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18.1.23

Sandra Araújo: "A saúde mental sempre foi um parente pobre"

Domingos de Andrade, Inês Cardoso, in JN 

Até final de abril, Sandra Araújo terá de entregar a proposta de plano de ação que vai dar corpo à Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Para esse trabalho ser ajustado à realidade, aguarda com expectativa o que vão dizer as novas estatísticas de pobreza e exclusão social que o INE divulga na próxima sexta-feira.

Mesmo que a taxa de pobreza não se agrave, "mascarada" pelos apoios sociais e pelo aumento do salário mínimo, acredita que o verdadeiro retrato será dado pelos indicadores de privação material. Se a degradação das condições de vida se mantiver, o Governo terá de apresentar novas medidas de apoio, alerta, ao mesmo tempo que pede "um compromisso político forte" neste combate que é de todos os portugueses.

Depois de um arranque muito solitário, já tem neste momento constituída a sua equipa permanente?

Ainda estou numa fase de constituição da minha equipa de trabalho. Neste momento, estou eu e mais duas pessoas, à espera de uma terceira pessoa. Durante quase um mês e meio estive mais ou menos solitária, mas neste momento creio que já consegui reunir as condições para cumprir o objetivo de preparar um plano de ação para implementação desta estratégia. Esperemos que tenha condições de até ao final do mês de abril apresentar pelo menos uma primeira proposta de plano de ação.

Estava prevista para janeiro a primeira reunião interministerial, com os seis ministérios envolvidos na estratégia. Esta reunião já tem data?

A resolução que cria a estratégia prevê três órgãos e o primeiro é a comissão interministerial de alto nível (CIAN), que engloba seis ministérios. Estou a aguardar uma calendarização desta primeira reunião.

Tem sentido falta de resposta ou de vontade política?

Não, tive esta semana uma reunião de trabalho com a ministra do Trabalho e aquilo que ficou definido foi que até final de janeiro iria acontecer esta primeira reunião da comissão interministerial. Será muito importante para mim, na medida em que irei reportar o que estou a fazer e sobretudo perceber os grandes compromissos de cada área governativa em relação à estratégia e aquilo que já foi feito - porque, apesar de a estratégia estar a arrancar, há muitas medidas em curso ou programadas. O pacote de medidas é bastante alargado, 14 objetivos e 137 medidas de diferentes áreas governativas, embora o Ministério do Trabalho seja o que abarca o maior leque. O maior desafio é criar uma articulação de políticas públicas e um compromisso político forte.

Precisa também de peso político. Tem esse peso?

Preciso de um compromisso político forte. A criação da própria estratégia, e não apenas medidas mais ou menos paliativas ou pontuais, é um ganho. Todos nós enquanto país ganhámos em ter uma estratégia nacional.

Ainda assim, o Governo demorou um ano até à sua nomeação e operacionalização da estratégia, o que causou muitas críticas de IPSS e organizações no terreno. É um sinal de falta desse compromisso?

Acho que há explicações para isso. Estive do outro lado, do lado das organizações da sociedade civil, e a EAPN há muito dizia que era absolutamente essencial que as coisas avançassem. Creio que o facto de ter havido uma mudança governativa atrasou um pouco. Perdeu-se talvez um pouco o balanço. Mas fiquei até surpreendida pela positiva quando me dediquei a uma leitura apurada de todas as medidas que constam da estratégia, porque percebi que algumas coisas estão em marcha, embora enquanto cidadãos não tenhamos essa consciência. O meu caminho vai ser perceber em que medida se definem metas para estas medidas e avaliar e monitorizar o seu cumprimento.

Já se reuniu com organizações e investigadores?

A resolução prevê, além do CIAN, uma comissão técnica de acompanhamento e o fórum consultivo, que pode integrar organizações sociais, sindicatos, professores universitários. Reuni-me com a comissão instaladora desse fórum e é absolutamente fundamental haver uma ligação entre medidas organizativas e a essência da sua implementação, em primeiro lugar com os beneficiários das próprias medidas, e com quem está no terreno.

Que preocupações têm sido transmitidas por essas organizações?

Há preocupações acrescidas, que têm a ver com a conjuntura que estamos a viver.

Há dados objetivos que apontem para um aumento de carências alimentares?

São indicadores tempestivos, que temos a partir do que nos dizem as organizações, no trabalho direto de atendimento das que estão na primeira linha neste tipo de respostas. Obviamente que sim, o aumento dos preços dos bens alimentares afeta toda a população, mas especificamente afeta quem vive com menores rendimentos e está em situação de maior vulnerabilidade social. Isso é incontornável. Os preços de energia e da habitação são também um problema grave.


Quando a estratégia foi traçada, não havia o contexto de guerra e consequente inflação. Esta circunstância pode justificar reajustamentos ou comprometer as metas?

Diria que sim, tem de haver reajustamentos. A estratégia tem um conjunto de ações de longo prazo, de natureza mais estrutural, ações de curto e médio prazo, ações de mitigação e resposta emergente, e ações de caráter reparador e preventivo. A conjuntura atual já exigiu muito recentemente medidas de mitigação e provavelmente em 2023, se continuarmos no agravamento das condições de vida dos portugueses, vai ter de haver abertura para novas medidas de resposta imediata. Por outro lado, o diagnóstico que foi feito inicialmente, e no qual se baseou a estratégia, neste momento está desatualizado.

Agravou-se?

Houve um agravamento e creio que o primeiro passo é a atualização do diagnóstico. Na primeira reunião da comissão técnica e com os membros do fórum consultivo, uma das questões que suscitei foi o levantamento dos novos fatores de pobreza e dos novos perfis de pobreza. E creio que há abertura para tomar algumas medidas de caráter mais emergencial.

Manifestou recentemente particular preocupação com a habitação. Concorda com o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que esta semana disse que os portugueses conseguirão acomodar a subida das taxas de juro, desde que se mantenham os níveis de emprego?

A garantia do emprego é fundamental. Essa questão é mais ou menos verdade, porque o emprego é um fator protetor. Mas temos um problema de qualidade do emprego e de baixos salários. Está a ser discutida na Assembleia da República a agenda do trabalho digno, que visa dar dignidade ao emprego e combater a precariedade.

Deduzo que não concorde na totalidade com a declaração?

Não concordo no todo. Uma das agendas principais da estratégia está alavancada na questão do emprego e da qualidade do emprego. Elevar as qualificações dos portugueses, sobretudo os que estão mais afastados do mercado de trabalho, a questão da transição digital.

Os cheques diretos às famílias são uma medida adequada para atenuar o efeito da subida de preços?

É uma medida imediata e muito bem acolhida por quem recebeu os cheques. A generalidade das medidas, os 60 euros atribuídos logo no segundo trimestre e os 240 euros no final do ano, foram muito dirigidas a uma população muito vulnerável. Houve necessidade justificada de uma injeção, privilegiando aqueles que estão numa situação de maior carência. Obviamente que não chega.

O Governo deveria fazer reduções no IVA do cabaz básico, como aconteceu em Espanha?
Essa é uma medida corajosa, que abrange toda a gente, e sem dúvida é uma medida supergenerosa. Não sei se o Governo português irá ponderar algo semelhante. Queria focar-me naquilo que a estratégia prevê, em termos de grandes investimentos, porque a questão monetária é absolutamente essencial e podemos ter algumas surpresas. A 20 de janeiro, o INE divulga os grandes indicadores de pobreza e exclusão social.

Tem a convicção de que vamos assistir a um agravamento?

Eu convicção não tenho, é uma sensibilidade, vale o que vale e não queria estar a antecipar. Como houve um esforço de reposição de rendimentos e um aumento do salário mínimo em 2022, provavelmente a taxa de pobreza, que é uma taxa monetária baseada em indicadores de rendimento, pode não vir a ter um agravamento. Vamos conseguir apurar isso com outros indicadores, nomeadamente o indicador da privação material e da privação material severa. É um conjunto de nove itens em que conseguimos apurar a degradação das condições de vida. Estou à espera desses dados até para poder definir o plano de ação com base no que os indicadores nos revelarem.

A estratégia define metas ambiciosas para a infância, prevendo a redução para metade da taxa de pobreza nas crianças. Tem propostas adicionais às que já estão no terreno?
Há um conjunto muito variado de medidas na estratégia que visa a garantia de acesso a serviços básicos, nomeadamente respostas sociais, educação, saúde e habitação. Está previsto o alargamento faseado até 2024 da gratuitidade das creches e creio que será uma das medidas com um impacto muito imediato. Nós sabemos que as famílias com crianças são as mais vulneráveis ao risco de pobreza, sobretudo famílias monoparentais ou numerosas, e a gratuitidade das creches tem um impacto muito importante no rendimento das famílias e será absolutamente decisiva para combater a pobreza infantil. A par disto, e com investimentos do PRR, está previsto o alargamento das vagas em creches. Saliento também o grande investimento na saúde, como o aumento da rede dos psicólogos nas escolas. As questões da saúde mental, no contexto da crise, foram bastante impactadas e a saúde mental sempre foi um parente pobre.

E continua a ser?

Continua a ser, mas o que vejo na estratégia é um conjunto enorme de medidas que prevê um investimento na rede escolar para fazer uma triagem, uma deteção mais precoce dos problemas e uma intervenção cada vez mais precoce, bem como uma rede mais articulada para garantir que estas crianças e famílias têm os apoios de que precisam. Outra questão muito importante é reforçar, nos centros de saúde, as equipas de psiquiatria especializadas para a área da infância e juventude. Vai ser uma área muito necessária de intervenção e onde estão previstos investimentos muito importantes do PRR.

Nesta semana, o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas escreveu, em texto de opinião no JN, que o Ensino Superior como elevador social está "avariado": só 3% dos estudantes são pobres e essa percentagem é ainda mais baixa nos cursos de topo. O que pode ser feito para acelerar a mudança por via da educação?

Teoricamente, a educação é um fator protetor e os indicadores de pobreza revelam isso. Quanto mais qualificadas as pessoas são, menos probabilidade têm de ter empregos pouco dignos. A verdade é que a educação deve chegar a todos. Não podemos criar uma educação para pessoas mais pobres e para pessoas que têm condições para pagar apoios ao estudo. A estratégia tem essa preocupação. Há uma medida que prevê residências gratuitas para todos os alunos do Secundário deslocados, materiais de apoio ao estudo, nomeadamente digitais, para crianças vulneráveis e também apoios tutoriais. Estou convencida de que estas medidas vão fazer a diferença para que a educação funcione efetivamente como elevador social. É preciso garantir a sua implementação, a sua aplicação, e ir monitorizando. E essa é uma das vantagens da estratégia. Primeiro, há metas, há compromissos políticos. É possível montar um sistema de monitorização de todas as políticas públicas e perceber o seu impacto. Não tanto do ponto de vista processual, mas de resultados e de impacto verdadeiro nas condições de vida daqueles para quem a estratégia está dirigida. Essa para mim será sempre uma das premissas essenciais: garantir eficácia e eficiência.

A pobreza e a desigualdade económica e social são um problema persistente. Pela primeira vez em seis anos, o risco de pobreza aumentou em 2020. Este combate exige mais recursos financeiros?
Um dos objetivos do plano de ação é identificar a dotação financeira de cada um dos investimentos que estão previstos, junto das diferentes áreas governativas, e o respetivo financiamento. Isso não está feito.

Não sente a ansiedade de ter tão pouco tempo para pôr no terreno uma estratégia que tem de ser rápida e eficaz?
Com certeza que sim. Desde que aceitei este cargo, sinto essa responsabilidade, mas acredito que o benefício desta estratégia por um lado é o tal compromisso político, e fazer com que esta estratégia seja suficientemente ampla e conhecida por todos os cidadãos, por todos nós. Todos nós devemos estar comprometidos com a sua implementação e com a sua monitorização. Quero que esta estratégia deixe de ser um documento, um papel que está na gaveta.

O facto de não ter um orçamento próprio preocupa-a? Estará sempre dependente da boa vontade e eficácia de cada um dos ministérios.
Sim, não tenho orçamento próprio, pelo menos neste momento, a não ser que uma nova resolução o preveja. Eu acho que a estratégia mereceria uma boa campanha de comunicação. Era importantíssimo, e esse também vai ser um dos meus papéis logo que consiga divulgar a estratégia ao nível territorial. Sair, ir falar com as autarquias, com as CIM, com as CCDR, com as áreas metropolitanas. A estratégia tem um eixo que é o aumento da coesão territorial e o desenvolvimento local, e neste contexto de transferência de competências para os municípios em várias áreas - nomeadamente social, mas não só -, no contexto do novo quadro comunitário, há uma oportunidade muito grande de haver um compromisso político de alto nível, mas também ao nível mais micro, local. Um grande alinhamento relativamente às estruturas locais e à capacidade de fazerem leituras da situação nos seus territórios e elas próprias dinamizarem estratégias locais de combate à pobreza. O que implicará naturalmente alguma harmonização de instrumentos territoriais integrados e rever algumas medidas de política pública, dando impulso ao programa da rede social, que já existe há muitos anos, mas é preciso reforçar e qualificar estes sistemas e o trabalho colaborativo.

19.12.22

Governo quer escolaridade obrigatória a começar aos três anos de idade

Natália Faria, in Público

Antecipar a entrada na escolaridade obrigatória é uma das estratégias de combate à pobreza, segundo a proposta que o Governo vai colocar em discussão pública. O reforço do abono de família, do RSI e dos apoios aos idosos são outras medidas, a par da prioridade às famílias com crianças no acesso a uma habitação. O Governo quer integrar o pré-escolar no ensino obrigatório. 

A proposta de alargar a escolaridade obrigatória aos três anos de idade consta da versão preliminar da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP) 2021-2030 cuja ida a discussão pública foi aprovada no último Conselho de Ministros.

A concretização da universalização do ensino pré-escolar (dos 3 aos 5 anos) era um dos princípios enunciados já no programa eleitoral do PS. Mas agora o Governo vai mais longe ao propor que o ensino passe a ser obrigatório logo a partir dos três anos (e não dos seis, como actualmente), numa medida que alarga para 15 os anos de escolaridade obrigatória.

“Reforçar os apoios à frequência de creches e pré-escolar assegurando às famílias de menores recursos um acesso tendencialmente gratuito, integrando o ensino a partir dos três anos de idade na escolaridade obrigatória no médio prazo”, é o que propõe o documento.

Portugal não está, de resto, sozinho neste propósito. Apesar de na maioria dos sistemas educativos europeus a escolaridade obrigatória se iniciar no ensino primário, geralmente aos seis anos, a França, por exemplo, decidiu em Setembro de 2019 baixar para os três anos a idade de início da escolaridade obrigatória. Já era assim na Hungria. E na Bélgica a idade de início da escolaridade obrigatória baixou, também em 2019, para os cinco anos, enquanto na Grécia aquela se inicia aos quatro anos, segundo o último relatório da rede Eurydice sobre o ensino obrigatório na Europa.

O alargamento do acesso ao abono de família, bem como o reforço dos montantes pagos, é outra das medidas constantes do documento a que o PÚBLICO teve acesso. Deste consta ainda a proposta de aumento das prestações sociais a agregados com crianças, em particular a agregados monoparentais assumindo como prioridade a retirada das crianças da condição de pobreza.

O Governo quer integrar o pré-escolar no ensino obrigatório. A proposta de alargar a escolaridade obrigatória aos três anos de idade consta da versão preliminar da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP) 2021-2030 cuja ida a discussão pública foi aprovada no último Conselho de Ministros.

A concretização da universalização do ensino pré-escolar (dos 3 aos 5 anos) era um dos princípios enunciados já no programa eleitoral do PS. Mas agora o Governo vai mais longe ao propor que o ensino passe a ser obrigatório logo a partir dos três anos (e não dos seis, como actualmente), numa medida que alarga para 15 os anos de escolaridade obrigatória.

“Reforçar os apoios à frequência de creches e pré-escolar assegurando às famílias de menores recursos um acesso tendencialmente gratuito, integrando o ensino a partir dos três anos de idade na escolaridade obrigatória no médio prazo”, é o que propõe o documento.

Portugal não está, de resto, sozinho neste propósito. Apesar de na maioria dos sistemas educativos europeus a escolaridade obrigatória se iniciar no ensino primário, geralmente aos seis anos, a França, por exemplo, decidiu em Setembro de 2019 baixar para os três anos a idade de início da escolaridade obrigatória. Já era assim na Hungria. E na Bélgica a idade de início da escolaridade obrigatória baixou, também em 2019, para os cinco anos, enquanto na Grécia aquela se inicia aos quatro anos, segundo o último relatório da rede Eurydice sobre o ensino obrigatório na Europa.

O alargamento do acesso ao abono de família, bem como o reforço dos montantes pagos, é outra das medidas constantes do documento a que o PÚBLICO teve acesso. Deste consta ainda a proposta de aumento das prestações sociais a agregados com crianças, em particular a agregados monoparentais assumindo como prioridade a retirada das crianças da condição de pobreza.

Os menores surgem, aliás, como uma das principais figuras da estratégia de combate à pobreza que está a ser desenhada, que aponta mesmo a criação de um Sistema de Apoio Social para as Famílias com Crianças. Não surpreende, já que a presença das crianças num agregado familiar continuava em 2019, e segundo o Instituto Nacional de Estatística, a estar associada a um risco de pobreza acrescido.

Entre os adultos com pelo menos uma criança dependente, a taxa de risco de pobreza era de 25,5%, disparando para os 39,8% nas famílias compostas por dois adultos com três ou mais crianças. Na população em geral, o risco de pobreza ameaçava naquele mesmo ano os 16,2% de portugueses (mais de dois milhões de pessoas) que viviam com menos de 540 euros por mês.

Atenção à saúde mental

Para garantir que a condição sócio-económica dos pais deixa de ser um factor tão preponderante do sucesso escolar e posteriores percursos profissionais das crianças, o Governo quer que as escolas funcionem como “pilar de excelência de sinalização das situações de carência”. São por isso várias as propostas. No campo da educação, e além do início mais precoce da escolaridade obrigatória, e de medidas já anteriormente enunciadas como a definição de contingentes especiais no acesso ao Ensino Superior para alunos de escolas inseridas Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), a nova estratégia prevê o aumento da rede de psicólogos escolares, tida como essencial para “a detecção precoce de problemas psicológicos em meio escolar”.

E a atenção à saúde mental não se fica por aqui. A criação de mecanismos de acesso gratuito para crianças inseridas em famílias pobres a cuidados de saúde mental “de boa qualidade” também surge elencada, num documento que se propõe, neste quadro, expandir as equipas comunitárias de psiquiatria da infância e adolescência nos serviços locais de saúde mental. Quando for necessário, as autarquias serão aqui chamadas a garantir locais (fora do ambiente hospitalar) para o funcionamento daquelas equipas, assegurando o transporte para o acesso às mesmas.

No campo das respostas sociais, lê-se no documento do Governo, deverá haver “técnicos de referência” que acompanharão a par e passo as situações de carência das famílias. E a ideia é ainda garantir o acesso universal a actividades extracurriculares e de ocupação de tempos livres e de férias.

CSI mais perto dos 540 euros/mês

Mas é nas prestações que se prefiguram algumas das mudanças mais imediatamente visíveis. Está previsto o aumento da abrangência do Rendimento Social de Inserção (RSI). Com um valor máximo de referência fixado nos 189 euros, esta medida somava em Agosto pouco mais de 240 mil beneficiários. Chegaram a ser mais de 500 mil, mas os requisitos de acesso foram-se afunilando, sendo que, como sublinhou recentemente ao PÚBLICO Carlos Farinha Rodrigues, especialista em pobreza que integrou a comissão criada pelo Governo para ajudar a gizar esta proposta, o RSI nunca chegou a mais de 5% da população, apesar de a pobreza afectar 16,2%.




6480 Montante previsto para o valor de referência do CSI, que está actualmente nos 5258 euros anuais



A comissão propusera, aliás, a aproximação dos valores do RSI para os 540 euros mensais que marcam a linha de pobreza em Portugal. Sobre isso, porém, o Governo nada adianta, além de se propor “reavaliar e aperfeiçoar” a medida.

Já quanto ao Complemento Solidário para Idosos (157 mil beneficiários e 109 euros de valor médio mensal em Agosto), sim: o objectivo de garantir a convergência do valor de referência do CSI com o limiar de pobreza surge claramente enunciando, em obediência, de resto, ao que já estava previsto no programa eleitoral socialista. O que se prevê assim é que o valor de referência do CSI passe dos actuais 5258 euros anuais para os 6480 que marcam o limiar de pobreza.



Prioridade na habitação às famílias com crianças

A existência de crianças no agregado familiar vai ser uma condição prioritária de acesso à habitação, segundo esta versão preliminar da estratégia pensada para os próximos nove anos. No capítulo da habitação, o Governo aponta, aliás, o que parece ser uma mudança de paradigma, isto é, a adopção de uma “política social de habitação por contraponto com políticas de habitação social”.

Na prática, o que isto pressupõe é um maior recurso ao mercado de arrendamento “normal” na procura de soluções para as famílias que não conseguem suportar os custos de uma casa no mercado.




As soluções de alojamento de emergência, por seu turno, deverão ser garantidas por via da “Bolsa Nacional de Alojamento Urgente e Temporário”, capaz de garantir uma resposta estruturada em todo o território de alojamento de emergência ou de transição.

A pensar nas dificuldades dos jovens, particularmente dos de menores rendimentos, no acesso à habitação, prevê-se o reforço da habitação com renda acessível. Como? Será criado um “parque habitacional público a preços acessíveis”, a construir através da reabilitação do património imobiliário do Estado com aptidão para uso habitacional.

2.12.22

Plano de acção que abrangerá 150 mil crianças em pobreza extrema aprovado em Conselho de Ministros

Natália Faria, in Público

Garantia para a Infância vai ser coordenada por Sónia Almeida e prevê o pagamento de um complemento ao abono de família para combater a pobreza entre as crianças. Deverá abranger 150 mil menores.O plano de acção da Garantia para a Infância, uma nova prestação social de combate à pobreza extrema entre crianças e jovens que deverá beneficiar 150 mil menores, foi aprovado na reunião desta quarta-feira do Conselho de Ministros (CM). Ao que o PÚBLICO apurou, a coordenadora nacional desta medida será Sónia Almeida, que se prepara para fazer dentro de dias a apresentação do referido plano de acção até 2030, o qual deverá compreender um diagnóstico das crianças vulneráveis em Portugal.

Num comunicado lacónico, o CM adianta apenas que o plano de acção “visa prevenir e combater a exclusão social, garantindo o acesso das crianças e dos jovens em situação de pobreza a um conjunto de serviços essenciais, combatendo a pobreza infantil e promovendo a igualdade de oportunidades e os direitos das crianças e dos jovens”.

Trata-se, basicamente, de verter para a realidade portuguesa o que ficou decidido durante a última presidência portuguesa do Conselho da União Europeia que aprovou a criação de uma Garantia Europeia para a Infância. No caso português, a Garantia para a Infância já começou a ser paga em Setembro como complemento ao abono de família. Tem atribuição automática, isto é, dispensa as famílias de terem de solicitar o novo apoio junto da Segurança Social.

Segundo as declarações da Ministro do Trabalho e da Segurança social, Ana Mendes Godinho, no Parlamento, em meados de Setembro, a nova prestação social deverá custar à volta de 140 milhões de euros no somatório deste e do ano que vem. Mas a nova medida não se esgota nos apoios monetários. A ideia é que o novo instrumento contra a exclusão na infância garanta o acesso efectivo e gratuito à educação e actividades escolares, pelo menos uma refeição saudável em cada dia escolar, além de acesso a cuidados de saúde e a uma habitação adequada.

A Garantia para a Infância, refira-se a propósito, irá conviver com o prometido aumento dos valores do abono de família para as crianças no 1.º e 2.º escalões de rendimentos – à volta de 400 mil.

9.6.21

Governo pede posição dos parceiros sociais sobre Pilar Europeu dos Direitos Sociais

in o Observador

O Governo pediu esta terça-feira a posição dos parceiros sociais sobre os objetivos e as metas do Pilar Europeu dos Direitos Sociais. Questão salarial parece ser a mais sensível para as confederações.

O Governo pediu esta terça-feira a posição dos parceiros sociais sobre os objetivos e as metas do Pilar Europeu dos Direitos Sociais e a questão salarial parece ser a mais sensível para as confederações sindicais e para as patronais.

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, e o secretário de Estado Adjunto do Trabalho e da Formação Profissional, Miguel Cabrita, reuniram-se com os parceiros sociais, no âmbito da Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), e apresentaram-lhes um documento preparatório da posição de Portugal sobre o Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais.

Tendo em conta a necessidade de definir objetivos quantitativos para cada uma das metas identificadas no Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, o Governo solicitou aos parceiros sociais que se pronunciem sobre as medidas de políticas públicas que consideram relevantes para melhorar os indicadores de Portugal em cada uma das metas definidas no Plano.

No documento apresentado, o Governo pergunta ainda que objetivos devem ser assumidos como objetivos nacionais para 2030 para cada uma das metas europeias incluídas no Plano de Ação.

“Porque a maioria dos instrumentos para alcançar as metas consagradas no Plano de Ação são da competência de cada um dos Estados-Membros, e com o objetivo de firmar as metas a alcançar ao nível nacional até 2030 no âmbito do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, vem o Governo auscultar os parceiros sociais sobre o ponto de situação e perspetivas de progresso nas três áreas estratégicas identificadas no Plano de Ação”, explicou.

Segundo o mesmo texto, a ideia é “desencadear, a curto prazo, junto da Comissão Europeia, o processo para definição de objetivos nacionais para cada um dos objetivos traçados no Plano de Ação”. Para o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), João vieira Lopes, a abordagem, esta terça-feira, deste tema “foi muito genérica”, limitando-se a “uma troca de impressões.

A CCP vai analisar o documento e enviar ao Governo a sua posição até dia 18, tal como os restantes parceiros sociais. Para já, o que mais preocupa Vieira Lopes são os salários baixos que predominam nos setores intensivos, porque considera que o crescimento do emprego não depende tanto das empresas, mas sim do crescimento da economia.

A secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, disse à agência Lusa que o Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais tem objetivos numéricos que não se percebem como se transformarão em coisas concretas, como o aumento do emprego.”O Plano fala em aumentar o emprego, mas que emprego será esse, como vamos cumprir as metas europeias quando em Portugal continuam a predominar os baixos salários e a precariedade”, questionou.

Para a sindicalista, o crescimento dos salários é também uma forma de retirar muitos trabalhadores da pobreza, já que a redução da pobreza é outro dos objetivos do Plano de Ação.

Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, considerou que a reunião desta terça-feira apenas permitiu “uma abordagem muito rápida” do tema, mas salientou que a questão mais importante e também mais controversa será a definição do salário adequado ou salário mínimo europeu.

O Plano de Ação para o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, apresentado pela Comissão Europeia em março, propõe um conjunto de metas a alcançar em dimensões fundamentais para avaliar os progressos sociais e do mercado de emprego até 2030.

Estas metas pretendem orientar as políticas europeias e dos diferentes Estados-Membros e dar corpo aos princípios e direitos fundamentais consagrados no Pilar Europeu dos Direitos Sociais. O compromisso firmado na Cimeira Social do Porto pelas instituições europeias, parceiros sociais e sociedade civil, reforça a responsabilidade coletiva na concretização dos objetivos do Pilar.

O Plano de Ação tem como meta aumentar a taxa de emprego da população entre os 20 e os 64 anos para pelo menos 78% e aumentar a taxa anual de participação de adultos em educação e formação para pelo menos 60%. A redução da população em risco de pobreza ou exclusão social em pelo menos 15 milhões de pessoas até 2030, das quais pelo menos cinco milhões devem ser crianças, é outra das grandes metas definidas.

“O combate à pobreza, e em particular o combate à pobreza no trabalho e à pobreza infantil, é um elemento constituinte do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, tendo o contexto trazido pela crise pandémica tornado mais premente a necessidade de dar passos sólidos nesta frente”, diz o documento que o Governo apresentou aos parceiros sociais. Na reunião desta terça-feira, o Governo e os parceiros sociais debateram ainda o Livro Verde sobre o Futuro do Trabalho que está em discussão pública até dia 22.

4.3.21

Bruxelas apresenta hoje o plano de ação para ser adotado em cimeira social no Porto

Por Executive Digest com Lusa

A Comissão Europeia apresenta, nesta quinta-feira, a sua proposta de plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais com medidas para reforçar a dimensão social na União Europeia (UE), uma das prioridades da presidência portuguesa do Conselho.

A apresentação deste aguardado plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais ocorre numa conferência de imprensa em Bruxelas marcada para as 10:00 de Lisboa (11:00 locais), que contará com o vice-presidente executivo Valdis Dombrovskis e o comissário europeu do Emprego e Direitos Sociais, Nicolas Schmit.

Na ocasião, será também divulgada uma recomendação sobre o apoio ativo e eficaz ao emprego dada a crise gerada pela covid-19.

Uma das grandes prioridades da presidência portuguesa da União Europeia (UE), neste primeiro semestre do ano, é então a agenda social, estando prevista a aprovação deste plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais na cimeira social agendada para 07 e 08 de maio, no Porto.

O objetivo é aprovar um programa com medidas concretas para executar o Pilar Social Europeu, um texto não vinculativo de 20 princípios para promover os direitos sociais na Europa aprovado em Gotemburgo (Suécia) em novembro de 2017.

O texto defende um funcionamento mais justo e eficaz dos mercados de trabalho e dos sistemas de proteção social, nomeadamente ao nível da igualdade de oportunidades, acesso ao mercado de trabalho, proteção social, cuidados de saúde, aprendizagem ao longo da vida, equilíbrio entre vida profissional e familiar e igualdade salarial entre homens e mulheres.

Após a apresentação da proposta de plano de ação, caberá à presidência portuguesa conduzir o debate e negociar um compromisso entre os 27 que permita ‘fechar’ um acordo em maio.

Num inquérito divulgado esta segunda-feira pelo executivo comunitário, 88% dos europeus inquiridos afirmaram que uma Europa social é importante para si a nível pessoal, enquanto 42% consideraram-na mesmo “muito importante”.

Portugal foi o Estado-membro com mais importância atribuída a uma Europa social, já que 43% dos respondentes portugueses consideraram-na “muito importante” e 55% “razoavelmente importante”.

Apenas 1% dos portugueses não lhe atribuíram importância e outros 1% não sabiam ou não respondiam.

Já sete em cada 10 europeus (71%) indicaram que a falta de direitos sociais é atualmente um problema e também neste caso os portugueses apresentaram um dos valores mais elevados de toda a União, 87%, apenas superado pelos 89% de Chipre.

Quando questionados sobre os elementos que consideram mais importantes para o desenvolvimento económico e social da Europa – podendo escolher, por ordem, quatro temáticas entre 11 possíveis –, os europeus colocaram em primeiro lugar “igualdade de oportunidades e acesso ao mercado de trabalho” (46%), seguido de “condições de trabalho justas” (45%).

Em Portugal, no entanto, o elemento mais importante destacado pelos inquiridos foi o “acesso a cuidados de saúde de qualidade”, com 69% a apontá-lo como prioritário, contra 41% da média europeia.

Uma das conclusões deste “Eurobarómetro” foi, ainda, que apenas um quinto dos europeus ouviram falar do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, uma das prioridades da presidência portuguesa da UE, e somente 8% sabem do que se trata.

O inquérito foi realizado entre 20 de novembro e 21 de dezembro de 2020 junto de 27.213 cidadãos dos 27 Estados-membros, tendo em Portugal sido inquiridas 1.012 pessoas pela Marktest.