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15.3.21

Estudo revela que mulheres (e estudantes entre os 18 e 25 anos) sofrem mais com o confinamento

Hugo Franco, in Expresso

80% das pessoas do sexo feminino dizem sofrer de fadiga pandémica moderada ou severa. Cansaço causado pelo confinamento atinge em força também os estudantes universitários

Um estudo do instituto universitário ISPA, sobre fadiga pandémica, conclui que as mulheres são as que mais sofrem com o confinamento causado pela covid-19. Entre o sexo feminino, 20% diz apresentar 'fadiga ligeira', 50% 'fadiga moderada' e 30% 'fadiga elevada'. Ou seja, 80% apresentam altos índices de fadiga causada pelo confinamento.

Já entre os homens, 2% apresentam 'fadiga baixa', 39% 'fadiga ligeira', 43% 'fadiga moderada' e 16% 'fadiga elevada'. Ou seja, o total de casos onde os inquiridos do sexo masculino mostram um maior cansaço causado pelo confinamento (fadiga moderada e elevada) é de 59% (contra os 80% das mulheres).

A docente e investigadora Ivone Patrão, coordenadora do estudo, diz ao Expresso que “as mulheres, desde há um ano, estão a assumir vários papéis – materno, profissional, doméstico e até o de professora dos filhos na escola online. O cansaço pode estar associado a estas múltiplas tarefas, que, mesmo se forem partilhadas em casal, não deixam de ser uma sobrecarga”.

Além das mulheres, também os estudantes entre os 18 e 25 anos apresentam níveis superiores de fadiga pandémica. Um dos dados do estudo - em que participaram mais de 1800 pessoas dos 18 aos 75 anos - que mais salta à vista é o de que metade dos universitários (49,8%) apresenta fadiga pandémica moderada. 34% apresentam 'fadiga pandémica elevada' ou severa e só 16,1% apresentam 'fadiga pandémica ligeira'. Nenhum apresenta 'fadiga baixa'.

“Os jovens estão numa fase crucial do seu desenvolvimento social presencial, pela necessidade de pertença a um grupo de pares e de desenvolvimento da sua intimidade nas relações amorosas. Os sucessivos confinamentos vieram dificultar estas tarefas, bem como centrar a vida dos jovens na escola online. No PsiQuaren10 [projeto de apoio psicossocial telefónico e online] têm sido os jovens que fazem mais pedidos de consulta online”, explica Ivone Patrão.

Em geral, a maioria dos participantes (46,7%) diz apresentar ‘fadiga pandémica moderada’, 35,5% sofre de ‘fadiga pandémica elevada ou severa’, e 17,7% apenas de fadiga ligeira. Apenas um participante apresenta fadiga baixa. E durante o confinamento parcial (meses de novembro, dezembro e janeiro) a fadiga pandémica era mais baixa do que no confinamento total (janeiro e fevereiro).

“Um ano após o início da pandemia, há claramente um impacto significativo e negativo na saúde mental. Num estudo anterior que realizámos – sobre o impacto do primeiro confinamento – já se tinham comprovado alterações no estado humor (depressivas e ansiosas), bem como aumento dos conflitos familiares, para além de preocupação elevada com a possibilidade de ter um teste covid-19 positivo, e da extrema necessidade de contacto social”, diz Ivone Patrão, que acrescenta: “As pessoas estão cansadas das novas rotinas que a pandemia veio imprimir. Este cansaço pode dificultar a tomada de decisão, sobretudo se requerem continuidade e persistência ao longo do tempo.”

NOTÍCIAS SOBRE COVID-19 TÊM IMPACTO NEGATIVO

Inquiridos sobre se sentem que o teletrabalho é mais cansativo do que o trabalho presencial, são mais os que ‘discordam fortemente’ (33,2%) da questão. Do outro lado da balança, 24,4% diz ‘concordar fortemente’ (24,4%) ou ‘concordar’ (18,4%) que o teletrabalho cansa mais.

Mais de metade das pessoas (70,2%) que responderam ao estudo ‘concorda fortemente’ ou ‘concorda’ sobre se sentem que a visualização de notícias diárias sobre a covid-19 tem um impacto negativo sobre o próprio.

Ivone Patrão deixa um alerta: “Nos próximos tempos, será importante o investimento na saúde mental, de forma a que se possa intervir o mais precoce possível.”

28.1.21

Fadiga pandémica: a outra doença que está a fazer cada vez mais vítimas em Portugal

Inês Garrido dos Santos, in Nit.pt

Estar farto da pandemia pode ter várias explicações e não é o mesmo que ter uma depressão.

Cansaço, falta de energia ou pouca vontade de fazer seja o que for. Tem-se sentido assim? Saiba que não está sozinho. Milhares de pessoas passam por isto todos os dias. E a culpa pode ser da pandemia, mas não tem nada que ver com o vírus propriamente dito.

Claro que estar infetado com Covid-19 ou ter passado por esse processo cansa e pode fazer os sintomas persistirem durante várias semanas, mas não é exatamente disso que falamos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), à “desmotivação para seguir comportamentos de proteção, que emerge ao longo do tempo e é afetada por um número de emoções, experiências e perceções”, chama-se fadiga pandémica.

Este conceito está associado a uma reação natural e expectável à incerteza que vivemos a nível global e que, além de nos levar à desmotivação e falta esperança nos cuidados contra a Covid-19, pode também ser desencadeada ou conduzir a outros tipos de emoções. Para perceber melhor o conceito, como é que ele se aplica à sociedade portuguesa e o que podemos fazer para evitar este tipo de fadiga, a NiT falou com a psicóloga Mara Chora.

“Apesar de existir uma convergência geral para este sentimento, cada pessoa é afetada pela sua experiência pessoal, pelas suas emoções e pelas perceções que tem em relação à situação vivenciada e que podem estar relacionadas com vários aspetos, entre eles o estado de saúde (física e psicológica, diretamente ligado ou não à Covid-19), o suporte social que recebe de familiares, de amigos ou da comunidade, as restrições aplicadas à sua área de residência e os fatores socioeconómicos (como a perda de rendimentos, precariedade laboral ou habitacional, etc.)”, diz.

A fadiga pandémica poderá levar a que a perceção dos riscos vá diminuindo à medida a que a pandemia se prolonga por mais tempo, a que nos desleixemos nos cuidados como lavar as mãos ou usar máscara de proteção. Ainda assim, pode ser distinguida de outros problemas psicológicos como a depressão, na medida em que esta pode caracterizar-se por “um humor invulgarmente triste, irritável e/ou pela diminuição de interesse ou prazer nas atividades e tarefas diárias, durante um período relativamente prolongado e que causa sofrimento à pessoa ou dificuldades no seu funcionamento social”.

A depressão pode ainda ser acompanhada por outros sintomas como o aumento ou perda de apetite ou peso, problemas de falta ou excesso de sono, dificuldades de concentração, falta de energia, desvalorização própria ou sentimentos de culpa.

Quando falamos de ansiedade, a especialista explica que esta, quando em excesso, pode fazer-se notar quando “as perturbações de ansiedade implicam que a pessoa experiencie frequentemente estados de ansiedade e preocupação mais intensos e prolongados, do que aquilo que seria expectável no dia a dia, causando mal-estar, sofrimento e défice no funcionamento social e ocupacional”. Isto poderá levar a pessoa a ter comportamentos de evitamento ou de repetição de pensamentos como forma de tentar aliviar o mal-estar que sente.

No que diz respeito à tristeza, Mara Chora explica que esta é “um estado emocional que resulta da interação entre os sistemas cognitivo, afetivo, fisiológico e comportamental”. É uma resposta a um determinado acontecimento e, por isso, é “um estado passageiro e dirigido a algo específico”.

Uma vez que a fadiga pandémica é também ela uma consequência da pandemia que vivemos, ainda não é possível perceber que riscos é que esta pode trazer para cada um ou para a sociedade. Estamos a passar por tempos incertos em que não é possível prever com exatidão o que vai acontecer, vemos algumas liberdades serem restritas, pessoas a ficarem sem emprego, sem alguns familiares e uma crise socioeconómica que ainda virá. Ainda assim, a psicóloga alerta: “Também é certo que muitos de nós sairemos mais resilientes e com uma grande capacidade de adaptação”.

Em Portugal ainda não há estudos isolados que abordem apenas a questão da fadiga pandémica, mas é provável que possam sair em breve. No entanto, há outros dados que podem ajudar a compreender esta questão, principalmente ligados aos impactos da pandemia e do confinamento na saúde mental, questões de ansiedade ou características que nos tornam mais vulneráveis à fadiga no geral.

No estudo “O Que Pensam e o Que Sentem as Famílias em Isolamento Social”, do qual Mara Chora também fez parte, os resultados indicam que “pais e crianças apresentam níveis normativos de ansiedade, depressão e stress, ou seja, são valores expectáveis para as vivências e acontecimentos do dia a dia”, ainda assim, há um conjunto de pais e crianças que apresentam valores mais elevados e que estão relacionados, o que quer dizer que “pais mais ansiosos, deprimidos e stressados, têm filhos mais ansiosos”.

Para evitar os sintomas da fadiga pandémica ou com isso levar a outros problemas de saúde mental como depressão ou ansiedade, a psicóloga recomenda que se recorra a fontes de informação fidedignas e claras, evitando assim as fake news.

“Por muito realistas que possam parecer as correntes nos chats com teorias da conspiração ou dicas e truques para fintar o vírus, isso só provoca mais desinformação e não nos ajuda a combater eficazmente ou a prevenir o contágio.”

Por outro lado, quando a informação for excessiva e nos causar incómodo, a especialista recomenda que nos permitamos afastar um pouco, sem deixar de manter alguma atualização. Ou seja, não precisamos de ver todas as notícias que há, mas é necessário mantermo-nos informados.

Para ajudar a passar o tempo, convém encontrar atividades de que gostemos e não descurar os cuidados pessoais, “sejam eles momentos de relaxamento, fazer desporto, ler” ou outros. Conversar sobre aquilo que nos preocupa com pessoas da nossa confiança também é uma boa estratégia. Se necessário, não devemos duvidar em procurar ajuda de um profissional especializado.

“Apesar do estigma que continua a existir, não é motivo de vergonha reconhecermos que o momento atual pode estar a ser demasiado exigente.”