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15.11.22

Os novos pobres

Joana Petiz, editoria, in DN

O primeiro sinal que denuncia que a situação está a azedar é o aparecimento de balcões de compra de ouro. Quando começamos a reparar neles, tornam-se também evidentes os pedintes à porta dos supermercados. Já não é só o do costume - que até já sabemos que agradece um bolo de vez em quando, para desenjoar da sopa que os beneméritos repetem para lhe forrar o estômago; são quatro, cinco, seis, que se encolhem já contra as paredes mais próximas, esperando-se suficientemente óbvios para merecer a caridade alheia mas invisíveis na humilhação de terem de pedir para viver.

Mas há também outros agora, a quem nem se adivinham necessidades à primeira vista, mas que ao abrigo da noite marcham em busca da solidariedade de uma Igreja remota ou de organizações como a ReFood para levarem comida à mesa da família. Têm emprego, têm casa, têm uma família funcional e até tinham pequenos luxos como férias fora do país, mas veem-se de repente incapazes de pagar todas as despesas do mês e ainda ter fundos para levar do supermercado tudo aquilo de que precisam para alimentar os seus.

A Cáritas já sinalizou os "casos de pobreza" em Portugal, o "pavor" que sente às pessoas, de não conseguirem pagar a casa ou a renda. Ao Banco Alimentar Contra a Fome chegam pedidos de ajuda também das instituições cuja missão é apoiar quem precisa, porque esgotaram a capacidade de acorrer a todos os que as procuram.

Agora, é também Bruxelas que lança alertas num contexto de inflação que persiste em tempo e em força, deixando os países mais frágeis numa situação ainda mais debilitada. De acordo com a Comissão Europeia, um milhão de portugueses vive já no limite da pobreza energética e a "inflação e a debilidade da economia" podem somar-lhes mais 500 mil em breve. E os números do Pordata apontam que uma em cada quatro casas tem más condições de habitabilidade e quase metade da população precisa de apoios sociais para não ficar condenada a sobreviver com rendimentos abaixo do limiar da pobreza.

2.11.22

Pobres

Margarida Balseiro Lopes, opinião, in JN

Portugal tem atualmente quase dois milhões de pessoas a (sobre)viver com menos de 554 euros por mês. Sem os apoios sociais, o número seria de 4,4 milhões de pobres no país. Acima do limiar da pobreza estão 400 mil pessoas que, apesar de não se "enquadrarem" como pobres nos termos deste valor de referência, não têm condições de habitação, não conseguem ter uma alimentação saudável e equilibrada ou aquecer as suas casas. Estes dados, além de nos envergonharem coletivamente, são o mais cabal exemplo do falhanço das políticas públicas implementadas ao longo dos últimos anos.

É verdade que a pandemia veio agravar este triste retrato de um país doente, onde metade da sua população seria pobre sem as transferências do Estado. Em comparação com o ano anterior, em 2020, houve mais 58 mil famílias no escalão mais baixo de IRS, um aumento de 8,5%.

Porém, a pandemia não se circunscreveu ao território nacional, pelo que não poderá justificar que Portugal tenha visto os seus indicadores de pobreza a deteriorarem-se face aos outros estados-membros. Com efeito, piorámos tanto na taxa de risco de pobreza como na desigualdade de rendimentos. No indicador das condições de alojamento, Portugal consegue ser o segundo pior país dos 27 da União Europeia, com um quarto da população a viver em alojamentos com más condições.

O perfil dos mais pobres também é desolador: pessoas mais jovens com filhos a cargo, pessoas com menos de 18 anos, maiores de 65 anos e desempregados. Cerca de uma em cada quatro crianças portuguesas vivia no ano passado em situação de pobreza ou exclusão social, o que naturalmente impacta no seu desempenho escolar, na sua saúde e nas oportunidades futuras.

A juntar ao crescente número de pessoas a viver em privação material, a degradação dos serviços públicos de saúde e educação acentua a situação de pobreza em que milhares de pessoas se encontram. Um português que não tem médico de família, não consegue o agendamento de consulta ou cirurgia ou não tem resposta para os seus problemas de saúde quando encontra um serviço de urgência encerrado vê acentuada a sua situação de pobreza. O mesmo sucede sempre que uma criança não tem professores a uma ou mais disciplinas, algumas nucleares para o seu percurso formativo.

O Governo podia dar respostas estruturais a esta objetiva rota de empobrecimento. Desde logo, proporcionando as condições necessárias para que haja uma aposta na criação de riqueza e na correção da má qualidade das políticas de redistribuição. No entanto, ao fim de sete anos de governação, não parece ser agora que esse caminho venha a ser corrigido. O Governo podia, por outro lado, atuar a nível conjuntural através da política orçamental. Só que, como se viu pelo Orçamento do Estado, aprovado esta semana, essa também não foi a opção.

* Jurista

5.9.22

Inflação quando nasce não é igual para todos. Sete razões para os pobres sofrerem mais

João Carlos Malta, in RR

O Governo vai apresentar esta segunda-feira um pacote de medidas de combate à inflação que, apesar de ter recuado em agosto, se mantém nos 9%. Há muitas dúvidas de como o executivo vai construir um "mix" para combater a escalada de preços, mas há certezas entre os economistas sobre quem mais perde.

A inflação não tem o mesmo peso para todos e não atinge todos da mesma forma. É, em muitos casos, quase uma experiência pessoal, mas também há tendências que dividem os vários grupos socioeconómicos. Os pobres também neste domínio são os que mais perdem.

As experiências das pessoas com o aumento dos preços dependem de onde vivem, quanto ganham e como gastam.

Em abril, um estudo de um grupo de economistas da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), liderado por Susana Peralta, agrupou três categorias de consumo (produtos alimentares, habitação e transportes), e chegou à conclusão de que seria necessário transferir entre 220 euros e 545 euros por ano para cada agregado dos 20% mais pobres em Portugal, de forma a colmatar o aumento dos preços nestes bens.

Em resumo, os economistas são consensuais em dizer que as famílias com mais rendimentos sofrem menos inflação do que as famílias pobres. Mas porquê?
1 - Consumo pesa mais nos mais pobres

O consumo das famílias pobres, em termos de percentagem do seu ganho e do seu rendimento, pesa muito mais do que numa família rica, avança o economista da Porto Business School, Filipe Grilo.

“Pensamos, por exemplo, no pão. Não é por ganharmos 1.000 euros ou 5.000 euros que comemos mais pão. Portanto, o pão acaba por ter um peso maior nas famílias mais pobres do que nas das famílias mais ricas”, ilustra.

Em abril, Susana Peralta dizia que, se olharmos para alimentos como o pão e os cereais, as famílias que incluem os 20% mais pobres do país gastam 17% da sua despesa em alimentação apenas nestes dois itens (5% do orçamento familiar global). Nos mais ricos, o peso é de apenas 3,6%.
2 - Sem energia não há vida

A economista Susana Peralta, professora da Nova SBE, afirma que as pessoas “não podem viver sem energia”. Não há como fugir.

E como recebem menos, para os mais pobres é mais difícil de acomodar as subidas de preço.
3 - Sem margem de ajustamento

Susana Peralta afirma que, em geral, a inflação tem um efeito que é desigual do ponto de vista social, porque “há uma margem de ajustamento que as pessoas mais ricas têm e que as pessoas mais pobres não têm”. A isso chama-se poupança.

“As pessoas mais pobres não poupam e até têm, em muitos casos, poupança negativa”, sublinha.
4 - Descer na escala de preços

As famílias com maior rendimento podem começar a comprar versões mais baratas dos bens mais caros quando os preços sobem, e assim acomodar as subidas. Por outro lado, as famílias pobres, como presumivelmente já compram os itens mais baratos, não têm como gastar menos.

Ou seja, se eu beber o leite A, posso passar para o B mais barato. Se for pobre, à partida, a única solução é deixar de o beber.

“Os ricos conseguem ter maior capacidade de substituir os bens, baixando um bocadinho os standards na qualidade”, afirma Filipe Grilo.

Ou, como diz Susana Peralta, “as pessoas que têm padrões de consumo mais sofisticados conseguem também ajustar por aí, indo a marcas mais baratas”.
5 - Pobres consomem o essencial, e não têm margem

As famílias pobres gastam cerca de dois terços do que ganham alimentação, transporte, renda de casa, serviços públicos e comunicações. São dimensões de consumo a que não podem fugir, mesmo que os preços subam.

Em contraste, as famílias das classes mais abastadas gastam mais dinheiro em coisas que não são essenciais. Por isso, e de forma a fugir à inflação podem parar de comprá-los se os preços ficarem muito altos.

6 - Peso da casa

O peso dos gastos com habitação é também mais pesado para os mais pobres do que para os mais ricos, pelo que qualquer aumento se repercute de forma desigual.

Os custos das casas aumentaram acentuadamente desde a pandemia e os empréstimos estão agora mais caros, tornando a compra de casa inacessível para muitas famílias.

Como os possíveis compradores não podem adquirir casas, os proprietários passam a alugá-las. Um dos efeitos pode ser o aumento das rendas. Ora quem arrenda é normalmente quem menos dinheiro tem.

Por outro lado, os proprietários veem as casas aumentarem de valor e, muitas vezes, desfrutam de uma barreira às variações da inflação, porque muitos refinanciaram os empréstimos em 2020 e 2021, quando as taxas estavam mais baixas.

7 - Classe média baixa sofre

A classe média baixa pode em algumas circunstâncias ser quem mais vai sofrer.

“Vão ter muito mais dificuldades do que as pessoas mais pobres, porque as pessoas mais pobres já estavam qualificadas para ter um apoio total. A franja da classe média baixa, que poderá ter ainda mais dificuldades, poderá ser arrastada para o limiar da pobreza por causa da inflação”, avança Filipe Grilo.

8.6.22

Covid-19: beneficiários do programa que ajuda a comprar medicamentos dispara com a pandemia

in SIC

Programa abem: utiliza os donativos para ajudar na comparticipação de medicamentos dos mais pobres.
Os dois anos de pandemia da covid-19 fizeram disparar o número de beneficiários do Programa abem:, que garante a compra de medicamentos prescritos a quem não tem possibilidades financeiras. Neste momento são já mais de 28.000.

Maria João Toscano, diretora executiva da Associação Dignitude, promotora do Programa abem: Rede Solidária do Medicamento, disse à agência Lusa que houve “um acréscimo desmesurado de novas famílias” e, nos anos de 2020 e 2021, entraram mais de 7.000 novos beneficiários.

“Tivemos nas primeiras fases de pandemia um despedimento grande, muitas empresas a fecharem, muitas situações de pessoas com trabalhos em que a empresa é apenas a própria pessoa e que tiveram de fechar, ficando sem qualquer tipo de recurso para fazer face às suas despesas, nomeadamente em medicamentos”, contou.

A responsável destaca este aumento de beneficiários e reconhece que, para uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) como a Dignitude, apesar da dispersão em termos nacionais, significa “alocar um número muito grande de pessoas para apoiar”.

“Esta é uma situação que ainda não terminou e é previsível que este crescimento se mantenha”, admite, alertando:

“Vamos ter agora o término das moratórias e muitas outras responsabilidades que as pessoas puderam obviar – com os lay-off -, levam agora a uma reorganização de todo o tecido empresarial, com impacto que resulta muitas vezes em despedimentos”.

A responsável sublinha que há o risco de mais famílias ficarem “sem rede” para fazer face a uma situação essencial como o acesso ao medicamento para controlo da doença.



PROGRAMA ABEM: UTILIZA OS DONATIVOS PARA AJUDAR NA COCOMPARTICIPAÇÃO DE MEDICAMENTOS DOS MAIS POBRES


Maria João Toscano explicou à Lusa que o Programa abem: constituiu um fundo solidário autónomo que recebe donativos da sociedade civil, de parceiros da associação e de empresas e “só utiliza estes donativos para cocomparticipacão de medicamentos”.

Sendo beneficiário do programa, na compra de medicamentos, a parte que cabe ao utente pagar é garantida por este fundo, que a responsável reconhece que tem sempre de estar a ser alimentado.

“Estamos agora com uma campanha, que se chama ‘um euro abem’, junto da população, através das farmácias aderentes dispersas pelo país, porque temos de estar de forma sistemática a renovar aquilo que nos dão para fazer face a este crescimento desmesurado de beneficiários”, explicou.

Nesta campanha, os portugueses são convidados a doar um euro ao Fundo Solidário abem: nas idas à farmácia. Todos os donativos recolhidos serão exclusivamente utilizados para garantir o acesso aos medicamentos prescritos e comparticipados a quem mais precisa.

“Não nos podemos esquecer que estamos a falar de franjas da população que são os mais pobres dos pobres. São aquelas pessoas que têm de escolher entre comprar o alimento de que necessitam ou o medicamento. E nós sabemos qual é a opção que vão tomar”, afirmou.

Maria João Toscano refere que este programa da associação Dignitude acaba por aliviar despesas do Serviço Nacional de Saúde (SNS): “Se as pessoas tiverem a saúde controlada, não agravamos o orçamento do SNS e estamos a aliviá-lo noutra rubrica, que é a dos nos internamentos e nas urgências”.

A responsável recorda que em grande parte da sociedade portuguesa os orçamentos familiares são muito baixos e muitas famílias não conseguem fazer face a todas as despesas, incluindo a compra de medicamentos prescritos pelo médico.

Quanto aos beneficiários do Programa abem:, cerca de 32% são pessoas com 65 anos ou mais, 12% são crianças, mas mais de metade (56%) são pessoas em idade ativa, entre os 18 e os 64.

“Temos muita gente que está empregada, mas um dos elementos deixou de trabalhar e não conseguem fazer face a esta necessidade. O facto de trabalharmos diariamente e quando chegamos ao fim do dia não conseguimos fazer face àquilo que são despesas essenciais e exigentes, mas que não são grandes, para contribuir para a melhoria da nossa saúde, é algo muito constrangedor”, frisou.

16.11.21

Pobres: os que não têm casa, dinheiro para os medicamentos, mas também os que poupam

Ana Catarina André, in RR

O trabalho, a família, a saúde e o meio em que cada pessoa vive determinam o quotidiano. E se, entre os pobres, há quem construa uma barraca para abrigar os filhos, também há quem tenha um emprego fixo e quem consiga juntar dinheiro

Dois pães oferecidos pela Cáritas para o pequeno-almoço, uma sopa quente, a meio do dia, dada pela Santa Casa da Misericórdia, um café pago por “um dos conhecidos da terra”, durante a tarde, e uma refeição quente para o jantar, proporcionada pela Refood. É assim que Maria (nome fictício), de 63 anos, se alimenta todos os dias. Desde que ficou desempregada, há mais de cinco anos (trabalhava como auxiliar, num lar), sem rendimentos e sem o apoio da família, tornou-se sem abrigo.

Perdida, sem casa e sem dinheiro, Maria procurou refúgio no álcool. “Comecei a beber ainda mais, quando passei a dormir na rua. Ia ao supermercado buscar um pacote de vinho para me aquecer e para me esquecer daquela situação”, conta a mulher que, depois de vários anos em Londres, onde trabalhou em hotéis e restaurantes, se mudou para Vila Real. “Num dia muito frio, estava a dormir junto ao prédio da esquadra da polícia, aqui em Vila Real, e uma senhora aproximou-se. Tapou-me com uma manta e ofereceu-me uma canjinha quente.”
Dois milhões de pobres em Portugal

Segundo dados do INE, referentes a 2019, em Portugal 16,2% da população vive abaixo do limiar da pobreza, ou seja, tem um rendimento inferior a 540 euros por mês. De acordo com dados de 2020 do Eurostat, 20% dos portugueses estão risco de pobreza ou exclusão social, o que equivale a cerca de dois milhões de pessoas.

Atualmente, Maria recebe o rendimento social de inserção (RSI): 189 euros por mês. Como paga 200 euros pelo quarto (mora numa pensão), ainda fica a dever 20 euros, pagos mensalmente pela Segurança Social. Não tem nem mais um cêntimo ao longo do mês. As suas dificuldades, porém, não são só financeiras. “Com a pandemia fiquei ainda mais sozinha. Tenho dois filhos, mas não falo com eles. Agora voltei a fazer atividades na Cáritas e com a ajuda das técnicas estou a fazer um tratamento para o álcool.”

Maria alimenta-se diariamente graças ao apoio de associações de solidariedade. Foto: Lusa

“Ser pobre não é somente ter poucos recursos. É também estar excluído de uma vida digna e ser carenciado de direitos de cidadania”, afirma o professor universitário Carlos Farinha Rodrigues que desenvolve há anos investigação sobre o tema. “A pobreza em Portugal é hoje muito diversificada. Abrange uma multiplicidade de situações que exigem também políticas diferenciadas”, considera o especialista.
"Nunca tivemos uma estratégia de sucesso em relação às crianças. Na minha opinião, qualquer Estratégia de Combate à Pobreza tem de começar por elas, porque têm uma situação mais grave do que o resto da população."

Uma heterogeneidade que, muitas vezes, não se reflete nos indicadores usados para analisar o fenómeno. A própria definição de limiar da pobreza assenta exclusivamente no rendimento das famílias. “Não temos neste indicador qualquer relação entre níveis de rendimento e níveis de consumo básicos. É evidente que se eu tiver duas famílias com o mesmo rendimento, mas uma tem duas ou três pessoas deficientes, as necessidades são completamente diferentes”, assegura o investigador, membro da comissão que elaborou recentemente a proposta de Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030.

Uma das faixas etárias a que a proposta pretende dar resposta é a dos menores. “Infelizmente nunca tivemos uma estratégia de sucesso em relação às crianças. Na minha opinião, qualquer Estratégia de Combate à Pobreza tem de começar por elas, porque têm uma situação mais grave do que o resto da população e são um foco de reprodução intergeracional da pobreza.” E explica: “Uma política para retirar as crianças da pobreza implica medidas para as crianças, mas também para a família.”


Viver numa barraca sem água e sem luz

Verónica tem três filhos menores: uma rapariga de 16 anos e dois rapazes, um de 9 e outro de 2. Vivem numa barraca clandestina, no concelho de Loures, onde vez de quando aparecem também ratos e pulgas. Não têm água e dependem da boa vontade de uma vizinha para encher os reservatórios que têm à porta. A luz, uma “puxada” feita a partir da rede de eletricidade pública, também falha na maior parte dos dias.

“Tentei encontrar um sítio para viver com os meus três filhos e o meu marido, mas não tínhamos dinheiro para pagar a renda. Ele também está desempregado. Então fizemos esta barraca”, conta a cabo-verdiana de 34 anos, que recorre ao Banco Alimentar para alimentar a família. “Não é fácil viver no meio do mato. Às vezes, estou quatro dias sem luz. Carrego o telefone e lavo a roupa em casa de um primo. Na barraca, há muitos bichos e, como os meus filhos são alérgicos às picadas de inseto, ficam com o corpo todo picado, em ferida.”

Verónica e o marido vivem ambos do RSI. Com a pandemia, encontrar emprego tornou-se ainda mais difícil. “Quero trabalhar, mas preciso de uma creche para o meu filho mais pequeno. Só há vaga para os meninos que têm pais com contrato de trabalho, mas se não tenho onde deixá-lo, como é que vou fazer?”

Em 2010, quando Verónica deixou o emprego de secretária, em Cabo Verde, e aterrou em Lisboa para começar uma nova vida, acreditava que tinha acabado de chegar ao “paraíso”. “Era tudo ilusão.” Esteve ilegal no país durante dois anos. Trabalhou como empregada doméstica e na restauração, sem que os patrões lhe dessem, na maioria das vezes, um contrato de trabalho. Morou sempre em habitações com condições precárias – na última casa que arrendou, chovia no interior e a humidade era tanta que cheirava mal.

Construção de barracas regressa à Grande Lisboa. "Não podia ir para a rua com as crianças"

Trabalham, mas são pobres

Nem sempre é a inexistência de um sustento que explica a carência em que vive um quinto da população. De acordo com o estudo “A Pobreza em Portugal: Trajetos e Quotidianos”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em abril deste ano, 13% das pessoas em situação de pobreza estão desempregadas, um número que dispara quando comparado com o grupo dos que têm vínculo laboral. Um terço (32,9%) das pessoas que vivem em situação de pobreza em Portugal são trabalhadores, a maioria das quais com vínculos estáveis e salários certos ao fim do mês.

“A estrutura produtiva portuguesa está assente em sectores de atividade, onde por regra se paga mal e os trabalhos são precários, como o turismo, a construção civil, a agricultura e pescas e mesmo alguma indústria”, explica o coordenador da pesquisa, o sociólogo e professor da Universidade dos Açores, Fernando Diogo. “Para mudar esta situação de base, é preciso alterar a especialização produtiva da economia portuguesa.”

Manuela (nome fictício), moçambicana de 60 anos a viver em Portugal há mais de 10, nunca esteve desempregada, mas também nunca ganhou mais do que o salário mínimo. “A minha filha teve um acidente e viemos para cá ao abrigo dos acórdãos entre os dois países, para que ela pudesse ser assistida”, conta a africana, que começou por encontrar sustento como auxiliar, num lar de idosos, e agora trabalha como vigilante.

“Pago 395 euros de renda, e mais ou menos 79 euros em água, luz e telefone. Como a minha filha é deficiente, tivemos de pôr um elevador na escada do prédio, para que ela possa entrar sozinha com a cadeira de rodas. Este aparelho tem manutenção mensal de 86 euros mensais. Pagas as contas, fico com os bolsos vazios. Não sobra nada para a alimentação, nem para os medicamentos dela.”

Graças ao apoio da Junta de Freguesia de Mem Martins, que lhe dá um cabaz com géneros alimentícios, Manuela consegue preparar as refeições. “Só tenho de saber gerir o que me dão. Faço muitas sopas passadas e tento diversificar para não ficarmos cansadas. Dão-nos o básico e recebemos com muita, muita honra. Não ficamos com fome”, garante.

Foi, também, através do mesmo organismo autárquico que soube da existência do programa Abem, da associação Dignitude, que permite que pessoas em situação de carência económica possam aceder aos medicamentos. “Foi uma salvação. Só em farmácia são 85 euros. Onde é que os ia arranjar com as despesas que já tenho?” Antes de conseguir este apoio, a filha de Manuela, já com 39 anos, tinha crises sucessivas. “Dava-lhe os comprimidos que conseguia comprar com o dinheiro que tinha, mesmo sabendo que ela precisava de tomar aqueles remédios todos”, lamenta a mãe.

Segundo os estudos mais recentes, um em cada dez portugueses não compra os medicamentos prescritos pelo médico por não ter dinheiro para os pagar. “Se os estudos feitos a nível universitário apontam para cerca de um milhão de pessoas com dificuldade em comprar medicamentos, não vamos pensar que os dois milhões de pobres em Portugal têm folga para comprar medicamentos, sobretudo quando são caros do ponto de vista relativo. Entidades como a Dignitude fazem um bocadinho, mas é preciso mais”, alerta Maria de Belém Roseira, antiga ministra e embaixadora da associação Dignitude que desenvolveu o programa Rede Solidária do Medicamento.

“Vivemos num país em que a carga de doença nas pessoas com mais de 65 anos é muito mais elevada do que noutros países da Europa. Somos mais pobres, temos condições de trabalho menos protegidas, casas sem condições, vidas muito sacrificadas”, acrescenta.

Reformas baixas: um mundo de mundos

De acordo com o estudo “A Pobreza em Portugal: Trajetos e Quotidianos”, 27,5% das pessoas com rendimentos insuficientes são reformados. É o caso de Paulo, de 57 anos, que luta há mais de duas décadas contra o cancro. Foi diagnosticado com um tumor na face, que obrigou os médicos a amputarem-lhe o nariz e o olho esquerdo, e mais recentemente, teve um linfoma. “Se pudesse, trabalhava, mas ninguém dá emprego a uma pessoa na minha situação”, constata o antigo empregado de mesa, reformado por invalidez.
“Se pudesse, trabalhava, mas ninguém dá emprego a uma pessoa na minha situação.”

“Recebo cerca de 400 euros por mês. Metade uso para pagar a renda da casa que divido com a minha companheira, também ela doente e com um rendimento de 98 euros. O que sobra gastamos no supermercado. Felizmente recebemos ajuda da igreja do Catujal [concelho de Loures] há 7 anos. De lá trazemos congelados, fruta, massa e outros produtos.” Fome, felizmente, nunca passaram. “O padre Mário e os voluntários que trabalham com ele disseram-nos várias vezes para falarmos com eles, caso haja alguma falha ao longo do mês.”

Com um rendimento semelhante, António, de 82 anos, tem um quotidiano completamente distinto. Vive numa república sénior, uma solução habitacional destinada a idosos funcionais criada pelo Centro Social Paroquial de São Jorge de Arroios, em Lisboa. Desde que se mudou, em 2015, não ganhou só novos colegas de casa, mas uma “vida nova”. Tem cama, comida e roupa lavada. “Antes, vivia em quartos alugados à mercê de senhorios”, conta o português, que fez carreira na área do imobiliário.

A reforma de apenas de 400 euros (tão baixa, porque não fez os devidos descontos para a Segurança Social) chega para pagar o apoio que recebe e para os medicamentos. Mesmo passando muitos dias sozinho (aproveita para ler), e tendo ficado cego do olho esquerdo durante a pandemia (o atraso nas consultas impediu que o problema fosse detetado a tempo), António mantém a esperança. “Esta viragem na minha vida tem sido muito positiva no campo espiritual.”

Poupar com uma reforma de 300 euros

Um dos fatores que continua a ter mais impacto na situação de vida dos mais carenciados é o meio onde estão inseridos. Como explica o investigador Carlos Farinha Rodrigues, “nas grandes cidades a pobreza é fortemente determinada pelo desemprego”. “No campo as pessoas não estão tão dependentes de um salário, tem as suas próprias terras, as suas hortas e, portanto, têm alguns fatores de compensação”.

À porta de casa, numa aldeia do concelho de Alenquer, Rita Barata prepara-se para passar a tarde a limpar o terreno que circunda a pequena moradia onde mora. Aos 85 anos, continua a trabalhar no campo todos os dias.

“Semeio batatas, cebolas, couves, feijão-verde, morangos. Tenho galinhas que vão dando uns ovinhos. Assim, não preciso de comprar. É uma ajuda”, conta a idosa, que recebe uma pensão de 325 euros e ainda consegue juntar dinheiro.

“Como é que se poupa? Não estragando”, afirma, com prontidão. “Esta casa onde moro era do meu sogro. Fui eu que piquei as paredes e fui juntando para as obras”, diz, contando que, desde cedo, aprendeu a usar a enxada e a “ter cabecinha para governar a vida.”

“Se quero comprar um fogão novo, ponho de parte algum dinheiro todos os meses. Roupa não compro – tenho muita. Onde gasto mais dinheiro é em chinelos e batas.” É uma questão de otimismo e perspetiva, assegura a octogenária. “O dinheiro é pouco, mas sabemos que no passado era ainda menos.”

16.3.21

Foram os mais pobres quem mais pagou a crise provocada pela pandemia

Por José Milheiro, in TSF

Com a pandemia, "os mais pobres são os que perderam mais rendimento disponível" conclui relatório dos investigadores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

O "Balanço Social 2020", publicado esta quarta-feira, por três investigadores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova School of Business & Economics - SBE) sublinha que a pandemia colocou a nu um mercado de trabalho instável.

Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves argumentam que "o trabalho foi das esferas da vida mais afetadas pela pandemia e os mais vulneráveis, com menos rendimentos, com menos escolaridade ou em situações laborais mais precárias foram os mais afetados".

Ainda sem o puzzle completo dos dados de 2020 é já possível fazer um retrato do impacto da pandemia na sociedade e a primeira conclusão para a economista Susana Peralta é que esta é uma crise assimétrica, "uma crise que está a afetar de forma desproporcional as partes da população mais desfavorecidas em relação ao seu nível de educação, da idade e do nível de rendimento".

A investigadora da Nova SBE adianta que a crise veio acentuar os níveis de pobreza extrema. Daqui a um ano vamos encontrar mais pobreza mas isso não quer dizer que a taxa de pobreza seja superior. Em 2019 o limiar de pobreza eram 501 euros por mês.

"Uma coisa é a pessoa ser pobre com 450 euros, outra é ser pobre com 150 euros, portanto é muito provável que nós encontremos um aumento das taxas de pobreza mais extremas, agora se aquele indicador mágico de 17,2%, que toda a gente olha, posso garantir que ele vai estar mais alto? Não, não posso pela forma estatística como se calcula esse indicador". Este indicador da pobreza depende da distribuição mediana dos rendimentos.

Um outro olhar que as políticas públicas deveriam aproveitar para fazer é para um mercado de trabalho instável, que promove a sazonalidade e os tempos parciais.

Para Susana Peralta, "políticas como o salário mínimo não resolvem o problema destas pessoas. O salário mínimo apenas abrange as pessoas que têm um contrato de trabalho e estão a tempo inteiro, uma pessoa que esteja a part-time já não é coberta e uma pessoa que esteja com recibo verde não é abrangida".

Susana Peralta adianta que foi devido a esta leitura espartilhada que não foi possível chegar com os mecanismos de layoff simplificado a estas franjas de trabalhadores precários.

Por outro lado, foram os setores que não poderiam ir para teletrabalho e que têm os salários mais baixos foram aqueles que puseram os trabalhadores em layoff retirando-lhes parte do rendimento mensal.

"Os setores mais afetados pela crise pandémica - Restauração, Moda e Acessórios, Transportes de Passageiros e os Alojamentos Turísticos - têm uma prevalência de salários baixos, trabalhadores com baixas qualificações, mulheres e trabalhadores estrangeiros em relação à média de todos os setores da economia", concluiu o relatório.Foram os mais pobres quem mais pagou a crise provocada pela pandemia

Com a pandemia, "os mais pobres são os que perderam mais rendimento disponível" conclui relatório dos investigadores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

O"Balanço Social 2020", publicado esta quarta-feira, por três investigadores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova School of Business & Economics - SBE) sublinha que a pandemia colocou a nu um mercado de trabalho instável.

Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves argumentam que "o trabalho foi das esferas da vida mais afetadas pela pandemia e os mais vulneráveis, com menos rendimentos, com menos escolaridade ou em situações laborais mais precárias foram os mais afetados".

Ainda sem o puzzle completo dos dados de 2020 é já possível fazer um retrato do impacto da pandemia na sociedade e a primeira conclusão para a economista Susana Peralta é que esta é uma crise assimétrica, "uma crise que está a afetar de forma desproporcional as partes da população mais desfavorecidas em relação ao seu nível de educação, da idade e do nível de rendimento".

A investigadora da Nova SBE adianta que a crise veio acentuar os níveis de pobreza extrema. Daqui a um ano vamos encontrar mais pobreza mas isso não quer dizer que a taxa de pobreza seja superior. Em 2019 o limiar de pobreza eram 501 euros por mês.

"Uma coisa é a pessoa ser pobre com 450 euros, outra é ser pobre com 150 euros, portanto é muito provável que nós encontremos um aumento das taxas de pobreza mais extremas, agora se aquele indicador mágico de 17,2%, que toda a gente olha, posso garantir que ele vai estar mais alto? Não, não posso pela forma estatística como se calcula esse indicador". Este indicador da pobreza depende da distribuição mediana dos rendimentos.

Um outro olhar que as políticas públicas deveriam aproveitar para fazer é para um mercado de trabalho instável, que promove a sazonalidade e os tempos parciais.

Para Susana Peralta, "políticas como o salário mínimo não resolvem o problema destas pessoas. O salário mínimo apenas abrange as pessoas que têm um contrato de trabalho e estão a tempo inteiro, uma pessoa que esteja a part-time já não é coberta e uma pessoa que esteja com recibo verde não é abrangida".

Susana Peralta adianta que foi devido a esta leitura espartilhada que não foi possível chegar com os mecanismos de layoff simplificado a estas franjas de trabalhadores precários.

Por outro lado, foram os setores que não poderiam ir para teletrabalho e que têm os salários mais baixos foram aqueles que puseram os trabalhadores em layoff retirando-lhes parte do rendimento mensal.

"Os setores mais afetados pela crise pandémica - Restauração, Moda e Acessórios, Transportes de Passageiros e os Alojamentos Turísticos - têm uma prevalência de salários baixos, trabalhadores com baixas qualificações, mulheres e trabalhadores estrangeiros em relação à média de todos os setores da economia", concluiu o relatório.

12.3.21

Foram os mais pobres quem mais pagou a crise provocada pela pandemia

José Milheiro, in TSF

Com a pandemia, "os mais pobres são os que perderam mais rendimento disponível" conclui relatório dos investigadores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa

"Balanço Social 2020", publicado esta quarta-feira, por três investigadores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova School of Business & Economics - SBE) sublinha que a pandemia colocou a nu um mercado de trabalho instável.

Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves argumentam que "o trabalho foi das esferas da vida mais afetadas pela pandemia e os mais vulneráveis, com menos rendimentos, com menos escolaridade ou em situações laborais mais precárias foram os mais afetados".

Ainda sem o puzzle completo dos dados de 2020 é já possível fazer um retrato do impacto da pandemia na sociedade e a primeira conclusão para a economista Susana Peralta é que esta é uma crise assimétrica, "uma crise que está a afetar de forma desproporcional as partes da população mais desfavorecidas em relação ao seu nível de educação, da idade e do nível de rendimento".

A investigadora da Nova SBE adianta que a crise veio acentuar os níveis de pobreza extrema. Daqui a um ano vamos encontrar mais pobreza mas isso não quer dizer que a taxa de pobreza seja superior. Em 2019 o limiar de pobreza eram 501 euros por mês.

"Uma coisa é a pessoa ser pobre com 450 euros, outra é ser pobre com 150 euros, portanto é muito provável que nós encontremos um aumento das taxas de pobreza mais extremas, agora se aquele indicador mágico de 17,2%, que toda a gente olha, posso garantir que ele vai estar mais alto? Não, não posso pela forma estatística como se calcula esse indicador". Este indicador da pobreza depende da distribuição mediana dos rendimentos.

Um outro olhar que as políticas públicas deveriam aproveitar para fazer é para um mercado de trabalho instável, que promove a sazonalidade e os tempos parciais.

Para Susana Peralta, "políticas como o salário mínimo não resolvem o problema destas pessoas. O salário mínimo apenas abrange as pessoas que têm um contrato de trabalho e estão a tempo inteiro, uma pessoa que esteja a part-time já não é coberta e uma pessoa que esteja com recibo verde não é abrangida".

Susana Peralta adianta que foi devido a esta leitura espartilhada que não foi possível chegar com os mecanismos de layoff simplificado a estas franjas de trabalhadores precários.

Por outro lado, foram os setores que não poderiam ir para teletrabalho e que têm os salários mais baixos foram aqueles que puseram os trabalhadores em layoff retirando-lhes parte do rendimento mensal.

"Os setores mais afetados pela crise pandémica - Restauração, Moda e Acessórios, Transportes de Passageiros e os Alojamentos Turísticos - têm uma prevalência de salários baixos, trabalhadores com baixas qualificações, mulheres e trabalhadores estrangeiros em relação à média de todos os setores da economia", concluiu o relatório.

4.12.20

FMI não deixa margem para dúvidas. A pandemia está a agravar as diferenças entre ricos e pobres

Vitor Andrade, in Expresso

Os mais abastados podem optar por trabalhar menos durante a pandemia, enquanto os mais pobres têm de sair de casa para ter rendimento, expondo-se ao vírus. Com a testagem em massa, os pobres seriam os mais beneficiados, pois a sua taxa de mortalidade em consequência da covid-19 cairia em aproximadamente três quartos e a economia também sairia a ganhar

A pandemia e os esforços para a controlar têm afetado desproporcionalmente os pobres, tanto dentro dos países como entre eles.

Esta é a principal conclusão a que chegaram três analistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) num estudo publicado ontem ao final da tarde, e onde se refere taxativamente que, em todo o mundo, as infeções e mortes por covid-19 são mais numerosas nos bairros pobres do que nos mais ricos.

A explicação é simples: os mais abastados, garantem os responsáveis do FMI, podem reduzir seu risco de infeção porque têm a opção de trabalhar menos e limitar o tempo que passam na rua.

Allan Dizioli, Michal Andrie e John Bluedorn referem que o efeito daquelas escolhas é profundo. “As simulações do modelo de cálculo utilizado [no estudo] indicam que, enquanto pouco mais de 10% das famílias ricas chegam a ser infetados pelo vírus, mais da metade das famílias pobres seriam infetadas ao longo de um período de dois anos. Isso também se reflete na incidência de mortes: o modelo sugere que a probabilidade de membros de famílias pobres morrerem é cerca de quatro vezes maior. Esses números sugerem que recai sobre os pobres a maior parte dos custos da pandemia em termos de saúde”.

Aqueles analistas dizem que o próprio FMI, numa investigação recente, concluiu que há uma conexão mais precisa entre a riqueza e a saúde relacionada com a pandemia. “A análise baseada em modelos [económicos] mostra que a testagem mais ampla e rápida poderia fornecer informações vitais para conter melhor a propagação do vírus, com benefícios para todos, mas, em especial, os pobres. O nosso estudo vai além da maioria dos modelos epidemiológicos ao analisar o comportamento e as escolhas individuais baseadas no seu rendimento, em vez de enfocar apenas na questão da idade, do género ou de outros dados demográficos”.


Corrida à vacina agrava fosso entre ricos e pobres. Os primeiros já garantiram 9 mil milhões de doses, os restantes podem esperar anos
Mais de 80% das doses de vacinas anti-Covid foram compradas por governos que representam apenas 14% da população global. A maioria das pessoas nos países pobres vai ficar à espera da vacina até 2024, se os países mais ricos continuarem a praticar aquilo a que muitos já chamam “vacinacionalismo”


Assim, aqueles responsáveis, sublinham que o comportamento e as escolhas que deixam os mais pobres na linha de frente da infeção durante uma pandemia “costumam ser fruto da necessidade”.

Primeiro, porque muitos trabalhadores com baixos salários estão empregados em serviços considerados essenciais durante a pandemia (como supermercados e serviços de entrega) ou têm poucas opções de trabalho remoto.

Em segundo lugar, porque é maior a probabilidade de os bairros mais pobres terem uma densidade demográfica maior, o que favorece o contágio.

VACINAS TRAZEM ESPERANÇA

Há ainda uma terceira variável, segundo a qual as pessoas nas comunidades mais pobres também tendem a ter poucas reservas de emergência, o que limita a possibilidade de trabalhar menos horas para reduzir o risco de contágio (por exemplo, trabalhadores independentes na economia informal).

Os analistas do FMI admitem que até é provável que as vacinas comecem a ser disponibilizadas de forma gradual nos próximos meses e anos, “mas, nesse meio tempo, as taxas de infeção continuam a aumentar em alguns países a um ritmo mais veloz do que no início da pandemia. As quarentenas, o distanciamento físico e o uso de máscaras têm sido as ferramentas mais comuns para conter o avanço da pandemia. Contudo, testes baratos e rápidos podem ser outra arma nessa luta”.

Allan Dizioli, Michal Andrie e John Bluedorn adiantam que há duas medidas de caráter político que são essenciais e que podem ajudar a aliviar o grande impacto da epidemia sobre os pobres até que vacinas e tratamentos eficazes estejam amplamente disponíveis e sejam oferecidos a todos que necessitem.

Primeiro, o apoio ao rendimento das famílias mais pobres ajudará diretamente a proteger o consumo dessas pessoas contra o grande choque económico adverso.

TESTAR É CADA VEZ MAIS BARATO

Segundo, informações mais precisas sobre a propagação e a contenção da pandemia através de uma testagem ampla reforça a capacidade de identificar e isolar novos casos, reduzindo os riscos de infeção (os testes rápidos desenvolvidos recentemente são baratos – a Organização Mundial de Saúde conseguiu negociá-los recentemente a cinco dólares por unidade e com o aumento da procura e da produção, os preços unitários podem cair para um dólar ou até menos).

A simplicidade desses testes significa, aliás, que qualquer família ou empresa poderia usá-los (sem a necessidade de equipamentos médicos ou de avaliação por um laboratório), dispensando qualquer tipo de processamento ou registo centralizado.

Embora uma estratégia de testagem em massa possa não impedir todos os surtos, em geral poderia reduzir a propagação da pandemia e mantê-la sob controle, sobretudo quando combinada com o uso de máscaras, a lavagem correta das mãos e o distanciamento físico.

REDUZIR A TAXA DE MORTALIDADE

“O uso de testes para identificar e isolar casos positivos é ainda mais eficaz no controle da pandemia em países com uma proporção maior de famílias mais pobres. O nosso estudo mostra que, se metade dos infetados assintomáticos fosse identificada, as mortes seriam reduzidas em pelo menos três quartos no prazo de um ano. Os pobres seriam os mais beneficiados, pois a sua taxa de mortalidade em consequência da Covid-19 cairia em aproximadamente três quartos com avanços nos testes em massa, em comparação com uma queda pela metade no caso dos mais ricos”.

Independentemente da imposição de quarentenas, dispor de informações melhores através da testagem ampla “sem dúvida impulsiona a economia, pois reduz o risco de infeção nas interações com outras pessoas”.

O IMPACTO NO PIB

E concluem que quando nenhum infetado assintomático é testado e o vírus se propaga sem ser detetado, a queda no PIB da economia representativa é de 15% no primeiro ano. Quando os riscos de infeção são maiores, as pessoas optam por se afastar e reduzem a atividade económica tanto quanto possível.

“A perda cai para apenas 3,3% do PIB se 50% dos assintomáticos forem identificados através de testes e isolados para reduzir o contágio. Isso pode ser conseguido com um teste que tenha uma taxa de verdadeiro positivo (sensibilidade) de 80% se cerca de 60% de toda a população puder ser testada semanalmente”, referem ainda os responsáveis do FMI.

Por outro lado, garantem que “como os testes rápidos têm o potencial de evitar grandes perdas do PIB e os seus custos são comparativamente baixos e decrescentes, o retorno da testagem ampla da população combinada com o uso de máscaras é enorme. Essa abordagem também poderia reduzir algumas das desigualdades agravadas pela pandemia, ajudando as famílias pobres e mais vulneráveis a suportar melhor a crise”.

3.8.20

Prioridade para os mais pobres

Opinião de Francisco Sarsfield Cabral, in RR

É preciso dotar as IPSS e o restante sector social e solidário de um pouco mais de dinheiro público. E também de dinheiro privado. É que estas entidades sociais, de um modo geral, estão próximas dos mais pobres e conhecem quem se justifica ser ajudado.

No segundo trimestre do corrente ano o PIB português baixou 16,5% em relação ao trimestre homólogo de 2019. É uma queda brutal, mas não inesperada. Sobretudo por causa da pandemia, em Portugal e no mundo, é possível que a recuperação da economia portuguesa demore a concretizar-se.

Perante essa perspetiva de incerteza há que encarar o futuro com realismo e prudência. Mesmo desequilibrando temporariamente, e sem sanções de Bruxelas, as contas públicas, e contando com os previstos apoios da UE, não é razoável esperar do Estado português que nos próximos anos continue a despejar dinheiro sobre tudo e mais alguma coisa, na escala em que agora o tem feito. Daí a necessidade de uma estratégia governamental de recuperação económica e social, apontando prioridades.

Gostaria de lembrar uma prioridade, importante segundo a minha opinião, que é relativamente pouco falada. Refiro-me à situação de muita gente que não está na pobreza, mas na miséria e sem ajuda passa fome.

Não ignoro que a ajuda estatal às empresas, particularmente às PME e a às microempresas, é uma forma indireta de travar o desemprego e a pobreza que ele implica. Mas há muitos portugueses e imigrantes que estão fora do Estado social e não são apenas os sem-abrigo. Encontram-se marginalizados, frequentemente não possuem documentos legais, não têm sindicatos nem organizações que defendam os seus direitos, não têm representação no Conselho Económico e Social, não têm voz no espaço público. Muitos são idosos que vivem fisicamente isolados em aldeias desertificadas e quase só têm, quando têm, as visitas e os apoios que a GNR consegue realizar.

A marginalização destas pessoas no limiar da fome e da miséria é agravada pelo facto de elas serem, na maioria, pouco visíveis. Só quem vive relativamente próximo delas as conhece e avalia a tragédia que as atinge.

Daí que os municípios e as juntas de freguesia tenham aqui um papel a desempenhar, como felizmente já acontece em vários casos. Mas as autarquias têm pouco dinheiro, por isso é indispensável que o Estado central para elas canalize verbas adicionais, com a condição estrita de se destinarem ao apoio social dos mais desvalidos.

Como também é preciso dotar as Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) e o restante sector social e solidário de um pouco mais de dinheiro público. É que estas entidades, de um modo geral, estão próximas dos mais pobres e conhecem quem se justifica ser ajudado. Igualmente importa que os portugueses que não são pobres nem passam fome ajudem no que poderem as IPSS e entidades afins a fazer o seu trabalho de apoio aos marginalizados.

20.9.19

E se os pobres desaparecessem!

António Sílvio Couto, in Correio do Minho

Afirmar que ‘muita gente vive à custa dos pobres’ é tanto mais escandaloso quanto óbvio: retirem os pobres dos discursos dos políticos – dentro ou fora de campanha eleitoral, nas decisões ou nas promessas – e pouco ficará na agenda e nas notícias; cortem o que muitos sindicalistas almejam para com os pobres e sucumbirão as reivindicações e as lutas; promovam, de verdade, tantos dos pobres que estendem à mão às entidades sociais – entre as quais as da Igreja católica – e perderão sentido certas ações de benemerência básica ou mais subtil.

Verdadeiramente os pobres devem ser ajudados, podem ser cuidados e precisam de ser abolidos… desde que haja vontade social, política e até religiosa.

Conta-se que um grupo de senhoras muito ‘caridosas’ se reuniu para dirimirem entre si um problema: andavam a interferir – na sua linguagem a ‘roubar’ – umas com as outras com os ‘seus’ pobres… tinham de voltar a respeitar o espaço de cada uma.

Por muito que nos custe temos de enfrentar este problema humano, que tantas pessoas escraviza: a pobreza… tenha ela a configuração com que a quisermos revestir.

Digamos:
– uns são pobres no sentido mais material, sem meios de sobrevivência mínimos e suficientes, somando milhões em todo o mundo e centenas de milhar em Portugal, sobrevivendo com salários baixos, má condições de emprego e de habitação, resultando isso em pessoas muitas vezes revoltadas, exploradas e à mingua de pão, de compreensão e até de dignidade;
– outros podem ser pobres na dimensão mais psicológica, onde os aspetos de ignorância, de insuficiente educação e de negligência caminham à mistura com a submissão a tentáculos de forças que usam os pobres para tentarem concretizar os seus objetivos menos dignos, recorrentes e até subterrâneos… embora possa não haver um inventário credível, vemo-los a salpicar muitas das nossa ruas, deambulando sem nexo nem perspetivas de futuro;
– quantos outros pobres podemos vislumbrar na dimensão espiritual, que é muito mais do que meramente religiosa. De facto, quanta gente vive à solta ou à deriva, sem nexo nem controlo, titubeando por entre meros interesses de contexto individualista e à mercê de valores nem sempre condignos da conduta humana. Talvez a expressão – ‘viver como se Deus não existisse’ – possa resumir esta pobreza de índole espiritual, desde a mais básica até à mais complexa. Para que servem tantas lutas e sacrifícios, tantos projetos e dedicações… se tudo acabar na condição de sermos entes meramente materiais? Como se pode dedicar uma vida – breve, média ou longa – só para que haja um contentamento em prazeres passageiros, imediatistas e quase fúteis?

Efetivamente tudo é (ou será) mais agravado se estas ‘pobrezas’ confluírem na mesma vivência e em igual conduta. Talvez andemos excessivamente a cuidar em debelar a pobreza material, mas não demos as devidas condições para combater a pobreza psicológica e emocional nem a de incidência espiritual… Seria como que estivéssemos a construir um edifício onde as traves principais estariam deficientes e as pinturas mais ou menos bonitas, mas prestes a abrir fendas pela sua incipiente construção…

Num tempo onde a expressão ‘qualidade de vida’ pretende rotular a vivência de um certo bem-estar material, erradicar os pobres poderá ser para muitos dar de comer e uns trocos de conforto, mesmo que isso não seja acompanhado do necessário equilíbrio emocional e psicológico. Em muitos casos dá-se o peixe pescado, mas não se ensina a pescar e tão pouco são dadas instruções para que não se viva dependente daquilo que é dado em vez de fazer participar na solução e não em prolongar o problema. Estes pobres presos pela boca continuarão a bajular quem lhes alimenta a fome, controla a liberdade e condiciona o existir.
Aquele estribilho – ‘são razões de viver o que nos falta’ – faz mais vítimas do que a fome de alimento corporal, pois não ter razões de viver é bem mas grave do que passar fome, pois esta pode ser debelada enquanto esse outro valor humano não se preenche com papas e bolos…

Será de perguntar com simplicidade: quais são as fomes que eu alimento? Ou ainda: de que forma ajudo os pobres a libertarem-se das suas peias? Quais os enredos de fome me preocupam mais?

Por muito que nos custe temos de enfrentar este problema humano, que tantas pessoas escraviza: a pobreza… tenha ela a configuração com que a quisermos revestir.

25.1.19

Governo do Panamá retira pobres da rua para que Papa não os veja

in TSF

O Padre Nelson Rodrigues, também ele um jovem com 29 anos, é um dos 300 portugueses que se encontra nas Jornadas Mundiais da Juventude, no Panamá. Conta que o Governo do país retirou das ruas os sem-abrigo para que o Papa não visse a pobreza do País.

O povo do Panamá tem acolhido bem os peregrinos que se deslocaram ao país para estar com o Papa, mas ao mesmo tempo "há um sentimento de revolta". O padre Nelson Rodrigues, responsável pela Pastoral Juvenil da Diocese do Algarve, explica que há muita gente a denunciar o facto de o Governo ter retirado todos os pobres e o comércio local de rua para que o Papa ao passar não se desse conta da pobreza", conta.
Este jovem padre que acompanhou um grupo de 28 rapazes e raparigas do Algarve explica que, apesar de tudo, têm sido bem recebidos e "as pessoas estão muito contentes" com a presença dos 200 mil jovens que se encontram nas Jornadas Mundiais da Juventude.

O padre acrescenta que "no Panamá a grande riqueza convive com uma pobreza extrema e todo o itinerário escolhido para a passagem do Papa teve o cuidado de lhe mostrar um Panamá tranquilo".

A jornalista Maria Augusta Casaca ouviu o jovem padre Nelson Rodrigues, que participa nas Jornadas Mundiais da Juventude
A presença de tantos peregrinos está a mexer com a vida da cidade do Panamá. "Obviamente que a nossa presença tem impacto na vida normal da cidade. Durante o dia, são várias as vezes em que é fechado o metro, também para garantir a nossa segurança, porque as estações de metro ficam completamente lotadas", sobretudo após os principais eventos.

O pároco de Silves acredita que a mensagem do Papa vem trazer aos jovens esperança. "Já ontem, a homilia do arcebispo fez essa referência à indiferença como se olha para os jovens indígenas e afrodescendentes e esta mensagem que denuncia a pobreza e as injustiças vividas por estes jovens vem tocar também os jovens europeus".

30.10.18

Chegou a hora de tratar ricos e pobres de forma igual

Paulo Ferreira, in EcoOnline

A tentação de querer dar tudo igual a todos é um retrocesso em políticas sociais que se querem sensatas e focadas no que é realmente importante: concentrar recursos em quem, de facto, deles necessita
Este é o último e, provavelmente, o mais trapalhão Orçamento do Estado da legislatura. Com a “mercearia” orçamental ao rubro, com toda a gente a querer abastecer-se com os melhores argumentos para o período eleitoral que está à porta, produziram-se medidas que parecem ter saído do laboratório de Frankenstein, tais os enxertos de propostas a que foram sujeitas.

Na Cultura, a redução do IVA é, afinal, para alguns espectáculos mas não para outros, dependendo de ocorrerem em recintos fixos ou ocasionais. O IVA na electricidade reduz numa alínea de uma parte da fatura, mantendo-se nas restantes parcelas. O acesso às reformas antecipadas é despenalizado em algumas circunstâncias (maiores carreiras contributivas, o que faz sentido) mas é restringido nas outras, sem qualquer progressividade.
A pouca clareza dos regimes — gostava de ver um governante ou deputado a explicar a dois cidadãos de 60 anos porque é que vão ter regimes de acesso à reforma tão diferentes apenas porque um começou a trabalhar aos 20 anos e outro aos 21 anos — e o aumento da complexidade fiscal e burocrática que estes remendos implicam são custos para todos mas ninguém parece estar incomodado com isso no país mais adorado pelos consultores tributários.

Mas isso nem será o pior. A tentação de querer dar tudo a todos ou, pelo menos, tudo igual para todos, representa um retrocesso em políticas sociais que se querem sensatas, sustentáveis e focadas no que é realmente importante: concentrar recursos em quem, de facto, deles necessita.

Claro que a aplicação do princípio “tratar de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente” contraria o romantismo do sonho comunista do imperativo social e igualitário sobre o indivíduo e a sua circunstância. E, sobretudo, representa uma visão diferente do que deve ser o papel do Estado na sociedade e no combate às desigualdades e assimetrias.

Quando eu tinha idade para a ele ter direito, os meus pais — classe média média — recebiam tanto Abono de Família pela minha existência como a família mais rica do país e a mais pobre do país pelos respectivos filhos.
Não recordo os montantes desse subsídio na altura mas digamos que os 10 euros por mês tinham uma utilidade muito diferente para cada uma dessas famílias-tipo, como é fácil de entender: são um aumento precioso de rendimento para as mais pobres, ajudam mas não fazem grande diferença para as classes médias e são absolutamente irrelevantes e dispensáveis para as de maiores rendimentos.

Em boa hora o governo de António Guterres, em 1997, acabou com a universalidade deste apoio social. O Estado pôde assim concentrar o mesmo custo orçamental nas famílias onde ele causa mais impacto económico e social, retirando-o ou diminuindo-o para aqueles onde provoca pouca ou nenhuma diferença. Os economistas e as suas teorias das marginalidades decrescentes explicam bem como isto funciona.

Depois disso, foram vários os apoios sociais a que foi aplicada a mesma lógica. E bem.

Mas nesta legislatura, essencialmente por influência do PCP e do BE, temos assistido ao retrocesso desta lógica de reverter a justiça social — tratar de forma diferente o que é diferente — em igualitarismo cego – tratar da mesma forma o que é diferente.

É isso que está a acontecer nas propinas do ensino superior, nos livros escolares gratuitos e nos passes sociais para os transportes públicos. Benefícios sociais que deviam ser diferenciados em função das condições de rendimento dos beneficiários, transformam-se ou vão ser lançados como apoios para todos no mesmo montante.

Os casos concretos das propinas e dos passes sociais são particularmente perversos porque o corte de receitas próprias das entidades que operam nesses sectores — estabelecimentos de ensino superior e empresas de transportes públicos — vai aumentar a sua dependência dos Orçamentos do Estado anuais. E estes, como sabemos, têm sempre as suas verbas disputadas por inúmeros sectores, milhares de entidades, milhões de potenciais beneficiários — com diferentes níveis de necessidade e legitimidade.

A sub orçamentação é um clássico na gestão portuguesa, agora ampliada com as cativações que, suspeito, vieram para ficar como forma de “estratégia” orçamental.

Com a degradação previsível nos serviços de transportes e nas universidades, estaremos a contribuir para a má qualidade dos serviços prestados pelo Estado e, no limite, para chegarmos a resultados contrários ao que todos desejaríamos, nivelando, mais uma vez, por baixo.

E já sabemos em que é que isto resulta: os maus transportes públicos ficam apenas para os que não podem pagar carro próprio, porque os outros vão continuar a evitá-los; uma eventual degradação da universidade pública será mais penalizadora das famílias menos favorecidas e para quem o bom funcionamento do ensino como elevador social é mais crucial, já que as outras podem pagam propinas altas em universidades privadas.

Se a acção social em vigor ainda não resolve de forma satisfatória o problema de quem quer estudar e não pode por razões financeiras, que se reveja o sistema. Que se coloquem meios, por exemplo, nas residências universitárias para famílias que não podem pagar o arrendamento de um quarto.

Se o montante do passe social é incomportável para muitas famílias — e é, como sabemos — que se encontre um mecanismo para o comparticipar.

Se a factura dos livros escolares é demasiado pesada para os rendimentos mais baixos, que se ofereçam todos o livros e material escolar a esses.

Mas a esses. Não a todos.

Despender de forma socialmente cega 221 milhões de euros por ano nestas três medidas é desperdiçar uma parte importante desse montante que é pago pelos contribuintes.

Tenho o dever de pagar impostos para custear os livros escolares ou as propinas da família que tem dificuldade em suportar essas despesas. E faço-o com todo o gosto. Mas, lamento, não devo nem quero fazê-lo para tantas famílias que têm uma situação financeira muito melhor do que a minha.

O país não tem, nem de perto nem de longe, a sua situação orçamental resolvida e estabilizada — basta olhar para o nível da dívida pública — para regressar a visões socializantes que também colocam pobres a pagar para ricos em nome da ideologia. Fazê-lo neste contexto é um disparate caro.

(O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico)

13.2.17

Saúde: Papa sublinha «direitos» dos mais pobres e critica política economicista do setor

in Agência Ecclesia

«Que não seja apenas o dinheiro a orientar as escolhas políticas e administrativas», desafiou Francisco

O Papa defendeu hoje a importância de uma saúde para todos, sobretudo para os mais pobres, num encontro no Vaticano com membros da Comissão Caridade e Saúde da Conferência Episcopal Italiana.

Numa audiência inserida no 25.º Dia Mundial do Doente, que a Igreja Católica vai assinalar este sábado, dia 11 de fevereiro, Francisco sublinhou que “o setor da saúde é aquele em que a atual ‘cultura do descartável’ mostra mais claramente as suas dolorosas consequências”.
Para o Papa Francisco, é essencial que neste setor, tal como em todas as áreas da sociedade, se coloque “em primeiro lugar a dignidade inviolável de cada pessoa” e “que não seja apenas o dinheiro a orientar as escolhas políticas e administrativas” quanto ao “direito à saúde” ou à organização das “estruturas de tratamento”.

“Que a pobreza crescente no campo da saúde entre as camadas desfavorecidas da população, devido à dificuldade de acesso aos tratamentos, não deixe ninguém indiferente e se multipliquem os esforços de todos para que os direitos dos vulneráveis sejam tutelados”, apelou o Papa argentino.

Na sua mensagem, Francisco agradeceu o esforço de todos quantos hoje se empenham, em estruturas católicas ou da sociedade civil, no cuidado pelos mais frágeis e enfermos.

E recordou que um dos principais objetivos que levaram São João Paulo II a instituir o Dia Mundial do Doente, “além da promoção da cultura da vida”, foi “conscientizar as dioceses, comunidades cristãs e famílias religiosas para a importância da Pastoral da Saúde”, para uma Igreja mais próximas destas pessoas que dela necessitam.

“Muitos doentes estão nos hospitais, mas muitos estão em casa, sempre sozinhos. Espero que sejam visitados com frequência para que não se sintam excluídos da comunidade e possam experimentar, através de quem os encontra, a presença de Cristo que passa hoje em meio aos doentes no corpo e no espírito”, apontou.

O Papa Francisco frisou ainda que “a pior discriminação que sofrem os pobres, e os doentes são pobres de saúde, é a falta de atenção espiritual”.

A audiência entre o Papa Francisco e os membros da Comissão Caridade e Saúde da Conferência Episcopal Italiana teve ainda como mote os 20 anos do Departamento da Pastoral da Saúde da Igreja Católica em Itália.

28.10.16

Papa Francisco pede às sociedades que ajudem os mais pobres

in RTP

O papa pediu hoje às sociedades que ajudem os mais pobres e não olhem para o outro lado, afirmando confiar na generalização da ideia de que alimentação e acesso à água são direitos universais.

Na audiência geral, na praça de São Pedro, Francisco citou a encíclica "Caritas in veritate" (Caridade em verdade) do papa emérito Bento XVI ao afirmar ser "necessário o amadurecimento de uma consciência solidária na qual a alimentação e o acesso à água sejam vistos como direitos universais de todos os seres humanos, sem distinção nem discriminação".

Na atualidade, existem "situações de necessidade que requerem uma resposta imediata e urgente", como alimentar ou dar de beber aos necessitados, ações que ao serem realizadas tornam "presentes a ternura e a misericórdia de Deus", defendeu.

O papa destacou as numerosas ocasiões em que a sociedade responde com "doações generosas" e campanhas solidárias ao tomar conhecimento, nos meios de informação, de populações com "falta de alimentos e água, com graves consequências para as crianças".

Francisco questionou se em situações diárias, quando confrontadas com a pobreza nas ruas, as pessoas olham para o outro lado ou saem "ao encontro das necessidades mais básicas de quem veem no caminho".

"Uma das consequência do chamado `bem-estar` é aquela que leva as pessoas a fecharem-se em si mesmas, tornando-as insensíveis às exigências dos outros", afirmou.

"É muito dura a experiência da fome da sede, e infelizmente é uma realidade atual e próxima de nós. Todos os dias encontramos pessoas que sofrem estes males e precisam da nossa ajuda. Quando damos o nosso pouco ao irmão necessitado torna-se presente a ternura e a misericórdia de Deus", sublinhou o papa.

16.6.16

Os mais pobres têm pior saúde

Paula Santos, in Expresso

Não é só o PCP que tem vindo a alertar e a denunciar as consequências desastrosas das políticas de saúde, em particular do anterior governo no SNS e na saúde dos portugueses.

Os relatórios de primavera têm também vindo a alertar para os impactos das políticas na saúde das populações e a denunciar as crescentes dificuldades no acesso aos cuidados de saúde. Não deixaram de referir que não só o anterior governo PSD/CDS não fez nenhuma avaliação dos impactos das medidas que impôs, de redução de salários e rendimentos e de cortes nas funções sociais do Estado e que nunca reconheceu as consequências profundamente negativas dessas medidas na saúde das pessoas, afirmando inclusivamente que o governo PSD/CDS estava em “estado de negação”.

Para que se conheçam exatamente os impactos da política de empobrecimento e de exploração prosseguida pelo anterior governo na saúde dos utentes, o PCP propôs logo no início desta sessão legislativa um Projeto de Resolução que recomenda ao governo “que proceda à identificação, em todas as áreas, das consequências das políticas de desinvestimento público e de sucessivos cortes orçamentais, no financiamento e no investimento público, no funcionamento dos estabelecimentos públicos de saúde que integram o Serviço Nacional de Saúde, nos profissionais de saúde e na prestação de cuidados de saúde aos utentes.”

O Relatório de Primavera de 2016 dá uma especial atenção às desigualdades em saúde. O relatório conclui que Portugal é um país com grandes desigualdades em saúde, sendo um dos países da Europa onde as desigualdades em saúde são mais elevadas e que se perpetuaram (constatam-se ao longo da vida e perpassam gerações) e agravaram nos últimos anos.

Os baixos salários, pensões e rendimentos, as enormes desigualdades na redistribuição de rendimentos, o desemprego e a instabilidade laboral, a redução das prestações sociais, os cortes na educação e na saúde, o alastramento da pobreza, contribuíram decisivamente para as crescentes dificuldades na acessibilidade à saúde. O Relatório da Primavera conclui ainda que “os riscos de adoecer aumentam significam ente com a ausência de escolaridade, na presença de baixos rendimentos ou nos idosos”. E acrescenta que “ Continuam a ser os mais pobreza os mais doentes e os mais doentes os mais pobres, num ancestral e inquebrável ciclo de pobreza e de doença”, confirmando o que há muito se sabia.

A realidade do dia-a-dia de muitos serviços públicos de saúde e de muitos utentes evidencia isso mesmo. Há utentes que adiam as consultas e há doentes oncológicos que abandonam a terapêutica e os tratamentos porque não têm condições económicas. É frequente nos serviços de urgência surgirem muitos doentes com uma situação de saúde muito fragilizada por questões sociais, ou porque deixaram de tomar os medicamentos, ou porque não se alimentam adequadamente ou no período de inverno porque não se aquecem, tudo por falta de condições económicas.

Sempre denunciámos que as opções que estavam a ser prosseguidas por PSD e CDS inseriam-se numa estratégia muito clara, de desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde para avançar numa perspetiva de uma saúde a duas velocidades, uma para aqueles que têm condições económicas e sociais onde lhes são assegurados todos os cuidados de saúde que necessitam e outra assente num serviço público de saúde desqualificado, assegurando somente um pacote mínimo de cuidados para os mais pobres.

Não foi por acaso que a Constituição da República Portuguesa determinou a existência de um Serviço Nacional de Saúde universal e geral, independentemente das condições económicas e sociais de cada um. Foi exatamente para assegurar que não havia discriminação entre os utentes, que tanto o pobre como o rico teriam as mesmas condições de acesso a cuidados de saúde com qualidade.

Para inverter esta situação e garantir efetivamente o acesso de todos os utentes aos cuidados de saúde é preciso investir no Serviço Nacional de Saúde, dotando-o dos meios financeiros, técnicos e humanos necessários para responder adequadamente, com qualidade e em tempo útil às necessidades das populações. Investimento que passa pelo reforço dos cuidados de saúde primários, em proximidade e atribuindo médico de família e enfermeiro de família a todos os utentes; passa pela reorganização da rede hospitalar para que responda às necessidades da população; passa pela valorização profissional, social e remuneratória dos profissionais de saúde; passa pela implementação de uma verdadeira política de saúde pública e passa necessariamente pela melhoria das condições de vida das populações através da valorização dos salários e pensões, da criação de emprego com direitos, no reforço da proteção social e por um maior investimento na educação.

25.5.15

Os pobres não votam

Fernando Calado Rodrigues, in Correio da Manhã

Se todos os pobres votassem seria diferente a abordagem dos políticos à pobreza.

A erradicação da pobreza deveria ser o primeiro objetivo da atividade política e, por conseguinte, da governação.

Apesar de o número de pobres ter aumentado em Portugal nos últimos anos, os partidos políticos revelam "alguma insensibilidade e até desconhecimento desta realidade que já afeta cerca de três milhões de portugueses". Foi o que constatou o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), padre Jardim Moreira, no final de um encontro na Assembleia da República com deputados de todos os partidos. Alguns deles terão mesmo dito que estas matérias serão aprofundadas "só depois das eleições"!

Infelizmente uma grande quantidade dos pobres, como acontece com a maioria dos portugueses, não vota – e os partidos sabem disso. Se todos votassem, seria bem diferente a abordagem dos políticos à pobreza. Todos os programas eleitorais encarregar-se-iam de piscar o olho a esses milhões de portugueses com as mais variadíssimas promessas.

Para atacar este flagelo social não bastam, porém, promessas eleitorais: exige-se um "compromisso para a definição de uma estratégia nacional de erradicação da pobreza". É essa a convicção da EAPN, que há mais de vinte e cinco anos defende a necessidade de atuar a nível das causas estruturais da pobreza e de envolver os pobres e os excluídos na procura de respostas para a sua situação.

A Rede não embarca numa prática assistencialista da solidariedade, que se limita a distribuir esmolas e gera subsidiodependência. Nem acredita, como professam as correntes em voga do neoliberalismo, que o crescimento económico, a competitividade e a inovação, promovam a criação de riqueza e a pobreza desapareça.

A história demonstra que os lucros têm tendência a concentrarem--se na mão de poucos, acabando a maioria por não beneficiar grandemente da prosperidade económica.

Nos tempos de crise, não são os ricos os mais afetados, são os pobres os que mais sofrem. E muitos dos que antes não o eram acabam por ser lançados para níveis próximos do limiar da pobreza. Nesta última crise, que o país atravessa, resvalaram para essa situação mais duzentos mil portugueses.

É por isso urgente um envolvimento de todos – a começar pelos partidos
políticos – na implementação de uma estratégia nacional para a erradicação da pobreza.

6.3.15

Incapazes de proteger os mais pobres

Afonso Camões, in Jornal de Notícias

A crise económica fraturou a sociedade e desfigurou a pirâmide social, ao romper a utopia de que todos éramos classe média. As estatísticas já nos tinham confirmado, em janeiro, que o risco de pobreza continua a aumentar, atingindo os dois milhões de portugueses. Desta vez, o retrato negativo vem da Comissão Europeia. Bruxelas diz que os cortes impostos pelo Governo de Lisboa nas prestações sociais tiveram um impacto desproporcionado sobre os já muito pobres, que o sistema de proteção é inadequado e não tem sido capaz de lidar com a subida do desemprego.

Ora, sabendo nós que a proximidade de eleições levanta sempre mais poeira do que uma manada em transumância, é crucial que os partidos se comprometam com o tema que mais interessa a portugueses e europeus: como voltar a criar riqueza e emprego.

Da esquerda à direita, as alternâncias entre PS e PSD sempre foram mais ou menos conflituais e desabridas, mas nunca esteve em causa o regime saído da revolução e da normalização democrática.

Acontece que, por toda a Europa, os anos de austeridade estão a implodir o centro, onde outrora se ganhavam as batalhas eleitorais, e a pulverizar os partidos do "arco do poder", incapazes de responder à desilusão.

Como se a crise não bastasse, os frequentes episódios de corrupção no sistema põem em evidência a promiscuidade entre a política e o dinheiro e romperam o vínculo de confiança com a cidadania. Isto, enquanto a fobia da insegurança está a fazer renascer os nacionalismos radicais.

A erupção de novos partidos desperta novas fantasias, mas agora à custa do colapso ou do esvaziamento dos partidos do centro, em especial os que se reclamam da social-democracia. Vejam-se os sinais que vêm da Grécia, de Espanha, de França......

Por cá, onde os ventos de mudança chegam quase sempre mais tarde, é tempo de os partidos do "arco da governação" se confrontarem com os seus destinos. São, como todos nós, livres para fazerem as suas escolhas, mas serão prisioneiros das consequências.

29.12.14

Afinal, quantos pobres recebem “950 euros” do Estado?

Andreia Sanches, in Público on-line

O valor foi avançado por Mota Soares para dizer que é preciso criar um “tecto” às prestações sociais. Mas o ministro nunca disse quantas famílias recebem “950 euros” em subsídios. A pedido do PÚBLICO, a Misericórdia de Almada foi rever os processos de 400 famílias. Em 400, encontrou duas: uma constituída por sete pessoas, outra por 11.

Durante a apresentação do Orçamento do Estado para 2015, o ministro da Segurança Social anunciou que iria estabelecer um “tecto” para as prestações sociais para evitar que houvesse famílias a receber entre abonos, subsídios e outras ajudas do Estado somas que podiam chegar aos “950 euros por mês”. Pedro Mota Soares falou de “risco moral” — a possibilidade de tais valores constituírem um desincentivo ao trabalho. Desde então, o PÚBLICO tem pedido ao ministério que informe quantas famílias em Portugal recebem montantes destes. Mas a resposta nunca chegou. Por isso, perguntámos a quem dirige instituição sociais quantos casos conheciam.

Lino Maia, que preside à Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), diz que provavelmente “o ministro não estaria a falar de um exemplo real”, mas de “uma impressão”, quando falou da tal família que receberia 950 euros. A CNIS, acrescenta, nunca fez qualquer levantamento sobre o assunto. E remata: “não é este o momento” para divulgar qual a posição da confederação sobre esta matéria.

Certo é que a ideia de estabelecer um “tecto” nas prestações, bem como a ideia de que há gente a receber montantes que podem desincentivar a busca de trabalho, marcaram os últimos meses de um ano em que se assistiu a uma nova diminuição de alguns apoios destinados a combater a pobreza, como o Rendimento Social de Inserção (RSI). À falta de dados nacionais, pedimos a três instituições sociais que respondessem: quão vulgar é haver famílias a receber valores como o citado pelo ministro.

O exercício é difícil (o que se contabiliza? — é a primeira pergunta que vários especialistas têm colocado e as instituições também). Apenas a Santa Casa da Misericórdia de Almada aceitou o desafio. Fez o levantamento das 394 famílias que recebem RSI e que são acompanhadas pelas sua equipas. Primeira conclusão: “Apenas oito apresentam um acumulado de apoios sociais superior a 700 euros, 2% do total de famílias beneficiárias”, começa por revelar Pedro Ferreira, técnico coordenador do RSI da Misericórdia de Almada.

11 pessoas, 984 euros
As oito famílias que aqui recebem 700 ou mais euros de subsídios e apoios têm em comum o facto de serem numerosas, a maioria com várias crianças. Por exemplo: há dois casais, cada um com cinco menores a cargo. Um desses casais não tem qualquer fonte de rendimento próprio e recebe 940 euros de RSI e de abonos, o que dá 134 euros per capita, por mês. Para pagar casa, gás, luz, alimentação, e tudo o mais.

No caso do segundo casal com cinco filhos menores, só a mãe trabalha, em part-time, com um salário de 189 euros por mês. Junta a esse montante 716 euros de RSI e de abonos. São 102 euros por pessoa/mês.

Dos oito casos assinalados pela santa casa, aquele em que o montante das prestações sociais é maior é o de uma família de 11 pessoas. Esta família, chamemos-lhe “família Sousa”, não tem rendimentos de trabalho.

São sete adultos (só um frequenta um curso de formação) e quatro menores. O agregado recebe 984 euros em apoios do Estado, entre RSI e abonos. “Apesar de parecer um valor elevado, não se pode dissociar do mesmo o número de pessoas que constituem este agregado familiar: sete adultos e quatro menores”, sustenta Pedro Ferreira. Faça-se as contas: cada membro da “família Sousa” recebe o equivalente a 89 euros por mês.

“Este agregado familiar apresenta um total de despesas fixas, sem contar com alimentação, de 211,50 euros por mês”, prossegue o técnico. O que significa que, pagas essas despesas, sobram, na verdade, para a alimentação e tudo o resto, 70 euros por pessoa por mês. Refira-se, prossegue Pedro Ferreira, “que se considera que uma família está em situação de precariedade económica quando a capitação é igual ou inferior a 199,53€ (valor de referência que corresponde à pensão social) per capita”.

Ou seja, segundo Pedro Ferreira, tecnicamente a “família Sousa” está baixo do conceito de “precariedade económica”, mesmo com 980 euros de apoios do Estado a dividir por 11 que recebe.

“Uns malandros”
O levantamento da Misericórdia de Almada teve em conta o RSI, abonos e outros apoios sociais, como o fundo de garantia de alimentos a menores, subsídios de acolhimento, transporte, alimentação e bolsas de formação para cidadãos a frequentar cursos do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

Excluiu apoios escolares e de renda. “Não nos é possível quantificar, uma vez que os mesmos não são apoios financeiros dados às famílias, mas sim isenções, reduções ou atribuições em géneros que lhes são atribuídas. Para quantificar os valores pagos às famílias, parece-nos apenas plausível considerar aqueles que mencionámos”, acrescenta o técnico de Almada.

28.11.14

Retrato de um País com 1,9 milhões de pobres

in Visão

CONSULTE A INFOGRAFIA com os dados que mostram um país em que o risco de pobreza está a aumentar

A crise acentuou as carências económicas e sociais da população portuguesa, ao mesmo tempo que o Estado reduzia os apoios sociais às famílias. Os dados do INE mostram que o número de pessoas em risco de pobreza
está a aumentar. São já 18,7% do total, o que equivale a 1,9 milhões de habitantes. Mas são mais os que não têm dinheiro para satisfazer necessidades básicas como uma refeição de carne ou peixe a cada dois dias.

Ler mais: http://visao.sapo.pt/retrato-de-um-pais-com-19-milhoes-de-pobres=f802810#ixzz3KMh3DxLU