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3.1.19

Mulheres indianas formam muro de 620 km pela igualdade de género

in o Observador

Cerca de cinco milhões de mulheres deram as mãos para lutar pela igualdade de género em Kerala, Índia. As mulheres indianas estão proibidas de entrar em monumentos religiosos por serem menstruadas.

De punhos erguidos, dezenas de milhares de mulheres indianas formaram um cordão humano com 620 quilómetros de comprimento. Esta foi a forma como estas mulheres começaram o ano de 2019, ao juntarem-se para lutar pela igualdade de género no estado de Kerala, no sul da Índia, na terça-feira.

Como conta a CNN, em causa está a proibição da entrada no templo hindu de Sabarimala a mulheres que estejam em idade de menstruação — intervalo definido pelo estado entre os 10 e os 50 anos. Isto porque, para a religião hindu, as mulheres menstruadas são consideradas impuras e, por isso, não lhes é dado o direito de participar em rituais religiosos.

Em setembro passado, o Supremo Tribunal da Índia pôs fim a essa lei histórica, declarando-a inconstitucional. Ainda assim, as mulheres que queiram entrar no templo são muitas vezes atacadas por manifestantes da ala religiosa, que querem dar continuidade à lei.

O primeiro-ministro Narendra Modi, do partido nacionalista que está no poder, Bharatiya Janata Party (BJP), chegou a afirmar que a decisão do Supremo Tribunal vai contra os valores do hinduísmo e quer continuar a banir esse direito às mulheres indianas. Isto junta-se ao facto de o deus Ayyappa, cuja casa é aquele templo, ter feito um juramento de celibato.

Durante cerca de 15 minutos as indianas mantiveram-se unidas em protesto, num total de cinco milhões de mulheres que se espalhou pelas autoestradas do estado. O Supremo Tribunal irá reunir-se ainda este mês para ouvir petições e reavaliar a norma em questão.

Agora que entramos em 2019...
...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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6.11.18

Nos municípios a igualdade vai ter (mesmo) que sair do papel

Aline Flor, in Público on-line

Nova geração de protocolos para a igualdade de género exige maior compromisso na execução de medidas. “A promoção da igualdade não pode ficar acantonada no domínio da acção social”, sublinha a secretária de Estado para a Igualdade.

O Governo anunciou nesta quarta-feira uma nova geração de protocolos com as autarquias no âmbito da igualdade de género, que exigem um maior compromisso na execução de medidas. A revisão do modelo de protocolo entre a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e os municípios foi anunciada pela secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, no Encontro Nacional do Dia Municipal para a Igualdade, em Lisboa.

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Até hoje, foram assinados 188 protocolos de cooperação entre a CIG e autarquias, onde se incluem 179 protocolos para a igualdade e não discriminação e nove acordos intermunicipais, vocacionados para a violência doméstica. “Estes planos têm que se traduzir em acção, têm que sair do papel”, frisou a governante. “Muitas vezes os protocolos demonstram uma vontade de intervenção, mas nem sempre isso se concretizava plenamente, até porque alguns municípios tinham dificuldade em perceber o que fazer e como fazer.”

Respeitando a autonomia dos municípios, sublinha Rosa Monteiro, este é um “trabalho que tem que ser feito em rede”. Dando como exemplo a intervenção que é feita a nível do apoio a vítimas de violência doméstica, que exige rigor do ponto de vista técnico, reforça que as respostas dos municípios “têm que estar integradas e articuladas”. Há ainda um “desconhecimento sobre o que os outros fazem”, nota a secretária de Estado, anunciando que a CIG vai lançar uma plataforma para monitorização dos planos municipais onde estes poderão partilhar boas práticas e procurar recursos — “ferramentas para um diálogo mais intenso, mais articulado” —, fornecendo também dados sobre a aplicação dos respectivos planos.

Os novos protocolos têm um período de vigência de quatro anos e seguem uma abordagem abrangente, em linha com a Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, desde áreas como a educação e o emprego às questões da violência doméstica e das discriminações múltiplas em razão do género, etnia, idade ou orientação sexual.

Sem avançar valores concretos, a governante afirmou que até ao início de 2019, no âmbito do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego, serão lançados apoios específicos para o desenvolvimento dos planos municipais associados a estes protocolos, assim como para o reforço da formação de “públicos estratégicos”, em domínios como a educação ou o apoio social. No âmbito dos EEA Grants, haverá financiamento para projectos dos municípios para a capacitação de mulheres para a “participação política, cívica e económica”.
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O objectivo é tornar esta abordagem transversal, e por isso sectores “não clássicos na área de intervenção da igualdade”, como a habitação, segurança, transportes, saúde e desporto, também serão chamados para esta intervenção articulada.

14.6.18

“Sou o Charlie e elas os anjos”. Acusações de machismo na conferência de media no Estoril

Rui Pedro Antunes, in o Observador

O presidente da Associação Portuguesa de Imprensa foi acusado de machismo durante conferência internacional dos Media, que alertou para os problemas de igualdade de género no jornalismo.

“Eu sou o Charlie e elas os meus anjos”.”Eu não sei se estou preparado para as partilhar com vocês”. “Vou dar um beijo a Christin em nome de todos vocês”. “Ela está envergonhada”. “Dê-me um beijinho, por favor”. “É uma mulher portuguesa, por isso, não é tão envergonhada”. As frases são todas do presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro, que foi acusado de machismo na intervenção que fez no palco durante o jantar de gala World News Media Congress, que se realizou entre 6 e 8 de junho no Estoril.

Vários representantes internacionais manifestaram-se indignados com este momento, o que levou Palmeiro a pedir desculpa no último dia do congresso. Em declarações ao Observador, Palmeiro admite que teve um “momento infeliz” e diz que não queria melindrar ninguém.

No vídeo, partilhado por Yusuf Omar, um dos participantes no congresso e fundador do Hashtagourstories.com, João Palmeiro começa por dizer, dirigindo-se às mulheres que, com ele, colaboraram na organização do evento: “Elas são os meus anjos. Eu não sei se estou preparado para as partilhar com vocês. É uma dream team. Eu sou o Charlie e elas são os anjos”. Pelo meio, o presidente da Associação Portuguesa de Imprensa — que incluiu os grandes grupos de media que existem no país — colocou algumas capas nas mulheres que estavam no palco.

Depois, em tom de brincadeira disse: “Agora, em nome de todos vocês, eu vou beijar Christin“. Como Christin Herger, da World Association of Newspapers, se mostrou um pouco desconfortável com a situação, Palmeiro comentou: “Ela está envergonhada“. E depois voltou a pedir enquanto se aproximava de Christin: “Dê-me um beijo, por favor“. Depois disso, quando se aproximou de outra das mulheres no palco, atirou: “Mulher portuguesa, por isso não é tão envergonhada, por isso um grande abraço e um grande beijo.”

Logo durante a conferência, questionado por Yusuf Omar, João Palmeiro admitiu que não refletiu “tanto como devia sobre o facto de todos não terem a mesma cultura” que ele. E o jornalista insistiu: “Na cultura portuguesa, a sua intervenção é aceitável?”. Ao que o presidente da API respondeu: “Absolutamente. É normal”. Depois do desconforto criado durante a conferência — que teve como um dos eventos paralelos um “Women In News Summit”, onde se discutiu os problemas de igualdade de género nos media — João Palmeiro pediu desculpa.

O presidente da API explicou ao Observador que, devido a esse desconforto, houve um encontro dos responsáveis da organização sobre se devia pedir desculpa e sobre a forma como o iria fazer. João Palmeiro explica ao Observador que esse pedido de desculpas foi “muito simples”: “Disse que se havia pessoas que se sentiam ofendidas, que pedia desculpa a essas pessoas”.

João Palmeiro justifica que “foi mal percebido” e que quis fazer algo diferente enquanto agradecia às pessoas. Achou que aquele registo de “humor” era melhor do que “agradecer às pessoas com cara de pau ou dizer ‘obrigado, passem bem'”. Lembrou ainda que trabalhou com aquelas pessoas durante meses. O presidente da API lamenta o sucedido e diz que, no limite, teve um “momento infeliz”.

Várias pessoas presentes na conferência ou que acompanharam os trabalhos mostraram-se indignadas por este momento. A investigadora da área do jornalismo, Julie Posetti, pergunta mesmo: “Foi este o momento #metoo das conferências de jornalismo?”

9.3.18

Portuguesas ganham em média menos 17,5 cêntimos por hora que os homens

in o Observador

Por cada euro que os homens ganharam em 2016, por uma hora de trabalho, as mulheres receberam apenas 82,5 cêntimos. As desigualdade salarial em Portugal agravou-se nos últimos anos.

As mulheres portuguesas com mais de 65 anos ganham menos 43,4% do que os homens, avança o Público. Portugal posiciona-se assim no terceiro lugar da tabela de diferenças salariais mais elevadas da Europa, a seguir ao Chipre e à Espanha. É o país onde a diferença salarial entre homens e mulheres mais se agravou nos últimos anos.

Ainda que em Portugal a participação das mulheres no mercado de trabalho seja equiparada “aos países europeus mais igualitários em termos de género”, o mesmo não se reflete nas condições económicas das portuguesas que continuam afastadas dos cargos de liderança. Estas conclusões podem ser lidas num dos capítulos do livro Desigualdades Sociais — Portugal e a Europa, das investigadoras Sandra Palma Saleiro e Catarina Sales de Oliveira do

Também os dados lançados na quarta-feira pelo Eurostat demonstram que as trabalhadoras portuguesas ganham, em média, 82,5 cêntimos por hora, ao passo que os homens ganham um euro para o mesmo tempo de trabalho. Uma diferença de 17,5 cêntimos que fica acima da média de 16 cêntimos a menos que as mulheres recebem a nível europeu.

Apesar de não se encontrar entre os piores no ranking europeu do gender pay gap — ou de diferenças salariais entre homens e mulheres — destaca-se por ter sido o país onde este indicador mais se agravou: entre 2011 e 2016 aumentou 4,6 pontos percentuais contra uma média europeia de desagravamento em 0,6 pontos percentuais.

Diferenças na escolaridade e áreas vocacionais
As desigualdades entre homens e mulheres vão muito para lá dos salários: em 2016, 20,4% das mulheres tinham o nível superior contra apenas 14,9% homens. Entre 2003 e 2015 aumentou o número de mulheres a fazer doutoramentos, pelo que Portugal se destaca no que ao número de investigadoras diz respeito: 44% contra uma média mundial de apenas 28,4%. Contudo as mulheres permanecem “em maior número na população analfabeta”.

67,4% das mulheres trabalham a tempo inteiro face a 74,2% dos homens e as assimetrias são claras: se as mulheres se fazem representar mais em profissões ligadas ao cuidado e trabalho com pessoas dependentes (serviço social, educação, saúde) é certo que os homens dominam nas áreas tecnológicas, da construção ou dos transportes.

Quero ser claro: isto não é um favor às mulheres. A igualdade de género é uma questão de direitos humanos

António Guterres, in Público on-line

Neste momento crucial para os direitos das mulheres, é hora de os homens aprenderem com elas.

Estamos num momento crucial para os direitos das mulheres. As desigualdades históricas e estruturais, que permitiram que a opressão e a discriminação florescessem, estão a ser denunciadas como nunca. Da América Latina à Europa ou à Ásia, nas redes sociais, em estúdios de filmagens, em fábricas e nas ruas, as mulheres estão a pedir uma mudança duradoura e tolerância zero para ataques sexuais, assédio e discriminações de todos os tipos.

Alcançar a igualdade de género e o empoderamento das mulheres e das raparigas é um trabalho que temos de terminar e constitui o maior desafio em matéria de direitos humanos do mundo atual.

O ativismo e a defesa de gerações de mulheres estão a dar frutos. Há mais raparigas matriculadas nas escolas do que no passado, mais mulheres têm trabalhos remunerados e exercem cargos superiores no setor privado, na academia, na política e em organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas. A igualdade de género está consagrada em inúmeras leis e práticas nocivas como a mutilação genital feminina e o casamento infantil passaram a ser proibidas em muitos países. No entanto, existem ainda sérios obstáculos para resolver desequilíbrios históricos de poder que servem de base para a discriminação e a exploração. Com efeito, mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo não têm proteção legal contra a violência sexual doméstica. A diferença salarial global (entre mulheres e homens) é de 23%, chegando a 40% nas áreas rurais, o trabalho não remunerado feito por muitas mulheres não é reconhecido. A representação das mulheres nos parlamentos nacionais é, em média, menos de 25%, e nos conselhos de administração de empresas este número é ainda mais baixo. Sem uma ação concertada, milhões de raparigas serão submetidas à mutilação genital na próxima década.

As leis existem mas são frequentemente ignoradas e as mulheres que recorrem à justiça são postas em causa, denegridas ou demitidas. Hoje, sabemos que o assédio e o abuso sexuais têm prosperado nos locais de trabalho, nos espaços públicos, nos lares e em países que se orgulham de seu desempenho em matéria de igualdade de género. As Nações Unidas devem dar o exemplo ao mundo. Reconheço que este nem sempre tem sido o caso. Desde o início do meu mandato, no ano passado, comecei a fazer algumas mudanças na sede da ONU, nas missões de manutenção da paz e nos nossos escritórios em todo o mundo.

Acabámos de alcançar a paridade de género, pela primeira vez, na minha equipa sénior de gestão, e estou determinado a levar esta paridade a toda a organização. Estou completamente comprometido com a tolerância zero para assédio sexual e já iniciei planos para melhorar as notificações e a responsabilização. Estamos a cooperar de forma estreita com os países para prevenir e responder a casos de abuso e exploração sexuais cometidos por funcionários de missões de manutenção da paz, bem como para apoiar as vítimas.

Nós, nas Nações Unidas, apoiamos mulheres de todo o mundo que estão a lutar para vencer as injustiças que enfrentam, sejam camponesas que sofrem com discriminação salarial, mulheres na cidade que se mobilizam para a mudança, refugiadas sob risco de exploração e abuso ou mulheres que vivem várias formas de discriminação como viúvas, mulheres indígenas, mulheres com deficiência e aquelas que não se conformam com as normas de género.
O empoderamento das mulheres está no coração da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável significa o progresso de todas as mulheres, em todo o mundo. A iniciativa “Spotlight” lançada conjuntamente com a União Europeia vai direcionar recursos para a eliminação da violência contra mulheres e raparigas, um pré-requisito para a igualdade e o empoderamento.

Quero ser claro: isto não é um favor às mulheres. A igualdade de género é uma questão de direitos humanos, mas também de todos nós: homens e rapazes, mulheres e raparigas. A desigualdade de género e a discriminação contra as mulheres afetam-nos a todos.

Existem provas suficientes de que investir nas mulheres é o caminho mais eficaz de fazer avançar comunidades, empresas e até mesmo países. A participação das mulheres torna os acordos de paz mais fortes, as sociedades mais resilientes e as economias mais vigorosas. Onde as mulheres sofrem discriminação, encontramos, frequentemente, práticas e crenças que são prejudiciais a todos. A licença de paternidade, leis contra a violência doméstica e salários iguais são benéficos para todos.

Neste momento crucial para os direitos das mulheres, é hora de os homens ficarem ao lado das mulheres, ouvirem o que têm a dizer e aprenderem com elas. A transparência e a responsabilização são essenciais para que as mulheres alcancem o seu máximo potencial nas nossas comunidades, sociedades e economias.

Tenho orgulho de fazer parte deste movimento que, desejavelmente, continuará a ser amplificado dentro das Nações Unidas e em todo do mundo.

6.3.18

UNESCO: 1 em cada 5 crianças e adolescentes está fora da escola

in ONUBR

Cerca de 263 milhões de crianças e adolescentes estão fora de escola, segundo levantamento divulgado nesta semana (28) pela UNESCO. Dados também apontam disparidades entre os jovens de nações ricas e pobres — em países de baixa renda, a taxa de evasão de estudantes de 15 a 17 anos é de 59%, enquanto nos países ricos é de apenas 6%.

Cerca de 263 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola, segundo levantamento divulgado nesta semana (28) pela UNESCO. Isso significa que uma em cada cinco pessoas com até 17 anos não frequenta uma instituição de ensino. Dados também apontam disparidades entre os jovens de nações ricas e pobres — em países de baixa renda, a taxa de evasão de estudantes de 15 a 17 anos é de 59%, enquanto nos países ricos é de apenas 6%.

A partir de informações reunidas por seu Instituto de Estatística (UIS), a agência da ONU denuncia uma estagnação nos progressos para recuperar meninos e meninas excluídos da educação formal.
Desde 2012, o número de crianças e adolescentes fora da escola caiu pouco mais de 1 milhão.

No nível primário, a taxa de evasão escolar quase não sofreu modificações durante toda a década passada, com 9%, ou 63 milhões de crianças de seis a 11 anos fora da escola.
O problema piora conforme avança a idade — 61 milhões de adolescentes de 12 e 14 anos e 139 milhões de jovens de 15 a 17 anos não estão matriculados em nenhum colégio. Isso significa que um em cada três adolescentes não estuda.

Os jovens de 15 a 17 anos têm uma probabilidade quatro vezes maior do que crianças do primário de estarem fora da escola. Em comparação com a faixa etária dos 12 aos 14, os adolescentes mais velhos têm o dobro de chances de não frequentar uma instituição de ensino.

“Esses novos dados mostram o tamanho da lacuna que precisa ser preenchida para garantir o acesso universal à educação”, alerta a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay. “Precisamos de abordagens mais abrangentes e focadas, somadas a mais recursos para alcançar crianças e jovens que têm o direito à educação negado, com ênfase social nas meninas e em melhorar a qualidade da educação para todos.”
A dirigente acrescentou que tais mudanças são urgentes para avançar no cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável de nº 4, que prevê a garantia do acesso de todos à educação primária e secundária de qualidade.
Diferenças regionais, econômicas e de gênero

O estudo do UIS confirma que, em toda a África subsaariana, um em cada três crianças e adolescente está fora da escola. As meninas estão mais propensas a serem excluídas dos sistemas de ensino do que os meninos. Para cada cem meninos de seis a 11 anos fora da escola, há 123 garotas sem direito à educação.

Na América Latina e no Caribe, 9,9% das crianças e adolescentes não frequentam centros de ensino. O índice é menor que a média global de evasão, estimada em 17,8%, quase um quinto de todos os jovens até 17 anos de idade. Mas a taxa latino-americana e caribenha está bem mais alta do que o valor calculado na Europa (4,3%) e é maior que os índices na Ásia Central (7,6%) e no Leste e Sudeste Asiáticos (9%).
A UNESCO também ressalta que há uma profunda disparidade entre as taxas de evasão escolar nos países mais pobres e mais ricos do mundo. Nos países de baixa renda, a taxa de evasão de estudantes de 15 a 17 anos é de 59%. Nos países de renda alta, o índice cai para 6%.

“Temos também uma crise de aprendizagem, com um em seis crianças e adolescentes não atingindo os níveis mínimos de proficiência em leitura ou matemática. A educação oferecida deve ser de qualidade para todos, o que requer um monitoramento eficaz para garantir que todas as crianças estejam na escola e que estejam aprendendo o que precisam saber”, acrescentou a diretora do UIS, Silvia Montoya.

Segundo a especialista, a instituição de pesquisa está desenvolvendo novos indicadores sobre equidade na educação e resultados de aprendizagem.

Acesse o levantamento do UIS na íntegra clicando aqui (em inglês).

Os novos números foram publicados no mesmo dia em que teve início, em Paris, a quarta reunião do Comitê de Direção do ODS 4. O organismo é o principal mecanismo global de consulta e coordenação para a educação na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

A entidade se reúne uma ou duas vezes por ano para fornecer aconselhamento estratégico sobre políticas, financiamento, monitoramento, relatórios e conscientização. O comitê é composto por 38 membros que representam em sua maioria os Estados-membros, juntamente com oito agências das Nações Unidas, a Parceria Global para a Educação, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), organizações regionais, organizações de professores, redes da sociedade civil, além de representantes do setor privado, fundações, jovens e organizações estudantis.

21.11.17

Jovens representam mais de 35% dos desempregados do mundo, alerta OIT

in ONUBR

A juventude representa mais de 35% da população desempregada em todo o mundo, segundo relatório lançado nesta segunda-feira (20) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Apesar de o número estimado de 70,9 milhões de jovens desempregados este ano representar uma melhora frente ao auge da crise em 2009, a OIT estima que esse volume deve aumentar em mais 200 mil em 2018, atingindo um total de 71,1 milhões.

A juventude representa mais de 35% da população desempregada em todo o mundo em 2017, segundo relatório lançado nesta segunda-feira (20) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Enquanto em 2016 a taxa global de desemprego juvenil ficou estável em 13%, a expectativa é que ela aumente levemente para 13,1% este ano, segundo o documento “Tendências Globais de Emprego para a Juventude 2017”.

O número estimado de 70,9 milhões de jovens desempregados em 2017 é uma melhora significativa em relação ao auge da crise em 2009, quando existiam 76,7 milhões de jovens desempregados no mundo. No entanto, a OIT estima que esse volume deve aumentar em mais 200 mil em 2018, atingindo um total de 71,1 milhões.
Globalmente, os aumentos consideráveis nas taxas de desemprego juvenil observadas entre 2010 e 2016 no norte da África, nos Estados árabes e na América Latina e no Caribe foram compensados por melhorias nos mercados de trabalho juvenil na Europa, na América do Norte e na África subsaariana.

O crescimento econômico geral continua desconectado do crescimento do emprego e a instabilidade econômica ameaça reverter os avanços observados no emprego juvenil. A diferença nas taxas de desemprego entre jovens e adultos quase não mudou na última década, ilustrando as desvantagens enraizadas e extensivas que a juventude enfrenta no mercado de trabalho.

O relatório também destaca as vulnerabilidades contínuas das mulheres jovens no mercado de trabalho. Em 2017, a taxa global de participação delas na força de trabalho é 16,6 pontos percentuais menor que a dos homens jovens.

As taxas de desemprego das mulheres jovens também são significativamente maiores do que as dos homens jovens. Além disso, a diferença de gênero na taxa de jovens que não estão trabalhando nem estudando ou recebendo treinamento é ainda maior: globalmente, essa taxa é de 34,4% das mulheres jovens, comparado a 9,8% dos homens jovens.

Em 2017, 39% dos 160,8 milhões de jovens trabalhadores no mundo emergente e em desenvolvimento vivem em pobreza moderada ou extrema, ou seja, com menos de 3,10 dólares por dia.

Atualmente, mais de dois em cada cinco jovens na força de trabalho estão desempregados ou estão trabalhando enquanto continuam na pobreza, uma realidade impressionante que afeta sociedades do mundo todo.

Para muitos deles, presente e futuro estão na economia informal. Três em cada quatro jovens mulheres e homens empregados estão no emprego informal, em comparação com três em cada cinco adultos. Nos países em desenvolvimento, essa proporção chega a 19 em cada 20 jovens mulheres e homens.
O desafio do emprego juvenil não é, portanto, apenas sobre a criação de emprego, mas também — e principalmente — sobre a qualidade do trabalho e empregos decentes para a juventude.

“Lidar com esses persistentes desafios sociais e do mercado de trabalho enfrentados por jovens mulheres e homens é crucial, não só para alcançar um crescimento sustentável e inclusivo, mas também para o futuro do trabalho e a coesão social”, disse a diretora-geral adjunta para políticas da OIT, Deborah Greenfield.

Outros resultados
O relatório também revela que os setores com algumas das maiores taxas de crescimento de emprego juvenil na última década incluem finanças, comércio e saúde.
Os jovens são relativamente mais fluentes em tecnologia do que os trabalhadores mais velhos e aproveitam isso cada vez mais para ganhar a vida, embora existam diferenças entre as regiões, dependendo da taxa de difusão e do acesso digital.

As habilidades demandadas também estão mudando. Houve um declínio na busca por capacidades de nível médio, enquanto a procura por trabalhadores altamente qualificados e menos qualificados está crescendo, contribuindo para uma maior polarização no mercado de trabalho.

A demanda por jovens altamente qualificados cresceu fortemente em países de renda alta, enquanto nos países em desenvolvimento e emergentes houve um aumento no trabalho de baixa habilidade.

O emprego de jovens trabalhadores semiqualificados diminuiu na maioria dos países, em todos os níveis de desenvolvimento. Essa tendência de polarização do trabalho pode ser acentuada pelas novas tecnologias e potencialmente exacerbar as desigualdades existentes.

Um número crescente de jovens à procura de emprego e de jovens empreendedores está recorrendo à Internet — ou seja, à economia sob demanda das plataformas digitais, conhecida como gig economy — onde encontram formas novas e diversas de emprego.

Um exemplo disso é o crowd-work realizado remotamente através de plataformas online, que pode oferecer flexibilidade e expandir as oportunidades de obtenção de renda. No entanto, existem riscos importantes, incluindo baixos rendimentos, nenhuma garantia de continuidade no emprego ou de renda e falta de acesso a benefícios relacionados ao trabalho.

Os jovens muitas vezes iniciam suas vidas profissionais em empregos temporários, sabendo que talvez nunca consigam conquistar “segurança no t
trabalho”.

Eles são mais propensos a fazerem a transição para empregos estáveis e satisfatórios nas economias desenvolvidas e emergentes do que nos países em desenvolvimento.

Mais investimentos em educação de qualidade e desenvolvimento de habilidades são críticos, pois quanto mais tempo uma pessoa jovem estuda, menor é o tempo de transição para o emprego, mostrou o relatório.

O documento também destaca a necessidade de políticas que levem em conta as rápidas mudanças nas características do mundo do trabalho, impulsionadas pela tecnologia, e que permitam que mulheres e homens jovens estejam à frente da curva.

“Investir em mecanismos de aprendizagem ao longo da vida, habilidades digitais e estratégias setoriais que expandam o trabalho decente e abordem as vulnerabilidades dos mais desfavorecidos deve ser a prioridade das políticas nacionais”, disse a diretora do Departamento de Políticas de Emprego da OIT, Azita Berar Awad.

O relatório fez ainda um chamado por parcerias estratégicas com múltiplos atores no âmbito da Iniciativa Global sobre Empregos Decentes para a Juventude e da plataforma da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, no sentido de aumentar a ação e o impacto sobre o emprego juvenil.

Homens ganham mais 17,8% do que as mulheres em Portugal

in o Observador

Em Portugal, os homens ganham mais que as mulheres. Segundo Vera Jourová, a comissária para a Justiça, Consumidores e Igualdade de Género, as disparidades devem acabar.

Os homens ganham, em Portugal, mais 17,8% do que as mulheres, acima da disparidade salarial média na União Europeia (UE 16,3%), segundo dados de 2015, divulgados esta segunda-feira pelo Eurostat.

A disparidade salarial é definida como a diferença entre os vencimentos anuais entre homens e mulheres, mas quando se tem em conta as três desvantagens que estas têm que enfrentar – menor salário por hora, menos horas de trabalho em empregos pagos e taxas de emprego mais baixas – a disparidade de género chegava, em 2014, aos 26,1% em Portugal (UE 39,6%).

No âmbito da promoção da igualdade de géneros, a Comissão Europeia anunciou neste dia um plano de ação para acabar com as disparidades salariais entre homens e mulheres, que deverá estar aplicado até ao final do mandato do colégio, em 2019.

O plano de ação prevê o respeito pelo princípio da igualdade salarial, avaliando a possibilidade de alterar a diretiva (lei europeia) sobre a igualdade de género.

Bruxelas quer ainda reduzir o efeito penalizante dos cuidados familiares, apelando ao Parlamento Europeu e aos Estados-membros que adotem rapidamente a proposta de diretiva relativa à conciliação entre a vida profissional e a vida familiar, de abril de 2017.

“As mulheres continuam a estar sub-representadas nos cargos de chefia, tanto na política como nas empresas”, disse a comissária Justiça, Consumidores e Igualdade de Género, Vera Jourová.

A comissária acrescentou que “as disparidades salariais entre homens e mulheres devem acabar porque a independência económica das mulheres é a sua melhor proteção contra a violência”.

30.10.17

ONU alerta para violência contra mulheres nas comunidades rurais

in ONUBR

A violência afeta todos os grupos de mulheres e meninas, independentemente da renda, idade ou educação. No entanto, aquelas que vivem em áreas rurais enfrentam diferentes riscos e desafios na resposta à violência. O contexto rural inclui elevados níveis de pobreza, menor acesso à educação superior e ao trabalho decente, menor capacitação econômica e proteção social, o que aumenta ainda mais a vulnerabilidade de mulheres que estão em relacionamentos abusivos.

O tema é destaque do Dia Laranja Pelo Fim da Violência contra as Mulheres, lembrado a cada dia 25 pelas agências das Nações Unidas no Brasil, em especial pela ONU Mulheres.

A violência afeta todos os grupos de mulheres e meninas, independentemente da renda, idade ou educação. No entanto, aquelas que vivem em áreas rurais enfrentam diferentes riscos e desafios na resposta à violência. O contexto rural inclui elevados níveis de pobreza, menor acesso à educação superior e ao trabalho decente, menor capacitação econômica e proteção social, o que aumenta ainda mais a vulnerabilidade de mulheres que estão em relacionamentos abusivos.

Diante desse cenário, o Dia Laranja Pelo Fim da Violência contra as Mulheres deste mês, lembrado a cada dia 25, coloca em destaque a violência enfrentada por mulheres que vivem em comunidades rurais.

Nessas áreas, os serviços públicos muitas vezes não respondem às necessidades e desafios das mulheres rurais, que enfrentam condições limitadas de mobilidade, entre outros problemas.

Em situações de violência doméstica, por exemplo, questões como a falta de assistência às crianças, de oportunidades de emprego e de serviços básicos de apoio, tais como proteção policial, abrigo, cuidados de saúde e assistência jurídica, agravam ainda mais o isolamento psicossocial das mulheres que vivem em áreas rurais.

16 dias de ativismo
De 25 de novembro a 10 de dezembro são celebrados os “16 Dias Pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha global apoiada pela ONU por meio da iniciativa UNA-SE. No Brasil, as ações terão início em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

Reconhecendo a natureza unificadora de um dos princípios essenciais da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, a campanha UNA-SE celebrará este ano o tema geral de “Não deixar ninguém para trás: acabar com a violência contra as mulheres e as meninas, alcançando as mais vulneráveis primeiro”.
O calendário reconhece este compromisso por meio de temas mensais, que colocam em destaque implicações e consequências da violência contra as mulheres e as meninas nos grupos mais marginalizados — incluindo negras, refugiadas, migrantes, indígenas, crianças, pessoas com deficiência, entre outras.

Fontes úteis:
• Guia de Planejamento para Segurança de Mulheres e Crianças em Comunidades Pequenas e Rurais, publicado pela Cowichan Women Against Violence Society, do Canadá, descreve as principais frentes que podem ser direcionadas para a segurança em planejamentos comunitários.

• Relatório “Empoderamento econômico e violência contra mulheres e meninas” explora como o empoderamento econômico de mulheres e meninas pode ser um método eficaz de prevenção ou redução da violência contra as mulheres. O relatório enfatiza a importância de compreender o contexto dos ambientes rurais, apresentando um exemplo de duas configurações diferentes no Bangladesh rural, que mostrou como o aumento do empoderamento feminino desafiou papéis de gênero há muito estabelecidos e que, anteriormente, levaram a uma série de conflitos e violências de gênero.

Programas e projetos estratégicos:
• O relatório sobre a 57ª sessão da Comissão sobre o Status da Mulher (CSW) destaca que o direito à educação é um direito humano importante para a eliminação do analfabetismo, assegurando a igualdade de acesso à educação, em particular nas áreas rurais e remotas, e contribuindo para a eliminação de todas as formas de discriminação e violência contra mulheres e meninas.

• Em áreas rurais, é comum ocorrer conflitos sobre o acesso à terra para o cultivo, levando frequentemente à violência física — particularmente contra mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas. Muitos programas do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) ajudam a prevenir a violência baseada em gênero por meio do apoio aos meios de subsistência das mulheres na agricultura, na pesca, na criação de gado e no empreendedorismo rural.
• Em todas as regiões, meninas que vivem em áreas rurais são mais propensas ao casamento infantil do que meninas que vivem em áreas urbanas. Esta diferença é particularmente marcante em alguns países da África Ocidental e Central e na América Latina e no Caribe, onde a prevalência do casamento infantil nas áreas rurais é de aproximadamente o dobro do nível encontrado nas áreas urbanas.

A publicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) “Ending Child Marriage – Progress and Prospects” traz uma visão geral das estatísticas e fatos sobre o casamento infantil, desagregados por sexo, e conclui que as meninas correm maior risco de casamento antecipado do que os meninos. O estudo também inclui disparidades no casamento infantil em diferentes regiões do mundo.

• O guia prático para comunidades rurais e isoladas, publicado pelo Projeto de Coordenação Comunitária para a Segurança das Mulheres, traz exemplos sobre como construir parcerias com atores comunitários para prevenir a violência contra as mulheres nas comunidades rurais.

23.10.17

África deve focar nos jovens e no empoderamento de mulheres e meninas, diz Guterres

in ONUBR

A África deve se concentrar nos jovens, empoderar as mulheres e meninas e ser inovadora para alavancar recursos e financiar o desenvolvimento, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, na segunda-feira (16) ao lançar a semana da África nas Nações Unidas.

“A África é a terra da resiliência e, acima de tudo, de oportunidades”, disse ele, ressaltando o recente progresso do continente em reduzir a pobreza, diversificar suas economias, construir uma classe média e cultivar o crescimento em uma variedade de setores.

A África deve se concentrar nos jovens, empoderar as mulheres e meninas e ser inovadora em alavancar recursos e financiar o desenvolvimento, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, na segunda-feira (16) ao lançar a semana da África nas Nações Unidas.
“A semana da África foi criada para aumentar a conscientização e mobilizar apoio. Estou convencido de que, juntos, podemos enfrentar os desafios”, disse Guterres em suas declarações no evento inaugural ocorrido na sede da ONU em Nova Iorque.

O secretário-geral disse que a comunidade internacional deve mudar a forma como olha para o continente africano.

“A África é a terra da resiliência e, acima de tudo, de oportunidades”, disse ele, ressaltando o recente progresso do continente em reduzir a pobreza, diversificar suas economias, construir uma classe média e cultivar o crescimento em uma variedade de setores.

Segundo Guterres, para impulsionar esse potencial, os jovens devem desempenhar um papel central, já que a África tem a população juvenil de mais rápido crescimento no mundo.

“Podemos ajudar a aproveitar ao máximo esse dividendo demográfico através de maiores investimentos em educação, especialmente em ciência e tecnologia, e garantindo a participação dos jovens no desenvolvimento econômico. As pessoas precisam de habilidades que combinem com as necessidades de hoje e de amanhã”, disse.

Empoderar as mulheres e meninas da África também é fundamental, uma vez que a desigualdade de gênero está custando dezenas de bilhões de dólares por ano à África Subsaariana, como em qualquer outro lugar no mundo.

Outro ponto crucial é ser inovador na alavancagem de recursos e financiamento para o desenvolvimento, incluindo uma reforma tributária pelos próprios países africanos e esforços internacionais para combater a evasão fiscal, a lavagem de dinheiro e os fluxos financeiros ilícitos que esgotaram a base de recursos do continente, acrescentou.

Saiba mais sobre:

16.8.17

Roupas de todas as cores, brinquedos de todos os tipos, divisão de tarefas

Cristina Pereira, in Público on-line

A igualdade de género faz parte dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. Sofia Neves e Luís Dias fazem da igualdade um estilo de vida e é nesse princípio que estão a educar o filho. Terceira de uma série de cinco reportagens sobre famílias com estilos de vida mais sustentáveis

Não é assunto que confine às aulas, que dá no Instituto Universitário da Maia (ISMAI), ou ao activismo, que exerce através da Associação Plano I. Sofia Neves faz da igualdade de género um estilo de vida. E isso nota-se na sua relação com o marido, Luís Dias, e na forma como ambos educam o filho, Rui, de 11 anos.
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A igualdade de género é um dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável definidos pela Organização das Nações Unidas em 2015. Da agenda global 2030 fazem parte metas como “acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas”, contribuir para o seu “empoderamento”; “reconhecer e valorizar o trabalho doméstico”.
Fazem sabonetes, produzem grande parte do que comem, só vestem roupa usada
Fazem sabonetes, produzem grande parte do que comem, só vestem roupa usada

“Para mim, o desafio maior, no que diz respeito à igualdade de género, é a educação”, começa por dizer Sofia. “Acredito que se começarmos a educar para a igualdade, para os direitos humanos, para a cidadania, para a paz, daqui a uns anos estaremos com as várias formas de desigualdade menos visíveis.”

A mudança pode começar dentro da casa de cada um. E é no apartamento da família Neves-Dias que estamos.

Nada chama a atenção para este lugar. É um apartamento de classe média situado num dos muitos prédios próximos do centro de Braga. Sentámo-nos em torno da mesa da sala, com as persianas corridas para afastar os raios de Sol, que bate quente. O cão, Emmet, como a personagem da Lego, “pede” para se juntar à conversa. E o filho, Rui, pede para sair. O rapaz prefere enfiar-se no escritório a jogar à distância com um amigo através do computador.

Há uma questão que se impõe de imediato. Como é que se educa uma criança para a igualdade? “Tentando esbater todas as diferenças com que as crianças esbarram no seu percurso de desenvolvimento”, responde Sofia. Tudo conta. A roupa que se lhes veste, os brinquedos que se lhes põe à mão, os interesses que se admite que desenvolvam.
Tomam banho depressa, enterram lixo orgânico, partilham carro eléctrico
Tomam banho depressa, enterram lixo orgânico, partilham carro eléctrico

“O Rui teve todos os tipos de brinquedos e vestiu roupas de todas as cores”, deslinda. “Ele tinha um babygro cor-de-rosa. Sempre que lho vestia, havia algumas tensões na família, porque não era suposto um bebé rapaz vestir um babygro daquela cor.” Não deixou de lho vestir por causa disso.

À medida que o filho foi crescendo, Sofia foi notando que havia nele algum desconforto com a paleta de cores do vestuário. Certo dia, já em idade escolar, o rapaz foi confrontado por colegas por usar uma T-shirt cor-de-rosa.

“Eu senti que aquilo lhe estava a causar algum mal-estar. E não o obriguei a voltar a vestir aquela T-shirt.” E ele nunca a escolheu. Não houve drama. “Veste aquilo que ele quer. Se for cor-de-rosa, muito bem. Se não for, muito bem na mesma.”

Teve bonecas, bonecos, carros, camiões, puzzles, uma enorme colecção da Lego e muitos outros brinquedos. Pôde escolhê-los de acordo com os seus interesses, alheio ao que a tradição atribui a meninos ou meninas. Cedo revelou preferência pela arte de encaixar pequenas peças de plástico ou cartão e isso facilitou a vida aos familiares e amigos que lhe queriam oferecer qualquer coisa.
Preconceito em relação aos feminismos

Sofia Neves fez o doutoramento em Psicologia Social na Universidade do Minho com a tese Desconstrução de Discursos de Amor, Poder e Violência em Relações Íntimas: Metodologias Feministas em Psicologia Social Crítica. Além de docente do ISMAI, é investigadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

Interessa-se por exclusão social e violência com base no género, na etnia, na nacionalidade, na orientação sexual, na diversidade funcional e na idade. Trabalha com mulheres vítimas de violência, populações LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, intersexo), comunidades ciganas, pessoas em situação de sem-abrigo. E há uma linha que trespassa tudo aquilo em que ela se envolve: a luta pela igualdade de género.

“Não é possível promover a igualdade de género se não houver condições dignas de sobrevivência”, defende. “Não perdendo de vista esse eixo, tento realmente que outros possam ser trabalhados para que as pessoas de alguma forma se sintam respeitadas nos seus direitos, não apenas por serem mulheres ou homens, mas por serem mulheres e homens que têm determinadas características que as e que os tornam mais vulneráveis. E o feminismo para mim é isso.”

Começou a entusiasmar-se com os feminismos ainda nos seus tempos de estudante da licenciatura em Psicologia da Universidade do Minho. E é como feminista que se assume dentro e fora de casa.

“Há um estigma, um preconceito que deriva sobretudo da ignorância”, considera. “Muitas pessoas não sabem o que é ser feminista. O feminismo é um movimento social em prol da igualdade que assume o sexo feminino como prioritário, mas não ignora que há outras pessoas que são igualmente vulneráveis. As mulheres não são todas iguais e os homens também não são todos iguais.”

Quando descobriu os feminismos, já namorava com Luís. Quando começaram a namorar, ela tinha 15 anos. Casaram-se volvidos dez anos. E já lá vão 15 desde que isso aconteceu (com véu e grinalda como prova uma das fotografias da sala). Agora, conta 41. Ele é um pouco mais velho. Vai nos 44.

Nesta fase da conversa, há outra pergunta que se impõe. Como é que se mantém uma relação desde tão tenra idade durante tantos anos? “Com respeito, companheirismo, motivação para ir superando a dificuldades que vão surgindo”, diz ela. “Crescemos juntos”, corrobora ele. “Todas as etapas que fomos ultrapassando, vivendo. Acho que vamos sendo a muleta um do outro.”

Luís não tem o mesmo contexto profissional. Estudou Solicitadoria no ISMAI. Partindo da formação jurídica, desenvolve a carreira no sector dos seguros. E não foi educado para a igualdade de género em casa dos pais, em Viana do Castelo, como o filho está a ser. Ajustou o seu comportamento quando começou a partilhar a vida com Sofia. “As pessoas têm de assumir, quando pensam de forma errada, que estão a pensar de forma errada e que têm de mudar”, comenta.

Não foi só ele. “Toda a família se reconfigurou”, sublinha Sofia. “Para mim, é impensável que no Natal as mulheres estejam na cozinha e os homens na sala. Isso não é aceitável cá em casa. Os homens, mesmo os mais tradicionais e conservadores, acabam por sentir-se desconfortáveis por não partilhar as tarefas porque percebem que estão a pôr em causa aquilo que é um registo familiar.”

Na divisão de tarefas domésticas, tentam respeitar as preferências um do outro. Sofia detesta passar a ferro, Luís gosta de passar a ferro. Donde, é ele que passa a ferro. Luís detesta lavar as casas-de-banho, Sofia não se importa de as lavar. Logo, é Sofia que lava as casas-de-banho. Cozinhar será a tarefa que dividem de uma forma mais equitativa.

Esperam que Rui aprenda com o exemplo e com as conversas. Participa nas suas tarefas - põe a mesa, limpa a louça, faz a cama. “Desde muito cedo, começamos a falar com ele sobre questões LGBTI, normalização da diferença. Temos tentado que seja uma criança atenta às desigualdades, sejam elas étnicas, sociais. E que esteja presente em alguns momentos que para nós são importantes”, diz Sofia. Ainda há pouco, seguiu na marcha LGBTI.

Neste apartamento, há um livro protagonizado por um menino chamado Rui. Sofia aliou-se a Joana Miranda e ao ilustrador Luís Romano para fazer A Minha Família é a Melhor do Mundo. E a Tua? (Isto é Editora), que apresenta como um convite para repensar a ideia de família e de igualdade.
Dançar ballet? Talvez não

Metemos conversa com Rui, a tentar perceber se absorveu o debate de género que agora domina as reivindicações LGBTI. O que é um homem e o que é uma mulher? “Um homem é uma pessoa masculina e uma mulher uma pessoa feminina. O que os distingue são os órgãos genitais”, retorque. Não afirma, como a mãe, que o género depende da identidade e não de características do corpo, mas recusa os tradicionais papéis de género. Quando se lhe pergunta se há actividades próprias para meninos e actividades próprias para meninas, responde: “Não!”

Passou agora para o 6.º ano. Continua a gostar de encaixar as pequenas peças fabricadas pela Lego, mas também gosta de ler livros e histórias e aventuras, de jogar no computador, de dançar. E nada, nada lhe dá tanta alegria como dançar. Duas vezes por semana tem aulas de hip hop. A professora, que é uma bailarina clássica, já o desafiou a tentar uma aula de ballet. Recusou.

Não acha que o ballet é uma dança de meninas, mas não deixou de comentar com a mãe: “O que é que os meus amigos da escola iriam pensar?!” E os pais acham tudo isto “muito interessante”. O ballet não é a sua dança de eleição. Se fosse, talvez quisesse experimentar, cogita Sofia. “Sempre deixámos que fizesse as escolhas que para ele são mais adequadas, independentemente de ele ser um menino”, analisa. “Sempre tentámos que não se sentisse constrangido pela sua pertença de género. Temos tentado, desde muito cedo, passar-lhe essa ideia de liberdade. Ele sempre teve liberdade para escolher. Ele está constantemente a ultrapassar barreiras. E ultrapassá-las é difícil. Há muita pressão social para a conformidade de género.”

O que a experiência lhes vai mostrando é que uma família, sozinha, não consegue desconstruir todas as ideias feitas que existem sobre o que é ser um menino e sobre o que é ser uma menina. “Ou tem na escola, nos media, na organização social de um modo geral, um respaldo ou muito dificilmente consegue atingir os objectivos a que se propõe”, resume Sofia. E é, também, por isso que lhe parece tão importante levar a luta pela igualdade de género para fora de casa.

A Associação Plano I, a que preside, foi fundada no final de 2015. Queria “encontrar uma resposta que achava que não existia ainda na zona Norte do país e que agregasse diferentes lutas em prol dos direitos humanos”. Desafiou “algumas pessoas de áreas interdisciplinares que estavam envolvidas no activismo, na investigação ou na docência”, como a socióloga Sílvia Gomes. Em vez do género, da idade, da nacionalidade, da etnia, da orientação sexual, valorizar-se-á em cada um aquilo que tem de mais específico, isto é, a sua história, o seu percurso e a sua cultura.

Está a crescer mais depressa do que alguma vez imaginou, a Associação Plano I. Responde pelo Centro Gis, a primeira unidade no Norte do país dedicada às necessidades da população LGBT, que funciona no edifício da antiga câmara de Matosinhos, na Rua Brito Capelo. Responde pelo Gabinete de Apoio a Vítimas de Violência no Namoro, que funciona dentro do ISMAI. E responde pelo UNIgualdade — Programa de Promoção da Igualdade e da Diversidade Social e de Combate à Violência Doméstica e de Género, que forma para a igualdade de género públicos estratégicos.

Vão desenvolvendo outras actividades em parcerias com outras associações. O lado mais visível dessa atitude será a dinamização do Conselho Consultivo para as Questões LGBTI. “Acreditamos no trabalho em rede, procuramos que as nossas acções sejam acções em colaboração”, resume.
Prioridade para a prevenção

Sofia valoriza as várias linhas de acção, mas interessa-se, sobretudo, pela prevenção. “Temos problemas instalados de desigualdade que não podem ficar dependentes de um caminho que vai demorar gerações a fazer, mas para mim a prioridade deve ser a prevenção e a prevenção pela educação, não a prevenção avulsa, desorganizada, que não chega a todo o lado, que está dependente de projectos a prazo”, diz.

Na sua opinião, “estas temáticas são tratadas nas escolas de um modo muito pouco aprofundado”. Não é que não haja ferramentas. Há os Guiões de Educação, Género e Cidadania, encomendados pela Comissão para a Igualdade de Género (CIG). Os professores podem usá-los no pré-escolar, no 1.º, 2.º e 3.º ciclos. Além de enquadramento teórico sobre igualdade, encontram aí exercícios e jogos que, por exemplo, invertem os estereótipos nas profissões e tarefas domésticas.

Em 2012, Comissão Europeia inseriu estes guiões no rol de Boas Práticas em Género e Educação. Em 2015, o Conselho da Europa incluiu-os na compilação Boas Práticas no Combate aos Estereótipos de Género na e Através da Educação. No ano lectivo que agora terminou, a CIG fez uma aposta nas acções de formação para professores. Mas, critica Sofia, continua tudo muito dependente da boa vontade dos professores. Atenção: não diz “professores”, diz “professores e professoras”.

Há, no discurso de Sofia, a constante preocupação de referir mulheres e homens. “A linguagem inclusiva é uma bandeira”, admite. Sabe que há fortes críticos desta opção. Isso não lhe interessa. Tão-pouco lhe interessa se é prático. “Parece-me uma coisa básica numa sociedade que se diz democrática e que é constituída por mulheres e homens. Utilizar o masculino como universal neutro não me faz sentido. Não me sinto representada quando alguém se refere a mim como o Homem”, remata. Não impõe isso. Rui vai tendo essa preocupação quando está perto da mãe. O marido não.

10.2.17

Liliana Rodrigues defende papel da escola pública no combate aos estereótipos de género

Liliana Rodrigues, Dnotícias

Foi ontem aprovado na Comissão dos Direitos da Mulher e Igualdade dos Géneros, por larga maioria, o relatório sobre a Igualdade entre homens e mulheres na União Europeia em 2014/2015, documento que faz o diagnóstico da situação até 2015 e aponta recomendações com o objectivo de ajudar os decisores da União Europeia e os seus cidadãos a melhorar o seu trabalho neste domínio.

A Europa é um dos líderes mundiais em termos de direitos das mulheres e da igualdade entre os géneros. No entanto, a verdade é que ainda está apenas a meio caminho da plena igualdade. O ritmo actual é ainda lento e tem sofrido alguns reveses, como sucede com a Polónia.
O documento que foi a votação integra 37 alterações introduzidas pela eurodeputada Liliana Rodrigues e que vão no sentido de “fazer frente aos movimentos anti-igualdade de género que, nos últimos anos, têm ganhado terreno público em alguns Estados-Membros, visando reforçar os papéis de género tradicionais e colocando em risco as realizações entretanto conseguidas nos domínios da igualdade dos géneros. Importa, por isso mesmo, insistir em políticas que visem acelerar essa igualdade numa União que ainda caminha a ritmos distintos nesse domínio”.
Para a deputada socialista, o combate à desigualdade entre os géneros deve começar na educação pré-escolar e requer um constante controlo pedagógico de currículos, objectivos de desenvolvimento e resultados de aprendizagem, uma vez que o “impacto dos estereótipos de género na educação e na formação, assim como as decisões tomadas pelos estudantes na escola podem determinar as escolhas que fazem ao longo da vida e tem fortes implicações no acesso ao mercado de trabalho”.

Para além deste ponto de partida inicial, Liliana Rodrigues destaca nas suas recomendações: a importância de os Estados-Membros reforçarem a legislação nacional tendo em vista o assegurar de uma educação pública gratuita de qualidade que combata os estereótipos de género e a influência negativa de valores veiculados por alguma publicidade e alguns meios de comunicação social e que promova uma educação sexual responsável; o envolvimento dos homens como parceiros no empoderamento das mulheres e ainda a luta contra a violência doméstica e o ciberassédio.

“O ensino público tem a responsabilidade de fazer um investimento consistente na igualdade de género”, entende Liliana Rodrigues, acrescentando que “precisamos também de uma integração da perspectiva de género mais forte e que se debruce sobre as causas estruturais da pobreza feminina”, uma vez que, nas palavras da deputada madeirense, “assistimos a uma verdadeira feminização da pobreza, com vários estudos a mostrar, de forma clara, que as políticas de austeridade tiveram um impacto enorme nas mulheres e na igualdade de género, sendo elas as mais afectadas pelos cortes no sector público, uma vez que representam cerca de 70% da força de trabalho neste sector”.

A este ritmo de progresso serão necessários mais 70 anos para obter a igualdade de salários, 40 anos para que as tarefas domésticas sejam igualmente repartidas, 30 para que a taxa de emprego das mulheres atinja os 70% e 20 anos até alcançar um equilíbrio entre os dois géneros na política.

“Não podemos dar-nos ao luxo de esperar décadas para atingir uma efectiva igualdade entre os géneros e a Comissão não ajudou quando optou por não apresentar uma estratégia para a igualdade de género, enfraquecendo muitos dos nossos esforços nesse sentido”, diz Liliana Rodrigues.
A disparidade salarial continua nos 16,5% e, de acordo com o Eurostat, em alguns Estados-Membros aumentou nos últimos 5 anos. A disparidade nas pensões encontra-se nuns alarmantes 40%. De 11% a 30% das mulheres não têm acesso a uma pensão. A maior disparidade entre homens e mulheres na Europa diz respeito à baixa representação das mulheres em posições económicas de topo na área económica, facto que revela a baixa inclusão da perspectiva de género nas políticas económicas da UE.

3.8.16

Capicua: "Mulheres não são estimuladas para assumir posições de liderança"

Céu Neves, in Diário de Notícias

Cresceu a ouvir o que os pais ouviam, Fausto, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, etc. Depois, passou para os clássicos, para o reggae brasileiro, e só depois fez a sua incursão pelo hip hop. Mas de pop nunca gostou

Ana, Odd, Capicua ou Cap. Tanto faz. Tudo depende se está com amigos ou com pessoal dos graffiti ou do hip hop. Para todos, a rapper Ana Matos é uma das mulheres que se impôs num mundo que ainda é dos homens - o do rap

Os graffiti foram a sua primeira abordagem ao hip hop. Porque é que não optou pelo nome artístico que já tinha, Odd [ímpar]?

Muitas vezes acontece isso, as pessoas que vêm dos graffiti para o rap usam o mesmo nome, mas eu queria que fosse em português. Não fazia qualquer sentido ter um nome em inglês para a minha música. E para os graffiti escolhi Odd não só pelo seu significado, mas também pela parte gráfica. Tem um "O" e dois "d"redondinhos, o que tinha que ver com o meu estilo bubbles. E não fazia sentido trazer esse nome para o rap que queria que tivesse um significado claro, fácil de escrever. E, apesar de a palavra capicua ter origem catalã, é portuguesa e toda a gente conhece.

Como é que surgiu Capicua?

Quando comecei a fazer rap - normalmente todos os rappers escolhem um nome de código, é muito raro os que usam o nome do BI para o percurso musical - não tinha uma alcunha e acabei por escolher Capicua. Primeiro porque me chamo Ana, é um palíndromo e há essa ideia de ser uma capicua [palavras ou números que se leem da mesma maneira tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita]. E eu gosto muito das palavras compostas e capicua vem do catalão cap e cua, o que significa cabeça e cauda. É um pouco a ideia de cobra de rabo na boca e achei muito pictórico, tem essa ideia do eterno retorno, o final que ao mesmo tempo é um recomeço. Achei que era otimista e soava bem e ficou.

E sobrepôs-se ao seu nome, mesmo fora do palco.

Depende. A minha família e os amigos que me conhecem antes do rap continuam a chamar-me Ana. O pessoal mais ligado à comunidade hip hop chama-me Capicua ou Cap.

"Sou eclética nos meus gostos, mas sempre tive mais o pezinho na música negra"

Ouvia música de intervenção, depois reggae, como é que chegou ao hip hop?

Em miúda ouvia o que os meus pais ouviam, os cantautores de Abril, todo esse património musical que marcou muito a minha geração. Nasci nos anos 1980, esta geração é filha de pessoas que viveram intensamente o 25 de Abril, o PREC, e que gostavam muito desses cantautores. Ouvia muito Fausto, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, etc. Quando comecei a escolher a minha música e, até pelo que se ouvia no meu liceu, comecei a ouvir reggae, não só os clássicos como outros músicos, nomeadamente reggae brasileiro. Foi o meu primeiro contacto com a música negra e, de facto, a minha incursão no hip hop antes de ser musical foi pelos graffiti.

Isso depois da adolescência?

Sim, também tem que ver com a década de 1990 e com as minhas primeiras manifestações. Comecei a interessar-me pelos graffiti, a dar-me cada vez mais com as pessoas que os faziam e, como os graffiti fazem parte dessa comunidade maior que é o hip hop, a ir às festas e a ouvir as primeiras bandas do Porto, como os Dialema, os Mind Da Gap. E havia o Comix às quintas-feiras onde nos juntávamos, éramos um grupo pequeno e que funcionava um bocadinho como uma tribo. Esse foi o meu percurso.

Não gostava de pop, nem em criança?

Nunca foi a minha praia. Gosto de música de uma maneira geral e sou eclética nos meus gostos, mas sempre tive mais o pezinho na música negra, na música alternativa. Nunca fui muito rockeira ou de pop, sempre gostei mais de funk, soul, hip hop, reggae, dub. Toda a música negra me diz muito, mas o que sempre me disse muito foi a música em português, embora quem ouve hip hop seja marcado pelos americanos. Também aconteceu comigo, ouvir muito os rappers americanos mas, de facto, o que me liga à música são as palavras.

Palavras em língua portuguesa.

Sim, sou apaixonada pelo Caetano Veloso, pelo Chico Buarque, mas também gosto de fado. Tanto posso ouvir os discos da Amália como logo a seguir ouvir o que se faz na minha geração, que está cheia de talentosos músicos que cantam em português e nos mais variados estilos musicais. Vivemos um momento muito rico na música portuguesa e acabo por ouvir de tudo, desde que a lírica me interesse e eu ache que seja de qualidade. Aquela coisa, "a minha pátria é a minha língua" faz muito sentido, até a nível musical. O que me alimenta são as palavras mais do que o género musical.

Quando é que começou a interessar-se pelo jogo com palavras?

Desde que aprendi a falar que tenho uma relação muito lúdica com as palavras. O meu pai - ainda hoje faz isso - gostava muito de dizer as palavras ao contrário e de declamar poemas de cor, achava muita piada. E eu, antes de aprender a escrever, gostava muito de lengalengas. Um dos meus livros favoritos acaba com uma lengalenga do macaco. Ouvia toda a história à espera do final e daquela lengalenga. Tenho recordações da primeira infância, momentos em que as palavras já eram muito estimulantes. Depois, quando fui para a escola primária, sempre foi muito claro para os meus professores e os meus pais a minha vocação para escrever. Quando havia redações, escrevia a minha e a do colega do lado e, quando era possível, pedia para as escrever em verso. Uma professora até queria publicar um poema meu no livro da segunda classe. A disciplina que gostei mais de aprender foi Língua Portuguesa.

E desenhava bem?

Sim, desde que seja desenho livre. Sou uma pessoa muito expressiva de uma maneira geral. Tenho uma inteligência seletiva, coisas que envolvam pensamento matemático nunca foram muito fáceis para mim. Se me disserem um número elevado a 35 para mim é igual a dizer que Deus existe. Acredite ou não acredite, não compreendo. Coisas que exijam muito rigor, minúcia, paciência, não gosto muito. Sempre gostei mais das coisas plásticas, intuitivas, do pensamento humano, de filosofia, literatura, línguas, e o desenho mais livre e intuitivo. E mesmo depois de deixar de fazer graffiti, hoje no meu trabalho musical, gosto de recorrer às artes plásticas. As capas dos meus discos têm ilustrações, os meus concertos são acompanhados com ilustrações ao vivo, gosto muito da estética, da imagem.

Tudo muito visual.

A minha mãe costuma contar esta história que ilustra bem essa realidade. Quando fui para o infantário teve de preencher uma ficha em que se perguntava várias coisas básicas, e uma delas era: a que é que eu gostava de brincar. A minha mãe respondeu: "Ver imagens em livros." E, de facto, é verdade. Ela tinha aquela coleção de revistas de costura que se fazia nos anos 1970/80 e eu ficava horas a ver as fotografias, os desenhos, os anúncios, as publicidades, sempre gostei disso. E mantenho a ideia de, quando tiver tempo e paciência, fazer um curso de Belas-Artes.

Mas também gostava de escrever.

Sempre gostei muito de escrever, escrever as minhas rimas, os meus poemas. E fui para um curso de Sociologia em que se escreve muito, muitos trabalhos teóricos, e gostava muito dessa parte

Como é que passou da rima para os palcos?

Uma das coisas que me afligiam quando era miúda, e que só agora comecei a perceber o porquê e fiz a ligação ao que faço, era pensar que o que escrevia não ia soar com a mesma música quando lida por outros, não ia soar com a música que imaginei ao escrever. Tinha sempre essa angústia e acho que acabei por encontrar uma forma de resolver a questão. Se eu ler os meus poemas já pode ser com a minha música.

O hip hop é uma continuação da música de intervenção que tanto ouvia na casa dos pais?

Não sei se é uma continuação, mas encontrei ali um sentido, uma familiaridade. As primeiras músicas que ouvi foram os cantautores de Abril. E, para mim, sempre foi muito claro que a música está associada à palavra, que a palavra tem um protagonismo e não surge apenas como um objeto estético. Surge como discurso, como instrumento de mudança do mundo. E quando encontro o hip hop, vejo que a palavra tem esse sentido.

Por outro lado, tem um ar de menina bem-comportada que não encaixa na imagem dos rappers.

Estou um bocadinho longe do estereótipo, mas quem conhece melhor a realidade percebe que há uma grande variedade no meio, não só de estilos como de origens sociais, geográficas, com backgrounds diferentes. E o próprio público é cada vez mais diverso. O hip hop em Portugal amadureceu pela diversidade, por se pulverizar em muitos subestilos. Há tantos subgéneros e rappers com histórias e realidades diferentes que eu não sou assim um bicho tão exótico.




"Há tantos subgéneros e realidades diferentes que eu não sou assim um bicho tão exótico"


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Alguma vez sentiu uma reação negativa por parte dos seus pares, por não corresponder a esse estereótipo?

Não, pelo contrário. O meio do hip hop é muito meritocrático. Quando mostramos trabalho, qualidade no que fazemos, os nossos pares tiram-nos o chapéu, nunca senti rejeição. Talvez tenha existido uma desconfiança inicial, mas pelo facto de ser mulher. É um meio de homens e tentavam perceber se era a sério, aquela desconfiança machista do género gosta de rap ou dos rappers. A partir do momento em se quebra essa desconfiança e se percebe que estamos ali para dar o nosso melhor, fazemos parte do grupo. E até acaba por ser mais fácil para nós, somos poucas e acabamos por ter mais visibilidade.

E fora da comunidade?

Onde senti mais o reforço desse exotismo em relação à minha pessoa foi na relação com os media, quando me abro ao público mais mainstreaming. Fazia rap mas era uma cena mais underground, a partir de 2012 com a saída do meu primeiro álbum [Capicua], percebi que o estereótipo é mesmo muito estreito. Que valorizam muito o facto de ser diferente dos outros rappers, e isso foi uma coisa que me incomodou, darem louvor à minha qualidade por ser diferente dos meus pares, o que é muito injusto. Venho dessa tribo, dessa comunidade, e devo-lhes a descoberta do meu talento e de poder viver do que mais gosto de fazer.

A Ana Matos tem um visual diferente da maioria.

Mas a ideia que as pessoas têm do rapper é muito fechada. Têm a ideia do puto do subúrbio que faz rimas contestatárias, dos graffiti, associada ao vandalismo, que é uma ideia preconceituosa e muito redutora. E mesmo que a realidade fosse só essa não seria menos importante, tinha o seu valor. É importante como forma de mensagem e de reportagem do que se passa nesses bairros. Além de que não se faz justiça à comunidade do rap em Portugal e da sua própria história. Nos anos 90 do século XX e até à primeira década do século XXI não era cool cantar em português e os rappers sempre cantaram em português. E falaram da realidade portuguesa, dos problemas que se passavam nas cidades, denunciaram as situações.

E, entretanto, apareceu mais gente e mais diversificada. Quem evoluiu mais, quem faz ou quem consome?

Os rappers também se foram profissionalizando e isso nota-se. Ainda há duas semanas, no Festival Super Rock Super Bock, houve um dia dedicado ao rap, o último, e foi aquele que esgotou. Convidei cinco mulheres para estarem comigo no palco: M7, Blaya, Blink, W-Magic, a T-Von, cantoras de gerações diferentes. A T-Von e a Blaya são mais antigas, a Blink e a W-Magic mais jovens. Foi um momento de grande emoção, do qual tenho um grande orgulho, e o público aderiu. Naquele dia, mostrou-se que não faz sentido estarmos a dividir a música em caixinhas, por critérios geográficos ou de sexo, que isso é muito desinteressante. Essa questão de que existem poucas mulheres no hip hop é verdade mas também acontece em outros géneros musicais. Mesmo no fado, as protagonistas são mulheres, mas depois toda a restante equipa é formada por homens.

A igualdade de género é uma das suas bandeiras?

Faz parte das minhas preocupações sociais e políticas. Os temas da minha agenda de causas estão sempre patentes nas minhas letras. Associo ao rap essa missão, a responsabilidade de passar a mensagem e de contribuir com a minha música para a mudança de mentalidades. E o feminismo é uma dessas causas, se calhar mais visível porque não só estão sempre nas minhas letras como na minha atitude, pelo facto de estar em cima de um palco, sendo eu própria. Sem criar uma persona, sem ser decorativa, sem pedir licença, e isso já é subversivo.

Subversivo porquê?

Não só na música como na vida em geral, as mulheres não são estimuladas para estarem em lugares de destaque, para conquistarem o espaço público, para assumirem posições de liderança, para darem opiniões, para serem desbocadas, todas características que são essenciais no rap e que estou ali a cumprir em palco e com muito orgulho. Aprendi no rap a ter orgulho em ser eu própria e faço-o com uma grande espontaneidade, o que não é aconselhável às mulheres. Algo que é tão básico como ter confiança para desenvolver os nossos talentos, se não tivermos a nossa autoestima no sítio vamos vacilar e desistir. A autoestima é a primeira coisa que se mina numa sociedade patriarcal como a nossa.

Sempre teve a autoestima no sítio ou o hip hop ajudou-a?

O hip hop ajudou, ajudou a ter essa espontaneidade, a sermos nós próprios e a estar num palco sem a ideia de que estamos ali para entreter e ser decorativas. E isso é muito libertador para uma mulher. Estou ali para fazer o meu trabalho, para fazer o que eu quero. Isso é uma coisa que aprendi no rap.

Em criança já tinha um pouco disso, contam as suas letras.

Obviamente, que desde miúda que sempre fui mais Mafalda do que Susaninha. Sempre fui de ter o espírito crítico, de questionar as coisas, de não aceitar um não como resposta. E depois há o percurso pessoal. Na adolescência, fiz trabalho associativo no SOS Racismo, militei no PSR que depois derivou no Bloco de Esquerda, toda essa escola em que os temas da igualdade de género e do feminismo estão muito presentes, o que acabou por contribuir para a minha formação pessoal e política. Também o facto de ter estudado Sociologia, uma área que desconstrói os papéis sociais, tem influência. Acaba por ser todo um bolo que contribuiu para a minha forma de ser.

Em miúda foi mais maria-rapaz ou Maria Capaz?

Sempre fui mais Maria Capaz. Gostava muito de cor-de-rosa, de coisas pirosas, de frufrus, tinha umas coisas pirosas.

Já não tem?

Às vezes dá-me um bocado para a piroseira. Cresci na década de 1980 e tudo à minha volta eram folhos, napas, ombreiras, tudo muito cor-de-rosa, arco-íris, a geração de hoje já não é tanto assim. Fiz a música Maria Capaz e dizia que era o significado de MC [termo com que se autodenominam os rappers e que quer dizer mestre-de-cerimónias], foi a minha provocação. Tem que ver com a ideia de que uma mulher para fazer rap tem de ser maria-rapaz, e eu digo: "Não. Tem de ser Maria Capaz, aliás MC quer dizer Maria Capaz." Sou eu a redefinir o significado do MC pela prática da mulher no rap. É uma brincadeira.





"A autoestima é a primeira coisa que se mina numa sociedade patriarcal como a nossa"
| Rui Oliveira / Global Imagens



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É uma rapper de causas?

Sou. As causas são importantes na minha música, mas não só. O José Mário Branco disse uma vez num debate uma coisa com a qual concordo. Há três pilares na música: a estética (o belo), a técnica (o ofício) e a ética (o que dá sentido ao trabalho da estética e da técnica).

Também foi por isso que escolheu o curso de Sociologia?

Eu queria estudar Ciência Política, mas o meu pai disse que isso afunilava muito a minha formação, que deveria escolher Sociologia, que era mais abrangente e, mais tarde, especificar. Acabei por estudar no ISCTE [Instituto Universitário de Lisboa]e gostei muito. Fiz a tese em Sociologia Urbana e depois fui para Barcelona fazer o doutoramento em Estudos Territoriais. Acabei por deixar a ciência política e não me arrependo nada. Sempre me interessei por estudos territoriais.

Porque é que diz que o hip hop não é sociológico? São observações diferentes, mas ambas da realidade.

O hip hop tem essa coisa de observar a realidade, mas é um olhar parcial no sentido em que tem pouco espaço para aquilo que a sociologia gosta de fazer e que é dar as diferentes perspetivas de um mesmo problema. E é sempre de uma grande complexidade. É nesse sentido que digo que o hip hop não é muito sociológico, é mais afirmativo. Vai procurar o que tem mais impacto emocional e vai fazê--lo de uma forma muito mais livre. Aliás, uma das críticas que fizeram ao meu trabalho musical foi que a formação se notava nas minhas rimas. Comecei a pensar nisso e cheguei à conclusão de que, se calhar, tinham razão. Se calhar tenho essas ressalvas, essa vertente de procurar as várias perspetivas e poder perder um pouco o impacto. Ando à procura da abordagem certa, para não ser redutora, para não ser simplista, e seria bom estar mais livre e não ter esse olhar tão condicionado.

Demora muito tempo para conseguir a frase perfeita?

Depende. Toda a gente no meio artístico diz isto e é bem verdade, às vezes é muito fácil ter uma música que se faz em duas horas, como Medo do Medo, que escrevi numa viagem de Intercidades Porto-Lisboa. Mas isso não quer dizer que não estivesse há semanas a pensar naquele tema e que a música não estivesse quase construída na minha cabeça. Outras vezes é uma luta, andamos a mastigar, deixamos para o dia seguinte, para reler com distanciamento, mudamos várias vezes. As duas formas são possíveis e não quer dizer que a que foi mais fácil seja pior do que a outra.

Inspiração e muito trabalho?

Sim, sim. Há um trabalho e uma técnica que se alimenta para quando a inspiração chegar termos as ferramentas na mão. É um pouco como os jogadores de futebol, muitos têm talento e não trabalham nada e outros compensam essa falta de talento com muito trabalho. Uma coisa sem a outra não existe.

Afirma que tem uma agenda política tão forte que poderia participar em campanhas eleitorais.

A única vez em que aconteceu foi na campanha do José Soeiro no Porto, mas não era só do Bloco de Esquerda. Envolvia várias organizações de independentes de esquerda e que participaram desde o início. Houve um envolvimento de todos, de grupos e subgrupos de trabalho, era um movimento de cidadãos. Toquei no evento dessa campanha e não me arrependo nada. E poderei voltar a fazê-lo se achar que aquela campanha me representa e que posso vestir a camisola, mas não é algo que seja fácil para mim. Tem de ter um grau de convicção e de afinidade que não é fácil de atingir, se fosse tinha o cartão de um partido.

Porque é que gosta tanto de escrever para fado?

Adoro, adoro escrever para fado. mas também gosto de escrever para outros géneros musicais. Do que gosto muito no fado é dessa coisa que é semelhante ao rap e que é a importância da palavra, o poema e a forma como se cospe o poema é muito semelhante. O poema não está ali para encher, é a matriz da música. Isso é o que me interessa no fado, interessa-me escrever para pessoas que valorizem o poema. E quanto mais conheço a pessoa mais fácil é escrever para ela. Atualmente, não estou a escrever só para fadistas, também para outras pessoas.

Quem?

Não posso dizer, mas vai haver surpresas.

E o contrário, escreverem para a Capicua?

Isso é impossível, porque eu não sou uma performer, não sou uma interprete, só estou ali para dizer as minhas palavras. Do que mais gosto é do momento em que estou sozinha a escrever a minha letra. Todo o trabalho de promoção, de tocar ao vivo, é para dar sentido a esse momento. Se chegasse escrever para mim, feliz da vida, mas para dar sentido ao que faço tenho de chegar às pessoas, mas esse lado é secundário. Às vezes acontece gostar muito de um poema e dizê-lo no palco, por exemplo, no meu concerto há uma parte em que declamo as palavras de Sophia de Mello Breyner e colo com o refrão da canção Liberdade do Sérgio Godinho. Mas esse momento surge como um complemento à minha música. É uma introdução para o que vem a seguir.

E o espetáculo Concerto Água e Sal em que diz outros autores?

Foi uma exceção em que fiz uma recolha de textos de vários autores portugueses sobre a água, é um espetáculo musical que fizemos para o São Luiz, e que até se calhar vamos repetir, mas estou a declamar. Outra coisa é alguém chegar ao pé de mim e dizer: "Tenho uma letra para ti", isso nunca vai acontecer. E, às vezes, há quem me ofereça letras.

Que projetos tem a curto prazo?

Duas coisas muito importantes e que irão realizar-se neste ano. Uma é um disco para crianças para sair no final de setembro, chama-se Mão Verde, com música de Pedro Geraldes e lengalengas minhas, é um disco e um livro. É um disco conceptual para crianças como motivação ecológica. Outra coisa é um concerto no CCB no dia 2 de dezembro. É a primeira vez que vou tocar com músicos ao vivo, com instrumentos, com uma banda que não tem o formato habitual do hip hop. Vai ser um alinhamento transversal aos meus discos.

Diz que não irá fazer sempre música. O que é que poderá fazer?

Muitas coisas e uma delas é agricultura, há muitos anos que tenho essa vontade de ir para um sítio mais pequeno e fazer produção agrícola, é uma possibilidade.

Mas já plantou alguma coisa?

Sim, tenho uma horta e interesso-me pela agricultura biológica, fico horas a catar ervas. Fiz um curso de permacultura e de agricultura biológica, a minha irmã tem uma produção agrícola, de groselhas. O meu hobby é a horta e a altura do ano em que é mais entusiasmante é na primavera e no verão, quando tenho mais trabalho. É frustrante.




"Álbum no meio do doutoramento foi uma estratégia de salvação"


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Como é que se faz um álbum, o Capicua, no meio de um doutoramento?

Pode parecer difícil, mas foi uma espécie de estratégia de salvação. Quando se faz um doutoramento, a nossa saúde mental sai muito comprometida, é quase como uma maratona e é preciso muita autodisciplina para se conseguir trabalhar. Estamos sozinhos e a lutar contra nós próprios, sobretudo no meu caso em que estava com uma bolsa, se não saísse da cama, ninguém sabia. E encontrei na escrita desse álbum uma espécie de recompensa ao fim do dia e, se calhar, um escape. Quando se está com uma bolsa não há férias, não há fins de semana. Mesmo quando não trabalhamos, estamos sempre com um peso na consciência. É muito cansativo. Mas não consegui acabar o álbum, só depois de concluir o doutoramento.

Não quis continuar na área da investigação?

Pensei nessa hipótese e concorri para as bolsas pós-doc. Foi na altura em que houve cortes na Ciência e acabei por não conseguir a bolsa para continuar a estudar. E no dia em que tive conhecimento que não tinha conseguido a bolsa - uma coisa quase de filme - tive uma reunião com a Valentim de Carvalho em que eles manifestaram interesse no meu trabalho e em que assinei um contrato.

Se tivesse conseguido a bolsa teria recusado a proposta para editar a sua música?

Não. Se bem me conheço teria tentado fazer as duas coisas, o que seria muito difícil. Seria complicado gerir as duas situações, recusava as oportunidades para continuar a fazer a minha música e os concertos ou ficava a investigação para trás. Na altura, também pensei que se era para viver com instabilidade, que é o que acontece com quem faz investigação, com os bolseiros, o melhor seria investir naquilo em que gosto de trabalhar. E não andar de bolsa em bolsa.

De onde se conclui que houve alguém que beneficiou com os cortes na Ciência...

Não sei, isso nunca vamos saber. A verdade é que nunca pensei em viver da música. As coisas estão diferentes e, se calhar, os mais novos já pensam de maneira diferente, mas na minha geração era quase impossível imaginar que alguém iria viver do rap em Portugal, havia mas eram exceções. A música sempre foi uma coisa que gostava de fazer mas seria uma espécie de vida paralela. Os meus colegas não sabiam que eu tinha essa vida dupla. E continuo a pensar que vou fazer outras coisas na minha vida. Neste momento, estou numa fase muito boa, tenho muito trabalho e faço outras coisas associadas à música, mas não quer dizer que será sempre assim e que viverei sempre da música. Até porque há muitas outras coisas que quero fazer.

Nasceu e cresceu no Porto, estudou em Lisboa e em Barcelona. Sabe bem voltar a casa?

Sinto-me muito bem no Porto, a cidade tem bastante qualidade de vida e tem o tamanho ideal. Não é demasiado pequena e não é demasiado grande, com uma vida cultural muito interessante. Depois de tantos anos a viver fora, não há nada que me dê mais conforto do que passar o domingo à noite no Porto, não ter de apanhar o comboio, fazer a despedida. É o meu luxo.

Um músico já não precisa de viver em Lisboa para ter trabalho?

Precisa, e cada vez mais. Comecei na promoção da minha música em 2012 e com o acentuar da crise, de um álbum para o outro basicamente - de Capicua para Sereia Louca [2014] -, o número de entrevistas que dei no Porto diminuiu drasticamente. As redações foram cortando o pessoal, diminuindo os recursos, centralizando mais as coisas em Lisboa. Mas, mesmo em relação aos convites das estruturas públicas, tenho tido sempre mais para Lisboa, tem mais dinheiro, mais festivais. Esta é uma prova de como vivemos num país que tem tendência para ser monocefálico e só não é mais porque o Porto é uma cidade com massa crítica, iniciativa privada e vida cultural. É o que acaba por compensar. As pessoas que vivem fora de Lisboa têm de ser muito proativas e engenhosas.

28.6.16

Elas trabalham mais 1h30m em casa e quase tanto como eles no emprego

Natália Faria, in Público on-line

Sete em cada dez mulheres acham que a parte que lhes compete das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos é justa, mesmo quando trabalham o dobro. Percepção das desigualdades é diminuta porque elas estão naturalizadas, aponta estudo.

Entre cozinhar, passar a ferro e cuidar dos filhos, as mulheres portuguesas afectam todos os dias mais de 1h30m ao trabalho doméstico do que os homens. Isto, mesmo nos casais em que ambos trabalham fora de casa e partilham as despesas. As desigualdades na distribuição das tarefas tornam-se ainda mais vincadas quando consideramos as diferenças do tempo que homens e mulheres despendem no emprego pago: em média, eles trabalham apenas mais 27 minutos por dia.

“Enquanto as assimetrias ao nível do trabalho pago são cada vez menores, no trabalho não pago subsistem, mesmo entre os casais mais jovens, onde continuam a ser as mulheres a orquestrar a vida doméstica, enquanto eles ficam num papel de retaguarda”, aponta Heloísa Perista, coordenadora do estudo Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, desenvolvido, desde Outubro de 2014, pelo Centro de Estudos para a Intervenção Social, em parceria com a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, e que é apresentado nesta terça-feira, em Lisboa.

Feita a soma, e quando marido e mulher exercem uma actividade profissional fora de casa, as tarefas domésticas e com os filhos exigem em média às mulheres quatro horas e 17 minutos por dia, enquanto para os homens implicam apenas 2h37m. No grupo etário mais jovem (15-24 anos), a assimetria diminui ligeiramente, mas subsiste, com as jovens a registar mais 1h21m por dia do que os homens nas tarefas de casa e com os filhos.

De entre as tarefas domésticas rotineiras, 74,3% das mulheres declararam dedicar uma hora ou mais por dia a preparar refeições (contra 22,8% dos homens), 35,9% a limpar a casa (homens, 7,4%) e 10,5% a cuidar da roupa (1,4%). Antes como agora, eles dedicam-se mais a fazer compras, pagar contas, seguros e renda da casa e às reparações domésticas.

Não admira, assim, que 39,4% das mulheres inquiridas, contra 30,2% dos homens, subscrevam a afirmação “Na minha vida do dia-a-dia, raramente tenho tempo para fazer as coisas de que realmente gosto”. Ou, como explicita Ilda, numa família biparental, com filhas de 13 e 12 anos e um filho de nove: “[Tempo para mim] foi desse que abdiquei, claramente. O que me deixou algo desequilibrada. […] Leitura, trabalhos manuais, gosto de estar entretida de mãos, desde croché a jardinagem… portanto, tudo isso, ir ao cinema, ver televisão — tudo isso ficou para trás.”

“As mulheres abdicam muito mais do que os homens do tempo para si próprias e, portanto, deixam de fazer coisas que também lhes dariam gratificação, seja sentar-se no sofá a ler um livro ou fazer jardinagem, e projectam-nas para um futuro longínquo”
Heloísa Perista, investigadora

“Abdicar e ajudar são palavras-chave”, interpreta Heloísa Perista, numa primeira análise ao estudo que resultou de cerca de dez mil inquéritos e cujas conclusões serão ainda alvo de uma análise mais fina, lá para finais de Setembro. “As mulheres abdicam muito mais do que os homens do tempo para si próprias e, portanto, deixam de fazer coisas que também lhes dariam gratificação, seja sentar-se no sofá a ler um livro ou fazer jardinagem, e projectam-nas para um futuro longínquo”, prossegue.

Curiosamente, e apesar das assimetrias constatadas, o estudo mostra que cerca de sete em cada dez mulheres consideram que a parte que lhes cabe das tarefas domésticas corresponde ao que é justo. “Há uma naturalização, tanto de homens como de mulheres, relativamente ao que continua a ser socialmente esperado de si, no contexto das famílias. E daí este grau menos apurado de percepção das injustiças que rodeiam esta realidade”, aponta a coordenadora do estudo.
Trabalho pago invade tempo livre

Num aspecto, parece haver relativa paridade entre eles e elas: ambos se queixam de que o trabalho pago vai muitas vezes para além do horário de trabalho contratualizado: 34% dos homens e 28,3% das mulheres declararam que, nos 12 meses anteriores ao inquérito, trabalharam durante o seu tempo livre para dar resposta a solicitações do trabalho, pelo menos várias vezes por mês. Dá cerca de uma em cada três pessoas trabalhadoras.

Num aspecto, parece haver relativa paridade entre eles e elas: 34% dos homens e 28,3% das mulheres declararam que, nos 12 meses anteriores ao inquérito, trabalharam durante o seu tempo livre para dar resposta a solicitações do trabalho, pelo menos várias vezes por mês

Numa altura em que, a reboque da discussão sobre a natalidade, se discutem formas de flexibilização do horário de trabalho, como as jornadas contínuas, percebe-se que o horário fixo predomina, sendo o regime para 68,2% das mulheres e 74,1% dos homens. Não surpreende, assim, que quase quatro em cada dez pessoas (38,5% das mulheres e 36,9% dos homens) considerem que o seu horário de trabalho não se adapta aos compromissos familiares, pessoais ou sociais. Sem surpresas, esta queixa ouve-se mais alto entre os que têm filhos menores de 15 anos.

Curiosamente, apesar de cerca de metade dos inquiridos considerar ser fácil tirar uma ou duas horas durante o horário de trabalho para tratar de assuntos pessoais ou familiares, a percepção da existência dessa facilidade é menor nos grupos etários entre os 25 e os 44 anos, idades em que os constrangimentos de natureza familiar associados aos filhos tendem a ser maiores.

É também para as mulheres que o trabalho pago tem maiores implicações familiares e pessoais. São sobretudo elas que referem ter-se sentido algumas vezes demasiado cansadas após o trabalho para realizarem algumas tarefas domésticas (63,4%, contra 46,6% dos homens) ou para usufruírem da sua vida pessoal (64,2% face a 52,4% dos homens).

Mesmo assim, se fossem livres de escolher a sua duração de trabalho semanal, e tendo em consideração a necessidade de ganhar a vida, 43% das mulheres referem que trabalhariam o mesmo número de horas que trabalham actualmente. “O duplo emprego e o duplo salário são, no contexto de crise e de desemprego elevado em que nos encontramos, condição preferencial, nem sempre conseguida, para se ter uma vida condigna. Mas essa não é a única razão para a valorização do trabalho pago por parte das mulheres. Em Portugal, mais do que noutros países comunitários, as mulheres tendem a valorizar a continuidade da sua participação no mercado do trabalho por uma questão de valorização pessoal, mas sobretudo de autonomia e independência material”, conclui Heloísa Perista.

27.6.16

Projecto de investigação propõe índice municipal para a igualdade de género

Camilo Soldado, in Público on-line

Estudo envolveu cinco autarquias de vários pontos do país e elaborou guiões de boas práticas a adoptar pelos municípios.

Com o objectivo de medir as desigualdades de género no território nacional, um projecto de investigação do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (UC) em que participaram cinco autarquias propõe a criação de um índice municipal que classifique o trabalho dos municípios nesta área.

A coordenadora do projecto Local Gender Equality, Virgínia Ferreira, conta ao PÚBLICO que a criação deste mecanismo parte da necessidade de estabelecer linhas de intervenção. “Sem uma métrica, sem a possibilidade de medir como é que essa realidade se vai alterando de ano para ano, é difícil estabelecer objectivos”, justifica a investigadora.

Considerando que este “fenómeno muito complexo” não se pode “traduzir exclusivamente por um indicador”, Virgínia Ferreira explica que esta espécie de ranking contemplaria 20 indicadores de três tipos: os estruturais (que remetem para a existência ou não de instrumentos como os planos para a igualdade de género), os de resultados (se as políticas em vigor têm impacto) e os de processo (que têm em conta a existência ou não de serviços a nível local, como por exemplo os de apoio a vítimas de violência doméstica).

“Este índice poderia permitir que a câmara avaliasse ano a ano o seu desempenho e ter uma noção de melhores práticas a seguir por comparação com outros concelhos”, sublinha a também docente da Faculdade de Economia da UC.

Esta proposta é um dos resultados do projecto de investigação financiado pelo Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu através da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e que foi desenvolvido ao longo de 15 meses com vários parceiros. No processo, cujo objectivo era produzir instrumentos para que as autarquias promovam a igualdade de género, estiveram envolvidas as câmaras de Lagoa, Ferreira do Alentejo, Pombal, Mangualde e Póvoa de Lanhoso, bem como o Centro de Estudos e Formação Autárquica (CEFA) e uma consultora.

Sobre a monitorização deste índice, a investigadora menciona que esta poderia ser assumida pela CIG. “Aqui não haveria muito que fazer”, explica, afirmando que houve “uma preocupação fundamental de que os indicadores todos estivessem disponíveis em bases estatísticas nacionais comparáveis, acessíveis”, ou seja, os dados estão disponíveis, basta juntá-los e fazer um trabalho de ponderação.

A coordenadora do projecto refere que os resultados, que incluem também oito guiões que abordam várias áreas de actuação, traduzem o trabalho com os parceiros a nível municipal. Ou seja, estes documentos são fruto de reuniões e troca de ideias com os técnicos e líderes políticos dos municípios. Cada guião oferece “instrumentos de diagnóstico e sugestões de solução dos problemas sectorialmente” e é dirigido a “problemas de gestão que, necessariamente, qualquer tipo de câmara municipal tem”. Os documentos abordam oito temáticas tão distintas como mobilidade e transportes, violência no trabalho ou cultura, desporto, juventude e lazer.

Cada guião está dividido em quatro partes. Começam por enquadrar a importância da igualdade de género em determinada área, seguem-se os princípios e metodologias que devem ser observados, depois instrumentos práticos como questionários ou checklists e, por fim, os exemplos de boas práticas, tanto a nível nacional como internacional.

Foi também elaborado um livro branco que aborda “questões mais transversais” e visa oferecer “orientações de como os bons princípios podem ser postos em prática”. Os problemas abordados neste manual passam por questões como a da linguagem utilizada ao nível interno e da comunicação externa (utilização do masculino como representante dos géneros) ou pela elaboração de orçamentos sensíveis a género. “Por exemplo, em relação ao desporto, pode haver uma maior desagregação das despesas para que haja uma identificação de quem beneficia dessa alocação de recursos. Isto pode traduzir-se em constatar que há uma injustiça na alocação de recursos”, sugere.

Virgínia Ferreira distingue este tipo de documentos dos planos municipais para a igualdade. “A primeira leva de planos municipais para a igualdade no país foi toda virada para a própria estrutura autárquica”, analisa, sendo que apenas “só mais recentemente tem havido apoios para as câmaras fazerem planos municipais virados mais para o exterior”.

O projecto é apresentado nesta segunda-feira num colóquio em Lisboa com a presença do ministro adjunto Eduardo Cabrita, que tutela a secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade.

11.4.16

Será esta a geração que redefine o género?

Raquel Carrilho, in iOnline

Para a geração millenial, masculino e feminino são conceitos que amordaçam e não correspondem à realidade atual. Esta é a geração dos “mil géneros”



Para as gerações mais velhas, nunca houve qualquer espaço para dúvidas: havia rapazes e raparigas, homens e mulheres. Mas para as gerações mais jovens, sobretudo os agora chamados millenials, os tais que nasceram depois de 1995, não sabem o que é um cheque e para quem todas as frases começam com um #, o género já não obedece a critérios binários. Há todo um mundo entre os adjetivos masculino e feminino.

Mas se, durante anos, falar de género era falar de igualdade de género, hoje em dia é falar de multiplicidade de géneros, ou os “mil géneros”, como explica, por exemplo, o investigador do ISCTE João Manuel Oliveira, especialista em questões de género: “Os estudos de género vão fazer uma releitura do conceito de género que vai deixar de se referir ao binarismo, assente na ideia de diferença sexual, como fez Judith Butler [filósofa norte-americana, uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo]. Assim, o género vai passar a ser pensado a partir de outras coordenadas, para lá da estrita identidade, mas como um conjunto de normas sociais que visam garantir quer a heterossexualidade hegemónica, quer as normas de reconhecimento social da subjetividade de género, abrindo o género a uma grande amplitude, que passa a incluir pessoas de género não binário, orientações sexuais e possibilidades queer – queer no sentido de pessoas que estão ativamente a questionar as normas de género. Esta leitura não ignora a dimensão crítica às políticas, biopolíticas e necropolíticas de género que os Estados promovem, as Gisbertas que morrem às mãos destes Estados que deixam as normas prevalecer sobre a democracia. Nomeadamente quando policiam as fronteiras de género por forma a mantê-las completamente impermeáveis e estanques, como garrote binário de impedimento à diversidade e multiplicidade dos géneros.”

De facto, os estudos indicam que, numa fase inicial da vida, este “garrote binário” não existe. As definições de género são naturalmente flexíveis. No entanto, depressa as crianças começam a adotar os estereótipos que naturalmente as rodeiam – como as raparigas acharem que devem escolher roupa cor-de-rosa, e os rapazes roupa azul. Com os anos, o conceito de género tende a tornar-se bastante estanque, uma realidade que não se altera na vida adulta. Bem pelo contrário.

Esta era a realidade existente até há bem pouco tempo, assente num outro conceito de que falar de género ou de sexo era a mesma coisa. Mas sexo e género não são necessariamente a mesma coisa. Sexo foi determinado pelos cromossomas. E se, na maior parte dos casos, e até há relativamente pouco tempo, não se questionava sequer a possibilidade de existirem diferenças entre aquilo que os cromossomas definiam como o sexo de uma pessoa e o género que essa pessoa reconhecia como seu, as novas gerações rejeitam, de forma cada vez mais veemente, essa binariedade, conferindo um peso crescente à influência da sociedade na definição do género. E isto não tem necessariamente a ver com práticas sexuais ou afirmação da sexualidade. Uma mulher que diga que não se reconhece exclusivamente nesse título não está com isto a dizer que é homossexual ou sequer transexual, está apenas a questionar se as convenções e definições passadas ainda fazem sentido.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a atriz australiana Ruby Rose, uma das protagonistas da série “Orange Is the New Black”, ou a ainda mais conhecida Miley Cyrus, que já reconheceu não se conseguir limitar à designação de feminino ou masculino, preferindo identificar-se com o conceito de “sexualmente fluida”. A reação imediata, para muitos, pode variar entre o questionar se não serão estas meras atitudes contestatárias ou modas, mas a verdade é que os estudos, feitos um pouco por todo o mundo, reforçam esta ideia do fim da abordagem binária ao género. Por exemplo, num inquérito conduzido pelo Intelligence Group, 60% das pessoas consideram que as fronteiras entre os géneros se esbateram. Já o jornal inglês “The Guardian” desafiou os seus leitores mais jovens para ajudarem a retratar o género da geração millenial. Receberam 914 respostas, provenientes de 65 países, sendo a idade média dos participantes de 22 anos. As respostas variaram entre aqueles que se assumiram confortáveis com as definições tradicionais de género e outros que se identificaram como multigénero, género fluido, género neutro ou transgénero.

Com isto em mente, algumas universidades norte-americanas passaram a aceitar o uso do pronome considerado neutro “they” como substituto do “she” e do “he”. “They” foi, de resto, considerada a palavra do ano de 2015 pela American Dialect Society. Até as redes sociais passaram, sobretudo ao longo do último ano, a refletir estas mudanças: o Facebook norte-americano, por exemplo, passou a permitir que as pessoas definissem os seus perfis usando outras opções que não apenas masculino e feminino.

O género passou assim a ser mais do que uma assunção de estigmas e estereótipos, uma afirmação da individualidade, uma forma de expressão, explica o investigador João Manuel Oliveira: “O género também deve ser lido como potência e como forma de expressão. As questões relacionadas com a despatologização da transexualidade e com a emergência de novas identificações e expressões de género implicam que comecemos a falar de democracia de género quando discutimos a própria democracia, implica que passemos a aceitar o género a que a pessoa diz pertencer.”
Género