Mostrar mensagens com a etiqueta Banca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Banca. Mostrar todas as mensagens

29.2.16

Ulrich lamenta que o poder político não se insurja contra os 12,2% de desemprego

Cristina Ferreira, in Público on-line

Presidente do BPI diz que há "tolerância excessiva" em relação ao desemprego.

O presidente do BPI, Fernando Ulrich, elogiou o facto de António Costa estar a governar com moderação, mas afirma que, se o PCP e o BE começarem a governar por intermédio do PS, então teremos um problema, nomeadamente de aumento do desemprego, que constitui hoje o principal desequilíbrio da economia.

“Existe uma tolerância excessiva da sociedade portuguesa em relação ao problema do desemprego”, um dos principais desequilíbrios da economia nacional, defendeu esta terça-feira Fernando Ulrich, um dos oradores de uma conferência sobre o “Orçamento do Estado para 2016: Fiscalidade e Economia”, promovida pelo escritório de advocacia Vieira de Almeida & Associados.

O presidente do BPI classificou o desemprego como um “problema colectivo” e desafiou o poder político a eleger o tema “como prioridade”. Para Ulrich o nível de desemprego do país, de 12,2% [número do final de 2015], constitui mesmo o grande obstáculo “à criação de riqueza”, pelo que lamenta que a sociedade portuguesa “esteja confortável” e “não se insurja”. “Acima de nós só a Espanha e a Grécia têm valores mais elevados”, referiu.

O banqueiro reconhece, no entanto, que para este desinteresse pode estar o facto “de muitos desempregados não terem voz, e desenrascam-se, ou foram forçados a emigrar”.

Sobre a acção do actual primeiro-ministro, António Costa, o banqueiro considera que tem sido equilibrada e mostra-se confortável com os pressupostos do OE de 2016. E opinou: “Ou o Governo governa ao centro, [como aparentemente tem feito, e terá condições para resolver os problemas da economia portuguesa (e do desemprego), ou] o PCP e o BE governam [por intermédio do PS] e teremos no futuro um problema, com mais desemprego.”

O encontro foi aberto por Vasco Vieira de Almeida e na plateia estiveram sobretudo advogados da área dos negócios, gestores e quadros da regulação, nomeadamente, do mercado de capitais.

6.3.15

Martin Schulz diz que Europa está a pedir sacrifícios às pessoas para salvar bancos

in Diário de Notícias

Presidente do Parlamento Europeu afirmou ainda que as "pessoas estão a pagar uma crise que não causaram"

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirmou hoje em Bruxelas que a Europa está a pedir sacrifícios aos cidadãos "para salvar os bancos", defendendo que é preciso envolver os parceiros sociais e defender o modelo social europeu.

"Estamos a pedir sacrifícios aos cidadãos, aos pais, para aceitarem salários mais baixos, impostos mais altos e menos serviços. E para quê? Para salvar os bancos. E os filhos estão desempregados. Se não mudarmos isso, se não voltarmos a um tratamento igualitário e justo, as promessas feitas pela Europa não serão cumpridas", disse Martin Schulz na conferência 'Um novo começo para o diálogo social', que decorre hoje em Bruxelas.

Num discurso de cerca de 20 minutos, o presidente do Parlamento Europeu referiu-se em concreto ao desemprego jovem na Grécia e em Espanha, sublinhando que "as pessoas falam de uma geração perdida na Europa" e que, "mesmo os que têm emprego muitas vezes estão presos numa espiral de estágios não remunerados e de contratos de curto prazo".

Martin Schulz afirmou ainda que "estas pessoas estão a pagar uma crise que não causaram e sentem que não é uma sociedade justa", destacando que compreende este sentimento e defendendo que esta "geração perdida" não afeta só os jovens, mas também os seus pais, que "investiram a vida toda na educação dos filhos".

"Se somos capazes de mobilizar milhões de euros para estabilizar o sistema bancário e temos de negociar com 28 chefes de Estado durante meses e meses por causa de seis mil milhões de euros para combater o desemprego... Compreendo os que pensam que isto não é uma sociedade justa", disse Schulz num discurso em que evidenciou várias vezes a importância do envolvimento dos representantes dos trabalhadores e das empresas na construção de políticas e de reformas estruturais.

O presidente do Parlamento Europeu destacou também que "a desconfiança é o sentimento de muita gente" na Europa, considerando que é transversal tanto entre os jovens como entre os mais velhos.

"Preocupa-me que as pessoas sejam incitadas para que se odeiem, ainda que sejam todas vítimas da crise financeira. Enfrentamos um tempo em que os demónios do passado estão a emergir: há líderes de governos democraticamente eleitos que são mostrados em desenhos como nazis e, noutros países, as pessoas são retratadas como preguiçosos e incompetentes e é isto que temo mais", lançou Schulz.

3.10.14

Por que é que se salvam bancos e não pessoas?

por Carla Caixinha, in RR

Em "Banco Bom, Banco Mau", a jornalista Rute Sousa Vasco descreve uma história de ganância e fraca fiscalização. E com muitos casos de mau comportamento.

"Se as pessoas soubessem como funciona a banca, haveria uma revolução antes da manhã seguinte". Esta frase, atribuída ao empresário Henry Ford, é uma das primeiras citações que podemos ler no livro "Banco Bom, Banco Mau" (editado pela Matéria-Prima), de Rute Sousa Vasco.

A jornalista, directora de conteúdos do Portal Sapo, diz que tem havido "maus comportamentos" da banca. Por isso, está na altura de os cidadãos deixarem de ser meros espectadores e passarem a ser mais interventivos na forma como o seu dinheiro é gerido.

Em Portugal, os depositantes assistiram à nacionalização do BPN, à perda de dinheiro dos clientes do BPP, à queda do BES e à recapitalização de três bancos, o BCP, o BPI e o Banif.

Rute Sousa Vasco fala de uma "tempestade perfeita" em que a banca se tornou numa instituição cada vez menos regulamentada e fiscalizada, perdendo-se da sua missão.

Este livro pretende acordar as pessoas?
O objectivo foi conseguir perceber como nos relacionamos com os bancos e até que ponto a nossa ignorância colectiva da forma como é gerido o dinheiro nos faz muitas vezes não conseguir ser mais do que espectadores dos acontecimentos, que, nos últimos anos, nos acabaram por envolver a todos.

Toda esta crise serve de lição?
Não podemos ficar alheados das decisões que são tomadas, sobretudo por elas nos parecerem complexas. No arranque do livro falo da linguagem financeira, que se tornou hermética e usa termos tão complexos que nos fez pensar que isto é um tema de um conjunto de pessoas com qualificações especiais.

A banca assumiu um discurso difícil, muitas vezes ininteligível – e não foi por acaso. E os políticos também assumiram o mesmo discurso – e não foi por acaso. Em muitas situações foi muito conveniente que a maior parte das pessoas não percebessem.

Os bancos têm um conjunto de activos – dinheiro de pessoas, empresas e instituições – que têm de gerir eticamente, garantindo que estão seguros. Mas eles perverteram esse papel a partir do momento que o dinheiro passou a ser usado apenas para gerar mais dinheiro (em muitos casos fictício) para proveito dos accionistas e de outras partes.

Mas as expressões "banco bom" e "banco mau" não são novas…
O título do livro usa uma expressão que o Verão de 2014 trouxe para o senso comum, com o BES, mas a terminologia é antiga. Já vem dos anos 80. A invenção de bancos bons e bancos maus, como forma de os salvar, não é um processo novo. Só o é em Portugal, mas tem vários anos nos Estados Unidos, onde foi inventada esta forma de conseguir que um banco, com graves problemas financeiros, pudesse ser salvo usando uma moeda que é o tempo.

O fio condutor que também procurei seguir é: por que damos tempo aos bancos para se salvarem e se recuperarem e não fazemos o mesmo com as empresas e as famílias, que têm passado nos últimos anos por problemas complicados?

A banca que retrata é má?
Alguma da banca é má. Recorri a múltiplos exemplos em Portugal e no estrangeiro de comportamentos incorrectos. Na banca, nos últimos anos, tem havido demasiados maus comportamentos. Algo que nos devia fazer pensar. Não precisamos de ser especialistas financeiros para verificarmos que nenhum outro sector teve tantos problemas, tantas fraudes, tantos maus comportamentos do ponto de vista ético.

Como chegou a banca a este estado, o tal "banking disaster", que refere?
A expressão é do "Financial Times" e reúne um conjunto de circunstâncias que não se resumem apenas a um banco ou a uma condição. Os bancos no mercado internacional tornaram-se instituições cada vez menos regulamentadas e fiscalizadas e também cada vez mais gananciosas. Uma ganância que foi permitida por Estados que aprovaram leis que permitiram esse tipo de comportamentos.

Essa "tempestade perfeita" fez com que, desde 2008 para cá, tenhamos assistido a um conjunto de situações que, para quem olha para a história, não aconteceram de um dia para o outro. Foram crescendo ao longo das últimas três décadas.

E em Portugal?
Uma das preocupações que tive foi fazer algum recuo na história e ir buscar momentos que tiveram comportamentos de bons bancos – quando foram um verdadeiro instrumento de modernização do país e democratização do uso do dinheiro. Por exemplo, com a privatização que deu origem ao BPI, até ao nascimento do BCP. Estes acontecimentos nos anos 90 foram absolutamente necessários para que mais pessoas tivessem acesso ao crédito e pudessem usar algo que para nós é tão banal como o cartão de crédito.

Os bancos não são em absoluto bons ou maus. Há uns melhores e outros piores, dependendo dos períodos. Podem tornar-se maus quando toda a sua forma de operar e de se relacionar com os diferentes parceiros é tomada por um espírito de ganhar sem olhar a meios e de tornarem-se num objecto do seu próprio negócio.

Há uma citação do engenheiro Belmiro de Azevedo que uso: "Os bancos têm um papel semelhante ao sangue no corpo humano". Ou seja: distribuir riqueza por toda a economia e sociedade. Quando o banco deixa de olhar para essa sua missão e passa a preocupar-se exclusivamente em como ganhar mais dinheiro, sendo esse o seu único fim, as coisas complicam-se.

E onde estavam os reguladores? Foi uma distracção colectiva?
Não elegemos banqueiros, elegemos políticos que nos representam e quando lhes damos o nosso voto estamos a depositar confiança política (da mesma maneira que quando depositamos dinheiro no banco estamos a depositar confiança na sua capacidade de gerir bem o nosso dinheiro e não o perder).

Aos políticos temos de exigir que façam leis que sirvam de facto a sociedade e que tornem a banca num sector que serve a sociedade como um todo e não a sociedade como um agregado ao serviço dos bancos. E isso correu mal nos últimos anos.

Por um lado, a proximidade, tantas vezes excessiva, entre a banca e os Estados fez com que um conjunto de leis fossem anuladas – a mais falada tem a ver com a separação da banca de investimentos e a da banca comercial.

E ainda tem a ver com a forma como os Estados foram protegendo a banca de um colapso para o qual não protegeram sectores inteiros e indústrias inteiras.

Diz que os Estados protegeram a banca em detrimento das famílias e de outros sectores. Porquê insistir neste tratamento desigual?
Tem tudo a ver com um círculo de poder em que um conjunto de pessoas acaba por se perpetuar em determinadas funções – não no mesmo sítio, mas em lugares de decisão.

A protecção dos cidadãos e de empresas não financeiras "versus" o próprio Estado e os bancos tem pecado sempre por escassa e tardia. Há, de facto, uma decisão, que não acho que seja inconsciente, de proteger um determinado sector da economia e quem decide nas sociedades. Por que são os banqueiros tão influentes? Uma das razões é porque, antes ou depois de estarem na banca, a maior parte deles estiveram também em lugares onde puderam influenciar os destinos dos países.

Que parte do livro lhe deu mais prazer escrever?
É aquela em que falo sobre a ganância e a forma como um sentimento, que todos já experimentamos, conduziu a banca e os banqueiros e todo o universo que está em redor deste sector a situações extremas que nos poderiam parecer absolutamente impensáveis.

Temos um histórico de pensar que o dinheiro nos faz mal, que faz de nós más pessoas. Mas não é forçoso que seja assim.

Até a biologia nos mostra que o dinheiro afecta a nossa capacidade de pensar, as reacções mais básicas do nosso cérebro, de uma maneira comparável à adição às drogas. Deve-nos obrigar a criar regras que nos limitem.

No retrato da banca que fez no livro houve algo que a tenha surpreendido?
Um dos relatos que cito é extraído do blogue de João Rendeiro, um banqueiro que marcou os últimos 30 anos de banca e de 1995 para cá, com o BPP, o fez de forma clara. Ao ler o texto dele, é impressionante como alguém informado e com visão – se nos esquecermos que também foi parte desta história – consegue ilustrar tão bem tudo o que correu mal. Ele tem uma visão muito crítica da supervisão e passa a mensagem: se isto aconteceu foi porque deixaram. Ou seja, tanto os EUA, como a Europa, atiraram achas para a fogueira quando criaram condições para ser tão barato comprar dinheiro. No fundo, criaram o clima perfeito para aguçar a ganância. Surpreendeu-me como é que alguém com essa consciência foi convivendo com todo o processo, sendo parte do que estava a acontecer.

Por que razão considera a detenção de Ricardo Salgado "o 'ground zero' da banca portuguesa"?
Todo o protagonismo do Ricardo Salgado ao longo dos últimos anos tornou-o no símbolo da banca e do poder em Portugal. No dia em que assistimos a uma das pessoas mais poderosas, um ícone daquilo que é o poder financeiro e até político, a ser detida tivemos, de alguma forma, a consciência que era o fim de uma era. De um tempo em que algumas instituições, empresas, alguns bancos e algumas pessoas estariam acima de qualquer contratempo. Nesse dia tomámos consciência, à escala portuguesa, de que a história dos bancos como a concebíamos acabou ali.

Há uma linha que separa o antes e o depois de 2008?
As coisas não voltarão ser mesmas, apesar de que nesta altura, em rigor, ter mudado muito menos do que devia. Dificilmente voltaremos a um tempo anterior a 2008. Todos, enquanto cidadãos, estamos muito mais atentos e todo o processo é mais escrutinado. Acho que esse é o grande drama da banca: a enorme dificuldade que as pessoas vão voltar a ter em confiar.

O escrutínio tem de ser feito quando escolhemos um banco, mas sobretudo quando estamos a tomar decisões políticas, quanto mais não seja quando elegemos os nossos governos. Porque não há possibilidade de conseguirmos mudar a banca sem mudarmos leis.

Não é um fim de história. No limite, estamos no princípio de uma nova era, que vai ser muito trabalhosa para todos nós. Não é um processo que acaba quando se salvam bancos, pois tudo o que nos trouxe até aqui pode voltar a acontecer.

Aliás, há quem defenda que se este processo acontecer hoje vai ser muito mais grave do que em 2008 porque os bancos que sobreviveram a esta crise são muito maiores.

Sopram ventos de mudança?
No meio de toda esta crise há sinais interessantes de que os bancos e os Estados vão ser obrigados a mudar. Graças à tecnologia estão a surgir possibilidades diferentes. Há novas empresas que estão a oferecer serviços financeiros e que não se configuram como um banco e não têm a mesma lógica de operação financeira – estão a dar serviços mais simples, mais acessíveis e mais baratos.

A geração dos ditos "millennials" vai ser muito mais descomplicada. Vão ter uma visão diferente da relação que esperam ter com um banco. Não vão achar tão complicado, como os nossos pais achariam, não ter uma conta bancária ou relacionar-se com uma entidade que lhes faz chegar dinheiro e lhes permite fazer pagamentos mas não é um banco.

2.10.14

Onde estão os milhões de euros injetados na banca europeia?

in TVI24

Contribuintes europeus estão a pagar as perdas dos maus investimentos feitos pelos credores alemães e franceses

É a pergunta que se impõe: para onde foram os biliões de euros injetados na banca europeia durante os resgates à Irlanda, Portugal ou Espanha? Quem beneficiou com este resgate?

No programa «Observatório do Mundo», desta semana, vamos mostrar-lhe que os contribuintes europeus estão a pagar as perdas dos maus investimentos feitos pelos credores alemães e franceses.

Recorde-se que, na Zona Euro, um país após o outro pediu dinheiro emprestado. O programa conta com as respostas de Brian Hayes, ministro-adjunto das Finanças da Irlanda, Luis de Guindos, ministro das Finanças de Espanha, Wlfgang Scauble, ministro das Finanças da Alemanha e Jorg Asmussen, membro do Conselho Executivo do BCE.

Esta noite, na TVI24, saiba tudo sobre «Os segredos do resgate financeiro.

4.7.14

"O verdadeiro objectivo dos 'planos de resgate' foi salvar os bancos"

Paulo Pena, in Público on-line

Harald Schumann, jornalista alemão que está a realizar um documentário sobre a troika, explica ao PÚBLICO por que acusou o Governo português de "censura".

Há uma semana, na conferência de imprensa de rotina do Conselho de Ministros, Luís Marques Guedes, o ministro da Presidência, foi interpelado, em inglês, por um jornalista que se queixava do silêncio do Governo português perante as suas perguntas. A imagem passou nas televisões. Harald Schumann, editor do diário berlinense Tagesspiegel, e autor do livro A Armadilha da Globalização esteve em Portugal a filmar um documentário para o canal Arte, sobre o efeito da troika nos países intervencionados.

É o seu segundo documentário depois da crise financeira. O primeiro chamou-se “Quando a Europa salva os bancos quem paga?”. Vista por seis milhões de europeus, esta investigação de Schumann pode ter causado má impressão nos governantes portugueses. Foi, pelo menos, isso que lhe disseram, para justificar o silêncio de Carlos Moedas, Maria Luís Albuquerque e Pedro Mota Soares…

O que se passou na conferência de imprensa?
Nós estávamos há várias semanas a pedir entrevistas à ministra das Finanças e ao ministro do Emprego, e também ao coordenador do programa de ajustamento, o secretário de Estado Carlos Moedas. Mas os nossos pedidos ou eram adiados ou nem sequer recebiam resposta. Quando a equipa de filmagens chegou e iniciámos a rodagem, na semana passada, foi-nos transmitido, por porta-vozes, que os ministros e o secretário de Estado não queriam ser entrevistados para o documentário. Por isso perguntei ao ministro Marques Guedes a que se devia esta recusa peremptória de colaborar com um filme que será difundido em, pelo menos, seis países europeus. O senhor Guedes apenas disse que não lhe cabia comentar as recusas dos colegas e que devíamos continuar a tentar.

E que razões vos deram para manter a recusa?
Oficialmente, disseram-nos que os governantes não queriam participar num documentário que só será exibido em Janeiro próximo e que, até lá, muitas coisas poderiam acontecer, tornando os seus depoimentos desactualizados. Como o que queríamos deles era uma avaliação do que aconteceu ao longo do programa de ajustamento, creio que estas razões não são credíveis. Nos bastidores, mais tarde, fomos informados de que a minha “má reputação” teria sido a razão fundamental para que recusassem qualquer entrevista.

Como é que interpreta isso?
Bom, só pode querer dizer que o facto de eu ser conhecido como um jornalista crítico, independente, me causou má reputação neste Governo. Infelizmente, isso confirma o problema básico de toda a operação da troika de credores na crise da zona Euro: O chamado ajustamento está organizado de uma forma opaca, por vezes arbitrária ou até ilegal. Os seus responsáveis sabem-no, e pretendem evitar perguntas críticas.

O seu documentário é sobre o efeito da troika. Onde tem filmado, além de Portugal?
Até agora estivemos na Grécia e em Portugal. Na próxima semana filmaremos na sede do FMI, em Washington. Mais tarde iremos à Irlanda e ao Chipre e, é claro, a Bruxelas e a Frankfurt, para entrevistar os responsáveis da Comissão Europeia e do BCE.

Até agora, o que vos foi possível observar?
A ideia de resolver o problema da dívida através da austeridade falhou completamente. A dívida é agora ainda mais insustentável do que era, há três anos. Os programas são, também, extremamente enviezados. Todo o fardo é assumido pelos trabalhadores e pelos contribuintes normais, enquanto as elites privilegiadas, que conseguem evadir a sua riqueza através dos offshores, e que são as maiores responsáveis pela crise, até conseguem lucrar com os programas de ajustamento. Por exemplo, quando conseguem comprar activos valiosos ao Estado a preços de saldo.

Essa é, até agora, a vossa principal conclusão?
O “resgate” errado, que apenas salvou os investidores estrangeiros, principalmente alemães, de perderem nos maus investimentos que fizeram, mina a confiança nas instituições democráticas dos países afectados. Os Governos e os Parlamentos desses países parecem ser apenas marionetas nas mãos de desconhecidos, e não eleitos, burocratas estrangeiros. E, ou, de investidores.

O que mais o surpreendeu na situação portuguesa?
O facto de terem tido - em proporção - a maior manifestação de todos os países em crise, mas que não teve qualquer impacto… Se, na Alemanha, 10% da população saísse à rua para protestar, o que significaria uma manifestação de 8 milhões de pessoas, nenhum Governo sobreviveria a isso intacto.

Os cidadãos alemães estão conscientes do que se passa nos países da periferia?
Infelizmente, não. De modo nenhum. A maioria dos alemães acredita realmente que o seu Governo está a “ajudar” os gregos e os portugueses com “dinheiro dos contribuintes”.

O seu último filme tratava da crise financeira. O que concluiu?
Que o verdadeiro objectivo dos “planos de resgate” foi salvar os bancos - alemães, franceses, ingleses - e os seus clientes ricos que fizeram investimentos estúpidos em bancos sobredimensionados, alimentados pelas bolhas imobiliárias, na Irlanda, na Espanha e em Portugal. Por esta razão, as dívidas dos bancos a credores privados foi reciclada em dívida dos Estados a credores oficiais. Em vez dos investidores, quem assumiu o risco foram os contribuintes de todos os Estados da Europa.

Acredita que os responsáveis europeus (a Comissão, os Estados, o BCE) lamentarão, um dia, essa situação?
Tenho pouca esperança nisso. A experiência diz-nos que esses tecnocratas se escudam da dura realidade dos países mais pobres e dirão, sempre, que não tinham alternativa.

Com estes documentários pretende criar algo de parecido com uma “opinião pública europeia”?
Não. Não penso que possa “criar” uma opinião pública europeia. Mas, é claro, é possível que um dia possamos vir a ter um debate público à escala europeia. O principal obstáculo são os governos nacionais que nos mantêm enredados em pontos de vista estritamente nacionais, porque é aí que reside o seu poder. Mas pudemos ver nestas eleições europeias, que a anacrónica defesa de interesses nacionais, que não faz nenhum sentido economicamente, faz ricochete. Agora, em muitos países, estão em ascensão forças nacionalistas, que prometem ver-se livres desta Europa opaca e não-democrática. Esta receita, se posta em prática, tornar-nos-ia, a todos, mais pobres. Perderíamos todos os ganhos da divisão transnacional do trabalho. Mas é precisamente porque os nossos governos mantêm os cidadãos em iliteracia económica, para camuflar a verdade e os interesse que servem, que estes extremistas são bem sucedidos. Por isso, todos os que não queremos que a Europa regresse aos tempos sombrios do século passado temos de fazer o que estiver ao nosso alcance para criar um discurso público que ultrapasse as fronteiras nacionais. Ou o conseguimos, ou o projecto europeu irá ruir.

12.9.13

Aprovado mecanismo único de supervisão bancária na UE

in Sol

O Parlamento Europeu aprovou hoje, em Estrasburgo, o mecanismo único de supervisão bancária, que abrangerá cerca de 150 dos maiores bancos da zona euro, medida já saudada pelo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
O pacote legislativo que foi aprovado por esmagadora maioria e estabelece o mecanismo único de supervisão bancária é composto por dois regulamentos: um confere atribuições de supervisão ao Banco Central Europeu (BCE) e o outro altera o regulamento em vigor sobre a Autoridade Bancária Europeia.

Numa reacção à votação, José Manuel Durão Barroso, salientou que o Mecanismo Único de Supervisão inicia "uma mais profunda união económica e monetária".

"A nossa atenção deve voltar-se agora e urgentemente para o Mecanismo Único de Resolução [bancária]", disse, lembrando que a proposta foi apresentada pelo executivo comunitário em Julho.

O mecanismo único de supervisão hoje aprovado será composto pelo Banco Central Europeu e pelas autoridades nacionais de supervisão, passando o primeiro, a partir de Setembro de 2014, a ser responsável pelo funcionamento global do mecanismo, exercendo uma supervisão directa sobre os maiores bancos da zona euro.

Os eurodeputados incumbiram a Autoridade Bancária Europeia de desenvolver práticas de supervisão que deverão ser seguidas pelos supervisores nacionais.

O novo mecanismo envolve a transferência de consideráveis poderes de supervisão bancária da esfera nacional para a europeia e que deve ser acompanhada por um apertado controlo democrático do novo supervisor.

Lusa/SOL

27.6.13

Europa vai permitir alguma flexibilidade na gestão de futuras crises bancárias

in Público on-line

Dinheiro dos depósitos abaixo dos 100 mil euros será sempre protegido. Accionistas e credores serão os primeiros a pagar.

Serão os accionistas dos bancos e os credores a pagar por futuras crises bancárias, e não os contribuintes como tem acontecido, mas haverá alguma flexibilidade por parte dos Estados na gestão destas crises. Após uma maratona de sete horas que entrou pela noite dentro, os ministros das Finanças da União Europeia chegaram na madrugada desta quinta-feira a acordo sobre as regras que orientarão os resgates dos bancos em apuros.

Este acordo é fundamental para a futura "união bancária" europeia e tem como objectivo garantir que não voltarão a ser os contribuintes a pagar - através de fundos públicos – o resgate de bancos falidos.

Os ministros já tinham concordado que seriam os accionistas a ser chamados em primeiro lugar a lidar com a factura de um resgate, seguidos dos credores não protegidos e, se necessário, os credores “séniores”. Em último caso, os depositantes com contas superiores a 100 mil euros seriam também envolvidos nas tentativas para salvar o banco.

Os depósitos inferiores a 100 mil euros estarão sempre protegidos. As contas de particulares, de microempresas e de pequenas e médias empresas vão beneficiar de uma protecção mais elevada face aos de outros credores e aos depósitos de grandes companhias.

“Se um banco tem problemas, nós teremos, a partir de agora, um conjunto único de regras, através do qual a Europa pode decidir quem paga a factura”, disse o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem.

Mas chegar a este ponto não foi fácil. A Europa dividiu-se com alguns governos, como o francês, a exigir alguma flexibilidade em certos casos, receando as consequências de uma regra inflexível que coloca um enorme risco sobre os ombros dos grandes depositantes, o que poderia conduzir a fuga de capitais. Paris queria que, em determinadas circunstâncias, fosse possível proteger alguns indivíduos e pequenas e médias empresas.

Já outros governos, como o alemão, consideravam preferível ter regras claras e comuns a todos para evitar incertezas que poderiam assustar investidores e, sobretudo, garantir que os contribuintes não voltassem a ser chamados a salvar os bancos.

No acordo alcançado esta madrugada, os Estados vão exigir aos credores e accionistas que garantam, pelo menos, 8% dos passivos bancários. Uma vez esta condição satisfeita, poderá ser utilizado um fundo nacional de “resolução” e, se necessário, poderão ser solicitados recursos nacionais ou europeus com a possibilidade de recapitalização directa pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade, explicou o ministro das Finanças francês, Pierre Moscovici, citado pela AFP. Este segundo nível de intervenção não pode exceder 5% do passivo do banco.

A presidência irlandesa da UE espera que as novas regras estejam concluídas, o mais tardar, até ao início do próximo ano, prevendo-se que possam entrar em vigor a partir de 2018.

15.1.13

Reportagem TSF: À Porta da Rua

in TSF

Chama-se desahucio. É o nome usado em espanhol dado a um dos fenómenos sociais que mais tem afetado o país vizinho: os despejos. Estima-se que, por dia, cerca de 520 pessoas fiquem sem casa por não conseguirem pagar as prestações da hipoteca ao banco. Só no ano passado, o número de casos aumentou mais de 134%. Situações que empurram milhares de pessoas para a rua, muitas desenvolvem depressões, outras optam mesmo pelo suicídio. «À Porta da Rua» é uma reportagem de Joana de Sousa Dias, com sonoplastia de Joaquim Dias e edição video de Bruno Rascão. Para ouvir esta quinta-feira, depois das 19h00.