22.5.23
Amortizações, Certificados de Aforro e fundos levam a fuga de depósitos
Os depósitos dos cinco maiores bancos a operar em Portugal totalizavam, em conjunto, 248 mil milhões de euros no final de Março, uma queda de 4000 milhões face a igual período do ano passado.
Os maiores bancos a operar em Portugal perderam, no arranque deste ano, mais de 4000 milhões de euros em depósitos de clientes. A explicar este fenómeno estão, sobretudo, a procura por produtos com maior rentabilidade, como Certificados de Aforro ou fundos de investimento, e o aumento significativo das amortizações antecipadas de crédito à habitação, numa altura em que as famílias procuram fugir ao impacto da subida das taxas de juro. A banca garante, contudo, que mantém níveis “sólidos” de liquidez.
No primeiro trimestre de 2023, os depósitos da Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, BPI, Santander e Novo Banco totalizavam, em conjunto, cerca de 248 mil milhões de euros (considerando apenas os depósitos de clientes e excluindo outras parcelas que compõem os recursos totais de clientes, como os fundos geridos ou comercializados pelos bancos ou os seguros). É uma queda superior a 4000 milhões de euros relativamente ao montante que se registava em igual período do ano passado, quando os depósitos ultrapassavam os 252 mil milhões.
Entre estes, a única excepção foi o BCP, que registou uma subida dos depósitos de clientes de cerca de 4% no primeiro trimestre, que o banco diz reflectir “um incremento da poupança de particulares”. De resto, as maiores quedas foram registadas pela Caixa, BPI e Santander, todos com uma redução dos depósitos superior a 4% no primeiro trimestre, enquanto o Novo Banco ficou praticamente estagnado.
Vários factores explicam este movimento. Por um lado, e como admitiram os próprios presidentes dos bancos que prestaram as contas do primeiro trimestre, há uma fuga de uma parte dos depósitos de particulares para produtos mais rentáveis, sobretudo para Certificados de Aforro. Isso mesmo é evidente olhando para os dados das subscrições deste produto de poupança do Estado: só no conjunto dos três primeiros meses do ano, esta aplicação já atraiu 9353 milhões de euros.
Isto, numa altura em que os Certificados de Aforro oferecem uma taxa de remuneração bruta de 3,5%, valor que fica muito acima daquilo que é oferecido pelos bancos. De acordo com os dados mais recentes do Banco de Portugal (BdP), a taxa de juro média de novos depósitos a prazo para particulares era, no final de Março, de 0,9% (um valor que, apesar de ficar ainda muito aquém daquilo que se pode encontrar noutros produtos, já representa uma forte evolução face ao ano passado, quando a taxa média dos novos depósitos a prazo era de 0,04%).
Ao mesmo tempo, há um aumento da procura por fundos de investimento. No final de Março deste ano, ainda de acordo com os dados do BdP, o valor das unidades de participação emitidas pelos fundos de investimento era de 35,9 mil milhões de euros, valor que representa um aumento de cerca de mil milhões em relação ao que era registado no final do ano passado.
A isto, há ainda que somar o dinheiro que saiu dos depósitos directamente para amortizar crédito antecipadamente, numa altura em que a subida das taxas de juro está a encarecer a prestação mensal dos empréstimos. De acordo com o regulador, as amortizações antecipadas de crédito à habitação totalizaram 2622 milhões de euros no primeiro trimestre de 2023, valor que representa um aumento de cerca de 70% em relação às amortizações no valor de 1539 milhões de euros que tinham sido feitas em igual período do ano passado.
Os principais bancos a operar em Portugal garantem, ainda assim, que mantêm níveis de liquidez sólidos, “muito acima” dos requisitos regulatórios. O mesmo é, aliás, confirmado pelo próprio regulador. “Os indicadores de liquidez que temos dos bancos não nos colocam nenhuma dificuldade. Os indicadores de liquidez dos bancos são robustos”, disse o governador do BdP, Mário Centeno, durante a apresentação do mais recente Relatório de Estabilidade Financeira, no passado dia 10 de Maio.
Ainda assim, e apesar de defenderem que a remuneração oferecida pelos bancos tem vindo a aumentar, os banqueiros reconhecem que será necessário adaptar a oferta de produtos ao novo contexto de taxas de juro. Isso mesmo referiu, por exemplo, Paulo Macedo, presidente executivo da Caixa. “Cabe à banca apresentar produtos mais atractivos, como sejam depósitos ou produtos estruturados em que se ofereça capital quase garantido, para taxas já perto de 3%. Aí, muitas das pessoas deixarão de canalizar os seus montantes para Certificados de Aforro”, referiu, durante a apresentação de resultados trimestrais do banco público.
11.5.23
Um em cada três empréstimos à habitação é feito à taxa mista ou fixa
Forte subida das Euribor dificulta novos empréstimos, apesar da opção pelas taxas mistas e fixas ser mais cara.
Com a Euribor a subir, faça as contas à subida da prestação da casa
O novo crédito à habitação está a registar uma alteração significativa face ao que se verificava praticamente até ao final de 2022, mas esta mudança não está a acontecer pelas melhores razões. Apesar de as taxas Euribor continuarem presentes em 90% do stock dos empréstimos para compra de casa, a opção por taxas fixas e mistas tem registado um crescimento muito expressivo, representando já 35% dos montantes concedidos nos primeiros três meses do corrente ano.
Os dados constam do Relatório de Estabilidade Financeira, de Maio, divulgado esta quarta-feira pelo Banco de Portugal (BdP), que dá ainda conta que a concessão de crédito à habitação com taxa de juro fixa ou mista difere entre as instituições de crédito. “Em alguns bancos, o peso dos novos empréstimos à habitação com taxa de juro fixa ou mista foi residual, enquanto para outros, foi superior a 70% das novas operações, sobretudo no caso da taxa mista e com prazo de fixação inicial de taxa superior a cinco anos”.
Mais do que uma estratégia para fugir à incerteza do comportamento das taxas Euribor, a mudança corresponde, em boa parte dos casos, à única forma de garantir acesso ao crédito pretendido. Esta segunda razão prende-se com as limitações impostas pelo supervisor na medida macroprudencial para o crédito, criada num período em que as taxas Euribor se encontravam em terreno negativo, e que agora impede a concessão de muitos empréstimos, ou limita consideravelmente o seu montante.
Está em causa a obrigatoriedade de os bancos, nos empréstimos associados à Euribor, calcularem a taxa de esforço – percentagem do rendimento líquido das famílias necessário para o pagamento da prestação do empréstimo – com a taxa actual (Euribor actual + spread) e com um acréscimo de mais três pontos percentuais (Euribor actual + spread + 3%), o que atira o valor para mais de 6%, com a taxa de esforço a ficar muito acima dos 35%, impedindo um grande número de operação.
No caso de taxas fixas ou mistas, apesar de estas apresentarem um valor superior às Euribor, não é necessário somar os três pontos percentuais e, nessa medida, é mais fácil obter a aprovação do montante necessário para a aquisição de habitação.
A percentagem de créditos a taxa fixa no conjunto dos contratos continua, ainda assim, muito reduzida. “No período de 2011 a 2022, Portugal apresentou uma percentagem de novos empréstimos à habitação concedidos com prazo de fixação da taxa de juro superior a 10 anos bastante inferior à média da área do euro. Em 2022, esta proporção cifrou-se em 9% em Portugal, face a 59% na área do euro, tendo aumentado nove pontos percentuais face ao valor muito residual observado em 2011”, refere o Relatório de Estabilidade.
De acordo com um inquérito realizado pelo BdP a uma amostra representativa de 10 instituições bancárias, correspondendo a 94% deste segmento de mercado, 60% delas contrataram crédito à habitação com taxa fixa e 70% concederam-no com taxa mista.
Apesar da quase totalidade das instituições da amostra deter crédito à habitação com taxa de juro fixa e mista, a sua relevância na carteira das instituições varia muito. “A quota máxima do stock de crédito à habitação com taxa de juro fixa era 11% em Dezembro de 2022 (média 2%), enquanto a proporção máxima de crédito à habitação com taxa de juro mista era 42% (média de 8%)”, com a maioria das instituições (60%) a prever que “a procura de crédito com taxa de juro fixa e mista aumentará em 2023, enquanto 20% consideram que irá diminuir”.
Risco da carteira aumentou
O BdP refere, por outro lado, que os indicadores de qualidade da carteira de crédito às famílias e empresas registaram uma evolução positiva no último ano, mas admite que “subsiste alguma incerteza quanto aos potenciais impactos associados à subida acentuada das taxas de juro e ao ainda elevado nível de inflação”. Por essa razão, o supervisor bancário recomenda aos bancos que “mantenham uma gestão proactiva desse risco e que continuem a desenvolver esforços para identificar os contratos de crédito que justifiquem uma re-adequação das condições à capacidade de servir a dívida dos mutuários, por via da sua renegociação e reestruturação”.
Para a instituição liderada por Mário Centeno, a subida das taxas de juro, a inflação e a menor capacidade de poupança das famílias torna “expectável um aumento das perdas por imparidade para crédito e dos empréstimos classificados em stage 2 [de risco médio] em 2023, revertendo a dinâmica observada nos últimos anos, interrompida no período de pandemia”.
O regulador refere que a transmissão do aumento das taxas de juro aos contratos de crédito é gradual, já chegaram aos contratos indexados a Euribor a três e a seis meses, e a uma boa parte dos contratos indexados a Euribor a 12 meses, um processo que deverá manter-se até Setembro de 2023, ainda que mais acentuado para os empréstimos indexados à Euribor a 12 meses e mais moderado nos indexantes com prazos inferiores.
O regulador destaca que “a proporção de empréstimos reestruturados [maioria deles em situação de incumprimento] no total de empréstimos manteve a tendência de descida iniciada em 2017”, como este rácio a diminuir 0,4 pontos percentuais face ao final de 2021, para 3,4%.
No entanto, o BdP não avança quantos empréstimos foram renegociados - para alteração de condições de pagamento, mas sem entrada em incumprimento – ao abrigo do Decreto-lei 80-A, de 25 de Outubro, criado para facilitar esse processo num contexto de taxas de juro elevadas, justificando que “ainda não há informação suficiente que permita um tratamento sistematizado dessa realidade”.
Sobre a medida governamental de bonificação de juros a partir de um determinado nível da taxa de juro, para agregados de menos rendimentos, o governador do BdP admitiu ter "dúvidas sobre a sua eficácia". Ainda sobre esta medida que estará disponível a partir do próximo dia 16, Mário Centeno adiantou não ter dados que permitam estimar com precisão o número de pessoas, contratos, mutuários, que possam vir a beneficiar dessa medida.
Já o novo crédito à habitação está a diminuir – e o stock também, com o contributo do aumento das amortizações antecipadas. Em particular, no primeiro trimestre de 2023, observou-se um aumento das amortizações antecipadas de empréstimos para habitação própria permanente de cerca de 40% face ao período homólogo de 2022, representando 0,9% do stock de crédito à habitação própria permanente, com um contributo das amortizações antecipadas totais ligeiramente superior às amortizações parciais. Este é um desenvolvimento considerado normal num contexto de aumento acentuado do custo dos empréstimos e que é potenciado pelo diferencial significativo face às taxas de remuneração de depósitos, as quais têm aumentado de forma menos expressiva. Com Rafaela Burd Relvas
10.5.23
Quase 10% dos portugueses que usam Internet já foi vítima de fraude financeira
O Banco de Portugal vai lançar uma estratégia de literacia financeira digital, a implementar até 2028, para incentivar o uso de serviços digitais com maior segurança e reduzir a exclusão financeira.
A maioria da população portuguesa que usa a Internet acredita que todos os prestadores de serviços financeiros que encontra online são regulados pelas autoridades nacionais, desconhece as implicações de falhar o reembolso de um crédito que tenha sido contraído por via digital e não altera com regularidade as palavras-chave de aplicações financeiras móveis que utiliza. Há, também, uma fatia significativa da população que ignora que é possível perder dinheiro investido em criptoactivos e outra que, embora utilize serviços financeiros digitais, nunca pesquisou qualquer informação sobre a sua segurança.
Estes são apenas alguns dos exemplos que ilustram o nível de literacia financeira digital em Portugal, país onde 10% da população que acede à Internet já foi vítima de algum tipo de fraude financeira praticada através de meios digitais, um fenómeno que afecta particularmente os desempregados, mas, também, as classes com maiores rendimentos. É com base neste diagnóstico que o Banco de Portugal (BdP) se prepara para lançar a nova Estratégia de Literacia Financeira Digital, um projecto financiado pela Comissão Europeia e que será implementado ao longo dos próximos cinco anos, através do qual o regulador espera "capacitar a população portuguesa a utilizar serviços financeiros digitais e contribuir para reduzir a exclusão financeira digital".
A estratégia, apresentada esta quarta-feira, parte de um diagnóstico que foi feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) à população portuguesa, cujas conclusões foram apresentadas num relatório publicado no mês passado. Realizado durante 2022, este estudo, uma iniciativa inédita por parte da OCDE (razão pela qual não é possível comparar o nível de literacia em Portugal com o de outros países), parte de um inquérito a uma amostra de 1516 pessoas, das quais 76% utilizavam a Internet. E as conclusões sobre esse grupo são reveladoras da falta de literacia financeira em Portugal.
A título de exemplo, conclui o estudo, só 21% da população que usa o serviço de homebanking ou as aplicações móveis do seu banco diz alterar com regularidade as palavras-chave destas ferramentas, enquanto um quarto desta população admite que não encerra a sessão depois de utilizar o serviço de homebanking. Ao mesmo tempo, quase um terço (31%) da população que utiliza serviços financeiros digitais reconhece que nunca procurou informação sobre como usar estas ferramentas de forma segura.
Há, também, um desconhecimento notório quanto aos serviços financeiros e entidades dessa natureza que podem ser encontrados online. Por exemplo: quando confrontados com a afirmação "não reembolsar um empréstimo contraído online afecta a capacidade do devedor de obter outro crédito online, mas não afecta a sua capacidade de obter crédito num balcão físico de uma instituição financeira", 63% dos inquiridos responderam, erradamente, que esta afirmação era verdadeira. Já sobre a afirmação "todos os prestadores de serviços financeiros que encontro na Internet são regulados pelas autoridades financeiras da minha jurisdição", 60% dos inquiridos respondeu, erradamente, que a afirmação era verdadeira.
Noutro campo, o estudo evidencia a falta de conhecimento da população portuguesa quanto ao funcionamento dos criptoactivos. Entre os inquiridos, mais de metade (57%) mostra desconhecimento quanto ao facto de que estes produtos não são regulados em Portugal, só 55% diz saber que é possível perder dinheiro quando se investe em criptoactivos e 61% desconhece que um criptoactivo não constitui uma moeda com curso legal (este universo inclui tanto aqueles que nunca investiram em criptoactivos como aqueles que já o fizeram, que representam apenas 5% da população que usa a Internet e que tem uma conta bancária). Mas, mesmo considerando apenas os investidores deste tipo de activos, a iliteracia atinge níveis significativos: mais de 20% destes investidores responderam erradamente às perguntas anteriores.
É neste contexto que uma parte reduzida da população, mas ainda assim com alguma relevância, admite já ter sido alvo de fraude financeira online. Segundo o estudo da OCDE, 8% da população que utiliza Internet já foi vítima de fraude financeira online. É o mesmo que dizer que uma em cada 12 pessoas em Portugal já foi alvo deste tipo de prática, que assume vários formatos, desde a utilização fraudulenta de cartões de crédito ou débito, esquemas de phishing, práticas de fraude durante compras online, ou venda de produtos financeiros que acabam por se revelar esquemas, entre outros.
Há dois grupos particularmente afectados por este fenómeno. Na análise pela situação profissional, são os desempregados (17%) que mais sofrem com este tipo de fraude. Já nos escalões de rendimentos, são aqueles que estão no topo da tabela, com rendimentos superiores a 3500 euros, que mais se tornam vítimas deste tipo de práticas (também 17%).
BdP lança nova estratégia
É munido deste diagnóstico que, agora, o BdP se prepara para lançar uma nova estratégia para aumentar a literacia financeira digital em Portugal, um projecto que será implementado até 2028 e que terá por base planos de acção anuais, elaborados pelo regulador, onde serão definidas as iniciativas concretas a implementar em cada ano.
A estratégia é apresentada, oficialmente, esta quarta-feira, mas o primeiro plano anual ainda não está concluído, nem tem, para já, uma data prevista. Ainda assim, já estão definidas várias das acções que o BdP pretende implementar a curto e médio prazo, com quatro grandes objectivos: garantir a todas as pessoas o acesso a formação financeira digital de qualidade; assegurar que a utilização de serviços financeiros digitais tem por base informação adequada; promover uma utilização segura de serviços financeiros digitais; e melhorar a eficácia das iniciativas de formação financeira digital.
Para isso, estão previstas acções como a promoção de formação financeira digital nas escolas, através de actividades curriculares e extracurriculares ou de eventos especiais para os estudantes; a cooperação com meios de comunicação social, com programas televisivos ou artigos de imprensa; ou o desenvolvimento de campanhas destinadas a disponibilizar "informações básicas e alertas" em locais públicos, entre várias outras.
6.4.23
Centeno atento mas não alarmado: "Para metade das famílias, 15,5% do seu rendimento líquido é suficiente" para pagar o crédito à habitação
Governador do Banco de Portugal afirma que, no final de 2022, para metade das famílias com crédito à habitação, o rendimento disponível era “suficiente para fazer face às prestações do crédito à habitação”. E que "só 12,3% das famílias têm taxas de esforço superiores a 36%”
O Governador do Banco de Portugal está atento à evolução dos juros no crédito à habitação, mas não está alarmado. Os salários médios estão a crescer 18% desde o início da pandemia, mais de metade dos proprietários apenas gastava, no final de 2022, 15,5% do rendimento no empréstimo para a casa e a grande maioria tem taxas de esforço comportáveis.
Mário Centeno, que responde aos deputados na Comissão de Orçamento e Finanças, é assertivo ao dizer que os números que levou são a “realidade”. Ou seja, no final de 2022 não se antevia problemas de incumprimento no pagamento das prestações das famílias no crédito à habitação.
Centeno sublinha que há casos problemáticos que terão de ser acompanhados pelos bancos, mas também diz que “apenas 12,3% das famílias tem taxas de esforço superiores a 36%”. "Para três quartos das famílias, a taxa de esforço é inferior a 25% do rendimento anual”, e “para famílias em que o empréstimo tem dois mutuários (71% do total), a taxa de esforço reduz-se para 14%”.
Para os deputados, os números de Centeno são otimistas, porque à luz dos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) existirá uma perda de poder compra em torno dos 4% em 2023.
EURIBOR A TRÊS E SEIS MESES COM PICO EM AGOSTO
O governador do Banco de Portugal alerta ainda para a factualidade dos números, referindo que deve ter-se em conta que as famílias que têm a Euribor indexada a 3 e 6 meses já viram os os juros subir nos seus créditos enquanto as que têm os seus créditos indexados á Euribor a 12 meses podem não ter tido ainda o aumento da prestação, pelo que qualquer levantamento global ainda não pode ser feito.
E dá estatísticas que apresentou no inicio da sua audição sobre a utilização das famílias nos respetivos indexantes da Euribor“: 40% utiliza Euribor a 6 meses, 30% a 3 meses e 30% a 12 meses”. “Todos os contratos a 3 e 6 meses já sofreram alguma atualização”, mas a "12 meses apenas metade já contou com uma atualização.
Mais, continuando otimista e confiante Centeno diz que “75% dos contratos que utilizam a Euribor a 3 meses têm um indexante inferior ao indexante utilizado no contrato inicial” e que para a “Euribor a 6 meses esta percentagem é de 69%”. Já para a “Euribor a 12 meses a percentagem com indexante inferior ao utilizado no contrato inicial é de 34%”.
O governador do Banco de Portugal esclarece ainda que os dados que tem indicam que “a Euribor a 3 e 6 meses atingirão o seu pico em agosto, mas a Euribor a 12 meses já atingiu o seu pico em fevereiro e até já está a descer em março”.
Mário Centeno esteve esta terça-feira no Parlamento para falar sobre a atuação do sector bancário na comercialização ou pedidos de renegociação de crédito habitação e também sobre o desajustamento dos juros nos depósitos a prazo face às condições de mercado, de subida das taxas de juro.
Sobre a subida das taxas nos depósitos, Centeno justifica o que já disse várias vezes: “as taxas têm estado a evoluir positivamente, ainda é insuficiente mas tenho confiança que vai continuar”.
Uma tema que acaba sempre na argumentação de que os bancos têm excesso de liquidez e como tal não têm interesse em captar mais liquidez nem pagar pelos depósitos, e por isso o que tem acontecido nos últimos meses passa especialmente pela oferta de taxas de juros promocionais.
Mário Centeno foi bastante criticado pelo facto de dizer que o as remunerações do trabalho subido em 2022 e pelo facto de ter dito que “o salário médios dos trabalhadores que mudaram de emprego em 2022 cresceu 15%”.
Centeno socorre-se ainda da elevada taxa de emprego. E contrapões as criticas referindo que “não podemos continuar a usar dados que não correspondem à realidade, com todo o mérito dos dados que a Deco possa trazer”.
6.2.23
Famílias gastam poupanças para aguentar crise neste e no próximo ano
Luís Reis Ribeiro, in DN
Poupança esvai-se até mínimos em 2023, o valor mais baixo desde que Portugal aderiu à zona euro. Para muitos, só assim dá para responder, e mal, ao aumento da inflação, dos juros, do custo de vida.Depois de ter atingiu um máximo histórico superior a 19% do rendimento disponível no início da pandemia, as famílias já estão a esvaziar o dinheiro que amealharam nesses tempos de maior clausura.
E vão continuar a rapar o fundo do cofre. Em 2023, esse rácio de aforro dos particulares colapsa para apenas 3,9%, diz o banco central governado por Mário Centeno.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) define como taxa de poupança famílias "a parte do rendimento disponível que não é utilizado em consumo final, sendo calculada através do rácio entre a poupança bruta e o rendimento disponível (incluindo um ajustamento pela variação da participação líquida das famílias nos fundos de pensões)".
Confinamentos ajudaram a poupar
Durante a pandemia, as famílias, principalmente as que conseguiram manter o emprego e o salário conseguiram reforçar os níveis de poupança de forma significativa num quadro de confinamento e de fortes limitações ao consumo (viagens, turismo, idas a restaurantes, a eventos culturais, etc.) o que, naturalmente, permitiu reduzir a fundo a despesa em consumo.
Como referido, foi nessa altura, em plena pandemia, que a taxa de poupança dos portugueses atingiu o valor mais alto da História recente no segundo trimestre de 2020, 19,3% do rendimento disponível real (já descontando o efeito da inflação), o correspondente a 6,6 mil milhões de euros no pé-de-meia dos lares nacionais.
O valor apurado diz respeito apenas à parte da poupança financeira, como depósitos e títulos de aforro, registada nesse trimestre, diz o BdP. Outras formas de reserva, como investimento em imobiliário, não são consideradas.
No confinamento do início de 2021, o segundo mais austero da pandemia, estava o país a enfrentar uma vaga enorme de internamentos e de mortes por covid, a taxa de poupança atingiria o segundo valor mais alto das séries oficiais que remontam a 1999, quando Portugal aderiu à zona euro.
Nesse primeiro trimestre do ano passado, o peso da poupança no rendimento disponível real fixou-se nuns impressionantes 14%, quase cinco mil milhões de euros nesses trees meses..
Findos esses tempos totalmente atípicos, os confinamentos acabaram e as pessoas retomaram muitos dos hábitos de consumo e mobilidade, o que contribuiu para a normalização do rácio.
Problema: no final de 2021, começou-se a desenhar no horizonte uma nova e grave crise. Foi o regresso da inflação que, poucos meses depois, com o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, se transformou numa violenta crise inflacionista, energética, afetando seriamente áreas vitais da economia, como a alimentação, cujo custo disparou, colocando muitas famílias, sobretudo as mais pobres, no fio da navalha (como escreveu o Dinheiro Vivo, este último sábado).
Os números oficiais do INE dizem que o peso da poupança familiar já está nos 3,9% (segundo trimestre de 2023) e pelas contas do Banco de Portugal deverá cair ainda mais no terceiro e no último trimestre deste ano. Em 2023, a média anual do rácio de poupança deverá ficar colada a esse mínimo de 3,9%.
Recorde-se que em cima da inflação, os portugueses já estão a enfrentar o embate violento da subida das taxas de juro, sobretudo os mais endividados.
No novo estudo, o BdP explica o consumo das famílias já está a corroer as poupanças e que esse efeito vai causar impacto algures em 2023, quando muitos lares se depararem com o mealheiro quase vazio. Isso empurrará a economia portuguesa, altamente dependente do consumo interno, para um crescimento novamente frágil.
Diz que "em 2023, o aumento muito reduzido do consumo privado está associado à menor almofada financeira das famílias, ao aumento do serviço da dívida [juros] e à baixa confiança dos consumidores".
Ainda assim, Centeno espera que os portugueses ainda possam recorrer ao que resta no fundo do cofre: "a redução adicional da taxa de poupança contribui para conter a desaceleração do consumo privado" no ano que vem.
O BdP refere que "o rendimento disponível nominal desacelera em 2023 - refletindo a estabilização do emprego e o desaparecimento das medidas temporárias de apoio, a par do aumento do serviço da dívida - e o seu poder de compra volta a estagnar dada a inflação ainda elevada".
E que "o impacto do aumento das taxas de juro e da inflação sobre a situação financeira das famílias deverá ser mais marcado para os agregados endividados de menor rendimento", acrescenta.
No que se refere aos juros, Mário Centeno disse na conferência de imprensa de apresentação do boletim económico que os portugueses vão ter de pagar bem aos bancos a subida fortíssima das taxas de juro do crédito, que poderão fazer com que muitas prestações bancárias mensais aumentem várias centenas de euros nos próximos meses.
Já os juros a receber dos depósitos vão continuar baixos e vagarosos nas subidas, alertou o governador.
"Em 2023, os efeitos do aumento das taxas de juro sobre o serviço da dívida são maiores, refletindo as subidas observadas ao longo de 2022 e esperadas em 2023, mas a subida das taxas dos depósitos é muito inferior à dos empréstimos, pelo que o seu impacto nos juros recebidos é modesto e inferior, em média, ao do serviço de dívida em todos os quintis de rendimento das famílias", constatou.
luis.ribeiro@dinheirovivo.pt
19.12.22
Custo de cabaz alimentar de bens essenciais aumentou 21% num ano
A mesma informação detalha que no período considerado, o custo mensal mediano de um cabaz básico de consumo alimentar para um adulto com cerca de 40 anos aumentou, por seu lado, em 24%.
Este aumento, que é calculado com base nos preços praticados diariamente pelos principais retalhistas alimentares a operar em Portugal nas suas plataformas 'online', foi transversal às diferentes variedades de produtos existentes no mercado.
Segundo a informação do BdP, o custo mensal dos cabazes compostos pelas variedades dos produtos com preços mais altos cresceu 17%, tendo o composto pelas variedades de produtos com preços mais baixos subido 26%.
O BdP salienta, no entanto, que o custo destes cabazes é muito diferenciado, com o valor dos cabazes mais caros a ser cerca de duas vezes e meia superior ao valor dos cabazes compostos por variedades mais baratas.
1.9.22
Juros dos novos créditos à habitação atingiram em Julho a maior subida em 19 anos
Taxa de juro média nos novos empréstimos à habitação subiu em Julho para o valor mais desde 2016, de acordo com os dados hoje divulgados pelo Banco de Portugal.
A taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação aumentou em Julho para 1,88%, face a 1,47% em Junho, a maior subida mensal desde 2003 e o valor mais alto desde Agosto de 2016, divulgou hoje o Banco de Portugal.
“A taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação subiu para 1,88% (1,47% em Junho), registando a maior subida mensal da taxa de juro média destes empréstimos desde o início da série estatística em 2003”, avança o Banco de Portugal (BdP) na nota mensal de informação estatística relativa às taxas de juro e montantes de novos empréstimos e depósitos.
Segundo refere, “esta evolução está em linha com a subida das taxas médias da Euribor em Junho, pois existe, tipicamente, um desfasamento de um mês entre as taxas de juro Euribor e o seu reflexo nas taxas de juro aplicadas”.
Em Julho, mais de metade do montante dos novos empréstimos à habitação utilizou como indexante a Euribor a 12 meses, cujo valor médio subiu de 0,29% em Maio, para 0,85% em Junho.
Já nos novos empréstimos ao consumo, a taxa de juro média aumentou para 7,88% (7,79% em Junho).
Segundo os dados hoje divulgados pelo BdP, os bancos concederam em Julho um total de 1963 milhões de euros de novos empréstimos aos particulares, menos 138 milhões de euros do que em Junho.
Deste valor global, 1345 milhões de euros corresponderam a crédito à habitação, 454 milhões de euros a crédito ao consumo e 164 milhões de euros a crédito para outros fins. Os valores registados em Junho tinham sido, respectivamente, 1402 milhões, 484 milhões e 215 milhões de euros.
Taxa média de 0,09% nos depósitos
No que se refere ao montante de novos depósitos de particulares, aumentou em Julho para 3854 milhões de euros (3707 milhões de euros em Junho), tendo a taxa de juro média subido, pelo segundo mês consecutivo, para 0,09%.
“Do montante de novos depósitos constituídos em Julho, 88% foi aplicado em depósitos a prazo até um ano, cuja taxa de juro média foi igualmente de 0,09%”, refere o banco central, precisando que “a taxa de juro média destes depósitos sobe pelo segundo mês consecutivo, após nove meses em que se manteve em 0,04%”.
Já os novos depósitos de empresas totalizaram 1143 milhões de euros, dos quais 1088 foram aplicados em depósitos a prazo até um ano, remunerados a uma taxa de juro média de 0,13%.
Relativamente aos novos empréstimos concedidos pelos bancos às empresas, somaram 1470 milhões de euros em Julho, menos 597 milhões de euros do que no mês anterior.
De acordo com o BdP, “uma análise por escalão de montante mostra que foram emprestados 920 milhões de euros nos empréstimos até um milhão de euros (1239 milhões de euros em Junho) e 550 milhões de euros nos empréstimos acima de um milhão de euros (828 milhões de euros em Junho)”.
A taxa de juro média dos empréstimos às empresas voltou a aumentar e fixou-se em 2,63% (2,16% em Junho), tendo a taxa de juro média subido tanto nos empréstimos até um milhão de euros (de 2,27% para 2,76%), como nos empréstimos acima de um milhão de euros (de 1,99% para 2,40%).
O BdP actualiza em 4 de Outubro as estatísticas de taxas de juro e de montantes de novos empréstimos e depósitos bancários de empresas e particulares.
19.5.22
Remessas dos emigrantes caem 0,9% em março
O valor enviado pelos trabalhadores portugueses a trabalhar no estrangeiro caiu 0,9% em março, para 268,1 milhões de euros, segundo o Banco de Portugal
As remessas dos emigrantes caíram 0,9% em março, para 268,1 milhões de euros, enquanto as verbas enviadas pelos estrangeiros em Portugal subiram 4,2%, para 44,8 milhões de euros, segundo o Banco de Portugal
De acordo com os dados disponíveis no site do Banco de Portugal, o valor enviado pelos trabalhadores portugueses a trabalhar no estrangeiro passou de 270,5 milhões de euros, em março do ano passado, para 268,1 milhões em março deste ano, o que representa uma queda de 0,92%.
Em sentido inverso, os estrangeiros a trabalhar em Portugal enviaram para os seus países de origem 44,8 milhões de euros, o que representa um acréscimo de 4,2% face aos 43 milhões de euros enviados em março do ano passado.
Olhando para o período entre janeiro e março (o primeiro trimestre), constata-se que os emigrantes enviaram praticamente o mesmo valor dos primeiros três meses do ano passado, que passou de 877,9 milhões para 877,8 milhões de euros, uma ligeira redução de 0,01%.
Em sentido inverso, as verbas enviadas pelos trabalhadores estrangeiros em Portugal aumentaram 8,9%, ao passarem de 120,3 milhões de euros, de janeiro a março de 2021, para 131,08 milhões no primeiro trimestre deste ano.
9.2.22
Acesso a crédito à habitação fica mais difícil com alteração ao prazo dos contratos
Novos empréstimos a 40 anos deverão ser concedidos apenas a clientes com idade até 30 anos, o que dá menos flexibilidade num cenário de subida de taxas de juro. Deco dividida em relação a novas restrições.
A recomendação aos bancos para que adoptassem prazos mais curtos nos novos contratos de crédito à habitação já vem de 2018, mas não foi cumprida na dimensão pretendida pelo supervisor. Agora, o Banco de Portugal (BdP) fixou novos limites, como a de empréstimos a 40 anos serem concedidos apenas a consumidores com idade até 30 anos, de forma a tornar a concessão deste crédito mais segura, mas também para evitar distorções de concorrência entre instituições, nomeadamente a que é feita por entidades com estratégias mais agressivas de conquista de quota de mercado.
Depois da recomendação feita em 2018 para que a duração média dos novos contratos convergissem para 30 anos no final de 2022, o regulador definiu, recentemente, prazos mais rígidos para atingir essa meta. Assim, a partir de 1 de Abril, “a maturidade máxima deve ser de 40 anos, para mutuários com idade inferior ou igual a 30 anos; de 37 anos, para mutuários com idade superior a 30 anos e inferior ou igual a 35 anos; e de 35 anos, para mutuários com idade superior a 35 anos”.
De referir que, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira de Dezembro de 2021, “a maturidade média dos novos empréstimos à habitação manteve-se relativamente estável em cerca de 33 anos, após uma redução de 33,5 anos, em Julho de 2018, para 32,6 anos, em Dezembro de 2019, mas logo seguida de um novo aumento para 33 anos, em Setembro de 2021”, o que levou o supervisor a agir.
O BdP, que foi um dos 23 países da União Europeia (UE) a avançar com uma medida macroprudencial para o crédito (à habitação e ao consumo), mas que optou pela forma de recomendação, ao contrário da maioria das autoridades dos restantes Estados-membros, que avançaram para a sua obrigatoriedade, garante que, “de forma geral, os limites máximos definidos para a maturidade têm vindo a ser respeitados”, e que “a eficácia da recomendação não tem sido posta em causa por esta não ser de cumprimento obrigatório”.
Ao PÚBLICO, o regulador destaca o facto de “a recomendação estar sujeita ao princípio de cumprimento ou explicação (comply or explain, em língua inglesa)”, facto que lhe permite “avaliar de forma regular a adequação das justificações apresentadas pelas instituições quando se desviam do estabelecido” na medida. Garante ainda que “se a justificação apresentada pelas instituições não for considerada adequada, o Banco de Portugal interage com a instituição no sentido de regularizar a situação”.
Sem concretizar, o supervisor refere ainda que “monitoriza a implementação da recomendação com elevada frequência, e, caso seja necessário, poderá adoptar medidas adicionais para garantir o seu cumprimento”.
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Portugal está entre os países que mais recomendações introduziram, abrangendo três vectores, e entre os que apresentam limites mais elevados ou menos restritivos. O primeiro foi a fixação do montante do empréstimo/valor da garantia (loan-to-value, ou LTV, na sigla em inglês), que é no máximo de 90% para compra de habitação própria e permanente, de 100% para imóveis detidos pelas instituições bancárias, e de 80% para outros empréstimos, como segundas habitações.
O segundo a taxa de esforço ou o peso dos créditos no orçamento familiar (debt-service-to-income, ou DSTI), que serve para medir o risco de incumprimento, que é 50%, podendo ainda atingir os 60% ou mais numa percentagem reduzida de empréstimos, e que é uma das mais elevadas no conjunto dos países. Mas, aqui, o BdP inclui no cálculo da DSTI os encargos com todos os empréstimos do mutuário, e não apenas o do crédito à habitação.
Relativamente à DSTI, o BdP introduziu ainda outra particularidade, que se bem explicada pelas instituições bancárias e tida em devida conta pelos particulares pode ser muito útil num cenário de subida das taxas de juro. Trata-se da simulação do encargo com o empréstimo no caso de subida, em três pontos percentuais, da taxa contratada. E ainda de, no cálculo da taxa de esforço e para maturidades acima da idade de reforma, ser considera ainda uma redução de rendimento com a passagem do mutuário a essa situação, uma vez que, habitualmente, se verifica uma queda do rendimento.
O terceiro vector é precisamente a duração dos contratos, agora de 40 até mutuários com 35 anos, a convergir para a média dos 30, mas bem acima, por exemplo, dos 25 anos definidos em França.
O reverso da medalha
A medida macroprudencial visa, essencialmente, regular o mercado de crédito na perspectiva das instituições bancárias, onde a concorrência tem sido desenfreada nos últimos anos, com a adopção de práticas que contrariam as regras da concorrência e de sustentabilidade. A concorrência na concessão de crédito faz-se de várias formas, nomeadamente através de spreads (ou margem comercial) mais baixos (actualmente em mínimos de 1% em várias instituições e até abaixo desse patamar em pelo menos uma delas), mas também pela fixação de prazos mais longos, entre outros.
Genericamente, os empréstimos à habitação por prazos mais longos permitem prestações mensais mais baixas (embora o custo total do crédito seja mais elevado), e taxas de esforço (ou DSTI) também mais baixas.
Mas prazos mais alargados também têm riscos mais elevados para os consumidores, como reconhece Natália Nunes, directora do Gabinete de Apoio Financeiro da Deco, nomeadamente por permitiram “a contratação de crédito por parte de famílias com orçamentos mais apertados, com maior risco de entrarem em incumprimento, e de inviabilizarem futuras reestruturações de crédito, nos casos em que se verifique incapacidade de pagamento, já que uma das medidas nesse tipo de processos passa precisamente pela extensão da maturidade dos contratos”.
Assim, a posição associação de defesa do consumidor face às novas medidas divide-se. Por um lado, considera que “é relevante a preocupação com a limitação da maturidade dos empréstimos nos anos em que o mutuário já esteja em idade de reforma (...) considerando um horizonte em que a idade máxima do mutuário tenderá para os 70 anos. Mas, por outro, “manifesta a sua preocupação com o impacto destas limitações de maturidade no valor das prestações dos empréstimos”.
Destaca ainda a Deco que o impacto da redução das maturidades no valor das prestações acontece num contexto em que “os preços do imobiliário evidenciam a manutenção ou mesmo um aumento em algumas áreas dos grandes centros urbanos, mas também de subida da inflação, que poderá desencadear uma subida de taxas de juro, e ainda de agravamento das comissões bancárias”.
A associação alerta ainda para o facto de a conjugação daqueles factores poder contribuir para “a potencial exclusão da classe média em adquirir habitação nas grandes cidades, sendo forçada a sair para as áreas limítrofes, uma vez que os valores das prestações calculadas terão de ser, também elas, vistas à luz das limitações aos rácios de taxas de esforço”. Tendo em conta este risco, pede ao BdP “um acompanhamento da implementação da actual recomendação e do mercado, de modo a proceder a adaptações destes entendimentos sempre que tal se revele necessário”.
A medida macroprudencial também incluiu o crédito ao consumo, através da recomendação da maturidade de sete anos nos novos contratos de crédito pessoal, de 10 anos nos contratos de crédito pessoal com as finalidades educação, saúde e energias renováveis, desde que devidamente comprovadas, e de 10 anos nos novos contratos de crédito automóvel. O BdP adianta que esta recomendação está a ser cumprida.
30.8.21
Poupanças aplicadas pelos portugueses duplicaram na pandemia para 22,7 mil milhões
Pandemia deu impulso de 12,3 mil milhões nas poupanças aplicadas pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados do Estado entre Março de 2020 e Junho deste ano. Depósitos representaram 76% do total.
O dinheiro aplicado pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados desde Março de 2020, quando se iniciou a pandemia, chegou aos 22.736 milhões de euros em Junho deste ano, um valor que fica 118%, ou 12.286 milhões, acima do mesmo período de 2018/2019.
Este é o resultado de uma poupança forçada pelo confinamento, com entraves do ponto de vista da procura e da oferta, e pela incerteza da crise global provocada pela covid-19, mitigada pelos apoios ao nível do emprego (e salários) como o layoff simplificado. Só no segundo trimestre de 2020, por exemplo, o rendimento disponível dos portugueses diminuiu, em média, 2% face ao período homólogo, e o consumo privado registou uma quebra inédita de 12,3%.
Dos que conseguiram poupar - mesmo com medidas de apoio há quem tenha sofrido fortes quebras de rendimento ou perdido o emprego -, a principal opção foi pelos depósitos, que chegaram aos 18.053 milhões de euros nos 16 meses em análise, subindo 9361 milhões face ao mesmo período de 2018/2019 e representando 76% do total da poupança extra.
Os depósitos têm vindo a bater novos recordes (o total chegou aos 169,9 mil milhões de euros, contabilizando aqui já os valores de Julho disponibilizados esta quinta-feira pelo Banco de Portugal), e os valores nas contas à ordem nunca estiveram tão próximos do montante dos depósitos a prazo (eram 47,2% do total em Junho), num contexto de baixa inflação.
Aversão ao risco e liquidez
Neste contexto, segundo os especialistas contactados pelo PÚBLICO, destaca-se a primazia dada à questão da liquidez, num “clima de grande incerteza” e com “rendibilidades relativamente baixas dos activos alternativos aos depósitos à ordem”, como refere Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa, sublinha também “a ausência de uma remuneração expressiva que motive as famílias a constituírem depósitos a prazo”, porque estes estão com “taxas de juro implícitas de quase zero”.
Em Portugal aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI
“Considerando o conjunto dos activos financeiros das famílias”, realça Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, em Portugal “aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus – em 2019, 44% dos activos financeiros das famílias em Portugal face a 38% em Espanha, por exemplo, segundo dados do Eurostat -, o que evidenciará um misto de maior aversão ao risco e menor literacia financeira”.
Mais dois mil milhões depositados em Abril
Só em Abril de 2020, mês de maior confinamento logo após a declaração da pandemia, foram depositados 2039 milhões de euros, quase quatro vezes mais do que em idêntico período do ano anterior. A este factor pode estar ligada a tal opção por liquidez que esteve muito sublinhada logo em Março, período em que houve uma forte saída de activos como os fundos.
Em Março de 2020, de acordo com os dados do Banco de Portugal, os particulares retiraram 1256 milhões de euros que estavam em fundos ligados a obrigações, imobiliário e acções, um movimento que ocorreu na generalidade dos mercados financeiros. Esse valor foi depois reposto e mesmo superado até ao final do ano, tendo sido o instrumento de poupança que mais acelerou na actual conjuntura, acabando por se registar uma diferença de 3359 milhões de euros face aos montantes aplicados entre Março de 2018 e Junho de 2019 – e que não foram além dos 121 milhões.
16.805 Os particulares tinham 16,8 mil milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho. No período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, o valor chegou aos 28,7 mil milhões de euros.
Fundos a crescer, mas longe de 2007
Ao todo, os particulares tinham 16.805 milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho, com destaque para as unidades de participação ligadas às obrigações e ao imobiliário, em detrimento das acções. Mesmo assim, apesar dos valores aplicados durante a pandemia e do crescimento dos últimos anos (em Junho de 2016 estava abaixo dos oito mil milhões), a aposta dos particulares em fundos está bem longe do período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, quando chegou aos 28,7 mil milhões de euros.
“O aumento da preferência por fundos de investimento significa que os aforradores percepcionam esta escolha como tendo um menor risco e/ou um potencial de remuneração mais elevado que no passado recente, comparando com alternativas, nomeadamente instrumentos com capital garantido”, diz Paula Carvalho. Assim, refere esta responsável do BPI, os aforradores mostram estar “disponíveis para assumir um risco mais elevado e uma maior volatilidade, com a contrapartida esperada de uma melhor remuneração”, mas ainda numa pequena escala, “resultado da avaliação comparada de riscos e de uma atitude de prudência das famílias portuguesas em relação às suas aplicações financeiras”.
Para Paulo Rosa, “a recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento”. “Impulsionada pela pandemia, uma boa parte da poupança extra concentrou-se nas famílias de maiores rendimentos e a subscrição de fundos de investimento está mais associada a estes agregados de rendimentos mais elevados”, refere este responsável do Banco Carregosa, explicando que “a propensão marginal para consumir é menor nas famílias de maiores rendimentos e, consequentemente, acréscimos de poupança serão diversificados por um número maior de alternativas e instrumentos financeiros”. Assim, acrescenta, “parte poderá ter sido canalizada para fundos de investimentos e justifica, em parte, a maior aceleração na subscrição” deste tipo de poupança.
Por outro lado, diz Paulo Rosa, “os investidores portugueses ainda estão muito apreensivos e recuperam gradualmente o seu apetite pelo risco”. “A aversão ao risco em Portugal agravou-se acentuadamente há 12 anos com a crise do subprime nos EUA, a que se seguiram dificuldades na banca nacional, diminuição do peso e da importância da praça portuguesa, e a intervenção da troika em 2011”, contextualiza.
A recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa
Sobre a diferença dos valores actuais dos fundos e dos que se verificavam em 2007, Pedro Bação também destaca “o impacto da desconfiança depois do choque da crise financeira internacional”, recordando que “muitos activos ainda não recuperaram totalmente o valor perdido nessa crise”. A esses elementos, diz, “junta-se o facto de, não obstante os ganhos pós-choque pandémico, as rendibilidades dos fundos de investimento (especialmente dos que investem mais em acções) serem ainda relativamente baixas quando vistas num horizonte temporal mais longo”.
No que diz respeito ao ritmo de aplicação de verbas em fundos desde que a pandemia começou, este professor de economia de Coimbra destaca quatro factores, a começar pela remuneração. “As valorizações ocorridas nos últimos meses estão a ajudar muito as empresas gestoras de fundos de investimento a vender os seus títulos”. Isso, diz, é facilitado por um segundo factor, “que resulta de os fundos serem frequentemente vendidos através dos bancos, que, tendo eles próprios actividades de gestão de fundos de investimento, têm um incentivo para direccionar as poupanças dos clientes para esses fundos de investimento, que proporcionam rendimentos importantes em comissões de gestão”.
Em terceiro lugar, refere, os fundos de investimento “também beneficiam de, em geral, terem um grau de liquidez elevado, pelo menos ao fim de alguns meses”, a que se junta o facto de terem vantagens face à aquisição directa de acções ou obrigações (como a gestão da carteira e custos de transacção).
Há, depois, os produtos do Estado, os certificados de aforro e os certificados do tesouro, e que, apesar de já ultrapassarem um stock de 30 mil milhões de euros, acabaram por ter uma prestação menos positiva na pandemia: entre Março de 2020 e Junho deste ano houve um reforço de 1203 milhões de euros, menos 434 milhões face a Março de 2018/Junho de 2019.
Pedro Bação destaca que os instrumentos de poupança do Estado “têm relativamente pouca visibilidade” e taxas de rendibilidade que “só se tornam atraentes à custa da perda de liquidez. “Certamente a maior parte dos aforradores com poupanças mais significativas terá gestores de conta nos bancos com que trabalham, e esses gestores de conta não irão fazer publicidade aos certificados de aforro, mas sim aos fundos de investimento vendidos através do banco”, diz, acrescentando que “o canal de venda, bem como os serviços associados (home banking), desfavorece claramente os instrumentos de poupança patrocinados pelo Estado”.
Para Paulo Rosa, “os depósitos a prazo são mais interessantes quando aplicados em prazos mais curtos como 6 a 12 meses”, enquanto os produtos do Estado “são mais interessantes para horizontes temporais mais longos, devido aos prémios de permanência e bonificações que proporcionam”.
Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Certo é que, refere, a “preferência por liquidez continua a dominar as poupanças dos portugueses”, algo que está reflectido no facto de os certificados de aforro e os do tesouro corresponderem a apenas 17% dos montantes de depósitos.
Além destas opções, os especialistas notam que está também a ser canalizado dinheiro para o mercado imobiliário. Depois, poderá haver quem também aplique dinheiro em alternativas como o ouro ou arte, e o Banco de Portugal também já deu nota de que se assistiu no ano passado a uma retenção de notas como “reserva de valor”, ou seja, como segurança em tempos conturbados tal como aconteceu na crise financeira iniciada em 2008.
Economia à espera do consumo
Conforme já escreveu o PÚBLICO, entre Abril de 2020 e Março de 2021 a taxa de poupança das famílias foi de 14,3% do rendimento disponível (mais 9549 milhões de euros em termos absolutos), o que é o valor mais alto, pelo menos, desde o início do século e quase o dobro dos 7,8% registados nos doze meses imediatamente anteriores.
215,2 No final de Junho os portugueses tinham 215,2 mil milhões de euros aplicados em depósitos, certificados do Estado e fundos
De acordo com as estimativas do Banco de Portugal, o valor do acréscimo de poupança poderá chegar aos 17,5 mil milhões de euros entre o ano passado e 2023, montante que poderá fazer subir as taxas de crescimento do consumo actualmente previstas.
Questionada sobre se estima que grande parte da poupança arrecada durante a pandemia venha a ser gasta em consumo num futuro próximo, a responsável do departamento de estudos económicos e financeiros do BPI, Paula Carvalho, diz que uma parte será usada, mas que não se pode “antecipar qual a dimensão dessa parte”. “Será sempre um movimento gradual, previsivelmente a favor do consumo, mas também do investimento”, refere.
“Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo”, responde Pedro Bação.
Por seu lado, Paulo Rosa recorda que “a poupança tende a aumentar em períodos de crise e a descer em períodos de menos incerteza”, e que “parte da poupança amealhada pelas famílias de rendimentos menos elevados poderá alimentar e aumentar o consumo num futuro próximo e quando a incerteza for menor”.
Todavia, acrescenta, “os agregados de rendimentos mais elevados respondem por boa parte da poupança durante a pandemia e nestas faixas de rendimentos a propensão marginal ao consumo é menor”.
30.7.21
Valor do crédito em moratória desce para 37,5 mil milhões em Junho
No final de Junho, os empréstimos de particulares abrangidos por moratórias eram de 14,4 mil milhões de euros
O montante global de empréstimos abrangidos por moratórias era de 37.500 milhões de euros no final de Junho, menos 1000 milhões do que em Maio, divulgou hoje o Banco de Portugal (BdP).
De acordo com as estatísticas das moratórias de crédito, publicadas pelo banco central, “no final de Junho de 2021, o montante global de empréstimos abrangidos por moratórias era de 37.500 milhões de euros, menos 1000 milhões do que em Maio”.
O BdP explicou que esta variação “resulta do decréscimo tanto dos empréstimos concedidos a particulares como a sociedades não financeiras, que diminuíram 0,3 e 0,6 mil milhões de euros, respectivamente”.
No caso dos empréstimos concedidos a particulares, a descida verificou-se tanto nos empréstimos à habitação como nas outras finalidades, tendo para isso contribuído o fim, em Junho, das moratórias privadas dos empréstimos concedidos para outras finalidades que não a habitação.
No final de Junho, os empréstimos de particulares abrangidos por moratórias eram de 14.400 milhões de euros, quantificou o BdP.
Já os empréstimos das sociedades não financeiras em moratória diminuíram em todos os sectores de actividade e, no final de Junho, totalizavam 22.300 milhões de euros.
Em Junho existiam 23.800 empresas de sectores mais afectados pela pandemia de covid-19 abrangidas por moratórias e, segundo o BdP, “o montante de empréstimos com pagamento suspenso diminuiu 0,1 mil milhões de euros face a Maio, para 8,4 mil milhões de euros”.
27.7.21
Banco de Portugal divulga primeiro Relatório de Sustentabilidade
Destacam-se, pela sua relevância no contexto da crise pandémica, as ações de comunicação sobre as moratórias e sobre os serviços de pagamento eletrónicos, bem como o protocolo assinado com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social para a promoção dos serviços mínimos bancários”, diz o BdP.
O Banco de Portugal divulgou o primeiro Relatório de Sustentabilidade relativo ao período compreendido entre 1 de janeiro de 2019 e 31 de dezembro de 2020.
O relatório descreve o desempenho do BdP na “promoção do desenvolvimento sustentável, com base nos temas identificados como mais importantes pelos seus stakeholders, e foi preparado de acordo com as normas internacionais de referência para o reporte de sustentabilidade, definidas pela Global Reporting Initiative”.
O banco avança com os principais desenvolvimentos, nomeadamente robusteceu regras e procedimentos em matéria de governação interna. O BdP, entre outras iniciativas, concluiu a implementação de um “pacto de não concorrência”; adotou uma política sobre ofertas; aprovou princípios de conformidade e de ética e conduta aplicáveis a todas as entidades que lhe fornecem bens ou serviços; elaborou um plano de gestão de riscos de corrupção e infrações conexas; e estabeleceu uma política e um plano de proteção de dados.
O Banco de Portugal diz também que reforçou as ações de informação e de formação financeira, estatística e económica. “Destacam-se, pela sua relevância no contexto da crise pandémica, as ações de comunicação sobre as moratórias e sobre os serviços de pagamento eletrónicos, bem como o protocolo assinado com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social para a promoção dos serviços mínimos bancários”, diz o BdP.
O banco central também desenvolveu projetos de responsabilidade social e voluntariado, que reformulou e aprofundou, no contexto da pandemia, para dar resposta a novas carências educativas e alimentares. Para além de ter implementado medidas excecionais de proteção dos trabalhadores e demais interlocutores no contexto da pandemia e obteve a certificação “Global Safe Site”, atribuída pelo Bureau Veritas.
O Banco de Portugal publicou o Compromisso do Banco de Portugal para a Sustentabilidade e o Financiamento Sustentável e aderiu ao Compromisso Lisboa Capital Verde 2020, “no âmbito do qual assumiu a responsabilidade de implementar, até 2030, dez ações em áreas-chave para o combate às alterações climáticas, incluindo a celebração de um contrato de fornecimento de energia elétrica integralmente proveniente de fontes renováveis, que concretizou em 2020”.
A instituição também participou na criação do primeiro fundo de investimento em obrigações verdes do Banco de Pagamentos Internacionais e subscreveu unidades de participação desse fundo, avança o comunicado.
23.7.21
Actividade económica recua com efeito da quarta vaga
Indicador diário de actividade económica recua pela segunda semana consecutiva, caindo para o valor mais baixo desde meados de Abril.
Afectada pelo retrocesso no desconfinamento em diversos concelhos do país, a economia portuguesa voltou, nas duas primeiras semanas de Julho, a uma tendência de recuo. Um revés que constitui um risco para as projecções de retoma forte da economia que estão a ser feitas para a segunda metade deste ano.
O indicador diário de actividade económica calculado pelo Banco de Portugal – e que é um dos dados que permite com mais rapidez medir a evolução da economia – registou, na semana entre 12 e 18 de Julho uma deterioração. A variação média do indicador face ao mesmo período de 2019 (não se usa o ano de 2020 como referência para evitar a distorção gerada pelos dados muito negativos do início da pandemia) passou de 0,6% para -4,2%.
Já na semana entre 5 e 11 de Julho se tinha assistido a uma deterioração deste indicador (que passou de 1,7% para 0,6%), confirmando-se agora o regresso a variações negativas, com o indicador a atingir o valor mais baixo desde meados do passado mês de Abril.
Este recuo na actividade económica acontece depois de um período, entre Maio e Junho, em que a evolução foi positiva, o que levou a que diversas entidades, incluindo o Governo, mostrassem um maior optimismo nas suas previsões para o crescimento da economia durante o ano de 2021. João Leão, o ministro das Finanças, assumiu que o crescimento pudesse chegar aos 5% este ano.
No entanto, o surgimento da quarta vaga da pandemia - que teve como consequências o recuo no processo de desconfinamento que se tem vindo a verificar em vários concelhos, um dos primeiros Lisboa, e a diminuição do número de turistas a chegar ao país - está agora, de forma clara, a limitar a evolução da actividade económica. A Comissão Europeia, nas previsões divulgados no início deste mês, excluiu Portugal do cenário de melhoria geral que antecipou para a zona euro, citando precisamente os efeitos que a quarta vaga da pandemia poderiam vir a ter na economia.
Ainda assim, em comparação com o que aconteceu, quer no início da pandemia, quer no auge da segunda e terceira vaga, a variação negativa da actividade económica é, para já, mais moderada.
Para calcular o indicador diário de actividade económica, o Banco de Portugal utiliza os dados disponíveis de forma quase imediata relativos ao tráfego rodoviário de veículos comerciais pesados nas auto-estradas, ao consumo de electricidade e de gás natural, à carga e ao correio desembarcados nos aeroportos nacionais e às compras efectuadas com cartões em Portugal por residentes e não residentes.
21.7.21
Endividamento recorde: mais de 757 mil milhões de euros
O endividamento da economia aumentou 4 mil milhões de euros no espaço de um mês.
A análise do Banco de Portugal (BdP) tornada pública esta quarta-feira mostra que, de abril para maio, o endividamento do setor não financeiro aumentou 4 mil milhões de euros e totalizou 757,5 mil milhões de euros.
Dos 757,5 mil milhões de euros, 46% dizem respeito ao setor público, um setor que aumentou a dívida 2,5 mil milhões de euros.
De acordo com o BdP, a "subida do endividamento do setor público resultou, sobretudo, dos acréscimos registados no endividamento junto do setor financeiro (1,5 mil milhões de euros) e no endividamento perante o exterior (0,8 mil milhões de euros)".
Já "no setor privado, o endividamento das empresas privadas aumentou 1,0 mil milhões de euros, evolução explicada principalmente pelo financiamento obtido junto do exterior (0,7 mil milhões de euros). O endividamento dos particulares aumentou 0,4 mil milhões de euros, refletindo o financiamento obtido junto do setor financeiro", salienta o BdP.
29.3.21
Banco de Portugal vê desemprego a subir apenas até 7,7%, quando em dezembro apontava para 8,8%
Sónia Lourenço, in Expresso
O banco central reviu em baixa as suas projeções para a evolução da taxa de desemprego em Portugal, que deve subir até aos 7,7% este ano, começando a descer, de forma lenta, a partir de 2022. Ainda assim, em 2023, ainda estará acima do valor registado em 2019"O impacto da crise permanece bastante contido nos indicadores de desemprego". A frase é de Mário Centeno, governador do Banco de Portugal (BdP), que esta sexta-feira apresentou as novas projeções da instituição para a economia portuguesa.
Projeções onde o BdP reviu em alta o perfil do Produto Interno Bruto e do emprego entre 2021 e 2023, e, simultaneamente, reviu em baixa o perfil do desemprego.
No que toca à taxa de desemprego, o banco central espera que suba dos 6,8% registados em 2020, para 7,7% em 2021. Isto quando em dezembro esperava que a taxa de desemprego subisse até aos 8,8% este ano. Depois, o BdP espera uma descida da taxa de desemprego, mas de forma lenta: 7,6% em 2022 (em dezembro apontava para 8,1%) e 7,2% em 2023 (em dezembro esperava 7,4%).
Contudo, isto significa que no final do horizonte de projeção, a taxa de desemprego em Portugal ainda vai ficar acima do nível pré-crise, isto é, do valor registado em 2019, quando estava nos 6,5%. O BdP frisa, contudo, que a subida do desemprego nesta crise vai ficar "muito aquém da observada na crise de 2011-13".
"A retoma da atividade traduz-se numa melhoria no mercado de trabalho, com um crescimento médio do emprego de 0,8% e uma redução da taxa de desemprego a partir de 2022", lê-se no Boletim Económico de março do BdP.
O banco central destaca que "as medidas de política adotadas contribuíram para atenuar a diminuição do emprego em 2020, que foi muito mais mitigada do que a redução das horas trabalhadas (-1,7% e -9,2%, respetivamente).
E adianta que "com a recuperação da atividade antecipa-se que as empresas recorram, numa primeira fase, aos trabalhadores que têm disponíveis para dar resposta ao aumento da procura". Por isso, a projeção é que as horas trabalhadas cresçam acima do emprego especialmente em 2021 e 2022.
"A evolução moderada do emprego também reflete os desafios demográficos e a retoma gradual nos segmentos mais afetados pela crise, nomeadamente nos setores mais expostos aos contactos pessoais, mais intensivos em trabalho e com menor possibilidade de recorrer ao teletrabalho, bem como nos indivíduos mais jovens, com níveis de qualificação mais baixos e com vínculos temporários", escreve o BdP.
O banco central deixa uma última nota: "Apesar do sucesso das medidas de política em mitigar os impactos negativos da crise pandémica no mercado de trabalho, antecipa-se que existam alguns efeitos mais prolongados, decorrentes de eventuais alterações nas preferências dos agentes (por exemplo, compras eletrónicas, viagens de negócios e teletrabalho) e da necessidade de realocação de fatores produtivos entre setores".
Mário Centeno também deixou essa mensagem: "É provável que haja alguma reafetação de recursos numa fase mais adiantada da recuperação".
4.3.21
Burlas de crédito disparam com a pandemia e deverão agravar-se com fim das moratórias
Continua a haver pessoas a perder casas que valem perto de 200 mil euros por pequenos empréstimos concedidos por entidades fraudulentas. Aumentam as ofertas de crédito feitas por canais digitais partir do estrangeiro.
Da pequena à grande burla, da pessoa com baixa escolaridade até licenciados. A actividade de concessão de crédito por entidades não autorizadas, ou melhor, por entidades fraudulentas, tem vindo a aumentar nos últimos anos e a ficar cada vez mais sofisticada.
Em 2020, os casos que chegaram ao Banco de Portugal (BdP), por denúncia de vítimas ou pedidos de informação prévios, deram um salto de 50%. O BdP interveio em 350 processos, um número que é uma pequena amostra dos crimes efectivamente praticados. Para o aumento de casos contribuiu o impacto da pandemia de covid-19, que esteve na origem do aumento de situações de desemprego ou de perda de rendimentos para muitas famílias.
E o cenário actual, com novo confinamento e várias actividades completamente encerradas, que será agravado pelo fim das moratórias de crédito que se avizinha, cria condições para que a actividade fraudulenta e o número de vítimas possa aumentar significativamente no corrente ano.
São as dificuldades, o desespero, ou a vergonha que atiram as pessoas para ofertas de crédito fora do radar dos bancos e de outras instituições financeiras autorizadas a fazê-lo, ficando nas mãos de redes que apenas pretendem extorquir-lhes dinheiro ou outros bens, agravando ainda mais a sua situação financeira.
Se em alguns casos as vítimas são maioritariamente pessoas com baixos conhecimentos financeiros ou idosas, que pagam à cabeça quantias que podem chegar aos 200 euros para ter um empréstimo que nunca chega a concretizar-se, há casos de burla que envolvem pessoas com formação superior e empréstimos de algum valor, com condições que podem gerar perdas muito elevadas.
Há casos que chegam ao Banco de Portugal em que as taxas de juro cobradas ficam perto dos 300%, o que dificulta, desde logo, o seu pagamento. E que têm ainda associadas garantias de hipoteca de imóveis, cheques pré-datados ou declarações de dívidas, que podem ser executadas no caso de não pagamento, o que acontece com frequência.
E tal como o PÚBLICO denunciou em 2017, continua a verificar-se um número considerável de casos de pessoas que acabam por perder as suas casas ou outros bens por causa de empréstimos de 20 ou 30 mil euros, mas em que o valor do imóvel dado como garantia, através de escrituras de compra e venda ou hipoteca, realizadas com a conivência de advogados e notários, pode aproximar-se dos 200 mil euros. Toda burla visa isso mesmo, criar condições, através de mensalidades elevadas, de várias centenas de euros, para que os particulares não as possam cumprir, para dessa forma obter o lucro mais apetecido, os bens dados como garantia.
As burlas são cada vez mais sofisticadas, através de websites que replicam muitas vezes a imagem de instituições nacionais ou estrangeiras autorizadas a operar em Portugal, alterando apenas uma letra da marca registada, o que dificulta a percepção de entidade fraudulenta, e são praticadas muitas vezes a partir de países estrangeiros, nomeadamente do Brasil, o que dificulta o seu sancionamento.
No âmbito da fiscalização da actividade financeira fraudulenta, que também inclui esquemas fraudulentos de recepção de dinheiro, em troca de rentabilidades elevadas, os chamados esquemas Ponzi ou pirâmides, mais recentemente envolvendo criptomoedas, levaram o Banco de Portugal a tomar várias medidas, que em 2020 registaram uma variação de 180% face a 2019.
Dessas iniciativas destaca-se a instauração de 14 novos processos contra-ordenacionais contra diversas entidades, pela prática indiciada de actividade financeira não autorizada e de publicidade reservada a entidades habilitadas.
PSD quer nova lei
A experiência mostra que, dado o histórico de dificuldades financeiras, associadas muitas vezes a outros problemas sociais, as pessoas afectadas não têm capacidade para tentar recuperar judicialmente o que lhes foi indevidamente retirado.
As queixas enviadas à Procuradoria-Geral da República - 47 em 2020 por parte do BdP, por indícios da prática de 69 crimes associados ao desenvolvimento de actividade financeira ilícita, nomeadamente de recepção de depósitos/fundos reembolsáveis, burla, falsificação de documentos, usura, extorsão, ameaça, branqueamento de capitais e infracções de natureza fiscal - não têm tido resultados práticos visíveis, a que não é alheia a dissimulação das estruturas a partir de outros países.
O supervisor divulgou alertas ou public warnings relativos a 40 entidades e encerrou 15 sites. Deu ainda resposta a 106 solicitações e denúncias do público, nomeadamente com vista a prevenir e auxiliar na reparação das possíveis consequências de burlas.
As ofertas de crédito chegam cada vez mais pelos canais digitais, mas também através de anúncios em jornais e revistas. A pensar nesta facilidade de divulgação, mas também noutras medidas, o PSD apresentou recentemente um projecto de lei para criar um quadro legal de protecção do consumidor e prevenção da venda não autorizada de produtos financeiros, como seguros ou fundos de pensões.
Nesse projecto, o partido social-democrata pretende que sejam criados limites à publicidade enganosa, obrigando, por exemplo, que “todas as agências de publicidade e anunciantes passem a ter de consultar os registos online e públicos dos reguladores do sector financeiro”, de modo a “verificar se aquela entidade está habilitada por algum dos reguladores”.
7.10.20
Construção resistiu e limitou dimensão da recessão este ano
Nas primeiras previsões apresentadas por Mário Centeno, o Banco de Portugal aproximou as suas estimativas para a economia portuguesa das que estão a ser feitas pelo Governo.
A forma como o investimento, principalmente aquele que está relacionado com a construção, resistiu à crise surpreendeu o Banco de Portugal, que, nesta terça-feira, nas primeiras projecções realizadas com Mário Centeno na liderança, reviu em alta a sua estimativa para a variação do PIB.
A queda do PIB em 2020 continua a ser histórica, mas, mesmo assim, em vez dos 9,5% previstos em Junho, o banco central antecipa uma diminuição de 8,1%, em linha com o resto da zona euro.
Usar a palavra “melhor” para caracterizar aquele que foi o trimestre com o pior resultado de sempre para a economia portuguesa pode parecer estranho, mas a verdade é que a contracção do PIB histórica de 16,3% face ao período homólogo acabou por ficar aquém daquilo que a uma certa altura se esperava, e que era uma queda que poderia ultrapassar a barreira dos 20%.
Uma surpresa positiva no meio de um cenário muito negativo e que aconteceu, assinala o Banco de Portugal, devido a um comportamento mais resiliente da generalidade dos indicadores, mas com um claramente a destacar-se: o investimento. É verdade que o investimento registou uma quebra na primeira metade do ano, no entanto a variação negativa registada – 6,4% em termos homólogos – ficou muito abaixo daquilo que o Banco de Portugal previa para o total do ano, que era uma queda de 11,1%.
Isto aconteceu porque na construção o investimento parece não ter sido afectado pela pandemia e continuou a crescer, registando uma variação de 0,3% no primeiro semestre e mesmo uma aceleração no segundo trimestre, no auge do confinamento.
O Banco de Portugal assinala que este desempenho positivo do sector da construção e em particular do investimento aí realizado contrasta com aquilo que aconteceu “em vários países da área do euro, onde o sector foi muito afectado pela pandemia”. “Para esta evolução diferenciada contribuiu o facto de as medidas do estado de emergência em Portugal não terem imposto a suspensão de obras”, explica a autoridade monetária.
Contas feitas, em vez da previsão de queda do investimento de 11,1% em 2020 que tinha em Junho, o Banco de Portugal espera agora uma contracção de “apenas” 4,7%.
Nos outros indicadores, as revisões em alta, embora menos acentuadas, também foram significativas: a previsão de queda do consumo privado passou de 8,9% para 6,2% e a estimativa de variação negativa das exportações deixou de ser de 25,3% para passar a ser de 19,5%.
Tudo junto, o PIB cairá 8,1% em vez dos 9,5% antes previstos e a taxa de desemprego, que o Banco de Portugal antes previa poder ultrapassar os 10,1%, ficará nos 7,5%, estima agora a autoridade monetária.
Antes ministro, agora governador
Com a sua nova previsão de contracção do PIB em 2020 de 8,1%, o Banco de Portugal aproxima-se de forma clara daquilo que o Governo está a antecipar para a economia.
Até agora, a diferença das previsões dos dois órgãos era grande: recessão de 9,5%, dizia o Banco de Portugal, 7%, dizia o Governo. Mas nesta terça-feira, ao mesmo tempo que o Banco de Portugal revelou o seu menor pessimismo, o executivo caminhou no sentido contrário, assumindo que a queda do PIB este ano poderá afinal rondar os 8%, sendo que para 2021 a expectativa é a de um crescimento de 5,5%.
Para o próximo ano, o Banco de Portugal não apresentou, neste boletim, novas previsões. Ainda assim, Centeno mostrou alguma confiança em relação à capacidade da economia portuguesa em garantir uma retoma relativamente rápida. O governador assinalou que, “à queda abrupta, seguiu-se uma recuperação quase imediata”, e esteve perto de caracterizar a evolução da economia como um V. “Não arrisco dizer que a recuperação é em V porque ainda há uma grande incerteza”, disse, acrescentando contudo que a forma como resistiu o investimento “diz muito da confiança e da forma como podemos projectar a evolução da economia nos próximos trimestres”.
Esta aproximação de previsões entre Governo e Banco de Portugal, ocorrida na primeira vez em que Mário Centeno (até Junho ministro das Finanças) é o responsável máximo pelas projecções do banco central, foi um dos temas em que o agora governador se viu forçado, esta terça-feira, a pronunciar sobre matérias em que desempenhou um papel importante como ministro das Finanças.
Na conferência de imprensa de apresentação do boletim, Mário Centeno começou por, na sua intervenção inicial, usar a primeira pessoa do plural para descrever as medidas tomadas em Portugal no início da crise (quando era ministro das Finanças) para limitar os danos na economia e no mercado de trabalho. E depois, em relação à melhoria das previsões, sentiu necessidade de garantir que “a avaliação agora feita à economia é congruente com a avaliação que o Banco de Portugal fez ao longo dos últimos meses e anos”.
Já no que diz respeito à condução das finanças públicas em vésperas de apresentação pelo Governo da proposta de OE2021, Mário Centeno tentou não dizer muito, socorrendo-se de uma citação de Mario Draghi para defender que, nesta fase, uma subida da dívida pública não representa só por si uma política errada. “Mesmo os níveis de dívida mais elevados são sustentáveis, se tomarmos as decisões de consumo e investimento certas”, disse.
Ainda assim, Mário Centeno ainda arriscou deixar alguns conselhos ao Governo, que abandonou há poucos meses. Em relação às medidas anticrise, disse que “é necessário manter o foco na protecção do emprego e começar a ter um foco na criação de novo emprego”. E no que diz respeito ao Novo Banco, alertou que “todas as decisões que ponham em causa a estabilidade do sistema financeiro são de evitar”, defendendo que, por isso, deve ser acautelado “o cumprimento das obrigações que o Estado português assumiu em nome da estabilidade financeira”.
21.8.20
Actividade económica e consumo atingem novos mínimos históricos em Julho
Taxa de variação homóloga do indicador para a atividade económica foi negativa em 11,9%, agravando-se face aos -10,8% de Junho
Os indicadores coincidentes mensais para a actividade económica e para o consumo privado voltaram a cair em Julho, atingindo “novos mínimos históricos”, segundo dados divulgados hoje pelo Banco de Portugal (BdP).
“Em Julho, o indicador coincidente mensal para a actividade económica e o indicador coincidente mensal para o consumo privado voltaram a reduzir-se, atingindo novos mínimos históricos”, refere o banco central em comunicado.
No mês em análise, a taxa de variação homóloga do indicador para a actividade económica foi negativa em 11,9%, agravando-se face aos -10,8% de Junho, enquanto a variação homóloga do indicador para o consumo privado passou de -12% em Junho para -13,5% em Julho.
Considerando o trimestre terminado em Julho, a taxa de variação homóloga dos indicadores para a actividade económica e para o consumo privado foram negativas em 10,7% e 11,8%, respectivamente, agravando-se face aos -9,2% e -10,0% de Junho, pela mesma ordem.
Desde o início do ano, a taxa média de variação do indicador coincidente mensal para a actividade económica é de -7,5% (0,9% no período homólogo de 2019), enquanto a do indicador coincidente mensal para o consumo privado é de -7,6% (2,2% em 2019).
Os indicadores coincidentes são indicadores compósitos que procuram captar a evolução subjacente da variação homóloga do respectivo agregado macroeconómico, pelo que não reflectem em cada momento a taxa de variação homóloga do respectivo agregado de Contas Nacionais.
Ressalvando que a incorporação de nova informação pode reflectir-se mensalmente na revisão dos valores passados dos indicadores coincidentes, o BdP alerta que, “na actual conjuntura, face às variações bruscas e significativas nas séries usadas no cálculo dos indicadores coincidentes, é expectável que se verifiquem revisões mensais nestes indicadores superiores às habituais”.
12.5.20
Banco de Portugal diz que pandemia prejudicou mais as famílias mais ricas
Estudo do banco central, liderado por Carlos Costa, indica que o o impacto no rendimento das famílias é maior quanto mais alto era o rendimento prévio à crise provocada pelo covid-19.
Um estudo do Banco de Portugal conclui que as famílias que têm indivíduos entre 35 e 44 anos são as mais afetadas pela queda dos rendimentos e as famílias de menores rendimentos as mais beneficiadas pelas moratórias dos créditos.
O Banco de Portugal divulgou, esta quarta-feira, o Boletim Económico, que inclui um estudo sobre os efeitos da crise da pandemia covid-19 no rendimento das famílias.
Segundo o estudo, em média, e após as medidas de apoio ao rendimento postas em prática pelo Governo ('lay-off' e apoio a trabalhadores independentes) e as moratórias dos créditos e regime excecional para pagamento das rendas, o rendimento disponível das famílias tem uma redução de cerca de 5%, decorrente de uma redução de 8,2% do rendimento do trabalho.
De acordo com o estudo, o efeito da pandemia é variável por grupos de famílias, sendo que a pandemia não teve qualquer impacto no rendimento para um número considerável de famílias, "principalmente o caso das famílias que não têm rendimentos do trabalho e aquelas em que todos membros trabalham em setores não afetados pela pandemia, que representam cerca de 50% do total de famílias".
Já quanto ao impacto negativo no rendimento disponível, este é mais acentuado nas famílias com rendimento mais elevado e nas famílias de escalões etários mais jovens, sobretudo nas famílias entre 35 e 44 anos (com uma queda do rendimento disponível de 9,8% e do rendimento do trabalho de 10,9%).
O estudo explica que o impacto no rendimento das famílias é maior quanto mais alto era o rendimento prévio à pandemia, referindo que no grupo de 20% de famílias com rendimento mais baixo o rendimento disponível médio reduziu-se 2,4%, enquanto no grupo de 10% das famílias com rendimento mais elevado a redução do rendimento foi de 7,8%.
Sobre o facto de a maior redução no rendimento médio do trabalho estar sobretudo nas famílias de rendimento mais elevado, o Banco de Portugal relaciona com o facto de tanto o rendimento do 'lay-off' como o apoio aos trabalhadores independentes ter um teto máximo.
Por outro lado, o impacto mais reduzido nas famílias com rendimento mais baixo "decorre do menor peso do rendimento do trabalho nestas famílias, nas quais têm uma maior importância as pensões de reforma e outras transferências públicas", como apoios sociais, acrescenta.
Já se for apenas considerado o rendimento do trabalho, as famílias com menor rendimento disponível têm uma redução ligeiramente mais acentuada do que a média, o que se relaciona com o facto de as pessoas dessas famílias trabalharem mais "em setores mais afetados pela pandemia ou em segmentos que não beneficiam das medidas de apoio ao rendimento".
Quanto à análise por escalão etário, o Banco de Portugal conclui que a redução de rendimento disponível é "bastante mais significativa nas famílias em que o indivíduo de referência está em idade ativa do que nas restantes".
A classe etária mais impactada pela epidemia (quer no rendimento líquido quer apenas no rendimento do trabalho) é a que tem indivíduos entre 35 e 44 anos, com uma queda do rendimento disponível de 9,8% e do rendimento do trabalho de 10,9%.
O Banco de Portugal avaliou também a capacidade de as famílias financiarem as suas despesas de consumo básicas, a habitação e as responsabilidades financeiras, através do rendimento e da riqueza disponível no curto prazo (medida pelos depósitos líquidos de dívidas que se vencem no curto prazo, como dívidas de cartões de crédito).
Esta análise também teve em conta as medidas de apoio às famílias, como medidas de apoio ao rendimento ('lay-off'), moratórias de crédito e o regime excecional de mora no pagamento da renda.
Segundo o Banco de Portugal, "metade das famílias podem financiar no máximo três meses e meio das despesas associadas a consumo de bens não duradouros e serviços e a encargos com dívida e rendas na ausência de qualquer rendimento".
As famílias de rendimentos mais baixos conseguem apenas "pagar pouco mais de um mês de despesas recorrendo a riqueza disponível no curto prazo", enquanto "com rendimentos mais elevado as famílias dispõem de recursos suficientes para financiar mais de um ano de despesas na ausência de rendimento".
O Banco de Portugal analisou ainda o valor médio do rendimento deduzido de despesas antes e após a pandemia e também excluindo e incluindo medidas de apoio ao rendimento e moratórias de crédito e de rendas.
Segundo as conclusões, no conjunto das famílias, o valor médio do rendimento deduzido de despesas reduz-se cerca de 8% quando se consideram todas as medidas de apoio as famílias.
Já se forem consideradas apenas as medidas de apoio ao rendimento a redução é maior, de cerca de 14%.
Segundo o Banco de Portugal, o principal fator a justificar este efeito é a moratória dos créditos à habitação, que tem impacto ainda mais positivo nas famílias de menores rendimentos e nas mais jovens.
O Banco de Portugal relaciona o facto de o impacto das moratórias de crédito ser particularmente favorável nas famílias de menores rendimentos com o facto de as despesas terem um maior peso nessas famílias.
"De facto, quando se considera o efeito das moratórias, o rendimento deduzido de despesas tem inclusivamente um ligeiro acréscimo na classe de rendimento mais baixa, o que contrasta com uma redução de cerca de 10% na classe de rendimento mais elevada", refere o Banco de Portugal.
A semana passada, o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, defendeu no parlamento que as moratórias de pagamento de créditos (que pela lei do Governo duram até setembro) devem ser prolongadas ao máximo, de forma a evitar o crescimento do crédito malparado.
"A presente moratória tem duração de seis meses. Terá de ser equacionada a duração dessa moratória e eu diria uma extensão tão longa quanto possível. Essa decisão terá de ser tomada em tempo útil para que os créditos objeto da moratória não caiam numa classificação que indicie incumprimento, sob pena de penalizar o capital dos bancos", disse Carlos Costa.
Por escalão etário, considerando todas as medidas, a maior redução do rendimento deduzido de despesas ocorreu nas famílias mais jovens, em particular, naquelas cujos membros têm 35 e 44 anos.
27.3.20
Banco de Portugal avisa: País a caminho da pior recessão anual de que há registo
Destruição de emprego pode ser a mais cavada de que há registo, investimento ficará de rastos, hecatombe nas exportações assumirá proporções nunca vistas, ampliadas pelo colapso no turismo.
economia portuguesa pode mergulhar, neste ano, na pior recessão alguma vez registada, sinalizou ontem o Banco de Portugal (BdP), a primeira instituição oficial a fazer projeções económicas já incorporando a dimensão de crise do coronavírus. É o "cenário adverso", mas que não pode ser de todo excluído, uma vez que a destruição provocada pela pandemia pode ser muito mais ampla no tempo e no espaço e trazer consigo uma eventual tempestade financeira, considera o BdP.
O colapso previsto de 5,7% na atividade económica real (cenário mais grave para 2020) traz consigo más notícias em toda a linha. A destruição de emprego vai ser a mais cavada de que há registo, o investimento ficará de rastos, a hecatombe nas exportações será também a mais aguda das séries. O banco central avisa que o turismo será das atividades mais afetadas; no tecido empresarial, os pequenos negócios serão os mais penalizados, como é costume sempre que há crises e recessões.
O Banco de Portugal fez dois cenários: um de "base", menos destrutivo porque a crise dura menos tempo e as metástases são mais curtas; e outro dito "adverso", como referido.
Resumindo: a economia portuguesa arrisca uma grave recessão neste ano que pode ir de uma quebra de 3,7% a um colapso de 5,7%, projeta o Banco de Portugal, no novo boletim económico de março, divulgado nesta quinta-feira. O nível de desemprego deve regressar para valores claramente acima dos 10% em ambos os cenários traçados.
"A pandemia corresponde a um choque económico adverso com efeitos muito significativos e potencialmente prolongados no tempo em termos do bem-estar dos cidadãos e da atividade das empresas."
Assim, os economistas do banco governado por Carlos Costa avisam que mesmo os dois cenários obtidos não estão garantidos por causa da total incerteza que ensombra os próximos meses. "A incerteza exacerbada e a complexidade que caracterizam este exercício de projeção implicam que não seja possível apresentar um cenário mais provável para a evolução da economia portuguesa." O pior pode muito bem acontecer, avisa.
A economia portuguesa arrisca uma grave recessão neste ano que pode ir de uma quebra de 3,7% a um colapso de 5,7%.
As projeções (as piores e as menos más) até já integram os efeitos de algumas medidas públicas de suporte e de defesa da economia, "procuram ter em consideração o potencial impacto das políticas adotadas pelas autoridades nacionais e europeias em face do choque".
Vai ser sempre mau
No cenário-base, menos agreste, em que as ajudas e os apoios públicos têm um efeito quase imediato no tecido económico e no mercado laboral, a economia afunda 3,7% em termos reais, neste ano. Antes deste boletim e desta crise o BdP projetava um crescimento de 1,7% em 2020.
Aqui, o BdP assume que "o impacto económico da pandemia é relativamente limitado, o que decorre, em parte, da hipótese de que as medidas adotadas pelas autoridades económicas são bem-sucedidas na contenção dos danos sobre a economia".
O emprego recua 3,5% e a taxa de desemprego sobe para 10,1% da população ativa em 2020. "Refira-se que a evolução projetada para o desemprego depende crucialmente da configuração e da magnitude das medidas de política que possam ser implementadas de imediato", acrescenta o banco central.
O consumo das famílias afundará 2,8%, o investimento colapsa 10,8% e as exportações afundam mais de 12%. As importações também devem cair quase 12%.
Cenário adverso, o pior até agora
No cenário mais adverso, a paralisação da atividade é "mais prolongada" em vários países, Portugal incluído, o que levará "a maior destruição de capital e perda de emprego".
O banco aqui também conta com "níveis de turbulência mais significativos nos mercados financeiros". Uma tempestade que pode estar a formar-se agora e rebentar mais tarde.
A recessão "mais profunda" traduz-se numa contração de 5,7% em 2020. Será o maior colapso da economia portuguesa num ano, tendo em conta as séries históricas do Instituto Nacional de Estatística e da Comissão Europeia, que remontam a 1960.
"A taxa de desemprego aumenta mais marcadamente em 2020, para 11,7%." Se assim for estamos a falar do pior registo desde 2015, ainda o desemprego estava a descer do pico, atingido em 2012 (ajustamento da troika).
Se o emprego cair 5,2%, como projeta o BdP no cenário adverso, significa que teremos a maior destruição laboral de que há registos, desde 1960.
O Banco de Portugal expõe as vulnerabilidades concretas do país por causa do perfil da economia.
O consumo privado pode diminuir 4,8% em 2020, até porque a queda do emprego é maior, o desemprego muito superior e as condições financeiras "mais desfavoráveis".
Neste cenário adverso, o investimento colapsa 14,9% em 2020 em relação ao ano passado e assume-se que o mundo entra em recessão. Pior do que isto só em 2012, quando o investimento (fixo) afundou 16,7% (o segundo ano do ajustamento do governo PSD-CDS e da troika).
Neste quadro "de colapso do comércio mundial, a procura externa dirigida à economia portuguesa reduz-se mais significativamente e determina uma queda de cerca de 19,1% das exportações de bens e serviços em 2020". Uma vez mais, esta será a maior quebra das séries longas analisadas. As importações afundam 18,7%.
O Banco de Portugal expõe as vulnerabilidades concretas do país por causa do perfil da economia, muito apoiada no turismo. "A importância do setor do turismo na atividade económica implica uma elevada exposição à redução esperada da procura global deste tipo de serviços, que será muito significativa."
Além disso, um choque desta dimensão "coloca também dificuldades acrescidas ao tecido empresarial, dominado por empresas de pequena dimensão e com situação financeira relativamente frágil".
"Finalmente, a elevada percentagem de famílias perto ou abaixo do limiar de pobreza em Portugal implica uma reduzida margem de absorção do choque perspetivado sobre o rendimento", conclui o banco central, no novo boletim económico.


