerca de 20% tentaram suicidar-se nos últimos 12 meses e quase metade entre há um e quatro anos, referiu, tendo 23% das prostitutas contado que já assistiram a um suicídio ou uma tentativa de suicídio nas suas famílias.

Cecília Eira, membro do programa "AutoEstima", da Administração Regional de Saúde do Norte, também presente nas jornadas, salientou que, com a crise, "há mais mulheres na rua e que nunca tinham estado nesta atividade".

Através do programa, que só em 2013 realizou "5.650 contactos", Cecília Eira observou que aumentaram também "as mulheres que trabalham na rua", em detrimento da atividade no interior de casas ou outros estabelecimentos, havendo ainda "mulheres mais envelhecidas", "mais mulheres portuguesas" e uma "percentagem maior de casadas".

As Jornadas Científicas assinalam hoje o Dia Internacional Contra a Violência Sobre Trabalhadores do Sexo, sendo organizadas pela Rede sobre Trabalho Sexual (RTS), pelo Centro de Estudos Sociais (CES) e pela associação Não te Prives: Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais.

Artigo Parcial

1.4.14

Autismo obriga famílias a gastar o dobro do que recebem em apoios sociais

in iOnline

O trabalho da FPDA veio também mostrar que o autismo incide maioritariamente nos homens, havendo uma rapariga para cada cinco rapazes

As famílias com crianças ou jovens autistas gastam em média, por mês, 371 euros em produtos e terapias, mas recebem apenas metade desse valor em apoios sociais, revela a Federação Portuguesa de Autismo.

Este é um dos dados revelados por um estudo sobre a “Qualidade de Vida das famílias com crianças e jovens com perturbações do espectro do autismo em Portugal: Diagnóstico e impactos sociais e económicos” realizado entre setembro e dezembro de 2013 e a que a Lusa teve acesso.

As principais conclusões do estudo mostram que as famílias inquiridas gastam em média por mês 371 euros em produtos e/ou recursos/terapias especificas para a problemática do autismo.

“Cerca de metade dos inquiridos apresenta custos mensais totais inferiores a 200 euros e quase 80% não tem custos superiores a 500 euros por mês”, diz a Federação Portuguesa de Autismo (FPDA).

Segundo a FPDA, as terapias em geral representam o custo mais elevado face aos restantes produtos, fazendo com que as famílias despendam mensalmente um valor médio que ronda os 258 euros.

No entanto, “a média de valores mensais do conjunto das prestações sociais atribuídas e transferidas para o orçamento das famílias é de 129 euros, o que equivale a metade daquilo que as famílias inquiridas dizem em média gastar”.

Para a federação, é isto que explica que 90% das famílias que responderam ao inquérito digam que este é um valor pouco ou muito pouco adequado face às despesas que a família tem com a reabilitação da criança ou jovem.

Ainda ao nível dos custos económicos e do elevado peso nas despesas das famílias está o facto de as terapias dirigidas às crianças e jovens não serem promovidas pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS), nem serem, na sua maioria, comparticipadas.

Por outro lado, em matéria de custos sociais, as perturbações do espectro do autismo mostraram ter um impacto considerável ao nível do emprego, havendo 23% das famílias que optaram por trabalhar a tempo parcial para poderem cuidar dos filhos e outras 70% que admitiram que o nascimento e o diagnóstico do filho originou uma quebra na progressão na carreira.

O estudo revela igualmente que a patologia trouxe alterações nas dinâmicas familiares de lazer, já que as famílias revelaram raramente ir a espetáculos, optando por ficar mais em casa.

Consequentemente, visitam menos os amigos e frequentam espaços públicos com menos frequência.

O trabalho da FPDA veio também mostrar que o autismo incide maioritariamente nos homens, havendo uma rapariga para cada cinco rapazes.

Raramente (3%) existem casos de mais do que uma criança com autismo na mesma família e uma em cada cinco crianças revelam ter outras patologias associadas, sendo a mais comum a epilepsia.

De acordo com a federação, 56% das crianças ou jovens com autismo está a tomar medicação e 99% é acompanhado do ponto de vista médico.

Em 40% dos casos, o diagnóstico foi feito por um pediatra do desenvolvimento, sendo que a maior parte dos diagnósticos foi feita no SNS.

Ao nível do ensino, o estudo mostra que 87% das crianças frequenta o ensino público, metade das quais num estabelecimento escolar que tem ensino estruturado, ou seja, uma reposta específica para o autismo.

O estudo foi realizado a partir de um inquérito feito a 301 famílias residentes em território nacional, entre as cerca de 2.300 que a FPDA conseguiu detetar como tendo uma ou mais crianças ou jovens com autismo, confirmado através de diagnóstico clínico.

Estes e outros dados serão apresentados quarta-feira, num seminário na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no dia em que se assinala o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo.








18.3.14

Crianças com problemas de saúde mental sem acompanhamento

Catarina Gomes, in Público on-line

Projecto que só existe naquela região do país e que foi considerado exemplo de boas práticas está suspenso há mais de dois meses.

João (nome fictício) foi várias vezes abandonado pela família, viveu até aos 10 anos numa instituição, até Ana Martins o conseguir adoptar. O seu percurso de vida, diz a mãe, explica muitos dos seus problemas: “Teve uma depressão, tem dificuldade em concentrar-se, em aprender, tem baixa auto-estima, quando alguém grita ele acha que estão a gritar com ele”.

João foi desde os seis anos acompanhado por uma equipa no centro de saúde de Loulé, com médico de família, psicólogo, enfermeiro, terapeuta ocupacional, com supervisão de um pedopsiquiatra que ia de Lisboa ao Algarve de dois em dois meses. Os chamados Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil receberam dois prémios de boas práticas e foram apontados como exemplo a expandir a todo o país. O protocolo que lhes servia de suporte está suspenso há mais de dois meses. A Administração Regional de Saúde do Algarve (ARSA) responde que existe uma proposta para a realização de um novo protocolo igual ao actual.

O funcionamento destas equipas multidisciplinares está suspenso desde o final de Dezembro. Resta às famílias de crianças com problemas de saúde mental rumar a Lisboa, mas uma viagem para dois de autocarro não fica por menos de 45 euros, diz Ana Martins, fora o resto das despesas. Muitas crianças poderão deixar de ter acompanhamento, alerta o pedopsiquiatra Augusto Carreira, que criou este programa que funciona há 13 anos.

Face à inexistência de pedopsiquiatras na região algarvia foi criado em 2001 este protocolo entre a Administração Regional de Saúde do Algarve e o Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital Pediátrico de D. Estefânia, em Lisboa. Os pedopsiquiatras da unidade lisboeta iam ao Algarve de dois em dois meses analisar os casos de crianças com problemas de saúde mental sinalizadas pelos médicos de família. Estavam envolvidas oito equipas a funcionar em centros de saúde de todo o Algarve, constituídas por psicólogos, medicina de família, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e da fala, a quem foi dada formação específica na área da saúde mental infantil pelo hospital da capital.

Os pedopsiquiatras de Lisboa davam directrizes aos médicos de família na prescrição de medicamentos e terapias a seguir. Estavam envolvidos 68 profissionais e até 2012 tinham sido seguidos 3700 meninos dos 3 aos 12 anos, refere um relatório disponível no site da ARSA. O mesmo documento diz que o programa trouxe várias vantagens, entre elas “não retirar a criança do seu ambiente natural”, evitar deslocações a Lisboa, diminuir a despesa do Sistema Nacional de Saúde e proporcionar melhor adesão das crianças e família às terapêuticas.

A experiência, que não existe em mais nenhuma região do país, foi considerada exemplar. Recebeu em 2008 o Prémio João dos Santos, instituído pela Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, em 2009 recebeu o prémio “Prevenção da Doença” instituído pelo Alto Comissariado para a Saúde. No Relatório da Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, que traça o rumo que deve ser seguido nesta área até 2016 na área da infância e da adolescência, as equipas do Algarve são dadas como exemplo a expandir às outras regiões do país.

Augusto Carreira, o pedopsiquiatra que coordena o programa diz que não entende a decisão que deixa sem assistência todas as crianças com problemas de saúde mental da região até aos 13 anos. “É uma decisão injustificável”. Informa que existe apenas uma pedopsiquiatra no Hospital de Faro que apenas assiste adolescentes daquela parte do Algarve e que está de baixa por doença. “Há centenas de crianças, muitas medicadas, que estão sem supervisão. As pessoas não vêm a Lisboa, estão ao abandono”.

3.2.14

Acompanhamento das pessoas com doença mental é “insuficiente”

Natália Faria, in Público on-line

Respostas institucionais são “obsoletas”, segundo um estudo da Universidade de Coimbra, divulgado esta segunda-feira, que abrangeu 70 instituições

A execução prática do Plano Nacional de Saúde Mental tem sido “francamente insuficiente, sobretudo no que diz respeito à reabilitação psicossocial de pessoas com doença grave”. A conclusão está contida num estudo desenvolvido na Universidade de Coimbra e não surpreendeu o director do programa, Álvaro de Carvalho, que, em declarações ao PÚBLICO, reconheceu que a reabilitação de doentes graves continua à espera dos cuidados continuados de saúde mental. “Fizemos toda a regulamentação, mas ainda não houve orientações da tutela no sentido de os cuidados continuados avançarem”, declarou.

“Os cuidados continuados farão toda a diferença em termos de reabilitação psicossocial, inclusivamente porque criam o apoio domiciliário e respostas diferenciadas para crianças e adolescentes”, acrescentou Álvaro de Carvalho, dizendo-se confiante na determinação do Governo em fazer avançar estas respostas.

Ao fim de quatro anos, a autora do estudo, Carina Teixeira, não detectou “diferenças significativas” entre pessoas com doença mental incluídas em programas de reabilitação e pessoas com doença mental sem qualquer acompanhamento psicossocial”. Acresce que os serviços de reabilitação portugueses caracterizam-se “salvo poucas excepções, por contextos educacionais, ocupacionais e habitacionais segregados”, conforme se lê no comunicado divulgado esta segunda-feira. Trata-se de um modelo “obsoleto”, segundo a investigadora, porque “nem favorece a integração comunitária” nem “a recuperação dos doentes”.

A estigmatização dos doentes com esquizofrenia consubstancia outra das críticas contidas neste estudo. Que aponta o dedo acusador aos profissionais de saúde, os primeiros a subestimar “as capacidades das pessoas com doença mental, acabando por lhes transmitir mensagens de desesperança que afectam a sua luta pela recuperação e pelo alcance dos objectivos pessoais”.

19.5.12

Psiquiatras alertam para dificuldade de doentes comprarem medicamentos

Por Catarina Gomes, in Público on-line

Há cada vez mais doentes psiquiátricos que não conseguem comprar a medicação de que precisam por razões financeiras, um fenómeno que tem aumentado nos últimos meses.

A informação é dada pela psiquiatra Célia Franco, do Hospital Sobral Cid, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra. Também o presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria, António Palha, alertou esta sexta-feira, na Antena 1 para o caso de alguns doentes não estarem a tomar os medicamentos necessários.

A psiquiatra Célia Franco afirma que, no hospital, já estão a prescrever a medicação mais barata, nomeadamente os genéricos, mas mesmo assim “estão a aumentar os doentes que não conseguem tomar a medicação”, quer porque fazem parte de agregados familiares onde há desempregados, quer porque são pessoas com pensões sociais muito baixas. As consequências da interrupção podem passar por reinternamentos de doentes que estariam estabilizados sob a terapêutica. “Se as pessoas estiverem estabilizadas há poupança a longo prazo”, sublinha.

A médica afirma que, nestas situações, tentam arranjar soluções junto das assistentes sociais mas esse apoio nem sempre é possível. Célia Franco afirma também que se há fármacos cuja comparticipação baixou um pouco, também há medicamentos que até ficaram mais baratos mas há doentes que nem sequer vão à farmácia com medo de que sejam caros. “Há o medo de que o medicamento vá ser caro”, por isso seria interessante que na receita que o doente leva do médico já constasse o valor que vai pagar pelos fármacos, defende.

Falta de dinheiro

O presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria, António Palha, disse numa entrevista à Antena 1, que há casos de doentes mentais que não estão a tomar todos os medicamentos necessários para o seu tratamento, por falta de dinheiro. O médico pediu a criação de uma política que proteja estes casos particulares.

“Tenho alguns casos, não posso generalizar, mas já tenho doentes, ou famílias, que apontam que a situação é difícil e que durante os últimos tempos não tomou este e tomou aquele… Isso pode vir a generalizar-se”, alerta. “É de pressupor que, se a crise continuar e aumentar, que isso possa suceder, o que é uma coisa dramática”, acrescenta.

“[Os doentes] dizem que cada vez é mais complicado. E, se por azar, tiverem em casa mais do que uma pessoa, que não é vulgar, não só da área da psiquiatria, mas das outras áreas, começa a ser difícil”.

Pedro Macedo, psiquiatra do Hospital Júlio de Matos, pertencente ao Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, concorda que “a situação tem-se vindo a agravar. Há doentes que começam a sentir que é difícil comprar porque é impossível organizarem os seus orçamentos nesse sentido”, revela ao PÚBLICO.

O médico afirma que há doentes reformados, que já tinham dificuldades, e que chegam, actualmente, a ter que “suportar casas”, por exemplo, com filhos desempregados. O que acontece é que há doentes que “fazem escolhas e optam pelos medicamentos que, de forma subjectiva, acham que são os mais importantes”.

Mas o médico realça que “o tratamento de um doente psiquiátrico é mais que a medicação. Às vezes há investimentos em medicamentos [em casos] que podiam ser resolvidos com outras intervenções”. Pedro Macedo julga que se põe o ênfase do tratamento apenas nos medicamentos, negligenciando outras intervenções tão ou mais importantes, como o acompanhamento do doente na comunidade e o apoio familiar. “Há uma má gestão dos serviços”, conclui.