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12.9.23

BCE prepara reunião decisiva, com alguns falcões a roçar a recessão: conheça os dilemas para subir ou travar os juros

Jorge Nascimento Rodrigues Jornalista, in Expresso


O conselho do Banco Central Europeu está numa encruzilhada: subir juros uma vez mais ou fazer uma pausa a 14 de setembro. Os ‘falcões’ têm larga maioria, mas há divergências entre eles. Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, recupera direito de voto até final do ano. Já Joachim Nagel, presidente do Bundesbank alemão, não vota esta quinta-feira


O Banco Central Europeu (BCE) volta a reunir o seu conselho para decidir sobre política monetária a 14 de setembro. Na próxima quinta-feira tem em cima da mesa, pela primeira vez, duas opções: subir pela décima vez os juros ou fazer uma pausa, pela primeira vez desde que iniciou o ciclo de aperto monetário em julho do ano passado.

Os analistas falam de uma encruzilhada, com o conselho do BCE pressionado, por um lado, pela continuação da inflação acima de 5%, e, por outro, pelos sinais cada vez mais fortes do risco de estagnação na zona euro. Nos mercados, os futuros apontam para uma probabilidade de 60% no sentido de uma maioria a favor da paragem no aumento dos juros na próxima quinta-feira.


Apesar das atas da última reunião em julho revelarem que foi aconselhado a que a estratégia comunicacional não atribuísse “demasiada importância” à reunião de 14 de setembro, o que é certo é que, mos mercados, é tida como decisiva este ano. Aliás, um dos ‘falcões’ do conselho do BCE, Klaas Knot, governador do Banco Central dos Países Baixos (Nederlandsche Bank), dizia na semana passada que “em certo sentido é uma reunião crucial” e que a decisão “vai ser muito renhida”.

Nas primeiras decisões tomadas por bancos centrais em setembro, o Banco da Reserva da Austrália e o Banco do Canadá optaram por manter a pausa na subida dos juros.

ENCRUZILHADA DE OPÇÕES

As três últimas reuniões do ano do BCE enfrentam uma encruzilhada: continuar a subir os juros ou, em alguma delas, optar por uma pausa, temporária ou mais prolongada. O conselho do BCE sofre duas pressões de sinal contrário. Por um lado, a inflação na zona euro continua elevada, tendo estabilizado em 5,3% em julho e agosto, integrando nove economias com os níveis acima dessa média. Mas, por outro, acumulam-se os sinais de que uma aterragem suave na zona euro é cada vez menos provável.

Nas previsões avançadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo BCE em julho, o crescimento este ano na zona euro abrandaria para 0,9% e a Alemanha, a principal economia da área da moeda única, registaria uma recessão ligeira de 0,3%.

Esta segunda-feira, a Comissão Europeia avançou com um crescimento de 0,8%, nas suas previsões intercalares de verão, cortando em três décimas a previsão avançada em maio. Bruxelas aponta para uma recessão de 0,4% na Alemanha e um crescimento muito fraco de 0,5% nos Países Baixos.

A expectativa centra-se, agora, nas novas previsões macroeconómicas que Philip Lane, o economista-chefe do BCE, vai apresentar na próxima quinta-feira.

A pressão de uma inflação mais alta que exige ainda mais aperto monetário domina seis economias do euro com taxas acima de 6% em agosto, entre elas, a Alemanha e a Áustria, com chefes dos bancos centrais que são tidos como parte do núcleo duro de ‘falcões’ mais intransigentes.

Por outro lado, oito economias do euro registam uma situação anómala na sua curva de juros da dívida pública, com as yields a 2 anos superiores às verificadas a 10 anos no mercado secundário, o que é tido como um sinal antecipado de recessão. Sete dessas economias com a ‘curva invertida’ (como é designada tecnicamente) têm bancos centrais chefiados por ‘falcões’ intransigentes, nomeadamente Alemanha, Áustria, Bélgica e Países Baixos. O que revela que a opção de voto a tomar por muitos ‘falcões’ não é fácil.

‘FALCÕES’ COM LARGA MAIORIA

No entanto, os ‘falcões’ estão em larga maioria no conselho do BCE. Só contando governadores e presidentes dos bancos centrais nacionais, a correlação de forças é de 14 ‘falcões’ para seis ‘pombas’ (nas quais se inclui Mário Centeno, governador do Banco de Portugal), segundo o levantamento regular feito pelo portal InTouch Capital Markets. Na reunião de 14 de setembro, contando apenas quem vota no grupo dos bancos centrais nacionais, a relação é de 11 ‘falcões’ para 4 ‘pombas’ (os governadores dos bancos centrais de Espanha, Chipre, Itália e Portugal).

No mercado, as probabilidades apontam para uma pausa em setembro (60%), seguida de um regresso a subidas nas duas reuniões seguintes, que colhem 55% de probabilidade para a reunião de 26 de outubro e 58% para a de 14 de dezembro.


Na reunião de 14 de setembro, contando apenas quem vota no grupo dos bancos centrais nacionais, a relação é de 11 ‘falcões’ para 4 ‘pombas’ (os governadores dos bancos centrais de Espanha, Chipre, Itália e Portugal).

Nas declarações proferidas durante o verão pelos que votam em setembro, o holandês Knot avançou que “uma nova subida é uma possibilidade, mas não uma certeza”. Robert Holzmann, do Banco central da Áustria (Oesterreichische Nationalbank), um dos ‘falcões’ mais duros, adiantou que “ainda não tomei uma decisão, porque ainda não tenho todos os dados”. Mas logo adiantou que “não excluo que me decida por uma subida”, ou mesmo “por mais uma ou duas”.

O letão Martins Kazaks e o eslovaco Peter Kazimir inclinam-se para uma subida modesta (de 25 pontos-base) em setembro e depois fazer uma pausa. Entre os ‘falcões’ mais moderados, o governador do Banco de França, François Villeroy de Galhau, expressou a posição mais conciliadora: “Acredito que estamos perto ou muito perto do pico das taxas de juro. Manter as taxas por tempo suficiente conta mais do que as subir significativamente de novo”.

Nas posições mais vocais entre as ‘pombas’, destacaram-se Yannis Stournaras, do banco central helénico, e Mário Centeno, do Banco de Portugal. O grego repetiu que “não devemos continuar a subir as taxas”, admitindo “um período longo de pausa”. Contudo, Stournaras não vota a 14 de setembro. Entre os que votam, sobressaíram as declarações recentes de Centeno, onde em uma análise publicada pelo próprio Banco de Portugal, afirmou que “na dimensão monetária, o risco de fazer de mais começa a ser material”. Em português corrente: aumentar mais os juros começa a ser claramente um risco.

Com direito de voto permanente estão os seis membros da comissão executiva. Dois são tidos como ‘falcões’ (a alemã Isabel Schnabel e o holandês Frank Helderson) e outros dois como ‘pombas’ (o irlandês Philip Lane e o italiano Fabio Panetta). Na charneira, a autointitulada ‘coruja’ Christine Lagarde, a presidente do BCE, e o vice-presidente, o espanhol Luis de Guindos. A decisão final vai depender da capacidade de Lane, o economista-chefe, para sustentar tecnicamente as medidas que obtenham um apoio maioritário ou mesmo um consenso, e da gestão do risco e dos consensos políticos por Lagarde.






NÃO FALTAM ARGUMENTOS A FAVOR DE UMA SUBIDA DOS JUROS

Na balança de argumentos, as razões para manter o ciclo de aumento dos juros dominam largamente, explica o economista francês Eric Dor, diretor de estudos económicos do IESEG School of Management de Paris. Há ainda muitos factores inflacionistas em curso.

O nível ainda elevado da inflação e, em particular da inflação subjacente (excluindo as componentes mais voláteis da alimentação, energia, álcool e tabaco), acima de 5% é um argumento forte. A subida de preços na alimentação ainda está perto de 10%. A que acresce que nove economias do euro registam níveis de inflação acima da média da zona euro, entre elas a Alemanha, França e Itália.

Nas previsões avançadas esta segunda-feira pela Comissão Europeia, a inflação média anual este ano será de 5,6% e no final do próximo ano ainda estará em 2,9%, acima da meta de estabilidade de preços (2%) do BCE.

A incerteza sobre os preços da energia regressou, salienta Dor. A cotação do barril de Brent (de referência na Europa) subiu 21% entre 1 de junho e 11 de setembro. As decisões do novo cartel OPEP+ liderado pela Arábia Saudita e pela Rússia em cortar na produção estão, de novo, a pressionar os preços do petróleo em alta. “O que, depois de um certo atraso, provocará uma subida nos preços do óleo de aquecimento e dos combustíveis na bomba”, refere o economista francês.

Continua a acelerar-se a queda da produtividade na zona euro. No primeiro trimestre, medida em termos reais por hora trabalhada, caiu 0,9% em termos homólogos (em relação ao mesmo trimestre do ano passado), segundo o Eurostat. “Isto é inflacionista, pois uma descida do crescimento da produtividade implica que, para a mesma taxa de crescimento dos salários nominais, a subida do custos unitário do trabalho é superior”, explica Eric Dor.

A desvalorização do euro face ao dólar a que estamos a assistir no segundo semestre também não ajuda. O euro depreciou-se em 1,7% desde o final de junho. “Isto também é inflacionista, pois aumenta o preço em euros das importações cuja cotação é determinada em dólares”, adianta o economista.

Finalmente, a subida dos salários na zona euro no primeiro semestre deste ano está a ter um efeito de aceleração do aumento dos custos unitários de trabalho: o aumento trimestral saltou de 5% entre outubro a dezembro do ano passado para 6,83% entre abril e junho deste ano. No caso de Portugal, o aumento é superior à média da zona euro.

No outro prato da balança, podem elencar-se: o horizonte de franco abrandamento da economia da zona euro (reforçado pela previsão avançada esta segunda-feira por Bruxelas), o aperto monetário acumulado de 425 pontos-base com efeitos já visíveis no recuo do crédito à economia (empresas e famílias), a turbulência bolsista nos últimos três meses (com o índice para a zona euro a cair 5%), particularmente acentuada na Alemanha e nos Países Baixos, e os níveis altos de prémios de risco para a dívida pública de nove economias do euro com spreads acima de 100 pontos-base (1 ponto percentual em relação ao custo de financiar a dívida alemã).
COMO SE VOTA NO CONSELHO DO BCE

O sistema de votações no conselho do BCE é complexo. Há uma regra de rotatividade para o voto mensal para os governadores e presidente dos bancos centrais nacionais. As cinco maiores economias - Alemanha, França, Itália, Espanha e Países Baixos - têm quatro direitos de voto por mês e as restantes 15 - onde se inclui Portugal - podem usar 11 votos por mês. Os membros da comissão executiva votam sempre.

No entanto, as reuniões de política monetária - onde se decidem as taxas de juro e as medidas de aquisição ou venda da carteira de títulos - não são mensais, realizam-se oito vezes por ano, pelo que há uma matriz de votações.

Por exemplo, na reunião de 14 de setembro vota Mário Centeno, do Banco de Portugal, que não votou nas duas reuniões anteriores de junho e julho, mas não vota Joachim Nagel, do banco central alemão. Centeno vota também nas duas últimas reuniões do ano em outubro e dezembro.

5.9.23

Quase 5% das famílias em risco de gastar mais de metade do salário com crédito à habitação

Rafaela Burd Relvas, in Público online

A percentagem de famílias em sobrecarga financeira para suportar os custos do crédito à habitação permanece baixa, mas está a aumentar de forma significativa, em resultado da subida das taxas de juro.

Quase 5% das famílias com crédito à habitação correm o risco de chegar ao final deste ano a ter de desembolsar mais de metade do seu rendimento disponível para suportar os custos com o empréstimo, em resultado da subida das taxas de juro. Ao todo, serão perto de 70 mil famílias nessa situação, praticamente o dobro daquilo que se verificava há dois anos, segundo as estimativas do Banco de Portugal (BdP).

Os alertas do regulador da banca quanto aos riscos que a subida das taxas de juro acarreta para as famílias já vêm sendo feitos há vários meses. No último Relatório de Estabilidade Financeira, publicado no passado mês de Maio, o BdP apontava que "os encargos mais elevados com o serviço da dívida dos empréstimos à habitação" deveriam contribuir para uma subida do rácio entre a prestação do crédito e o rendimento disponível (o chamado "loan service-to-income", ou LSTI) de 16,3% em Junho de 2022 para 22,3% em Dezembro de 2023. Na prática, significava isto que o regulador antecipava que, no final deste ano, com o crédito à habitação, as famílias teriam de desembolsar, em média, mais de um quinto do rendimento disponível para pagar a prestação da casa.

Segundo estimava ainda o BdP nessa altura, a larga maioria das famílias (cerca de 75%) deveria continuar a suportar uma taxa de esforço igual ou inferior a 30% este ano, mas 18,6% das famílias passariam a suportar uma taxa de esforço superior a 40% no final deste ano (muito acima da proporção de 7,7% das famílias que se encontravam nessa situação em Junho do ano passado).

Mais: perante este cenário de "inflação elevada e de subida rápida das taxas de juro", o regulador via um risco mais elevado de incumprimento no crédito, sobretudo entre os "clientes mais vulneráveis", que têm agora menor capacidade de poupança. Assim, no relatório publicado em Maio, o regulador já considerava ser "expectável" um aumento das perdas por imparidade de crédito e dos empréstimos classificados em stage 2 (a classificação atribuída aos contratos cujo risco de crédito aumentou significativamente desde o início da contratação, mas para os quais ainda não existe evidência de que venha a existir uma perda associada).

Agora, o governador do BdP vai mais longe e aponta mesmo para o número de famílias que se espera que venha a ser mais afectado pela subida das taxas de juro.

"A encruzilhada traz maior aperto financeiro a famílias e empresas em resultado do ciclo de política monetária. No final de 2023, cerca de 70 mil famílias poderão vir a ter despesas com o serviço do crédito à habitação permanente superiores a 50% do seu rendimento líquido", escreve Mário Centeno, numa análise pessoal ao actual momento da economia, a primeira daquela que deverá tornar-se numa série com periodicidade anual. E acrescenta: "O reforço da poupança e a redução do endividamento, bem como os apoios públicos e o papel do sector bancário na prevenção do incumprimento, podem mitigar estes riscos."

Este é um número que está a aumentar desde há dois anos, quando as taxas Euribor (às quais está indexada a larga maioria dos contratos de crédito à habitação em Portugal) iniciaram a actual trajectória de subida: em Dezembro de 2021, de acordo com os dados agora disponibilizados na análise assinada pelo governador do BdP, havia 35,6 mil contratos de crédito à habitação com uma taxa de esforço superior a 50%, um número que cresceu para 45,8 mil no final do ano passado e que, por fim, se estima que aumente para 69,6 mil em Dezembro deste ano.

De acordo com os dados mais recentes do BdP, relativos a 2022, existiam, no final desse ano, à volta 1,5 milhões de contratos de crédito à habitação activos. Cerca de 92,6% destes contratos tinha taxa variável, enquanto outros 5,7% tinham taxa mista e só 1,7% tinham taxa fixa. Este é um retrato que poderá vir a alterar-se em breve, tendo em conta as dinâmicas mais recentes do mercado: em Julho deste ano, os novos empréstimos à habitação com taxa fixa ou mista já representaram, em conjunto, 49% do total de novos empréstimos à habitação, ainda de acordo com dados do BdP.

Considerando estes números, significa isto que, no final deste ano, em torno de 4,6% das famílias com crédito à habitação poderá estar a pagar prestações que representam mais de 50% do seu rendimento disponível. Há dois anos, só cerca de 2,5% das famílias se encontrava nessa situação.

Assim, ainda que permaneça baixa, a percentagem de famílias em sobrecarga financeira aumenta de forma significativa. Em Portugal, de acordo com a definição disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), considera-se que estão em "sobrecarga das despesas em habitação" aqueles que vivem em agregados familiares onde "o rácio entre as despesas anuais com a habitação e o rendimento disponível (deduzidas as transferências sociais relativas à habitação) é superior a 40%".

E os indicadores mais recentes não apontam para um desagravamento desta tendência: ainda que as taxas Euribor já estejam a mostrar alguns sinais de estabilização, o valor das prestações dos créditos à habitação deverá continuar a subir nos próximos meses, já que as revisões periódicas ocorrem a cada três, seis ou 12 meses, conforme o prazo da taxa fixada nos contratos.

6.7.23

Juros dos novos empréstimos à habitação sobem acima de 4% em Maio, máximo de 11 anos

Rosa Soares, in Público online

Crédito concedido aos particulares aumentou 495 milhões de euros,nos destinos de habitação e consumo. Amortizações de crédito à habitação voltaram a crescer.

A taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação superou os 4% pela primeira vez em 11 anos, situando-se em 4,15% em Maio, acima dos 3,97% de Abril, revelou esta quarta-feira o Banco de Portugal (BdP).

Isolando apenas os empréstimos a taxa variável, ou seja, associados às taxas Euribor, a taxa de juro média é ligeiramente mais elevada, de 4,20%, e a fixa ligeiramente mais baixa, de 4,19%.

Esta subida é explicada pela evolução das taxas Euribor, que têm renovado máximos desde finais de 2008.

O montante total de novos créditos aos particulares ascendeu a 2289 milhões de euros, mais 495 milhões do que em Abril, com aumentos em todas as finalidades.

Para a finalidade de habitação foram emprestados 1623 milhões de euros, mais 353 milhões de euros do que no mês anterior.

Os dados do BdP mostram que os reembolsos totais ou parciais de crédito à habitação continuam a subir.

A percentagem de amortização face ao stock subiu para 0,81%, face aos 0,67% de Abril.

Os reembolsos antecipados totais são mais elevados, representado 0,66% do total de crédito à habitação, com os parciais a ficarem por 0,15%.

Estas amortizações são explicadas pela subida das taxas Euribor, mas também pelo facto de estarem a ser feitas sem custos, dada a suspensão da comissão de resgate (0,5% sobre o capital a amortizada), e ainda a beneficiar das facilidades de mobilização de montantes aplicados em planos de poupança reforma e educação (PRR e PRR/E) para pagamento das prestações. Estas duas medidas, criadas pelo Governo, estão em vigor até 31 de Dezembro.

As famílias já amortizaram 3,7 mil milhões de créditos à habitação no conjunto dos primeiros cinco meses deste ano, um aumento de quase 70% em igual período do ano passado, revelou na semana passada Clara Raposo, vice-governadora do Banco de Portugal (BdP), em entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena 1.
Crédito ao consumo sobe

O novo crédito ao consumo ascendeu em Maio a 469 milhões de euros, mais a 90 milhões de euros que em Abril. A taxa de juro média passou de 8,69% em Abril para 8,72% em Maio.

O crédito a outros fins aumentou 53 milhões de euros, para 197 milhões de euros, e a taxa de juro média subiu ligeiramente de 5,18% em Abril para 5,19% em Maio.
 

 

12.6.23

Renegociação de crédito à habitação pode travar acesso à bonificação de juros

Rosa Soares,  in Público


Clientes que renegociaram os contratos e ficaram com uma taxa de esforço inferior a 35% estão excluídos da medida que demorou mais de dois meses a chegar ao terreno.

As primeiras respostas aos pedidos de acesso à medida que pretende garantir a bonificação parcial de juros no crédito à habitação estão a confirmar aquilo que já se antevia. A medida tem uma abrangência muito limitada, porque considera apenas o encargo da prestação da casa para o cálculo da taxa de esforço das famílias (peso do crédito no seu rendimento). Mas também porque, constata-se agora, acaba por excluir quem teve necessidade de renegociar as condições dos contratos para baixar prestação, reduzindo a taxa de esforço abaixo dos 35%, mesmo que depois desse processo o valor a pagar continue elevado e acima do valor fixado aquando do início do empréstimo.

A renegociação dos empréstimos da casa por parte de quem não conseguiu acomodar o aumento das taxas Euribor foi incentivada por um diploma do Governo, o Decreto-Lei n.º 80-A/2022, de 25 de Novembro, que criou condições especiais para os clientes com taxas de esforço igual ou superior a 36% e empréstimos até 300 mil euros, poderem alterar as condições do contrato, como o alargamento do prazo ou o estabelecimento de períodos de carência de capital, entre outras. Isto, com o objectivo de baixar as prestações.

Depois daquela iniciativa, o Governo aprovou outra medida de apoio a agregados familiares com menores rendimentos, a bonificação parcial de juros, criada pelo Decreto-lei n.º 20-B/2023, de 22 de Março, cuja aplicação efectiva se arrastou por mais de dois meses, com as primeiras respostas a chegar aos clientes que a pediram apenas nos últimos dias. Para além da demora em chegar às famílias, as respostas estão a surpreender alguns clientes pela negativa, uma vez que estes estão a ser informados de que não cumprem os critérios de admissibilidade.

Estão em causa clientes que se viram forçados a renegociar os empréstimos da casa nos últimos meses, por não conseguirem suportar o aumento muito significativo das prestações, na sequência da forte subida das taxas Euribor, mas que no âmbito desse mecanismo ­— que tem custos a prazo, como o pagamento de mais juros­ — acabaram por ficar com uma taxa de esforço abaixo de 35%. O que os exclui, agora, do acesso à bonificação de juros, uma situação para que não foram alertados, segundo alguns casos que são do conhecimento do PÚBLICO.

Para esta situação contribui o facto de os critérios de acesso à medida, apesar de se destinar a famílias com rendimentos modestos, no limite até ao sexto escalão do IRS (ou rendimento bruto anual até 38.632 euros do agregado), serem muito restritivos. Como o PÚBLICO já noticiou, e ao contrário do que inicialmente se previa, a bonificação parcial de juros acabou por ficar limitada a quem apresente uma taxa de esforço igual ou superior a 35%, mas considerando apenas a prestação do empréstimo da casa, excluindo outros créditos, incluindo alguns complementares ao crédito à habitação e ao consumo, mesmo que representem um peso significativo no orçamento familiar. A bonificação também é aplicada apenas a partir de um determinado patamar da taxa Euribor — acima dos 3% em boa parte dos casos, nível em que se encontram já todos os prazos utilizados no crédito à habitação.

Para a associação de defesa do consumidor Deco, as respostas que estão a chegar aos clientes confirmam os alertas feitos sobre a restritividade dos critérios. “Em alguns casos, as instituições financeiras nem sequer detalham o motivo da exclusão dos particulares, limitando-se a dizer que não cumprem os requisitos de elegibilidade”, adianta ao PÚBLICO Natália Nunes, directora do Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da associação.

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31.5.23

Prestação num crédito de 200 mil euros sobe 57% e passa mil euros

Rosa Soares, in Público

Taxas fecham Maio nos valores mais altos desde 2008. Subida em cadeia abrandou, mas impacto nos créditos continua a ser elevado.



Há uma boa notícia na evolução das taxas Euribor em Maio: o ritmo de subida abrandou ligeiramente face aos meses anteriores. Mas continua a manter-se a má notícia, a do agravamento significativo das prestações do crédito à habitação, especialmente nos contratos associados aos prazos a seis e 12 meses, porque são os que estão em níveis mais elevados e são revistos em intervalos de tempo maiores.


A situação é particularmente mais grave na Euribor a 12 meses, a mais utilizada (41%) nos empréstimos contratados entre 2015 e 2021, período em que os três prazos usados no crédito à habitação estiveram em valores negativos.



A média mensal das Euribor de Maio serve de referência para as revisões de créditos que venham a ocorrer em Junho, bem como para os novos empréstimos a contratar durante o próximo mês.


Apenas a uma sessão do fecho do mês, a Euribor a 12 meses foi a que menos subiu. A média desta taxa avançou para 3,859% até 30 de Maio, mais 0,102 pontos percentuais do que em Abril, em linha com a variação em cadeia que se tinha verificado também nesse mês (mais 0,110 pontos face a Março). Apesar de ter sido a que menos subiu no mês, numa comparação com a evolução da Euribor a três e seis meses, é esta taxa que mais vai agravar os créditos a rever brevemente, uma vez que apresenta uma diferença de 3,572 pontos percentuais face ao valor de há um ano.

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24.5.23

Vinte e cinco anos de unidade do euro

Christine Lagarde, opinião, in Público


Faremos a inflação regressar ao objetivo de 2% no médio prazo. Aumentámos as taxas de juro a um ritmo sem precedentes e vamos mantê-las em níveis restritivos durante o tempo que for necessário.


O Banco Central Europeu foi instituído em 1 de junho de 1998 para preparar o lançamento do euro – a maior transição monetária de sempre a nível mundial. Trabalhava na altura como advogada e recordo o ritmo frenético com que revimos contratos baseados em taxas de câmbio que em breve desapareceriam. Poderia a moeda comum funcionar realmente? Hoje, ao celebrarmos o 25.º aniversário desta instituição, sabemos que o euro não só funciona como conseguiu reforçar a coesão europeia.

Investidos pelos governos da União Europeia com a missão de zelar pelo euro, os nossos colaboradores em Frankfurt, juntamente com os colegas dos 20 bancos centrais nacionais da união monetária, trabalham incansavelmente para desempenhar o nosso mandato de manter a estabilidade de preços. Este trabalho é fundamental para a prosperidade dos cidadãos europeus.

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22.5.23

Amortizações, Certificados de Aforro e fundos levam a fuga de depósitos

Rafaela Burd Relvas, in Público online

Os depósitos dos cinco maiores bancos a operar em Portugal totalizavam, em conjunto, 248 mil milhões de euros no final de Março, uma queda de 4000 milhões face a igual período do ano passado.

Os maiores bancos a operar em Portugal perderam, no arranque deste ano, mais de 4000 milhões de euros em depósitos de clientes. A explicar este fenómeno estão, sobretudo, a procura por produtos com maior rentabilidade, como Certificados de Aforro ou fundos de investimento, e o aumento significativo das amortizações antecipadas de crédito à habitação, numa altura em que as famílias procuram fugir ao impacto da subida das taxas de juro. A banca garante, contudo, que mantém níveis “sólidos” de liquidez.

No primeiro trimestre de 2023, os depósitos da Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, BPI, Santander e Novo Banco totalizavam, em conjunto, cerca de 248 mil milhões de euros (considerando apenas os depósitos de clientes e excluindo outras parcelas que compõem os recursos totais de clientes, como os fundos geridos ou comercializados pelos bancos ou os seguros). É uma queda superior a 4000 milhões de euros relativamente ao montante que se registava em igual período do ano passado, quando os depósitos ultrapassavam os 252 mil milhões.

Entre estes, a única excepção foi o BCP, que registou uma subida dos depósitos de clientes de cerca de 4% no primeiro trimestre, que o banco diz reflectir “um incremento da poupança de particulares”. De resto, as maiores quedas foram registadas pela Caixa, BPI e Santander, todos com uma redução dos depósitos superior a 4% no primeiro trimestre, enquanto o Novo Banco ficou praticamente estagnado.

Vários factores explicam este movimento. Por um lado, e como admitiram os próprios presidentes dos bancos que prestaram as contas do primeiro trimestre, há uma fuga de uma parte dos depósitos de particulares para produtos mais rentáveis, sobretudo para Certificados de Aforro. Isso mesmo é evidente olhando para os dados das subscrições deste produto de poupança do Estado: só no conjunto dos três primeiros meses do ano, esta aplicação já atraiu 9353 milhões de euros.

Isto, numa altura em que os Certificados de Aforro oferecem uma taxa de remuneração bruta de 3,5%, valor que fica muito acima daquilo que é oferecido pelos bancos. De acordo com os dados mais recentes do Banco de Portugal (BdP), a taxa de juro média de novos depósitos a prazo para particulares era, no final de Março, de 0,9% (um valor que, apesar de ficar ainda muito aquém daquilo que se pode encontrar noutros produtos, já representa uma forte evolução face ao ano passado, quando a taxa média dos novos depósitos a prazo era de 0,04%).

Ao mesmo tempo, há um aumento da procura por fundos de investimento. No final de Março deste ano, ainda de acordo com os dados do BdP, o valor das unidades de participação emitidas pelos fundos de investimento era de 35,9 mil milhões de euros, valor que representa um aumento de cerca de mil milhões em relação ao que era registado no final do ano passado.

A isto, há ainda que somar o dinheiro que saiu dos depósitos directamente para amortizar crédito antecipadamente, numa altura em que a subida das taxas de juro está a encarecer a prestação mensal dos empréstimos. De acordo com o regulador, as amortizações antecipadas de crédito à habitação totalizaram 2622 milhões de euros no primeiro trimestre de 2023, valor que representa um aumento de cerca de 70% em relação às amortizações no valor de 1539 milhões de euros que tinham sido feitas em igual período do ano passado.

Os principais bancos a operar em Portugal garantem, ainda assim, que mantêm níveis de liquidez sólidos, “muito acima” dos requisitos regulatórios. O mesmo é, aliás, confirmado pelo próprio regulador. “Os indicadores de liquidez que temos dos bancos não nos colocam nenhuma dificuldade. Os indicadores de liquidez dos bancos são robustos”, disse o governador do BdP, Mário Centeno, durante a apresentação do mais recente Relatório de Estabilidade Financeira, no passado dia 10 de Maio.

Ainda assim, e apesar de defenderem que a remuneração oferecida pelos bancos tem vindo a aumentar, os banqueiros reconhecem que será necessário adaptar a oferta de produtos ao novo contexto de taxas de juro. Isso mesmo referiu, por exemplo, Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa. “Cabe à banca apresentar produtos mais atractivos, como sejam depósitos ou produtos estruturados em que se ofereça capital quase garantido, para taxas já perto de 3%. Aí, muitas das pessoas deixarão de canalizar os seus montantes para Certificados de Aforro”, referiu, durante a apresentação de resultados trimestrais do banco público.

18.5.23

Crédito à habitação: partidos tentam aliviar “pressão” sobre as famílias

Mariana Marques Tiago, in Público online

O aumento das taxas de juro faz-se sentir no bolso dos portugueses, levando Marcelo a insistir na necessidade de fazer mitigar o impacto para as famílias. Que propostas têm os partidos?

Após o Presidente da República alertar para a importância de reflectir sobre o impacto do crédito à habitação num contexto de agravamento de juros e preços, o Governo anunciou que as famílias já podiam pedir a bonificação de juros no crédito e o Chega definiu que o problema devia ser tema de debate no Parlamento nesta quinta-feira. Há novos projectos de lei em cima da mesa, mas o tema não é novo: os partidos têm feito propostas para mitigar o efeito da subida dos juros.

No que diz respeito às novas iniciativas, o PAN tem um projecto de resolução que recomenda a imposição de um travão à subida das prestações do crédito. Este deve ser "activado assim que a taxa de juro aplicada ao contrato ultrapasse os três pontos percentuais face à taxa contratada no momento inicial do empréstimo e em que se verifique uma taxa de esforço superior a 35%", lê-se na proposta. O partido propõe ainda o fim da cobrança das comissões bancárias decorrentes do processamento das prestações.

O Chega quer criar uma comissão que acompanhe os processos de renegociação das condições dos créditos e um regime especial de protecção da habitação permanente. O PCP tem um projecto de lei no mesmo sentido. A ideia é que os lucros do sector bancário suportem o aumento das taxas de juro, defende o partido.

Já o BE, impossibilitado de voltar a propor que os lucros dos bancos no spread e nas comissões cobradas aos clientes porque viu chumbada uma iniciativa com esse objectivo, apresentou um projecto de lei para aumentar as taxas de contribuição do sector bancário.

Na sua proposta, o PCP que travar a possibilidade de penhora ou execução de hipoteca sobre a habitação permanente por falta de rendimentos, intenção partilhada pelo Livre. O deputado único Rui Tavares propõe ao Governo que faça "todos os esforços" para não executar hipotecas sobre estes imóveis e sugere ainda a criação do Programa Ajuda de Casa para apoiar a compra da primeira habitação. Este "consiste no financiamento de até 30% do valor de mercado do imóvel, sob a forma de um empréstimo de capital próprio", diz o partido ao PÚBLICO.

O Livre quer também obrigar as instituições de crédito "a disponibilizar o sistema de prestações fixas e mistas", e pede ainda que a mudança do regime de crédito dentro da mesma instituição seja feita gratuitamente. O PSD viu já aprovada uma proposta no mesmo sentido, que baixou à especialidade. Os sociais-democratas pretendem "oferecer aos clientes [os bancos] uma alternativa de taxa fixa", simplificando o processo de mudança do regime, a renegociação do crédito e o reescalonamento da dívida.

"Deve ser simplificado o modelo de alteração das condições dos créditos à habitação", aponta o PSD. E acrescenta: "As operações de reescalonamento [da dívida] devem permitir redistribuir o valor correspondente ao aumento das prestações de juros", atrasando assim o pagamento para um momento em que haja uma redução da taxa de esforço.

Na mesma linha, numa proposta já aprovada em votação final global, o PS quer impedir que as instituições de crédito travem (ou penalizem) os processos de renegociação do crédito, usando como pretexto as recomendações do Banco de Portugal sobre o alargamento do prazo de amortização do empréstimo.


10.5.23

Há mais empresas em vulnerabilidade financeira e cenário ainda vai piorar, diz BdP

Rafaela Burd Relvas, in Público


A percentagem de empresas em situação de vulnerabilidade financeira deverá aumentar de 19% em 2022 para 26% até ao final deste ano, antecipa o Banco de Portugal.

O número de empresas em situação de vulnerabilidade financeira está a crescer desde o final do ano passado e o cenário ainda deverá agravar-se até ao final de 2023, um fenómeno que poderá levar a um aumento do incumprimento no crédito. A ameaça é identificada pelo Banco de Portugal (BdP), que vê neste um dos principais riscos para a estabilidade financeira, num contexto marcado pela "incerteza prevalecente" e pela "persistência" de factores como a pressão inflacionista ou a crise na banca regional norte-americana.

O risco é identificado pelo regulador no mais recente Relatório de Estabilidade Financeira, publicado esta quarta-feira e no qual o BdP traça um cenário mais pessimista para o sector bancário nacional.

"Os riscos para a estabilidade financeira mantiveram-se elevados, tendo prosseguido o ciclo de subidas das taxas de juro. Esta situação resulta da persistência de tensões geopolíticas, das pressões inflacionistas e do aumento de turbulência nos mercados financeiros internacionais, associado a desenvolvimentos recentes em bancos nos Estados Unidos e na Suíça", pode ler-se no relatório, que acrescenta que, embora casos como o do Silicon Valley Bank sejam o reflexo de "fragilidades idiossincráticas dessas instituições", a "incerteza prevalecente" motivada por estes episódios "justifica uma monitorização acrescida".

Neste contexto, o regulador identifica seis grandes riscos para a estabilidade financeira: "a turbulência acrescida nos mercados financeiros internacionais, implicando potenciais efeitos de contágio entre os ciclos financeiro e económico"; "uma trajectória menos favorável para o rácio da dívida pública"; o "potencial incumprimento das famílias mais vulneráveis, devido à inflação elevada, à subida das taxas de juro de curto prazo e a um potencial agravamento da taxa de desemprego; o "arrefecimento no mercado imobiliário residencial, com impacto sobre os preços e sobre o valor do colateral de créditos garantidos por imóveis"; a "materialização dos riscos de mercado e de crédito para o sector bancário"; e "o potencial incumprimento das empresas mais vulneráveis", com um aumento da percentagem de empresas em vulnerabilidade.

Este último risco já está, na realidade, a materializar-se, segundo o diagnóstico feito pelo BdP. No conjunto de 2022, refere o relatório, a evolução positiva da rendibilidade operacional das sociedades não financeiras em Portugal contribuiu para o aumento do rácio de cobertura dos gastos de financiamento (em média, os lucros antes de juros e impostos de uma empresa cobriam em 9,8 vezes os respectivos gastos de financiamento). Contudo, se for considerado apenas o último trimestre do ano passado, a situação já está a deteriorar-se, verificando-se uma redução do valor médio desse rácio, uma consequência da subida dos custos de financiamento, que superou a melhoria da rendibilidade.

E, este ano, o agravamento vai continuar. "Dada a expectativa de subida das taxas de juro, estima-se que, até final de 2023, aumente a proporção de empresas em situação de vulnerabilidade financeira, identificadas por terem um rácio de cobertura de gastos de financiamento inferior a 2", indica o BdP.

Este agravamento vai ocorrer para "a globalidade dos sectores de actividade", mas terá particular incidência no sector da construção e actividades mobiliárias. Ao todo, o BdP estima que a percentagem de empresas em situação de vulnerabilidade financeira aumente de 19% em 2022 para 26% no final deste ano. Considerando apenas o sector da construção e actividades imobiliárias, a proporção de empresas nessa situação deverá aumentar de 31% para 40% até ao final de 2023. Já na indústria transformadora, a subida será de 17% para 21%, enquanto no comércio será de 12% para 14,5% e no alojamento e restauração de 37% para 44%.

Apesar deste agravamento, ressalva o relatório, a proporção de empresas em situação de vulnerabilidade financeira deverá permanecer "abaixo do observado durante a crise da dívida soberana". A isto, acresce o facto de que as empresas têm vindo a aumentar a constituição de depósitos nos últimos anos, o que poderá "actuar como factor mitigador" de um cenário mais drástico. "De forma generalizada, as empresas constituíram e mantêm depósitos elevados no período subsequente ao início da crise pandémica, o que constitui uma importante reserva de liquidez em caso de choques adversos", aponta o BdP.

Mesmo assim, o regulador não descarta um aumento do risco de incumprimento por parte das empresas, sobretudo as mais vulneráveis, resultado da incerteza quanto à evolução da actividade económica e da subida das taxas de juro. Somam-se, ainda, factores como "perturbações adicionais em instituições financeiras internacionais, com risco de contágio a outras instituições, mesmo que com modelos de negócio diferentes", um fenómeno que, a verificar-se, poderá "perturbar o fluxo normal de financiamento e a actividade" das empresas em Portugal.

O BdP considera, ainda assim, que o cenário está controlado. "Globalmente os indicadores financeiros das [empresas] têm vindo a melhorar, em particular no que toca à rendibilidade e alavancagem, tornado as [empresas] mais resilientes a choques adversos".

17.4.23

Acesso à bonificação de juros no crédito à habitação vai ser mais difícil

Rosa Soares, in Público online

Para o cálculo da taxa de esforço, é considerada apenas a prestação da casa e não os encargos de outros créditos, o que reduz as possibilidades de apoio às famílias.

A medida de apoio às famílias com crédito à habitação que estão a sentir um forte agravamento das prestações, em resultado da subida das taxas Euribor, ainda não está disponível. Os clientes só deverão poder começar a entregar os pedidos em meados de Maio, e a chamada bonificação parcial de juros só deverá chegar em finais desse mês ou mesmo apenas em Junho.

O protocolo a estabelecer as condições concretas em que vai assentar o apoio estatal ao pagamento de juros, apenas a partir de um determinado nível das taxas Euribor, foi fechado esta sexta-feira, dentro do prazo inicialmente previsto — de 15 dias úteis a partir da entrada em vigor do Decreto-lei n.º 20-B/2023 —, e poderá ser assinado ou anunciado já esta segunda-feira, ou muito brevemente.

A demora na implementação da medida, dadas as alterações que os bancos têm de fazer, nomeadamente nos sistemas informáticos, é um problema para quem já está com dificuldades em pagar a prestação da casa, apesar de estar garantido o pagamento de juros retroactivos a Janeiro de 2023, ou à data em que os créditos se tornaram elegíveis. Mas a maior dificuldade está no acesso à medida. E aqui, além da necessidade de cumprir um conjunto de critérios de acesso muito restritivos, ao nível dos rendimentos e outros, a redacção final do diploma “esconde” uma limitação significativa.

Um alerta feito pela directora do Gabinete de Protecção Financeira da Deco, Natália Nunes, tendo em conta que a fórmula de cálculo da taxa de esforço para aceder à medida é mais limitativa face ao que estava inicialmente previsto, excluindo um maior número de famílias que precisam de ajuda no actual contexto.

Em causa, o apuramento da taxa de esforço — que corresponde à fatia ou percentagem do rendimento (líquido de impostos e contribuições) que o detentor ou detentores de créditos destinam ao pagamento da prestação da casa. E que para garantir a bonificação de juros terá de ser igual ou superior a 35% do rendimento anual do devedor.

Ao contrário do que estava inicialmente previsto, o cálculo da taxa de esforço para aceder à bonificação de juros considera apenas a prestação do crédito à habitação. Assim, uma família com crédito à habitação e outros créditos pode ter uma taxa de esforço elevada, bem acima dos 35%, mas só poderá beneficiar da medida se o encargo isolado do crédito à habitação cumprir aquele requisito.

Este critério, mais restritivo, pode ainda prejudicar algumas famílias mais endividadas. Isso porque as famílias que apresentem uma taxa de esforço igual ou superior a 50% podem aceder à bonificação em condições mais vantajosas, uma vez que a bonificação é feita a partir do momento em que as taxas Euribor ultrapassam os 3%, nível em que já se encontram as taxas usadas no crédito à habitação, a três, a seis e a 12 meses. Se fossem considerados todos os créditos, mais famílias atingiriam os 50%.

Nos casos em que a taxa de esforço é igual ou superior a 35% e inferior a 50%, a bonificação de juros incide sobre a diferença entre a taxa Euribor e o patamar dos 3% ou, se for superior, a partir da taxa de stress, que resulta da soma de mais três pontos percentuais ao valor da taxa no momento da contratação.
Banco de Portugal esclarece

A redacção do diploma é confusa, uma vez que limita a medida a beneficiários que “tenham uma taxa de esforço igual ou superior a 35 % do seu rendimento anual com os encargos anuais de pagamento das rendas ou das prestações creditícias abrangidas pelo presente decreto-lei”, leia-se crédito à habitação, mas também remete para outro decreto-lei, o Decreto-Lei n.º 80-A/2022, de 25 de Novembro, que estabelece o cálculo da taxa de esforço significativa, e que obriga a consulta à Central de Responsabilidade de Crédito, o que só serve para apuramento de todos os créditos e respectivos encargos dos particulares

Entretanto, para o Banco de Portugal (BdP) não há dúvidas de que a medida considera apenas o “peso” do crédito à habitação. “De acordo com o disposto na alínea d) do n.º 1 do artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 20-B/2023, de 22 de Março, o regime aplica-se a agregados familiares que tenham uma taxa de esforço igual ou superior a 35% do seu rendimento anual, considerando os encargos das ‘prestações creditícias abrangidas pelo presente decreto-lei’.” “Ora — acrescenta o supervisor —, o diploma em causa aplica-se apenas aos contratos de crédito para aquisição, realização de obras ou construção de habitação própria permanente, abrangidos pelo Decreto-lei n.º 74-A/2017, de 23 de Junho, razão pela qual o apuramento da taxa de esforço, para estes efeitos, só considera estes créditos.”

O BdP remete ainda para o entendimento divulgado no Portal do Governo, onde refere que “são elegíveis para beneficiar desta medida todas as famílias com rendimentos até ao 6.º escalão do IRS, inclusive, e que tenham neste momento uma taxa de esforço com a habitação superior a 35%”.

Além da taxa de esforço, o acesso à medida, que pode garantir no máximo um apoio de 720 euros ao longo de 2023, está limitado ao valor inicial do empréstimo, que tem de ser igual ou inferior a 250 mil euros, e tem de se encontrar em situação regular. O rendimento do titular do contrato ou dos dois titulares, se for o caso, terá de “caber” no sexto escalão do IRS, ou seja, não pode ser superior aos 38.632 euros brutos anuais. Ou, estando acima desse valor, no caso de ter sofrido uma quebra superior a 20% do seu rendimento, que o enquadre até ao limite máximo do sexto escalão. E ainda não possuir património financeiro acima de 29.786,66 euros (62 vezes o Indexante de Apoios Sociais, de 480,43 euros por mês, deste ano), onde se incluem depósitos, instrumentos financeiros, seguros de capitalização, planos poupança reforma ou certificados de aforro ou Tesouro.


31.3.23

Bancos pagam 0,65% nos novos depósitos e cobram 3,56% nos empréstimos à habitação

Rosa Soares, in Público online

Empréstimos associados às taxas Euribor encurtam diferença face aos de taxa fixa, que se manteve em Fevereiro em 4,20%.

A taxa de juro média dos novos depósitos a prazo dos particulares aumentou em Fevereiro para 0,65%, apenas mais nove pontos base face aos 0,56% de Janeiro, revelou esta sexta-feira o Banco de Portugal (BdP). Já a taxa média dos novos empréstimos à habitação a taxa variável (Euribor) subiu para 3,56% e a fixa manteve-se nos 4,20%.

“A remuneração dos novos depósitos com prazo acordado acima de dois anos subiu 39 pontos base, para 0,54%, o valor mais alto em seis anos”, adianta a regulador. Acrescentando que nos novos depósitos com prazo até um ano foram remunerados, em média, a 0,56% (0,43% em Janeiro), e "os novos depósitos de um a dois anos a 1,15% (1,13% em Janeiro)".

O montante de novos depósitos a prazo de particulares totalizou 5900 milhões de euros, ligeiramente acima dos 5727 milhões registados em Janeiro. Face ao mesmo mês do ano passado, o aumento é significativo, uma vez que tinham ascendido a 3596 milhões de euros.

Na frente do crédito à habitação, a grandeza da taxa paga pelas famílias é bem maior. A taxa de juro média dos novos empréstimos a taxa variável (associados às Euribor) aumentou para 3,56% em Fevereiro, “reduzindo-se a diferença em relação à taxa fixa, que se manteve nos 4,20%”, destaca o supervisor.

Montante do crédito à habitação desce

Apesar da conjuntura económica e da forte subida das taxas Euribor, o montante de crédito concedido às famílias subiu ligeiramente, face a Janeiro, mas apenas no crédito ao consumo. No total, os bancos emprestaram 1929 milhões de euros em novos empréstimos, mais oito milhões do que no primeiro mês Janeiro.

No crédito à habitação, o montante caiu 35 milhões de euros, ascendendo a 1386 milhões de euros.

A taxa de juro média dos contratos à habitação a taxa variável, ou associados às Euribor, fixou-se em 3,56% (3,37% em Janeiro), e a taxa fixa manteve-se em 4,20%.

No segmento do crédito ao consumo e para outros fins os montantes atingiram 428 milhões de euros e 154 milhões de euros, respectivamente, mais 25 e 19 milhões de euros pela mesma ordem.

A taxa de juro média dos novos empréstimos ao consumo foi de 8,48%, ligeiramente abaixo dos 8,45% em Janeiro), e o mesmo se passou nos empréstimos para outros fins, que se fixou em 4,97% (4,98% em Janeiro).

12.9.22

Prestação da casa pode subir mais de 100 euros para quem tem empréstimos elevados

Rosa Soares, in Público on-line

Taxas associadas ao crédito à habitação subiram de forma acelerada em Agosto e mantêm o mesmo ritmo em Setembro. Aumento das prestações pode obrigar famílias a recorrer à reestruturação de créditos.

Há motivos para as famílias com empréstimos à habitação, especialmente os mais recentes e de montantes mais elevados, começarem a refazer os seus orçamentos, dado o forte impacto da subida das taxas Euribor nas prestações futuras. Num contexto de subida de preços de boa parte dos produtos e serviços, muitos particulares poderão ter dificuldades para acomodar aumentos de várias dezenas ou mesmo acima da centena de euros, uma alteração radical face ao que pagavam quando as taxas ainda estavam negativas. Tendo em conta que não se vislumbra uma medida de apoio às famílias endividadas, como aconteceu com as moratórias durante a pandemia de covid-19, para quem tem algumas poupanças pode ter chegado a hora de as usar ou, nos casos em que não exista essa “almofada”, pode ser necessário recorrer à reestruturação de créditos.

As taxas Euribor têm vindo a subir de forma acentuada nos últimos meses, em todos os prazos, mas de forma mais acentuada a 12 meses, antecipando a subida de juros por parte do Banco Central Europeu (BCE). Mas a tendência será de novos aumentos, tendo em conta a perspectiva de novas subidas das taxas directoras do banco central – mais duas a quatro nos próximos meses –, que poderão ser novamente fortes (foi de 0,75 pontos percentuais na semana passada), para tentar frenar a inflação na zona euro.

Os valores actuais não são simpáticos. Na última sessão da semana, a Euribor a 12 meses ficou acima dos 2%, a de seis está muito perto de 1,5% e a de três meses de 1%. O prazo mais curto pode atingir 2% já em Dezembro, de acordo com o valor dos contratos de futuros para o último mês do ano, e as restantes taxas acima desse patamar, a menos que se verifiquem alterações substanciais na evolução dos preços ou outras, que possam conduzir a uma redução no ritmo de subidas das taxas do BCE.

Para já, a subida das Euribor têm um impacto directo nos novos empréstimos a contratar por famílias e empresas e vão chegando gradualmente aos contratos existentes, ocorrendo a cada três, seis ou doze meses, conforme o prazo utilizado. O valor utilizado é sempre a média mensal do mês anterior ao da contratação ou da revisão dos créditos.


Aumentar

A média da Euribor a 12 meses, o prazo mais utilizado nos empréstimos contratados na última década (quando as taxas começaram a cair e a entrar em terreno negativo), e que está presente em cerca de 30% dos contratos existentes em Portugal, fixou-se em Agosto em 1,249%, um salto face aos 0,992% verificados em Julho, e bem longe do valor negativo (-0,498%) registado no mesmo mês do ano passado.

Uma simulação simples demonstra que um empréstimo de 150 mil euros, a 30 anos, associado à Euribor a 12 meses, acrescida de um spread ou margem comercial do banco de 1%, a rever no corrente mês de Setembro, verá a prestação mensal subir 124,37 euros, passando de 448,9 euros (com a taxa de Agosto de 2021) para 573,20 euros. O acréscimo de custo é de 1492,44 euros num ano.

A mesma simulação para um empréstimo de 200 mil euros, um montante que pode corresponder a muitos empréstimos recentes – dada a subida muito elevada dos preços das casas em Portugal nos últimos anos –, eleva o acréscimo da prestação em mais 165,84 euros mensais (passando de 598,55 euros para 764,39 euros), quase mais dois mil euros num ano. Com a média mensal da Euribor em 2%, patamar que poderá atingir já este mês, o aumento da prestação num empréstimo de 200 mil euros seria de 244,66 euros, para 842,21 euros.
Taxa a seis meses

A taxa a seis meses, presente em 40% dos contratos existentes, regista médias mensais positivas há apenas três meses, mas o valor de Agosto já foi de 0,837%, quase o dobro do valor de Julho (0,466%), e muito longe dos -0,476% do passado mês de Fevereiro (quando ocorreu a última revisão).

O impacto do aumento numa revisão a ocorrer no corrente mês é igualmente “doloroso”, aproximando-se dos 100 euros. Mantendo as condições de base da simulação anterior, nomeadamente o montante de 150 mil euros e o spread de 1%, a aplicação da última média mensal do prazo a seis meses corresponderá 542,28 euros, mais 91,91 euros do que a prestação que pagava desde Maio (450,37 euros).

O acréscimo a pagar nos próximos seis meses (quando ocorrerá nova revisão) ascenderá a 551,46 euros, altura em que sofrerá nova actualização da taxa.

Para um montante de crédito de 200 mil euros, a prestação sobe 171 euros, para 723,04.
Taxa a três meses

A Euribor a três meses foi a última a entrar em terreno positivo, o que aconteceu apenas em Julho, e a subida foi mais lenta, situando-se a média de Agosto em 0,395%. Contudo, as últimas subidas diárias já a colocam em quase 1%.

Com a média de Agosto, o mesmo empréstimo de 150 mil euros terá um aumento de 53,83 euros, passando de 456,33 euros (em resultado da revisão ocorrida em Maio) para 510,16 euros.

Por se tratar de uma taxa de prazo mais curto, o aumento acumulado corresponderá a 161,49 euros nos próximos três meses.


Mas, em Dezembro, ocorrerá nova revisão, e com uma taxa de 2%, como antecipa o mercado, o mesmo empréstimo poderá sofrer nessa altura um aumento da prestação para 632,41 euros; ou para 842,21 euros, no caso de um empréstimo de 200 mil euros.

Estas simulações, contudo, não incluem valores dos seguros exigidos (vida e multirriscos), nem outras comissões, que agravam o valor a pagar pelos particulares.
Incerteza em medidas de apoio

A escalada dos juros afecta particularmente as famílias portuguesas, uma vez que cerca de 90% dos empréstimos, num total de 1,4 milhões, estão associados a taxas variáveis (Euribor), e apenas uma pequena fatia a taxas fixas. É uma realidade distinta da vizinha Espanha, onde a maioria dos empréstimos tem sido feito a taxas fixas, ou ainda de outros países, onde o endividamento dos particulares para comprar casa é menor.

A especificidade portuguesa torna mais difícil a criação de medidas globais, como aconteceu com as moratórias de crédito no período da pandemia de covid-19, criadas a nível europeu. Isso mesmo admitiu recentemente o ministro das Infra-estruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, ao considerar que uma eventual solução teria de ser tomada a nível nacional.

Recorde-se que as moratórias de crédito à habitação permitiram suspender o pagamento de capital e juros ao longo de mais de um ano, num enquadramento legal favorável para particulares, empresas e bancos, uma vez que essa possibilidade não foi classificada como crédito em incumprimento.

Assim, e como não é certa a possibilidade de criação de uma medida de apoio a famílias endividadas com crédito à habitação, por parte do Governo português - como, por exemplo, no mercado do arrendamento com o “travão” à actualização das rendas já anunciado para 2023 -, ou o seu impacto poder ser reduzido para empréstimos mais elevados, poderá ser necessário recorrer soluções alternativas.

Para quem tem alguma poupança, pode fazer sentido a amortização de parte do crédito, reduzindo o peso dos juros.

Para quem não tem, e não consegue absorver os aumentos, deve dirigir-se ao seu banco e equacionar uma reestruturação de crédito (aumento do prazo do contrato, criação de períodos de carência ou diferimento de capital), uma solução clássica que agrava o custo total dos empréstimos, mas que evita a entrada em incumprimento, o que acarreta consequências bem mais graves no futuro.

9.9.22

Taxas Euribor aceleram após subida de juros do BCE e a 12 meses supera 2%

Rosa Soares, in Público online

Prazos a três e a seis meses também registaram uma forte subida, agravando os custos dos empréstimos de particulares e de empresas.

A decisão de subida mais expressiva dos juros por parte do Banco Central Europeu (BCE), em 0,75 pontos percentuais, e a declaração de que está disposto a fazer mais dois a quatro aumentos nos próximos meses, provocou na sessão desta sexta-feira uma forte aceleração das taxas Euribor, que são utilizadas no crédito à habitação e às empresas. A Euribor superou a barreira dos 2%, após uma subida de 0,112 pontos, para 2,015%, atingindo num novo máximo desde Dezembro de 2011.

A taxa a seis meses também subiu de forma expressiva. Este prazo, o mais utilizado no conjunto dos empréstimos das famílias existentes em Portugal, atingiu quase 1,5%, ao subir mais 0,088 pontos, para 1,442%. Uma subida vertiginosa em pouco mais de três meses, desde 6 de Junho, quando passou de valor negativo para positivo.

Por último, a Euribor a três meses, está a subir há 18 sessões consecutivas, encostando praticamente a 1%. A subida desta sexta-feira foi de 0,098 pontos, para 0,934%.

A decisão do BCE de aumentar as taxas directoras em 0,75 pontos percentuais, acima do inicialmente previsto, que ficava em 0,5 pontos, já tinha sido, em grande parte, antecipada pelo mercado, mas a dimensão da subida, ontem anunciada, e a disposição de fazer novos aumentos para travar a inflação explicam a nova aceleração das taxas.

Para além da subida do custo do dinheiro, há ainda a perspectiva de uma recessão das economias europeias, por causa da crise energética e subida da inflação. Este contexto leva o conjunto de bancos que integram a pool onde são determinadas as taxas Euribor (através dos empréstimos que estão dispostos a realizar entre si) a serem mais cautelosos, cobrando mais juros.

A subida das taxas Euribor afecta os novos empréstimos às famílias e às empresas, mas também todos os já existentes com estas taxas, que são revistos periodicamente.

Depois de quase sete anos em valor negativo, a Euribor a seis meses entrou em terreno positivo a 6 de junho, e a Euribor a três está positiva desde 14 de Julho. A primeira a sair de valor negativo foi o prazo a 12 meses, a 12 de Abril, altura que que o BCE já tinha dada sinais de subida das suas taxas, tendo em conta a subida da inflação, que a guerra na Ucrânia, na sequência da invasão russa, agravou.


6.9.22

Queda do euro pressiona BCE a subir ainda mais os juros

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Os receios de uma travagem da economia europeia no Inverno, acentuados com o corte do fornecimento russo de gás, voltam a penalizar o euro nos mercados internacionais. BCE poderá acelerar subida dos juros

A três dias do início da reunião onde os responsáveis máximos do Banco Central Europeu (BCE) vão decidir que rumo dar à sua política monetária, o euro voltou a dar motivos para que as taxas de juro sejam elevadas de forma brusca numa tentativa de contrariar a inflação.

Esta segunda-feira de manhã, a moeda única europeia acentuou a tendência de forte depreciação face à divisa norte-americana que já regista há vários meses e chegou mesmo a dado momento a valer menos de 0,99 dólares, algo que já não acontecia desde 2002.

O euro tem vindo, nos últimos meses, a registar uma depreciação acentuada face ao dólar, baixando barreiras que já não eram atingidas há cerca de duas décadas.

Em meados do passado mês de Julho atingiu, pela primeira vez em quase 20 anos, a paridade face à divisa norte-americana, muito longe dos 1,6 dólares que chegou a valer em 2008 e mesmo dos 1,2 dólares que eram o seu valor há pouco mais de 12 meses.

Esta persistente e significativa quebra do euro face ao dólar representa uma pressão acrescida para que o BCE aja rapidamente e de forma ainda mais determinada para controlar a inflação.

De facto, um euro a valer menos face ao dólar significa que as importações europeias (por exemplo de bens transaccionados nos mercados internacionais em dólares como o petróleo e os cereais) ficam automaticamente mais caras. Isto representa uma inflação importada que contribui para a escalada dos preços a que se assiste na economia da zona euro, com a inflação a situar-se acima dos 9% em Agosto.

É por isso que restam poucas dúvidas que, depois de ter realizado a primeira subida das suas taxas de juro de referência desde 2011 em Julho, elevando-as em 0,5 pontos percentuais, a autoridade monetária europeia venha a realizar, na reunião do conselho de governadores agendada para a próxima quinta-feira, um movimento semelhante ou talvez até mais agressivo.

Inicialmente a expectativa, criada com as mensagens transmitidas pela presidente do BCE, Christine Lagarde, no início de Agosto, era a de que viesse a ser decidida uma nova subida de 0,5 pontos nas taxas de juro na reunião de Setembro.

Mas, agora, com o contributo decisivo da forte depreciação do euro face ao dólar, a maior parte dos investidores já está a assumir que a subida de taxas juro a realizar pelo BCE na quinta-feira pode ser de 0,75 pontos percentuais, o ritmo que tem vindo ser assumido pela Reserva Federal na sua própria viragem de rumo na política monetária.

Por seu lado, por trás da depreciação do euro nos mercados, estão as expectativas sombrias que se acumulam relativamente à evolução da economia europeia e que levam os investidores a virarem-se para o seu habitual refúgio em tempos de crise no outro lado do Oceano Atlântico.

A divisa norte-americana está a beneficiar, como é hábito, do seu estatuto de activo financeiro seguro num tempo de grande incerteza e instabilidade na economia mundial, vendo o seu valor a subir face a praticamente todas as outras divisas mundiais. E do lado do euro, a viragem de política monetária mais lenta do BCE (subindo menos as taxas de juro do que a Reserva Federal norte-americana),com continuados receios de uma travagem ou mesmo recuo da economia da zona euro já a partir do terceiro trimestre do ano, estão a contribuir para penalizar o desempenho da moeda única nos mercados.

No sábado, o anúncio russo de que a interrupção dos fluxos do gasoduto Nord Stream por alegados problemas técnicos teria um prazo indeterminado acentuou os receios que vários países da zona euro, como a Alemanha, não venham a ser capazes de reforçar as suas reservas de gás o suficiente para atravessar o próximo Inverno com escassez energética.

Isto cria um dilema a Christine Lagarde e aos seus colegas no BCE: ser mais moderado na subida de taxas de juro para não afundar ainda mais a economia ou aumentar radicalmente o custo do dinheiro, apostando tudo em limitar a queda do euro e a escalada da inflação, mesmo que isso custe à zona euro uma entrada em recessão.


1.9.22

Juros dos novos créditos à habitação atingiram em Julho a maior subida em 19 anos

in Público online

Taxa de juro média nos novos empréstimos à habitação subiu em Julho para o valor mais desde 2016, de acordo com os dados hoje divulgados pelo Banco de Portugal.

A taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação aumentou em Julho para 1,88%, face a 1,47% em Junho, a maior subida mensal desde 2003 e o valor mais alto desde Agosto de 2016, divulgou hoje o Banco de Portugal.

“A taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação subiu para 1,88% (1,47% em Junho), registando a maior subida mensal da taxa de juro média destes empréstimos desde o início da série estatística em 2003”, avança o Banco de Portugal (BdP) na nota mensal de informação estatística relativa às taxas de juro e montantes de novos empréstimos e depósitos.

Segundo refere, “esta evolução está em linha com a subida das taxas médias da Euribor em Junho, pois existe, tipicamente, um desfasamento de um mês entre as taxas de juro Euribor e o seu reflexo nas taxas de juro aplicadas”.

Em Julho, mais de metade do montante dos novos empréstimos à habitação utilizou como indexante a Euribor a 12 meses, cujo valor médio subiu de 0,29% em Maio, para 0,85% em Junho.

Já nos novos empréstimos ao consumo, a taxa de juro média aumentou para 7,88% (7,79% em Junho).

Segundo os dados hoje divulgados pelo BdP, os bancos concederam em Julho um total de 1963 milhões de euros de novos empréstimos aos particulares, menos 138 milhões de euros do que em Junho.

Deste valor global, 1345 milhões de euros corresponderam a crédito à habitação, 454 milhões de euros a crédito ao consumo e 164 milhões de euros a crédito para outros fins. Os valores registados em Junho tinham sido, respectivamente, 1402 milhões, 484 milhões e 215 milhões de euros.
Taxa média de 0,09% nos depósitos

No que se refere ao montante de novos depósitos de particulares, aumentou em Julho para 3854 milhões de euros (3707 milhões de euros em Junho), tendo a taxa de juro média subido, pelo segundo mês consecutivo, para 0,09%.

“Do montante de novos depósitos constituídos em Julho, 88% foi aplicado em depósitos a prazo até um ano, cuja taxa de juro média foi igualmente de 0,09%”, refere o banco central, precisando que “a taxa de juro média destes depósitos sobe pelo segundo mês consecutivo, após nove meses em que se manteve em 0,04%”.

Já os novos depósitos de empresas totalizaram 1143 milhões de euros, dos quais 1088 foram aplicados em depósitos a prazo até um ano, remunerados a uma taxa de juro média de 0,13%.

Relativamente aos novos empréstimos concedidos pelos bancos às empresas, somaram 1470 milhões de euros em Julho, menos 597 milhões de euros do que no mês anterior.

De acordo com o BdP, “uma análise por escalão de montante mostra que foram emprestados 920 milhões de euros nos empréstimos até um milhão de euros (1239 milhões de euros em Junho) e 550 milhões de euros nos empréstimos acima de um milhão de euros (828 milhões de euros em Junho)”.

A taxa de juro média dos empréstimos às empresas voltou a aumentar e fixou-se em 2,63% (2,16% em Junho), tendo a taxa de juro média subido tanto nos empréstimos até um milhão de euros (de 2,27% para 2,76%), como nos empréstimos acima de um milhão de euros (de 1,99% para 2,40%).

O BdP actualiza em 4 de Outubro as estatísticas de taxas de juro e de montantes de novos empréstimos e depósitos bancários de empresas e particulares.

14.3.13

Governo trava banca e fixa taxa máxima no crédito ao consumo

Lucília Tiago, in Jornal de Notícias

Governo aprovou, esta quarta-feira, em Conselho de Ministros, um pacote legislativo que limita as taxas de juros nos cartões de crédito e coloca travões às comissões e juros nas prestações em atraso. Estas medidas entram em vigor a 1 de julho.

O Governo aprovou um pacote de medidas que alteram a fórmula de cálculo da taxa de juro máxima para os créditos ao consumo e ao mesmo tempo criam um teto limite para o juro que pode ser cobrada. No caso dos cartões de crédito, contas-ordenado e ultrapassagens de crédito, este teto será de 27,5% e não poderá ser excedida.

Os bancos e sociedades de financiamento que o fizerem, ficam sujeitos a sanções. Os juros de mora também vão ter novas regras. Estas medidas, aprovadas em Conselho de Ministros, entram em vigor a 1 de julho.

Conheça algumas das mudanças:

Taxa máxima

Atualmente os vários segmentos de crédito ao consumo já estão limitados pela denominada "taxa de usura". Esta é todos os trimestres apurada pelo Banco de Portugal com base na média das taxas praticadas no mercado acrescidas de um terço. Esta fórmula, que tem aplicação prática desde janeiro de 2010, veio limitar as taxas anuais de encargos efetivos globais (TAEG), mas varia de acordo com o mercado. No pacote legislativo hoje aprovado pelo Governo, a fórmula para apurar a taxa de usura é alterada e terá de obedecer a um limite máximo que nos cartões de crédito e "decsobertos" na conta à ortdem será de 27,5%. Já nos créditos pessoas (para lar e outras finalidades) a TAEG não poderá exceder os 19,5%.

Contratos abrangidos

Os créditos ao consumo estão divididos em várias tipologias e todos terão a fórmula de cálculo alterada, bem como tectos máximos, revistos trimestralmente pelo Banco de Portugal. Estas regras abrangem os contratos de valor entre os 200 euros e os 75 mil euros, mas nas ultrapassagens de crédito na conta à ordem, por exemplo, abrangem valores mais reduzidos.

Obrigações dos bancos

Além de não poderem ultrapassar aquele limite de taxa, os bancos e as sociedades financeiras serão ainda obrigados a enviar periodicamente aos seus clientes um extrato com detalhes do crédito ao consumo, à semelhança do que já fazem para o crédito à habitação.

Entrada em vigor

Esta medidas foram hoje aprovadas, em vésperas do Dia Mundial do Consumidor - que se assinala a 15 de março - e entrarão em vigor a 1 de julho próximo.

Juros de mora e comissões

Este pacote legislativo inclui também um novo conjunto de regras para os juros de mora e comissões associadas que atualmente são cobradas quando um cliente entra em incumprimento - ou seja, quando se atrasa no pagamento de prestação.

Limites

Em caso de atraso no pagamento, os bancos passam a poder cobrar apenas uma única comissão por cada prestação vencida e esta não pode ultrapassar o equivalente a 4% do valor da mensalidade, estando ainda balizada por um mínimo de 12 euros e um máximo de 150 euros. Em relação aos juros de mora, a taxa anual foi também revista, passando a estar fixada nos 3% para todos os bancos.

20.6.12

G20 com medo de uma recaída económica global

Jorge Nascimento Rodrigues, in Expresso

A cimeira dos 20 países desenvolvidos e emergentes mais importantes do mundo terminou em Los Cabos, no México, com um "plano de ação" que teve na mira a crise das dívidas soberanas na zona euro e a vulnerabilidade da economia global.

O G20 - grupo dos 20 países desenvolvidos e emergentes - puxou dos galões e disse, em comunicado final, que é "um novo paradigma de cooperação multilateral". A assunção desta missão geopolítica - acima do papel do G7 e do clube dos BRICS - surge na hora em que a crise das dívidas soberanas na zona euro, os impactos da desalavancagem no sistema financeiro e o risco de uma recaída económica global - como aconteceu em 1937, na anterior Grande Depressão - aparecem à cabeça das preocupações do "Plano de Ação para o Crescimento e o Emprego de los Cabos", aprovado na cimeira que decorreu esta segunda e terça feira no México.

O tema da crise das dívidas soberanas na zona euro ocupou espaço predominante, a ponto da "fadiga" com esta crise por parte dos membros do G20 fora da zona euro ser evidente. Por seu lado, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, reagiu enervado aos jornalistas falando do início da crise financeira em 2007 com as práticas "não ortodoxas" da finança norte-americana, mas esqueceu a parte seguinte desta longa "cauda" da crise com a emergência da crise das dívidas soberanas na Europa.

Terminada a cimeira no México, a atenção centra-se, agora, na reunião do Eurogrupo de amanhã (21 de junho) no Luxemburgo, preparatória da cimeira da União Europeia da próxima semana (28 de junho), bem como nos resultados da reunião de dois dias da Reserva Federal norte-americana, que termina hoje.

Pressão construtiva sobre a zona euro

"A economia global permanece vulnerável", concluíram os membros do G20, e um dos pontos críticos é a crise da dívida soberana que se arrasta na zona euro desde final de 2009. O próprio David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, comentou que este G20 em Los Cabos serviu para exercer "pressão construtiva" sobre a zona euro. Essa "pressão" exerceu-se em dois pontos: medidas adicionais ao crescimento e nova arquitetura financeira mais integrada.

Como já havíamos noticiado, a Alemanha cedeu no ponto do crescimento e, tudo o indica, na questão de "quebrar a cadeia de realimentação (feedback loop) entre as [dívidas] soberanas e os bancos", como se afirma no comunicado final.

A viragem para a tónica no crescimento veio enroupada com um conselho mais global muito explícito no ponto 5 das medidas do Plano de Ação contra os riscos imediatos: "Se as condições económicas se deteriorarem significativamente, Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos e Rússia estão disponíveis para coordenar e implementar medidas adicionais de apoio à procura, tomando em consideração as circunstâncias e compromissos nacionais". Trata-se, naturalmente, de uma formulação de compromisso, que deixa uma margem de interpretação sobre o grau de deterioração.

No entanto, o comunicado e o Plano de Ação são explícitos que a consolidação orçamental nos países desenvolvidos deve "ser adequada ao apoio da retoma" no curto prazo. Uma menção especial é feita aos Estados Unidos para que "uma contração orçamental em 2013 seja evitada", prosseguindo uma linha de calibração entre consolidação orçamental de médio prazo e crescimento. Os países avançados e emergentes, onde houver margem orçamental, deverão deixar funcionar "os estabilizadores automáticos orçamentais".

No caso da zona euro, o comunicado final fala da "determinação" dos seus membros presentes na cimeira em "avançaram expeditamente com medidas de apoio ao crescimento, incluindo a conclusão do Mercado Único Comum, um melhor aproveitamento do Banco Europeu de Investimentos, obrigações para projetos piloto, fundos de coesão e estruturais com vista a investimentos mais dirigidos, a par do compromisso de implementar a consolidação orçamental".

Por outro lado, a preocupação com evitar que as crises bancárias e financeiras de desalavancagem na zona euro penalizem as dívidas soberanas ainda mais, o G20 afirma em comunicado: "Apoiamos a intenção [da zona euro] em dar passos concretos em direção a uma arquitetura financeira mais integrada, incluindo supervisão bancária, recapitalização e resolução e garantia de depósitos". Uma abordagem que tem sido defendida por Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, e que é apoiada por diversos membros importantes da zona euro, como França e Itália, e especialmente tendo em vista o "convidado permanente" do G20 - Espanha (que não é membro do grupo, mas que ganhou esse estatuto de "convidado") - que tem estado sobre pressão dos mercados da dívida.

Segunda linha de defesa com 456 mil milhões

Como meio adicional, a cimeira ressaltou o trabalho de recolha de reforço de fundos do Fundo Monetário Internacional levado a cabo por Christine Lagarde com vista a criar, como a diretora-geral desse organismo disse, "uma segunda linha de defesa" para apagar fogos que abalem a economia mundial.

Lagarde conseguiu atingir uma cifra de cerca de 456 mil milhões de dólares (cerca de 362 mil milhões de euros) de reforço, com o particular envolvimento do Japão, com 60 mil milhões de dólares, da Alemanha com 54,7 mil milhões, da China com 43 mil milhões, da França com 41,4 mil milhões e da Itália com 31 mil milhões.

Muitos analistas referem que essa "segunda linha de defesa" tem em vista a crise da zona euro, caso os mecanismos europeus se atrasem (o próprio Mecanismo Europeu de Estabilização que deverá entrar em vigor a 1 de julho ainda não foi ratificado pela Alemanha e pela Itália) ou se revelem insuficientes.

Desequilíbrios globais a corrigir

A cimeira voltou a levantar a bandeira da resistência "ao protecionismo em todas as formas" e a acentuar a importância de resolver os desequilíbrios globais e o risco sistémico que continua a vir do sistema financeiro.

Por desequilíbrios globais, o G20 refere-se a um aspeto sublinhado pelo economista inglês John Maynard Keynes há muitas décadas atrás, de que o ajustamento tem de ser feito em simultâneo por países excedentários e países deficitários.

O comunicado da cimeira aponta, por isso, para que os países deficitários "rodem" a procura do sector público para o privado (ou seja do sobreendividamento soberano e da orientação dos bancos para suportar a dívida soberana local em vez da economia real) e que os países excedentários "rodem" da exportação para o consumo interno. Os dois alvos desta recomendação, no que toca aos excedentários, são a China, com um impacto à escala global, e a Alemanha, com um papel decisivo na zona euro. O comunicado faz inclusive menção aos "recentes desenvolvimentos nos rendimentos reais das famílias na Alemanha".

Outra preocupação global, menos mediatizada, centrou-se na questão do sistema financeiro e do seu impacto sistémico, de que a crise iniciada em 2007 é um exemplo recente. O comunicado aponta "áreas de vigilância" em direção às instituições financeiras globais "sistemicamente" importantes (designadas por um acrónimo, em inglês, a fixar, G-SIFIS), o sistema bancário sombra e outras entidades financeiras não bancárias "sistemicamente" importantes, os derivados financeiros over-the-counter (OTC) e a excessiva volatilidade dos preços nos mercados físicos e financeiros das commodities. O comunicado frisa inclusive que devem ser adotadas medidas que impeçam que qualquer entidade financeira seja "demasiado grande para falir" - TBTF, no acrónimo inglês para too big to fail.